Resumo: Jorge Luis Borges, escritor argentino, foi um dos maiores representantes do
realismo fantástico no mundo. Seu conto A Biblioteca de Babel pode servir de
representação premonitória da sociedade da informação da atualidade. O
objetivo deste artigo é analisar detalhadamente esse conto e tecer um
paralelo entre o texto e as opiniões de diversos teóricos, abordando
conceitos como ciberespaço, metalinguagem, estoques de informação, entre
outros. A sociedade da informação cria uma estrutura em redes, apresenta a
cultura do virtual, transforma-se em estoque de informação, mas, também, se
evidencia como o ciclo vicioso da alienação.
Palavras-chave: A Biblioteca de Babel; Jorge Luis
Borges; Sociedade da informação; Literatura; Realidade; Metáfora.
Abstract: Argentinian writer Jorge Luis Borges was
one of the most important representatives of magic realism in the world. His
short tale The Library of Babel may be considered as a premonitory
representation of our current information society. This article aims at
analyzing in detail that short tale in order to make a comparison between
the text and the opinions of some theorists, dealing with concepts such as
cyberspace, metalanguage, stocks of information, among others. The
information society creates a network structure, presents the virtual
culture, transforms itself in stocks of information, but also appears as a
vicious alienating cycle .
Keywords:
The Library of Babel; Jorge Luis Borges; Information society; Literature;
Reality; Metaphor.
Introdução
A arte imita a vida; a vida imita a arte. São duas certezas que se perpetuam na forma de um círculo. O mesmo ocorre com a literatura de ficção. Em dado momento, o cotidiano se transforma em literatura; em outro, a literatura se insere na vida real, modificando-a. É difícil definir onde uma começa e a outra termina, onde o palpável e tangível deixa de ser fictício, onde o fictício deixa de ser possível.
As artes, em geral, têm a capacidade de retratar o instante sem defini-lo objetivamente. Assim sendo, a literatura externaliza mas não necessariamente explicita, o conteúdo se apresenta pictoricamente ao leitor e intérprete do mundo. O fato é que a literatura e a vida real se complementam, a ponto de se tornar impraticável (injustificável, inútil, irrelevante) traçar os limites entre ambas.
É importante ressaltar aqui o aspecto precursor da literatura. Ou, talvez,
profético. As idéias, muitas vezes, extrapolam a localidade e se dirigem a
níveis superiores, tanto em termos espaciais quanto em termos temporais.
Logo, é possível que a imaginação crie modelos cuja existência real só se
dará no futuro.
Neste artigo, será abordada essa antevisão premonitória que se materializa
através da literatura de ficção.
Por meio de A Biblioteca de Babel, conto de Jorge Luis Borges publicado originalmente no livro Ficções, cujo valor Mattelart (2002, p. 9) já previa, serão arroladas, descritas e discutidas as características que definem a sociedade da informação como um todo.
Para tanto, o estudo se divide em três partes: na primeira, a vida e a obra
de Borges são relatadas, de forma a permitir que seja possível
contextualizar o autor em seu espaço e em sua época. Na segunda, será
analisada a referência bíblica que o termo Babel denota, para que se possam
intuir as implicações últimas do uso da expressão. Por fim, o conto será
dissecado, na sua tradução em português brasileiro (com pequenos ajustes
para adequar-se às mudanças ortográficas presentes na Lei no 5.765, de 18 de
dezembro de 1971), e confrontado com as opiniões de teóricos que debatem
sobre a sociedade da informação.
Assim, poder-se-á unir a beleza poética e literária do texto do autor argentino à interpretação das idéias nele contidas, com o intuito de ver no conto uma síntese da realidade circundante.
Essa realidade se resume ao fato de que vivemos uma sociedade de consumo (Bauman,
1999, p. 87), globalizada, virtualizada, ou seja, "um novo sistema de
comunicação que fala cada vez mais uma língua universal digital" (Castells,
1999, p. 22) e promove "a integração global da produção de palavras, sons e
imagens de nossa cultura" (Castells, 1999, p. 22).
Já que "o universo é uma enorme inteligência despertando para si
própria graças a uma evolução da linguagem que estende seu próprio
movimento" (Lévy, 2004, p. 170), o conto de Borges, por meio do texto
escrito, servirá perfeitamente ao propósito de integrar a realidade
imaginária à virtualidade real da sociedade da informação. No fundo, A
Biblioteca de Babel representa fielmente os dilemas dessa sociedade, e não
só o do ciberespaço
como costumeiramente se ouve dizer.
Jorge Luis Borges: Vida e Obra
Para entender as características que marcam a obra de um autor, é preciso
reconhecer as circunstâncias em que vive ou viveu. Por isso, a vida de
Borges será relatada resumidamente, permitindo, ao menos, uma visão geral do
contexto social que, até certo ponto, o condicionou, com base em informações
colhidas nas enciclopédias Koogan/Houaiss (2000, p. 244) e
Delta Universal
(1991, p. 1385-1386).
Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 24 de agosto de 1899. Estudou na
Suíça a partir de 1914. Freqüentou os círculos literários de vanguarda de
Madri por volta de 1919. Voltou a Buenos Aires em 1921, quando foi um dos
fundadores do movimento denominado
ultraísta.
Em 1946, foi demitido da biblioteca municipal Miguel Cané em razão da sua
oposição a Juan Perón. Em 1955, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional
argentina. Ficou cego em 1960. Morreu em Genebra em 11 de junho de 1986.
Publicou diversos livros, em diferentes gêneros. Na poesia, lançou Fervor de
Buenos Aires (1923), Lua Defronte (1926) e A Cifra (1980). Como coletâneas
de contos, publicou História Universal da Infâmia (1935), Ficções (1944), da
qual se extraiu o conto A Biblioteca de Babel, O Aleph (1949) e
Antologia
Pessoal (1961), que também reúne poemas. Na área dos ensaios, publicou
Inquisições (1925) e História da Eternidade (1936).
Borges foi um dos grandes fenômenos literários universais. "Sua
imaginação criadora, sua visão filosófica da vida, seu domínio da expressão
verbal e metafórica asseguraram-lhe uma posição de destaque na literatura de
língua espanhola" (Koogan/Houaiss, 2000, p. 244), a ponto de muitos o
considerarem "o maior escritor em língua espanhola do século 20"
(Schwartz, 1997).
O que distingue Borges de outros escritores, todavia, é a sua temática. Ao
escrever literatura fantástica, aborda temas como o caráter circular do
tempo, a repetição dos atos humanos, a identidade, o acaso, a memória, o
infinito; desenha espelhos e labirintos em seus textos (Enciclopédia
Delta, 1991,
p. 1385). Em um mundo carregado de metáforas, de elementos mágicos
habilmente tornados verossímeis, Borges revelou a sua concepção mítica do
universo. Na verdade, "a metáfora de Borges evidencia sobretudo a
provável irrealidade das coisas a que se aplica" (Pécora, 1999, p. 7).
No que se refere ao objeto de estudo deste artigo, é possível perceber o
relacionamento do autor com bibliotecas já a partir da sua carreira
profissional. Esse gosto de Borges por bibliotecas já se prenunciara na sua
infância, e seria presumível que transportaria essa predileção ao âmbito
pessoal — que a sua casa seria um reflexo claro disso. Mas não:
"Para um homem que descreveu o universo de uma biblioteca e disse que imaginava o paraíso sob a forma de uma biblioteca, sua própria biblioteca era uma surpresa decepcionante. Os visitantes esperavam encontrar uma casa literalmente forrada de livros — estantes sobrecarregadas, pilhas de livros bloqueando as portas e saindo de cada canto, uma selva de papel e tinta. Em lugar disso, defrontavam-se com um modesto apartamento de três quartos, mobiliado com discrição, no qual os livros ocupavam um lugar ordenado, discreto, reservado." (Manguel, 1999, p. 3)
Borges, também, não exibia em sua casa nenhum volume que tivesse sido
escrito por ele mesmo, confirmando certo orgulho pelo provável esquecimento
das suas palavras.Borges adorava, sobretudo, enciclopédias e dicionários,
cujos artigos, quando criança, lia ao acaso. Aliás, "Borges nunca
abandonou esse hábito de confiar no acaso ordenado de uma enciclopédia"
(Manguel, 1999, p. 3). Era a sua forma de expressar a ordem por meio da
aparente desordem das coisas.
No fundo, "Borges acreditava que nosso dever moral é sermos felizes e
pensava que a felicidade podia ser encontrada nos livros, embora não pudesse
explicar o porquê disso" (Manguel, 1999, p. 3). A biblioteca se
transformava em sonho, em uma virtualidade com a qual se mantinha um laço
afetivo. Logo, a sua
biblioteca estava em sua mente, era imaginária.
A Babel Bíblica
O título do conto remonta ao relato bíblico da Torre de Babel, aqui
substituída pela biblioteca. Na Bíblia, a história se encontra no livro do
Gênesis e assim reza:
"Ora, a terra tinha uma só língua e um mesmo modo de falar. Mas (os homens), tendo partido do oriente, encontraram uma planície na terra de Senaar, e habitaram nela. E disseram uns para os outros: Vinde, façamos tijolos e cozamo-los no fogo. E serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em vez de cal traçada; e disseram: Vinde, façamos para nós uma cidade e uma torre, cujo cimo chegue até ao céu; e tornemos célebre o nosso nome, antes que nos espalhemos por toda a terra. O Senhor, porém, desceu a ver a cidade e a torre, que os filhos de Adão edificavam, e disse: Eis que são um só povo e têm todos a mesma língua; e começaram a fazer esta obra, e não desistirão do seu intento, até que a tenham de todo executado. Vinde, pois, desçamos, e confundamos de tal sorte a sua linguagem, que um não compreenda a voz do outro. E assim o Senhor os dispersou daquele lugar por todos os países da terra, e cessaram de edificar a cidade. E por isso, lhe foi posto o nome de Babel, porque aí foi confundida a linguagem de toda a terra, e daí os espalhou o Senhor por todas as regiões." (Bíblia, Gênesis, 11)
O significado da passagem parece ser claro, mas não o é de todo. Certamente,
a ira divina pela soberba do homem é justificável, uma vez que orgulho nada
mais é do que um disfarce para o vício da vaidade. E a vaidade, segundo o
senso comum, aliena o indivíduo, engendrando uma paulatina subversão dos
valores que prega a moral cristã.
Contudo, por outro lado, é preciso lembrar que Babel quer significar confusão, e que essa confusão aparece como instrumento de poder, ou seja, uma força superior introduz um elemento dissociatório, que nada mais é do que um mecanismo de controle das massas. Na Bíblia, o exercício desse controle tem uma finalidade educativa e está baseado em uma prática que busca levar o bem à sociedade.
Não é difícil traçar um paralelo entre o conto bíblico e as idéias de
Lévy
no que se refere aos movimentos de atração e dispersão das comunidades.
"Vê-se logo que, numa primeira fase da história humana — a mais longa —, o
crescimento demográfico leva à separação, ao distanciamento" (Lévy,
2000, p. 196), enquanto que hoje, "como na origem, mas segundo outra
escala, a humanidade forma novamente uma só sociedade" (Lévy, 2000, p.
200).
Sem dúvida, a dispersão, segundo Lévy, é questão de sobrevivência, cujo teor pode, também, estar implícito no relato bíblico. Todavia, essa questão de sobrevivência, na moderna sociedade da informação, em que voltamos a ter um movimento de atração, reveste-se de outras vantagens de valor dúbio:
"A sociedade do conhecimento apresenta algumas vantagens óbvias, além de abrir novas possibilidades criativas ao homem, mas, simultaneamente, são imensos desafios e riscos como, por exemplo, os danos derivados de uma situação na qual as atividades humanas, em grande parte, são computadorizadas: centrais energéticas, reatores nucleares, refinarias, redes de comunicação, bancos de dados, tudo isso dependendo de centros nevrálgicos cuja vulnerabilidade acarreta um dano maior quanto mais centralizado (aliado ao crescente terrorismo e possibilidade de guerras)." (Fuks, 2003, p. 93)
Essa atração atual pregada por Lévy só pode ser fruto, obviamente, de uma
revolução na área das comunicações. Se levar em consideração que "a
comunicação é cimento social" (Maffesoli, 2004, p. 20) e "a cola do
mundo pós-moderno" (Maffesoli, 2004, p. 20), é fácil entender por que o
projeto da Torre de Babel não pôde ser concretizado: as inúmeras línguas não
permitiam que as pessoas focassem um objetivo comum, cuja interpretação
dependia de um mesmo código de comunicação, ali inexistente por obra de
Deus. Tentativas modernas de criação de línguas artificiais, como é o caso
do esperanto, procuram resolver esse problema comunicativo.
É certo que "a revolução contemporânea das comunicações, da qual a
emergência do ciberespaço é a manifestação mais marcante, é apenas uma das
dimensões de uma mutação antropológica de grande amplitude" (Lévy, 2000,
p. 195). Nesse sentido, reunir o mundo inteiro em uma mesma ágora já não é
apenas uma integração comunicativa. Outros fatores, pouco claros ainda hoje,
permeiam essa questão, e levam a um confronto com o dilema da
Torre de Babel.
Não é possível dizer com precisão qual é o futuro da sociedade da
informação, por enquanto, pois a história "apresenta encruzilhadas com
diferentes direções possíveis de desdobramento" (Fuks, 2003, p. 92).
Por fim, o uso do termo Babel no conto de Borges certamente quer traduzir
algo entre confusão e organização, poder e desprendimento, atemporalidade e
finitude, incerteza e infinito. No próprio título do conto já encontramos
elementos que são, por natureza, contraditórios: a biblioteca (a
centralização) e Babel (a descentralização). Em se sendo mais simplista,
talvez, então, Babel queira significar apenas a multiplicidade de formas que
requerem uma infinidade de leitores com compreensões variadas. Ou todas as
formas dentro de uma única forma.
Não se pode esquecer, contudo, de que o mundo, na visão do autor, é
conhecimento — e comunicação, sem dúvida.
A Biblioteca de Babel
Assim inicia o conto famoso: "O universo (que outros chamam a Biblioteca)
constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias
hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas
baixíssimas." (Borges, 1972, p. 84)
Aqui já se delineiam as principais referências à sociedade da informação. Está-se tratando de uma sociedade em rede (Mattelart; Mattelart, 1999, p. 15-16), tal qual um neurônio, cujos prolongamentos formam as galerias hexagonais, que se comunicam umas com as outras. A biblioteca, na verdade, é a transfiguração do mundo real para o virtual.
Ao comparar o universo a uma biblioteca, temos a primeira referência ao
mundo como repositório de informação, como um grande estoque, pois
"conceituamos como estoques de informação toda a reunião de estruturas de
informação" (Barreto, 2000). Latour (2000, p. 21) critica, na biblioteca
de Babel, a sua função egocêntrica de armazenamento, que a torna "vazia e
frágil a partir do momento em que procuramos ligar os signos aos mundos que
os cercam" e que se contrapõe ao ideal dos "centros de cálculo".
Segue o texto: "De qualquer
hexágono, vêem-se os
pisos inferiores e superiores: interminavelmente." (Borges, 1972, p. 84)
Nesse ponto, pode-se notar que a estrutura da biblioteca de Borges permite
que haja uma visão geral, panóptica (lembrando Foucault), do todo que
representa. Com isso, a rede formada pelas inúmeras galerias hexagonais
exibe uma estrutura que pode ser acessada ou vislumbrada, em teoria, por
todos que nela se aventuram.
Pode-se ver nesse aspecto um claro indício do que é o ciberespaço para a sociedade da informação: um ambiente que tem a possibilidade de executar o controle irrestrito sobre o conjunto completo da estrutura, como se houvesse uma ponte que estivesse conectando todos a todos. É justo lembrar que, nessa mesma sociedade dita do conhecimento, "conhecer é um supermodo de organização e controle" (Carneiro Leão, 2003, p. 14), aqui representado pela configuração esquemática da biblioteca.
O texto continua: "A distribuição das galerias é invariável. Vinte
estantes, em cinco prateleiras por lado, cobrem todos os lados menos dois;
sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário
normal." (Borges, 1972, p. 84) O fato de que sua estrutura é invariável
denota que, na sua forma mínima (a galeria), a biblioteca é composta por
igualdades. Essas igualdades se inter-relacionam formando a própria
biblioteca, como resultado de um "comportamento
bottom-up" (Johnson, 2003, p. 13), isto é, emergente, auto
organizável, que está baseado primordialmente em um meio de comunicação:
"Uma das frentes livres leva a um saguão estreito, que desemboca em outra
galeria, idêntica à primeira e a todas." (Borges, 1972, p. 84)
Vale lembrar agora o papel da tecnologia como elemento limitante. Se a
estrutura da biblioteca pode ser considerada uma tecnologia (de
armazenamento e preservação, ao que parece), e se essa estrutura é rígida,
por certo a compreensão que existe não permite imaginar algo além do que a
própria tecnologia oferece.
Logo, os olhos dos bibliotecários não conseguem enxergar o que existe fora das fronteiras da biblioteca; vivem uma cultura do mesmo, e a sua percepção se reduz ao que a tecnologia lhes outorga em termos de possibilidades e perspectivas. No caso da biblioteca, é preciso concordar com Bellei (2002, p. 14), quando diz que "toda tecnologia jamais é apenas um instrumento de uso, mas, também e principalmente, um instrumento que usa e condiciona os seus usuários".
"À esquerda e à direita do saguão, há dois sanitários minúsculos. Um
permite dormir em pé; outro satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa
a escada espiral que se abisma e se eleva para o longe." (Borges, 1972,
p. 84-85) Primeiramente, é preciso notar que a biblioteca é povoada por
indivíduos que têm necessidades tão básicas quanto dormir, apesar de ser um
ambiente aparentemente virtualizado.
Em segundo lugar, deve-se notar a característica inusitada que toma o dormir (dorme-se de pé), revelando um ponto de dissonância para com o real (dessa forma demonstrando que o tempo não existe tal como é costumeiramente entendido e que, em verdade, dormir é mais uma ilusão). Por último, os vários andares são unidos por meio de uma escada em espiral, completando, assim, com uma visão vertical aquela estrutura horizontal tratada nas frases anteriores.
É evidente, aqui, o que se deseja demonstrar é que "estamos criando um complexo de vida e de inteligência artificial-natural que dá origem a uma diversidade de formas maior do que nunca" (Lévy, 2004, p. 168), numa antevisão do ciberespaço.
A biblioteca também oferece alternativas mais abstratas. O virtual tem a
capacidade inerente de multiplicar-se, de transformar-se em virtualização do
virtual. Para isso, servem os espelhos, que são uma extensão — ou outra
dimensão — do que aparenta ser a biblioteca:
"No saguão há um espelho, que duplica as aparências fielmente. Os homens
costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse
realmente, para que essa duplicação ilusória?); prefiro imaginar que as
superfícies polidas representam e prometem o infinito..." (Borges, 1972,
p. 85)
Na sociedade
da informação, essa duplicação evoca, basicamente, a sua capacidade de
auto-reflexão, de poder compreender-se, como biblioteca, no seu verso, na
sua imagem refletida no espelho. De certa forma, Borges já sugere que a
biblioteca não se presta a um outro olhar, que esse olhar terá as mesmas
características da biblioteca em si, como se a virtualização do virtual não
acrescentasse nada ao que já é saber notório e se permanecesse continuamente
em um mesmo plano. Como se a sociedade da informação fosse infinita dentro
da sua rede de limitados pontos, e como se esse infinito fosse uma ilusão
necessária na opinião de quem participa desse jogo.
Contudo, a biblioteca, por mais que franqueie uma visão total da sua
estrutura, gera uma necessidade de entendimento que busca reduzir o espectro
do objeto:
"Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez o catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono em que nasci." (Borges, 1972, p. 85)
Essa redução se traduz na necessidade (quase urgente) de se encontrar a
explicação do que, na biblioteca ou na sociedade da informação, se constitui
em metainformação:
"informação acerca das informações" (González de Gómez, 1995, p. 77). Os
livros são apontadores que remetem a diferentes direções, não concentram
nenhuma verdade — essa verdade só poderia ser conhecida se houvesse um mapa,
se houvesse um catálogo que, em miniatura, permitisse uma visão do todo a
partir do topo.
Todavia, a busca por esse ponto de confluência parece ser algo impossível,
como sugere a idéia de ocultamento de Barreto (2000): "quanto mais o
estoque de informação estiver codificado em uma metalinguagem mais estará
ocultado a informação completa em linguagem natural". Esconder a
informação por detrás da criptografia da informação conduz à noção de poder,
pois "aqueles que detêm o poder sobre os estoques institucionais de
informação, também, detêm o poder sobre a sua administração e
conseqüentemente sobre o conhecimento gerado na sociedade e o seu potencial
de desenvolvimento" (Barreto, 2000).
Nesse aspecto, vale lembrar que a biblioteca de Borges, na teoria, não possui um poder centralizado ou, pelo menos, apreensível para os bibliotecários que nela vivem. Logo, deduz-se que, se esse poder não é apresentado como entidade visível e cognoscível, é ainda mais potente: está-se próximo do que Bauman (1999, p. 41) assinala quando diz que "maior poder é exercido por aquelas unidades capazes de permanecer a fonte de incerteza das outras unidades". No conto, esse fato se revela na perda de uma vida inteira por algo que não levou o autor senão a alguns passos de onde estava, numa referência velada a uma prisão que aliena os seus detentos.
A história continua: "Afirmo que a Biblioteca é interminável."
(Borges, 1972, p. 85) Certamente, fala-se da sua capacidade de reprodução
infinita ou, ao menos, da infinita interconectividade de suas células
hexagonais. Assim, aplicando-se o mesmo princípio à sociedade da informação,
chega-se ao pensamento de Lévy (2001, p. 22), que propõe uma interligação
generalizada do planeta, o que contribuiria para a "reconexão da
humanidade consigo mesma".
No entanto, Borges discorda disso mais adiante: "Para mim é suficiente, por ora, repetir o ditame clássico: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível." (Borges, 1972, p. 85) Ou seja, essa reconexão apresentada na forma de um Deus cíclico nada mais é do que ilusória e prontamente ineficiente, uma vez que o centro pode ser cada uma das unidades — e o todo não pode ser apreendido.
A confusão parece instaurar-se aqui, na forma de uma
entropia (Araújo, 1995,
p. 2): "Também há letras no dorso de cada livro: essas letras não indicam
ou prefiguram o que dirão as páginas." (Borges, 1972, p. 86). Ora, se a
rotulação das idéias é feita mediante o título colocado no dorso de cada
livro, e se o conteúdo do livro não corresponde à categoria que o seu título
insinua, a biblioteca se transforma em uma organização cujo propósito final
não é fazer com que o acesso à informação seja fácil, mas tem como objetivo
tornar a pesquisa um ato regido pela sorte e pelo acaso.
Se "o limite do excesso de informação se materializa como tempo disponível para cada indivíduo acessar e processar a informação que deseja" (Vaz, 2004, p. 228), chega-se à conclusão de que, quanto maior e mais caótico for o repositório, maior será o tempo utilizado para encontrar a informação desejada e, conseqüentemente, maior será o poder daqueles que puderem abreviá-lo.
A biblioteca de Borges apresenta dois axiomas. O primeiro é:
"O primeiro: A Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade, cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o bibliotecário imperfeito, pode ser obra da sorte ou dos demiurgos malévolos; o universo, com sua elegante dotação de prateleiras, de tomos enigmáticos, de escadas infatigáveis para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser criação de um deus." (Borges, 1972, p. 86)
E o segundo é este:
"O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco [...]. Essa comprovação permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjetura desvendara: a natureza informe e caótica de quase todos os livros." (Borges, 1972, p. 86-87)
O primeiro axioma trata do tempo. Castells (1999, p. 460) já dizia que a
sociedade da informação cria:
"um universo eterno que não se expande sozinho, mas que se mantém por si só, não cíclico, mas aleatório, não recursivo, mas incursor: tempo intemporal, utilizando a tecnologia para fugir dos contextos de sua existência e para apropriar, de maneira seletiva, qualquer valor que cada contexto possa oferecer ao presente eterno."
É impossível não notar a semelhança em termos de palavras e idéias. Assim, a biblioteca se transforma em algo "maior que a soma de seus residentes" (Johnson, 2003, p. 38), que seus livros. Essa capacidade de altear-se, de formar uma unidade independente que nem por isso é consciente de si mesma, leva ao encontro do conceito de divindade. E os deuses são eternos, vivem fora do tempo, observando e coagindo seus adoradores, planejando-lhes os passos ou, então, ignorando-os por completo.
O segundo corrobora o que já foi mencionado anteriormente: a biblioteca e a
sociedade informação carregam características de um comportamento emergente,
em que a ordem é construída por um aparente caos.
Mas o número determinado de símbolos ortográficos traz consigo uma dúvida.
Por que os "bibliotecários repudiam o costume supersticioso e vão de
procurar sentidos nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou
nas linhas caóticas da mão" (Borges, 1972, p. 87, p. 88) explica assim a
lei fundamental da biblioteca, descoberta por um pensador:
"Este pensador observou que todos os livros, por diversos que sejam, possuem elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as vinte e duas letras do alfabeto. Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos. Dessas incontrovertíveis premissas deduziu que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (número, ainda que vastíssimo, não infinito), ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas."
Pode-se assumir que os símbolos são poucos e que as suas combinações são vastas, mas que a maneira como as combinações ocorrem é determinada. O poder dessa constatação reside claramente no determinismo tecnológico, no condicionamento que muda de idioma, muda de aparência, muda no exterior, mas que internamente se constrói da mesma forma — a mesma alienação repetida infinitamente, em um balé perverso: "seja qual for ângulo pelo qual se examinem as situações características do período atual, a realidade pode ser vista como uma fábrica de perversidade" (Santos, 2001, p. 58-59).
À medida que se adentra os recintos da biblioteca, é possível encontrar uma
duplicidade de interpretações. A primeira é positiva: "Quando se
proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão
foi de extravagante felicidade." (Borges, 1972, p. 89) Em respeito a
isso, Lévy (2001, p. 127) já dizia que "nossas raízes deverão se
transformar em rizomas".
O conhecimento disseminado em livros que podem ser manuseados por todos é a realização de uma utopia maravilhosa. Mas o excesso de alegria leva à segunda interpretação: "À desapoderada esperança, sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira nalgum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, afigurou-se quase intolerável." (Borges, 1972, p. 90) Ou seja, em algum ponto, haverá livros mais importantes que outros, informações mais valiosas que outras, e a sede de poder-conhecimento impulsiona o homem-bibliotecário na sua incansável busca do tesouro enterrado.
Tal pensamento faz sentido quando pensamos em progresso, em processos hegemônicos que, de repente, para permanecerem na supremacia, iniciam um processo de aniquilamento do que não lhes agrada ou põe em risco a sua posição confortável:
"Outros, inversamente, acreditaram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: a seu furor higiênico, ascético, deve-se a perda insensata de milhões de livros." (Borges, 1972, p. 91)
A barbárie exposta no conto de Borges é plenamente compatível com a nossa
sociedade moderna, pois, se a biblioteca for considerada uma entidade
globalizada como aparenta ser, "no seu bojo transporta a miséria, a
marginalização e a exclusão da grande maioria da população mundial"
(Santos, 2002, p. 53), que se darão pela negação aos direitos de existência,
de permanência e preservação da memória.
Contudo: "cada exemplar é único, insubstituível, mas (como Biblioteca é
total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de
obras que apenas diferem por uma letra ou por uma vírgula." (Borges,
1972, p. 91) A partir disso, é possível depreender que, por mais que se
busque extinguir um determinado conhecimento da face da terra, ele continua
preservado indiretamente em outros objetos.
Talvez seja essa a solução que Maffesoli (2004, p. 30) proponha quando diz que "há no povo uma vitalidade que escapa às teorias elitistas e abstratas". Apesar de manipuladas, de criptografadas, destruídas, escondidas, embaralhadas, as informações estão multiplicadas, não na sua íntegra, mas em parcelas que permitem, com engenho, a reconstrução do todo. Logo, a sociedade da informação, com todo o arsenal de críticas que lhe são dirigidas, não é determinável na sua essência.
Neste momento, quando a conclusão do conto está prestes a acontecer,
Borges
(1972, p. 93) indaga ao leitor: "Tu, que me lês, estás seguro de entender
minha linguagem?" A resposta mais adequada talvez fosse: Não naquela
época, na tua época, Borges. Apenas hoje, quando a sociedade atual se imbui
de todas as características da biblioteca de Babel, é que se pode
compreender o aspecto visionário da proposta do autor. Pode-se entender,
hoje, a encruzilhada que foi proposta, que nem é produto de certeza, nem é
fruto completo da imaginação.
E diz Borges, com tristeza: "conheço distritos em que os jovens se
ajoelham diante dos livros e beijam selvagemente as páginas, mas não sabem
decifrar uma só letra" (Borges, 1972, p. 94) e "acredito ter
mencionado os suicídios, mais freqüentes cada ano" (Borges, 1972, p.
94). Vivem-se tempos estranhos, em que as inovações não são debatidas (Wolton,
2004, p. 152), em que são mais aceitas que propriamente compreendidas
(Santos, 2001, p. 45).
O fim pode ser apocalíptico: "Talvez a velhice e o medo enganem-me, mas
suspeito que a espécie humana — a única — está por extinguir-se e que a
Biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente
imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta."
(Borges, 1972, p. 94) Lévy (2004, p. 161), já dizia que "com a invenção
da escrita, as formas lingüísticas têm agora uma memória independente de
qualquer organismo vivo".
Todavia, por fim, Borges se regojiza ao sintetizar as suas palavras e ao
encontrar na biblioteca, apesar de sua imperscrutabilidade e de todo o
conjunto de possibilidades funestas, uma Ordem superior que permita a
existência de esperança:
"A biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajor a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança [...]." (Borges, 1972, p. 94)
Quiçá a mesma esperança exista para a sociedade da informação.
Considerações Finais
A Biblioteca de Babel apresenta um retrato da sociedade da informação (e não
apenas do ciberespaço) sob vários aspectos.Primeiro aspecto (os hexágonos):
A sociedade da informação se estrutura em rede, com ligações que apontam
infinitamente para outros conectores, numa forma de comunicação de todos
para todos. A possibilidade de se efetuarem conexões com todos os pontos da
rede, contudo, não permite que se tenha uma visão geral do contexto que a
rede assume.
Segundo aspecto (a biblioteca): A sociedade da informação é a cultura do
virtual. A virtualidade desempenha um papel importantíssimo, uma vez que é
responsável pela criação de uma supra-realidade que quebra duas limitações
existentes no passado: o espaço e o tempo. Obviamente, a superação dessas
duas barreiras cria a mobilidade, uma forma ágil de preservar-se contra o
que se constitui uma ameaça. No entanto, a mobilidade só tem valor quando se
tem poder sobre os estoques de informação.
Terceiro aspecto (os livros): A sociedade da informação é um grande estoque
de informações. Essas informações funcionam como uma extensão da memória,
levando poder a quem sabe encontrá-las e a quem mantém uma maior proximidade
das que possuem real importância.
Quarto aspecto (o conteúdo dos livros): A sociedade da informação é
alienante. Existe uma tendência natural à utilização de metalinguagens para
configurar metainformações. Toda forma de criptografia ou de regras não
claras e definidas se revela uma maneira perversa de dominação. A tecnologia
também atua como meio condicionante.
Quinto aspecto (a desordem): A sociedade da informação é cíclica: um ciclo
vicioso, perverso. Por meio do endeusamento da virtualidade, talvez já não
exista o livre-arbítrio: o jogo seduz. A ordem dominante não se apresenta
claramente, pois o objetivo é manter-se indiretamente imiscuída em tudo,
vigiando e controlando sem que execute uma interferência dirigida.
Por fim, a sociedade da informação busca uma outra sociedade da informação.
Aquela que vemos já não é motivo de esperança, e é a esperança que dá
sentido à seqüência das vidas, dos muitos séculos: a Ordem da salvação. Será
esta uma outra metáfora?
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Sobre o autor / About the Author:
Mestrando em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa
Catarina,
Cetil Sistemas de Informática S/A.