Resumo: O
presente trabalho estuda os fluxos de informações e conhecimentos e a
estrutura da rede de interações em um aglomerado de empresas. Foi adotada a
análise de rede sociais para identificar propriedades estruturais da rede de
empresas pertencentes ao arranjo produtivo de confecções de Salvador, Bahia,
Brasil. Tomou-se por base os fluxos de informações e conhecimentos
envolvidos nas diversas interações, internas e externas do aglomerado,
decorrentes da necessidade de desenvolver e aprimorar a competitividade,
tanto coletiva quanto individual. Os dados obtidos possibilitaram avaliar a
estrutura da rede de interações e a influência que tem em relação aos fluxos
de informações e conhecimentos envolvidos com a melhoria da competitividade,
particularmente por fatores tecnológicos. No final, são apontados possíveis
referenciais que podem caracterizar a intensidade das interações e
cooperação entre empresas do arranjo produtivo. A contribuição principal
deste trabalho consiste em um diagnóstico estrutural do arranjo produtivo
local de confecções de Salvador.
.
Palavras-chave: Fluxos de informações e conhecimentos; Inovações; Análise de redes Sociais; Arranjo produtivo local; Competição; Diagnóstico Estrutural
Abstract: This paper presents the results of a
research project focused on information flow and knowledge transfer of a
wide range of interactions within an enterprise network structure. The
social networks analysis method was then applied to identify the structural
proprieties of the enterprises belonging to a local productive arrangement
of couture in Salvador, Bahia, Brazil. To carry on this research, it has
been taken into account either information and knowledge flows related to a
variety of actions seeking to improve its competitiveness either
collectively or individually in that particular enterprise network. The
overall outcome of this survey gives a clear picture of the effectiveness of
those interactions as far as the competitiveness goal is concern. The
outcome of this work has pointed out some indicators that can be used to
describe the interactions intensity as well as the level of cooperation
among the firms belonging to the productive arrangement. The main
contribution of this work consists of a structural diagnostic of the local
productive arragement of couture in Salvador.
Key words: Information and knowledge flows;
Innovations; Social network analysis; Local productive arrangements;
Co-opetition; Structural diagnostic.
Introdução
A hipótese principal que fundamentou esta pesquisa parte do princípio de
que, na economia baseada no conhecimento e no aprendizado, há a necessidade
de os atores, que participam de arranjos produtivos locais (APLs),
articularem-se, interagirem e cooperarem entre si, como uma forma de
garantir a sobrevivência bem como promover a inovação e a competitividade.
Dentro deste contexto, esta pesquisa, vista sob a perspectiva dos fluxos de
informações e conhecimentos para fins de inovações em aglomerações
territoriais de empresas, permitiu a elaboração de um diagnóstico da
dinâmica de tais fluxos nestas aglomerações, concentrando-se nos processos
de inovação. Desta maneira, uma série de iniciativas públicas e privadas no
âmbito dos APLs podem ser realizadas com base no diagnóstico elaborado.
O objeto de estudo é, portanto, o conjunto dos fluxos de
informações e conhecimentos envolvidos nas inovações que ocorrem nas
aglomerações de empresas que apresentam concentração espacial e atuação em
atividades correlacionadas e que, neste trabalho, são conceituadas como
arranjos produtivos locais. Desse modo, para investigar a hipótese
supracitada, buscou-se compreender como o assunto vem sendo abordado na
literatura internacional, para avaliar a natureza dos êxitos de arranjos
produtivos locais com base nos fluxos de informações e conhecimentos para
fins de inovação.
Usando algumas propriedades de redes complexas, foi possível identificar a
estrutura e a organização da rede de empresas que compõem o APL de
confecções de Salvador, considerando-se as seguintes formas de cooperação e
interação entre os atores do arranjo:
(1) fontes de informação que a empresa utiliza para a promoção de suas próprias inovações de produto ou de processo,
(2) relacionamentos para promover o grupo e para melhorar a comunicação entre os membros do APL,
(3) relacionamentos para o desenvolvimento de programas educacionais e de treinamentos que são patrocinados pelo grupo para atender seus interesses,
(4) relacionamentos para desenvolvimento de atividades coletivamente organizadas para promover serviços e produtos do grupo,
(5) relacionamentos para o desenvolvimento de atividades para a aquisição conjunta de equipamentos e outros recursos,
(6) relacionamentos para o desenvolvimento de alianças para a produção de um determinado produto,
(7) relacionamentos para a defesa de políticas, legislação e programas de interesse do APL,
(8) relacionamentos para a compra de materiais, produtos ou contratar serviços,
(9) relacionamentos para a venda de produtos ou serviços e
(10) principais competidores/concorrentes diretos de uma empresa dentro do APL.
A contribuição principal desta pesquisa é, a partir do diagnóstico
realizado, validar objetivamente as percepções sobre o APL de confecções e
sugerir estratégias para que as intervenções públicas e privadas necessárias
sejam realizadas e/ou estabelecer políticas orientadas ao estímulo de mais
interação e cooperação entre os atores de um aglomerado de empresas,
tornando-as mais competitivas.
Este artigo está organizado da seguinte forma. A Seção 2 apresenta um breve
histórico sobre os arranjos produtivos locais, sua definição, composição e
atividades de cooperação e competição dentro desse entorno. A Seção 3
apresenta uma visão geral sobre os fluxos de informação e conhecimentos em
APLs relacionando-os a algumas propriedades, através das quais é possível
inferir sobre a estrutura da rede analisada. A Seção 4 explica a metodologia
da pesquisa. As Seções 5 e 6 estendem a seção anterior, apresentando os
resultados obtidos e algumas reflexões baseadas nas análises realizadas,
respectivamente. Finalmente, a Seção 7 apresenta as considerações finais do
artigo.
Arranjos produtivos locais
Considerando uma perspectiva histórica, desde 1920, as teorias de
Marshall
[1] apontam para os ganhos de eficiência associados ao agrupamento setorial
e regional de empresas (economias externas). Mais tarde, no início da década
de 90, Michael Porter, em sua obra
“A Vantagem Competitiva das Nações”,
identifica o que denominou de clusters, constituídos de indústrias
relacionadas por ligações de vários tipos. Segundo Porter [2], as indústrias
bem-sucedidas estão, geralmente, ligadas através de relações verticais (e.g.
comprador-fornecedor) ou horizontais (e.g. clientes, tecnologia, canais
comuns etc.).
A presença de todo um grupo de indústrias amplia e acelera o processo da
criação de fatores: todas investem em tecnologias especializadas, mas
correlatas (i.e. informação, infra-estrutura e recursos humanos); e ocorrem
numerosas ramificações. A escala de todo o grupo encoraja maior investimento
e especialização. A atenção do governo e das universidades é intensificada.
Inspirado na definição de
cluster de
[2], o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE)
[3] define Arranjo Produtivo Local ( APL) como aglomerações de empresas
localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva
e mantêm algum vínculo de articulação, interação, cooperação e aprendizagem
entre si e com outros atores locais tais como governo, associações
empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa.
Neste sentido, um APL deve manter ou possuir a capacidade de promover uma
convergência em termos de expectativas de desenvolvimento, estabelecer
parcerias e compromissos para reter e especializar os investimentos de cada
um dos atores no próprio território, e estabelecer ou ser passível de uma
integração econômica e social no âmbito local.
Um APL pode ser descrito por três camadas de participantes: o núcleo
central, formado por empresas especializadas; a segunda camada formada por
empresas que fornecem componentes e serviços específicos para o núcleo e a
terceira camada que é composta por organizações que dão suporte de educação,
treinamento, infra-estrutura de comunicação e transporte, bancos,
seguradoras, escritório jurídico, centro de pesquisa, órgãos públicos,
agentes de fomentos etc. Esta última também é denominada de entorno de apoio
ou entidade de apoio. Uma vez bem ajustadas essas camadas, um APL pode
passar a perceber e usufruir a cooperação que naturalmente surge dessa
estrutura em rede.
Autores, como Porter{2], Basant [4],
Molina e Yoong [5] e Amato Neto [6],
afirmam que as atividades de cooperação entre atores membros de um
APL
intensificam os fluxos de informações e conhecimentos entre eles e, em
conseqüência, formam uma estrutura caracterizada como fonte geradora de
vantagens competitivas duradouras. Por exemplo,Basant [4] argumenta em
favor da estrutura de redes e aglomeração considerando:
1. os fenômenos de networking e clustering que têm contribuído para o aumento da competitividade e crescimento das empresas participantes;
2. estudos europeus nos quais há evidências de que a colaboração horizontal entre pequenas e médias empresas propicia eficiência coletiva na forma de custos de transação reduzidos, aceleração de inovações e maior acesso a mercados;
3. as externalidades positivas que são geradas pelas aglomerações de empresas, através de pessoal habilitado, infra-estrutura e trocas informais de inovações;
4. em relação a possíveis efeitos da globalização e liberalização de mercados, indícios de não haver evidências de declínio dos APL, devido a esses fenômenos.
Igualmente, há uma convergência de visões sobre o fenômeno da inovação
que é largamente aceito como um dos condicionantes para dinamizar a economia
e é dependente das interações envolvendo conhecimentos e informações entre
atores [7]. Segundo esta perspectiva, a identificação de obstáculos nessas
interações e, conseqüentemente, sua minimização, deve criar as condições
para aumentar o dinamismo possível e esperado que as inovações possam
propiciar. Dentro deste contexto, ganha destaque a cooperação entre
empresas, cuja existência favorece trocas de informações e conhecimentos. É
difícil uma empresa fazer inovação isoladamente. Sempre há necessidade de
interações com fornecedores, clientes etc. Esse dinamismo ocorre por meio de
fluxos de informações e conhecimentos que acompanham as interações tipo
empresa-empresa, empresa-fornecedores, empresa-entidades de apoio e
empresa-cliente, etc podendo gerar, em conseqüência, vantagens competitivas
[2]. As interdependências entre cooperação, inovação, vantagens competitivas
e os fluxos de informações e conhecimentos são esquematizadas no diagrama de
influência da Figura 1.
Os componentes de um APL desenvolvem atividades em um ambiente de
“cooperação” e “competição”. Essa característica paradoxal já foi nomeada de
“co-petição” e, nessa perspectiva, Molina e Yoong [5] identificam algum
compartilhamento de conhecimento entre as empresas que desenvolvem seis
tipos diferentes de atividades:
• Cooperação de informações (co-inform): identificação dos membros e de suas competências, promoção do grupo e melhoria da comunicação entre os membros;
• Cooperação de aprendizagem (co-learn): programas educacionais e de treinamentos patrocinados pelo grupo para atender seus interesses;
• Cooperação de promoção (co-market): atividades coletivamente organizadas para promover serviços e produtos do grupo;
• Cooperação de compra (co-purchase): aquisição conjunta de equipamentos e outros recursos;
• Cooperação de produção (co-produce): aliança para produzir um determinado produto;
• Cooperação de defesa de interesses (Co-lobby): defesa, pelos membros, de políticas, legislação e programas de seus interesses.
Todas essas atividades demandam fluxos de informações e conhecimentos
entre os membros do APL e formam uma estrutura caracterizada como fonte
geradora de vantagens competitivas duradouras, principalmente quando
construídas a partir da consolidação de capacidades produtivas e inovadoras.
As atividades de co-petição identificadas em [5], fatores sociais, culturais
etc, a natureza tácita do conhecimento, a necessidade de interações entre
os atores de um APL para fins de inovação e a conseqüente geração de fluxos
de conhecimentos e informações ocorrem em um contexto complexo que requer
instrumentos adequados para ser compreendido. A análise de redes sociais,
como uma das ferramentas valiosas da ciência da informação, pode contribuir
para o entendimento das interdependências entre estes fatores, como será
abordado nas próximas seções.
Fluxos de informações e conhecimentos em APL: Uma visão geral
Porter [2] lembra que há mecanismos que facilitam o intercâmbio e o fluxo de
informações sobre necessidades, técnicas e tecnologia entre compradores,
fornecedores e indústrias correlatas.
Os mecanismos que facilitam o
intercâmbio dentro dos grupos são condições que ajudam a informação a fluir
mais facilmente ou que desbloqueiam as informações, bem como facilitam a
coordenação, criando confiança e diminuindo as diferenças existentes quanto
ao interesse econômico entre empresas ligadas vertical ou horizontalmente.
Segundo Basant [4], estudos apontam que a extensão e a natureza dos fluxos
de conhecimentos dentro de um APL podem afetar a sua eficiência e dependem
de três dimensões:
(1) características internas do APL: capacidades, ligações, estrutura interna etc.,
(2) tipos de ligações externas e
(3)
política externa e ambiente econômico. Após estabelecer como hipótese que os
fluxos de conhecimentos são funções dessas características e considerar como
consenso que as aglomerações do tipo APL facilitam o aumento da produção e
atividades correlatas, o autor reconhece que não fica claro de que forma
isso acontece [4] Daí reconhece a necessidade de entender os processos
através dos quais os fluxos de conhecimento ocorrem.
Há vários estudos, e.g. [8], [9], [4] e [10], que procuram identificar
fontes de inovação, analisar estilos mais comuns ou que têm mais sucessos
que outros, além de procurar avaliar as similaridades e diferenças em
estilos de inovação em APL. Pesquisadores e definidores de políticas
públicas de inovação estão crescentemente focando a eficiência e eficácia
com que o conhecimento é gerado, difundido e usado, estudando a dinâmica das
redes de produção e inovação.
Conforme argumentam Molina e Yoong [5], as atividades de co-petição
caracterizam bem as diferentes possibilidades de compartilhar conhecimentos
em APLs. Acredita-se que é criado um ciclo virtuoso favorável às inovações,
quando há um mínimo de dinâmica entre os atores de um APL ao desenvolverem
estas atividades.
Buscando atender à hipótese principal que fundamentou esta
pesquisa (i.e. a necessidade de os atores que participam de arranjos
produtivos locais se articularem, interagirem e cooperarem entre si, como
forma de garantir sobrevivência, promover inovação e competitividade), a
técnica escolhida foi a análise de redes sociais que dispõe de meios para
observar a morfologia da rede e as características das relações de seus
atores. Assim, as atividades de co-petição [5] foram destacadas para serem
pesquisadas sobre as interações existentes no APL de confecções da cidade de
Salvador, Bahia, Brasil.
A avaliação dos fluxos de informações e conhecimentos entre os atores de uma
rede de empresas é feita de forma indireta e através de propriedades
estruturais da rede e das medidas que apontem posições dos atores nos
relacionamentos. Por exemplo, uma das propriedades estruturais importantes
de uma rede é identificar se é conexa ou não: se conexa, existe um caminho
entre todos os pares de atores (i.e. qualquer ator é alcançável); caso
contrário (i.e. se a rede for desconexa), haverá atores que não serão
alcançados e isso significa que não haverá troca de informações ou
influências.
Outra propriedade importante de uma rede é o seu tamanho. Em uma rede com
12 atores é provável que todos se conheçam ou se relacionem. Mas em uma rede
com 300 atores será improvável que qualquer ator se relacione com todos os
outros. Na medida em que a população de atores cresce, a tendência é de cair
a densidade de relações, ainda que possa haver grupos de atores
relacionando-se.
Individualmente, os atores podem ser analisados por outras medidas que
descrevem a natureza das relações existentes na rede, possibilitando inferir
as dificuldades ou facilidades com que as informações e os conhecimentos
fluem entre eles. As seguintes métricas foram escolhidas para analisar os
atores individualmente: grau de prestígio e influência; centralidade de
intermediação (betweeness
centrality); centralidade de proximidade (closeness
centrality) e restrição (network
constrains). A seguir, apresentam-se breves descrições sobre as
métricas selecionadas:
• O grau de prestígio e influência mede, respectivamente, a quantidade de relações em que um ator é receptor (i.e. in-degree) e a quantidade de relações fontes (i.e. aquelas que saem de um ator para outros: out-degree). Por exemplo, o ator com mais prestígio ou que recebe mais informações pode acumular muita informação que circula na rede, aumentando seu poder decisório. O ator que é mais influente envia mais informações ou atua como facilitador ou comunicador. No caso do estudo dos fluxos de informações e conhecimentos em um APL, é importante identificar esses dois tipos de papéis, verificando quais e quantos são os atores com mais prestígio e influência, pois esta informação exprimirá o grau de dependência dos membros do APL em relação a eles;• Segundo Marteleto [11, p. 79], a centralidade de intermediação (betweeness centrality) mede o potencial daqueles atores que servem de intermediários. Representa o quanto um ator atua como “ponte”, facilitando o fluxo de informação em uma determinada rede. Ou seja, a interação entre dois atores não adjacentes pode depender de outros do conjunto, especialmente daqueles que participam do caminho entre os dois. Esses “outros atores” podem, potencialmente, ter algum controle sobre as interações entre os dois não adjacentes. Essa métrica indica o papel da mediação de um ator, o que implica um exercício de poder, de controle e filtro de informações que circulam na rede. Por meio da centralidade de intermediação, pode-se identificar se um ator atua como um intermediário (broker) ou como um guardador (gatekeeper) dos fluxos de informações e conhecimentos e com potencial de controle sobre os demais. Os intermediários têm algum conhecimento sobre quem sabe o que ou é do tipo know-who, mas não possui o conhecimento que um outro tem, pois a sua principal habilidade é comunicar. No caso de uma rede de empresas, essa métrica pode facilitar a identificação do grau de dependências entre elas. Por exemplo, na defesa dos interesses, aquela empresa que apresenta um valor alto para a centralidade de intermediação, tem precedência sobre as demais que dependem dela para terem êxito. Outro exemplo: uma tríade constitui-se de três atores e forma a menor das redes em que participam mais de dois atores. Quando três ou mais atores estão completamente conectados, eles compartilham normas e informações, criam confiança e os conflitos entre eles podem ser resolvidos ou arbitrados por um do grupo. Nas redes com três atores em que dois não se relacionam, um deles é o “broker”, o intermediador e é o que tem vantagem com a relação entre os outros dois. Tal situação é conhecida como tertius gardens ou “o terceiro é que se beneficia”. A ausência de relações entre dois atores que têm um outro comum é conhecida como “falha estrutural”.
• Denomina-se de centralidade de proximidade de um ator, a sua independência em relação aos outros e ele é “tão mais central quanto menor o caminho que ele precisa percorrer para alcançar os outros elos da rede” [11, p. 78]. Esse tipo de centralidade depende não apenas das relações diretas, mas das relações indiretas, especialmente quando dois atores não estão adjacentes. Essa medida determina o grau de integração dentro da rede. Para os fins deste trabalho, esta métrica possibilita avaliar individualmente o grau de integração com os demais participantes da rede, determinando aqueles com mais autonomia para conduzir inovações;
• Em uma rede de empresas de um APL, a medida de restrição indica a importância de uma determinada relação em comparação com as outras [12]. Se a relação expressa custo, tempo ou alguma forma de esforço (e.g. uma parceria), então a sua restrição é o valor da relação dividido pela soma dos valores de todas as relações que existem com uma empresa. A identificação dos graus de restrições que as empresas têm na rede possibilita conhecer as dependências que elas têm em relação às outras.
Para se analisar as propriedades estruturais de uma rede social, há de se
considerar as condições dos relacionamentos com respeito aos objetivos da
análise. Dentro do contexto deste estudo, deve-se considerar que as empresas
em um APL relacionam-se umas com as outras para compartilharem e trocarem
informações e conhecimentos. Esses relacionamentos apresentam custos e
aplicações variadas que, às vezes, dificultam o intercâmbio. Os grupos de
empresas são formados devido às semelhanças, complementaridade ou
proximidade geográfica, daí existirem relações entre empresas próximas para
transferência ou compartilhamento de conhecimento, cuja natureza é tácita.
Essas são algumas das condições em que surgem as redes de empresas.
Apesar de admitir possíveis distorções que possam ocorrer em uma pesquisa,
seja qualitativa ou quantitativa, e mesmo considerando a natureza complexa
do seu objeto, entende-se ser necessária a proposição de parâmetros
referenciais para que os fluxos de informações e conhecimentos entre atores
de um APL ocorram de forma mais eficiente e eficaz.
Nessa perspectiva, cabe propor para as métricas e topologias de redes apresentadas, as condições referenciais que atendem a estas necessidades. Quanto às métricas a serem adotadas na análise dos resultados e aplicáveis aos atores individualmente, propõe-se para um APL que estas melhores condições de co-petição ocorrem quando houver:
• Menor ocorrência de atores com restrições (network constrains) altas, o que significa maior integração dos componentes do APL, poucas dependências de grupos etc.;
• Distribuição equilibrada dos graus de prestígio e de influência, bem como a centralidade de intermediação entre os atores, representando mais cooperação no APL;
• Valores baixos para a centralidade de proximidade indicando que os caminhos de acesso são curtos e há grande quantidade de interações entre os atores;
Por outro lado, sob uma perspectiva estrutural da rede de um
APL,
observa-se a possibilidade de caracterizar este tipo de rede, basicamente,
segundo os valores de três propriedades: o coeficiente de agrupamento ou
aglomeração médio, o caminho mínimo médio e a distribuição dos graus dos nós
da rede (comentados mais adiante). Esses valores possibilitam uma análise do
conjunto das relações que caracterizam um APL.
Por exemplo, o efeito rede de mundo pequeno (small-world
network) vem sendo observado em algumas redes e apresenta
propriedades estruturais comuns que caracterizam a forma como ocorrem os
fluxos de informações e conhecimentos. Essas redes apresentam alto grau de
agrupamento e média baixa dos tamanhos dos caminhos mínimos, o que
possibilita a difusão rápida de informações, mas com restrição ao trânsito
de grandes volumes.
As redes de mundo pequeno emergem de processos sociais
locais, quando atores buscam ter relações múltiplas e há uma tendência à
transitividade (i.e. se o ator A está conectado ao ator B e o ator B está
conectado ao ator C, então há uma alta probabilidade do ator A estar
conectado ao ator C). Enquanto o agrupamento representa redundância, certeza
e segurança, os pequenos caminhos representam eficiência. As redes de mundo
pequeno apresentam um compromisso entre a certeza e a eficiência.
Outros exemplos são as redes aleatórias e/ou as redes livre de escala.
Segundo Newman [13, p. 185], uma rede em que cada ator tem igual
probabilidade de estar conectado a outro, apresenta um histograma semelhante
à curva normal de Poisson. As redes que apresentam este tipo de distribuição
dos graus são denominadas aleatórias. Há outro tipo denominado rede livre de
escala ou sem escala que tem sido estudado e apresenta propriedades que
explicam a distribuição de citações científicas ou de páginas da World Wide
Web e outros fenômenos de grandes redes. A propriedade estrutural
característica das redes livre de escala é a distribuição de graus seguindo
uma lei de potência.
As redes livres de escala resultam do crescimento natural ao longo do
tempo quando ocorrem escolhas por certos atores em detrimento de outros.
Para o valor dessa pesquisa é interessante conhecer se a rede estudada é
deste tipo, de modo a identificar a vulnerabilidade à exclusão de atores ou
ao seu grau de resiliência.
Quanto à topologia da rede, considera-se que em uma rede de mundo pequeno,
onde há coeficiente de agrupamento médio alto, caminhos mínimos médios
curtos e distribuição dos graus qualquer, os fluxos de informações e
conhecimentos ocorrerão de forma mais eficiente. O coeficiente de
agrupamento explica porque, em uma rede esparsa, grandes volumes de
informações são transmitidos entre atores que estão relacionados
proximamente.
Caminhos curtos aumentam o alcance entre um ator e outro, o que facilita
o acesso a recursos de informações para mais empresas, dentro de espaços
relativamente próximos. Há um balanço entre as duas propriedades das redes:
as relações que criam caminhos redundantes dentro de grupos de atores são
propícias para o trânsito de grandes volumes de informações, mas impedem o
alcance; de outro modo, as relações não redundantes facilitam o alcance, mas
impedem o maior trânsito de informações.
Em estudo realizado para analisar as alianças envolvendo onze tipos de
indústrias, Schilling e Phelps [14] demonstram que as propriedades de redes
de mundo pequeno justificam os resultados das patentes produzidas. Por esse
motivo, é interessante analisar essas propriedades, investigar se a rede
formada pelo arranjo de empresas é do tipo mundo pequeno, uma vez que este
tipo de rede é o mais propício para a ocorrência dos processos de inovações.
Entretanto, a formalização matemática está fora do escopo deste artigo por
dois motivos. O primeiro e fundamental é, de acordo com a proposta deste
artigo (i.e. em síntese, a apresentação do diagnóstico sobre o APL de
confecções de Salvador) concentrar a discussão nas possíveis estratégias de
intervenções públicas e privadas necessárias e, portanto, nas políticas
orientadas ao estímulo de mais interação e cooperação entre os atores de
APLs, tornando-os mais competitivos. O segundo, refere-se ao limite de
páginas disponível para apresentar a pesquisa. Assim, recomenda-se aos
leitores que têm interesse na formalização matemática das métricas usadas
para a caracterização da rede consultar os trabalhos [15], [16], [17], [18]
e [13].
Metodologia da pesquisa
A pesquisa sobre os fluxos de informações e conhecimento no APL de
confecções que trata este trabalho foi realizada através de um levantamento
de informações com o uso de um questionário. O principal motivo para tal
escolha está no fato de que as informações a respeito das interações entre
os atores do arranjo produtivo são um aparente retrato de determinado
momento no tempo (em que se registram, além dos próprios atores, as suas
respectivas interações, e, portanto, seguem regras circunstanciais)
dependentes das condições de mercado, do ambiente, etc..
Tais informações não estão disponíveis por meio de nenhuma outra fonte, o que torna necessária a coleta de dados diretamente dos atores que formam o APL. A pesquisa, feita com base em um questionário, teve o objetivo de levantar informações sobre os atores, informações sobre as inovações e as interações existentes no APL, de acordo com as condições citadas por Molina e Yoong [5] e comentadas anteriormente. O questionário foi montado considerando-se seis módulos de informações:
(1) identificação
(2) relacionamento,
(3) experiência da empresa
(4) dados econômicos financeiro
(5) introdução de inovações e esforço de capacitação tecnológica
(6) formas de cooperação e interação entre os atores do arranjo.
Os atores que compõem o APL são classificados em entidades de apoio e
empresas produtivas. No tempo que foi realizada a pesquisa a governança do
APL informou que 116 empresas aderiram ao programa para estruturar as ações.
As entidades de apoio foram identificadas com base em levantamento realizado
localmente. Durante o processo de entrada de dados e construção das redes de
interesse, apresentadas na Seção “As redes de interesse”, as entidades de
apoio receberam códigos baseados na máscara 9XX (e.g. 924), para
diferenciá-las das empresas que receberam códigos seqüenciais cujo valor
inicial foi 1. Esse procedimento foi usado para preservar a
confidencialidade das entidades de apoio e empresas produtivas.
Os dados coletados foram digitados em uma base de dados Access da
Microsoft, validados e em seguida exportados para formato texto compatível
com o aceito pelo programa UCINET [19]. A versão usada
do UCINET foi a 6.126. Os diagramas das redes foram
obtidos com o programa NETDRAW que é integrado ao
UCINET.
Para interpretar os dados empíricos, estabeleceu-se um modelo de análise dos
dados qualitativos e quantitativos obtidos. O modelo registra os resultados
das variáveis segundo a escala baixa, média e alta. As variáveis escolhidas
para análise dos dados são:
01. Proximidade geográfica dos atores;
02. Idade dos atores (tempo de criação das empresas);
03. Dificuldade no cotidiano;
04. Ocorrências de relações de trabalho;
05. Fatores para manter a capacidade competitiva;
06. Introdução de inovações;
07. Forma de incorporação de novas tecnologias;
08. Métricas da rede de fontes de informações;
09. Métricas da rede para promoção do grupo de atores;
10. Métricas da rede para desenvolver programas de capacitação;
11 Métricas da rede para desenvolver serviços e produtos;
12. Métricas da rede para a aquisição conjunta;
13. Métricas da rede para produzir produtos;
14. Métricas da rede para defender interesses;
15. Métricas da rede para compra conjunta;
16. Métricas da rede para venda conjunta;
17. Métricas da rede para os competidores ou concorrentes;
18. Métricas da rede composta por todas as relações anteriores.
Resultados obtidos
Dados gerais da população das empresas
No cadastro fornecido pela Governança do APL, baseado no Outlet Center,
consta o total de 96 empresas com dados identificadores contendo endereço,
telefone e pessoa de contato. Foram enviadas correspondências para todas as
empresas, solicitando a concordância em participar da pesquisa; foram
devolvidas dezenove, pelo motivo de não ser localizado o destinatário. Em
seguida, foram contatadas as demais empresas para agendar a visita e
responder ao questionário.
Quarenta não atenderam e uma recusou-se a participar. Foram obtidas
trinta e seis entrevistas no período de janeiro a maio de 2006,
representando 37,5% do total das empresas pertencentes ao cadastro. Foram
entrevistadas dez empresas das quarenta e oito que participaram do
Diagnóstico Empresarial MPE´S Especializada no Setor Têxtil da Rua Direita
do Uruguai, promovido pelo SEBRAE. Apesar de não serem
exatamente os mesmos os dois conjuntos de dados, as informações obtidas pela
nossa pesquisa apresentam resultados consistentes com aquelas reveladas pelo
estudo desenvolvido pelo SEBRAE.
As empresas entrevistadas estão distribuídas pelos bairros de Salvador,
havendo uma dispersão grande das localizações, confirmando o que foi
observado no diagnóstico [3]. Este relatório também constata que apenas 40%
das empresas diagnosticadas são instaladas na região da Rua do Uruguai. O
percentual de 55,5% das empresas pesquisadas é de pequeno porte. Quanto ao
tempo de constituição das empresas, 61% têm mais de cinco anos.
Ao quantificar as relações de trabalho nas empresas, constatou-se que trinta
e três mantêm de um a três sócios, oito declaram funcionar com até três
pessoas terceirizadas e oito declaram com até três pessoas contratadas para
serviços temporários. A maior ocorrência de relações de trabalho de natureza
temporária indica poucas chances de interações inter e entre as empresas.
Questionados sobre quais são os fatores determinantes para manter a
capacidade competitiva de suas empresas, a maioria avaliou ser a qualidade
da mão de obra, seguido da qualidade da matéria prima. As inovações de
desenho e de estilo dos produtos vêm em terceiro lugar. Quanto às ações
ocorridas para a introdução de inovações nas empresas no período de 2002 a
2006, que foram relatadas pelos empresários, destacam-se inovações de
desenho, mudanças nas práticas de comercialização e a melhoria das
embalagens. As inovações de produto e de processo foram poucas.
Foi solicitado aos empresários que avaliassem o grau de importância das
alternativas para o desenvolvimento ou incorporação de novas tecnologias. Um
total de dezenove respostas aponta a preferência para introduzir novas
tecnologias nas unidades de produção das próprias empresas e também através
da aquisição de máquinas no mercado nacional. As alternativas de cooperação
para a introdução de tecnologias tiveram uma avaliação secundária, tanto
para a opção de cooperar com outras empresas, organizações e concorrentes,
como para a alternativa de cooperarem com fornecedores.
Face aos números obtidos, cabe colocar uma questão antes de avaliar as
métricas sobre as interações entre as empresas: a amostra disponível é
representativa para todo o APL estudado? Qual a validade das medidas, uma
vez que todas as empresas do cadastro não foram consultadas? Em primeiro
lugar, pouca pesquisa sobre a validade de métricas de redes tem sido
conduzida [15].
Mas, alguns estudos apontam correlação entre métricas de redes de
relacionamento e outras características dos atores participantes,
demonstrando a validade dessas medidas [15]. No caso do
APL de confecções de
Salvador, há a evidência relatada na pesquisa feita pelo SEBRAE [3] sobre
inovações, que pode corroborar os resultados das métricas aqui obtidas. Essa
conclusão será analisada depois de avaliadas as métricas.
Em segundo lugar, Costenbader e Valente [20] observam a estabilidade de
métricas de centralidade, face à proporção dos atores não entrevistados, ou
que não responderam à pesquisa. Nesse estudo, onze métricas foram avaliadas,
envolvendo sessenta e três redes, com tamanhos entre trinta e quatro a cento
e sessenta e nove indivíduos (i.e. nós), com taxas de respostas acima de 51%
e oito níveis de amostras aleatórias, variando entre 10 até 80% do total
original.
O procedimento adotado consistiu em efetuar medidas de correlação
entre os valores originais obtidos e os valores após as amostragens. Algumas
métricas apresentaram estabilidade ou correlação significativa com até 50%
da amostra. Portanto, considerando que foram obtidas trinta e seis
entrevistas, correspondendo, em termos quantitativos, ao total de 75% da
amostra da pesquisa [3], é admissível a validade das métricas obtidas nesse
estudo para toda a população das empresas do APL de confecções de Salvador.
As redes de interesse
As redes de interesse foram construídas a partir dos resultados das questões
do questionário aplicado referentes às formas de cooperação e interação
entre os atores do arranjo (Tabela 1).
No tocante às redes de interesse, a primeira questão apresentada aos
entrevistados, identificada no questionário como Questão 7, teve o propósito
de identificar as fontes de informação e de conhecimento para fins de
inovação. A Figura 2a mostra a rede de relacionamento
que reflete o resultado das respostas. Observando visualmente, nota-se que
as entidades 918, 924, 926 e 928 são as mais referenciadas e se retiradas da
rede, o resultado mostrado na Figura 2b evidencia sua
importância. Sem elas, a rede torna-se desconexa, aparecem atores isolados,
sem nenhum relacionamento. A
Figura 2c revela a
fragilidade do APL de confecções de Salvador, uma vez que na ausência de
todas as entidades de apoio, o número de relações entre as empresas é
extremamente reduzido.
Observa-se que a maioria das redes resultantes são desconexas. No caso do
APL de confecções de Salvador, isto significa que existem: falhas nos fluxos
de informações e conhecimentos, dificuldades para a cooperação em prol da
capacitação do APL, grupos isolados e desarticulados em prol do
desenvolvimento de serviços e produtos do APL. Ausência de uma forma
organizada para a barganha de melhores condições de compra conjunta,
ausência de relacionamento para produzir de forma conjunta, uma
desarticulação parcial das empresas quando há a necessidade de defender os
interesses do APL, falta de articulação entre as empresas para comprarem ou
contratarem de forma conjunta, grupos isolados e desarticulados quando se
trata de venda conjunta e algumas especializações entre as empresas (e.g.
grupo de aviamento, grupo de moda praia etc), cujos os graus de
concorrências que foram avaliados como os mais intensos estão representados
por linhas mais grossas. Por questões de tamanho em bytes do arquivo em
formato digital, as redes resultantes não serão apresentadas.
Rede composta por todas as relações
Reunidas as redes obtidas de cada questão, resultou uma rede composta. No
processo de junção, foram eliminadas as redundâncias de referências
encontradas nas redes individuais, ou seja, se nas redes da
Questão 7 e da
Questão 8, um ator A referencia um ator B, então foi desprezada uma das
referências. A rede resultante é dirigida e cada relação representa o grau
de importância dado pelo ator que indica um outro.
A análise das métricas pela rede dirigida possibilita avaliar as
propriedades com base nas declarações reais dos atores. A outra análise,
pela rede não dirigida, que no limite admite-se ser simétrica, permite
induzir potenciais relações entre os atores. Isto significa que se um ator A
afirma que se relaciona com o ator B, então se estabelece um caminho para
fluírem informações e conhecimentos que, potencialmente, podem afetar todos
os demais atores que sejam os mais próximos de ambos; nesse caso, a direção
da relação não importa porque o que interessa é a existência ou não da
relação entre eles. Admite-se, assim, a lógica que os atores participam de
relacionamentos sem a garantia da igualdade de benefícios recíprocos.
A rede estudada apresenta grande dependência das entidades de apoio, como se
verifica visualmente pelo cotejamento entre a rede composta do APL de
confecções de Salvador com entidades de apoio (Figuras 3a)
e a rede sem entidades de apoio (Figura 3b). Isto
repete as observações já registradas nas questões anteriores. Ressalta-se a
presença do ator 924 nas redes dirigida e não dirigida, como ator com maior
centralidade de informação e influência.
Análise e discussão dos resultados
Os resultados consolidados são analisados, a seguir, com base no modelo
estabelecido anteriormente e resumido pela Tabela 2.
Neste quadro, as colunas de observações “baixa”, “média” e “alta”, refletem
os resultados registrados com base nas respostas dadas pelas empresas e
estão de acordo com os significados das variáveis comentados nas Seções
“Metodologia da pesquisa” e “Resultados obtidos”.
Usando a síntese apresentada na Tabela 2,
apresentam-se algumas reflexões acerca da estrutura do APL de confecções de
Salvador:
• A distribuição geográfica das empresas por diversos locais da cidade contribui para dificultar as relações, principalmente quando há a necessidade de se explorar o conhecimento tácito. A distância entre as empresas, seus dirigentes e empregados, torna-se um entrave para que ocorram as interações pessoais que proporcionam a transferência do conhecimento tácito;
• Os resultados dos indicadores qualitativos gerais das empresas revelam condições propícias para que haja mais aproximação e cooperação entre os atores; são condições:
o Grande parte das empresas tem o tempo de criação com mais de cinco anos;
o O tipo de relação de trabalho mais encontrada é sócio/proprietário que é característica de micro-empresa;
o A necessidade reconhecida pelos atores de que a competitividade depende de fatores como qualidade da matéria prima e da mão de obra;
o O reconhecimento de que a incorporação de novas tecnologias deve ser através da aquisição de máquinas e nas unidades de produção.
Os resultados das métricas indicam que o APL de Confecções de Salvador
apresenta falhas nos fluxos informacionais, falhas de articulação e baixas
interações entre os atores. Os papéis de intermediação são poucos ou quase
inexistentes. Há grande dependência das entidades de apoio. Assim sendo, os
fluxos de informações e conhecimentos entre os atores praticamente não
ocorrem. Essas constatações justificam a avaliação não fundamentada
registrada no diagnóstico realizado pela Secretaria de Ciência e Tecnologia
e Inovação [21] e, também, a avaliação do item “parceria” do diagnóstico do
SEBRAE [3]. Por se tratar de um
APL em fase de
estruturação, com estímulos externos das entidades de apoio para o seu
fortalecimento, é admissível que os fluxos de informações e conhecimentos
entre as empresas sejam fracos.
As métricas individuais demonstram que existem empresas que não influenciam
as demais por apresentarem métricas de restrição e intermediação
insignificantes, ou seja, se elas não participarem dos fluxos de
conhecimento nenhum efeito se produzirá sobre as demais.
As propriedades estruturais da rede das empresas do APL de Confecções de
Salvador estão concordantes com as avaliações das inovações, consideradas
insignificantes pelo diagnóstico do SEBRAE [3]. Na
rede estudada, destaca-se a sua vulnerabilidade estrutural, devido à fraca
participação das empresas do arranjo, o que favorece a desarticulação entre
os membros do APL. Neste sentido, observa-se através do registro de alguns
comentários de empresários durante a realização da coleta dos dados, sua
insatisfação com os resultados alcançados até o momento e sua incredulidade
com respeito a êxitos futuros.
Os resultados das métricas se aproximam daqueles obtidos por Schilling e
Phelps [14] comentados brevemente na Seção “Fluxos de informações e
conhecimentos em APL: Uma visão geral”. Aqui, as fracas propriedades
estruturais estão de acordo com o tratamento insignificante que as empresas
dão às inovações. No caso do estudo [14], as redes de alianças justificaram
os resultados das patentes produzidas e as propriedades estruturais das
redes tipo mundo pequeno. Ou seja, as propriedades estruturais da rede de
empresas do APL de confecções de Salvador têm interdependências com os
níveis baixos dos fluxos de informações e conhecimentos que transitam por
ela, refletindo o grau baixo de inovação praticado pelos atores. Ou seja, as
propriedades estruturais da rede revelam por si, o grau de inovação e
cooperação que há entre os atores que participam dela.
Viana [22, p. 56] aponta que os produtos de vestuário estão no final da
cadeia têxtil e podem ser considerados de grande essenciabilidade, por se
tratar de um artigo de primeira necessidade da população. Entretanto,
“apesar disso, toda a cadeia deve estar atenta à necessidade de inovação dos
produtos, tendo em vista que o setor de moda é bastante dinâmico”. Para
explicar as poucas iniciativas de inovações nesta cadeia, Viana
[22] indica
alguns possíveis problemas como:
(1) capital de giro
(2) recursos de produção
(3) profissionais qualificados
(4) dificuldade de comercialização e financiamento.
Portanto, as características da cadeia
produtiva de confecções justificam a baixa interação entre as empresas do
APL estudado.
Considerações finais
A elaboração deste trabalho teve como objetivo fundamental, baseando-se na
análise de redes sociais, estudar os fluxos de informações e conhecimentos
que ocorrem nas redes sociais formadas pelas interações entre os atores de
arranjos produtivos locais para fins de inovações.
Como resumo das principais questões abordadas nesta pesquisa, salientam-se
as motivações para identificar as relações existentes entre inovações,
competitividade, cooperação, fluxos de informações e conhecimentos entre
empresas, uma vez que esses são alguns dos fatores determinantes para o
sucesso de qualquer APL.
Há outros fatores apontados em estudos anteriores
que datam da década de 80, estimulados pela crise do modelo fordista e pela
revisão do modelo verticalizado das grandes empresas. Por exemplo, a divisão
de trabalho entre empresas, o milieu e as redes horizontais – empresa com
fornecedor e clientes - são largamente citadas como fatores similares
encontrados em APL que tiveram êxito.
Realmente, a necessidade de compreender a dinâmica de tais aglomerações de
micro e pequenas empresas, bem como a de abrir oportunidades para a promoção
do seu desenvolvimento, vem sendo foco de estudo em várias instâncias. Esta
pesquisa é parte desse esforço no sentido de explicar até que ponto a
dinâmica da inovação em um aglomerado de empresas, formando um APL,
interfere nos fluxos de informações e conhecimentos e como os resultados das
inovações do APL são conseqüências da estrutura da rede de relacionamento.
Além disso, é preciso um entendimento mais claro da estrutura de interações
entre atores de um APL para que os estímulos e incentivos exógenos,
originados de políticas públicas voltadas para induzir o fortalecimento de
cadeias e arranjos produtivos, sejam capazes de modificar a realidade para
um patamar de maior competitividade. Nesse sentido, esta pesquisa contribui,
demonstrando a potencialidade da análise de redes sociais, como parte deste
instrumental, possibilitando a promoção de ações objetivas para que as
agências governamentais ou instituições de apoio possam influenciar ou
estabelecer políticas que estimulem atividades colaborativas e fortaleçam as
inovações e a competitividade.
A cooperação pode ser considerada uma forma mais nobre de interação porque,
além de não ser mediada pelo mercado, é voluntária, exige discussão e, por
isso, aprofunda as relações. Tem mais chance de ocorrer onde existe um
histórico de relações e a confiança está estabelecida; ou seja, onde é maior
a inserção. Sob esse prisma, então, a cooperação é entendida como importante
vetor para a ampliação dos fluxos de informações e conhecimentos, essencial
na composição da base efetiva sobre a qual poderia ser arquitetado o
desenvolvimento sustentado.
Assim, a dinâmica das interações entre os atores de um APL foi analisada
segundo a perspectiva da cooperação e competição, que incluiu identificar e
avaliar as formas de sua ocorrência, bem como apontar possíveis relações com
a dinâmica dos fluxos de informações e conhecimento.
Na execução dessa
tarefa, fez-se uso da análise de redes sociais, justamente por contemplar
possíveis efeitos obtidos em conseqüência de externalidades econômicas, mas
também o esforço deliberado de cooperação, denominado ação conjunta. E isto
ocorreu tomando-se como objeto as empresas que formam o APL de confecções de
Salvador.
Os resultados indicaram que o grau de interação e, em conseqüência, a
intensidade dos fluxos de informações e conhecimento entre as empresas do
APL é baixo, o que ajuda reconhecer a necessidade de formular ações voltadas
para fortalecer a competitividade do grupo.
As instituições de apoio,
responsáveis ou interessadas na implementação de políticas nesse sentido,
devem ser capazes de desenvolver ações com desdobramentos auto-sustentáveis,
estabelecendo, inclusive, prazo para reduzir o grau de dependência das
empresas do APL a estas entidades, conforme se observou nos resultados
obtidos. Caso contrário, corre-se o risco de comprometer a eficiência e a
eficácia das estratégias para o desenvolvimento do APL.
A abordagem adotada com base na análise de redes sociais configura-se em um
componente com capacidade para refletir com propriedade as relações sociais
que resultam em inovação. Algumas limitações foram admitidas para
desenvolver essa investigação, principalmente o fator cultural que não foi
considerado como parte das explicações sobre o baixo grau de interação
encontrado no caso estudado.
Além disso, não foram correlacionados os
atributos individuais das empresas e seus papéis na rede. Os resultados
revelam um retrato momentâneo ou circunstancial que pode ser usado no futuro
para comparar as ações de estruturação de um APL, visando aumentar a
integração entre os atores.
Os resultados desta pesquisa estimulam a que sejam desenvolvidos outros
trabalhos na área da sociologia do conhecimento, para explicar como se dá a
construção da realidade dos APLs, considerando o conhecimento como variável
independente e suas conseqüências para a competitividade do APL como um
todo.
Notas:
Esta pesquisa foi parcialmente apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado da Bahia (FAPESB) sob os projetos, números Convênio 183/2004 e
TO-BOL1248/2006.
(APL) - Arranjo Produtivo Local
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2005. 66 p.
Anexos

Figura 1

Figuras 2. Redes das fontes de informação e
de conhecimento para fins de inovação
2a)

b) Rede das fontes preferenciais sem as entidades de apoio mais referenciadas.

c) Rede das fontes preferenciais sem as entidades de apoio.

Figuras 3. Rede composta do APL de confecções de Salvador.
a) Subrede composta com entidades de apoio.

b) Subrede composta sem as entidades de apoio.

Sobre os autores / About the Authors:
Hernane Borges de Barros Pereira
hernanebbpereira@gmail.com
Doutor em Engenharia Multimídia, Professor de Modelagem Computacional na Fundação Visconde de Cairu, BA , Professor Adjunto do Departamento de Ciências Exatas da Universidade Estadual de Feira de Santana
Mario Cezar Freitas
mcezar@reconcavotecnologia.org.br
Mestre em Ciência da Informação, Universidade Federal da Bahia, Diretor do Instituto Recôncavo de Tecnologia, BA
Renelson Ribeiro Sampaio
renelson@cairu.br
The University of Sussex, Inglaterra -PhD, Professor do Mestrado Interdisciplinar em Modelagem Computacional da Fundação Visconde de Cairu, BA