DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.2  n.2   abr/01                            ARTIGO 01

Transmissão de Tecnologia: análise do conceito
Technology Transmission: conceptual analysis
por Joana Coeli Ribeiro Garcia

Resumo: Informação, conhecimento e tecnologia são elementos indispensáveis ao desenvolvimento e são a base da discussão e análise dos conceitos de transferência e transmissão. Utiliza-se um modelo de adoção de nova tecnologia e o compara à teoria da midiologia, tendo em vista ser a transmissão de mensagens e suas relações históricas com os meios técnicos e ambientais o escopo desta disciplina e em tudo se assemelham ao processo de adoção de inovação tecnológica. A utilização do conceito de transmissão de tecnologia, sempre que houver passagem de conhecimento com a finalidade de transformação, é a proposição conclusiva.
Palavras chave: Conhecimento; Informação;  Midiologia; Tecnologia; Transferência de Tecnologia; Transmissão de Tecnologia
 

Abstract: Information, knowledge and technology are indispensable elements to the process of development. They are the base to discuss and analysis of the concept of transfer and transmission of information. A model of adoption for new technology is used and it is compared with the views of the midia study. This is made in the environment the message transmission and its historical relationship with the medium context. This discipline resemble in everything the process of adoption of technological innovation. The conclusive proposition is the use of the concept of techonology transmission whenever there is a knowledge passage with a transformation purpose.
Keywords: Knowledge; Information; Midia Studies; Technology;   Technology Transfer; Technology Transmission
 
 

1 INTRODUÇÃO
É inegável que a ciência evolui a partir de uma dicotomia que, se por um lado pode ser perigosa por conduzir a simplificações de conceitos, por outro funciona como estímulo, pois perpassa a natureza e a vida cotidiana dos seres humanos, impelindo-os a questioná-la, isto é, funcionando como estímulo para a construção de novos conhecimentos.  Em geral, essa polaridade se apresenta mantendo a ciência no passado, porquanto o que hoje se aprende tem sua origem nos conhecimentos dos cientistas que mapearam os campos teóricos antecedentes no tempo e nas idéias.  De outra parte, por contabilizar mais de 40 anos de convivência mais intensa com a tecnologia dos conhecimentos acumulados, realiza prospeções, constrói cenários, e faz antevisões o que leva a humanidade ao futuro.

Esse movimento dialético faz a ciência fundamentada nas evidências ser substituída pela ciência moderna que se caracteriza pela utilização do método científico, baseado no rigor das medições e na redução das incertezas. A complexidade do mundo impossibilita ao homem compreendê-lo como se apresenta.  Por isso é necessário separar, dividir, classificar e determinar as relações existentes entre as partes.  Esta é a regra básica.  É nela que se assenta o conhecimento da ciência.

Mas, há o que não é científico, o mundo da prática, “que privilegia o como funciona em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas” (Santos, 1999, p.16).  Porém, ainda assim, o homem utiliza esse conhecimento prático e a ciência para produzir bens e serviços que facilitam sua vida, estão a seu dispor, e fazem parte de sua cultura.  Ademais, o mundo não científico também se apercebe de novas demandas de conhecimento, matéria-prima por excelência para a pesquisa, para a experimentação. Novas soluções são encontradas, realimentam o mundo da produção, da tecnologia e dão continuidade ao ciclo.

A análise dos conceitos de transferência e de transmissão de tecnologia, para detectar aquele que melhor represente o processo de adoção de nova tecnologia, é o objetivo deste artigo.  Na sua elaboração, inovação tecnológica é entendida como a relação entre um conhecimento anterior e um posterior, com finalidade de transformação, e é utilizado um modelo de adoção de nova tecnologia, o qual se discute pari passu com os conceitos básicos da midiologia.

2 TECNOLOGIA, INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO
A atividade técnica remonta aos primórdios da humanidade e cresce de importância com a Revolução Industrial como um dos agentes do processo socioeconômico moderno:  “Associada à ciência, na forma de tecnologia, ela tornou-se num trunfo decisivo da competição industrial, da disseminação de novos produtos e de novas formas de comportamento”. (Motoyama, 1994, p.13).  Esta é uma forma de reconhecer o surgimento da tecnologia como evolução da técnica, passagem que tem seu rito na Revolução Industrial e que a agrega à ciência, como também se constitui em uma maneira de admitir os dois termos como sinônimos.

No entanto, ainda se discute a definição dos termos técnica e tecnologia.  Morais (1997) denomina como técnica as invenções criadas pelo ser humano na era paleolítica, neolítica, medieval e moderna, para atender necessidades básicas tais como o fogo, a habitação, a roda, a linguagem, entre outras.  Considera tecnologia as inovações humanas desenvolvidas a partir da era moderna que, para ele, têm a função de suprir “falsas necessidades modernas”, o que, em outras palavras, são necessidades supérfluas.  Em sua visão, essas inovações são “subprodutos surpreendentes e incontroláveis” que são/estão “subvertida(s) pelos interesses econômicos industriais”. (Morais, 1997, p.100-104).

Ao explicitar que a criação de técnicas e de tecnologias depende de pressões exercidas pelo mercado e pelo aparelho produtivo, Lobo (1997, p.12) esclarece que, em face da tradição, considera as expressões tecnologia e técnica como sinônimas, muito embora, ao defini-las entenda que:
 

O conhecimento tecnológico compreende o campo das técnicas criadas pelo homem no desenvolvimento de sua atividade econômica (a tecnologia como ‘um cérebro’ desenvolve a técnica). A técnica pode ser entendida como um conjunto de instruções para a atividade produtiva (uma receita de doce). Assim podemos entender a ciência como o saber no campo da tecnologia, e a tecnologia como o fazer no campo da ciência. Enquanto a ampliação do conhecimento científico se faz por meio de pesquisa básica, a progressão do conhecimento tecnológico decorre do detalhamento, do aprofundamento e da operacionalização das idéias embrionárias. Depreende-se, portanto, um entrelaçamento entre técnica, conjunto de processos de uma arte, habilidade para executar ou fazer alguma coisa, e tecnologia, o conjunto de conhecimentos aplicados a um determinado ramo de atividade.  E entre ciência e tecnologia representadas atualmente pela sigla C&T, o que identifica sua relação, ampliada com as transformações ocorridas no século XX.  É de uma dissensão da economia neoclássica, que considera a tecnologia como mercadoria, passível de comércio, e toma como sinônimos informação e conhecimento, que surge a economia da inovação, cujo objetivo é entender o papel da informação e do conhecimento na economia.  Esse entendimento ou mudança de paradigma implica novas formas de gerar e transmitir conhecimentos e inovações; produzir e comercializar bens e serviços; definir e implementar estratégias e políticas; organizar e operar empresas e instituições públicas e privadas de ensino, pesquisa, financiamento e promoção.  Por isso exige novas capacitações institucionais e profissionais e, ainda, mecanismos para mensurar, regular e promover as atividades econômicas.  Os “economistas não ortodoxos” destacam o sentido econômico de informação e conhecimento; distinguem conhecimento codificado, que transformado em informação pode ser comercializado, do conhecimento tácito, associado a processos de aprendizagem e dependente de contextos e formas de interação social; e apontam para a importância de gerar novos conhecimentos e de sua introdução e difusão no sistema produtivo (Lastres, Ferraz, 1999).

Não atrelado à economia está o conceito de Barreto (1992), que entende conhecimento como o conjunto de informações que, ao serem absorvidas e assimiladas, modificam a estrutura cognitiva do indivíduo, do grupo, da sociedade. A introdução de novos conhecimentos no sistema produtivo se dá através das tecnologias de produto e processo, que Pirró e Longo (1979) define como “conhecimentos científicos, empíricos ou intuitivos que geram bens e serviços passíveis de serem comercializados”.  A partir destas duas definições, entende-se ser tecnologia um tipo de conhecimento absorvido e assimilado, e haver um processo dele decorrente, que conduz à inovação, contribui, impulsiona e serve de parâmetro para o desenvolvimento científico, econômico e social de uma nação.

A nova visão sobre os conceitos de informação e conhecimento materializa uma interação entre fontes de inovação e dinamiza a geração, aquisição e difusão de inovações tecnológicas e organizacionais.  Inovações tecnológicas são conhecimentos aplicados a novas formas de produzir bens e serviços; inovações organizacionais são novos meios de organizar empresas que produzem, fornecem e comercializam bens e serviços.

3 TRANSMISSÃO E TRANSFERÊNCIA
Debray (1995) conceitua midiologia, como a disciplina que trata das funções sociais superiores e suas relações com as estruturas técnicas de transmissão.  Embora os dois termos – transmissão e transferência – tenham basicamente a mesma significação, isto é deslocar, levar, passar de um lugar a outro, no contexto da midiologia a transmissão é o transporte de uma informação através do tempo, diferindo da comunicação que transporta informação no interior de uma mesma esfera espaço-temporal.  Enquanto a transmissão tem horizonte histórico – a transformação – porquanto visa a uma relação do antes com o agora, a comunicação tem horizonte sociológico, visa à relação de um aqui com um alhures – a conexão.  Para transmitir, é necessária uma comunicação otimizada, potencializada por um corpo individual e coletivo pois, onde há um ato de comunicação, há uma transmissão se processando.  Porém, os meios de comunicação somente não asseguram a transmissão, pois para comunicar basta interessar, enquanto que para transmitir, repetindo e reforçando a idéia anteriormente apresentada, é preciso transformar, e quiçá, converter.  Transforma-se o que se conhece; conhece-se através dos estoques de informação[1] organizados que permitem avaliar, comparar e discernir.  Para transpor o espaço, uma máquina é suficiente, mas para transpor o tempo é preciso uma máquina, mais um alfabeto, mais uma instituição.

A transmissão é, pois, um processo lento –  começa na família, a partir da educação dos pais para filho, depois de mestre para discípulo, de professor para aluno, se desenrolando e se propagando através do tempo, segundo e seguindo obrigações, hierarquias e protocolos determinados.  Por isso uma análise midiológica ordena e subordina o institucional ao processo em si: a escola ao ensinamento, o museu à exposição, a biblioteca à leitura, o ateliê à aprendizagem, o laboratório à pesquisa, a igreja ao culto, isto porque a transmissão se dá no evento, não no institucional.  Nas palavras de Debray (1999, p.9), “exaltar os lugares de memória independentemente de suas comunidades é fetichizar o imóvel desassociando o corpo da alma”.

Como discutido, informação e conhecimento são recursos básicos ao desenvolvimento econômico e, além de inesgotáveis, seu consumo estimula cada vez mais seu uso.  Infindáveis no sentido exposto, e também ecológicos, pois tanto o uso como o descarte não deixam vestígios físicos na natureza.  O consumo, por sua vez, pressupõe a passagem do conhecimento da fonte geradora a usuários e empresas, para atendimento das necessidades de assistência e solução aos problemas de produção, de elevação da qualidade, de aumento da produtividade e de diminuição de recursos.   Souza Neto (1983, p. 362) designa como transferência de tecnologia o: “deslocamento de um conjunto de conhecimentos e práticas tecnológicas de uma entidade para outra”.  Ademais, chama a atenção para o fato de que, na transferência, há pelo menos duas situações distintas que resultam em significados relativamente diferentes.

A primeira delas, a transferência horizontal de tecnologia, que pressupõe acordos de permuta e utilização de conhecimentos tecnológicos compartilhados por instituições semelhantes.  Quando esse compartilhamento se dá entre países (importação de tecnologia) é chamado de pseudotransferência, porquanto a real transferência tem como condição a desagregação dos conhecimentos tecnológicos nos seus componentes científicos, empíricos e experimentais.  Isto é, além do know-how, transfere-se também o know-why.  Esta é nomeada de transferência vertical de tecnologia e ocorre entre instituições integradas verticalmente na economia, como universidades, instituições de pesquisa e desenvolvimento (P&D), entidades de engenharia básica, fábricas de equipamentos, produtos e detalhes que, juntamente com agentes financiadores de pré-investimento, investimento industrial, órgãos normativos e reguladores da propriedade industrial, seguradoras e órgãos de incentivos fiscais, intervêm em maior ou menor grau no processo, como Souza Neto (1983) afirma.

O autor supracitado faz questão de nomear de pseudotransferência à transferência horizontal de tecnologia, visto que os acordos firmados são para uso da tecnologia, não se transmitindo conhecimento.  Na visão dos economistas, só há transferência quando se transfere conhecimento; somente nesta condição considera-se que verdadeiramente houve transferência.  Além disso, apenas neste caso a tecnologia contribui para o desenvolvimento de uma região e de um país; na outra situação, pode tanto modernizar como aumentar a dependência.
Retoma-se a questão: transmissão ou transferência?  A discussão fornece os elementos necessários para distinguir os termos.  Transmissão deve ser o termo utilizado para se referir à possibilidade de absorção de conhecimento tecnológico, isto é, quando além do know-how, houver também a possibilidade de absorção do know-why.  Quando a situação for de troca de tecnologia, deve-se nomeá-la de transferência.

Admitindo-se que transmissão é uma função social e, como tal, estabelece relações, compara-se a seguir os quatro M utilizados por Debray (1999) para expor sua teoria da médiologie ao modelo de adoção de inovação tecnológica elaborado por Barreto (1992), que o expõe através de quatro momentos.

4 ADOÇÃO DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA FACE À MÉDIOLOGIE
Em sua teoria da médiologie, Debray (1999) associa os quatro M a paradas para esclarecimentos, a exílios e a exclusões.  Nesses momentos, realiza um zoom, para rever e aumentar a inteligibilidade da condição de existência, ao invés de fugir e esconder-se dela.  Por isso a ordem de exposição dos M permite passar da práxis, à tekhné, à eco e à antropo, numa clara inversão da ordem dos fatores, porquanto o normal seria a mediação no meio, ao invés de no final, e a prática como atividade conclusiva, ao invés de situar-se no início do processo. Diversamente da comunicação, ao invés de perguntar quem disse o que, a quem, por que canal, questiona que fazer, como, por onde e sob quais restrições.  Não se refere ao domínio dos objetos, mas ao domínio das relações, visando, assim, a estabelecer correlação entre funções sociais superiores (ciência, religião, política, arte, ideologia) e os procedimentos de memorização, representação.  A partir dessas perguntas e com essas colocações, Debray (1999, p.137) apresenta os quatro M da seguinte maneira:
 

M de mensagem como militância, messianismo, ministério;
M de médium como memória, material, maquinaria, monumento;
M de meio como mundo, modo, macrossistema técnico, média (onda);
M de mediação como mistura, maldição ou milagre.
No processo de inovação tecnológica, portanto de conhecimento, Barreto (1992,  p.20) denomina os quatro momentos que os compõem de:
  Antecedentes contextuais;
Mecanismos de absorção;
Processo de absorção;
Adoção e difusão.”
 E explicita que tal modelo é direcionado à situação brasileira, mas é, com algumas adaptações, representativo de qualquer tipo de tecnologia.  Por ser a inovação uma produção de conhecimento, no desenvolvimento das etapas do processo, especialmente nos momentos de absorção e de adoção, pode haver rejeição além de haver uma quantidade de informação recebida porém não utilizada.  Nesse último caso, entende-se que ocorre um excedente informacional, conceito tomado por empréstimo a Marteleto (1992).

4.l  Primeiro Momento
A midiologia concebe a mensagem como idéias relacionadas com seus efeitos, idéias essas que se acham inseparáveis da emoção, de atividades políticas, de ideologias, de vivência anterior, diferente de enunciado, de uma simples troca de informação entre dois interlocutores.  Uma maneira de ver as coisas sem questionar: o que isso quer dizer?  E sim: como isso funciona? Para que serve? O que mobiliza?  É o próprio Debray (1999, p.140) quem afirma que “o midiólogo sempre pertencerá, de coração e razão, ao partido pragmático”, que não se limita à escola de mesmo nome, mas a ela se atrela.

O envolvimento político e ideológico está contemplado no processo de inovação tecnológica, em seus antecedentes contextuais remotos.  São eles o historicismo, o psicologismo, o sociologismo e o logicismo. Ressalte-se que o sufixo ismo não tem conotação pejorativa, como explicita Barreto (1992).  Ao contrário, é indicador de doutrinas e de envolvimento subjetivo que influenciam autores e interferem na assimilação do conhecimento e, por conseguinte, na geração da tecnologia.  São influências de realidades passadas que têm efeitos atuais, e são definidos pelo autor como:
 

* o historicismo representa a formação econômica, social e política do Brasil, responsável pelas inadequações estruturais de hoje;
* o sociologismo é a consciência advinda do conhecimento adquirido, expressão de uma situação social formada ou em formação; trata-se da vontade dominante, representada pela vontade política e econômica da sociedade, que condicionam a vontade e a capacidade de mudar estruturas;
* o psicologismo coloca a absorção de conhecimento induzida por condições psicológicas relacionadas à vontade e à crença na capacidade de mudar;
* o logicismo apresenta o conhecimento estruturado a partir das regras da lógica formal e situacional.


Esses antecedentes influenciam a sócioeconomia e política brasileiras e estão caracterizados de forma mais explícita pelos antecedentes contextuais imediatos: nível de renda, nível de industrialização, nível de educação, nível de urbanização e nível de participação política.

Embora limitados ao período de coleta de dados (1975-1988) da pesquisa, Barreto (1992) apresenta estatísticas referentes a aplicações em pesquisa e desenvolvimento relacionadas ao percentual de produto interno bruto (PIB), transferência de tecnologia também relacionada ao percentual sobre o PIB, índices de atraso tecnológico dentre outros, dados esses que o conduzem a afirmar que há um descuido estatal manifestado duramente no setor produtivo e que a competência operacional deste segmento “está relacionada às condições do segmento industrial em ‘engenheirar’ as necessidades da tecnologia emergente” (Barreto, 1992, p.17).  Por outro lado, ao analisar indicadores que conduzem aos antecedentes contextuais imediatos, como orçamento da União para C&T, renda per capita, número de eleitores inscritos, população em domicilio urbano, número de analfabetos com idade superior a 15 anos, população economicamente ativa, afirma que os mesmos confirmam “a verdade histórica e conhecida por todos da existência de, pelo menos, três ‘Brasis’ diferentes: o do sul-sudeste, o do norte-nordeste e o do centro-oeste” (Barreto, 1992, p.23).
Conceituou-se tecnologia como conhecimento científico, empírico ou intuitivo, absorvidos, o que pressupõe um sistema formal de educação em que conhecimentos são gerados e, ao mesmo tempo, há mão-de-obra qualificada para absorver e operacionalizar tanto os processos quanto os produtos tecnológicos advindos desse conhecimento.  A falta de um adequado sistema educacional que garanta essas exigências justificaria a situação do Brasil como país dependente.

4.2 Segundo Momento
Para Debray (1999), não se pode separar uma operação de pensamento, em qualquer época, das condições técnicas de inscrição, transmissão e estocagem que a tornam possível.  Para compreender os negócios humanos é preciso inteirar-se do reino dos objetos, isto porque uma relação sujeito/sujeito é midiatizada pelo material que está representado, pelas cordas vocais e/ou ondas sonoras, no sentido mais simples.  O médium nunca vem pronto, é elaborado através de operações delimitadas de conhecimento.  É preciso sempre pensar o médium que tornou uma transmissão possível.

O citado autor apresenta em um quadro os conjuntos das disposições de veiculação, ou médium, subdivididos em dispositivos técnicos = MO (matéria organizada) e dispositivos orgânicos = OM (organização materializada).  As duas colunas designam realidades materiais objetivas inter-relacionadas, mas que não são da mesma ordem.  Do primeiro grupo (MO), fazem parte os elementos inertes, manipuláveis e eventualmente desconectáveis, enquanto o segundo (OM) está mais próximo dos organismos vivos e relativamente autônomos, totalidades englobantes.

QUADRO 1
Médium Conjunto das disposições de veiculação

Matéria Organizada
Organização Materializada
MO 1: superfície de inscrição
(rolo, tabletes, codex...)
OM 1: Código lingüístico
(aramaico, latim, inglês)
MO 2: registro simbólico
(texto, imagem, som ... )
OM 2: Instituição intermediária
(Estado, cidade, escola, igreja)
MO 3: aparelho de reprodução/difusão
(um-um, um-todos, todos-todos)
OM 3: Rituais, códigos e matrizes
(veiculados)
FONTE: DEBRAY, Régis. História de quatro M. In: MARTINS, F. M., SILVA, J. M. da. Para navegar no século XXI. Porto Alegre: Sulinas, 1999. p. 137-159.

No segundo momento do processo de inovação tecnológica, apresentam-se 16 mecanismos, subdivididos em facilitadores e inibidores, não excludentes e com certeza interdependentes.  Barreto (1992) alerta que outros mecanismos podem ser incluídos dependendo da particularidade de cada caso.  Na subdivisão apresentada, detecta-se, na atualidade, que dois dos mecanismos considerados impeditivos migraram para a categoria de facilitadores.  O primeiro deles, os canais de informação informal, ampliados com as tecnologias de informação e comunicação (TICs) que são mais um canal com essas características, considerando-se que este médium tem contribuído para esse aumento, principalmente através do uso do correio eletrônico.  O outro mecanismo é a legislação estatal específica, haja vista que, entre o período de realização da pesquisa e os dias atuais, discutiu-se um acordo internacional de controle e registro, definindo-se as normas que regulam a propriedade intelectual.  Diante de tais ressalvas, pode-se apresentá-los já na tipologia alterada:
 

a) Mecanismos Facilitadores: infra-estrutura educacional adequada em todos os níveis; infra-estrutura operacional de engenharia em todos os níveis; infra-estrutura informacional adequada; continuidade dos planos e programas tecnológicos; infra-estrutura de comunicação; existência de tecnologias coadjuvantes; competência para gerenciar inovações; cosmopolitismo tecnológico; treinamento específico na tecnologia nova; vontade política, coincidindo com vontade econômica em todos os níveis; legislação estatal específica; canais de informação informal.

b) Mecanismos Inibidores: setorialização sócio-econômica; relação gerador/receptor da tecnologia nova; estrutura de poder da tecnologia substituída; estrutura de custos da tecnologia nova.


Dentre todos, destaca-se a infra-estrutura educacional por ser de fundamental importância no processo de geração e absorção e por estar implicitamente ou explicitamente relacionado com os demais mecanismos, sejam facilitadores, sejam  inibidores.  Por outro lado, é condição sine qua non para dar continuidade à geração de novo conhecimento, de qualificação de mão-de-obra, para tecnologia e inovação; em síntese, para alavancar o desenvolvimento científico e tecnológico de uma nação.  A este respeito Barreto (1992, p.25) complementa: “a competência tecnológica de um país está diretamente relacionada à educação contínua em todos os níveis, do primeiro grau à universidade e à pós-graduação. Somente o homem qualificado e motivado tem condições de fornecer suporte a um programa de mudança tecnológica”.

Os mecanismos facilitadores e inibidores são a seguir inseridos às características descritas de matéria organizada e de organização materializada com objetivo de demonstrar  mais uma aproximação do modelo de adoção de nova tecnologia à teoria da midiologia.

QUADRO 2
Inclusão dos Mecanismos Facilitadores e Inibidores como Matéria Organizada e Organização Materializada


MATÉRIA ORGANIZADA
ORGANIZAÇÃO MATERIALIZADA
Mecanismos Facilitadores
Planos e programas tecnológicos
Cosmopolitanismo tecnológico
Competência para gerenciar inovações
Treinamento específico na tecnologia nova
Vontade política + vontade econômica
Legislação estatal específica
Existência de tecnologia coadjuvante

Mecanismos Inibidores
Relação gerador/receptor de tecnologia nova
 

Mecanismos Facilitadores
Infra-estrutura organizacional
Infra-estrutura de informação
Infra-estrutura de engenharia
Infra-estrutura de comunicação
Canais de informação informal
 
 

Mecanismos Inibidores
Setorialização sócio-econômica
Estrutura de poder da tecnologia substituída
Estrutura de custos da nova tecnologia
 

FONTES: BARRETO, Aldo de Albuquerque. Informação e transferência de tecnologia: mecanismos e absorção de novas tecnologias. Brasília: IBICT, 1992. DEBRAY, Régis. Introduction à la médiologie. Paris: Presse Universitaires de France, 2000.

Agrupar os mecanismos à MO e à OM provoca constantes incertezas, se a inclusão de determinado elemento neste ou naquele grupo é mais correto, mais lógico, porquanto os mecanismos abrigam forças produtivas, cognitivas, imaginários sociais e políticos, nem neutros, nem passivos.  Também para essa situação a midiologia tem uma explicação.  Segundo (Debray, 1999, p.144), “a midiologia é uma atividade lógica de cruzamento de elementos sem relação aparente que produz essa abstração argumentada, paradoxal e ignorada chamada médium”.  Possibilita o uso de uma lógica e, através dela, relaciona os elementos.  Assim, na presente situação, a lógica é a de incluir como matéria organizada elementos que podem ser manipuláveis e, como organismos materializados, os mecanismos que, pelo menos na aparência, têm uma condição mais estável, de mais totalidade.

4.3 Terceiro Momento
A função meio precede as invenções.  Impõe, propõe e é condição suficiente e necessária à produção de idéias.  Se as relações entre os homens são midiatizadas pela interface técnica (médium), resultado da ação do homem sobre a matéria, a própria matéria tem sua história contada através dos meios técnicos que se sucedem no mundo, desde o primeiro instrumento talhado.  As etapas em que um meio adere a uma técnica, inicia-se com uma negociação entre a técnica e o ambiente.  A técnica depois de fixada no ambiente, dificilmente destrói as anteriores, pois, em geral, negocia com as práticas comunicativas fortemente consolidadas na sociedade.  A dinâmica que as transformações operam no meio ambiente remete passo a passo ao paleolítico.  Exemplo dessa afirmação é a origem do computador.  Há autores que consideram que seu precursor foi o ábaco; outros, a máquina de calcular; outros, o tear de Jacquard.  Qualquer alternativa encontra-se no passado, seja o mais remoto ou o mais atual.  Por isso se diz que o midiólogo sofre de hipermetropia, para ele é melhor ver o longe que o perto.

O meio descentra, pluraliza, relativiza e ajuda a desmontar o individualismo do sujeito cognoscente.  Uma mentalidade coletiva se equilibra e se estabiliza em torno de uma tecnologia de memória dominante, isto é, por um sistema dominante de conservação dos vestígios.  No processo hegemônico de correspondência entre uma lógica das mensagens e uma lógica do médium, um modifica o outro.

Retoma-se a idéia anterior de que para transmitir, é preciso transformar, converter, e só se transforma o que se conhece.  O conhecimento, por sua vez, possibilita avaliar, comparar e discernir.  Estas são etapas contempladas no processo de absorção de uma tecnologia, em que os mecanismos ajudam a aclarar, ou inibir.  Apenas um destaque: a assimilação ocorre no momento em que várias condições se conjugam e suplantam os mecanismos inibidores.

Para absorver uma tecnologia é necessário saber que existe uma nova forma de agir diferente da tradicional e conhecer a nova tecnologia.  Em seguida, acreditar na sua eficácia e eficiência, ter confiança, motivação e analisar se vale a pena mudar.  Essa análise se dá em comparação com a tecnologia anterior e pode ocorrer da nova ser rejeitada.  No entanto, se assimilada e absorvida, o será com vantagens, desvantagens, custos, lucros, produtividade e qualidade.

4.4 Quarto Momento
A última fase, a que tem o sufixo ação, para indicar que há uma dinamização das etapas anteriores.  A mediação volta à mensagem, e nela penetra para indicar que não existe independente do médium e do meio.  Mediação é definida como lei fundamental para o desenvolvimento do espírito, entendendo espírito como atividade dialética.  A mediação é, pois, entendida como intermediário, um processo através do qual, para se chegar a uma verdade, é preciso passar repetidamente pelos erros que são laboriosamente corrigidos.  Então, o erro mediou a verdade, que constitui um resultado.  É o próprio Debray (1999, p.155) quem nos diz que:
 

essa reviravolta não se faz naturalmente e não é fácil admitir, e ainda menos fazer admitir, que a origem é o que está no fim; que o meio exterior está no interior da mensagem; que a periferia está no centro do núcleo; que o transporte transforma;  [...] que em geral nossas finalidades se ajustam aos nossos recursos”.


A adoção é a tomada de decisão do processo de inovação tecnológica, é a que sedimenta o uso da inovação.  A implantação da tecnologia pode ser parcial, o que permite novamente inovar como pode ser total.  Também não descarta a rejeição primária, indicativa da reavaliação da tecnologia, como a secundária ou definitiva, implicando não adoção.  Por essas razões, o supracitado autor afirma que a “mediação é milagre ou, maldição” (p.137).

Na maldição, isto é nas rejeições primária e secundária, entende-se que há um quantum de informação/conhecimento, não absorvido/assimilado durante o processo de avaliação a que a tecnologia foi submetida.   É esse quantum, que pode estar tanto no processo de gestão da tecnologia quanto no de adoção, que constitui o excedente informacional, sobre o qual Marteleto (1992, p.310) refere-se nos seguintes termos:
 

Fazendo uma analogia com alguns conceitos da economia, os processos de produção, reprodução e consumo de informações geram um excedente ou quantum de informações, além daquelas necessárias à movimentação regular do mercado simbólico, no caso, o mercado pedagógico”.


A autora, ao estudar as práticas informacionais desenvolvidas em uma escola da cidade do Rio de Janeiro, toma como base que as informações que sobram são valiosas e portanto, são absorvidas e empregadas pelos alunos de maneira mais livre no decorrer de suas vidas.  Por analogia com o caso em estudo, esse excedente passa a formar uma reserva de conhecimentos para ser utilizada na geração de nova tecnologia  quando necessário.

Ao fechar o processo de inovação associado à teoria da médiologie, parece claro que houve uma fluidez entre cada um dos componentes e que eles correspondem quase que na  totalidade às situações apresentadas pelos quatro M. Isto reforça a idéia de transmissão de tecnologia sempre que há absorção e adoção de conhecimento.

5 À GUISA DE CONCLUSÃO
História de conceitos, história de vida, cada um tem o seu labirinto de entrada”. (Debray, 1999, p.137).  O labirinto escolhido foi o de trabalhar com o conceito de transferência de tecnologia consolidado, cristalizado pela teoria econômica, e o de transmissão, proposição da midiologia, em um movimento constante de ir e vir às teorias e, ao mesmo tempo, de questionar o que já existe incorporado.  Dois conceitos; duas áreas do conhecimento; o antigo e o novo.  O antigo resistindo, tentando adiar a introdução do novo, induzindo insegurança. O novo, implicando aprendizado, ensaio/erro, ampliando o conhecimento, exigindo métodos diferentes de trabalho e de resolução de problemas.

Dualidade, bipolaridade, dicotomia, dialética.  Transferência ou transmissão?  Não se trata apenas de mudança de conceito, mesmo porque não há garantias de que as questões relacionadas à tecnologia se resolvam por essa vertente. A despeito disso, não se deve confundir a transferência física da informação com a transmissão social do conhecimento.  A transmissão, do ponto de vista dos antropólogos, tem como foco a transformação que se realiza em tempo determinado, enquanto a transferência se assemelha à comunicação.  É um deslocamento de informação com vistas a proporcionar interação entre gerador e receptor. Em outras palavras, tem em vista uma conexão e necessita de um local e espaço.

De outra parte, a tecnologia, seja produto ou processo, resulta de uma atividade humana.  Está subordinada à prática de qualquer pessoa e, portanto, é representativa de sua cultura.  É conhecimento.  E conhecimento científico, empírico ou intuitivo que se gera onde acontece a atividade de pesquisa e é transmitida ao setor produtivo, portanto é um evento que subordina a instituição, a empresa.  Conhecimento se transmite.  Para ser absorvido, exige determinadas condições e provoca transformações no ecossistema, no ambiente interno, na empresa que a adota e nos seres humanos que, no mínimo, têm seus hábitos também transformados e reaprendem a conviver com a nova tecnologia, o que corresponde à aquisição de novo conhecimento.  Esse é um acontecimento gradual, pois há necessidade de tempo para que a tecnologia seja aceita, adotada e até mesmo rejeitada.

A comparação realizada entre o modelo de adoção de nova tecnologia e os conceitos básicos da midiologia mostra um perfeito ajustamento entre eles. A expressão transmissão de tecnologia envolve duplamente o conceito de conhecimento e, por conseqüência, o de aprendizagem.  Ou já se está a pensar, como os midiólogos, que o que caracteriza uma ciência não é o objeto, mas o ponto de vista.  Assim, tem-se o homem e a mulher que falam através da lingüística; o homem e a mulher que desejam através da psicologia; o homem e a mulher que conhecem através da ciência; o homem e a mulher que produzem através da economia; o homem e a mulher que se agrupam através da sociologia e assim por diante. A midiologia está interessada no ser humano que transmite.  E a tecnologia no ser humano que transforma.
 

Agradecimentos especiais às Doutoras Maria das Graças Targino
e Telma Ribeiro Garcia pelos comentários e leitura criteriosos.
6 NOTA
[1] Conceito utilizado por Barreto para indicar um conjunto organizado de informações.
 


7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 BARRETO, Aldo de Albuquerque. Informação e transferência de tecnologia: mecanismos e absorção de novas tecnologias. Brasília: IBICT, 1992.

2 BOUGNOUX, Daniel. Introdução às ciências da comunicação. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999.

3 DEBRAY, Régis. História de quatro M. In: MARTINS, F. M., SILVA, J. M. da. Para navegar no século XXI. Porto Alegre: Sulinas, 1999. p. 137-159.

4 DEBRAY, Régis. Introduction à la médiologie. Paris: Presse Universitaires de France, 2000.

5 DEBRAY, Régis. Manifestos midiológicos. Petrópolis: Vozes, 1995.

6 DEBRAY, Régis. Transmettre. Paris: Éditions Odile Jacob, 1997.

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8 LOBO, Thomaz Thedim. Introdução à nova lei de propriedade industrial Lei nº 9.279/96 Sistema de propriedade industrial, patentes e desenho industrial, marcas, modelos de contratos. São Paulo: Atlas, 1997.

9 MARQUES, Ivan da Costa. Desmaterialização e trabalho. In: LASTRES, Helena Maria Martins,  ALBAGLI, Sarita. Informação e globalização na era do conhecimento. Rio de Janeiro: Campus, 1999. p. 191- 215.

10 MARTELETO, Regina Maria. Cultura, educação e campo social: discursos e práticas de informação. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO-CNPq/IBICT, 1992. (Tese. Doutorado em Ciência da Informação da UFRJ/ECO-CNPq/IBICT).

11 MORAIS, Regis de. Filosofia da ciência e da tecnologia: introdução metodológica e crítica. 6.ed. Campinas, Papirus, 1997.

12 MOTOYAMA, Shozo. Introdução geral. In: _______. (Org.). Tecnologia e industrialização no Brasil: uma perspectiva histórica. São Paulo: Ed. UNESP, 1994. p.13-25.

13 PIRRÓ e LONGO, Valdimir. Tecnologia e transferência de tecnologia. Informativo INT, Rio de Janeiro, v.12, n.23, p.5-19, set./dez. 1979.

14 SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 11. ed. Porto: Ed.  Afrontamento, 1999. 58 p.

15 SOUZA NETO, José Adeodato de. Dinamização da transferência vertical de tecnologia: diagnóstico e proposição de uma alternativa. In: MARCOVITCH, Jacques (Coord.). Administração em ciência e tecnologia. São Paulo: Edgard Blucher, 1983. Cap. 13, p.361-375.
 
 
 


Sobre a autora / About the Author:
Joana Coeli Ribeiro Garcia
Professora do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal da Paraíba (DBD/UFPB). Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia (IBICT/MCT) em convênio com a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ).