Metodologia de pesquisa no campo da Ciência da Informação
Research’s methodological strategies in Information Science
por Maria Nélida González de GómezResumo: Se as estratégias metodológicas são definidas em horizontes concretos de possibilidades políticas e epistemológicas, os programas de pesquisa em Ciência da Informação, devido a sua filiação às Ciências Sociais, são duplamente afetados, em sua estrutura paradigmática e em seus conteúdos teóricos e empíricos, pela configuração social dos regimes de informação. Tendo que articular o caráter estratificado de seu objeto, premissas poliepistemológicas, abordagens interdiscursivas e de intervenção
informacional, o escopo e abrangência de um programa de pesquisa se definem em três espaços gnosiológicos: o da comunidade de pesquisa , o de gestão e avaliação da ciência e o da rede ampla de pares, de empreendedores sociais e de “socius”. Sendo que cada um desses espaços tem diferentes demandas e culturas de evidencia, a direção e a perspectivas de uma Sociedade da Informação colocariam o desafio de grandes projetos orientados por missão com a responsabilidade de sustentar processos intensivos de inovação informacional e ações inclusivas de cidadania informacional e identificação cultural.
Palavras Chave: Estratégias Metodológicas; Ciência da Informação; Conhecimento; Sociedade da Informação; Cidadania InformacionalAbstract: Research’s methodological strategies are defined in actual political and epistemological horizon. Science Information Research Programs, due to its social science filiations , are twice affected by the social configurations of informational regime in its paradigmatic structure and theoretical and empirical contents . They needs to articulate the stratification character of its object, poliepistemological and interdiscursive premise and interventionists informational approach. Its extension and direction are defined in three knowledge space: the community of researchers, the management and avaliation polis and the large networks of peers, entrepreneurs and socials. There are actual indication, in the context of Information Society perspectives , that the area will be challenged by mission oriented projects demand’s , to attend the responsibility of intensive process of informational innovation and inclusive actions of informational citizenships and cultural identities.
Keywords: Methodological Strategies; Information Science; Knowledge; Information Society; Informational CitizenshipA metodologia da pesquisa designa, de maneira amplia, o inicio e orientação de um movimento de pensamento cujo esforço e intenção direciona-se à produção de um novo conhecimento, num horizonte de possibilidades sociais e historicamente definidas. Os métodos, quantitativos, qualitativos, comparativos, assim como as técnicas de coleta e análise da informação, definem a direção e modalidade das ações de pesquisa de modo secundário, estando já ancorados num domínio epistemológico e político que acolhe e legitima as condições de produção do objeto da pesquisa. Uma metodologia de pesquisa teria, para nós, e como primeira tarefa, a tematização dessas condições de produção do objeto de conhecimento.
Para auxiliar-nos em nossa reflexão, utilizaremos como ponto de partida o conceito de programa de pesquisa (introduzido por Imre Lakatos, historiador da ciência, na década de 60).
A reconstrução de um campo científico pode ser iniciada pelos programas de pesquisa, em empreendimentos coletivos e institucionalizados de geração de conhecimentos que agregam e organizam instituições e recursos, perguntas e teses, o modo de objetivação e de objetividade que será aceito como legítimo. São componentes principais dos programas de pesquisa as escolhas metodológicas que indicam os caminhos de investigação que podemos seguir ou suas heurísticas positivas e as heurísticas negativas, que estabelecem o que não poderia ser do dominio do objeto da pesquisa. Um programa de pesquisa, assim mesmo, pode ser progressivo ou estar num estado de estagnação. A progressão da pesquisa acontece quando ela produz excedentes de informação em relação ao estado prévio de conhecimento do campo.
A zona que define a progressão dos programas de pesquisa não é, porém, tanto o núcleo quanto sua periferia, que é a zona mais produtiva, dado que nela vão surgir os excedentes informacionais que renovam o escopo e abrangência do programa. Daí que uma definição monopólica do núcleo, sem espaço para um “cinturão protector” de dissenso e alternativas, em vez de indicar um estágio de consolidação, como na ciência “normal” de Kuhn, pode mais bem significar que o programa de pesquisa corre o risco de estagnação.
A pesquisa em Ciência da Informação apresentaria um problema particular que podemos identificar de modo quase imediato: Se existe grande diversidade na definição das heurísticas afirmativas, as que definem as estratégias metodológicas de construção do objeto e que permitem a estabilização acumulativa do domínio, maior é a dificuldade para estabelecer as heurísticas negativas, as que definem o que não poderia ser considerado objeto do conhecimento da Ciência da Informação, condição diferencial que facilita e propicia as relações de reconhecimento e complementaridade com outras disciplinas. E isto acontece na Ciência da Informação por um lado, pela referência intrínseca de seu objeto a todos os outros modos de produção de saberes, gerando constantemente novas treliças interdiscursivas, e por outro lado, pela natureza estratificada e poli-epistemológica dos fenômenos ou processos de informação.
Trataremos de ampliar e esclarecer o sentido e as implicações desta afirmação. Para isso, após de uma breve história de constituição dos programas de pesquisa em Ciência da Informação, analisaremos o que denominamos seu caráter poli-epistemológico, trataremos de identificar um diferencial epistemológico que justifique suas demandas de autonomia, analisando a seguir as conseqüências que resultam de sua “dupla hermenêutica” e sua orientação à intervenção. Finalizaremos nossas considerações lembrando algumas questões que, a nosso ver, são específicas da pesquisa em Ciência da Informação.
A trajetória
A Ciência da Informação surge no horizonte de transformações das sociedades contemporâneas que passaram a considerar o conhecimento, a comunicação, os sistemas de significado e os usos da linguagem como objetos de pesquisa científica e domínios de intervenção tecnológica.
Poderíamos dizer que ao mesmo tempo em que entravam em crises alguns dos pressupostos epistemológicos que legitimavam a imagem da ciência moderna, começava a se formar esse novo campo científico que assumiria uma parte importante do meta-discurso ocidental sobre as ciências, discurso que seria construído agora a partir de resultados formalizados da produção de conhecimentos e conforme metodologias observacionais e quantitativas . A Ciência da Informação constituir-se-ia assim, ao mesmo tempo, como uma nova demanda de cientificidade e como um sintoma das mudanças em curso que afetariam a produção e direção do conhecimento em ocidente.
Desde suas primeiras manifestações, apresentava-se, assim, à Ciência da Informação, como conjunto de saberes agregados por questões antes que por teorias. Se sob o princípio da neutralidade assumia como causa de sua emergência a mudança de escala da produção dos conhecimentos, provocando a elevação dos custos de tratamento, operacionalização, transmissão e aproveitamento dos grandes estoques de registros do conhecimento, outras premissas implícitas remetiam a intensificação das relações entre a ciência, o Estado e a industria, conjugadas pelas políticas do pós-guerra de segurança e desenvolvimento.
Neste horizonte de formação, a Ciência da Informação tenderá a incluir, em seus programas de pesquisa e na definição do domínio de construção de seu objeto, traços e demandas da sociedade industrial, assim como logo acompanhará os processos de reformulação dos paradigmas econômicos, sociais e políticos, desde a mercadorização da informação a sua reconfiguração como bem de capital e indicador de riqueza.
No Brasil, diferentes ações e empreendimentos em Ciência e Tecnologia faziam sua leitura histórica das interfaces –as desejadas e as possíveis - de adesão aos modelos de industrialização e desenvolvimento, incluindo em maior ou menor medida em seus programas o desenvolvimento de um setor de informação científico-tecnológica.
Nesse contexto, o campo das atividades e dos estudos da informação reformulava o espaço de saberes e técnicas até então ocupado quase exclusivamente pelas instituições de memória e a documentação (bibliotecas, arquivos, museus, centros de documentação) e com o auxílio das novas tecnologias, colocava como seu eixo e função a construção de cartografias de meta-informação ou de “informações sobre a informação”. As grandes bases de dados digitalizadas -referenciais, cadastrais, factuais-, como objetivação de variáveis selecionadas da produção científica, seriam utilizadas para a recuperação da informação, como recurso para lidar seletivamente com o grande volume dos registros documentários e, de modo derivado, como insumo para a formulação de políticas científicas, pela capacidade gerada de síntese e diagnóstico da produtividade de científica.
Num primeiro momento, os estudos de recuperação da informação mediada por máquinas, a formalização de linguagens para os sistemas de informação e os estudos bibliométricos, buscariam fundamentar generalizações e teorias na leitura de regularidades empíricas e em sua formalização nomológica, tal como nas leis de Bradford e nas teorias epidemiológicas da “disseminação de idéias” de William Goffman.
A partir da década do 70, o crescimento em papel e em importância dos produtos e serviços de informação e dos mercados para a informação, renova a procura de inovações tecnológicas, buscadas no caminho do tratamento automatizado da linguagem natural e dos sistemas especialistas, experimentando formas de incorporação, ao desenho do Sistema de Informação, de modelos de usuários. Ensaiavam-se, também, as primeiras abordagens cognitivistas pressupostas pela modelagem do uso e pela incorporação de dispositivos de inteligência artificial, confirmando-se a caracterização da área pela dupla orientação à explicação e a intervenção nos processos humanos de conhecimento, memória, comunicação.
Outras questões, que em outros países sinalizavam a renegociação do alcance do Estado de Bem-estar, indicavam a emergência de demandas sociais que em nossos paises e nos contextos de “transição democrática”, traduzir-se-iam num novo associativismo, dando lugar ao alargamento do quadro jurídico-institucional, na constituição do 88, incluindo junto às políticas sociais, a formulação do direito à informação. A década do 80 foi propícia a emergência de novos temas e abordagens sociológicas e antropológicas, que ora vão se aninhar nas práticas informacionais do local e do cotidiano, revigorando o papel das diversidades culturais, ora se empenham na busca de uma definição emancipatória do valor educacional e democrático da informação.
Em mediados da década do 90 alguns focos temáticos desenham uma nova figura assimétrica da pesquisa. Por um lado, intensifica-se a relação entre informação e conhecimento, atrelada aos novos conceitos de gestão do conhecimento e inteligência social e organizacional, deslocando a centralidade temática da informação científico-tecnológica e promovendo-se a migração de tecnologias e estratégias de tratamento e recuperação da informação para novos cenários organizacionais, com ênfases na re-utilização de seus estoques organizados nas novas funções de diagnóstico, controle e monitoramento do ambiente tecnológico e dos negócios.
Por outro lado, se reativa a relação da informação com o texto, explorando as novas possibilidades da hipermídia, o hipertexto e as possibilidades de interação, sincrônicas e assincrônicas, nas novas formas de trabalho intelectual cooperativo. Novas relações com o discurso e a leitura exploram possibilidades de interfaces que são preparadas, num outro plano, operacional e genérico, pelas interações entre as novas tecnologias de informação e comunicação com as ciências da computação, a lingüística computacional, a tradução automática e os sistemas especialistas.
Já na beirada do século XXI, novas mudanças são anunciadas pelos programas da Sociedade da Informação. A reformulação das infraestruturas de informação não se manifestaria, porém, somente nos avanços nas tecnologias dos supercomputadores, já bem instaladas no frente da pesquisa e nos espaços da “big science”, nem no desempenho da robótica na produção industrial ou pelo impacto sobre o conceito e as formas do trabalho, ainda que aceleradas na última década. Uma das maiores expectativas de mudança resultariam da expansão da microeletrônica potencializada pelas redes de comunicação remota, abrangendo toda a extensão do tecido social. A utilização das novas tecnologias de comunicação e informação seria incrementada não só no setor de serviços e nas oficinas, mas também nas escolas, nos hospitais, nos governos locais e nos domicílios.
De que maneira os programas de pesquisa da Ciência da Informação se comportam em relação ao Programa da Sociedade da Informação?
Para preparar nossa reflexão sobre esta questão, vou a deter-me brevemente sobre alguns traços metodológicos da Ciência da Informação.
O caráter poli-epistemológico
Em primeiro lugar, a metodologia da Ciência da Informação deve dar conta de seu caráter poliepistemológico -antes que interdisciplinar ou multidisciplinar: Com efeito, além de tratar-se de um termo flutuante que, tal como o de ‘democracia’, produz diferentes efeitos de sentido em diferentes contextos, “informação” designa um fenômeno, processo ou construção vinculado a diversas “camadas” ou “estratos” de realização. Formam parte desses estratos a linguagem, com seus níveis sintáticos, semânticos e pragmáticos e suas plurais formas de expressão - sonoras, imagéticas, textuais, digitais/analógicas-; os sistemas sociais de inscrição de significados – a imprensa e o papel, os meios audiovisuais, o software e o hardware, as infra-estruturas das redes de comunicação remota; os sujeitos e organizações que geram e usam informações em suas práticas e interações comunicativas.
De maneira simplificada, podemos dizer que a informação, como objeto cultural, se constitui na articulação desses vários estratos, em contextos concretos de ação, e chamaremos ao fatum dessa constituição de um valor ou evidencia de informação, uma ação de informação.
Pode-se assim dizer que uma ação de informação antecipa e condiciona a concepção ou aceitação de algo como informação –tal como a ação de documentar antecipa e condiciona o que será produzido e reconhecido como documento.
A ação de informação articula esses estratos em três principais dimensões: uma, semântico-discursiva, enquanto a informação responde às condições daquilo sobre o que informa, estabelecendo relações com um universo prático-discursivo ao qual remetem sua semântica ou conteúdos; outra, meta-informacional, onde se estabelecem as regras de sua interpretação e de distribuição, especificando o contexto em que uma informação tem sentido; a terceira, uma dimensão infra-estrutural , reunindo tudo aquilo que como mediação disponibiliza e deixa disponível um valor ou conteúdo de informação, através de sua inscrição, tratamento, armazenagem e transmissão.
Existe, de fato, uma grande assimetria entre esses estratos. Enquanto os planos associados aos processos semânticos e comunicativos se pautam pela abertura e diversidade das ações sociais, ancoradas em múltiplos contextos culturais e históricos, as camadas mais estritamente associadas às esferas tecnológicas, às máquinas e às infra-estruturas, ficam sujeitas a condições de definição e operacionalização que se apresentam como genéricas ou “universais” (programa de gerenciamento de bases de dados, hipertexto, e-mail, entre outros), ou capazes de suportar uma grande diversidade de aplicações e de contextos de aplicação.
De fato, a produção de conhecimento e objetivação de cada um desses estratos, requer diferentes pontos de partida conceituais e metodológicos, o tem sido assumido por pesquisadores e programas de pesquisa com diferentes definições do que seja uma evidencia de desempenho adequado do programa (quadro 1).
Quando são abordadas as práticas e ações de informação, devemos usar estratégias comunicacionais seja para reconstruir a produção de sentido dos atores sociais, seja para construir e interpretar indicadores operacionalizados sobre produtos e resultados observáveis das ações de informação.
O acesso comunicacional aos fenômenos culturais da informação requer estratégias metodológicas descritivas, interpretativas, próprias da antropologia, a sociolingüística, os estudos sociais da ciência, entre outras. Neste plano, mesmo as regularidades e tendências estruturais observadas, parecem aproximar-se mais ao conceito wittgensteano de regra (usos, costumes), que ao conceito naturalista de lei.
Quando nos situamos nos contextos organizacionais onde se agenciam e regulam os ciclos e fluxos sociais da informação, e que nós gostamos de denominar de “plano de meta-informação” -porque nele se definem os critérios, os contextos e as categorias que controlam as relações de uma informação com outras informações e com os domínios de produção social de conhecimentos- será necessário recorrer a noções sociológicas e políticas (como os conceitos de instituição, organização,contrato), assim como incorporar as abordagens das áreas de gestão.
Quando olhamos as ações de pesquisa e desenvolvimento que sustentam o desenho e execução das infraestruturais da informação, entramos no domínio da construção e da modelagem que tem como medida e condição de competência, o desempenho adequado de uma arquitetura tecnológica, sujeita a padrões tecnológicos pré-estabelecidos e a outras condições de viabilidade e eficácia econômica.
Um dos grandes desafios da pesquisa na área, resultantes do caráter poli-epistemológico do domínio, é desenvolver programas e estratégias de pesquisa articulando os modos de conhecimento específicos de cada estrato. Por um lado, é importante reconhecer até que ponto a modelagem e desenvolvimento de protótipos tecnológicos deveriam aproximar-se as formas de conhecimento que lidam com a dimensão semântica e cultural das ações de informação. Por outro lado, é necessário estabelecer quais os conhecimentos tecnológicos que deveriam ser partilhados para a reconstrução descritiva das formas culturais de produção, legitimação e adesão aos testemunhos de informação nos novos contextos sociotécnicos. Pareceria importante, também, que esses diversos modos de conhecimento e modelagem estabeleceram estratégias de cooperação na fase de construção dos dispositivos tecnológicos e não a posteriore, no momento de sua aplicação.Quadro 1. Estratos da informação e condições de acesso
ESTRATOS INFORMACIONAIS MODALIDADES FORMAS DE AÇÃO/ OPERAÇÃO CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO Informação (semântica) Modos intersubjetivos de significação; definição cultural e social de uma evidencia ou “testemunho” de informação, suas condições de geração, de transmissão, de recepção e de adesão. Ações abertas e plurais/ polimórficas, conforme diferenciais semânticos / pragmáticos dos atores. Conhecimento antropológico- linguístico
(Regras/ usos/ práticas).Metainformação Modos organizacionais de regulamentação / estabilização de práticas discursivas e informacionais. Estabilização organizacional de ações e discursos.
Contratos institucionais/
organizacionais.Conhecimento político, adminsitrativo, organizacional
(contratos).Infraestrutura de informação Modos tecnológicos e materiais de armazenagem, processamento e de transmissão de dados- mensagem- informação. Operações genéricas; interoperabilidade; transportabilidade e comutatividade digital das mensagens. Conhecimento técnico e tecnológico
(Modelos, interfaces).Dupla hermenêutica e orientação à intervenção
Essa diversidade de condições epistemológicas não deve ser confundida, porém, com uma indefinição metodológica eclética ou relativista.
A Ciência da Informação recebe das Ciências Sociais seu traço identificador, que serve de princípio articulador dessas diversidades, e que corresponde ao que nos estudos metodológicos se denomina como a “dupla hermenêutica”. Seja qual for a construção do objeto da Ciência da Informação, ele deve dar conta do que as diferentes disciplinas, atividades e atores sociais constroem, significam e reconhecem como informação, numa época em que essa noção ocupa um lugar preferencial em todas as atividades sociais, dado que compõe tanto a definição contemporânea da riqueza quanto na formulação das evidências culturais.
O objeto da Ciência da Informação tem que ser considerado como uma construção de significado de segundo grau a partir das práticas e ações sociais de informação, que constituem seu domínio fenomênico.
Podemos afirmar, assim, que este traço da Ciência da Informação gera uma dupla aderência das condições epistemológicas às condições políticas de acolhida e legitimação das questões de informação, já que está constantemente sujeita as mudanças sociais, econômicas e tecnológicas, em conformidade com as quais se constituem, se controlam, se reproduzem e se transformam as práticas, as atividades, as tecnologias, os recursos, as instituições e os atores que intervêm na geração, tratamento, transmissão e uso da informação. E esta configuração social dos regimes de informação afecta a constituição do campo da Ciência da Informação tanto em sua forma paradigmática quanto em seus conteúdos.
Uma conseqüência dessa dupla hermenêutica política e epistemológica, é que a definição metodológica do núcleo de um programa de pesquisa, nunca poderia estar totalmente ocupado ou caracterizado por uma escola, uma teoria, uma técnica, uma temática, já que toda proposta se perfila num horizonte de demandas concorrênciais atualizadas permanentemente fora do campo por macroprocessos econômicos e políticos, tal como a globalização. Assim, toda escolha metodológica acontece como esforço de preenchimento do núcleo, como um espaço sempre em constituição que exige, caso a caso, uma nova justificativa.
A pesquisa, assim, corre constantemente um duplo risco: ora de se distanciar dos desafios dessa atualização acelerada, ora de aderir-se ao lado frágil e passageiro das nomenclaturas e das mudanças ocasionais.
Isto implica, ao mesmo tempo, um grande desafio intelectual, ético e político, já que, das grandes questões do mundo contemporâneo, as principais nutrem o solo de construção dos objetos de estudo da Ciência da Informação.
Interdiscursos e o diferencial da Ciência da Informação
Por sua relação intrínseca com todos os outros campos de produção cultural, a Ciência da Informação se desenvolve gerando sempre novas zonas interdiscursivas.
Esse comportamento prolífico em relações interdisciplinares e transdisciplinares dificulta a identificação de uma diferencia específica do conhecimento informacional. A emergência desse diferencial demanda dos nossos programas de pesquisa o atendimento de uma condição específica, que denominaremos condição de agregação de um excedente epistemológico a toda hipótese epistemologicamente unidimensional: para fazer jus a sua especificidade, a pesquisa em Ciência da informação deve agregar um excedente epistemológico ou um excedente de problematização a toda hipóteses construída num domínio interdisciplinar ou inter-discursivo: à hipótese lingüística, à hipóteses da sociologia do conhecimento, à hipóteses antropológica, à hipóteses comunicacional, à hipóteses das Ciência da Computação ou Informática, de modo que o excedente de informação que resulte da pesquisa tenha de fato um caráter interdiscursivo ou transdiciplinar de cunho informacional.
Algumas questões para os programas de pesquisa em Ciência da Informação
A teoria e a empiria
Devido às características atribuídas ao campo da Ciência da Informação, é difícil construir premissas conceituais que dem conta, ao mesmo tempo, da produção do que estamos chamando excedentes epistemológicos (o diferencial da Ciência da Informação) e do excedente de informação (um diferencial de originalidade ou de alargamento do estado prévio dos conhecimentos do campo).
A escolha do horizonte de problematização é decisiva neste caso. Qual será o foco da pesquisa e quê área, teoria ou abordagem das ciências sociais terá um papel de interlocutores preferenciais da pesquisa?
Uma abordagem antropológica, que lida com a informação como artefato ou dimensão da cultura, requer trabalhar com centralidade o conceito de cultura, com consciência de sua diversidade de abordagens e com a escolha de uma abordagem preferencial. A abordagem sociológica requer debruçar-se sobre a questão da socialidade ou do ser social, atualizando as noções no quadro dos novos cenários teóricos e históricos. Como posicionar-se, como cientista em Ciência da Informação, em relação as definições de sociedade identitária ou sociedade de rede e frente a afirmação da atualidade da passagem de uma a outra sociedade? Quais são as concepções da subjetividade congruentes com essas definições do social? O sujeito “pós-moderno” será por nós colocado como fatum, como pergunta, como sintoma?
Após a escolha de teorias e abordagens, será necessário estabelecer os elos entre o grande quadro conceitual e a construção concreta de um objeto de pesquisa, integrando dados, relatos, argumentos. Por que e como uma concepção da sociedade em rede vai contextualizar e balizar um estudo de usuários potenciais de uma biblioteca virtual sobre Biologia, Matemática ou Políticas públicas?
A prática e a teoria
Outras considerações deveriam ser feitas sobre as relações entre as ditas “pesquisa básica” ou “aplicada”, ou entre “teoria” e “prática”, muitas vezes obscurecidas por apreciações apressadas.
Existe, de fato, um hiato fundamental entre a demanda de conhecimentos de organizações e grupos, como suporte de suas estratégias de ação e em contextos específicos, e a produção de conhecimento por programas de pesquisa. Dois pontos principais mostram esse hiato: a formação das agendas temáticas e os tempos do conhecimento.
As escolhas temáticas e metodológicas da pesquisa geram uma “cascada” de ações, onde as perguntas iniciais geram respostas e novas perguntas. O programa de pesquisa trabalha assim na construção de famílias de perguntas que não são nem totalmente contínuas nem totalmente descontinuas: age, por tanto, pelo deslocamento significativo do esforço do pensamento. Isto implica, porém, numa duração e continuidade desse esforço de pesquisa, o que requer a manutenção de uma memória do campo integrada a memória do programa (o trabalho da herança), a manutenção física e materializada das memórias-produtos resultantes (artigos, bases de dados, coleções), a formação constante e renovadora de novos pesquisadores, uma política permanente e reflexiva de participação e convocação de fóruns e colegiados onde se desempenham e enriquecem as funções heurísticas e críticas da comunicação.
As organizações e os grupos sociais em geral, tem outras lógicas de geração e tratamento das perguntas, geralmente pontuais e surgidas no decurso de suas atividades cotidianas. Suas agendas temáticas não só focalizam assuntos muito específicos e contextualizados, como mudam o assunto de interesse apenas obtem uma resposta que consideram adequada a sua pergunta, ou que lhes permite superar um obstáculo ou uma ruptura de percurso que afeta suas atividades e a obtenção de seus objetivos. Satisfeita a demanda pontual, o esforço de conhecimento seguirá outros rumos, procurará outros grupos e parcerias: a associação de moradores hoje pode querer informações sobre transporte, amanhá pode recorrer ao CREA por uma questão de gabarito de novas construções prediais ou recorrer a FEEMA, por uma questão ambiental. Daí que entre essas organizações e grupos com diversos objetivos aos quais estão atreladas suas demandas de conhecimento, e aquelas organizações e grupos cuja atividade fim é a pesquisa, devem existir espaços diferenciados de ação e zonas híbridas de intermediação onde se realizem as operações de conversão e negociação de perguntas e significados.
No campo da Ciência da Informação, a Biblioteconomia , a Arquivologia, a Museologia, mas também em outros campos, como os de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de informação, os empreendimentos de pesquisa operacional ou o atendimento de demandas imediatas da esfera das práticas organizacionais e sociais, tem competido na atribuição de espaço e de recursos com o desenvolvimento de programas de pesquisa científica, com dois efeitos negativos; por um lado, a dispersão de esforços em ações e investimentos que se esgotam na realização de um serviço ou de um produto, e não formam os “phylum” de conhecimentos que dariam maior cobertura a mais demandas e a mais longo prazo. Por outro, se enfraquecem as zonas intermediárias, de conversão e hibridação entre a teoria e a prática, empobrecendo o potencial heurístico do programa de pesquisa.
A dimensão do programa de pesquisa: entre a comunidade, a polis e a rede
Podemos pensar a pesquisa em diversas dimensões, que vamos a caracterizar com três metáforas: a comunidade, a polis, a rede.
A comunidade de pesquisa nos remete à formação da equipe de pesquisa, que inclúe a aquisição de quadros conceituais, procedimentos metodológicos, assim como recursos mais u menos sofisticados e o desenvolvimento de interfaces adequadas entre os meios, os recursos e os pesquisadores (sejam mapas, bases de dados ou equipamentos complexos de medições astronômicas). Essa comunidade de experiência age ao mesmo tempo como comunidade virtual de crítica e avaliação das estratégias de pesquisa, projetando sempre a “cultura de evidência” da organização e da equipe de pesquisa, nas matrizes disciplinares da área em que se desenvolve o programa.
Entre a área ideal do conhecimento (Ciência da Informação, Biologia, Física) e a comunidade engajada na pesquisa num contexto de experiências coletivas densas (real ou virtual), situa-se a Polis da Ciência (polis no duplo sentido de “muitos” e “cidade”), que reúne as comunidades e programas de pesquisa numa esfera ao mesmo tempo pública e abstrata de reconhecimento e avaliação (CAPES, CNPq, FAPESP, FAPERJ, FINEP, etc.).
A rede, por sua vez, remete as relações do programa com outras organizações (de fomento e avaliação, clientelas, parcerias), e com outros pesquisadores e programas de pesquisa dentro e fora de seu programa de construção.
Do ponto de vista do produtor do conhecimento, as redes se formam de maneira dinâmica e variada, por todo tipo de relações significativas que ele seja capaz de estabelecer com outros saberes e perguntas que tenham interlocução com um estado atual de conhecimentos; nada é a priori pertinente ou relevante, já que é a pesquisa que gera a pertinência e a relevância no decurso de sua intervenção epistemológica e empírica. Por exemplo, nada estabelece a priori que um trabalho de física teórica seja pertinente para um pesquisador em comunicação, mas pensar sobre o tempo como dimensão cultural pode requerer um conceito cosmológico de tempo, desenvolvido no domínio da física pura, da cosmologia. A interdiscursividade se estabelece primeiro como relação pragmática e nesse quadro como semântica e lógica. Essa heterologia de relações, cabe esclarecer, não dependem de serem feitas na comunicação cara a cara, por mensagens enviados por e-mail ou transportados pelos correios, e são anteriores as redes eletrônicas, ainda que estas oferecem excelentes condições para efetua-las com mais riqueza e rapidez.
O escopo e abrangência do programa de pesquisa se definem então por sua interação com esses três espaços: o da comunidade, o da polis e o da rede.
Cada um desses espaços coloca, porém, demandas diferentes.
As comunidades devem atender às condições formativas da ação da pesquisa e seus atores. Participa assim mesmo de diversas redes, em primeiro lugar informais e dinâmicas e só após de uma certa duração e densidade das relações, apreensíveis em malhas e morfologias formalizadas. A polis requer ações e relações antecipáveis e bem demarcadas, que componham cartografias mesuráveis, com regiões estabilizadas, que permitam contratos entre as partes com jurisdições definidas.
Seja pelo avanço da globalização e/ou a renovação das infraestruturas de informação que mudam de escala os investimentos e das exigências tecnológicas de sua implementação e desenvolvimento, as ciências da informação terão que vivenciar uma passagem do modelo mais tradicional de pesquisa, com ênfase na comunidade de experiência, ao modelo de grandes projetos, com ênfases na gestão de redes e o desenvolvimento de missões e o envolvimento de muitas comunidades e programas de pesquisa.
As características do campo, com suas diversas culturas de evidência (econômicas, antropológicas, da engenharia e da computação) e sua relação dupla e permanente com todos os outros campos da atividade social -que restabelecem no campo da informação suas relações de poder-, os objetivos diversificados, assim como as desigualdades e assimetrias na disponibilidade de conhecimentos e recursos de informação , antecipam o quanto difícil e cuidadosa deverá ser a construção dessa passagem e a importância de nossa participação reflexiva no processo que, com certeza, deverá elaborar novas agendas temáticas e novos cronogramas.
Os desafios impostergáveis: o local e o global
Para Benjamin, a informação se constitui num momento histórico de ruptura entre a experiência e a narração. O fenômeno de desencaixe entre a experiência local e os meios de intervenção desterritorializada, como a informação e o dinheiro, estaria exacerbado no contexto da globalização e da sociedade em rede.
A possibilidade e situação da passagem das sociedades identitárias às sociedades de rede, requerem uma indagação dos modos de produção e distribuição de regiões discursivas e os modos sociais de acesso a essas regiões, a fim de estabelecer se funcionam no novo contexto os prévios condicionantes de classe, renda, educação, qual é o papel dos fatores de gênero e idade ou, ainda, quais os indícios de emergência de alguma forma de indeterminação econômica, categorial e geopolítica de acesso cultural que oferecem as novas redes tecnológicas, que permitam esperar seu efeito progressista sobre as desigualdades do conhecimento e da informação.
Os países da América latina, com história pós-colonial e que passaram por processos de modernização conservadora, enfrentarão o déficit histórico de acesso à educação e de aquisição das competências definidas no quadro das atualizações científico-tecnológicas. Nossos países têm queimado muitas Amazonias na perda e desperdício da inteligência e criatividade de seus povos.Minha memória de papel, nada linear, recorre a Gabriel Garcia Marques, colombiano, Juan Rulfo, mexicano, Alejo Carpentier, cubano, Machado de Assis, brasileiro, Roberto Arlt, argentino, mas Bouvard e Pecouchet me ensinaram tanto do cientificismo como Proust me fez pensar no tempo e Faulkner , Whalt Whitman e Edgar Allan Poe abriram os espaços de minha emoção ao som e a fúria de uma América aquém e além do signo monetário. A presença política e cultural dos textos de nossa experiência e diferencia são condição de um projeto abrangente que propondo uma universalidade em aberto, se realize por movimentos concretos de identificação .
Não podemos deixar que nossa historia se converta numa “imagem legendária” às margens digitais da aventura humana.
Os novos mundos da informação devem manter aberto o diálogo com o continente mítico onde se formaram os Macondos, os manifestos urbanos de Niemeyer, as líricas populares do samba e do chorinho.A metodologia da pesquisa pode ser uma das pontes para o traslado dos sonhos as realidades.
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Sobre a autora / About the Author:
Maria Nélida González de Gómez
Doutora em Comunicação
Pesquisadora DEP/IBICT: CNPq
Professora da Pós-Graduação em Ciência da Informação
DEP/IBICT:ECO/UFRJ