Resumo: A comunicação científica apresenta um cenário para a discussão sobre periódicos científicos. Os movimentos de acesso livre à informação científica têm gerado muita discussão entre pesquisadores, editores, bibliotecários, autores e leitores, sobre as vantagens e desvantagens nesse novo meio de comunicação científica que surge a partir da internet, o periódico eletrônico. O contexto apresentado indica que há muito a se estudar e desenvolver no campo das publicações eletrônicas de acesso livre. É com esse propósito que o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT vem discutindo e definindo ações para que se estabeleça, no país, uma política nacional de acesso livre à informação científica, utilizando como ferramenta o Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas – SEER, software livre para construção de revistas eletrônicas, de tal forma que no artigo objetivamos uma reflexão de que todos os segmentos da comunidade científica devem ser envolvidos, sensibilizados e estimulados a promover o acesso livre à informação científica.
Palavras-chave:
Comunicação científica; Periódicos científicos; Periódicos eletrônicos;
Acesso livre; Software livre e Informação científica.
Abstract:The scientific communication holds a
context for discussing about the scientific journals. The movements of the
open access to the scientific information have brought out several
discussions -among researchers, publishers, librarians, authors, and readers-
about the advantages and disadvantages of this new means of scientific
communication, which arises from the Internet, the electronic journal. The
presented context indicates that there is still much to be studied and
developed the field open access electronic publications. It is with this
purpose that the Brazilian Institute of Information in Science and
Technology - IBICT has been
discussing and defining actions to be established in the country, a national
policy of open access to the scientific information, by using the Electronic
System for Journal Publishing - SEER,
as a tool, which is a free software to build electronic journals, so that in
the article we aim to reflect about the fact that all the segments in the
scientific community should be involved, sensitive, aware and encouraged to
promote open access to scientific information.
Keywords:
Scientific communication; Scientific journals; Electronic journals; Open
access; Free software and scientific information.
Introdução :
Comunicação Científica
A comunicação científica, que continua passando por processos de mudanças,
sempre teve como principal função dar continuidade ao conhecimento
científico. Meadows (1999) refere que:
"A comunicação situa-se no próprio coração da ciência. É para ela tão vital quanto a própria pesquisa, pois esta não cabe reivindicar com legitimidade este nome enquanto não houver sido analisada e aceita pelos pares. Isso exige, necessariamente, que seja comunicada. Ademais, o apoio às atividades científicas é dispendioso, e os recursos financeiros que lhes são alocados serão desperdiçados a menos que os resultados das pesquisas sejam mostrados aos públicos pertinentes. Qualquer que seja o ângulo pelo qual a examinemos, a comunicação eficiente e eficaz constitui parte essencial do processo de investigação científica. (Meadows, 1999,p.vii)"
No entanto, durante o processo de
comunicação, o autor precisa estar atento a alguns requisitos básicos para
que haja a divulgação científica, tais como: o conhecimento daquilo que se
comunica, a precisão terminológica, a acessibilidade da linguagem, a
adaptação à audiência.
Segundo Meadows (1999,p.3), não se sabe ao certo quando ocorreu a primeira
pesquisa científica e, consequentemente, a primeira comunicação científica.
Sabe-se que os debates sobre questões filosóficas e outras atividades
exercidas pelos gregos nos séculos V e IV a.C influenciaram a comunicação
cientifica moderna e que eles valiam da falta e da escrita para comunicar a
sua pesquisa cientifica. Foram as obras dos gregos, notadamente as de
Aristóteles, as que mais contribuíram para a tradição da comunicação da
pesquisa na forma escrita. Os debates, precariamente conservados em
manuscritos copiados repetidamente, influenciaram em primeiro lugar a
cultura árabe e posteriormente a Europa ocidental.
Com a invenção da imprensa no século XV, houve um grande aumento na
disponibilidade de textos impressos na Europa, o que desencadeou o
crescimento da produção média de livros, causando um impacto na difusão das
informações.
A transição da forma manuscrita para a forma impressa não foi rápida.
Sabia-se que a capacidade de reproduzir um livro era um passo muito
importante para a ciência, pois traria rapidez à difusão das pesquisas (Meadows,
1999, p.4); eliminaria erros que surgiam durante a transcrição de um
material e permitiria a utilização de tabelas e imagens nos textos
científicos. No entanto, como os noticiários, os livros e as cartas eram
grupos restritos que pudessem analisar os resultados e, quando conveniente,
testar os métodos utilizados, encaminhando posteriormente uma resposta.
Esses grupos foram a base para a criação das sociedades e academias
científicas. Séculos mais tarde, esse tipo de organização informal para
intercâmbio de ideias continua existindo, e denominam-se
“colégios
invisíveis” (Stumpf, 1996).
O ciclo da produção de conhecimento científico “representa o caminho da
pesquisa desde a sua produção, publicação até a sua utilização por outros
pesquisadores, identificada através de citações” (Lara, 2006, p. 398). A
produção científica está intrinsecamente ligada ao fluxo da informação
científica que constitui um conjunto de publicações que "permite expor o
trabalho dos pesquisadores ao julgamento constante de seus pares, em busca
do consenso que confere a confiabilidade" (Mueller, 2000, p. 22).
Periódicos Científicos
Segundo Cunha (2001, p. 17), as expressões periódico, publicação seriada,
revista técnica, revista científica e publicação periódica são usadas
indistintamente para designar um tipo de documento que tem as seguintes
características:
a) periodicidade: intervalo de tempo entre a publicação de dois fascículos sucessivos, ou a freqüência pré-fixada para o aparecimento dos fascículos;
b) publicação em partes sucessivas: obedecem geralmente a uma sistematização, isto é, subdividem-se por ano, volume ou tomo, número, fascículo ou caderno;
c) continuidade de publicação indefinida;
d) variedade de assuntos e autores: podem ser gerais (que tratam de muitos assuntos) e especializados (que tratam de um assunto geral ou um ramo específico de determinado assunto). Podem trazer artigos variados sobre diversos assuntos ou sobre aspectos diversos de um mesmo assunto, em geral, de variados autores.
O periódico científico é visto como uma das principais formas de comunicação
científica e tem como objetivo divulgar os resultados de pesquisa e
discussões sobre temas da ciência. Suzana Mueller (2000) mostra, no entanto,
não ser essa a única função do periódico científico. Segundo a Royal Society
a preservação do conhecimento registrado, o estabelecimento da propriedade
intelectual e a manutenção do padrão de qualidade na ciência também são
funções do periódico científico.
Os primeiros computadores eletrônicos surgiram na década de 1940. Na década
de 1960, já eram empregados no processamento de informações bibliográficas.
Na década de 1980, o desenvolvimento da tecnologia da informação alcançara a
etapa em que podia começar a competir com a impressão em papel como meio
universal para difundir informações científicas. Nos últimos anos, portanto,
passou a ser razoável examinar a possibilidade de se transferirem
informações científicas do meio impresso para o meio eletrônico.
A literatura em formato eletrônico deve, do mesmo modo, satisfazer à
necessidade que o pesquisador tem de seguir a pista, para leitura mais
sistemática, de informações publicadas no passado.
Os primeiros periódicos eletrônicos começaram a aparecer na década de 90,
juntamente com outras iniciativas que utilizavam o meio eletrônico, algumas
das quais deram origem a novas formas de publicação eletrônica e acesso à
pesquisa, inclusive os de acesso livre. Para Mueller (2006) “ao surgirem e
ganharem formas inovadoras, a partir da década de 90, as publicações
científicas eletrônicas despertaram esperanças, em muitos pesquisadores, de
uma mudança radical no sistema tradicional de comunicação científica”.
(Mueller , 2006, p. 33)
SEER – Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas
Destaca-se no periódico científico eletrônico a vantagem de proceder de
forma mais rápida e com menor custo. No Brasil, já existem iniciativas no
sentido de aumentar a visibilidade da produção científica nacional, dentro
de uma política de acesso livre e destacamos aqui o Sistema Eletrônico de
Editoração de Revistas – SEER. Trata-se de um sistema customizado pelo
IBICT
– Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, de acesso
livre. Este sistema está adquirindo significado estratégico para os editores
brasileiros, no sentido de conseguir inserir os periódicos científicos
nacionais no grupo de publicações eletrônicas de acesso aberto
internacional. A customização do SEER se deu a partir do programa
Open Jounal Systems produzido pelo
Public Knowledge Projet – PKP da University of
British Columbia, no Canadá.
O Open Journal Systems (OJS) é um sistema desenvolvido pelo
Public Knowledge
Project da University of British Columbia para a construção e gestão de uma
publicação periódica eletrônica. Segundo Arellano (2005) esta ferramenta
contempla ações primordiais à automação das atividades de editoração de
periódicos científicos, permitindo completa autonomia na tomada de decisões
sobre o fluxo editorial, a publicação e o acesso por parte do editor. Essa
ferramenta define as etapas do processo editorial, de acordo com a política
definida pela revista, mas dispondo de assistência e registro on-line em
todas as fases do sistema de gerenciamento. Na etapa de submissão, o sistema
disponibiliza um espaço para comunicação com o editor e permite também o
acompanhamento da avaliação e editoração do trabalho.
De acordo com Arellano (2005) entre outras características está a de se
tratar “de um software livre, desde o código fonte (PHP) e os requisitos de
software para sua instalação (Servidor Apache, MySQL, PHP) até a definição
do ambiente computacional (Linux, Free BSD, Solaris) sendo que não exclui
ambientes (Windows e MacOS X)”.
De acordo com Hélio Kuramoto (2006) o acesso ao conhecimento científico
continua sendo fundamental para o desenvolvimento científico e tecnológico
de um país. Dentre os seus propósitos, destaca-se no IBICT a intenção de
registrar e disseminar a produção científica brasileira. Kuramoto afirma
ainda que com o surgimento das tecnologias da informação e da comunicação,
combinado com o movimento do acesso livre à informação, verifica-se a
existência de um cenário amplamente favorável ao Instituto para o
cumprimento de sua missão inicial.
As publicações científicas eletrônicas de livre acesso, entretanto, seguem
os padrões da comunicação científica, mantendo um corpo de especialistas
revisores e um comitê editorial. Portanto, a diferença entre esse tipo de
publicação e o seu similar impresso é apenas o suporte físico (rede mundial
de computadores, a Internet). Esse cenário justifica as ações que o IBICT
vem desenvolvendo no contexto do movimento do acesso livre à informação
científica. Sely Costa (2004) observa que o acesso livre tende, então, a ser
a questão crucial do progresso científico em qualquer área do conhecimento.
Suzana Mueller (2006, p.32) argumenta que os periódicos eletrônicos de
acesso livre começaram a aparecer no “início da década de 90. São como a
grande maioria dos periódicos eletrônicos por assinatura, muito semelhantes,
em aparência, ao modelo tradicional de periódico, com a importante diferença
de serem acessíveis sem pagamento”.
Com o surgimento das novas tecnologias da informação e da comunicação é
indiscutível a relevância do periódico científico eletrônico para a
comunidade científica, evidenciada pela possibilidade de registro das
pesquisas produzidas em diversas áreas do conhecimento. Isso porque essas
tecnologias facilitam o acesso à informação, promovendo o surgimento de
novas alternativas para a comunicação científica. Tratando-se de um
periódico que estará disponível na web - o periódico eletrônico - todos os
indivíduos interessados nas temáticas abordadas poderão ter livre acesso aos
conteúdos disponibilizados. Potencialmente o número de beneficiários diretos
e indiretos se torna incalculável. Nesse sentido, procura-se analisar o
crescente processo em que as revistas eletrônicas utilizam o SEER, de tal
forma que as Instituições estão se apropriando dessa ferramenta para
proceder à divulgação científica de forma mais rápida e com menor custo.
Dessa forma, podemos perceber ao avaliar as potencialidades dos periódicos
eletrônicos com uso de software livre, se elas atendem as necessidades da
comunidade científica. Além da divulgação do conhecimento gerado no país,
que é produzido nesses periódicos eletrônicos que utilizam o SEER, diversos
indicadores poderão ser extraídos e analisados, permitindo o desenvolvimento
da informação científica do país.
Como podemos observar a Figura 1 representa a evolução das Revistas
Brasileiras que utilizam o SEER como ferramenta para construção de seus
periódicos eletrônicos do ano de 2004 a 2008. É notório o crescimento da
utilização desse software livre, o SEER. Entre 2004 e 2006 o aumento foi
três vezes o número do ano base. A evolução tende a aumentar a cada ano,
visto que em 5 anos o crescimento desses periódicos, no Brasil, foi de um
total de 598 revistas, o que corresponde a 14 vezes o número de revistas do
ano base.
Figura 1 – Evolução do SEER de 2004 a 2008.

Fonte: IBICT , 2009
Apresentamos abaixo a Figura 2, que mostra a evolução no crescimento de
revistas que passaram a utilizar o SEER, desde o princípio da divulgação do
sistema realizada pelo IBICT. É interessante notar o significativo
crescimento do número de revistas ocorrido no ano de 2008. O mês de julho
foi o momento em que o número em relação à construção das revistas foi o
mais expressivo. É interessante observar também que houve dois conjuntos de
meses em que os números foram equiparados, como os meses de Fevereiro e
Abril; Maio, Outubro e Dezembro. Esse crescimento da utilização do software
livre, o SEER, decorre do fato dessas revistas eletrônicas adotarem esse
sistema, o qual proporciona maior visibilidade da produção científica
brasileira, de tal forma que facilita o gerenciamento de todo o processo
editorial.
Figura 2 – Evolução do SEER no ano de 2008.

Fonte: IBICT , 2009
Ziman (1979) destaca que um artigo publicado em uma revista conceituada não
representa apenas a opinião do autor, mas leva também o selo de
autenticidade científica outorgado pelo editor e pelos examinadores por ele
consultados. Nesse sentido, o pesquisador deve escolher revistas com maior
potencial e que possam contribuir significativamente para o enriquecimento
de seus conhecimentos científicos. Podemos perceber que a construção das
revistas não é o único fator que faz com que os produtores científicos e os
leitores indexem e leem os artigos, resenhas e demais produções científicas,
mas também a qualidade e a legitimidade dessas revistas, nesse caso que
utilizam o SEER, são de extrema importância para a comunidade científica.
Nesse sentido, é importante destacar que as revistas eletrônicas que
utilizam o SEER passam pelo mesmo processo das revistas impressas, de tal
forma que possuem também o ISSN (Número Internacional Normalizado para
Publicações Seriadas), que “validam” essas publicações.
O SEER faz parte da nova geração de sistemas de gerenciamento de periódicos
científicos e, no Brasil, ele surge como modelo alternativo de publicação do
conhecimento científico para ampliar o acesso, a preservação e o impacto das
pesquisas e dos resultados daí provenientes.
O contexto apresentado indica que há muito a se estudar e desenvolver no
campo das publicações eletrônicas de acesso livre. É com esse propósito que
o IBICT vem discutindo e definindo ações para que se estabeleça, no país,
uma política nacional de acesso livre à informação científica, utilizando
como ferramenta o SEER. Nessa discussão, objetivamos uma reflexão de que
todos os segmentos da comunidade científica devem ser envolvidos,
sensibilizados e estimulados a promover o acesso livre à informação
científica.
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Sobre o autor / About the Author
Juliana Lopes de Almeida Souza
Mestranda em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG