Resumo: Propõem-se uma visão da característica
interdisciplinar da Ciência da Informação como um "tear
de tecer significados", no campo científico. Nessa perspectiva,
o modelo de rede conceitual de Wersig e o paradigma indicário de
Ginzburg são vistos como os fios de uma urdidura conceitual a partir
da qual cientistas da informação podem tecer suas abordagens
sobre a problemática da informação.
Palavras chave: Ciência da Informação,
Interdisciplinaridade, Modelo conceitual.
Abstract: The authors propose an interdisciplinary
vision of of Information Science as a "framework of weaving meanings",
in the scientific field. In that perspective, the Wersig's conceptual net
and the Ginzburg's signs paradigm they can be seen as a conceptual warp
starting from which information scientists can weave its approaches on
information problems.
Keywords: Information Science, Interdisciplinary,
Conceptual model.
Bunge tem uma opinião muito rigorosa com relação
à existência de "teoria" nas ciências sociais: nesta
área, seria mais comum encontrarmos quadros teóricos, ou
contexto, que ele define como,
A proposta de abordagem de problemas tem sido uma
característica metodológica da ciência da informação,
como mostra Saracevic:
Saracevic [5] coloca
que os problemas de informação, enquanto fenômeno da
comunicação humana, não podem ser abordados dentro
de uma única área da atividade científica. Por isso,
torna-se necessário o desenvolvimento de abordagens teóricas
e metodológicas que favoreçam a interdisciplinaridade e permitam
o relacionamento da ciência da informação com outros
campos científicos. Para ele, isto significa que
Mostafa reitera o reconhecimento da característica
interdisciplinar que distingue a ciência da informação,
formulando sua abordagem de uma perspectiva epistemológica como
uma contingência e um paradoxo, pois
... Ser uma disciplina é se aproximar da realidade com uma certa disciplina. São os recortes possíveis. ... É a comunidade científica (e apenas ela) quem define onde fazer os cortes e como encaminhar métodos de estudar os pedaços recortados do real. ... Os espaços que sobram entre os cortes ... são espaços interdisciplinares. ... A interdisciplinaridade ... é a contradição inevitável gerada pela hiper-racionalização a que chegou a ciência moderna. Produto e resultado da dispersão do conhecimento. ...". [7]
Para Demo, se a "disciplinarização"
pode ser vista como especialização do conhecimento científico
(para ele sinônimo de "ciência"), seu processo oposto, "interdisciplinarização",
poderia ser compreendido como um retorno à figura do "sábio
universal", do generalista entre especialistas. Mas ele assinala que a
complexidade da realidade aponta para o fato de que "generalidades" e "interdisciplinaridade"
também estão distantes uma da outra, sendo esta última.
Nesse sentido, podemos "ver" a ciência
da informação como um tear interdisciplinar, onde se pode
tecer uma rede com fios conceituais de outros campos científicos
para capturar o sentido de uma dada problemática na perspectiva
da informação, como proposto por Wersig [9].
No seu texto, ele sugere a imagem do pássaro-tecelão
[10] como metáfora para o campo da ciência
da informação - que poderia vir a tornar-se um sistema
de navegação conceitual na abordagem de problemas
da informação, na sociedade contemporânea . [11]
2. A propósito do pássaro-tecelão
Wersig deixa claro que seu ponto de vista é o da ciência da informação, mas reconhece que, ao tomar como perspectiva o novo papel do conhecimento na sociedade contemporânea, pode parecer que tenha adotado a perspectiva da "filosofia da ciência" - quem sabe uma "filosofia do conhecimento", que estaria muito próxima das novas ciências pós-modernas. Ele considera que, sendo bastante direcionado pela necessidade de lidar com problemas, o trabalho desse novo tipo de ciência não se restringiria a enunciados e conceitos, mas se ampliaria até a proposição de estratégias para lidar com problemas.
No campo da ciência da informação,
O segundo modelo sugerido por Wersig propõe
uma estrutura teórica modelada pela reformulação
científica de "inter-conceitos", redesenhados para os
propósitos do campo da ciência da informação.
Nesse contexto,
Dessa forma, seria tecida uma proto-rede de conceitos
básicos em ciência da informação, a partir da
qual outros indivíduos ou grupos poderiam encontrar e entretecer
outros fios soltos, fazendo a rede ainda mais inclusiva e mais apertada,
de modo a aumentar seu caráter científico. A estrutura de
uma rede centrada ao redor do conceito "conhecimento", tal como formulada
por Wersig, é mostrada na figura 1:
Fig. 1 - Modelo de "rede conceitual"
Fonte: Wersig, 1993
No texto, Wersig desenvolve sua "rede" a partir da
idéia de uma mudança real no papel do conhecimento para indivíduos,
organizações e culturas. Dessa forma, acredita, é
possível entretecer os fios conceituais urdidos em outros campos
científicos no tear da ciência da informação
[15]. No presente exercício, agregamos
à rede de Wersig o método indiciário sugerido
por Ginzburg e que apresentamos agora.
3. O paradigma indiciário
Esse paradigma, segundo Ginzburg, tem raízes
muito antigas, que remontariam à própria evolução
da humanidade.
Gerações e gerações de caçadores enriqueceram e transmitiram esse patrimônio cognoscitivo. ..." [16]
O paradigma indiciário se traduz
em "um saber de tipo venatório", caracterizado pela capacidade de,
a partir de dados aparentemente irrelevantes, descrever uma realidade complexa
que não seria cientificamente experimentável. Pode-se acrescentar
que esses dados são sempre dispostos pelo observador [um caçador,
p.ex.] de modo tal que possa se traduzir numa seqüência narrativa,
cuja formulação mais simples poderia ser "alguém passou
por aqui". Ginzburg acredita que a própria idéia de narração
(contar uma história, descrever situações e comportamentos),
distinta de outras formas de expressão, como o sortilégio,
o exconjuro ou a invocação, tenha nascido numa sociedade
de caçadores, a partir da experiência da decifração
das pistas:
... Decifrar" ou "ler" as pistas dos animais são metáforas. Sentimo-nos tentados a tomá-las ao pé da letra, como a condensação verbal de um processo histórico que levou, num espaço de tempo talvez longuíssimo, à invenção da escrita." [17]
Ginzburg compara os fios que compõem uma
pesquisa desenvolvida sob o paradigma indiciário aos fios
de um tapete. Colocados os conceitos básicos e definido o campo
onde se realiza a investigação, enfim, reunidos os indícios
ou pistas do objeto de estudo, a visão do observador verá
tomar forma uma "trama densa e homogênea" que será tecida
no tear do quadro de referência teórico. A coerência
do padrão desenhado pela visão do observador é verificável
"percorrendo-se o tapete com os olhos em várias direções"
[18]. O tapete é o paradigma que, a cada
vez que é usado e conforme o contexto, denomina-se venatório,
divinatório, indiciário ou semiótico.
Essa idéia, que constitui o ponto essencial do paradigma indiciário ou semiótico, penetrou nos mais variados âmbitos cognoscitivos, modelando profundamente as ciências humanas. Minúsculas particularidades paleográficas foram empregadas como pistas que permitiam reconstruir trocas e transformações culturais ..." [20]
Mas a questão que Ginzburg coloca, nesse
ponto de sua argumentação, é se um paradigma indiciário
pode ser rigoroso. Para ele, o tipo de rigor das ciências da natureza
é não apenas inatingível mas, certamente, também
indesejável para as formas de saber mais ligadas à experiência
cotidiana - mais precisamente, para
Ele ressalva que, usando-se o termo "intuição"
como sinônimo de processos racionais, será possível
resgatar antigos conceitos que fazem parte das origens da ciência,
no Ocidente, como o da firasa, em que se baseava a fisiognomonia
árabe, uma
Essa "intuição" está arraigada
nos sentidos (mesmo superando os atributos biológicos) e é
difundida no mundo todo, sem limites geográficos, históricos,
étnicos, sexuais ou de classe - é parte integrante do gênero
humano e, nesse sentido, está muito distante de qualquer forma de
privilégio social. Talvez por sua origem enraizada na fronteira
indefinível entre natureza e cultura, o paradigma indiciário
Dessa forma, o paradigma indiciário
poderia revelar a subjetividade presente na visão do observador
que investiga a realidade humana, tornando-se um dos "caminhos" através
do qual o mistério da unidade subjacente à diversidade existente
no mundo, objeto de todo conhecimento, pode adquirir um sentido. A nosso
ver, ao lado do modelo de rede conceitual de Wersig, o método
dos indícios pode se constituir num dos fios do urdimento
dos tapetes tecidos no tear interdisciplinar da ciência da informação.
E quem sabe, durante o seu ofício um tecelão de significados
venha a resgatar, do fundo do inconsciente coletivo, a preciosa informação
sobre a arte de tecer tapetes voadores ...
[1] BUNGE, M., 1980, p.160. Termos em itálico, no
original.
[2] BUNGE, M., idem, p.159 a 183.
[3] Neste ponto, o autor faz referência a: POPPER,
K.R. Conjectures and refutations: The growth of scientific knowledge. 4th
rev ed. New York: Basic Books, 1972.
[4] SARACEVIC, T., 1995.
[5] SARACEVIC, T, 1996.
[6] SARACEVIC, T, 1995.
[7] MOSTAFA, S.P., 1995.
[8] DEMO, P., 2000, p.73.
[9] WERSIG, G., 1993.
[10] Pássaro-tecelão. s.m. Qualquer pássaro
da numerosa família Ploceidae, que vive principalmente na África
e na Ásia, conhecido por construir seus ninhos mediante entrelaçamento
de diversos materiais retirados do meio ambiente onde habitam. WEBSTER´S
ENCYCLOPEDIC UNABRIDGED DICTIONARY OF THE ENGLISH LANGUAGE. N. Jersey:
Gramercy Books, 1989.
[11] "... talvez o pássaro-tecelão possa vir a
ser o símbolo da teoria da ciência da informação
[uma vez que] todas as coisas estão conectadas de alguma forma ...
No nosso caso o passo seguinte da evolução na ciência
espera para ser dado, por alguém." WERSIG, G., idem, p.238 e 239.
[12] WERSIG, G., idem, p.234. Grifo nosso. Sobre a contribuição
da teoria do caos à ciência da informação, ver
ARAUJO, V.M.R.H. de., 1994.
[13] WERSIG, G., idem, p.237.
[14] WERSIG, G., idem, p.238.
[15] Aplicamos seu modelo a uma situação no campo
científico, procurando os indícios da consciência possível
no território da literatura da ciência da informação.
Ver FREIRE, I.M., 2001.
[16] GINZBURG, C., idem, p.151.
[17] GINZBURG, C., idem, p.152.
[18] GINZBURG, C., idem, p.170.
[19] GINZBURG, C., idem, p.170.
[20] GINZBURG, C., idem, p.177.
[21] GINZBURG, C., idem, p.177.
[22] GINZBURG, C., idem, p.179.
[23] GINZBURG, C., idem, p.177.
ARAUJO, V.M.R.H. de. Sistemas de recuperação da informação: nova abordagem teórico-conceitual. Rio de Janeiro: Escola de Comunicação da UFRJ, 1994. (Tese, Doutorado em Comunicação e Cultura). Orientadores: Muniz Sodré de A. C., Gilda M. Braga
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WEBSTER´S ENCYCLOPEDIC UNABRIDGED DICTIONARY OF THE ENGLISH LANGUAGE. N. Jersey: Gramercy Books, 1989
WERSIG, G. "Information science: the study of postmodern knowledge usage".
Information
Processing & Management, v.29, n.2, 1993
Sobre as autoras / About the Authors:
Isa Maria Freire
isa@mtecnet.com.br
Doutora em Ciência da Informação
Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação
Convênio MCT/IBICT - UFRJ/ECO
Vania M. R. Hermes de Araujo
Doutora em Comunicação e Cultura
Hermes Consultores