DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.7  n.4   ago/06                            ARTIGO 03

Terminologia e documentação: a relação solidária das organizações do conhecimento e da informação no domínio da inovação tecnológica
Terminology and documentation: the solidary relation of the organizations of the knowledge and the information in the domain of the technological innovation
por Maria de Fátima G. M. Tálamo e Lívia Aparecida Ferreira Lenzi




Resumo: Breve retrospectiva acerca da função da linguagem de especialidade  e da ordem da informação para a produção do conhecimento. Apresenta-se a terminologia da linguagem de especialidade como elemento nuclear não só  para o entendimento do domínio - seja técnico, tecnológico ou científico - mas também para a comunicação e produção do conhecimento. Enuncia-se  proposta de estrutura terminológica do domínio da "inovação tecnológica" comparando-a com duas diferentes ordens de informação - dois tesauros - para demonstrar que organização do conhecimento e organização da informação são processos solidários, cuja dissociação provoca o comprometimento da formação e do desenvolvimento da pesquisa.
Palavras-chave: Linguagem de especialidade; Terminologia; Documentação, informação, conhecimento, inovação tecnológica; Organização da informação; Organização do conhecimento.

Abstract: Small retrospect concerning the function of the language and the order of the information for the production of the knowledge.  It is presented terminology of the specialty language as a nuclear element not only for the agreement of the domain - either technician, technological or scientific - but also for the communication and production of the knowledge.  It presents proposal of terminological structure of the domain of the "technological innovation" comparing it with two different orders of information - two thesaurus - to demonstrate that organization of the knowledge and organization of the information are solidary processes, whose dissociation provokes the commitment of the formation and the development of the research.
Keywords: Specialty language; Terminology; Documentation, information, knowledge, technological innovation; Organization of the information; Organization of the knowledge.
 
 
 

1. Introdução

A importância do processo e das formas de organização do conhecimento está associada à consciência dos cientistas sobre o papel que exercem o conhecimento, a informação e a tecnologia no contexto produtivo contemporâneo. Nele a importância crescente do conhecimento associa-se à sua capacidade de responder às necessidades sociais. Sendo assim, a confiabilidade, a precisão e a relevância da informação passam a ser características progressivamente exigidas, uma vez que a rapidez das comunicações e a capacidade crescente de formação de estoques informacionais têm experimentado evolução considerável. No entanto, observa-se que a construção de estoques, tarefa da Documentação se ressente , não raro, de parâmetros de formulação que garantam consistência às formas de tratamento do conhecimento disponíveis. Nesse contexto, a demanda de informação para subsidiar processos de produção do conhecimento nem sempre conta com sistemas capazes  de satisfazê-la, o que impõe limitações aos países historicamente consumidores de conhecimento. O desequilíbrio entre consumidores e produtores de conhecimento deve-se sem dúvida a inúmeros fatores e tem-se agravado a partir da década de 80 do século XX com os processos de globalização e liberalização. Com eles não só aumentou a distância entre os países produtores e consumidores de conhecimento mas também se cristalizou o modo pelo qual se dá a transferência desses conteúdos, que via de regra contempla uma visão simplista da linguagem que subsuma o processo. Embora, como se disse, tal situação envolva inúmeras variáveis, aqui nos limitaremos a discutir, no âmbito da produção da ciência e do tratamento documentário do conhecimento, o domínio da inovação tecnológica. Instituímos, para isso, como pano de fundo, a terminologia como paradigma inicial para a organização do conhecimento e da informação. Globalmente discute-se a relação entre organização do conhecimento e organização da informação para subsidiar o processo de geração do conhecimento. Para isso, distribui-se o presente artigo em 4 partes, além desta introdução: na primeira apresentam-se as propostas de Bush, Wüster e Otlet para relacionar as operações cognitivas do cientista, o conhecimento registrado, a terminologia e a informação; na segunda discorre-se sobre a associação recíproca e solidária entre organização do conhecimento e terminologia, apresentando-se esta última como ferramenta específica de intervenção, produção e compreensão de um domínio de especialidade ou temático; na terceira apresenta-se proposta de organização do domínio da inovação tecnológica, utilizando-se de metodologia inspirada na TGT (Teoria Geral da Terminologia) identificando-se as articulações que fundamentam não só os modos de compreendê-lo mas também o modo de apresentá-lo como informação, seja para fins de manipulação conceitual ou comunicação especializada; na quarta comparam-se duas formas de organização da informação do campo da inovação - tesauros -com a forma da organização do conhecimento do domínio proposta. Por fim, as considerações finais recomendam a importância da pesquisa terminológica para a fundamentação da pesquisa, qualquer que seja a sua natureza, e, do mesmo modo, da terminologia como um vértice da geração do conhecimento.
 

2. Produção do conhecimento, informação e terminologia

Durante toda a Segunda Guerra Mundial, Vannevar Bush, físico e matemático, dirigiu o Office of Scientific Research and Development, encarregando-se da função de coordenar para fins de guerra a pesquisa científica de cerca de 6.000 pesquisadores. Para isso contribuiu sem dúvida a experiência que já tinha acumulado como pesquisador, especialmente no MIT e no Carnigie Institute. No entanto, foi em um artigo de natureza especulativa - As we may a think - que Bush registra sua experiência sobre o modo de desenvolvimento da pesquisa relacionando os insumos, a capacidade criativa humana e a tecnologia.

Embora não tenha sido o pioneiro no trato da questão, Bush desenvolve argumentos importantes para a compreensão da sociedade que mais tarde seria qualificada pela primazia da informação e do conhecimento.

Já de início, ao chamar a atenção para a importância do compartilhamento dos conhecimentos e experiências dos cientistas, deixa subentendida a importância da comunicação dos pares para a geração do conhecimento, principalmente quando este tem a pretensão de orientar e induzir ações com fins deliberados. Para que isto se realize faz-se necessário que o conhecimento pretérito esteja disponível para fins de manipulação do cientista no processo de criação. O ciclo de produção do conhecimento integra, portanto, ao menos três elementos: a comunicação, o cientista e o acesso ao registro do conhecimento proporcionado pela informação. Apresenta, pois, a comunicação nesse contexto, dois planos, que embora distintos são complementares. Um diz respeito à circulação do conhecimento, cujo exemplo é a comunicação entre pares que se vale da linguagem da especialidade. O outro se associa à circulação da informação que se vale da linguagem documentária para disseminar e recuperar de forma expandida e socialmente materializada conteúdos especializados que na forma de conhecimento integram quando muito apenas uma dimensão comunicacional coletiva restrita, agravada pelo caráter fragmentário da ciência contemporânea.

Para dar conta da articulação entre informação e conhecimento, Bush lança em 1945 as premissas de uma máquina informacional que denomina Memex (Memory Extension). Uma vez que os meios de recuperar o conhecimento não se expandem na mesma proporção do seu crescimento vertiginoso, Bush procura no modo associativo do funcionamento da mente humana uma possível solução para a questão considerada estratégica para o desenvolvimento da ciência. O Memex ao mesmo tempo que armazena informações permite combiná-las. De modo específico, ela se apresenta como um dispositivo mecânico que permite ao indivíduo estocar todos os seus arquivos - livros, anotações, artigos, etc... - consultá-los, reproduzi-los, registrar e elaborar textos próprios e estabelecer contatos com membros da comunidade.

Com o Memex minimiza-se, portanto, a desproporção existente entre o aumento dos registros do conhecimento e o modo de manipulá-lo que, à época, ainda era o mesmo usado pelas "embarcações de velas quadradas" (BUSH, 1945). Observa-se porém que a máquina apenas se limita a desenvolver os processos repetitivos do pensamento, deixa em aberto a questão da seleção e da recuperação da informação, elementos específicos e fundamentais da criação do conhecimento. O próprio Bush admite tal fato ao afirmar que um cientista não é um simples manipulador de informações e dados. A operação associativa é mais complexa pois se relaciona a operações de combinação que não seguem pré-determinações e regras fixas. É uma operação inscrita na própria linguagem e se vale de seus recursos. Embora Bush não reconheça de forma explícita a natureza lingüística da cognição, pode-se subentendê-la na crítica que faz à artificialidade dos sistemas de indexação, à época restritos aos sistemas de classificação de assuntos calcados na idéia de hierarquia lógica. Como a mente associativa poderia criar ou reconhecer trilhas nas rígidas árvores de assuntos? A essa contradição responde o Memex com a flexibilidade.

Portanto, infere-se do exposto não só a especificidade do processo cognitivo do cientista mas também a insuficiência das categorias tradicionais da biblioteconomia para o tratamento dos conteúdos dos documentos. Nesse último caso, vale lembrar que, ao qualificar de artificial a indexação, Bush estaria se referindo aos sistemas de classificação universais, instrumentos que pouco contribuíam para uma circulação mais efetiva dos conteúdos registrados. A "seleção por indexação" não estaria apta para propiciar a elaboração de estratégias confiáveis e rápidas para a atualização e desenvolvimento dos juízos dos cientistas. De fato, o Memex apenas reteria da biblioteconomia a referência bibliográfica dos documentos, isto é, a forma física do documento.

A questão do tratamento dos conteúdos dos registros do conhecimento - dos documentos - para fins de acesso e uso demanda antes algumas observações sobre a sua natureza lingüística, visto que se tratam originalmente de produtos da linguagem. Sob o aspecto lingüístico, Benveniste (1989) observa que a história da ciência está associada à constituição de uma terminologia própria, portanto nada mais natural que o próprio cientista, como o admitia Bush, ser o selecionador dos conteúdos. Diz Benveniste (1989, p.252):
 

Uma ciência só começa a existir ou consegue se impor na medida em que faz existir e que impõe os seus conceitos, através de sua denominação. Ela não tem outro meio de estabelecer sua legitimidade senão por especificar seu objeto denominando-o, podendo este constituir uma ordem de fenômenos, um domínio novo ou um modo novo de relação entre certos dados. O aparelhamento mental consiste em primeiro lugar, de um inventário de termos que arrolam, configuram ou analisam a realidade. Denominar, isto é, criar um conceito, é, ao mesmo tempo, a primeira e a última operação de uma ciência.


A operação de seleção a que se referia Bush desenvolve-se através do que Benveniste denomina vocabulário analítico da realidade. Tal vocabulário apresenta-se como a terminologia de uma área de especialidade - seja disciplinar, temática ou técnica - que funciona como uma ferramenta para a compreensão e desenvolvimento desta mesma área. Entende-se, portanto, o termo - ou mais especificamente a unidade terminológica - como um elemento do componente lexical da linguagem de especialidade e, a nosso ver, como elemento constitutivo da produção do conhecimento. Existe, então, uma proximidade conceitual entre os processos de seleção empreendidos pelo cientista e o aparelhamento mental a que se refere Benveniste. Como afirma Krieger (2001, p.23), as dimensões cognitivas e comunicacionais encontram-se inscritas nas unidades lexicais temáticas; de fato os termos técnico-científicos cumprem "duas funções essenciais: a de representação e de transmissão de conhecimentos especializados em todos os campos do saber científico e tecnológico". Acrescentaríamos além dessas, uma outra relacionada à produção do conhecimento. O conceito, definido como feixe de traços, é operacionalizado através da combinatória entre esses mesmos traços, propiciando que a cada atualização, efeitos de sentido imponham-se de acordo com os contextos em jogo. É justamente o fato de o conceito propiciar a composição de infinitos arranjos integrados a infinitos contextos que responde parcialmente pela capacidade da linguagem de enfrentar a imprevisibilidade do mundo, interpretando-o continuamente na mudança inerente à sua natureza. (TÁLAMO, 2004).

A importância da Terminologia ganhou força no século XIX com a internacionalização progressiva da ciência - botânicos (1867), zoólogos (1889) e químicos (1892) expressam essa preocupação em encontros internacionais (CABRÉ, 1993, p.21). Embora sejam essas ações importantes, é preciso destacar que se tratam de esforços eminentemente taxonômicos para a confecção de nomenclaturas. Foi somente em 1931, com a obra do austríaco Eugene Wüster, que é proposta a Terminologia como disciplina científica, quando se afirma a diferença entre o conceito e o significado, a qual será motivo de críticas posteriores, conforme Krieger e Maciel (2001). À época, no entanto, o impacto da disciplina restringiu-se à Rússia. Credita-se à influência de Wüster a criação do Comitê Técnico 37 (TC 37) da ISA (International Standardization Association), fundada em 1926 e precursora da ISO (International Organization for Standardization), cujo objetivo era o de unificar métodos de trabalho e terminologias (PICHT apud CABRÉ, 1993, p.22). Os trabalhos do TC 37 interrompidos durante a segunda guerra mundial reorganizam-se, mais uma vez graças a Wüster, na década de 50. Mas é apenas em 1979, que é difundida em Viena e Nova York, a primeira obra claramente teórica de Wüster - Einführung in die Allgemeine Terminologielehre und terminologische Lexikographie. Ganham vulto então, nos anos setenta, as propostas de terminologias e normalização, fundamentadas no caráter sistemático das linguagens de especialidade. Associados tais empreendimentos ao desenvolvimento da micro-informática e das técnicas documentais aparecem os bancos e as bases de dados (CABRÉ, 1993).

Caso a comunicação entre cientistas fosse tão eficiente ou ainda se trilhas de conteúdos permitissem que cientistas de áreas de estudo, embora diferentes em seus objetos e métodos, pudessem interagir através de questões compartilhadas, a união entre os propósitos de Busch e Wüster se daria de forma quase natural, o que, no entanto, não ocorreu. Pretende-se com isso afirmar que o vértice terminológico da operação cognitiva não é um dado perceptível. Foi necessária a ação deliberada da constituição das nomenclaturas para que a funcionalidade dos vocabulários pudesse ser reconhecida e mais à frente a superação desse patamar com o reconhecimento do plano sígnico dos termos. De algum modo reconhece-se com isso que os conteúdos registrados caso gozassem de efetivo estatuto coletivo e social e ainda se estivessem incorporados de fato em sistemas de recuperação da informação estruturados segundo linguagens sistemáticas motivadas nas especialidades, superar-se-iam, sem dúvida os métodos arcaicos de manipulação da informação a que Bush se referia em seu emblemático artigo. Dito de outro modo, na ausência da organização do conhecimento materialmente expressa nas terminologias, a organização e recuperação da informação se encontra comprometida e vice-versa. De fato, a capacidade de manipulação e de seleção do cientista aplicada diretamente sobre os conteúdos registrados - os quais crescem em dimensões jamais vistas - é limitada, impondo-se a proposição de formas sintéticas intermediárias entre eles, as quais denominamos organização do conhecimento (subproduto da Ciência da Terminologia) e organização da informação (produto da Documentação).

Tal proposição vai ao encontro de preocupações recorrentes tanto do universo estrito da ciência quanto daqueles que defendem a constituição de uma cultura científica esclarecedora do senso comum como prega a pós-modernidade. A circulação social do conhecimento exige formatações informacionais, do mesmo modo que a sua apropriação, desenvolvimento e transferência delas se beneficiam. A mais recente investida nesse campo e que teve efetivo alcance social, redundando na proposição da Documentação, data do início do século passado. Nesse período, o advogado belga Paul Otlet (RAYWARD, 1993) movido simultaneamente pela sua paixão pela bibliografia e pela constatação de que os registros dos conteúdos, a que denominava documento, podiam ser submetidos a dois tipos de tratamento, o físico e material, institui no âmbito do tratamento da informação a noção de representação temática. O documento em sua forma física é tratado catalograficamente e na sua forma material é representado em forma sintética através da intervenção das linguagens documentárias. Os produtos desses tratamentos - os catálogos, os índices, as bases de dados, etc... - constituem a ordem ou organização da informação. A organização da informação, sob o ponto de vista temático difere substancialmente da ordem física sob vários aspectos. O que mais importa para fins desse trabalho diz respeito a infinitude de ordens que podem ser geradas a partir de um único conteúdo registrado. Tais ordens dependem não só da linguagem documentária utilizada mas dos objetivos das instituições - e dos perfis dos usuários que elegem - que produzem a informação. Disso decorre o caráter social e institucional da informação documentária.

Para Otlet, a linguagem documentária resumia-se ao sistema de classificação que havia criado - a CDU (Classificação Decimal Universal). De forma bastante resumida, pode-se afirmar que a CDU propõe para o conhecimento registrado uma representação fundada na unidade "assunto". No entanto, a vantagem do sistema consiste justamente em reunir, associar, hierarquizar conteúdos que se encontram fisicamente isolados. De fato, a CDU se propunha como um sistema de gerenciamento de dados, embora sua complexidade comprometesse de certo modo o seu uso. O importante no projeto otletiano é a proposição de que a organização dos conteúdos dos documentos operada por um sistema de representação possibilitaria a manipulação do conhecimento tão demandada pela sociedade científica. Embora, tal como ocorreu com as nomenclaturas, o sistema de classificação que propusera se mostrasse restritivo com o passar do tempo para o conjunto de operações almejadas pelos usuários, a idéia que norteou o projeto significou uma alteração paradigmática face aos procedimentos biblioteconômicos praticados, introduzindo a noção de linguagem documentária, ainda que não enunciada.

É justamente o princípio da operação simbólica, de natureza lógico-semântico-pragmático, que rege tanto a elaboração de terminologias quanto a elaboração de linguagens documentárias, que abre a possibilidade da promoção de uma cultura informacional efetivamente submetida e comprometida com o conhecimento. Considerando a unidade terminológica como unidade do conhecimento e os elementos da linguagem documentária como unidades de informação, tem-se que os sistemas de recuperação da informação - denominação atualizada das "trilhas" enunciadas por Bush - encontram na associação de ambos seus vértices constitutivos. De fato,
 

na sociedade contemporânea, os atores precisam de conhecimento não só para sobreviver como também para fazê-lo da melhor forma possível. Apenas o sujeito pode gerá-lo, o que significa que o conhecimento é uma ação humana. Esta ação concretiza-se através de um ritual, um trajeto. Neste sentido, entende-se o conhecimento como o resultado da ação do sujeito sobre a informação (TÁLAMO, 2004, grifo do autor)

3. Organização do conhecimento, linguagem de especialidade e terminologia

Quando operamos com linguagens que não mais respondem pelo modelo do senso comum, mas o superam, segmentando-o, tornando-o objetos de reflexão sistemática, não podemos mais nos valer de significações que se apóiam em contratos amplos. Caso isto ocorra, estaremos nos valendo de uma linguagem que não dá conta da especificidade do objeto, isto é, da forma que segmentamos a realidade originalmente já segmentada pela linguagem natural. Para desenvolver o pensamento conceitual, devemos operar com conceitos e juízos formais. Genericamente, para formar conceitos a partir das ocorrências dos termos, é necessário comparar, refletir e abstrair. Essas três operações básicas do intelecto constituem as condições essenciais e universais para a produção de qualquer conceito. O conceito apresenta-se sinteticamente como um nome, na forma substantivada. À forma significante atribui-se a denominação termo. O conteúdo do termo denomina-se conceito, que se apresenta como um conjunto de traços e/ou propriedades. Atribuir um conceito a um termo depende da formulação de juízos. O juízo, por sua vez, é um julgamento que relaciona uma qualidade a um termo (A cadeira é de metal, por exemplo). Como procede através de conceitos, o juízo responde pelo conhecimento não imediato mas mediato de um objeto da realidade. O conceito tanto pode se apresentar como um feixe de características ou como a própria característica. Por exemplo, em "O homem é mortal" o juízo associa a qualidade mortal ao conceito homem, em "Esta pessoa é um homem" o juízo associa a qualidade sexo masculino ao conceito pessoa (ser humano). (TÁLAMO, 2004).

O conceito permite agrupar os objetos,articulando-os segundo relações de semelhança-diferença. "A esse processo de generalização (categorização) segue-se o processo de classificação que se traduz em categorias cognitivas, ou conceitos mentais, que armazenamos em nosso cérebro" (BIDERMAN. 2001, p.156). De posse do léxico assim constituído lemos a realidade, a interpretamos. Portanto, identificar o modo de categorização de um domínio da experiência - no nosso caso o da "inovação tecnológica" consiste inicialmente em estabelecer a categorização a que se encontra submetido pelos juízos enunciados nos textos da área temática. Não nos interessa então analisar a relação entre as proposições (enunciação lingüística dos juízos) mas estabelecer a funcionalidade do conceito na produção de linguagem e por conseguinte na geração do conhecimento. Seguir-se-á o trajeto descrito para  a identificação das categorizações do domínio da inovação tecnológica. Face aos textos dessa área de especialidade, identificamos os juízos para formular a categorização do domínio e o conjunto de conceitos articulados que a fundamentam. Cada conjunto de enunciados que tem como referente um termo específico permite propor o conjunto de propriedades deste mesmo termo, o seu conceito, isto é, as representações expressas nas diferentes ocorrências.

A inovação tecnológica pressupõe o desenvolvimento de uma idéia, utilizando uma infra-estrutura adequada, que permita a produção de um bem ou serviço com qualidade, que satisfaça as condições exigidas para seu uso prático. Está associada ao desenvolvimento de produtos intensivos em conhecimento que possibilitem a seus consumidores interagir com seu meio social.

Tida como atividade complexa, a inovação tecnológica é constituída de várias fases: a) percepção de um problema ou de uma nova oportunidade (que envolve a identificação, a pesquisa e a avaliação das idéias para solucionar o problema encontrado ou encontrar a oportunidade); b) elaboração dos projetos do produto e do processo; e c) implementação, que passa pela aquisição e preparação dos recursos de manufatura, produção inicial, até a aceitação comercial do produto, serviço ou processo que incorpore as soluções encontradas e a sua sustentação no mercado (BARBIERI, 1997, p.68-69).

Para Barreto (1992, p.22-48), o processo de inovação tecnológica é composto por quatro momentos: o momento inicial, chamado de "antecedentes contextuais"; o segundo momento denominado "mecanismos de absorção"; o terceiro momento, o da "absorção" onde ocorre a assimilação da inovação que passa pela aquisição do conhecimento e pelo julgamento de valor; e o quarto momento, o momento da decisão que sedimenta a implantação e o uso da inovação.

As atividades de inovação integram todas as etapas - científicas, tecnológicas, organizacionais, financeiras e comerciais - que levam ou pretendem levar à criação ou aprimoramento de produtos ou processos. São operações específicas inscritas na seqüência tecnológica. Quanto á sua tipologia, as atividades de inovação podem ser bem sucedidas (na implantação de um produto ou processo tecnologicamente novo ou aprimorado), abortadas (seja por mudança no mercado ou venda/troca da idéia ou do know-how) ou correntes (atividades em andamento que ainda não chegaram à implantação). (OCDE, 2004. p.23).

Lascáris Comneno (2002, p.2) argumentam que "a construção de capacidade permanente de inovação tecnológica é uma condição de viabilidade para a sustentação da competitividade de um país". Nos dias atuais, as organizações se vêem na difícil tarefa de buscar e organizar informações de negócio (internas e externas), as quais, transformadas em conhecimento, podem vir a propiciar uma vantagem competitiva sustentável. Para que estas informações possam ser transformadas em conhecimento aproveitável e diretamente conectado com as necessidades da organização é preciso a construção da terminologia do domínio para posterior construção de uma ontologia e taxonomia.

Para se controlar a dispersão e facilitar a comunicação entre os especialistas, é vital que se controle a linguagem. Cabré (1993, p.43, tradução nossa) argumenta que "a terminologia é uma ferramenta básica para a comunicação especializada (uma boa terminologia dá garantias a seus usuários sobre a precisão e eficácia da comunicação)". Nesse sentido, a terminologia pode auxiliar nos seguintes processos: permutar informação entre diferentes grupos; fornecer uma descrição adequada sobre um domínio; melhorar o entendimento de um domínio; evitar distorções cognitivas; permitir reuso de conceitos em domínios onde o reuso é importante.

Entende-se por isso que a terminologia pode ser encarada como uma das principais ferramentas para o desenvolvimento das gestões da informação e do conhecimento. Ela propicia o reconhecimento do sistema conceitual onde os termos encontram-se articulados, condição para a interpretação e produção do conhecimento.
 

4. Organização do conhecimento: a categorização do domínio da inovação tecnológica.

Para identificar a categorização do domínio, valer-nos-emos de princípios da TGT - Teoria Geral da Terminologia, consubstanciados nos seguintes instrumentos:
 

1. Documentação sobre a especialidade - documentação terminológica.
2. Norma ISO 704 (1987) - Príncipes et méthodes de la terminologie ;
3. Fichas de extração, síntese e organização dos conceitos presentes nos textos da área  de  especialidade.


Com isso compilamos os termos próprios do domínio, buscando quais unidades terminológicas os especialistas utilizam para comunicação para, em uma segunda fase, propor uma forma alternativa de alteração para algumas denominações (CABRÉ, 1993, p.277). Limitamo-nos aqui a propor apenas às formas de categorização do domínio, com a proposição subseqüente de classificação genérica entre os termos. A documentação terminológica funciona como fonte da terminologia , e integra os textos da comunicação especializada, reconhecidos pelos profissionais da área. A seleção das fontes constitui o corpus documental do trabalho terminológico. Deste corpus são extraídas as informações que foram sistematicamente trabalhadas pelas fichas elencadas no item 3 acima.

A inovação tecnológica é amplamente citada pela literatura como fator e condição de desenvolvimento. Não há discordância quanto a isso. Mas, para que ela possa ocorrer de maneira satisfatória é necessário, também, que o setor produtivo reconheça os termos do seu domínio, propiciando , assim, a interpretação adequada para a formulação das etapas para a ocorrência efetiva  da inovação.

Na organização conceitual inicial dos termos coletados, a categorização largamente disseminada do domínio compreende a idéia simples de que a inovação tecnológica encontra-se reduzida à tecnologia considerada mercadoria e como tal passível de compra e consumo. Apresenta-se como herança de um comportamento passivo que induz a interpretação linear do processo. Assim "o modelo linear da inovação" representa a inovação tecnológica como evento, uma ação de consumo que não se encontra inscrita como processo no setor produtivo. A figura abaixo representa semelhante categorização:

Figura 1: Modelo linear da inovação tecnológica
Fonte: VIOTTI in VIOTTI, E.B. , MACEDO , M.M. (org.), 2003, p.46
 

Utilizando tal modelo como filtro para interpretação/compreensão do domínio, vale dizer como parâmetro de produção simbólica, observa-se sua fragilidade, decorrente, entre outros, da sua fundamentação no contrato amplo do consumo simbólico, que é necessariamente homogeinezante. Embora o nosso propósito não seja discutir semelhante aspecto, somos obrigados a alertar que os países periféricos por conta, entre outros fatores, da inexistência de terminologias consolidadas tendem a adotar os modelos lineares para fins de explicação dos fenômenos que não respondem à exigência de um mundo cada vez mais complexo. Acrescenta-se ainda que o modelo linear presta-se muito mais para controle do que para a compreensão do mundo, o que, mais uma vez, atribui importância crescente à formulação de estudos do conhecimento sob o pronto de vista da linguagem. De fato, a figura 1, largamente difundida, conduz invariavelmente a uma interpretação parcial do processo de inovação tecnológica que torna os países periféricos reféns da condição de consumidores de conhecimento. Nesse sentido, ao propor a organização do conhecimento como um dos produtos da Terminologia, reconhece-se a linguagem de especialidade como elemento crucial do território, no sentido cultural a ele atribuído.

Como alternativa à esse modelo, propõe-se abordagem do domínio a partir da denominação seqüência tecnológica, apesar da sua baixa ocorrência no corpus. Adota-se a hipótese de que a inovação tecnológica se define e se esclarece pela seqüência tecnológica que dispõe etapas no interior de um continuum que vai da pesquisa ao desenvolvimento. Em suma, como veremos, a seqüência tecnológica é a transferência do conhecimento - e não o seu consumo - gerado na pesquisa - para o setor produtivo.

De acordo com a Second Annual Report of the National Science Foundation Fiscal Year 1952 (apud STOKES, 2005, p.28)
 

* a seqüência tecnológica é formada pela pesquisa básica, pela pesquisa aplicada, e pelo desenvolvimento...

* a pesquisa básica mapeia o curso da aplicação prática, elimina os becos sem saída, e permite ao cientista aplicado e ao engenheiro atingir seus objetivos com a máxima velocidade, direção e economia. A pesquisa básica, voltada simplesmente para o entendimento mais completo da natureza e de suas leis, dirige-se para o desconhecido, [ampliando] o domínio do possível.

* A pesquisa aplicada preocupa-se com a elaboração e a aplicação do que é conhecido. Seu objetivo é tornar o real possível, demonstrar a viabilidade do desenvolvimento científico ou de engenharia, explorar caminhos e métodos alternativos para a consecução de fins práticos.

* O desenvolvimento, estágio final da seqüência tecnológica, é a adaptação sistemática dos achados da pesquisa a materiais, dispositivos, sistemas, métodos e processos úteis...


Stokes reforça, ainda, que cada um dos sucessivos estágios depende do estágio precedente.

Atividade primeira, método e instrumento da inovação, a pesquisa, no seu sentido mais amplo, é um conjunto de atividades orientadas para a busca de um determinado conhecimento. É uma aplicação das atividades intelectuais humanas para a solução de problemas através do emprego de procedimentos científicos. A pesquisa deriva da observação de um problema e fundamenta-se em métodos para resolver esse problema. É uma indagação minuciosa ou exame crítico e exaustivo na procura de fatos e princípios; uma diligente busca para averiguar algo. Pesquisar não é apenas procurar a verdade; é encontrar respostas para as questões propostas, utilizando métodos científicos.

Mais voltado ao domínio da inovação, o Manual de Oslo (OECD, 2004, p.44) nos dá a definição de pesquisa, enquanto instrumento da inovação tecnológica:
 

Como pode se relacionar a qualquer estágio da inovação, a pesquisa é uma atividade diferenciada internamente, potencialmente com uma grande variedade de funções. É um adjunto da inovação, não uma pré-condição dela. Muitas atividades de pesquisa podem, de fato, ser configuradas pelo processo de inovação, e muitos dos problemas a serem pesquisados derivarão de idéias inovadoras que foram geradas em outro local. Assim sendo, para a abordagem do elo da corrente, a pesquisa não pode ser vista simplesmente como o trabalho de descoberta que precede a inovação.


A pesquisa vem reiterando seu caráter de adjuvante da inovação tecnológica já que ela dá origem ao nascimento de uma tecnologia.

Tecnologia pode ser definida como o conjunto de conhecimentos, científicos e empíricos, utilizados na concepção, produção e distribuição de produtos e/ou serviços (ALVIM, 1998; DEMANTOVA NETO, LONGO, 2001; SBRAGIA, 1989).

Barreto (1992, p.13) ressalta que tecnologia "[...] não é a máquina ou o processo de produção com suas plantas, manuais, instruções e especificações, mas, sim, os conhecimentos que geraram a máquina, o processo, a planta industrial e que permitem sua absorção, adaptação, transferência e difusão", ou seja, não é a técnica, mas sim os conhecimentos necessários à geração da técnica.

O último elo da cadeia é o desenvolvimento. Toda a seqüência tecnológica visa um único fim: o desenvolvimento, força motriz da competitividade. Barreto (1992, p.13) entende que o desenvolvimento "compreende o uso sistemático de conhecimentos científicos ou não, em geral provenientes da própria pesquisa, visando a produção de novos materiais, produtos, equipamentos e processos". Para Schumpeter (2002), em artigo escrito em 1932, desenvolvimento pode ser definido como a transição de um modelo de sistema econômico para outro modelo, sendo que o caminho dessa transição não pode ser decomposto em passos infinitesimais. O desenvolvimento só acontece com capacitação tecnológica. É necessário que o setor produtivo a possua para que possa se instalar a inovação.

Inovação é a capacidade de conceber e incorporar conhecimentos para dar respostas criativas aos problemas (FINQUELIEVICH, 2005). Já a Lei nº 10.973 (Lei da Inovação) reza que inovação é a "introdução de novidade ou aperfeiçoamento no ambiente produtivo ou social que resulte em novos produtos, processos ou serviços", focando no ambiente produtivo, visando a autonomia tecnológica e o desenvolvimento industrial do Brasil. Aliás, a mesma lei diferencia inovação de invenção, apesar de não usar o termo invenção. Para a referida lei, criação é a
 

Invenção, modelo de utilidade, desenho industrial, programa de computador, topografia de circuito integrado, nova cultivar ou cultivar essencialmente derivada e qualquer outro desenvolvimento tecnológico que acarrete ou possa acarretar o surgimento de novo produto, processo ou aperfeiçoamento incremental, obtida por um ou mais criadores.


Schumpeter, considerado o pai da inovação, a categorizava como a "introdução de um novo produto ou um novo método de produção; a abertura de um novo mercado; a descoberta ou conquista de uma nova fonte de matéria-prima ou a introdução de uma nova estrutura de mercado" (apud BERNARDES; ALMEIDA, 1999, p.89). O que se observa é que existem duas ramificações: área mercadológica - foco do usuário - e área produtiva - novidades nos processos, produtos e serviços.

O que parece ser consenso é que inovação é a inserção de um novo produto, serviço ou processo no mercado, independente da inserção de tecnologia. Kim e Nelson (2005, p.16) argumentam que a inovação é uma "atividade precursora, originalmente enraizada nas competências internas da empresa, para desenvolver e introduzir um novo produto no mercado pela primeira vez". É uma realização original de natureza econômica, um termo que ainda está em transição para a consolidação.

O termo inovação substitui muitas vezes o termo inovação tecnológica, o que nos parece abusivo. Encontram-se na literatura conceitos semelhantes aos dois termos. É necessário entender que a palavra tecnológica não é apenas um qualificador para o termo inovação. Acredita-se que inovação tecnológica seja a inovação com inserção de tecnologia. A introdução do adjetivo qualificador - tecnológica - é o caminho para a precisão crescente, pois o deslocamento genérico gera a imprecisão. A definição parcial compromete a compreensão.

A incidência da inovação tecnológica pode acontecer de duas formas: a inovação tecnológica de produto e a inovação de processo tecnológico. A OECD (2004, p.21) conceitua inovação tecnológica de produto como a "implantação/comercialização de um produto com características de desempenho aprimoradas de modo a fornecer ao consumidor serviços novos ou aprimorados". A inovação de processo tecnológico é a "implantação/adoção de métodos de produção ou comercialização novos ou significativamente melhorados. Ela pode envolver mudanças de equipamentos, recursos humanos, métodos de trabalho ou uma combinação destes" (OECD, 2004, p.21).

Schumpeter (apud OCDE, 2004, p.32-33) propôs uma relação de vários tipos de inovações, como:
 

* introdução de um novo produto ou mudança qualitativa em produto existente;
* inovação de processo que seja novidade para uma indústria;
* abertura de um novo mercado;
* desenvolvimento de novas fontes de suprimento de matéria-prima ou outros insumos;
* mudanças na organização industrial.


Quanto à tipologia, as inovações tecnológicas podem ser: radical, incremental e revolucionária. A inovação tecnológica radical é a introdução de um produto, serviço ou processo completamente inéditos. Esse tipo de inovação cria um novo mercado. São, comumente, produtos que não existiam ou não tinham possibilidade de existir. Via de regra, criam uma necessidade no consumidor que anteriormente não existia. Inovações radicais provocam grandes mudanças no mundo (OECD, 2004, p.32-33). Krucken-Pereira; Debiasi; Abreu (2001, p.3) atestam que a inovação tecnológica radical
 

Introduz conceitos completamente novos para a organização, necessitando da criação de processos completamente novos, muitas vezes a extinção de processos existentes, além de envolver, algumas vezes, a mudança de valores da organização. Logicamente, a Inovação Tecnológica Radical envolve muito mais incertezas, resistências e, conseqüentemente, riscos.


A inovação tecnológica incremental "é resultado de esforços cotidianos para aperfeiçoar produtos e processos existentes, visando obter maior qualidade e maior produtividade" (FREEMAN apud DEMANTOVA NETO; LONGO, 2001, p.96). Normalmente, esse tipo de inovação se adequa ao contexto da organização que a adota, sendo que comumente é "produto" da concorrência, ou seja, uma empresa lança um produto inteiramente novo e os concorrentes se apossam desse produto e o "melhoram", acrescentam alguma coisa que o diferencie do produto inicial. É um círculo virtuoso: uma empresa cria e as outras aperfeiçoam. Para não perder a competitividade a empresa criadora passa , também,a inserir melhorias no produto inicial. As inovações incrementais preenchem continuamente o processo de mudança.

As inovações tecnológicas revolucionárias "são intensivas em ciência e têm amplo impacto sobre o sistema produtivo, podendo tornar obsoleta, total ou parcialmente, a base tecnológica existente" (FREEMAN apud DEMANTOVA NETO; LONGO, 2001, p.96), ou seja, elas acontecem num macro ambiente, promovendo um impacto em todos os componentes da seqüência tecnológica. Elas podem modificar substancialmente o mercado, criando até um mercado inteiramente novo, alterando a sociedade. Pode-se citar como exemplo de inovação tecnológica revolucionária a telefonia celular. É difícil imaginar outro produto da tecnologia que tenha passado por tantas transformações - e em tão pouco tempo - quanto o telefone celular. Observa-se que esse novo sistema não só alterou completamente a base tecnológica da telefonia, mas também o modo de vida social.

A partir da análise empreendida temos a categorização do domínio com seguinte articulação dos termos:

Figura 2: Seqüência tecnológica: escopo do domínio da inovação tecnológica
 

Comparando-se os dois modelos observa-se que conduzem a ações compreensivas diversas. O modelo linear (figura 1) encontra-se represado pelo consumo das tecnologias/produtos da inovação. Estratégias políticas elaboradas a partir dessa compreensão inevitavelmente reconhecem apenas a inovação como evento passível de troca. Já o modelo representado pela figura 2 além de superar a idéia de consumo, substituindo-a pela de produção, enuncia os elementos que se articulam nesse processo. Além da interação entre os elementos, observa-se ainda a introdução do termo capacitação tecnológica, que responde pela alteração profunda do modo de articulação dos termos. Resulta disso um modelo mais complexo, portanto mais compreensivo, que tem na rede associativa o seu suporte. Evidentemente estratégias nele baseadas condizem com ação competente sobre o cenário do mundo globalizado, que supõe  o conhecimento como fator produtivo essencial. Resta enfatizar que de posse do modelo da figura 2, a transmissão de conhecimento no âmbito da especialidade se prevalece de um patrimônio vocabular que permite o exercício ativo da cognição.
 

5. Organização da informação: inovação tecnológica na linguagem documentária

A Terminologia reconhece o termo como uma unidade do conhecimento, enquanto a Ciência da Informação, através da Documentação, utilizando-se da Linguagem Documentária, vale-se do descritor enquanto unidade de informação. O desafio da Linguagem Documentária é, justamente, inscrever a unidade do conhecimento (termo) em um Sistema de Informação que trata de temática específica como elemento estrutural que propicie o funcionamento do descritor.

O tesauro é uma linguagem documentária que representa de forma normalizada os conceitos de uma área específica através de termos que se manifestam em estruturas lógico - semânticas. Inspira-se em larga medida na obra de autoria de Peter Mark Roget, publicada em Londres, no ano de 1852, intitulada "Thesaurus of English Words and Phrases". Esta obra representou uma revolução em relação ao dicionário tradicional, evidenciando, entre outras coisas, a diferença entre dois percursos fundamentais para a produção de sentido: o que parte da palavra para o conceito e o que assume o sentido como ponto de partida associando-lhe as palavras que o expressam.

Exemplo do primeiro percurso - da palavra ao conceito, é o dicionário tradicional. Nele, o léxico da língua é apresentado sob a forma alfabética fornecendo-se para cada palavra um certo número de informações (pronúncia, etimologia, categoria gramatical, sinônimos, idiotismo, exemplo de emprego, etc...). O dicionário permite a consulta do léxico, entendido como os signos do sistema da língua. É, portanto, uma obra descritiva que não escapa à arbitrariedade: não pode ser exaustiva e as decisões dependem fundamentalmente da autoria. O uso do dicionário, por isto, encontra-se relacionado a uma dúvida do usuário, sempre muito específica, sobre o significado de uma palavra. Nestas condições, nem sempre é possível um entendimento mais amplo das relações de sentido entre as unidades participantes do campo lexical.

O "Thesaurus of English Words and Phrases", por sua vez, baseia-se no percurso que associa a forma de conteúdo a suas expressões, exemplificando o segundo percurso acima assinalado - do sentido à palavra. De acordo com  seu autor, o Thesaurus apresenta uma coleção de palavras arranjadas de acordo com as idéias que expressam. Responde, portanto, às situações em que dificuldades de expressão se impõem e necessitam, para serem resolvidas, da disponibilização de um leque de possibilidades, todas elas relacionadas a um mesmo conceito e seus diferentes matizes. A palavra não é mais descrita, como o faz o dicionário tradicional. É considerada, de fato, como intrumentalização da idéia, privilegiando-se a relação da linguagem com o pensamento.

O propósito do Thesaurus não é o de descrever o significado de uma palavra. Dito de outro modo, ele não responde a questão "O que significa X?". Ao contrário, estabelece o lugar de X e suas relações com outras unidades no interior de um campo de sentido, possibilitando a disponibilização do conjunto de expressões para uma determinada idéia. Este ponto revela a proximidade entre a Terminologia e a Documentação. A categorização do domínio deve seguir o padrão terminológico, já a seleção de descritores segue o padrão documentário. Em suma, embora não haja obrigatoriamente coincidência entre termo e descritor existe entre ambos forte relação conceitual.

O tesauro documentário inspira-se em larga medida no "Thesaurus" de Roget. De modo geral, distribui um domínio específico da experiência em categorias, que podem ser subdivididas, integrando na base os termos que expressam relações conceituais. No entanto, ao contrário do Thesaurus, o tesauro documentário não se presta para o uso lingüístico estrito, já que a  sua função encontra-se relacionada  exclusivamente ao tratamento da informação - indexação - e sua recuperação.

Na metade do século XX, com a crescente especialização do conhecimento, começa a ganhar força a idéia do conceito como núcleo organizador das linguagens documentárias. Não se trata mais de emprender uma ordem física dos livros mas uma ordem dos conceitos ou dos significados para a representação da informação. Na década de 50, impõe-se a idéia de descritor associada a de conceito. Como unidade preferencial do tesauro documentário, o descritor define-se como forma significante ou de expressão - palavra ou grupo de palavras-chave ou significativas-representativas dos conceitos e idéias. Fica assim definitivamente determinado o conceito e suas relações como o vértice para a elaboração de linguagens documentárias. É, portanto, a noção de conceito que permite relacionar thesaurus lingüístico e tesauro documentário.

É ainda nesta mesma década, pressionado pelo crescente volume de publicações técnico-científicos, que o termo tesauro passa a ser relacionado à idéia de recuperação da informação. O problema da recuperação da informação começa a exigir soluções que os sistemas tradicionais são incapazes de fornecer. A recuperação da informação, e não mais a recuperação de documentos, demanda a construção de linguagens associadas às idéias de padronização e representação. A solução para os sistemas de recuperação da informação está na representação dos conceitos e suas relações, expressos nos documentos, em uma forma de linguagem padronizada, obtida pelo controle de sinônimos e uma estrutura sintática mais simplificada que a da linguagem natural.

Chega-se assim ao entendimento do tesauro como a criação deliberada de um vocabulário, que não só controla a proliferação de termos que dificultam a recuperação da informação mas que apresenta uma estrutura lógico-semântica que garante a representação do conteúdo informacional dos documentos de forma normalizada.

Funcionalmente, portanto, o tesauro documentário é um vocabulário destinado exclusivamente à indexação e recuperação da informação. Por isto, o tesauro não é um instrumento apropriado para o conhecimento de uma área, já que a matriz do seu vocabulário baseia-se na redução do número de termos a serem empregados no sistema de informação através da escolha dos termos preferenciais, denominados descritores.

Estruturalmente, por outro lado, o tesauro parte de uma categorização do assunto, ou do campo temático focado, denominada macro-organização, cuja subdivisão, em tantos níveis quanto necessários, baseia-se na proposição de classes gerais auto-excludentes, condição necessária para a organização dos termos e para o estabelecimento de estratégias de busca. Sendo assim, embora a organização esteja vinculada simultaneamente aos objetivos da instituição e à natureza do campo de especialidade focado, a categorização não contempla conjuntos ou níveis interseccionados. A auto-exclusão das categorias lhes confere autonomia de representação do campo de especialidade, necessária para a organização da informação e para a postulação de regras de recuperação.

O vocabulário da especialidade apresenta-se como um inventário de unidades efetivamente utilizadas no campo temático, aglutinados relacionalmente nas categorias e classes em que o domínio encontra-se distribuído. As categorias designam aspectos particulares de uma determinada área do conhecimento, permitindo o agrupamemto de termos sob uma denominação. Neste sentido, as categorias são obtidas a partir da aplicação de características dos conceitos no universo de conhecimento. As subdivisões ou agrupamentos assim obtidos manifestam freqüentemente particularidades em relação às áreas do conhecimento, seja em função das  aplicações pretendidas pela linguagem documentária seja em relação ao tipo de informação a ser organizada. Assim sendo, as categorias não constituem dados universais mas nomeiam agrupamentos feitos de acordo com propósitos institucionais. Resultam, portanto, da aplicação de um ponto de vista sobre um campo temático determinado.

A construção do tesauro documentário segue as seguintes etapas:
 

* Delimitação do domínio focado, com a formulação das categorias, classes e subclasses pertinentes para a representação da informação;

* Seleção da terminologia;

* Normalização da terminologia, com o estabelecimento de um sistema de remissivas entre os termos (descritores) e não termos (linguagem natural, linguagem do usuário,etc...);

* Organização dos descritores: proposição de ordem lógica e rede associativa.


Observa-se portanto que o tesauro deve partir de uma categorização do domínio. Denominaremos essa categorização como organização do conhecimento temático - terminologia, portanto. Estruturalmente, o tesauro se beneficia da terminologia da área que será submetida à organização informacional. Na ausência dessa perspectiva inscrita no plano estrutural, o funcionamento do tesauro se vê ameaçado pela recuperação imprecisa da informação. Desenvolvemos a seguir essa proposta, comparando-se a organização da informação do domínio da inovação tecnológica empreendida por dois tesauros com a categorização desse mesmo domínio representada pela figura 2 .

Analisando-se o Thesaurus Popin - Thesaurus Multilíngüe de População, percebe-se algumas discrepâncias e equívocos que comprometem e até mesmo distorcem a recuperação da informação no domínio estudado. Nele, o descritor difusão de inovações está inserido no campo da Cultura, Educação e Informação, enquanto o descritor  inovações está inscrito no âmbito da Produção, no domínio da Economia. O descritor  inovações é termo relacionado do descritor progresso tecnológico, que por sua vez, está relacionado ao descritor tecnologia. Semelhante rede associativa autoriza afirmar que o descritor  inovações contempla "inovação  tecnológica", que inexiste tanto como termo autorizado e não autorizado.

No mesmo tesauro, os descritores inovações e difusão de inovações encontram-se associados, são termos relacionados. Difusão de inovações encontra-se, por sua vez, como termo específico de difusão da informação. Esse último descritor encontra-se relacionado aos que seguem: boato, informação, redes de informação, referências, serviços de informação e sistemas de informação. Com essa estrutura inviabiliza-se o reconhecimento de qualquer forma consistente de organização nocional; do mesmo modo, compromete-se a qualidade da recuperação da informação, já que a precisão e a relevância dificilmente serão atendidas. Observa-se que na ausência de referencial de organização de conhecimento, os descritores reúnem-se de modo errático e não alçam a condição que lhes é atribuída, qual seja a de representar o conteúdo dos documentos para fins de recuperação da informação.

O Tesauro Spines, por sua vez, é um vocabulário controlado e estruturado para o tratamento de informação sobre ciência e tecnologia para o desenvolvimento. Justamente por ser específico da área de C&T, o descritor inovação recebe outro tratamento. Nesse Tesauro,  inovações tem a seguinte nota de escopo: "aplicações novas e com êxito de inventos, novos processos ou novas idéias na sociedade; não se confundindo com descobrimentos ou inventos" (UNESCO, 1988, p.359). Já o descritor inovações tecnológicas tem a seguinte nota de escopo: "novas aplicações ou usos dos inventos, novos progressos ou novas idéias no sistema regular de produção de bens e serviços" (UNESCO, 1988, p.359), relacionando-se com os seguintes descritores: desenvolvimento de processos, desenvolvimento de produtos, descobrimentos científicos, evolução da tecnologia, informação tecnológica, entre outros.

Percebe-se claramente que quanto mais a temática do tesauro se aproxima do domínio do conhecimento maior a consistência  entre termo e descritor. Cabré (1993, p.111, tradução nossa) argumenta que:
 

A terminologia, além de ser a base para a estruturação do conhecimento dentro das linguagens de especialidade (através da sistematização dos conceitos), e de servir de canal para a transferência do conhecimento, também constitui a base para a formulação de textos técnicos (a redação técnica), para a tradução de textos de especialidade (a tradução ou a interpretação técnicas) e para a descrição, armazenamento e recuperação da informação especializada (a documentação técnica).


Rondeau (apud CABRÉ, 1993, p.111) conclui que não se pode dissociar a terminologia da documentação, pois todo trabalho terminológico deve necessariamente recorrer, direta ou indiretamente, a uma abundante documentação especializada e deve retornar como elemento de normalização da comunicação e das operações documentárias, especialmente a indexação e a recuperação da informação.

Observa-se, por fim, que seqüência tecnológica não aparece em nenhum dos tesauros considerados. Deve-se provavelmente este fato à ausência de referência nocional específico do domínio expressa por categorização do domínio, tal como empreende a Terminologia. Essa ausência atribui um caráter aleatório aos vocabulários documentários cuja superação depende de contratos eficazes entre a Documentação e a Terminologia.
 

6. Considerações finais

O conjunto de termos estruturado - a terminologia -, como apresentado, é a base da organização do conhecimento de uma área de especialidade. Já  o descritor - unidade de informação - é a base para a indexação e recuperação de conteúdos nos sistemas de informação. Nesse sentido, a tecnologia da informação apresenta claramente duas dimensões: uma concreta, incorporada, e outra simbólica. Para Bush, o cientista é o agente simbólico que está no comando total de uma máquina que desenvolveu - o Memex. No entanto, a capacidade simbólica do ser humano não pode ser continuamente expandida. Ela provavelmente não só requer mas também solicita recursos simbólicos para o seu funcionamento. Isto é, a expansão das operações mentais humanas depende de recursos criados deliberadamente para este fim. As terminologias e os produtos documentários têm esta atribuição. Do mesmo modo que o Memex, funcionam como memórias a serem ativadas pelo sujeito. Estruturada, uma terminologia não só agiliza a comunicação entre pares, como se acredita usualmente, mas também e principalmente funciona como instrumento conceitual para a compreensão da forma de organização da área, impondo-se como elemento diferenciador na formação profissional e de pesquisadores. A terminologia, conforme exemplificado na estruturação do domínio da "inovação tecnológica" (figura 2), pode funcionar como elemento de cooperação - motor da comunicação - e de concorrência - motor da produção do conhecimento e da informação.

No que tange à organização da informação, ainda prevalece, principalmente em países periféricos, certo grau de artificialidade na indexação, ou melhor, nos instrumentos que a orientam. Bush ao constatar tal característica, à época apenas nas bibliotecas, atribui ao cientista a tarefa hercúlea de selecionar os elementos do conteúdo integrados a uma massa documental já enorme e de crescimento exponencial. A proposta aqui apresentada que associa organização do conhecimento - a terminologia - e organização da informação, estabelece  parâmetros para a seleção de conteúdos que se apresentam como conjuntos simultaneamente selecionados com maior precisão - com recuperação quase ótima - e com chance de manipulação mais produtiva pelo cientista/pesquisador/usuário.

Um sistema de informação com base na associação de ambas as organizações apresenta-se como sistema de recuperação da informação e não como sistema de estoque da informação. Não existe avanço da tecnologia que neutralize a inexistência do sistema de organização simbólica. Este integra a capacidade de acesso às informações essenciais às ações e previsões. Considera-se, por fim, que a adequada estruturação terminológica funciona como relevante parâmetro para a construção de linguagens documentárias, garantindo-se o aprimoramento considerável da coleta, processamento e assimilação das informações sobre a temática em questão. Do contrário, teremos inevitavelmente assimilações parciais dos conteúdos registrados, comprometendo-se a comunicação e a geração de conhecimento. A memória termino-documentária é elemento estratégico para a integração dos indivíduos e dos países à sociedade do conhecimento. Erige-se como um dos recursos para enfrentar a ingenuidade científica: esta
 

corresponde à fala do não sujeito, do repetidor que assume o centro de um discurso superficial, ingênuo, onde o auto-encantamento do enunciador pretende transformar em espetáculo o suposto processo de conhecimento. A resistência desses indivíduos é grande: quando a presunção substitui o trabalho intelectual, erige-se uma muralha ente o indivíduo e o mundo. O máximo, nestas circunstâncias é revesti-lo - o mundo - de espelhos, para que o indivíduo só observe os reflexos do seu encantamento pelo suposto conhecimento. Envaidecido ele irá lutar bravamente pelas suas opiniões, mesmo que isto represente um distanciamento progressivo do processo de conhecimento e a forte adesão à crença. (TÁLAMO, 2004_).

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Sobre as autoras / About the Authors:

Maria de Fátima Gonçalves Moreira Tálamo
mfgmtala@puc-campinas.edu.br

Docente do curso de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUCCAMP.
Bacharel em Lingüística pela Universidade de Campinas, UNICAMP, Mestre e Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo - USP. É pesquisadora do Grupo Temma . Docente aposentada da  Universidade de São Paulo.

Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Rua Marechal Deodoro, 1099, Centro, Campinas - SP. Tel.: (19) 3735 5900.


Lívia Aparecida Ferreira Lenzi
livialenzi@gmail.com

Mestre em Ciência da Informação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUCCAMP,
Especialista em Gerência de Unidades de Informação pela Universidade Estadual de Londrina - UEL,
Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Estadual de Londrina - UEL.