DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.2   n.2  abr/01                       COLUNAS

Universidade Carandiru: da miséria imposta à indigência consentida
por Luiz Carlos Brito Paternostro

1. Acicate da pobreza
A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com sede em Paris, é um organismo internacional criado em 1961 como sucessor da antiga Organização Européia de Cooperação Econômica (1948), que administrava o financiamento norte-americano para a reconstrução européia logo após a Segunda Guerra Mundial. Passou a funcionar como instrumento regulador do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio, hoje ampliado e substituído pela Organização Mundial do Comércio, OMC, com objetivos e importância similares aos do FMI, do Banco Mundial e dos bancos regionais de desenvolvimento, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID). A OCDE abriga hoje os 29 países mais ricos do planeta e ,desde 1994, formula uma série de recomendações em matéria de emprego, entre as quais: "(...) Para que os assalariados permaneçam em seus postos ou aceitem qualquer condição de trabalho, há que fazê-los entender que qualquer período de inatividade será financeiramente insuportável." [ver Enciclopédia do Mundo Contemporâneo, pg. 49, S.Paulo:PubliFolha,2000].

A OCDE também fornece diagnósticos e estatísticas que pautam a ação de agências internacionais de financiamento, como o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, mais imprecisamente conhecido como Banco Mundial) e, por conseqüência, a de governos de países clientes daqueles organismos. No início do ano 2000, com base explícita naqueles diagnósticos e estatísticas, foram publicados: a) os termos de um acordo entre a Secretaria de Ensino Superior (SESu) do MEC e o BIRD, envolvendo um empréstimo de seiscentos e quinze milhões de dólares, para a implementação de um projeto (custo total de um bilhão trezentos e quarenta e cinco milhões de dólares) para a Educação Superior no Brasil, condicionado por certos pressupostos e metas de aumento da produtividade das universidades públicas; b) um protocolo de intenções subscrito por dirigentes do MEC e de 52 instituições federais de ensino superior brasileiras (IFES) relativas a certas metas a serem alcançadas sob critérios e indicadores de produtividade.

O documento BIRD e o documento MEC se baseiam nas mesmas fontes (OCDE) e praticamente se repetem.
Por exemplo, o acordo BIRD/MEC reza que "(...) a política federal para a educação superior, até recentemente, não visava o controle dos custos ou correlacionar o financiamento à produtividade(...)" e que o principal meio para o aumento da eficiência "(...)será o suporte a novos sistemas de financiamento e estatutos reguladores, sob os quais (...) a alocação de recursos está ligada à performance tal como definida pela política de prioridades do governo", e que "(...)ao fim do programa [BIRD/MEC], o alcance da educação superior terá crescido [e] o custo por graduando terá diminuído, graças a um sistema de financiamento reestruturado(...)", adiantando que "(...)a política do MEC será a de estruturar a nova fórmula de financiamento de modo a incentivar as instituições a implementar a nova estratégia e torná-las mais eficientes e seletivas nos seus custos". [ver "Report No. PID8239 - BIRD, oct-1999/april-2000"]
O documento de compromisso MEC/IFES concorda e comemora, citando explicitamente os diagnósticos da OCDE: "(...) o número de vagas das universidades federais pode aumentar 40% até 2002, sem que sejam contratados novos professores.(...)O número de servidores está em queda(...).Com isso, [a partir de 1994] a relação alunos por servidor aumentou de 7,8 para 11,2." De fato, o anexo ao documento MEC/IFES promete aumentar em quase 50 %, em 4 anos, o número de vagas no sistema federal público, com as premissas de congelamento ou redução dos gastos, do número de docentes e do número de funcionários, até pelo menos 2002. [ver "Enfrentar e Vencer Desafios", MEC, Brasília, abril de 2000, que inclui "Protocolo" Mec/Ifes].

É notável que em nenhum momento os textos dos acordos BIRD/MEC e MEC/IFES falem de "falta de recursos" ou "dificuldades inerentes ao subdesenvolvimento"; há, sim, diversas observações sobre "ineficiência" e "baixa qualidade" do ensino, a partir de comparações de índices setoriais de países com dimensões, poder econômico e características culturais muito diferentes entre si.

De forma consistente com os compromissos assumidos, o MEC e a direção da UFRJ vêm tentando aplicar no interior da maior universidade pública federal brasileira os mesmos princípios e mecanismos que parecem ter sido, até hoje, no âmbito nacional e internacional, relativamente eficazes para estimular a adesão ou resignação diante de atitudes e medidas administrativas abusivas e arbitrárias, não poucas vezes humilhantes e violentas. Isso, apesar das eventuais resistências, aliás já esperadas, mas aparentemente desprezíveis sem maiores conseqüências.

Ao par Protocolo de Intenções (MEC) / Recursos (BIRD) correspondem na UFRJ a Resolução CEG/CEPG-99.1 (Periodização e Modularização), por um lado, e os recursos do PROGRAD/PROLIG (programas de financiamento específicos para projetos e laboratórios de informática na graduação da UFRJ).

O disposto na Resolução CEG/CEPG da UFRJ, que implementa os acordos BIRD/MEC/IFES, encontra por sua vez o caminho de sua materialização nos critérios de distribuição de dinheiro do PROGRAD/PROLIG.
 

(... continua)
(...)
 
 

Enquanto o Protocolo MEC/IFES formaliza o compromisso de "diminuir as taxas de evasão e retenção" e aumentar em quase 50% a população discente ao lado da "premissa" de congelamento (ou redução) dos recursos humanos e materiais [ver pg.37-39], a Resolução da UFRJ, entre outras coisas, implementa a ampliação e intensificação do trabalho docente, a abreviação do tempo de integralização dos cursos e a desregulamentação das estruturas curriculares, tendo em vista alcançar aquelas metas nos prazos estipulados.

A alocação de recursos para as unidades via o PROGRAD/PROLIG, baseada exclusivamente em critérios de "produtividade", vincula a possibilidade mesma de sobrevivência de um curso à adoção do modelo carandiru que a Resolução regulamenta. (A Casa de Detenção exibe a eficientíssima razão de cerca de 200 detentos por funcionário, segundo Drauzio Varella, "Estação Carandiru", Companhia das Letras, S.Paulo, 1999, pg. 111).

A versão doméstica universitária da "racionalidade econômica" barganha, através do PROGRAD e do PROLIG, recursos supostamente excepcionais, mas provenientes da mesma fonte -Reitoria da UFRJ (e/ou MEC)- que não repassa ou alega não dispor das dotações orçamentárias ordinárias, constitucionalmente garantidas, necessárias ao funcionamento normal da instituição.

O PROGRAD e o PROLIG funcionam assim como instrumentos de persuasão, a serviço da Reitoria da UFRJ, ao lado das sempre oportunas excepcionalidades e dos acenos em direção ao crescimento institucional e pessoal diferenciado para os sensatos, é claro.
 
 
 

2)Consolidação da indigência
Desde o ponto de vista dos índices e metas a serem alcançados a todo custo, atribui-se à nova periodização (apelidada de reforma pedagógica e curricular) o poder mágico de realizar (segundo certas simulações alucinadas, isto é, prescindindo de qualquer levantamento minimamente consistente sobre a situação real das unidades), de um só golpe:
-o enxugamento dos cursos, dos currículos e dos conteúdos - a uniformização das disciplinas e o cômputo por equivalentes-hora, a eliminação dos pré-requisitos, reduzindo o escandaloso déficit docente e material a uma questão de racionalidade na alocação dos recursos;
-o encurtamento do tempo de integralização dos cursos e da permanência do estudante na universidade, procurando, dessa forma, atender aos índices de produtividade (OCDE/PROGRAD);
-a intensificação da carga docente em sala de aula, critério privilegiado de avaliação profissional e institucional e meio de esvaziamento do espaço reflexivo;
-a integração e universalização cega das avaliações e dos procedimentos (GED, Provão), com a sua automatização e centralização (Sigma, SIG, SIRA) e com o enfraquecimento dos Conselhos, Congregações, Departamentos e Coordenações como instâncias avaliadoras e deliberativas autônomas;
-a preparação para o treinamento à distância (Unirede e vários cursos avulsos que a UFRJ já oferece), por computador ou por correio, com suplementar precarização e intensificação do trabalho do docente e do pós-graduando desviado de sua atividade, em detrimento da pesquisa, da extensão e do direito ao repouso e à reflexão;
-a transmutação e consolidação das relações de pertencimento, convivência e formação universitárias como transação comercial: de um lado o "estudante" cliente e do outro a "universidade" prestadora de serviços.

As conseqüências mais imediatas dessa política pervertida já são evidentes. De cabeça para baixo, partindo das divisões de grade para os currículos, das exigências de carga horária para os conteúdos, das restrições para a especificação das necessidades, dos índices e projeções para as realidades, em ensaios irresponsáveis e onerosos com base em simulações apressadas (nos poucos casos em que foram feitas) e muita arrogância, a administração da UFRJ está construindo o maior índice de evasão de sua história, os piores concursos vestibulares que a instituição já viveu, o pior sistema administrativo e de avaliação que jamais teve -e que, pela gravidade e quantidade das ilegalidades praticadas, fragiliza a instituição ao ponto de comprometer a sua sobrevivência-, um ambiente corrompido de relações baseadas na desconfiança mútua e na barganha, enfim, um clima inóspito para o exercício da crítica, da convivência saudável e do pensamento independente.

É nesse quadro que as ações organizadas dos estudantes, funcionários e docentes podem e devem conduzir a um melhor conhecimento das nossas dificuldades, compartilhando informações, resistindo às arbitrariedades das administrações, expondo e ajudando a estabelecer a responsabilidade daqueles que, pelos mais diversos motivos, contribuem para a decomposição do patrimônio cultural que a UFRJ representa. Se hoje ainda há uma universidade pública brasileira para o nosso orgulho, devemos isso à resistência daqueles que sempre acreditaram nela. A universidade vive. Viva a Universidade.
 

(Publicado no Boletim 12/03/01 da Seção Sindical dos Docentes da UFRJ - ANDES-SN)


Luiz Carlos Brito Paternostro
Professor Adjunto da Escola de Comunicação da UFRJ