Resumo: Discute-se as novas relações
entre a Terminologia e a Ciência da Informação a partir
de uma proposta de conceito contemporâneo de informação
cujas bases são a negociação do sentido e a legitimação
social dos conceitos. Considera-se que embora a teoria terminológica
clássica tenha contribuído para o aprimoramento das metodologias
de construção de linguagens documentárias, ela não
permite responder adequadamente às necessidades ditadas pelo novo
conceito de informação. Verificam-se as características
do conceito de informação nos dias de hoje frente às
alterações no modo de conceber a ciência, os traços
da Terminologia clássica e a possibilidade do uso dos referenciais
da Terminologia contemporânea na organização da informação
para o acesso e uso.
Palavras-chave:
Ciência da Informação;
Terminologia; Organização da informação; Lingüística
Documentária.
Abstract: The new relations between Terminology
and Information Science are discussed from the approach of a contemporary
information concept which bases are the sense negotiation and the social
legitimation of the concepts. It is taken into consideration that whereas
the classic terminological theory has contributed to the improvement of
the methodologies of documentary languages construction, it does allow
handling new problems that arise from a new concept of information. We
verify the characteristics of the information concept nowadays as a
result of the alterations in the way to conceive science, the outlines
of the classic Terminology and the possible contributions of new
terminological proposals to the organization of information for its access
and use.
Keywords: Information Science; Terminology; Information
organization; Documentary Linguistics.
1. Um novo conceito de informação
No discurso contemporâneo da filosofia e da sociologia, nem o conhecimento é uma certeza, nem a informação é algo interpretado de maneira uniforme. O conhecimento é o resultado de apropriação efetiva; a informação, um de seus principais veículos. A Ciência da Informação - CI, discute calorosamente o conceito de informação que lhe é particular para melhor delimitar seu campo de reflexão e de trabalho e, embora não exista consenso sobre os aspectos privilegiados na sua caracterização, de um modo geral, a informação é reconhecida como uma inscrição organizada, fruto de uma construção institucional e intencional que tem nos valores simbólicos e funcionais a condição para a construção do sentido como para circular socialmente, desencadeando processos de conhecimento.
A proposta de semelhante conceito não é um fato isolado, mas o resultado do questionamento dos parâmetros da ciência moderna cujas características mais marcantes são a ruptura entre o sujeito e o objeto, entre a teoria e os fatos, ou entre os conceitos e a observação, privilegiando-se ora um pólo, ora outro. Na base dessa concepção está a crença nas essências e na verdade a ser buscada. O platonismo, o kantismo e o positivismo partilhavam da noção de que o homem deveria descobrir essências, espelhar de modo exato o universo à nossa volta. Caberia à ciência a tarefa polir, com seus métodos, o espelho imperfeito que reflete a realidade (Rorty, 1988).
No seu momento mais dogmático - o do positivismo lógico, dentro do Círculo de Viena - a ciência é o aparelho privilegiado de representação do mundo. Uma das vertentes do positivismo lógico postulava a coincidência entre a linguagem unívoca da ciência e a experiência ou observação imediatas. O apogeu da dogmatização da ciência coincide, porém, com o início de seu declínio, já que no próprio interior do Círculo de Viena surgem os primeiros questionamentos aos limites da teoria. Esse debate continua até os dias de hoje, propondo-se que a crise provocada pela "perda de fé" numa ciência de base iluminista (Harvey, 1994) seja reconfigurada sob o título de ciência pós-moderna (Santos, 1989). Nesse contexto, a hermenêutica não seria um "método para alcançar a verdade", mas "uma tentativa para compreender o que são verdadeiramente as ciências humanas para além da sua autoconsciência metodológica".
Nos estudos relacionados à organização da informação o debate acima atinge os discursos e práticas tradicionais da Documentação, propondo-se sua caracterização como modernos na sua manifestação "positiva". O positivismo está na base nossa memória exterior - a exomemória - e seus códigos e critérios se estendem às formas de organização do conhecimento e da informação conformando nossa memória ´subrogada´ (García Gutiérrez, 2002). É o que se verifica de forma subjacente aos instrumentos clássicos de organização da informação que compartilham ideais de disseminação universalizante, formas apriorísticas de representação com base em categorias universais, supõem uma essência substancialista constitutiva dos objetos e fenômenos, como também uma linguagem expurgada das impurezas e imperfeições dos discursos das ciências humanas a partir do modelo das ciências mais formalizadas. O substantivo é tido como forma privilegiada de representação privilegiada (de outro modo, a essência). São também 'modernos' os princípios da busca da organização metódica, da certeza, do privilégio do discurso técnico-científico frente à linguagem cotidiana, do papel da ciência na evolução da humanidade, como o método que propõe uma separação rígida entre o objeto teórico e o objeto empírico.
A crise da ciência moderna, no entanto, mostra uma descrença na "inelutabilidade do progresso" e um "crescente incômodo com a fixidez categórica do pensamento iluminista" (Harvey, 1994, p.37). Passa-se a argumentar que a separação sujeito/objeto e teses correlatas impedem que se compare o conhecimento teórico com a realidade não conceptualizada, ou seja, a análise sempre é feita na perspectiva da teoria ou do observador. A nova agenda da ciência inclui a atenuação das diferenças entre os discursos científicos e os do senso comum e a adoção de um conceito de verdade pragmático (Santos, 1989).
Com efeito, se a ciência deixa de ser o aparelho privilegiado para ver o mundo, a atividade de organização da informação para a recuperação não pode supor uma matriz única que balize a estruturação e os arranjos informacionais. Frente aos processos de produção plural do conhecimento, a atividade documentária tem de observar as variantes cognitivas e não cognitivas de outros mundos possíveis que foram execradas pela modernidade na construção da exomemória (García Gutiérrez, 2002, p.12), abandonar o modelo explicativo de referência única e delimitado a priori como, ao mesmo tempo, observar as variações de contexto e os diferentes públicos, antes esquecidos ou idealizados.
As formas apriorísticas de categorização são substituídas por categorias funcionais, deslocando-se a ênfase da noção de documento como suporte do conhecimento, para a de sua função. Nessa perspectiva, a informação documentária se define na relação produção/recepção, deixando de privilegiar o pólo da produção (ou da enunciação), sem se centrar exclusivamente no pólo da recepção (ou da enunciação). Se o foco na emissão esquecia o usuário como sujeito da interpretação (o enunciatário), não se pode, na tentativa de contemplá-lo, ignorar as marcas intencionais da enunciação. O problema se desloca, então, da enunciação e da recepção para a mensagem, passando-se a enfatizar a característica mediadora da atividade documentária, modo de veiculação do bem simbólico que é a informação (Lara, 2004). A proposta, que combina produção e recepção, aproxima a CI da Teoria da Comunicação, "porque ambas operam com o sentido" (Tálamo & Kobashi, 2003, p.10) [1].
O foco na mensagem no âmbito da CI significa o reconhecimento do usuário (na falta de um melhor termo) como sujeito da interpretação, seguindo-se naturalmente a relativização da função pedagógica da atividade documentária, uma vez que ele também é como um agente do processo de conhecimento, uma vez que ele pode organizá-lo à sua maneira segundo suas necessidades e condições interpretativas.
A relativização da função pedagógica da atividade documentária é resultado da transformação dos sistemas informacionais que, antes concebidos como 'explicadores´, passam a constituir instrumentos do processo de mediação. Não se quer com isso eximir os sistemas da explicitação de seus pontos de partida: ao contrário, em vista de públicos distintos e das diversas possibilidades de interpretação, é razoável oferecer não só tipologias distintas de sistemas, como leques de opções para o acesso, utilizando as tecnologias não para conformar e submeter o usuário às suas regras, mas, na medida do possível, para permitir o exercício da criatividade.
Esse novo conceito contemporâneo de informação solicita a reorganização das metodologias de tratamento documentário dos textos (textos, num sentido amplo), seja para destacar a importância de enfrentar a fragilidade da noção de conteúdo (Lara, 1999), a impropriedade do conceito de aboutness - cara à crença nas essências - ou a incompletude do substantivo como forma de veiculação da informação.
No que tange aos instrumentos de organização verifica-se
a fragilidade da linguagem documentária no seu poder de sintagmatização
e a impossibilidade de funcionar verdadeiramente como linguagem simbólica,
uma vez que, enquanto linguagem formalizada, carece de dupla articulação
e não tem embreagem no vivido (Granger, 1974; Possenti, 1996). Uma
vez que, no entanto, que a linguagem natural tem o inconveniente de dispersar
a informação, somente o investimento nas embreagens para
a interpretação permitiriam à linguagem documentária
exercer o papel de veículo para a comunicação, interpretação
e recuperação. É por essa razão que a terminologia
dos campos do saber e das atividades continuam a constituir referência,
encontrando-se aí se encontram os signos que correspondem a possibilidades
interpretativas. No entanto, não é qualquer Terminologia
que considera a centralidade da linguagem na comunicação.
2. Terminologia clássica e terminologia contemporânea
Do mesmo modo que as Ciências Sociais e Humanas, a Terminologia também vivencia, hoje, alterações no seu delineamento teórico e pragmático. Como corpo sistemático de conceitos, a Terminologia nasceu na década de 30 com Eugène Wüster, a quem se atribui o papel de fundador da Teoria Geral da Terminologia, conhecida como TGT. O contexto histórico e intelectual da publicação de seus primeiros trabalhos mostra a proximidade do autor com Rudolf Carnap, filósofo do Círculo de Viena que se preocupa com a precisão na linguagem. Os objetivos de Carnap e de Wüster eram muito parecidos: "conseguir uma comunicação inequívoca e sem ambigüidade sobre os temas especializados" [2] (Galinski & Budin, 1998, p.15), a despeito de seus métodos diferentes. O ponto de partida de Wüster era a lógica conceptual clássica visando à criação de uma teoria e de uma metodologia da terminologia como contribuição à comunicação sem ambigüidade; o interesse de Carnap, como também de Popper e Wittgenstein [3], filósofos próximos à escola de Viena, eram as proposições lógicas e a estrutura proposicional das teorias (idem ibidem).
Fiel à origem lógica, a TGT trata os conceitos como anteriores à sua expressão na linguagem e, por conseqüência, o léxico dos sistemas conceituais como nomenclatura ou taxionomia. Suas bases, pela proximidade aos filósofos citados, são os parâmetros modernos de ciência que incluem a busca da objetividade, da precisão e da não-ambigüidade e que se reportam aos princípios da filosofia analítica e do neopositivismo. Considerada uma vertente clássica da Terminologia, ela compartilha do ideal de uma linguagem unívoca, homogênea e universal, distinta da linguagem comum e concebe os conceitos como constructos mentais anteriores e independentes da linguagem. Deriva daí o privilégio que confere à normalização como meio de garantir uma comunicação unívoca. A ênfase na normalização é, também, tributária da natureza sistemática e do potencial classificador das linguagens (Sager, citado por Krieger, 2001). Ao privilegiar esses aspectos, a terminologia clássica o faz em detrimento da função primordial da linguagem que é ser instrumento de comunicação.
A proposta wüsteriana foi, na sua origem, desenhada para as engenharias e tecnologias, sendo compreensível que ela tenha tomado como parâmetro a formalização dessas linguagens. No entanto, a afirmação da cientificidade das humanidades tem obrigado, recentemente, a considerar as características próprias desses discursos cujo léxico, diferentemente do que ocorre com os discursos técnico-científicos, confunde-se com o léxico comum e não se expressa por taxonomias (Krieger, 2001).
Muitas das críticas à TGT se dirigem à forma de observação das questões terminológicas fora do universo da linguagem. As propostas contemporâneas recuperam o papel da linguagem como instrumento de comunicação, rechaçando as concepções que visam a delimitar os termos como construtos ideais e homogêneos, isentos de polissemia e de ambigüidade a serviço preferencialmente da comunicação entre especialistas (Rey, 1979, citado por Krieger, 2001).
As novas vertentes da Terminologia são socialmente orientadas. Dentre as principais se destacam a Teoria Comunicativa da Terminologia (Cabré, 1999), a Socioterminologia (Gaudin, 1993), a Teoria Sociocognitiva da Terminologia ou Socioontologia ou, ainda, teoria realista da terminologia (Temmermman, 2001) e a Terminologia cultural (Marcel Diki-Kidiri, 2000). Questionamentos à terminologia clássica também são feitos por lingüistas e psicólogos ligados à Semântica Cognitiva, como Dubois (2001) e Rastier (1995), dentre outros. Nos limites deste trabalho, porém, restringiremo-nos a sintetizar as vertentes que têm sido mais referidas na literatura terminológica recente.
A Teoria Comunicativa da Terminologia - TCT, proposta por Cabré, não nega a importância da teoria clássica e, embora não se coloque em oposição radical a ela, tende a ressaltar o papel da linguagem na caracterização das unidades terminológicas. A TCT propõe ver os termos como unidades lingüísticas, enfatizando a função da língua como instrumento de comunicação. A vertente se constitui na confluência entre a teoria do conhecimento, da comunicação e da linguagem. Ao questionar a autonomia da Terminologia em relação às teorias da linguagem, recupera a noção de termo como unidade de forma e conteúdo que, em determinadas condições discursivas, adquirem valor especializado (Cabré, 2000).
Para Cabré, as unidades terminológicas fazem parte da linguagem natural, não considerando os termos como entidades autônomas que formam um léxico especializado diferenciado. Os termos são unidades denominativo-conceptuais que têm capacidade de referênci desde que ativados em seu uso em contextos e situações determinados. Quando ativados, os conceitos de um mesmo âmbito especializado mantêm entre si relações que constituem a estrutura conceptual do campo de assunto, sendo que o valor de cada termo depende de sua posição relativa, tal como acontece com as unidades da linguagem geral na perspectiva saussuriana.
A função dos termos para a TCT é dupla: representar e transferir o conhecimento especializado, em graus e modos distintos, como em situações diversas. As unidades terminológicas de caráter poliédrico desempenham funções cognitiva, social, comunicativa e lingüística. Enquanto unidades lingüísticas com valor especializado, a TCT admite a variação denominativa e conceitual. Diferentemente das propostas anteriores de Cabré (1993), a TCT atribui dimensão textual e discursiva à terminologia (Cabré, 1999).
A Socioterminologia, por sua vez, prioriza o uso, realizando uma ruptura mais incisiva com a TGT. Enfatiza as práticas sociodiscursivas, particularmente profissionais, e seu papel na circulação social dos termos. Suas origens da Socioterminologia se reportam às críticas ao caráter prescritivo e normatilizador da Terminologia feitas por Boulanger, em 1991, e reforçadas por Auger dois anos depois. Mas é com François Gaudin, na França, em 1993, que ela se firma como uma nova vertente, quando o autor enfatiza a necessidade de considerar as práticas lingüísticas e sociais efetivas (Faulstich, 2006). Criticando a influência do pensamento positivista na teoria de Wüster, Gaudin mostra que a relação entre o signo e a realidade não é direta, mas construída, ou mais exatamente, co-construída no quadro das interações verbais. A referência tem, portanto, um caráter social e, por essa razão, não é possível propor a biunivocidade entre conceito e termo.
Para Gaudin, o fato de que as relações entre signo e realidade são relacionadas às situações sociais onde acontecem, justificaria a substituição do conceito de domínio pelo de ´episteme´ (interpretável segundo a abordagem foucaultiana), mais adequado para descrever a realidade do trabalho científico e das práticas lingüísticas que o sustentam. O autor recupera, de Baktin, os conceitos de dialogismo e polifonia, propondo observar a polifonia enunciativa (as múltiplas vozes num texto) e reavaliar as tipologias que separam os textos em categorias segundo o grau de sua ´cientificidade´ (Gaudin, 1993).
A Socioterminologia enfatiza a importância das relações semânticas para um melhor entendimento da estrutura interna do léxico. As definições formais são preteridas em benefício das descrições mais versáteis do significado das palavras. A atitude descritiva prepondera, assim, sobre a prescritiva. Para Gaudin, a Socioterminologia considera as metáforas e os contextos históricos de uso das palavras, o que implica o questionamento da monossemia dos termos (que tem por corolário a reabilitação da polissemia) e da variação como uma "perturbação da unidade lingüística", na expressão de Wüster (Wüster, 1998, p.150).
Mais recente, a Teoria Sociocognitiva da Terminologia põe em destaque o papel dos modelos cognitivos procurando mostrar as relações entre os processos de categorização e a linguagem. A vertente é baseada na semântica cognitiva e questiona a centralidade da padronização em detrimento de uma descrição realista dos significados dos termos tal como aparecem nos textos.
Para Temmermman (2001), responsável pela proposta, a definição de conceito da terminologia tradicional, como unidade de pensamento constituída por abstração de propriedades, é muito restritiva, já que poucos conceitos existem de forma objetiva. O mundo é melhor compreendido no marco dos modelos cognitivos nos quais se relacionam diferentes unidades de compreensão ou entendimento estruturadas de forma prototípica. Essa é a razão pela qual propõe substituir a noção de conceito por unidade de compreensão (entendimento) observando que grande parte das unidades ditas conceituais têm uma estrutura prototípica e que podem, dessa forma, denominar categorias (Temmermann, 2001). A base para a delimitação do conteúdo é, segundo sua perspectiva, o texto no qual está inserido o termo, do que decorre que o conceito não é universal, nem imutável, "mas a expressão de um conjunto de elementos de natureza lingüística que se consubstanciam num texto que possui não apenas uma dimensão lingüística, mas também pragmática, discursiva e comunicativa" (Barros, 2006, p.23). É o termo, e não o conceito, o ponto de partida da descrição terminológica.
A abordagem de Temmermann põe em relevo as relações entre os estudos da terminologia e da lingüística textual, reforçando a idéia de que não os termos não podem ser compreendidos fora de seu ambiente natural - os textos -, verdadeiros "conjuntos dinâmicos de elementos lingüísticos, pragmáticos, discursivos e comunicativos" (Barros, 2006, p. 23, 25).
A grande diferença da proposta de Temmermann, no entanto, está na ênfase que ela confere à categoria, que considera mais idônea para descrever a unidade de compreensão. A categoria tem um núcleo e uma estrutura delimitada, mas está em processo de contínua reformulação. As categorias têm estruturas prototípicas que recolhem informação intercategorial (entre categorias) e intracategorial (no interior da mesma categoria). Sua existência não é independente da língua, podendo ser observada no discurso, o que permite identificar mais módulos de informação do que via características diferenciadoras ou posição numa classificação lógica ou ontológica. Do ponto de vista intracategorial, pode-se deduzir uma definição nuclear (por exemplo, parte de), informação histórica, procedimental, etc.; do ponto de vista intercategorial podem ser estudados o domínio, como a perspectiva e a intenção do modelo cognitivo usado (Temmermann, 2001).
Na perspectiva acima, dependendo do nível e tipo de especialização do emissor e do receptor, a informação considerada relevante para uma definição varia, o que torna mais flexível a estrutura conceptual, já que as descrições do significado dependem do tipo de unidade de compreensão, como dos participantes da comunicação. Conseqüentemente, a teoria admite a sinonímia e a polissemia no processo de compreensão e de comunicação justificadas pela funcionalidade, pela flexibilibilidade (os modelos cognitivos se alteram constantemente) e pela diversidade dos processos de categorização (Temmermann, 2001).
As propostas acima enunciadas permitem afirmar que os estudos terminológicos têm procurado refletir sobre as necessidades advindas das alterações no pensamento da ciência em geral, procurando verificar como enfrentar as restrições relativas aos seus fundamentos originais. No Brasil, as proposições teórico-metodológicas da TGT que forneceram as primeiras coordenadas do saber e das práticas em Terminologia, são, agora, submetidas à revisão, sugerindo-se a valorização dos aspectos lingüísticos e comunicacionais dos termos técnico-científicos. Como conseqüência, o léxico especializado passa a ser compreendido na sua dimensão de componente natural das línguas naturais, não imunes, portanto, aos efeitos devidos ao funcionamento da língua (Krieger, M.G. & Bevilacqua, C.R., 2005), o que já indica a possibilidade de contribuir ao enfrentamento de um conceito contemporâneo de informação.
A revisão teórica da Terminologia não é
um modismo, mas deriva das novas necessidades contemporâneas. Para
Krieger e Bevilacqua, a apreensão dos objetos de uma ciência
que sofre grandes alterações se revela pela proliferação
dos termos técnico-científicos, pela impossibilidade de supor
fronteiras rígidas (no plano significante) entre léxico geral
e especializado e pelo conseqüente aumento da complexidade na tarefa
de reconhecimento das unidades terminológicas especializadas. De
fato, ocorre uma crise do conhecimento estruturado, uma vez que ele não
mais se submete a um fechamento, mas se organiza de forma inter e multidisciplinar,
passando a exigir práticas que reequacionem as formas de abordagem
e tratamento das terminologias em dimensões mais amplas, em consonância
com a epistemologia das ciências. Com base em princípios da
Lingüística em diálogo com outras áreas de especialidade,
desenvolve-se a lingüística de corpus, são experimentadas
teorias funcionalistas e cognitivas sobre a linguagem, passa-se a focalizar
o texto e o discurso e a incluir a fraseologia especializada entre as unidades
terminológicas (Krieger, M.G. & Bevilacqua, C.R., 2005).
3. A apropriação da terminologia pela Ciência da Informação
As interfaces entre Terminologia e Lingüística Documentária [4], no Brasil, tiveram início a partir da proposta clássica, através das normas terminológicas internacionais (ISO 704-2000 e ISO 1087/1-2000, entre outras) e dos textos teóricos fundamentais. A apropriação das contribuições teóricas e metodológicas resultou no aperfeiçoamento das metodologias de construção da linguagem documentária, uma vez que as normas terminológicas são, comparativamente à norma de elaboração de tesauro (ISO 2788) mais completas, permitindo uma melhor compreensão dos conceitos, das relações entre os conceitos e da modelagem dos sistemas conceituais. Já o uso da terminologia concreta - dicionários técnicos especializados, glossários - significou a possibilidade de conferir referência concreta à interpretação dos descritores dos tesauros.
No entanto, o trabalho documentário de organização da informação para a recuperação não alcança seus objetivos se ficar restrito ao uso das referências da terminologia clássica, fato que ocorre, principalmente, frente a universos que não constituem formalmente um domínio claramente delimitado ou que se encontram em transformação, caracterizando-se por inúmeras relações interdisciplinares. Do mesmo modo, quando se deve solucionar problemas relativos ao enfrentamento de conjuntos de informações que têm graus menores de ordenação ou não são analisáveis a partir de parâmetros consensuais de organização. A Terminologia clássica não responde, portanto, às necessidades de tratar a heterogeneidade, a diversidade e a multiplicidade dos pontos de vista da produção, do uso e do consumo informacional.
Embora não seja função da Lingüística
Documentária construir dicionários, é muito freqüente,
na atividade documentária, encontrar universos temáticos
para os quais não existem vocabulários formalizados, ocasiões
em que se recorre ao uso de procedimentos terminológicos e terminográficos
contemporâneos para a exploração de corpus particulares
e para a identificação das redes relacionais entre os termos,
procedimento que tem se mostrado fundamental para o melhor conhecimento
dos universos a serem trabalhados documentariamente visando, seja a construção
de instrumentos de intermediação como os tesauros, seja a
organização direta de conjuntos informacionais, como é
o caso dos conteúdos de sites. O exercício confirma a possibilidade
de apropriação de uma terminologia mais próxima à
lingüística textual mostrando concretamente a impossibilidade
de desconsiderar a variação denominativa e conceitual. A
observação do fenômeno terminológico no interior
da linguagem permite recuperar a função básica da
língua, a comunicação, deslocando a ênfase do
caráter representacional da língua para o comunicativo.
4. Considerações Finais
O uso de referenciais da Terminologia pela CI não é apenas instrumental. Trata-se de uma atitude interdisciplinar que não se resume na transferência de conceitos. Como afirma Barthes, "não basta tomar um 'assunto'(um tema) e convocar em torno duas ou três ciências. A interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém" (Barthes, 1988, p.99, citado por Tálamo & Kobashi, 2003). As associações que caracterizam o processo de construção da interdisciplinaridade expõem problemas de outra ordem e dizem respeito a princípios mais amplos.
O diálogo entre as áreas supõe, hoje, que o conhecimento
não é dado, mas produto da interpretação, o
que solicita que as bases da interlocução não releguem
a multiplicidade das possibilidades de organização conceitual
urdidas nos espaços de atuação ou nas comunidades
científicas. Um novo conceito de informação requer,
portanto, que as relações com outras áreas, como a
Terminologia, se organizem supondo a negociação do sentido
e as formas de legitimação das referências conceituais
como fundamentos para a comunicação.
[1] A mensagem, um dos centros de atenções dos estudos
contemporâneos da Comunicação, é também
enfatizada por Capurro que, a partir da "angelética", dá
ênfase ao estudo dos fenômenos das mensagens, particularmente
no momento histórico de surgimento da Internet (Capurro, 2001).
[2] Tradução livre.
[3] Trata-se do I Wittgenstein.
[4] Subdomínio da Ciência da Informação.
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Sobre a autora / About the Author:
Marilda Lopes Ginez de Lara
larama@usp.br
Dra. em Ciências da Comunicação pela ECA-USP
Profa. do Depto. de Biblioteconomia e Documentação da
ECA-USP/Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação da ECA-USP
Bolsista do CNPq - modalidade Produtividade em Pesquisa