DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.5  n.4   ago/04                            ARTIGO 04

Escondendo o Código Aberto, ou O Esoterismo Esclarecido
Open Code Hiding, or The Enlightned Esoterism
por Luiz Carlos Brito Paternostro

 
 
 

Resumo: Na construção dos programas livres por grandes contingentes de programadores voluntários organizados, é instrutivo comparar a sua relativa liberdade intelectual com a presuposição de que a produção científica moderna, por ser um empreendimento em grande escala, consumidor de enorme quantidade de recursos e conhecimentos especializados, deva ser necessariamente autoritária. O código fonte de um programa livre não é apenas "aberto", mas geralmente "coletivo", ou "socializado", por isso não pode tornar-se obscuro sem pôr em risco suas chances de aperfeiçoamento, manutenção, ou mesmo de poder passar por simples verificações de correção e de evidência. Os códigos fontes dos programas livres são e devem permanecer simples de serem interpretados. Sua divulgação é um fator indispensável de produção, assim como a sua inteligibilidade.
Palavras-chave: Autoritarismo científico; Abertura do código fonte; Inteligibilidade do código fonte; Programação de código aberto; Esoterismo científico.

Abstract: In the making of free software, by huge volunteer programming teams, it's instructive to compare their relative intellectual freedom with the assumption that large-scale modern scientific production - a very specialized knowledge and resources consuming enterprise - must be necessarily authoritarian. The source code of free software not only is open, but usually "collective", or "socialized". That's why the code can't become obscure without risk for improvement, maintenance, or even simple correction and evidence checking. The source code of free software is, and should remain, clear to understand. Its disclosure is an indispensable production factor, the same as its intelligibility.
Keywords: Scientific authoritarianism; Free software; Source code disclosure; Source code intelligibility; Open source programming; Scientific esoterism.

 
"(...)Algumas vezes tudo o que você tem a fazer é sentar e ler os fontes para entender como as coisas funcionam. Felizmente, devido à natureza de livre distribuição do Linux, é muito simples obter os fontes. Agora, se eles são simples de serem interpretados... (...)" [CONECTIVA:138, grifos meus]
Parece que se faz acima alusão à insuficiência da abertura do código e da disponibilidade dos programas fontes para o conhecimento sobre a sua construção. Quem alerta para essa suposta insuficiência não é um documento de um produto fechado, mas um manual do primeiro grande distribuidor nacional do talvez mais famoso sistema operacional livre do mundo, o GNU/Linux [1]. Abertura do código, aqui, significa a divulgação irrestrita do que o programador escreveu e a autorização, ou mesmo incentivo, para se modificar o texto original. Quando se trata de código aberto, além dos fontes são normalmente abundantes e bem-vindos os comentários, os manuais e documentação suplementar que ajudam a esclarecer os propósitos e detectar os defeitos dos programas [2]. A própria forma de construir programas abertos, muitas vezes um produto coletivo do intercâmbio de centenas de programadores, exige a inibição de hermetismos e imprecisões. Embora nem todo programa aberto seja construído através do modelo bazaar [3], de colaboração muito descentralizada, para todos vale a máxima que diz que as coisas já são bastante complicadas sem a nossa ajuda, não valendo a pena dificultá-las ainda mais.

Autoritarismo científico
O ceticismo, autêntico ou fingido, sobre a facilidade de interpretação dos códigos fontes reflete, por assim dizer, ansiedades mais profundas implantadas no imaginário social. Na construção dos programas livres por grandes contingentes de programadores voluntários organizados, é instrutivo comparar a sua relativa liberdade intelectual - que não se confunde com qualquer arbitrariedade individualista - com a presuposição de que a produção científica moderna, por ser um empreendimento em grande escala, consumidor de enorme quantidade de recursos e conhecimentos especializados, deva ser necessariamente autoritária. Há mais de cinqüenta anos, há quem visse nisso - embora não resignadamente, é verdade -, uma característica perigosa, propondo combater "este desenvolvimento insidioso de autoritarismo na ciência" através de uma educação científica que valorizasse "seu fundamento e passado humanos (its humane background)". No discurso introdutório à Comway Memorial Lecture de 22 de março de 1949, conferência que Lancelot Hogben pronunciaria em Londres sobre o autoritarismo na ciência, com o título The New Authoritarianism, seu colega e pesquisador britânico F. A. E. Crew declarou:

"Tão grandes têm sido os avanços nos vários ramos da ciência, e tão grande a especialização, que o cientista individual hoje deve, necessariamente, confiar em muita coisa. Pois bastante do que pensa e diz se apóia em alguma autoridade. O desenvolvimento das técnicas científicas tem sido tão grande que muitas delas exigem recursos além das possibilidades do cientista individual, e mesmo da maior parte das universidades. Tanto assim que as oportunidades de investigação científica têm passado, cada vez mais, para o controle de departamentos governamentais e de corporações privadas fortemente apoiadas. O resultado foi o desenvolvimento de uma enorme competição por financiamento, o que tem posto freqüentemente à prova a integridade dos cientistas individuais. Mais ainda, a velocidade e a direção que toma o desenvolvimento da pesquisa científica está sendo determinada pelos comitês governamentais e conselhos corporativos, que dão ou tomam de acordo com os seus próprios programas e políticas. A pesquisa científica em grande escala, que envolve equipes integradas sob uma direção, tem significado a substituição do indivíduo como unidade pelo grupo, que tende, por sua vez, a tornar-se cada vez maior. Este desenvolvimento é perigoso, pois, como o nosso conferencista mostrará, a índole de qualquer empreendimento em grande escala é necessariamente autoritária. [Lancelot Hogben] sugere construtivamente que, para se reagir contra este insidioso desenvolvimento de autoritarismo na ciência, é necessária uma reorientação drástica do ensino, que deverá prestar muito menos atenção à novidade do conteúdo da ciência natural e muito mais a seu fundamento e passado humanos. O cientista hoje é empregado, em grande número, pela sociedade na descoberta de conhecimentos que esta possa usar para as suas finalidades. Este emprego implica, sem dúvida, muito benefício material para o próprio cientista, já que se confere a ele tanto poder. Mas o poder pode corromper, e o cientista ao servir à sociedade pode prestar um grande desserviço à mesma ciência. Sua integridade precisa ser preservada, e não se deve retirar dele o prazer da descoberta, que é a única verdadeira recompensa. Antes que um empregado da sociedade, ele deve se tornar seu generoso benfeitor." [4]
O "prazer da descoberta", ou da invenção, é certamente um dos motores do modelo bazaar de desenvolvimento, como vimos em [3]: "Anyone, anywhere, with a good idea can contribute to either fix defects or add interesting new functionality. (Qualquer pessoa, em qualquer lugar, com uma boa idéia pode contribuir já seja para consertar defeitos ou para acrescentar novas funcionalidades interessantes.)" [Fink:138]
 

Vício e defeito
Agora, por que, se "tão difíceis de serem interpretados", entre tantos outros recursos de documentação, os fontes continuam apreciados e aparentemente informativos ao ponto de, no caso dos programas de código fechado, serem deliberadamente eliminados dos produtos por razões comerciais? Como sabemos, ao ser vendido ou licenciado, todo software torna disponível pelo menos uma versão executável dos programas que o compõem [5] e, muitas vezes, apenas isso.

Tudo que contribui para o esclarecimento pode ser considerado como favorecendo a abertura, enquanto que todo obstáculo para o entendimento das funcionalidades do código é, de fato, instrumento de uma política autoritária de segredo e de exclusão. Existem, como sabemos e podemos imaginar, inúmeros tipos de obstáculos ao conhecimento, ainda sem levar em consideração qualquer intenção explícita de sonegação de informações. Deve se dizer "explícita" aqui porque é difícil decidir até que ponto a dificuldade provém de um obstáculo que foi colocado lá intencionalmente ou do aproveitamento interessado do resultado histórico de uma prática ou relações de força anteriores.

A eficácia de um obstáculo ao conhecimento de um objeto depende do que se sabe, ou se ignora, sobre ambos, objeto e obstáculo, em particular sobre sua interação e circunstâncias envolvidas na comunicação. O código fonte ao lado de seu executável faz com que se possa obter informação inclusive sobre o dispositivo de execução. O código fonte corresponde ao que o programador vê e constrói quando programa. É o seu instrumento principal de intervenção no executável, mesmo que esporadicamente escreva trechos em linguagem de máquina tendo em vista uma maior eficiência. Não é, tampouco, linguagem privada. O que codifica e comenta pode ser compreendido por qualquer programador treinado naquele formalismo. Depende dessa compreensão comum não somente o avanço no conhecimento da área como a possibilidade de cooperação, depuração e contribuição coletiva, que é a base do software livre e de sua robustez [6]. Dizer que de nada vale o código aberto sem o conhecimento do jargão que permitiria compreendê-lo não pode servir como pretexto para se desvalorizar a riqueza de informação facultada pela abertura permanente dos fontes. O alerta sobre a dificuldade de interpretação dos fontes deve vir sempre acompanhado de indicações efetivas para a sua superação, sob pena de não servir senão para dissuadir do esforço de compreensão mais profundo, contribuindo apenas, como já dissemos, para aprofundar o autoritarismo. Desconhecer senhas não equivale a não saber escrever. A marginalidade cultural historicamente constituída poderia assimilar-se, talvez, a um processo de "criptografia natural", até mesmo a uma "criptografia de classe social", por assim dizer, mas não deveria ser confundida com a omissão deliberada de informações tendo em vista a exclusão de grandes contingentes de pessoas de outra forma capazes de compreender e utilizar conhecimentos embutidos nos produtos circulantes. Se mais não fosse, o que em um caso é defeito, no outro é vício.

Analfabytismo
Na insinuação da dúvida sobre "se eles [os fontes] são simples de serem interpretados...", apesar de ser "muito simples obter os fontes" graças "à natureza de livre distribuição do Linux"  pode-se perceber até mesmo uma certa dose de crueldade. O código livre, para sê-lo, de fato, deve permanecer acessível. Se a "natureza de livre distribuição" não fosse capaz de cumprir a sua finalidade, o código não seria livre em seu conteúdo, mas apenas "formalmente". O que acontece é que  a livre distribuição, sim, é capaz de cumprir a sua finalidade. A exigência formal de acessibilidade do código livre é apenas mais um obstáculo de proteção contra o seu fechamento, contra a expropriação privada e sua transformação em código proprietário. Aqueles que apontam, contudo, para a insuficiência da abertura formal muitas vezes são os mesmos que advogam algum fechamento, ou o fechamento absoluto, ou são indiferentes a ela. Falando de uma imperfeição, sugerem de fato uma hipocrisia. O desafio e o convite à leitura dos fontes se transforma no seu contrário. Vindo de quem vem, aludir "honestamente" à dificuldade de se interpretar o código fonte dos programas abertos, sem qualquer indicação que justifique a aparência  definitiva de um tal juízo, não parece ser um procedimento muito honesto.
Ao se interpor como obstáculo permanente à ameaça de apropriação privada e predatória [7] de um trabalho reconhecidamente de colaboração, voluntário e, muitas vezes, não remunerado, a formalidade das licenças públicas que protegem o código livre procura garantir a sobrevivência daquela forma de produção coletiva e a circulação de informação inerente a ela [8].

O código fonte é, por assim dizer, o análogo de uma partitura para o músico. As versões registram também, como lugar da produção e intervenção coletiva, os estados da interface de comunicação entre os programadores. Seu texto deve ser, desse modo, necessariamente inteligível para a comunidade que o constrói, assim como a partitura para os que sabem fazer uso dela. O fonte de um programa livre não é apenas "aberto", mas geralmente "coletivo", ou "socializado", por isso não pode tornar-se obscuro sem pôr em risco suas chances de aperfeiçoamento, manutenção, ou mesmo de poder passar por simples verificações de correção e de evidência. Por isso acompanham, sempre que possível, o código livre o manual, o comentário, o como fazer, a documentação e a doutrina, que permitem fazer, aprender a fazer e o por que fazer. O executável não exibe, a rigor, relativamente ao pretendido pelo programador, a função e a organização do programa, não exibe seu comportamento "molar" como diria um gestaltista, mas a ocasião, um comportamento "molecular" possível, fazendo sem revelar a sua intenção, por assim dizer [9]. Como vimos [10], nem mesmo a especificação formal "completa" permite, em todos os casos, o entendimento do modelo de implementação subjacente.

De fato, o argumento da "dificuldade de interpretação dos fontes" não se sustenta. Apesar das lacunas evidentes, os manuais, textos teóricos e tutoriais, avançados ou introdutórios, existem em abundância há muito tempo, principalmente na rede, o que significa, muitas vezes, "a baixo custo", de um modo geral [11]. A exclusão de grandes camadas da população do acesso à Internet não difere essencialmente da exclusão relativamente a quaisquer outros meios de conhecimento, desenvolvimento e produção. Não existe uma "pobreza digital" em oposição às "outras pobrezas". Elas costumam coincidir, como sabemos. Há, de fato, um interesse de mercado em categorizar e destacar sazonalmente em campanhas midiáticas "necessidades" específicas, distinguindo-se, por exemplo, a "pobreza tecnológica" das demais "pobrezas", o que justificaria priorizar certas despesas em detrimento de outras. Subjacente às campanhas, circula a "certeza" de que é no uso intenso de certa tecnologia, ou na sua falta, que se encontra a explicação miraculosa das dificuldades e o caminho de sua superação. Há muito tempo e em outro contexto, Severo Gomes, falando da separação entre a linguagem do uso e a linguagem da produção da informática, apontava para este equívoco interessado [12].

Ignorância mágica
Dificuldades consideradas especiais quando atribuídas à compreensão de certos materiais tecnológicos se aplicam, sob um exame mais atento, a praticamente qualquer área de conhecimento. As lacunas derivadas de práticas de segredo e sonegação de informações não se confundem com as dificuldades gerais ou específicas de compreensão de uma disciplina [13]. Como todos sabemos, podemos seguir um curso de Física, ou um curso de Estilística da Língua Portuguesa, e também podemos cursar Leitura de Código [14], Prática de Programação, Música e Matemática. Não existe variação apreciável de dificuldade entre as diversas disciplinas acadêmicas, a não ser o que deriva da profundidade pretendida do estudo e, certamente, da inclinação de cada um. Naturalmente, a "profundidade pretendida" e até mesmo a "inclinação" dependem da existência de uma massa crítica, tomada em qualquer acepção, para uma época e lugar determinados. A arqueologia é trabalho para várias vidas, assim como a arte de programar computadores. O acesso diferenciado ao treinamento formal nas diversas áreas do conhecimento, favorecidas ou não segundo a demanda sazonal do mercado, não implica uma dificuldade maior intrínseca ao conteúdo, muitas vezes superposto ou análogo, daquelas disciplinas. Não é mais fácil, ou mais difícil, aprender tal profissão porque a razão candidato-vaga no vestibular tende para zero. Para alguns, talvez seja mais difícil, ou mais fácil, continuar atuando depois de formado, mas por outras razões, geralmente exteriores ao assunto propriamente dito.
O argumento aqui é: embora convergentes, certas dificuldades de acesso e de aprendizagem dos conteúdos não se confundem com as provocadas pelo ocultamento deliberado de informações, parte de um modo específico de produção e de apropriação do trabalho [15].

Há, assim, diferenças entre desconhecer por não se desejar ou não se ter tempo para isso, desconhecer como um resultado de uma condição histórico-social, e desconhecer como conseqüência de um ato deliberado e específico de sonegação de informações. A estratificação social e cultural nem é exclusiva da informática nem se aplica especialmente a ela. Isto, apesar de os taxonomistas das novidades, em sua ansiedade por identificar e promover novas carências, anunciarem a toda hora o estado catastrófico da vida da população marginalizada dos benefícios dos computadores, os assim chamados excluídos digitais. Benefícios que se resumem normalmente à compra e ao treinamento no uso de gadgets de alta tecnologia, já que a opinião generalizada mesmo daqueles que parecem defender a inclusão não favorece o conhecimento, como se alcançá-lo fosse utópico, ou, no máximo, uma feliz conseqüência do consumo das novidades. Não tem sentido desativar uma biblioteca pública para instalar computadores com acesso a seja lá o que for, como se o trabalho de compreensão e a dificuldade do assunto pudessem ser magicamente abreviados ou contornados por "interfaces amigáveis", ou mesmo por um maior volume de materiais mais recentes. Porque, como se sabe, o entendimento não está no computador nem na largura de banda, provém de uma infinidade de fatores concorrentes que incluem tanto os instrumentos de comunicação como a qualidade das fontes, a cooperação e o esforço individual e coletivo sustentado de reflexão crítica.

Os códigos fontes, sim, são e devem permanecer simples de serem interpretados. Sua divulgação é um fator indispensável de produção, assim como a sua inteligibilidade. Pelo menos para os que são desenvolvidos como software livre, é razoável esperar que, quanto mais obscuro seja um código, menos possibilidades de contribuições pode atrair para si [16].
Agora, se isto é o que divulgam todos os supostamente encarregados de esclarecer...
 

Notas:

[1] A ponta de orgulho esotérico que se pode perceber no texto do manual da Conectiva não é, certamente, privativa da informática. Toda área de conhecimento exibe o seu jargão, de dificuldade mais ou menos genuína, como uma espécie de "conquista histórica" que a protegeria dos aventureiros não iniciados. Há muito material conhecido sobre o esoterismo científico e outros mecanismos de "proteção" seletiva tanto contra a heresia como contra a multiplicidade, alguns bem divertidos, como a antologia For and Against Method de Imre [Lakatos] e Paul Feyerabend; ou depoimentos ainda mais contundentes, como o artigo de de Slavomir Magala, "Ciência, um capricho dispendioso", sobre a autoproteção autoritária do empreendimento científico: "[Imre Lakatos](...) acaba nos transmitindo uma concepção da vida e da comunidade científicas semelhante a vários castelos medievais espalhados numa área - cada um deles com suas cores de batalha, uma cidadela central que deve ser defendida até o último soldado e um anel exterior de teorias muito mais frágeis, que podem ser abandonadas, cedidas, trocadas por outras, etc. Não existe apenas o problema da fraude e da falsificação na ciência. Também somos forçados a reconhecer que a verdade de um homem pode facilmente ser a mentira de outro, sobretudo quando nos movimentamos na frágil cadeia de anéis externos, onde teorias e observações são negociadas de modo mais ou menos livre entre as várias cidadelas.(...) há uma tendência central de incentivar o alargamento dos frágeis cordões exteriores que defendem nossas teorias e paradigmas, de modo a que o núcleo interno do programa da pesquisa científica se mostre mais atraente do que é a um maior número de aspirantes a cientista, produzindo assim uma profecia que se cumpre a si mesma." [Magala:97-98].
Orgulho e decepção, esoterismo e autoritarismo, como veremos também mais adiante. As mesmas condições necessárias a um programa para que ele seja considerado livre implicam a negação de qualquer esoterismo. "Free software means, roughly, that you are free to study what it does, free to change it, free to redistribute it, and free to publish improved versions. (Programa livre significa, grosso modo, que você é livre para estudar o que ele faz, livre para modificá-lo, livre para redistribuí-lo e livre para publicar versões aperfeiçoadas)" [Richard Stallman, Letter to the Editor of Dr. Dobb's Journal (Carta ao Editor do Dr. Dobb's Journal) http://www.gnu.org/philosophy/drdobbs-letter.html ]. Ver a recensão sobre o livro de Stallman Free Software, Free Society em http://www.dgz.org.br/ago04/Ind_rec.htm . Ver também URLs em [16], abaixo, sobre os movimentos organizados globais contra o avanço do software livre. Há alguma coisa sobre o pioneirismo da Conectiva no Brasil em http://www.linuxplace.com.br/sqush_place/1052912294/index_html.

[2] Quanto à insuficiência da especificação formal para o entendimento do modelo de implementação pretendido, ver [Wegner] (cf. http://www.dgz.org.br/out03/Art_04.htm#N2).

[3] Segundo o resumo do livro "corporativo" de Martin Fink:
"Cathedral development - este é o estilo tradicional de desenvolvimento no qual os grupos são mantidos pequenos. O projeto e a funcionalidade são bem compreendidos antes do começo do desenvolvimento. Os planos completos de arquitetura, projeto, desenvolvimento, integração e teste estão bem entendidos e documentados. Há poucos ciclos de versões durante a fase de desenvolvimento, e a retroalimentação externa é buscada somente durante os ciclos de teste alfa e beta.
Bazaar development - um mantenedor vai liberando funcionalidades que podem ser compostas e que têm alguma utilidade, mas ao pacote falta funcionalidade e os defeitos podem prevalecer. Os ciclos de versões são freqüentes (às vezes, horários). Busca-se retroalimentação tão cedo e freqüentemente quanto for possível. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, com uma boa idéia pode contribuir já seja para consertar defeitos ou para acrescentar novas funcionalidades interessantes. O mantenedor declara a existência de uma versão de produção quando determina que já está pronta."
("Cathedral development - This is the traditional style of development where teams are kept small. The design and funcionality are well-understood before development begins. Complete plans from architecture, design, development, integration, and test are well-understood and documented. Release cycles during the development phase are few, and external feedback is only sought during alpha and beta test cycles.
Bazaar development - A mantainer releases functionality that can be built and has some usefulness but the package lacks functionality and defects may be prevalent. Release cycles are frequent (sometimes hourly). Feedback is sought as early and as frequently as possible. Anyone, anywhere, with a good idea can contribute to either fix defects or add interesting new functionality. The mantainer declares a production release when he or she determines it is ready.") [Fink:138]

Bazaar cathedral são termos provavelmente originados no artigo de Eric [Raymond(1)] que analisa o modelo (bazaar) de trabalho cooperativo, que tem Linus Torvalds como pioneiro no desenvolvimento do Linux, modelo contraposto ao processo tradicional (cathedral) de produção de sistemas. A fonte principal de esclarecimento das diferenças permanece sendo o artigo de Raymond, naturalmente. Houve alguma confusão inicial sobre o uso desses termos. Por exemplo, um artigo de Richard Stallman diz:
"Assim, mesmo que seja útil falar da eficácia prática do modelo 'cathedral' de desenvolvimento (*), e da confiabilidade e do poder de alguns programas livres, não devemos parar aí. Devemos falar de liberdade e de princípios.
(*) Eu provavelmente queria dizer 'do modelo 'bazaar'', uma vez que esta era a nova alternativa, inicialmente controvertida."
("Thus, while it is useful to talk about the practical effectiveness of the "cathedral" model of development(*), and the reliability and power of some free software, we must not stop there. We must talk about freedom and principle.
(*)I probably meant to write `of the "bazaar" model', since that was the alternative that was new and initially controversial. -- rms, 2002.) [Stallman]


[4] "So great have been the advances in the various branches of science, and so great the specialization, that the individual scientist today must of necessity take much on trust. For much of what he thinks and says he must lean upon some authority. Developments in the techniques of science have been such that much of it demands resources that are far beyond the means of the individual scientist, even beyond those of most universities. So it is that opportunities for scientific investigation have been passing in increasing measure into the control of Government departments and of heavily endowed private trusts. The result has been that there has developed a competitive struggle between individuals for funds which has commonly tested the integrity of individual scientists. Moreover, the rate and the direction of development in scientific inquiry is being determined by Government committees and by boards of trustees, who give or withhold in accordance with their own programmes and policies. Large-scale scientific investigation involving integrated teams under direction has meant the replacement of the individual as the investigational unit by the group, and the size of the group itself tends to get larger and larger. In this development there is danger, for, as our lecturer will point out, the temper of all large-scale enterprise is necessarily authoritarian. (...)[Lancelot Hogben] offers the constructive suggestion that what is needed to counteract this insidious development of authoritarianism in science is a drastic reorientation of teaching, which will pay far less attention to the novelty of the content of natural science and far more to its humane background. The scientist is now employed in very large numbers by society for the discovery of knowledge which it can use for the achievement of its aims. In this employment there is doubtless much material profit for the scientist himself, for to him there is given much power. But power can corrupt, and the scientist in serving society can render great disservice to science itself. His integrity must be preserved and from him there must not be taken the joy of discovery, which is the only true recompense. He must not become the hireling of society, but its generous benefactor." (F.A.E.Crew, in [Hogben:ix-x]).

[5] Em um certo sentido, todo executável é "aberto", já que é obrigado a exibir o seu código sob uma forma "inteligível", pelo menos para o sistema que irá executá-lo. Conhecendo o conjunto de instruções elementares disponíveis e a arquitetura dos dispositivos, podemos "acompanhar", em princípio, a execução de qualquer programa, tendo em vista até mesmo compreender, ainda que fragmentariamente, o seu funcionamento, identificando blocos de código e suas finalidades, por exemplo. A rigor, isto é o que um programa de depuração faz, como se sabe, uma espécie de instrumento de engenharia reversa que ajuda a descobrir a "intenção" por trás do "comportamento" - se não uma história, uma genealogia, por assim dizer -, um "código fonte" possível e a funcionalidade "realizada" pelo conjunto de instruções executáveis. Um executável também é texto, é claro, é corpus, pois é pista e índice para a decodificação; mas o texto criptografado só se torna efetivamente texto com uma chave de decodificação e um instrumento decodificador. Numa visão invertida do que normalmente se veicula como sendo "pirataria", tendo em vista o alto custo da engenharia reversa, a criptografia e a sonegação dos fontes pode ocultar de fato não apenas o segredo do próprio, mas também se arriscar a omitir o expropriado subrepticiamente a outros, com ou sem suporte legal (ver, por exemplo, http://lpf.ai.mit.edu/Patents/patents.html ). É o que acontece com tantos códigos hoje proprietários construídos às custas do trabalho aberto e muitas vezes anônimo de inúmeros programadores. Não são poucos os empreendimentos corporativos dedicados à exploração sistemática do trabalho de programadores de software livre, um grande negócio (ver, a respeito, o livro The Business and Economics of Linux and Open Source, de Martin Fink, Gerente Geral da Divisão de Sistemas Linux da Hewlett-Packard, que se anuncia na contracapa como "o guia do gerente no uso do Linux e dos fontes abertos para obter vantagem competitiva" - "the manager's guide to using Linux and open source for competitive advantage" [Fink]).

[6] Ver [Raymond(1)], [Fink], [Stallman], em particular, http://www.gnu.org/software/reliability.html.

[7] Ver, entre incontáveis exemplos, http://lpf.ai.mit.edu/Patents/patents.html, http://www.fsfeurope.org/, http://burnallgifs.org/ , e a espantosa história do fechamento do site matemático de Eric Weisstein por um processo movido contra ele por seus editores, em http://mathworld.wolfram.com/about/erics_commentary.html.

[8] Se o espaço de divulgação é restrito, mais ainda seria o de consolidação coletiva dos resultados sem qualquer garantia de circulação de informações.

[9] "Assim, para usar um exemplo de [Kurt] Koffka, [Princípios de Psicologia da Gestalt. S.Paulo: Cultrix/EdUSP, 1975, pp. 37-39] os movimentos musculares de César atravessando o Rubicão correspondem a seu comportamento molecular; o fato de César atravessar o Rubicão, o sentido que isso tem, diz respeito a seu comportamento molar." [Paternostro(2):68].

[10] Ver [Wegner] e cf. http://www.dgz.org.br/out03/Art_04.htm#N2.

[11] Ver http://www.tldp.org/, páginas gnu/fsf em http://www.gnu.org/, http://www.fsfeurope.org/ .  Ver também, sobre as lacunas e a necessidade de documentação livre, o artigo de Richard Stallman, Software Livres e Manuais Livres ( http://www.gnu.org/philosophy/free-doc.pt.html - tradução em português de uma das versões de Free Software needs Free Documentation, incluída como capítulo no livro Free Software, Free Society - ver recensão em http://dgz.org.br/ago04/Ind_rec.htm) . Ver ( http://debian-br.alioth.debian.org/ ) uma página brasileira de suporte e informação para o usuário e o desenvolvedor do GNU/Linux, em particular, para a distribuição Debian.

[12] Ver Benakouche, Rabah (Org). A Questão da Informática no Brasil. São Paulo: Brasiliense; CNPq, 1985, p. 31. Cf. http://www.dgz.org.br/out03/Art_04.htm#N5.

[13] Embora a natural timidez do leigo possa permitir muita mistificação, como se sabe. Em Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá, de Lewis Carroll, Alice, ao terminar de ler o poema Jaguadarte (Jabberwocky), diz: "Parece muito bonito, mas é um pouquinho difícil de entender". "Jaguadarte", na tradução de Augusto de Campos, começa assim: "Era briluz. As lesmolisas touvas / Roldavam e relviam nos gramilvos. / Estavam mimsicais as pintalouvas / E os momirratos davam grilvos". [op.cit., p.147, São Paulo: Summus, 1980].

O livro-texto Física Conceitual, de Paul G. Hewitt, ilustra um efeito esotérico semelhante, para os que se iniciam no jargão especializado de uma disciplina científica. "Embora o olho experiente não as encare [as equações da cinemática] como tais [intimidantes], eis como elas parecem ao estudante que as vê pela primeira vez:

Se o seu objetivo for diminuir o tamanho da turma, apresente-as logo no primeiro dia de aula e anuncie que, pelo próximo par de meses, os esforços da classe consistirão em dar sentido a essas equações." [op.cit., p. xi, Porto Alegre: Bookman, 2002 (orig. Conceptual Physics, 9th. edition, Addison-Wesley, 2002)].

[14] O livro de Diomidis Spinellis, Code Reading: The Open Source Perspective (Addison-Wesley/Pearson Education, 2003) é um bom curso sobre leitura de códigos, por exemplo. Ver também o artigo de Havoc Pennington, Working on Free Software, um guia para programadores voluntários iniciantes em código livre, em http://ometer.com/hacking.html.

[15] Há, de fato, um ocultamento de informação reprodutor de um não-saber constituinte e, nesse caso, específico na formação das dificuldades de aprendizagem e acesso a certos conteúdos (ver [Paternostro(2)], e também http://www.dgz.org.br/out03/Art_04.htm). O que não justifica, contudo, qualquer analogia impensada entre as dificuldades de um assunto e o esoterismo de sua prática.

[16] Cultuar as "dificuldades de compreensão" do usuário e o seu "direito à ignorância" tem sido um expediente recorrentemente utilizado por movimentos organizados globais muito fortes contra o avanço do software livre. Por exemplo:

Contra o Software Livre - Brasil e EUA (Iniciative for Software Choice & outros - o movimento inclui a Microsoft, a Intel, a Dell e outros)
http://www.icoletiva.com.br/icoletiva/secao.asp?tipo=sociedade&id=107&n_page=24
http://www.softwarechoice.org/
http://www.softwarechoice.org/portugese/port_default.asp
http://www.softwarechoice.org/download_files/Brazil_SupremeCourt_Ruling.pdf
http://www.softwarechoice.org/portugese/port_principles.asp

Pelo Software Livre - Brasil e EUA (Sincere Choice & outros)
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/sl.htm
http://brlinux.linuxsecurity.com.br/noticias/000229.html
http://www.linuxplace.com.br/sqush_place/1052912294/index_html
http://zdnet.com.com/2100-1104-949527.html
http://odfi.org/archives/000010.html
http://www.oreillynet.com/pub/wlg/2066  (cf. http://www.oreillynet.com/cs/user/view/wlg/1840 )

Ver também notícia (15/06/2004) sobre o processo que a Microsoft está movendo contra Sérgio Amadeu da Silveira, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), por sua defesa do software livre, em http://www.cipsga.org.br/article.php?sid=5338&mode=thread&order=0&thold=0.
 

Referências Bibliográficas:

[CONECTIVA] Informática. Guia de Instalação do Sistema - versão 2.0. Edição Servidor do Conectiva Linux. 1999, segunda reimpressão. URL: http://www.conectiva.com.br

[Fink], Martin. The Business and Economics of Linux and Open Source. New Jersey: Prentice Hall/Pearson Education/Hewlett-Packard, 2003

[Hogben], Lancelot. The New Authoritarianism, Conway Memorial Lecture, London: Watts & CO., 1949

[Lakatos], Imre; Feyerabend, Paul. For and Against Method, editado por Matteo Motterlini, Chicago/London: The University of Chicago Press, 1999

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     http://www.catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar/cathedral-bazaar/
     http://www.firstmonday.dk/issues/issue3_3/raymond/

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Sobre o autor / About the Author
    Luiz Carlos Brito Paternostro
    pater@centroin.com.br
    Dr. [Ciência da Informação], UFRJ/ECO, IBICT/CNPq, 1998
    Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
    Endereço residencial/ Personal address:
    Av. N. S. Copacabana, 1049/601 -  22060-000
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