DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.9   n.2 abr/08                            RECENSÕES

Para entender a Ciência da Informação

Org: Lidia Maria Batista Brandão Toutain

Editora da Universidade Federal da Bahia - Edufba

ISSB - 978-85-232-o477-8

edufba@ufba.br

lbrandao@ufba.br


Apresentação

A escolha desde título - Para entender a ciência da informação - nasceu das discussões que permearam a definição do método e objeto deste domínio do conhecimento. Fica então evidente que, para dar conta do que se propõe esta obra, nela estão reunidos textos, de vários especialistas e pesquisadores, que Interessam, principalmente, a reflexão crítica de estudantes de Graduação e pós-graduação nesta área.

Trata-se de um volume que integra a Coleção Sala de Aula, criada pela Editora da Universidade Federal da Bahia - Edufba com o objetivo de estimular a produção acadêmica vinculada ao ensino.

A primeira parte, cujos textos são de Aldo de Albuquerque Barreto Barreto, Jaime Robredo e Maria da Paixão Neres de Souza, focaliza a história e as teorias da ciência da informação - os momentos fundamentais de sua prática discursiva, Isto é, como se formaram seus enunciados, em que consistem sua epistemologilzação, cientiflcidade e formalização. Logo em seguida, Lídia Brandão Toutain discute e analisa, à luz da ontologia e da semiótica, a representação da informação visual.

A segunda parte trata da organização do conhecimento e sua relação com a informação. Rosali Fernandes tematiza os processos de produção, tratamento e disseminação da informação, bem como a trajetória da comunicação do conhecimento. Suzana Mueller mostra o que se entende por literatura científica, seus modos de comunicação e o papel que tem, nesse âmbito, a ciência da informação. María Ángeles Cabrera Gonzáles, ao analisar, na sociedade contemporânea, o que é comunicativo e informacional, ressalta o poder crescente das audiências e do jornalismo participativo.

Na terceira parte, Rubén Urbizagástegui Alvarado e Yves-François Le Coadic escrevem sobre a prática social da ciência da informação, a abrang ência e complexidade de tudo que hoje se considera como  bibliométrico e infométrico. Helio Kuramoto demonstra como e porque não pode haver desenvolvimento nacional sem informação científica.

Em suma, um livro que, longe do academicismo convencional. não apenas corresponde , em precisão e clareza, ao título, mas instiga o leitor a pensar o que significa, em seus múltiplos aspectos, a ciência da informação, como um novo, rico e fecundo campo do saber.

Lidia Maria Batista Brandão Toutain

Sumário

Apresentação

Uma história da ciência da Informação
Aldo de Albuquerque Barreto

Filosofia da ciência da informação
Jaime Robredo

Abordagem Inter e transdisciplinar
Maria da Paixão Neres de Souza

Representação da informação visual
Lídia Brandão Toutain

Organização do conhecimento
Rosali Fernandez de Souza

Literatura científica, comunicação científica
Suzana Pinheiro Machado Mueller

Acesso livre
Hélio Kuramoto

La era de Ia partlcipación
Maria Ángeles Cabrera González

A bibliometria
Rubén Urbizagástegui Alvarado

A matemática da Informação
Yves-François Le Coadic


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O Presente do Fazedor de Machados *
Burke, J. / Ornstein, R.
Editora: Bertrand Brasil
Rio de Janeiro, 1998. 350p. (1995)
Categoria: Sociologia

“Este é um livro sobre as pessoas que nos deram o mundo em troca de nossas mentes”. Essas pessoas são os “fazedores de machados” do título, “cujas descobertas e inovações vêm, há milhares de anos, presenteando poder sob inúmeras formas” (p.15). Acho que é uma história que nós, profissionais da informação, precisamos ouvir e refletir, pois é também um pouco da nossa história.

Para os autores, a cada vez que os fazedores de machados ofereciam presentes à humanidade, tais como novas maneiras de produzir riqueza e segurança, os humanos mudavam o mundo em que viviam com esses instrumentos de poder. E ao mudar o mundo “mudávamos nossas mentes, porque cada presente redefinia nosso modo de pensar, os valores e as verdades por que vivíamos e morríamos” (p.15). E vem sendo assim desde o tempo dos machados de pedra, muito antes da evolução biológica criar a espécie de humanos que somos ― “sábios dos sábios”.

“Quem e o que são os fazedores de machado desta fábula? Originalmente, eram remotos hominídeos que tinham talento para moldar as pedras ... e por assim fazer, criar instrumentos que iriam recortar o mundo. Esta capacidade fazedora-de-machados de realizar coisas na ordem apropriada é um dos muitos talentos naturais do cérebro” (p.17).

Burke e Ornstein entendem que a mudança mais significativa na carreira dos fazedores de machados ocorreu quando “há cerca de 30 mil anos, enquanto a temperatura em declínio fazia perigar o suprimento de comida e a sobrevivência começava a exigir tipos de organização cada vez mais eficientes, ... um novo e extraordinário tipo de artefato apareceu pela primeira vez” (p.45-7).


“O novo instrumento deve ter parecido absolutamente mágico, e é tentador vê-lo na origem do antiqüíssimo mito da varinha de condão. Ele parece representar o primeiro uso deliberado e preciso de um aparato destinado a estender a memória, porque com ele o conhecimento podia ser mantido como registro fora do cérebro ou de uma seqüência ritual. Tais objetos mágicos, chamados de “bastões” pelos arqueólogos modernos, são feitos de ossos ou chifres entalhados. ... Cada sinal entalhado no bastão era feito com um golpe de uma ferramenta de tipo especial. ... Com toda a probabilidade, as gravações representam a primeira forma de notação informacional. Sua mera existência é prova do estágio altamente desenvolvido da inteligência de seus autores” (p.48).

Nesse sentido, qualquer semelhança com nossos atuais pen drives, ou memórias eletrônicas expandidas onde estocamos informações, não é mera coincidência mas uma reincidência. A tecnologia muda, mas a função permanece ― registrar e preservar a informação sobre o mundo, diminuir a incerteza dos humanos sobre o meio ambiente.

“Esses bastões maravilhosos indicam capacidade de abstrair e simbolizar. Revelam também uma capacidade altamente desenvolvida de observar e registrar os fenômenos celestes. ... Um instrumento como o bastão permitiu a codificação da natureza em símbolos duráveis que podiam ser utilizados e reutilizados pela imaginação para manipular o mundo. ... Os bastões deram ... ao xamã ... a capacidade de prever os acontecimentos antes de eles ocorrerem, como o degelo e a chegada do salmão. O sucesso dos novos instrumentos fica evidente no fato de que todos os bastões [encontrados em sítios arqueológicos], com pouquíssimas exceções, exibem sinais de uso contínuo” (p.49).

Portanto, o bastão do xamã guardava a memória de eventos naturais registrados em sinais codificados de uma forma que apenas os “iniciados” naquela linguagem específica poderiam decifrar. Um almanaque primordial, perfeitamente portátil, com as informações básicas sobre as regularidades de uma natureza aparentemente caótica. Um instrumento representativo, por si só, de poder e domínio intelectual sobre a natureza.

“Mas, acima de tudo, a simples presença dessas varinhas de condão anuncia um novo tipo de conhecimento, diferente talvez de tudo o que as precedera. O bastão não era apenas um machado de pedra moldado por uma técnica misteriosa, desconhecida da maioria [mas] cuja finalidade podia ... ser apreciada pelo uso. .. Os símbolos eram a prova visível da existência de um tipo de conhecimento artificial do mundo que conferia poder àqueles que sabiam como usá-lo” (p.50). Esse novo tipo de conhecimento iria se desenvolver cada vez mais, a partir do prodigioso presente da escrita alfabética.

A escrita permitiu a reprodução do mundo através de símbolos e deu às primitivas comunidades agrícolas uma nova maneira de descrever e registrar o mundo. “A nova técnica iria constituir-se em um método radicalmente diferente de gerar conhecimento, um modo sem paralelo de manipular informação externa à mente e, o mais importante, um poderoso instrumento de controle social (p.60). ... Mais importante que tudo, talvez, o alfabeto era outro daqueles presentes de fazedor de machados que iriam mudar o modo de funcionamento do cérebro humano e, por conseguinte, a maneira de os humanos alfabéticos encararem a si mesmos e sua relação com o mundo” (p.87).

A combinação de mudanças cognitivas no cérebro, decorrentes do processo de desenvolvimento do pensamento alfabético, com uma ordem social desenvolvida, a produção estável de suprimentos alimentares e a segurança comunitária tornaram possível o primeiro salto em direção ao moderno conhecimento consciente. Pois o estabelecimento de uma cultura letrada permitiu aos humanos certo distanciamento entre “pensador” e “pensamento”, por meio não somente da externalização da memória mas do próprio processo de pensamento.

Essa maneira de tratar o conhecimento como artefato iria separar o grupo dos fazedores de machados dos demais grupos sociais, fazendo do conhecimento um mundo novo em si mesmo, a ser recortado e segmentado por especialistas. Essa mudança, segundo Burke e Ornstein, pode ser observada no decorrer apenas de um século de cultura grega, “durante o qual certo modo de olhar o mundo analiticamente, passo-a-passo, adquiriu proeminência sobre a base do desenvolvimento de novos procedimentos para a aquisição e análise do conhecimento (p.89). ... O estoque externo também divulga o pensamento, de modo que as idéias podem ser avaliadas, comentadas e criticadas. A ciência é, talvez, o mais poderoso exemplo do que esta capacidade pode propiciar” (p.86).

Os autores observam que ao longo da história humana os papéis sociais desempenhados por fazedores de machados têm sido os de “xamã, astrônomo, editor, cardeal, engenheiro, filósofo e físico quântico” (p.17). A lista, entretanto, está incompleta, muito especialmente porque lhes faltou incluir “guardião do conhecimento”, ou bibliotecário, ou, neste nosso tempo de web e wap, profissional da informação.

Porque o fazedor de machados que constitui nosso arquétipo profissional teve um papel fundamental na construção da sociedade da informação em que vivemos. Agora, quando a informação se torna um instrumento valioso para promoção da mudança na mentalidade humana, apontada pelos autores como crucial para nossa sobrevivência, nos defrontamos com esse aspecto “guardião” da profissão, que aponta na conhecida direção do controle do conhecimento.

Mas pode ter chegado o tempo de escolher entre a metáfora dos talentos (‘a quem muito tem muito será dado, mas a quem nada tem até isso lhe será tirado’, versão livre) e a do semeador, a partir da qual podemos entender nossa função social como a de “transmitir o conhecimento para aqueles que dele necessitam, na sociedade” (cf. Wersig e Neveling, 1975 citados por Freire, 2001). “Eis que saiu um semeador a semear”, conforme narra Mateus, e na sua trilha de sementes não excluiu nenhum terreno.

Da nossa semeadura fazem parte ações como os arquivos abertos, tecnologia que permitiu, entre outras possibilidades, o incremento de periódicos científicos em todas as áreas científicas e a difusão de conhecimentos promovida pelos próprios cientistas, nos repositórios temáticos. Fazem parte, também, as ações de inclusão digital em comunidades economicamente desfavorecidas, em escolas públicas de todos os níveis, as discussões sobre políticas para democratização da informação, a disponibilidade do governo eletrônico, o desenvolvimento e uso do software livre, a possibilidade de construção de uma inteligência coletiva em comunidades de prática...

Mas, talvez, a exemplo do que fizeram Otlet e La Fontaine, seja necessário fazer muito mais do que prover o acesso à informação e às tecnologias que a conformam, muito mais do que propiciar as competências para transformar informação em conhecimento. Como esses pioneiros da informação fizeram, a seu tempo, será necessário unir as mentes e corações que pulsam no campo da informação, colocar nosso conhecimento em ação com a consciência de que somos parte dos fazedores de machados empenhados em promover uma nova mente para um novo mundo. Um mundo para todos.

Isa Maria Freire


* Publicado inicialmente na Revista PBCIB, v.2, n.2, 2007 do Ibict.