Para entender a Ciência da Informação
Org: Lidia Maria Batista Brandão Toutain
Editora da Universidade Federal da Bahia - Edufba
ISSB - 978-85-232-o477-8
lbrandao@ufba.br
Apresentação
A escolha desde título - Para entender a ciência da informação - nasceu das
discussões que permearam a definição do método e objeto deste domínio do
conhecimento. Fica então evidente que, para dar conta do que se propõe esta
obra, nela estão reunidos textos, de vários especialistas e pesquisadores,
que Interessam, principalmente, a reflexão crítica de estudantes de
Graduação e pós-graduação nesta área.
Trata-se de um volume que integra a Coleção Sala de Aula, criada pela
Editora da Universidade Federal da Bahia - Edufba
com o objetivo de estimular a produção acadêmica vinculada ao ensino.
A primeira parte, cujos textos são de Aldo de Albuquerque Barreto Barreto,
Jaime Robredo e Maria da Paixão Neres de Souza, focaliza a história e as
teorias da ciência da informação - os momentos fundamentais de sua prática
discursiva, Isto é, como se formaram seus enunciados, em que consistem sua
epistemologilzação, cientiflcidade e formalização. Logo em seguida, Lídia
Brandão Toutain discute e analisa, à luz da ontologia e da semiótica, a
representação da informação visual.
A segunda parte trata da organização do conhecimento e sua relação com a
informação. Rosali Fernandes tematiza os processos de produção, tratamento e
disseminação da informação, bem como a trajetória da comunicação do
conhecimento. Suzana Mueller mostra o que se entende por literatura
científica, seus modos de comunicação e o papel que tem, nesse âmbito, a
ciência da informação. María Ángeles Cabrera Gonzáles, ao analisar, na
sociedade contemporânea, o que é comunicativo e informacional, ressalta o
poder crescente das audiências e do jornalismo participativo.
Na terceira parte, Rubén Urbizagástegui Alvarado e Yves-François Le Coadic
escrevem sobre a prática social da ciência da informação, a abrang ência e
complexidade de tudo que hoje se considera como bibliométrico e
infométrico. Helio Kuramoto demonstra como e porque não pode haver
desenvolvimento nacional sem informação científica.
Em suma, um livro que, longe do academicismo convencional. não apenas corresponde , em precisão e clareza, ao título, mas instiga o leitor a pensar o que significa, em seus múltiplos aspectos, a ciência da informação, como um novo, rico e fecundo campo do saber.
Lidia Maria Batista Brandão Toutain
Sumário
Apresentação
Uma história da ciência da Informação
Aldo de Albuquerque Barreto
Filosofia da ciência da informação
Jaime Robredo
Abordagem Inter e transdisciplinar
Maria da Paixão Neres de Souza
Representação da informação visual
Lídia Brandão Toutain
Organização do conhecimento
Rosali Fernandez de Souza
Literatura científica, comunicação científica
Suzana Pinheiro Machado Mueller
Acesso livre
Hélio Kuramoto
La era de Ia partlcipación
Maria Ángeles Cabrera González
A bibliometria
Rubén Urbizagástegui Alvarado
A matemática da Informação
Yves-François Le Coadic
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O Presente do Fazedor de Machados *
Burke, J. / Ornstein, R.
Editora: Bertrand Brasil
Rio de Janeiro, 1998. 350p. (1995)
Categoria: Sociologia
“Este é um livro sobre as pessoas que nos deram o mundo em troca de nossas
mentes”. Essas pessoas são os “fazedores de machados” do título, “cujas
descobertas e inovações vêm, há milhares de anos, presenteando poder sob
inúmeras formas” (p.15). Acho que é uma história que nós, profissionais da
informação, precisamos ouvir e refletir, pois é também um pouco da nossa
história.
Para os autores, a cada vez que os fazedores de machados ofereciam presentes à
humanidade, tais como novas maneiras de produzir riqueza e segurança, os humanos
mudavam o mundo em que viviam com esses instrumentos de poder. E ao mudar o
mundo “mudávamos nossas mentes, porque cada presente redefinia nosso modo de
pensar, os valores e as verdades por que vivíamos e morríamos” (p.15). E vem
sendo assim desde o tempo dos machados de pedra, muito antes da evolução
biológica criar a espécie de humanos que somos ― “sábios dos sábios”.
“Quem e o que são os fazedores de machado desta fábula? Originalmente, eram
remotos hominídeos que tinham talento para moldar as pedras ... e por assim
fazer, criar instrumentos que iriam recortar o mundo. Esta capacidade
fazedora-de-machados de realizar coisas na ordem apropriada é um dos muitos
talentos naturais do cérebro” (p.17).
Burke e Ornstein entendem que a mudança mais significativa na carreira dos
fazedores de machados ocorreu quando “há cerca de 30 mil anos, enquanto a
temperatura em declínio fazia perigar o suprimento de comida e a sobrevivência
começava a exigir tipos de organização cada vez mais eficientes, ... um novo e
extraordinário tipo de artefato apareceu pela primeira vez” (p.45-7).
“O novo instrumento deve ter parecido absolutamente mágico, e é tentador vê-lo
na origem do antiqüíssimo mito da varinha de condão. Ele parece representar o
primeiro uso deliberado e preciso de um aparato destinado a estender a memória,
porque com ele o conhecimento podia ser mantido como registro fora do cérebro ou
de uma seqüência ritual. Tais objetos mágicos, chamados de “bastões” pelos
arqueólogos modernos, são feitos de ossos ou chifres entalhados. ... Cada sinal
entalhado no bastão era feito com um golpe de uma ferramenta de tipo especial.
... Com toda a probabilidade, as gravações representam a primeira forma de
notação informacional. Sua mera existência é prova do estágio altamente
desenvolvido da inteligência de seus autores” (p.48).
Nesse sentido, qualquer semelhança com nossos atuais pen drives, ou
memórias eletrônicas expandidas onde estocamos informações, não é mera
coincidência mas uma reincidência. A tecnologia muda, mas a função permanece ―
registrar e preservar a informação sobre o mundo, diminuir a incerteza dos
humanos sobre o meio ambiente.
“Esses bastões maravilhosos indicam capacidade de abstrair e simbolizar. Revelam
também uma capacidade altamente desenvolvida de observar e registrar os
fenômenos celestes. ... Um instrumento como o bastão permitiu a codificação da
natureza em símbolos duráveis que podiam ser utilizados e reutilizados pela
imaginação para manipular o mundo. ... Os bastões deram ... ao xamã ... a
capacidade de prever os acontecimentos antes de eles ocorrerem, como o degelo e
a chegada do salmão. O sucesso dos novos instrumentos fica evidente no fato de
que todos os bastões [encontrados em sítios arqueológicos], com pouquíssimas
exceções, exibem sinais de uso contínuo” (p.49).
Portanto, o bastão do xamã guardava a memória de eventos naturais
registrados em sinais codificados de uma forma que apenas os “iniciados” naquela
linguagem específica poderiam decifrar. Um almanaque primordial, perfeitamente
portátil, com as informações básicas sobre as regularidades de uma natureza
aparentemente caótica. Um instrumento representativo, por si só, de poder e
domínio intelectual sobre a natureza.
“Mas, acima de tudo, a simples presença dessas varinhas de condão anuncia um
novo tipo de conhecimento, diferente talvez de tudo o que as precedera. O bastão
não era apenas um machado de pedra moldado por uma técnica misteriosa,
desconhecida da maioria [mas] cuja finalidade podia ... ser apreciada pelo uso.
.. Os símbolos eram a prova visível da existência de um tipo de conhecimento
artificial do mundo que conferia poder àqueles que sabiam como usá-lo” (p.50).
Esse novo tipo de conhecimento iria se desenvolver cada vez mais, a partir do
prodigioso presente da escrita alfabética.
A escrita permitiu a reprodução do mundo através de símbolos e deu às primitivas
comunidades agrícolas uma nova maneira de descrever e registrar o mundo. “A nova
técnica iria constituir-se em um método radicalmente diferente de gerar
conhecimento, um modo sem paralelo de manipular informação externa à mente e, o
mais importante, um poderoso instrumento de controle social (p.60). ... Mais
importante que tudo, talvez, o alfabeto era outro daqueles presentes de fazedor
de machados que iriam mudar o modo de funcionamento do cérebro humano e, por
conseguinte, a maneira de os humanos alfabéticos encararem a si mesmos e sua
relação com o mundo” (p.87).
A combinação de mudanças cognitivas no cérebro, decorrentes do processo de
desenvolvimento do pensamento alfabético, com uma ordem social desenvolvida, a
produção estável de suprimentos alimentares e a segurança comunitária tornaram
possível o primeiro salto em direção ao moderno conhecimento consciente. Pois o
estabelecimento de uma cultura letrada permitiu aos humanos certo distanciamento
entre “pensador” e “pensamento”, por meio não somente da externalização da
memória mas do próprio processo de pensamento.
Essa maneira de tratar o conhecimento como artefato iria separar o grupo dos
fazedores de machados dos demais grupos sociais, fazendo do conhecimento um
mundo novo em si mesmo, a ser recortado e segmentado por especialistas. Essa
mudança, segundo Burke e Ornstein, pode ser observada no decorrer apenas de um
século de cultura grega, “durante o qual certo modo de olhar o mundo
analiticamente, passo-a-passo, adquiriu proeminência sobre a base do
desenvolvimento de novos procedimentos para a aquisição e análise do
conhecimento (p.89). ... O estoque externo também divulga o pensamento, de modo
que as idéias podem ser avaliadas, comentadas e criticadas. A ciência é, talvez,
o mais poderoso exemplo do que esta capacidade pode propiciar” (p.86).
Os autores observam que ao longo da história humana os papéis sociais
desempenhados por fazedores de machados têm sido os de “xamã, astrônomo, editor,
cardeal, engenheiro, filósofo e físico quântico” (p.17). A lista, entretanto,
está incompleta, muito especialmente porque lhes faltou incluir “guardião do
conhecimento”, ou bibliotecário, ou, neste nosso tempo de web e wap,
profissional da informação.
Porque o fazedor de machados que constitui nosso arquétipo profissional teve um
papel fundamental na construção da sociedade da informação em que vivemos.
Agora, quando a informação se torna um instrumento valioso para promoção da
mudança na mentalidade humana, apontada pelos autores como crucial para nossa
sobrevivência, nos defrontamos com esse aspecto “guardião” da profissão, que
aponta na conhecida direção do controle do conhecimento.
Mas pode ter chegado o tempo de escolher entre a metáfora dos talentos (‘a quem
muito tem muito será dado, mas a quem nada tem até isso lhe será tirado’, versão
livre) e a do semeador, a partir da qual podemos entender nossa função social
como a de “transmitir o conhecimento para aqueles que dele necessitam, na
sociedade” (cf. Wersig e Neveling, 1975 citados por Freire, 2001). “Eis
que saiu um semeador a semear”, conforme narra Mateus, e na sua trilha de
sementes não excluiu nenhum terreno.
Da nossa semeadura fazem parte ações como os arquivos abertos, tecnologia que
permitiu, entre outras possibilidades, o incremento de periódicos científicos em
todas as áreas científicas e a difusão de conhecimentos promovida pelos próprios
cientistas, nos repositórios temáticos. Fazem parte, também, as ações de
inclusão digital em comunidades economicamente desfavorecidas, em escolas
públicas de todos os níveis, as discussões sobre políticas para democratização
da informação, a disponibilidade do governo eletrônico, o desenvolvimento e uso
do software livre, a possibilidade de construção de uma inteligência coletiva em
comunidades de prática...
Mas, talvez, a exemplo do que fizeram Otlet e La Fontaine, seja necessário fazer
muito mais do que prover o acesso à informação e às tecnologias que a conformam,
muito mais do que propiciar as competências para transformar informação em
conhecimento. Como esses pioneiros da informação fizeram, a seu tempo, será
necessário unir as mentes e corações que pulsam no campo da informação, colocar
nosso conhecimento em ação com a consciência de que somos parte dos fazedores de
machados empenhados em promover uma nova mente para um novo mundo. Um mundo para
todos.
Isa Maria Freire
* Publicado inicialmente na Revista PBCIB, v.2, n.2, 2007
do Ibict.