DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.2  n.2   abr/01                            ARTIGO 04

A informação estatística oficial na sociedade da informação: uma (des)construção
Official statistical information in information society: a de-construction
por Rosa Maria Porcaro

Resumo: O artigo tem por objetivo discutir como as grandes transformações que marcam a sociedade contemporânea se refletem na pertinência das informações estatísticas oficiais, consubstanciadas no denominado Sistema de Informação Estatística. A configuração social atual, em transformação, é focada sob o ângulo da abordagem da sociedade da informação. Questiona-se, então, se as transformações apontadas por este recorte interpretativo são passíveis de serem apreendidas com o arcabouço conceitual-metodológico dos atuais levantamentos estatísticos construído e consolidado para “retratar” a sociedade capitalista industrial moderna de escopo nacional, do pós-guerras, hoje completamente modificada. Aponta-se, então, que fenômenos que ganham centralidade no contexto atual - de conhecimento, informação e inovação intensivos - ou não são contemplados pelo Sistema de Informação Estatística ou são por ele apropriados a partir da lógica de representação da sociedade industrial anterior, fortemente material, o que os desfoca.
Palavras chave: Estatísticas oficiais, sociedade da informação, construção de estatísticas oficiais, construção de informação estatística, sistema de informação estatística, sistema estatístico, estatística oficial e sociedade atual
 

Abstract: This paper deals with the big changes that characterize today’s society and how they affect the relevance of official statistics which are brought together under the Statistical Information System. Our society’s configuration is examined under the approach of the Information Society. It is argued that the changes pointed out by the interpretative frame of that approach can not be captured with the conceptual-methodological framework used by the Statistical Information System, tailored to fit the Industrial Capitalist Society, greatly modified nowadays. The study reveals that certain “non-material” phenomena, central to our society’s concerns – knowledge-related, informational, innovation-oriented – are not included in (covered by) the Statistical Information System or are included from the standpoint of the "materially” oriented Industrial Capitalist Society, having as a consequence the misrepresentation of these phenomena.
 
 

Sumário

1        Introdução
1.1     O enfoque adotado
2.       As estatísticas oficiais
2.1     O sistema de informação estatística - SIE
3        A sociedade industrial e o paradigma das estatísticas oficiais
4        Sociedade da informação: reflexo na construção das estatísticas oficiais
4.1     Aspectos conceituais
4.2     Reflexos na construção das estatísticas
4.2.1  Atividades econômicas
4.2.2  O trabalho/ a ocupação
4.2.3  O domicílio/ a cabana eletrônica
4.2.4  O novo domicílio
5        Conclusão
6        Notas
7        Referências Bibliográficas
 

1. Introdução
 São bastante evidentes e mesmo abundantes os sinais e as marcas de modificações radicais nos indivíduos e na sociedade, tanto na vida econômica e cultural como no cenário político e no viver coletivo. Tudo parece levar à certeza de que não se trate de uma fase conjuntural do processo evolutivo do capitalismo industrial, mas de uma profunda mudança estrutural. O desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, a dimensão planetária dos fenômenos econômicos e culturais, a reestruturação produtiva, a metamorfose do mercado de trabalho, os desafios propostos ao pensamento positivista, a perda de aderência de valores éticos, morais e de tipos de relações antes estruturados são claros indicadores de uma sociedade modificada.

 Na amplitude e complexidade envolvidas no turbilhão de mudanças em andamento, parece correto afirmar que as sociedades atuais estão cada vez mais inter-relacionadas, com seus destinos cruzados, como decorrência do processo crescente e abrangente de globalização. Fenômeno bastante diverso do passado, quando se consideravam as sociedades de maneira quase estanque, com etapas bem-marcadas de desenvolvimento a serem atingidas (como por exemplo na teoria dos estágios de desenvolvimento elaborada por ROSTOW (1974), em voga nos anos 60 e 70).

 Como observa SANTOS (1994, p.245) a época em que entramos é de grande turbulência, de equilíibrios particularmente instáveis e regulações particularmente precárias, uma época em que pequenas alterações de estado podem dar origem a convulsões incontroláveis. Uma época fractal, com mudanças de escala imprevisíveis e irregularidades difíceis de conceber dentro dos nossos parâmetros ainda euclidianos. Um período de transição paradigmática no plano epistemológico e no plano societal.

 Expressões como “sociedade pós-industrial”, “sociedade da informação”, “sociedade do conhecimento”, “pós-modernismo “capitalismo desorganizado”, “capitalismo avançado”, “produção flexível”, “produção imaterial”, “economia de signos e imagens” são hoje usadas nas análises e interpretações das mudanças sociais. São expressões que se proliferam na tentativa de descrever as características emergentes da realidade contemporânea. São conceitos provenientes de enfoques teóricos distintos, mas que apresentam vetores comuns de mudança como as tecnologias de informação e comunicação; a produção informação-conhecimento intensiva; a globalização; a flexibilização; a descentralização produtiva e a diversificação.

 É nesse ambiente de mudança que se insere este artigo que tem por objetivo discutir como as grandes transformações que marcam a sociedade atual se refletem na pertinência das informações estatísticas oficiais, construídas a partir de representações da realidade social. Questiona-se se tais transformações são passíveis de serem apreendidas com o arcabouço conceitual-metodológico dos atuais levantamentos estatísticos construído e consolidado para “retratar” a sociedade capitalista industrial moderna de escopo nacional, hoje completamente modificada.

1.1  O enfoque adotado
Considera-se que as estatísticas são representações numéricas da realidade a qual buscam mensurar. Em seu processo de construção, apoiam-se em interpretações teóricas que modelam aspectos da realidade e passam a criar seus próprios modelos de interpretação do real. As estatísticas que buscam apreender a realidade social guardam, pois, em sua configuração numérica, uma certa visão de mundo, o que as restringe ao contexto que as referencia.

 Assim, é central para a elaboração da questão proposta a demarcação de dois períodos de tempo distintos aos quais correspondem configurações sociais - econômica, política, cultural e tecnológica - diferenciadas às quais correspondem a uma só  fase de desenvolvimento das estatísticas oficiais. O primeiro período refere-se à sociedade industrial de caráter nacional, dos pós-guerras, onde se deram a construção, a solidificação e a reificação das estatísticas oficiais. O da constituição do paradigma das estatísticas oficiais. O segundo corresponde à sociedade atual marcada por grandes transformações sociais, onde, apesar de ajustes e aprimoramentos realizados, se pode dizer que as estatísticas oficiais continuam a apoiar-se, em sua construção, nos modelos de interpretação do período anterior. São, portanto, dois momentos sociais distintos representados através dos mesmos recortes interpretativos.

 O segundo período, comumente referido como o de transição para uma sociedade pós-industrial, corresponde a um novo momento do capitalismo mundial caracterizado por fatores como a explosão tecnológica da microeletrônica e seu papel como principal fonte de lucro e inovação; o movimento das corporações empresariais multinacionais, com suas fusões, aquisições, incorporações e o deslocamento de operações de produção para países com salários mais baixos; o imenso crescimento da especulação financeira; e a ascensão e a expansão internacional dos conglomerados da comunicação. Postula-se, então, que a combinação destes fatores - que vem acarretando grandes alterações nos ciclos e na estruturação dos negócios, na organização das empresas, nos padrões de emprego, nas relações de classe, nas configurações regionais etc. - traz profundas implicações para as estatísticas oficiais.

 É, pois, neste cenário de mudanças, que se propõe a apresentar algumas questões conceituais-metodológicas envolvidas na construção das estatísticas. O olhar está direcionado para a observação de fenômenos econômico-sociais (e suas representações) que perderam força e/ou tomaram novas formas, modificando-se.

 Por se tratar de um processo vigoroso e em ebulição, as transformações sociais vêm sendo discutidas por diversas abordagens como a da sociedade da informação, do conhecimento, pós-moderna, pós-fordista, dos signos e das imagens etc[1]. Muito embora não haja uma compreensão convergente para o entendimento do momento atual, tais abordagem tomam por base muitos fatores comuns como os propulsores da mudança, porém os priorizam e os inter-relacionam de forma distintas. No entanto, é um traço comum entre elas não mais considerar o vetor industrial anterior a força orientadora, controladora e organizadora, que deu à sociedade forma e significado.

 O presente artigo foca a configuração social atual sob a ótica da abordagem da sociedade da informação, uma relevante e abrangente abordagem entre as  mencionadas, na qual se insere diversos enfoques. A partir da leitura sucinta desta abordagem se contrasta fatores propulsores de mudanças por elas destacados a aspectos conceituais e operacionais centrais das estatísticas oficiais. Através desse rebatimento, procura-se, então, perceber diferenças entre os pressupostos que dão forma a essas visões da sociedade e aqueles pertinentes aos modelos estatísticos atuais, construídos e consolidados no período industrial anterior[2]. Busca-se apresentar desajustes ou desencaixes conceituais decorrentes de se mensurar um nova situação a partir de velhos modelos.
 

2. As estatísticas oficiais
 Um aspecto importante a ser destacado diz respeito à natureza da construção da informação estatística oficial.

 Coube ao primeiro período a organização da produção de informações estatísticas em órgãos centrais governamentais, que passam a coletar, tratar, sistematizar, armazenar, analisar e disseminar essa informação estatística. Estes órgãos - Agência, Instituto, Escritório, Serviço de Estatística etc. - de maneira mais ou menos centralizada, tornam-se os principais produtores e/ou gestores das estatísticas oficiais. As Agências respondem pelo que se produz, como se produz, isto é, como se representa e se mensura, o que, certamente, determina o que e como se analisa.

 As Agências, em sua produção e sistematização de estatísticas, recebem orientações e recomendações conceituais e metodológicas de organismos internacionais, que buscam harmonizar as estatísticas com o propósito de comparação entre nações. Isso marca a concepção das estatísticas geradas, que se estruturam sob padrões bem definidos[3]. São organizações mundiais fortes com grande poder de pressão, como as do pós-guerra: a United Nations (Statistics Division, FAO e UNESCO) o  World Bank, o International Monetary Fund - IMF, o General Agreement on Tariffs and Trade - GATT- e a Organization for Economic Cooperation and Development - OECD; outras mais antigas como International Statistics Institute - ISI e a International Labour Organization - ILO; e outras mais recentes, como o EUROSTAT.

 As instituições nacionais, no entanto, têm suas especificidades, o que torna o esforço de harmonização um processo complexo. Muitas vezes os resultados obtidos pelos organismos internacionais na compatibilização dos dados dos diversos países são mesmo considerados insatisfatórios[4]. Daí a concepção, cada vez mais propagada e efetivada, de que a obtenção de resultados estatísticos comparáveis não pode ser buscada apenas na etapa de divulgação das estatísticas geradas pelos diversos países, mas sim no momento inicial de estruturação da pesquisa. Visa-se, assim, a minimizar os ajustes a posteriori, sendo cruciais o trabalho sistemático de padronização das classificações e outros mecanismos operacionais. O que se quer enfatizar é a existência (e a busca crescente) de uma base conceitual e uma base metodológica comuns, porém não idênticas, utilizadas nos levantamentos.

 As Agências nacionais produzem, pois, um conjunto amplo e articulado de informações sociais e econômicas, a partir de uma linguagem, de instrumentos de construção e de modos de apresentação comuns, bem como de conceituações e definições operacionais que buscam uma harmonização. Tais informações objetivam apreender a realidade social do país com a finalidade de promover o conhecimento e subsidiar o planejamento. É para este conjunto, denominado estatísticas oficiais, que se está direcionando o olhar neste estudo.

2.1  O sistema de informação estatística - SIE
 O conjunto de informações estatísticas oficiais é usualmente referido como sistema estatístico. Nesta denominação, omite-se o termo informação, o que denota a preeminência da técnica em relação ao conteúdo socioeconômico das informações. A esta designação, no entanto, é comum estarem associadas acepções distintas.

 GUIMARÃES (1990, p.3) aponta para duas acepções distintas. A primeira, relacionada ao conteúdo: “refere-se ao conjunto de informações estatísticas relativas à realidade econômica e social do país, estruturadas segundo regras e critérios próprios”. A outra, de natureza institucional, “refere-se ao conjunto de entidades produtoras e está preocupada com a coordenação e a articulação entre essas entidades, de forma a garantir uma atuação eficiente.”

 Outra vertente, a de STARR (1987, p.8), considera o sistema estatístico - sistema de produção, distribuição e uso de informação numérica - como qualquer outro sistema de informação. Para o autor, o sistema estatístico é constituído por dois tipos de estrutura: uma social e uma cognitiva. “Sua organização social consiste nas relações sociais e econômicas entre os informantes, agências públicas, firmas privadas, comunidade de especialistas, organismos internacionais e outros atores envolvidos no processo de produção dos dados. A organização cognitiva refere-se à estruturação da informação, incluindo as delimitações das pesquisas, os pressupostos estabelecidos sobre a realidade social, os sistema classificatórios, os métodos de mensuração e as regras oficiais de interpretação e apresentação dos dados.” (p.8).

 STARR (1987, p.42) observa, quanto à organização cognitiva do sistema estatístico, que os dados não podem ser coletados num vácuo conceitual, “mas nem todos os dados são concebidos a partir de um desenho teórico que organiza as categorias e hipotetiza relações entre eles. Segundo o autor, somente no último século as estatísticas sociais em grande escala - uma espécie de tecnologia social - foram mais associadas às teorias sociais[5]. São sob estas estatísticas sociais que se estruturam o (sub)sistema de produção de informação estatística oficiais.

 Vale ressalvar que, apesar das distintas acepções mencionadas, é de uso consagrado a expressão “sistema estatístico”. Por esse motivo, optou-se pelo uso de tal expressão, ampliando-a para sistema de informação estatística - SIE, pois se estará enfatizando a informação: seu conceito, significado, representação e contexto. Este sistema de informação refere-se ao (sub)sistema de produção de informação estatística, isto é, à produção de estatísticas oficiais, foco do presente estudo[6].

 Aponta PEREIRA (1994, p.22) que a abordagem sistêmica traz, a priori, embutida em si, uma redução do universo que ela enfoca, na medida em que desconstrói este universo, fragmentando-o, para reconstruí-lo, através de um modelo que passa a se confundir com a própria realidade, substituindo-a.
 

“O sistema, ao modelar a realidade, cria dois tipos de desvios: o que está abrangido no modelo - desvio de outras percepções possíveis - e o que não está abrangido pelo modelo - o que está fora, o não incluído, o não considerado. A abordagem sistêmica engendra, institucionaliza esses desvios, pois decompõe o universo e o aprisiona em componentes, características, objetivos e prioridades; e o dicotomiza em aquilo que pertence e aquilo que não pertence ao sistema.  Esconde, no modelo, quaisquer outras relações internas ou quantas outras externas forem possíveis, que não estiverem definidas na sua composição. Mutila, ao não dar conta do real, tomando a parte pelo todo.” (PEREIRA, 1994, p.22).


 O ponto central da pesquisa é, pois, que a configuração social atual é olhada - definida e mensurada - a partir dos modelos criado para apreender a sociedade industrial - o modelo único do sistema de informação estatística instituído. Assim, os desvios e as mutilações sistêmicas se ampliam, uma vez que trata-se de dois momentos sociais distintos olhados, fundamentalmente, com as mesmas estatísticas.
 

3. A sociedade industrial e o paradigma das estatísticas oficiais
 O período industrial da denominada 2a Revolução Industrial inicia sua formação no final século XIX, passando pelas guerras mundiais, e vai até o final da década de 60 ou início da de 70. Aí configurou-se uma economia muitas vezes referida como organizada” ou “regulada”[7], sobre a qual existe um certo consenso sobre muitas de suas principais características[8].

O referido período foi marcado por forte crescimento econômico-industrial, os “30 Anos Gloriosos”, por forte regulação econômico-social e estabilidade político-institucional e por um menor desequilíbrio entre as forças políticas (governo, capital e trabalho). Um período caracterizado por uma produção industrial, de escopo nacional, de bens materiais padronizados - de massa, fordista - onde é considerado fator propulsor do crescimento econômico a produção de bens de consumo duráveis. Um período de emprego e busca de pleno emprego marcado por melhorias nas condições sociais e políticas da população.

 A configuração da economia industrial nacional de produção e distribuição em massa aliada à formação de uma nova concepção e práticas sociais de trabalho, de consumo e de participação política vieram a constituir um novo e abrangente conjunto de regras sociais. Novas instituições se formaram, enfraquecendo ou destruindo práticas sociais anteriormente estabelecidas. Alcança-se, então, certa estabilidade e legitimidade, com ampliação da formalização de práticas sociais, que se homogeneizam e se convencionam.

Com a convencionalização reduz-se as incertezas, pois limita-se as variações dos eventos, as ações e as interpretações que podem ocorrer. Formas de gerenciamento do mundo social são estabelecidas.

A convencionalização facilita a representação social. De fato, a noção de representação - apresentar novamente o que está ausente - pressupõe uma concepção específica da realidade, proveniente de convenções. A classificação é uma ferramenta de construção de representações de fenômenos sociais. É uma operação que reduz a multiplicidade a seqüências racionais e conseqüências controláveis, a leis e regularidades e a uma dada forma de lógica. Através de simplificação, contagem, cálculo e de grande manipulação, a complexidade, a heterogeneidade e a riqueza original do real são fortemente reduzidas, sendo mesmo, eventualmente, suprimidas (De BEER). A representação traz forma, luz e ordem, porém traz, também, distorção. Esquemas de representação buscam fixar e estabilizar a realidade e, neste sentido, criam e solidificam conhecimento e informação, bem como fundamentação e identificação de pensamento.

 Aponta WAGNER (1994, p.77) que quando convencionalizações são estabelecidas com sucesso, por um certo tempo, o caráter de ser uma construção social tende a desaparecer da consciência dos membros da sociedade. As classificações aparecem como representando alguma ordem natural da realidade. Fala-se, então, em reificação ou naturalização do fenômeno social. É uma situação na qual o caráter de construção social é completamente varrido da consciência e na qual a estruturação social passa a ser vista como natural e ideal ao mesmo tempo.

 Conclui o autor que tal situação foi a alcançada nos anos 50 e 60, quando tanto os estudos da ciência social como o discurso das classes dominantes apresentavam um ar de certeza sobre a nova ordem “natural” do mundo social. Acreditava-se mesmo que tal ordem já estava vigorando em algumas sociedades. Este foi o período de auge das teorias da modernização e do desenvolvimento.

 Esse quadro possibilitou a construção de esquemas teóricos coerentes e abrangentes de interpretação da sociedade, o que  facilitou a construção dos próprios modelos estatísticos e de seus instrumentos classificatórios.

Além disso, novas e poderosas técnicas capazes de produzir conhecimento estatístico foram desenvolvidas, a partir de um novo campo de conhecimento, a Ciência Estatística. As descobertas relacionadas aos conceitos de regressão e correlação modificam o tratamento de problemas antes centrados numa só variável e passaram a possibilitar a inclusão e o estudo de mais variáveis. Observa DESROSIÈRES (990, p.204) que os estudos dos eugenistas ingleses alteraram completamente o uso formal da "lei normal", passando-se, então, a dar ênfase às características individuais, suas distribuições, correlações e classificações[9].
 

"Tudo isso abriu caminhos para novas maneiras de se 'fazer com que as coisas ficassem juntas' ['making things hold together']. Variáveis que são correlacionadas, ou que podem ser 'explicadas' por outras usando um modelo de regressão, passam a criar coisas que são incomparavelmente mais sólidas que aquelas que resultavam das distribuições de Gauss (que pouco a pouco iam perdendo seu poder de fascinação).


 O desenvolvimento do modelo de representatividade baseado nas técnicas amostrais de seleção aleatória viabilizou uma maior geração de estatísticas (com representatividade) em nível nacional, nível este que melhor se adequava ao planejamento, que era também nacional. Isto impulsionou a demanda e a oferta de informações estatísticas neste nível.

 Assim, a produção estatística passa a ganhar maior relevância e consistência com o desenvolvimento do Estado moderno, do Bem-estar Social. As crescentes intervenções e regulações do Estado moderno nacional, buscando dinamizar o crescimento econômico e controlar e reduzir seus efeitos sociais perversos, passam a instituir inúmeras regras administrativas e legislações específicas. Por outro lado, o planejamento e a ação do Estado necessitavam, também, ser monitorados adequadamente. Estes fatores contribuíram de forma decisiva para a centralização da produção de estatísticas em órgãos  governamentais.

 Na centralização da produção foi grande o esforço realizado na construção de "formas" harmonizadas - no tempo e no espaço - para a mensuração da realidade socioeconômica. Assim, uma estrutura pesada e custosa de "formas", o mais comparável possível, foi construída para o levantamento, tratamento e disseminação de dados estatísticos, constituindo-se mesmo a base desses sistemas de informação[10]. Os grandes "investimentos em forma" – as classificações de atividade econômica, de ocupação, o sistema de contas nacionais etc. - efetuados para “retratar” a sociedade industrial, se solidificam e reificaram as "formas" construídas.

 Nesse percurso das estatísticas, aspectos técnico-científicos foram ganhando força, e passou-se, cada vez mais, a associar às estatísticas a idéia de precisão, com cálculos de erros e intervalos de confiança. Deixa-se a um segundo plano o fato de serem as estatísticas construções econômico-sociais, realizadas a partir de altos investimentos em formas. Reflete essa ótica a própria denominação estatísticas para designar as informações socioeconômicas levantadas e/ou organizadas e sistematizadas pelo Estado.

 Constituiu-se, assim, o paradigma das estatísticas oficiais que, sintetizando, “retrata” a sociedade industrial, em sua fase organizada, regulada e de maiores certezas, sob uma filosofia e concepção que supõe, como saída do sistema estatístico, uma informação padronizada e homogênea - harmonizada -, capaz de garantir comparabilidade no tempo (diferentes momentos) e no espaço (diferentes contextos). Isto seria alcançado através da utilização dos mesmos instrumentos representacionais – conceitos, definições, modelos - e metodológicos. As representações de mundo construídas a partir desta concepção são, na ótica do sistema, contexto e tempo independentes.
 

4. Sociedade da informação: reflexo na construção das estatísticas oficiais

“O que caracteriza a atual revolução tecnológica não é a centralidade de conhecimentos e informação, mas a aplicação desses conhecimentos e dessa informação para a geração de conhecimentos e de dispositivos de processamento/comunicação da informação, em um ciclo de realimentação cumulativo entre a inovação e seu uso. (...) As novas tecnologias da informação não são simplesmente ferramentas a serem aplicadas, mas processos a serem desenvolvidos. (...) Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento positivo do sistema produtivo.“ (CASTELLS, 1989, p.36).


 Modifica-se o contexto anterior de maior estabilidade e certeza, tanto em nível societal como da produção de conhecimento. Ganha maior dimensão a produção informação & conhecimento intensivos, de bens e produtos personalizados e de signos & imagens, em contraposição à produção de bens materiais padronizados e de massa. Características industriais - padronização, especialização, sincronização, concentração, maximização e centralização - perdem força para a flexibilização, a simultaneidade, a dispersão, o pequeno/enxuto, a descentralização/concentração e a globalização.

 As mudanças assinaladas, que se iniciam já nos anos 70 e se aceleram nos 80, provocaram a quebra de muitas formalizações e convenções sociais que marcaram a modernidade organizada. Elas trouxeram o desaparecimento de regulamentações econômico-sociais, a reestruturação de formas organizacionais do pós-guerra, a quebra de representações e expectativas e, consequentemente, uma maior incerteza em relação ao futuro e um enfraquecimento de solidariedade e de interesses constituídos. Em outras palavras, ocorre o desmantelamento da configuração social anterior, de práticas e de instituições sociais organizadas e coesas, sob a qual se constituiu (dela se beneficiando e para ela contribuindo) o paradigma das estatísticas oficiais.

 Nesse cenário de mudanças é que se propõe a apresentar, a seguir, a partir de uma leitura sucinta da abordagem da sociedade da informação, algumas implicações para as estatísticas oficiais.
 

4.1  Aspectos conceituais
 Na interpretação dos fenômenos que marcam a sociedade atual, uma corrente teórica que prosperou e se ramificou foi a da sociedade pós-industrial, que teve como referência inicial Daniel Bell, com a publicação do livro The Coming of Post-industrial Society[11]. BELL (1973, p. 26) estabelece a primazia da economia e da tecnologia, ao afirmar que o “conceito de sociedade pós-industrial lida sobretudo com as mudanças na estrutura social, com a maneira segundo a qual a economia está sendo transformada e como está sendo remanejado o sistema ocupacional, e com as novas relações entre a teoria e o empirismo, particularmente entre a ciência e a tecnologia.”

 A maior ênfase dada ao conhecimento científico e tecnológico, gerador de inovação, como fonte de valor e de crescimento da sociedade, acarretou vários desdobramentos à abordagem da sociedade pós-industrial definida por Bell, sendo o mais difundido e popularizado o da sociedade da informação. Várias outras denominações são também utilizadas como as de sociedade do conhecimento, sociedade da inovação, sociedade programada, sociedade tecnotrônica. Muitos autores consideram que, apesar da maior visibilidade das informações e das inovações, o central é mesmo o conhecimento, sem o qual não é possível decodificar o conteúdo das informações e transformá-las em conhecimento. O maior destaque dado ao conhecimento deve-se também ao fato de que as tecnologias de ponta dessa fase são resultados de enormes esforços de pesquisa e desenvolvimento.

 Neste contexto tecnológico é postulado que durante as últimas décadas, uma série de inovações científicas e tecnológicas passou a convergir, vindo a se constituir, segundo muitos, em um novo paradigma tecnológico baseado nas tecnologias de informação e comunicação, abreviadamente chamada de TI.

 O fundamento científico e tecnológico de tal paradigma é constituído pela microeletrônica, que se desenvolveu mediante o descobrimento do transistor (1947), do circuito integrado (1957); do processo plano (1959) e do microprocessador (1971). Se deu, então, o aumento da capacidade de integração cada vez maior dos circuitos contidos em apenas um chip. Concomitantemente, o desenvolvimento acelerado dos computadores, com aumentos exponenciais de sua potência e com as drásticas reduções de custo por unidade de memória, revolucionou o processamento da informação, tanto com relação a hardware quanto a software. A telecomunicação converteu-se, então, em vetor chave de difusão e de máximo aproveitamento das novas tecnologias, permitindo o desenvolvimento de conexões entre diferentes unidade de processamento que vieram acelerar a formação dos sistemas de informação (CASTELLS, 1990, pp. 58-64 e 1989, p.36).  A introdução e disseminação das comunicações via satélite e a utilização de fibras óticas, por exemplo, revolucionaram os sistemas de comunicação. A convergência entre as tecnologias permitiu o acelerado desenvolvimento dos sistemas e redes de comunicação eletrônicos mundial, onde passa a se destacar a Internet.

 Para muitos estudiosos a tecnologia da informação e comunicação - TI - não é apenas outra tecnologia, mas uma tecnologia revolucionária, comparável, em impacto, às tecnologias revolucionárias das Primeiras e Segundas Revoluções Industriais. Daí acreditarem em modificações radicais no estilo de vida, em uma nova era, para melhor ou para pior, como aconteceu no passado em decorrência do motor a vapor, da eletricidade e do motor a combustão.

 CASTELLS (1989, pp.29-49 e 1990, pp. 31-36) sugere a passagem do modo de desenvolvimento industrial para o modo informacional, que decorre da convergência das mudanças sociais com as tecnológicas. A passagem para a sociedade da informação resulta, pois, de um processo social de desenvolvimento científico e tecnológico, cujas forças motrizes geram implicações técnicas, sociais, culturais, políticas e econômicas cumulativas e irreversíveis, que mudam as formas de discutir, produzir e organizar, enfim, de movimentar e representar a sociedade.

 Muda, então, o elemento fundamental para a determinação da produtividade do processo de produção. Não é mais a energia, do modo de desenvolvimento industrial (nem a terra, do modo de desenvolvimento agrário), o elemento principal para determinar a produtividade, mas sim a qualidade do conhecimento. Na realidade, o conhecimento intervém em todos os modelos de desenvolvimento, já que o processo de produção se baseia sempre em algum nível de conhecimento. O que é específico do modo de desenvolvimento informacional é a ação de conhecimentos sobre os próprios conhecimentos, como principal fator de produtividade. (CASTELLS, 1989, pp.29-49 e 1990, pp. 31-36).

 No novo paradigma tecnológico a informação é a matéria-prima: “são tecnologias para agir sobre a informação, não apenas informação para agir sobre a tecnologia, como nas revoluções tecnológicas anteriores.” (CASTELLS, 1999, p.78).

 Um traço fundamental do novo paradigma tecnológico informacional é, pois, que a informação passa a se constituir tanto em matéria-prima como em produto. Outro traço marcante (aliás, comum às grandes revoluções tecnológicas) é que os principais efeitos das inovações recaem sobre os processos, mais que sobre os produtos. Há certamente um vasto elenco de novos produtos, porém o impacto mais profundo e generalizado da inovação está associado ao processo. Os processos, diferentemente dos produtos, incorporam-se a todas as atividades humanas, produzindo transformações conduzidas por essas tecnologias. Os onipresentes fluxos de informação provocam modificações na organização social em seu conjunto: no modo de produzir, de consumir, de administrar, de morar, enfim, de viver.

4.2  Reflexos na construção das estatísticas
 Os impactos da tecnologia da informação sobre temas como trabalho, atividade, ocupação, relações familiares, lazer, educação, saúde, operações financeiras e reestruturação das cidades, bem como consumo e produção, vêm sendo amplamente discutidos. Neste artigo, atenção será dada a aspectos das transformações da TI que, acredita-se, estejam mais diretamente afetando as representações econômico-sociais do sistema de informação estatística.
 

4.2.1  Atividades econômicas

4.2.1.1  O processo produtivo informacional ou do conhecimento intensivo

“As mudanças na estrutura da economia e em sua dinâmica são crescentemente um reflexo do fato de que o conhecimento torna-se a dimensão principal do processo produtivo (...). Resumidamente, o ponto é que, para a produção de bens e serviços, com exceção das mercadorias e dos serviços mais padronizados, outros fatores que não a quantidade de trabalho ou de capital físico tornam-se centrais para a economia das sociedades avançadas.” (STEHR, 1994, p.123).


 É hoje considerado que fatores constitutivos dos processos produtivos industriais: matérias-primas, insumos materiais, produto e tecnologia mecânica, estão em declínio, modificando-se. Passam a ganhar relevância nos processos produtivos e distributivos da sociedade da informação fatores cognitivos e/ou simbólicos.

 Neste contexto, alguns autores chamam a atenção para o softening da produção refletido no maior investimento em insumos não-materiais. MORRIS-SUZUKI (apud KUMAR, p.29) apontam que no Japão, já em 1980, apenas 27% das indústrias eram consideradas hard, no sentido de que bens materiais constituíam 80% ou mais do valor total dos insumos, sendo pois mais de 70% consideradas soft.

 Em sentido análogo, DRUCKER (apud STEHR, 1994, p.131) estima que o custo da matéria-prima contida num semicondutor, microchip, é de 1% a 3% do total de seu custo de produção. No caso dos automóveis esta participação é de 40% e para os vasilhames é do 60%. Observa que mesmo nas velhas indústrias há um aumento da proporção informação/conhecimento. A produção industrial está, pois, passando de uma produção matéria-intensiva para informação e conhecimento intensivos.

 No entanto, as classificações de atividades econômicas dos atuais levantamentos estatísticos são construídas a partir de um ordenamento que privilegia a identificação de segmentos homogêneos de atividade, constituídos de processos produtivos semelhantes, derivados da utilização de matérias primas, insumos materiais e tecnologia mecânica para a elaboração de produtos similares. (IBGE, 1997, p.7; STATISTICS CANADA, 1997, p.6). A partir desses critérios, para as unidade de observação estatística (unidade local, estabelecimento, empresa), atribuem-se os códigos de atividades da classificação, partindo-se da menor desagregação (4, 5 ou 6 dígitos, dependendo da Classificação). Para as unidades estatísticas que possuem mais de um tipo de atividade elege-se uma como principal, para a qual são atribuídos os dados da(s) atividade(s) considerada(s) secundária(s). É o critério de exclusividade.

 Por outro lado, fundamentalmente sob os mesmos critérios, as revisões das Classificações têm construído cada vez mais, exaustivamente, novos “segmentos homogêneos” (são quase 1000 na NAICS, a classificação do NAFTA: Canadá, Estados Unidos e México e mais de 500 na CNAE - a classificação brasileira). São, entretanto, critérios que pouco levam em conta as inovações tecnológicas informacionais.

 Pode-se dizer, então, que a “dimensão principal do processo produtivo” - o conhecimento, a informação - não está contemplada na lógica que permeia a construção das classificações atuais, de forte viés industrial, material, da produção de massa centrada na tecnologia mecânica. Não se considera, pois, fatores informacionais hoje fundamentais na diferenciação dos processos produtivos, como serviços de informação e comunicação, sistemas de gestão integrados, planejamento, pesquisa e desenvolvimento, design, software, bem como a própria tecnologia informacional, com características de produção bastante distintas da tecnologia mecânica industrial.

4.2.1.2  A convergência da tecnologia da informação e comunicação
 Como visto, é fator característico da nova tecnologia sua crescente convergência para um sistema altamente integrado. A microeletrônica, as telecomunicações, a optoeletrônica e os computadores estão cada vez mais integrados nos sistemas de informação e comunicação.

 Para RAMONET (1998, p.63), o crescimento da TI em todos os domínios da atividade humana vem estimulando a imbricação da informática, da telefonia e da televisão, com seus produtos e serviços correspondentes, que convergem e se apóiam na Internet e na multimídia. Aliás, estas também atividades integradas, que decorrem da união, respectivamente, das telecomunicações com os serviços de informática e dos computadores com os softwares de produção de imagens e som. Observa que “Grupos industriais estão comprometidos numa guerra mortal pelo controle dos recursos de multimídia e vias de informação que, de acordo com o vice-presidente americano Albert Gore, representam para os Estados Unidos hoje o que as infra-estruturas do transporte rodoviário representavam na metade do século XX.”

 No entanto, as classificações de atividades consideram as telecomunicações e os serviços computacionais em diferentes categorias/classes de atividade. Assim, a obrigatoriedade de escolha de uma atividade como principal (telecomunicações ou serviços computacionais) dificulta o acompanhamento/mensuração dos atuais sistemas e redes de informação e comunicação, que integram as duas atividades como os da Internet, considerada entre as mais importantes inovações do século. O mesmo ocorre com relação às atividades oriundas da integração de distintas mídias (multimídia) que dependem dos computadores para sua realização.

 CASTELLS (1999, p.79) observa que, embora ainda exista uma distinção comercial entre fabricantes de chips e desenvolvedores de software, a diferenciação é, de fato, indefinida, uma vez que é crescente a integração das duas funções.
 

 “(...) em termos de sistemas tecnológicos, um elemento não pode ser imaginado sem o outro: os microcomputadores são em grande parte determinados pela capacidade dos chips, e tanto o projeto como o processamento paralelo dos microprocessadores dependem da arquitetura do computador. As telecomunicações são agora apenas uma forma de processamento de informação; as tecnologias de transmissão e conexão estão, simultaneamente, cada vez mais diversificadas e integradas na mesma rede operada por computadores.”


 Segundo o autor isto ocorre não somente devido à incorporação de software nos componentes dos chips como também à crescente integração de empresas em alianças estratégicas e projetos de cooperação, como será visto no item 4.2.1.4.

 Por outro lado, é reflexo da convergência tecnológica o surgimento de uma infinidade de produtos híbridos, de usos múltiplos. São muitos os novos produtos/serviços - já existentes, em desenvolvimento ou em concepção -, como os que decorrem do uso da Internet (ela mesma uma convergência) por telefone celular, relógio e rádio de carro (tecnologia wap); ou produtos/serviços como o MP3 de mão (walkmen tocam arquivos de áudio copiados da Internet); ou o celular notebook etc. (MOON, 1999, p.56-61). Vale lembrar o Playstation 2 da Sony, um videogame com acesso à Internet que disponibiliza filmes, músicas, vídeo, jogos sofisticados e serviços de entretenimento utilizando a banda larga: um “servidor doméstico”, nas palavras do diretor-presidente da Sony Computer Entertainment. (GUTH, 2000, p.15).

 A complexidades dos produtos/serviços híbridos, múltiplos, convergentes, se traduz, certamente, em problemas para a construção das estatísticas, sobretudo para aquelas que se utilizam das classificações dos produtos (que inclui todas as atividades econômicas, inclusive os serviços). Um velho instrumento classificatório do sistema estatístico que ganhou novo tratamento e destaque nos dias de hoje[12].

4.2.1.3  Redefinição dos negócios da “velha” economia
 Neste cenário tecnológico, há que se considerar o papel modificador dos sistemas e redes de informação e comunicação, com especial destaque para a Internet, que criam modelos de negócio totalmente novos. De fato, o advento das “empresas de Internet” ameaça desestabilizar boa parte das atividades econômicas tradicionais ao introduzir novas formas de operação: sem produtos - a paradoxal “diversificação de produtos ausentes” -, com tipos distintos de relações de trabalho, de custos e de logística, sem localização física determinada e determinante etc. Também as relações com clientes e fornecedores se modificam drasticamente. Na realidade, uma nova cultura de vendas e de hábitos de consumo está sendo criada.

 Muitas empresas foram criadas exclusivamente para a Internet, como as  empresas “sites de busca” e outros portais desenvolvidos para a realização de negócios entre empresas - business to business (b2b) - ou entre empresa e consumidor final - business to consumer (b2c). Outras levaram para a Internet seus negócios tradicionais, gerando a comercialização eletrônica de seus produtos: livros, música, computadores, brinquedos, título de valores etc. Operações virtuais passaram, então, a desequilibrar e/ou modificar empresas reais como as Livrarias, as Bibliotecas, as Gravadoras, as Corretoras de Valores etc[13].

 Uma tendência atual é, pois, as empresas tradicionais passarem a redefinir seus negócios, apoiando-se na Internet, Intranet e Extranet; gerando um fluxo de informação contínua e novas formas de relacionamento entre parceiros, fornecedores e clientes. Passa-se a executar uma série de transações online como vendas, consultas, compras, contatos com clientes etc., definindo novas formas organizativas, com operações comerciais business to business (b2b) e business to consumer (b2c). Muitas empresas estão, pois, integrando aspectos da “velha” e da “nova” economia.

 Neste ambiente eletrônico, modifica-se, também, o papel da intermediação. Surgem os denominados de “infomediário”: o distribuidor de mercadorias e/ou serviços que possui um site para vendas b2b ou b2c, muitas vezes sem possuir estoques. Recebe encomendas/compras/vendas online e as repassa aos fabricantes ou os atacadistas. Os “infomediários” atuam, pois, como agentes de negócios, buscando conectar vendedores e compradores, reduzindo os tempos de busca e aumentando a conveniência.

 Tudo isto traz mudanças profunda nos modelos de funcionamento dos negócios e, certamente, dificuldades para as estatísticas oficiais. São novas formas de organização, tratando-se mesmo, muitas vezes, de sistemas de informação que realiza transações econômicas, onde os cliente interagem com o próprio sistema, sem a tradicional figura dos vendedores. Daí poder se perguntar como inventariar estatisticamente um sistema de informação?

4.2.1.4  Integração e diversificação das empresas e das atividades
 Uma outra dificuldade para o sistema de informação estatística refere-se à integração e diversificação das empresas, abrangendo diversos “setores”. Empresas, conglomerados de empresas ou mesmo empresas menores passam a controlar uma grande produção de produtos e serviços de vários “setores”, como audiovisual, entretenimento, informática e bens eletrônicos. Pode-se mencionar a recentíssima fusão da Warner e da AOL, a primeira um dos maiores conglomerados de comunicações, com estúdios de cinema, redes de TV (a CNN e TV a cabo) e revistas (a Fortune, a Time e a People), e a segunda a maior provedora de acesso à Internet dos EUA. Com a fusão a AOL passa a contar com canais de alta potência ou “banda larga” para fazer chegar a seus usuários novos conteúdos: filmes, produções de TV, música, jornais, revistas, em volume grandioso. Para GALUPPO (2000, p. 101-2) “não são descartadas hibridações que juntem empresas de mídia tradicional como a Walt Disney, a CBS e a Fox - que produzem filmes, notícias, especiais de televisão - com companhias telefônicas ou com empresas de nova geração da internet, como a Yahoo e  a Amazon ou a eBay.” E, ainda, como aponta a matéria apresentada pela BBC News (22/03/99), “até os grandes estúdios cinematográficos fazem parte de alguma coisa maior”. Praticamente todas as companhias de cinema pertencem aos grandes conglomerados de entretenimento, que incluem redes de TV a cabo, abertas ou fechadas, produção de animação etc. A 20th Century Fox foi comprada pela Rupert Murdoch News Coorporation; a Paramount faz parte da Viacom Corporation; e a Disney comprou a Touch-down Hollywood Pictures.

 O que se quer ressaltar é que se trata de formas organizacionais que diferem substancialmente daquela das grandes fábricas fordistas dos anos 50 -, com processos de produção e de trabalho semelhantes e verticalizados. De um lado, a “empresa-estrutura” do paradigma clássico da análise econômica, em que um certo agregado físico correspondia a uma entidade jurídica, com uma estratégia de produção padronizada. De outro, as grandes empresas globais, que se  mimetizam, transformam-se em rede, com objetivos flexíveis e mutáveis.

 O próprio STATISTICS CANADA (1997, p.6) adverte que a NAICS, a classificação de atividades do bloco NAFTA, não foi desenhada para dar conta do amplo escopo de atividades integradas vertical e horizontalmente das grandes e complexas empresas multi-estabelecimentos, características da sociedade atual.

 Cabe citar, também, as dificuldades de se classificar/mensurar, a partir de critérios de atividade principal, as empresas integradas e diversificadas como as que produzem, montam, fazem manutenção de computadores, e, ainda, produzem, desenvolvem e vendem software, bem como prestam variados e diferenciados serviços de informática a seus clientes. O caso da Dell Computer Corporation é exemplar, é uma empresa que “produz/”monta e vende sistema de computadores, com configuração adequada de hardware e de software, diretamente aos clientes, e, ainda provê serviços voltados para cada solução individual ou empresarial, com simplificação nas decisões de compra de sistemas[14].

 Para DAVIS & MEYER (1999, p.20) a conectividade, uma das principais forças propiciadoras de mudanças nos modelos empresariais e econômicos atuais, estaria eliminado a diferenciação existente entre produtos e serviços. Isto se daria devido, principalmente, à possibilidade de se construir produtos que se conectam por meio eletrônico (chips) a bancos de informação, o que gera oportunidades de serviços. Assim, passa-se a “embutir”, crescentemente, serviços nos produtos e vice-versa. A customização em massa é, então, apontada como um mix de produto e serviços. Por exemplo, pelo programa Par Personalizado da Levi’s pode-se, em qualquer uma de suas lojas, “encomendar um par de jeans personalizado - perfeitamente confeccionado segundo seu corpo, e possivelmente único entre zilhões de pares que a Levis Strauss já produziu ao longo dos anos. E mais, o sistema online retém as informações, caso você queira encomendar um segundo par, o que será feito a partir de qualquer loja da rede. Isto mostra que o produto mais massificado do mundo foi inteiramente integrado aos serviços.” (p.23).

 Atividades passam a ser desenvolvidas de forma interligada e complexa, numa clara interpenetração entre e intra setores, sendo difícil delimitar onde termina uma e começa a outra. Como, então, demarcar a atividade mais importante, a principal? Este fenômeno não é novo, mas hoje se expande, especialmente, nos “setores” das TIs e naqueles a eles atrelados. Para as atividades integradas se estaria, pois, distorcendo, mascarando, mutilando suas formas de estruturação e características.

4.2.2  O trabalho / a ocupação
 Os teóricos da sociedade da informação destacam sobremaneira a influência do conhecimento, em seus aspectosquantitativos e qualitativos,  enfatizando o aumento do conteúdo de conhecimento do trabalho existente. Sugerem que a nova tecnologia mais adiciona do que retira qualificação dos trabalhadores. Há, no entanto, um grande debate sobres esta questões.

 O aspecto quantitativo diz respeito à criação e à expansão de novos tipos de trabalho ligados às atividades do “setor” informação/conhecimento. Acreditam que a indústria da TI - computadores, componentes eletrônicos e de telecomunicações etc. - pode, a exemplo da indústria de automotores e de eletrodomésticos, trazer uma nova onda de “destruição criativa”, traduzindo-se em expansão das atividades econômicas e do emprego. Já os críticos dessa visão quantitativa otimista observam que os empregos criados pela TI são decorrentes da implementação e da absorção da nova tecnologia nos processos de reorganização tecnológica e organizacional das empresas. Porém, após a assimilação da tecnologia, há, na realidade, uma grande substituição de trabalhadores, sendo este, aliás, um dos objetivos implícitos no processo, que visa à redução de encargos trabalhistas e da própria força reivindicativa da força de trabalho. O efeito quantitativo total seria, pois, negativo.

 A polêmica se intensifica quando o que está em jogo é a questão da qualidade da nova força de trabalho. Uns acreditam no surgimento de uma nova classe de trabalhadores do ramo do conhecimento, caracterizada por alto nível de capacitação técnica e conhecimento teórico, decorrentes de forte educação e treinamento. Outros, seguindo a linha desenvolvida inicialmente por BRAVERMAN (1977), com relação aos efeitos da mecanização industrial sobre a força de trabalho, consideram a TI um elemento a mais a ser utilizado pelo capital para a contínua degradação do trabalho[15].

 No entanto, neste quadro de controvérsias, parece não haver dúvidas sobre a ocorrência de uma ampla reorganização das empresas, envolvendo aspectos tecnológicos, organizacionais e de gestão, com a automação de atividades e com a alteração no modo como os negócios são conduzidos, modificando-se, neste processo, a própria natureza do trabalho e da produção.

4.2.2.1  Automação nos processos
 Na reorganização da produção, muitas vezes referida como reengenharia, as empresas vêm modificando profundamente o modo como os negócios são conduzidos: enxuga-se o processo produtivo, reduz-se sobremaneira a folha de pagamento, eliminam-se milhões de empregos e tipos de trabalho/ocupação e achatam-se as tradicionais pirâmides organizacionais. Não somente trabalhos não-qualificados e semiqualificados são cortados mas outras posições de hierarquia corporativas também estão sofrendo fortes reduções, como as de gerência média, com a compressão de várias funções em um processo único.” (RIFKIN, 1996, pp.107-8).

 RIFKIN (1996, pp.115-77) aponta para o declínio da força de trabalho global em função da automatização das atividades econômicas, com as empresas, setor após setor, substituindo o trabalho humano por máquinas programáveis, mudando a natureza do trabalho envolvido e da produção. O autor destaca o setor automobilístico, onde os robôs se tornam cada vez mais atraentes como alternativa para o trabalho humano na linha de montagem (a empresa japonesa Mazda Motor Corporation espera ter sua linha de montagem final 50% automatizada em 2000); e o setor do aço, cujo destino encontra-se ligado ao da indústria automotiva e hoje se apresenta como uma estrutura branca e luminosa que mais parece um laboratório que uma fábrica. “No centro da fábrica há uma cabine de vidro cheia de computadores e equipamentos eletrônicos que supervisionam e controlam o processo de produção. Nenhum dos homens manuseia diretamente o aço. O processo é quase totalmente automatizado e produz aço laminado a frio em menos de uma hora”. (KENNEY & FLORIDA, apud RIFKIN, 1996, pp.143-4).Observam os autores que no processo de produção anterior a produção de aço laminado costumava levar até 12 dias.

 Era comum acreditar que os serviços absorveriam parte significativa das perdas de emprego da indústria. Agora, no entanto, verifica-se que o próprio setor vem se utilizando crescentemente da TI, aumentando produtividade e substituindo trabalhadores em todos os serviços, como bancos, financeiras, seguros, comunicações, comércio, hotelaria e aviação. O setor bancário, por exemplo, está reduzindo não apenas o número de agências como, também, o de bancários. Os caixas automáticos vêm substituindo, com “vantagens” muitos caixas humanos: estão disponíveis 24 horas, operam com custos mais reduzidos e realizam um número superior de transações diárias. Outras operações eletrônicas, como o atendimento telefônico feito pelo sistema voice-mail, reduzem o tempo gasto pelos atendentes com cada cliente e executam operações simples, como consultas de saldo. A conseqüência é uma redução considerável no número de atendentes necessários.

 Este abrangente, complexo e crescente movimento de trabalhadores (eliminação x substituição x criação de postos de trabalho e de ocupações) é, no entanto, difícil de ser acompanhado pelas estatísticas oficiais atuais, porque a lógica utilizada nos levantamentos não leva em conta fatores relacionados à TI, que são os modificadores da situação anterior. Isto é, uma tecnologia operada e controlada por software, baseada em sistemas informacionais complexos e integrados, voltados para uma produção just in time, dando origem a processos produtivos de outra ordem, flexíveis, variados, “programados”.

4.2.2.2  Modificação na estrutura ocupacional
 Para alguns pesquisadores, as tecnologias da informação e de comunicação - de uso genérico, manipuladas por programas - passam a exigir maior qualificação do tipo científico, um processo de qualificação denominado, por alguns, cientificação das ocupações - scientification of skills (STEHR). Neste enfoque, considera-se que a TI, se, por um lado, substitui o trabalho que pode ser codificado em uma seqüência programável, por outro melhora o trabalho que requer capacidade de análise, decisão e reprogramação em tempo real. A qualificação fundamental passa a ser não a experiência (prática), mas o conhecimento sistemático.

 Assim, diminui a relevância da distinção das ocupações segundo sua relação com as tecnologias mecânicas, que levaram às especializações por profissões, como ocupações da indústria têxtil, da metalurgia, da mecânica etc., ou, ainda, ocupações dos transportes aéreos, das comunicações, do comércio etc[16]. Tarefas que guardavam diferenciações setoriais podem hoje apresentar características muito semelhantes, relacionadas ao uso da TI. São ocupações denominadas por RIFKIN (1996, p.147 e p.154) de “colarinho de silício” e “operadores de silício”; uma analogia usada pora ocupações relacionadas à TI, respectivamente, na indústria e nos serviços.

 Com relação as ocupações de nível superior é também grande a modificação ocorrida, uma vez que as empresas estão se transformando em organizações inteligentes, que tendem a valorizar a gestão do conhecimento, reconhecendo a importância de outras estratégias empresariais e abordagens conceituais na gestão de seus negócios. Assim, a utilização intensiva de tecnologias de informação e a emergência da Internet provocaram o surgimento de novas atividades no mercado, que ainda não possuem uma correspondência precisa com as formações profissionais tradicionais. Isto se verifica tanto entre as empresas da chamada “nova economia” - empresas que tem na Internet e nas redes eletrônicas o centro de suas atividades - como entre as empresas tradicionais, em processo de adaptação às mudanças introduzidas pela economia digital.

 As empresas passam a buscar no mercado profissionais capacitados para desempenhar um conjunto diversificado e flexível de novas atividades, associadas ao desenvolvimento e administração de sites, implantação e gestão de comércio eletrônico, marketing na Web, gerenciamento da logística de distribuição e transporte de mercadorias vendidas via Internet, entre muitas outras.  É apontado como uma característica do mercado de trabalho da “nova economia” a desvinculação crescente das novas demandas ocupacionais com as formações profissionais tradicionais[17].

 CASTELLS (1999, pp.265-6) enfatizando que é o processo produtivo informacional que vai determinar o processo de trabalho informacional, sugere algumas dimensões para a compreensão do trabalho informacional. Uma dimensão seria referente à realização de valor: os dirigentes (tomada de decisão estratégica e planejamento); os pesquisadores (inovação em processos e produtos); os projetistas (adaptação, embalagem e definição dos objetivos da inovação); os integradores (gerência das relações entre decisão, inovação, projeto e execução); os operadores (execução da tarefas com iniciativa própria) e os “dirigidos” (execução da tarefas auxiliares, que não foram ou não podem ser automatizadas). Uma outra dimensão diz respeito à relação entre determinada organização e seu ambiente, incluindo outras organizações: cultivo de relações. Aí destaca: os trabalhadores ativos na rede; os trabalhadores passivos na rede e os desconectados.

 Nesse debate, aponta-se, ainda, para uma crescente “reintegração de tarefas” - uma retração de formas tayloristas de organização do trabalho (PAIVA, 1997, p. 125). Uma reintegração que nada tem a ver com o juntar de novo tarefas que o taylorismo desmembrou. O movimento sugerido é acoplamento, de maneira cada vez mais visível, do trabalho intelectual ao trabalho manual e vice-versa. O computador passa a juntar tarefas intelectuais e manuais sob outras lógicas.
 

“Estamos, pois, diante de um novo tipo de divisão do trabalho e de especialização que chega junto com a necessidade de compreensão mais ampla do ‘universo das máquinas’ e que gera uma tremenda pressão sobre a força de trabalho que cresceu e se educou numa fase anterior a esta. Emergem deste processo um novo tipo de trabalhador manual e um novo intelectual, reintegrados em múltiplas e complicadas misturas.” (PAIVA, 1997, p.126).


 Torna-se clara a necessidade de um exame aprofundado da natureza do trabalho relacionado à TI, bem como às tarefas que se apóiam e/ou são relacionadas ao seu uso. Qual o grau de scientification of skills ocorrido? De fato ocorreu? Para quais ocupações novas ou modificadas? Ocupações foram eliminadas, simplificadas, flexibilizadas, reintegradas? Passaram a incorporar funções variadas e/ou mais genéricas? Quais são as (novas) ocupações geradoras de inovação tecnológica? São pertinentes as dimensões propostas por Castells?

4.2.3  O domicílio / a cabana eletrônica
 Embora a maior parte da TI tenha sido desenvolvida para uso empresarial e do Estado, o domicílio vem se constituindo, cada vez mais, em importante alvo de suas aplicações. Neste sentido, considera-se que o desenvolvimento da TI, no que toca ao domicílio, vem modificando aspectos fundamentais relacionados ao trabalho, ao lazer e ao entretenimento.

4.2.3.1  O trabalho na cabana eletrônica
 A difusão da TI viabiliza a criação de “postos de trabalho” mediante o acesso a um computador, um fax modem e programas específicos associados a uma adequada configuração de telecomunicações. Assim, uma quantidade crescente de trabalho passa a poder ser realizada em qualquer parte, inclusive na própria casa. Destaca-se que o trabalho que vem sendo feito em casa, não somente contará com melhores condições de execução como tenderá a se expandir fortemente.

 O deslocamento do trabalho para casa ou para fora da fábrica e do escritório tem um significado bem maior do que simplesmente a questão da mudança de local de trabalho: mudam características do próprio trabalho. Interrompe-se o ritmo sincronizado das atividades, da utilização do tempo de forma seqüencial, não mais sendo determinante que se chegue ao trabalho ao mesmo tempo, a uma certa hora, que as horas de refeições sejam em horários determinados, que se trabalhe 40 ou 48 horas por semana, que se tenha um período regular de férias, um rendimento mensal fixo etc.

Um aspecto relevante passa a ser a simultaneidade, descaracterizando distinções até então bem marcadas, não só entre local de trabalho e local de residência (escritório/fábrica x domicílio) mas, também, entre trabalho e não trabalho e entre produção e consumo (empresas/estabelecimentos x famílias), tão usuais nos levantamentos estatísticos.
 

Há pouco tempo era raro ultrapassarmos as oito horas de trabalho. Hoje, depois que vamos para casa é comum escutarmos as mensagens da secretária eletrônica, atendermos às ligações do celular, checarmos nosso e-mail...Enquanto vemos as mensagens, aproveitamos para respondê-las, lemos o material que alguém nos enviou, entramos no site para saber mais sobre o assunto, e, quando nos damos conta, já trabalhamos duas, três, quatro horas além do horário normal. (...) Antes você apenas trabalhava enquanto estava no escritório. Agora você trabalha onde quer que as pessoas possam encontrá-lo. E como geralmente estamos conectados o tempo todo...(ROSEN, 2000, p.14).


 De fato, a separação espacial entre o lugar de trabalho e os lugares das demais atividades é considerada uma das importantes distinções introduzidas pela sociedade industrial, quando, então, era também diferenciado o uso do tempo entre trabalho e lazer. Porém, do ponto de vista do trabalho ligado à TI, as distinções entre local de trabalho e lar, assim como entre trabalho e lazer, não são tão relevantes assim. Então, o “teletrabalho”, o “telentretenimento”, o “telebanking”, o “teleshopping”, a “teleducação” passam a ser destacados como atividades que agora são possíveis de serem executadas no domicílio, quase simultaneamente.
 

“Os limites entre trabalho e lazer ficaram confusos. (...) Muitas pessoas nem cogitam a possibilidade de ficarem desconectadas no final de semana ou durante as férias. Viajar com laptops ou celulares é cada vez mais comum. E basta estar conectado para estar trabalhando. É um pulo.“ (ROSEN, 2000, p.15, 14).


 Vista sob outro ângulo, pode-se dizer que faz parte dessa mudança a transformação do escritório tradicional. A TI diminui a importância do escritório como centro de operações. Modems, laptops, Internet, Intranet, Extranet permitem que os negócios sejam dirigidos de qualquer lugar. Aí se insere a possibilidade de criação dos atuais escritórios e empresas virtuais. “A empresa virtual não pode mais ser situada precisamente. Seus elementos são nômades, dispersos, e a pertinência de sua posição geográfica decresceu muito.” (LÉVY, 1996, p.19).

 Enquanto a organização clássica - base das estatísticas oficiais - reúne seus trabalhadores num mesmo prédio ou num conjunto de departamentos, com postos de trabalho e horários precisamente determinados, a empresa virtual substitui a presença física do trabalhador por sua participação numa rede de comunicação eletrônica, com uso de recursos e programas compartilhados, bem como flexibiliza as relações de trabalho. Não há dúvida que o sistema estatístico precisa voltar sua atenção para estas novas características.

4.2.3.2  O “pro-sumidor”
 TOFFLER (1990, pp. 266-88) enfoca o trabalho no domicílio usando a figura do “pro-sumidor”, isto é, o indivíduo que consome o que ele próprio produz. Com este neologismo, se quer enfatizar o aumento da produção e do consumo baseados no domicílio. Considera que a divisão da sociedade industrial entre o trabalho não-pago, feito diretamente pelas pessoas para si mesmas, suas famílias e suas comunidades, e o da produção de mercadorias ou serviços para venda ou troca através do mercado, vem se diluindo. Ele sugere “um borrar progressivo da linha que separa o produtor do consumidor e destaca a crescente significação do pro-sumidor.” (p.268).

 TOFFLER destaca os movimentos para o “faça você mesmo”, que se expandem de maneira espetacular, e para a externalização do custo do trabalho, com o deslocamento de funções econômicas ou trabalho para a “cabana” e/ou para o “consumidor”/contratante de serviço; são inúmeras atividades ou serviços deslocados pelos bancos, lojas, cinemas, teatros, escolas etc. No caso do “faça você mesmo” passa-se a contar com uma enorme quantidade de ferramentas/tecnologias criadas para o consumidor/produtor e com uma imensa oferta de revistas, manuais, programas de TV, software, vídeos etc. que incentivam e possibilitam transformar o consumidor em produtor/artesão. “O consumidor que pode montar e/ou modificar seu computador, poderá montar o seu luxuoso carro de corrida” (p.278).

 Por outro lado, sendo parte do tempo de lazer destinado à produção de bens ou serviços para uso próprio - pro-sumo -, a distinção entre trabalho e lazer enfraquece. A questão trabalho versus lazer é, em parte, substituída por trabalho pago para o mercado versus trabalho não pago, autodirigido e automonitorado.

 COCCO (1999, p.278) observa que no terciário avançado, baseado na difusão de redes telemáticas, o papel fundamental é do consumidor. É ele que ativa a rede e individualiza seu uso a partir de uma infinidade de oferta de possibilidades virtuais. No caso da Internet, por exemplo, onde há uma vasta oferta de serviços, é necessário “navegar” para torná-la um serviço. “É o próprio usuário que ‘produz’ a partir das possibilidades oferecidas pela Web. Esse serviço na realidade terá sido produzido por nós, pela atualização (no sentido da realização) de uma das inúmeras virtualidades da rede.”  Considera o autor que as redes são, ao mesmo tempo, infra-estruturas de circulação e locais de produção dos serviços. Assim, o produto seria a transação.

 Quanto às estatísticas, pode-se chamar atenção para o tratamento dado a consumidores e produtores como dois grandes e separáveis blocos, a partir da dicotomização das pesquisas em domiciliares (famílias e indivíduos) e estabelecimentos/unidades de produção (agrícola, da indústria e dos serviços).  Nas próprias Contas Nacionais são apresentadas duas Contas separadas segundo essa dicotomia: Família e Produção. No entanto, ao diluir a nitidez entre os grupos de produtores e consumidores, torna-se fluida tal dicotomização, o que indica uma menor aderência dos esquemas teóricos-conceituais sobre os quais se apoiam as estatísticas.
 

4.2.4  O novo domicílio
 Além do reconhecimento da maior relevância do domicílio, a partir da capacidade da TI de quebrar as grandes estruturas centralizadas da sociedade industrial, é também ponto convergente, entre os teóricos e críticos da sociedade da informação, que o domicílio visto como locus é diferente do lar visto como família ou como centro de atividades “coletivas”.

 É enfatizada a tendência de maior liberação e de fortalecimento do indivíduo, e não da família. O computador, ligado às redes globais de comunicação, coloca todo o mundo do conhecimento e da informação nas mãos do indivíduo isolado. Nesse caso, não haveria necessidade e nem lugar para atividades grupais - não, pelo menos, como as que poderiam ocorrer no lar em conjunto com outros membros da família.
 

“Escondido na privacidade de seu quarto, sentado em frente a um terminal de computador, o indivíduo se diverte, educa-se, comunica-se com outras pessoas nas estradas da informação e providencia seu sustento prestando o necessário trabalho na economia da informação. (...) O lar torna-se o local preferido das atividades individuais, mas não gera finalidade coletiva nem senso de valores familiares compartilhados. O indivíduo pode na verdade resolver viver independentemente e isolado dos demais. O lar torna-se menos um ‘oásis em um mundo sem coração’ para a família e mais semelhante a um hotel para pagantes (e não pagantes) “ (KUMAR, 1997, p.168).


 Neste ponto, pode-se considerar, sob muitos aspectos, que o domicílio[18] - uma habitação, um lar -  encontra-se bastante modificado. Passa a ser uma unidade onde se realizam atividades variadas, de entretenimento, instrução, trabalho, produção, consumo, que se entrelaçam de forma anacrônica. Passam, também, a envolver um leque de consumo (e pro-sumo) individuais, tendo sido enfraquecida sua característica anterior de satisfação das necessidades “coletivas”. Isto se traduz na posse múltipla de bens (televisores, vídeo, aparelho de som, computadores, telefones, automóveis etc.) e em práticas alimentares individuais, incluindo desde a aquisição de produtos específicos, individualização de gosto, dieta, independência de orçamento etc. a horários e formas distintas de fazer refeições.

 Afora essas questões, COMTE (1995, p.188) sugere, ainda, outros fatores que contribuem para a quebra da unidade do domicílio. Observa que “o domicílio não forma mais uma unidade tão bem identificada: a proliferação dos divórcios, dos novos casamentos, das coabitações etc., complicada pela presença de filhos ‘alternativos’, multiplica as relações entre os domicílios”. Adverte o autor para a conveniência de se levarem em conta os consumos efetuados em outros domicílios.  Coloca , então, a pergunta: “Pode o estatístico continuar somando as despesas num domicílio, quando este tende a ser apenas uma coleção de indivíduos e esta coleção de indivíduos tem uma extensão variável?”

 Para finalizar, posiciona-se ao lado de COMTE (1995, pp.189-90), quando este observa que a “nova complexidade do mundo não impede toda descrição e análise das estatísticas, mas as torna problemáticas, afetando todas as condições da observação. (...) Se o postulado de identidade do objeto está invalidado, nenhum protocolo de medida pode garantir o valor dos resultados.”

 Certamente alguns dos problemas apontados não são inteiramente novos, mas estiveram adormecidos, congelados, isto é, não perturbaram as estatísticas durante um bom tempo, uma vez que, como visto anteriormente, dos pós-guerras aos anos 70, se deu a maturação de um regime de crescimento, capitalista industrial, dotado de regras de funcionamento estáveis, sem grandes alterações que modificassem a significação e a continuidade das estatísticas.
 

5. Conclusão
 Se procurou mostrar que as grandes transformações que marcam a sociedade atual, devido, principalmente, à sobrepujança do conhecimento e ao desenvolvimento e à difusão da tecnologia de informação e comunicação, com a ampliação dos fluxos de informação, num mundo globalizado, modificaram alguns pressupostos que modelam as estatísticas, como os arranjos, as relações e as articulações empresariais, setoriais, ocupacionais, de trabalho e mesmo familiares; as funções do domicílio; os processos de produção (informação-intensivo); a dicotomia “produtor” x “consumidor” e “produtos” x “serviços”. Assim, a realidade representada desfoca-se, uma vez que a realidade se altera e sua lógica de representação não. Por conseguinte, o conhecimento e a informação cristalizados nos esquemas de representação perdem aderência. Pela ótica delineada neste artigo, as estatísticas oficiais precisam ser olhadas com os parâmetros e as lógicas do contexto e tempo atuais.

 A defasagem provocada pela tensão entre as estatísticas estáveis e harmonizadas e a dinâmica atual da sociedade vincula-se ao enfraquecimento ou perda de relevância do aparato teórico-conceitual de interpretação econômico-social, que dá e deu sustentação à construção das estatísticas. Como assinalam DUCAN e GROSS (1993, p.11), “Com a proximidade  do século XXI, torna-se cada vez mais claro que nossa atual rede conceitual, desenhada para realidades anteriores, se ajusta de forma bastante imperfeita à situação atual.”

 Pode-se dizer mesmo que os avanços do sistema de informação estatística circunscrevem-se ao intenso aprimoramento das técnicas estatísticas de mensuração, que muito se beneficiou do desenvolvimento da informática. A informática favoreceu, também, aspectos ligados à coleta, ao processamento, ao armazenamento e à recuperação das informações. Mas todos esses avanços vêm sendo aplicados sobre os velhos modelos/esquemas de referência.

 Embora as Agências Estatísticas reconheçam as transformações em curso, este reconhecimento é, na maioria da vezes, genérico e difuso, sem a devida reflexão de como tais transformações relacionam-se com os modelos conceituais de construção das estatísticas oficiais. Esta reflexão é difícil de ser enfrentada pelo sistema, dado seu pressuposto constitutivo de harmonização das diferenças, e não da explicitação delas. Há que se considerar, ainda, ser este um campo de conhecimento especializado, formado por produtores e consumidores desse tipo particular de conhecimento, o que fecha a discussão entre pares. Esta se realiza, na maioria das vezes, sob a coordenação dos organismos internacionais encarregados das padronizações de conceitos e de procedimentos metodológicos e operacionais e/ou sob orientação de institutos técnicos-científicos altamente especializados em metodologia estatística, como o International Statistical Institute e seus órgãos complementares (a International Association of Survey Statisticians - IASS e a International Association for Official Statistics - IAOS, entre outros).

 Com esse fechamento do sistema em si mesmo é quase inexistente a articulação e a interação com outras áreas envolvidas com a dinâmica das mudanças atuais, seja o campo do conhecimento formalizado (que vem elaborando novas abordagens de se ver o mundo), sejam os próprios agentes econômicos e atores sociais, que vêm produzindo tais mudanças. Assim, pouco se tem caminhado na discussão da inserção das estatísticas no novo cenário econômico-social.

 Este artigo tenciona, pois, ser uma contribuição ao necessário esforço de ampliação do debate analítico coletivo com relação ao sistema de informação estatística na busca de novos recortes conceituais que possam melhor representar a complexidade do contexto atual.
 

6. Notas
[1] Como muitos são os enfoques, muitas são as denominações utilizadas para se rotular a sociedade. Vale citar algumas mais frequentemente usadas: sociedade programada (Touraine e Hegedus), da Terceira Onda (Toffler), tecnotrônica (Brezinski), do auto-serviço (Gershuny), do capitalismo desorganizado (Offe), da era da descontinuidade (Drucker), de signos & espaços (Lash & Urry). Uma síntese de alguns destes enfoques é apresentada no livro organizado por DE MASSI (1985, 1999).

[2] Um tratamento mais aprofundado e extenso das questões aqui abordadas é realizado na tese de doutorado da autora, “Produção de informação estatística oficial na (des)ordem social da modernidade”. A referida tese apresenta a leitura de outras duas abordagens interpretativas da sociedade atual: a da sociedade pós-fordista e a da sociedade pós-moderna, com os respectivos rebatimentos a pressupostos conceituais que dão forma as atuais estatísticas oficiais.

[3] Observa DESROSIÈRES (1992, pp.171-2) que a estatística foi um dos primeiros domínios científicos para os quais foram realizados esforços de normatização internacional dos métodos de observação. Já em 1884 havia sido criado o Internacional Statistic Institue - ISI, uma organização com forte orientação técnica, que até 1920 promoveu discussões de problemas de registro e de classificação. A partir de 1920, com a criação da International Labour Organization - ILO e da Sociedade das Nações - SDN, as questões de normatização estatística foram, pouco a pouco, confinadas às organizações internacionais.

[4] Como indica DESROSIÈRES (1992, p.168) a universalização das técnicas (linguagem, instrumentos de construção e modos de apresentação) se sobrepôs à unificação das definições operacionais, que refletem as especificidades nacionais. Observa que aí estão combinadas duas instituições e duas formas de legitimidade social distintas: a ciência e o Estado; enquanto a primeira é universal, a segunda guarda as diferenças de cada país.

[5] Não se pode esquecer a importância de propósitos políticos no desenho do moderno sistema estatístico. Por exemplo, assinala PERLMAN (1987, p.133-51) que na construção das Contas Nacionais a decisão de enfatizar políticas de estabilização econômica de longo prazo, ao invés de questões distributivas, está atrelada à teoria econômica keynesiana. Disto resultou a decisão de se tratar todos os gastos do governo como consumo e não como investimento

[6] Os “subsistemas” de distribuição (disseminação) e uso da informação estatística, não são objetos deste estudo, muito embora estejam envolvidos na problemática aqui tratada, referente ao subsistema de produção - “entrada” -, uma vez que só pode sair e ser utilizado aquilo que foi gerado.

[7] WAGNER (1994) denomina tal período de “modernidade organizada” e observa que, em termos macro-sociológicos, graus de estabilidade e certeza foram alcançados em relação a uma situação anterior (“modernidade liberal restrita”) e a situação atual (“modernidade liberal estendida”), com maiores graus de instabilidade e incerteza. Uns autores referem-se ao período como o do “capitalismo organizado” (LASH & URRY, 1987; OFFE, 1989) e outros postulam a configuração de uma fase de regulação econômica (ARRIGHI, 1996) ou de um regime de acumulação fordista-keynesiano (HARVEY, 1992).

[8] Uma configuração social que se constituiu em uma certa interação institucional da modernidade, cuja conformação decorre da inter-relação e entrelaçamento, segundo modalidades complexas, de um conjunto de instituições econômicas e sociais: o industrialismo, o capitalismo, a vigilância e o controle da violência, que passaram a dar forma à modernidade. (GIDDENS, Apud PORCARO, 2000, pp.54-73).

[9] É considerado (MACKENZIE, 1981, pp.1-14; THÉVENOT, 1987) que a moderna estatística matemática nasce nos estertores do século XIX e nos primórdios do século XX. Destaca-se o trabalho dos ingleses Galton e Pearson, seguidos por Fisher, que respondem por três diferentes períodos de desenvolvimento da estatística e foram os lideres da emergente comunidade dos profissionais de estatística.

[10] THÉVENOT (1995, pp.155-6) observa que os investimentos em forma variam segundo o grau de convencionalização dos fenômenos sociais. As formas convencionais são as categorias instituídas pelo direito (estado civil, profissões controladas, educação formal), que, por possuírem maior legitimidade social, requerem pequenos investimentos em formas. Outras formas, no entanto, por não contarem com uma regra estabelecida ou um código jurídico para embasamento, passam a requerer grandes investimentos na sua construção, como as nomenclaturas de atividade econômica e de ocupações. Observa, ainda, que não são poucas as estatísticas que apoiam sua construção em acordos sociais, muitas vezes tácitos ou não tão aceitos, acordos estes que elas mesmas contribuíram para fixar.

[11] Outros pesquisadores, nos estertores da década de 60 e início da de 70, estavam envolvidos com essa linha de interpretação da sociedade moderna. Pode-se ressaltar as obras de Peter Drucker, The Age of Discontinuity (1969) e Alvin Toffler, Future Shock (1970).

[12] Pode-se citar a abrangente e complexa classificação dos produtos da ONU: United Nations Central Product Classification (CPC), 1998

[13] No caso das Corretoras da Bolsa de Valores chama atenção os números de transações feitas diretamente via internet. Nos EUA, em 1999, já existiam em mais de 4 milhões de contas de corretagem online. Até o ano 2003, espera-se quintuplicar esse número. (Jornal do Brasil - Suplemento Fortune, 6/07/99, p.7).

[14] São ofertas da Dell: assessorar os clientes na configuração ideal do sistema e dos equipamentos; efetuar venda direta e sob medida e sem intermediários; gerenciar a fabricação e a instalação dos equipamentos; garantir instalação on site, isto é, no local determinado; dar o suporte técnico personalizado, através de no de identificação (etiqueta) de cada equipamento e oferecer soluções para upgrade e substituição tecnológica.

[15] “Para alguns, os novos equipamentos apareciam como a promessa de um futuro resplandecente, no qual o trabalho pesado, monótono e repetitivo seria substituído por atividades mais leves, seguras e intelectualizadas e onde o tempo de trabalho seria dramaticamente reduzido e as pessoas seriam liberadas para o lazer. Para outros, o processo caminhava no sentido de uma maior degradação do trabalho, como um empreendimento voltado para a desqualificação ainda maior dos trabalhadores e para a extinção de postos de trabalho qualificados, gerando desemprego, fome e miséria.” (LEITE, 1994, p.86).

[16] No caso da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) a afinidade setor de atividade e ocupação é tal que “Para os trabalhadores por conta própria a classificação [ de atividade ] foi feita de acordo com a ocupação exercida”. (PNAD 1996: Síntese de Indicadores, p.33).

[17] Esse fenômeno foi observado através de uma busca em sites na Internet que oferecem oportunidades de trabalho nas novas atividades. Foi constatado que dentre as cerca de 60 oportunidades oferecidas a maior parte não especificava a área de origem da graduação ou da pós-graduação dos candidatos. Os cargos oferecidos eram  de gerente de conhecimento, analista de conhecimento, arquiteto de informação, gerente de redes de conhecimento, executivo de Web, Cybrarian etc. (Position Paper GT5, p.3, 2000).

[18] Definido, como unidade de levantamento estatístico, como o local de moradia (estruturalmente separado e independente) no qual residem família(s) (conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco). Para definição operacional completa, ver, por exemplo, a já citada PNAD 1996: Síntese de Indicadores.
 

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Sobre a autora / About the Author:
Rosa Maria Porcaro
Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, Doutora em Ciência da Informação.