O livro reproduz uma conferência proferida no dia 5 de junho de
1994, em Londres, em um colóquio internacional sobre o tema Memória:
a questão dos arquivos.
Derrida se refere ao conceito de arquivo com uma configuração,
a um só tempo, técnica, politica, ética e jurídica.
Mostra que os desastres que marcam o fim do milênio são tambem
arquivos do mal: dissimulados ou destruídos, interditados, desviados,
recalcados. O Arquivo não renuncia jamais a se apropriar de um poder
sobre o documento, sobre sua detenção, retenção
ou interpretação. Mas a quem cabe, em última instância,
a autoridade sobre a instituição do arquivo? O poder de consignação
dos arquivos é definido como designar uma residência ou confinar,
pondo em reserva, em um lugar e um suporte; consignar é o ato de
reunir signos.
O mal de arquivo é hoje fabricado por uma produção forçada do presente pelos meios de comunicação de massa e pelas tecnologias intensas de informação que constróem um presente autista que acredita bastar-se a si mesmo. Debilitam o passado e a consciência histórica pela descontextualização no tratamento do fato. Os meios massivos debilitam o passado e diluem a necessidade de futuro, o tempo da memória é a dos shows de realidade dos espetáculos do presente. Também, em uma ambiência de tecnologia da informação em que vivemos, a velocidade de acesso e transferência da informação se aproximam do infinito, fazendo o tempo e o espaço da informação tenderem a zero. Neste mundo de velocidade (informação) infinita, passado e futuro como que desabam no presente, como se este presente fosse a única dimensão do tempo, e aí todas as memórias seriam, de uma certa forma, clandestinas, transferidas para um domicílio no presente, entre o passado e o futuro. Memórias que, no presente, são de um futuro não realizado no passado e que quer ser redimido.
Não há memória sem conflito ou tensão,
e, pelas características dos sistemas de informação
em épocas de novas tecnologias, para cada memória lembrada
existirá muita memória excluída.
Os sistemas de informação, por sua racionalidade técnica
e produtivista, operam conscientemente um ocultamento da informação
consignada por criterios de exclusão atuando:
1. na seleção do que vai entrar na memória;Mas, na verdade, não se renuncia com facilidade a um inconsciente, mesmo que uma temporalidade opressora, fruto dos meios e da técnica, pretenda se apropriar das consignações da memória. Embora a memória redimida, com sua domicilização sofra, também, do mal do arquivo. O “saber de cor”, o endereço certo, trabalham a priori contra o próprio arquivo.
2. no formato e reformatação do documento;
3. nas linguagens de inscrição dos textos.
Recensão escrita por Aldo
de Albuquerque Barreto