DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.2  n.6   dez/01                            ARTIGO 04

Considerações em torno da Informatização de Grupos de Baixa Renda no Rio de Janeiro e sua
Relação com o Conceito de Informação Transformadora de Estruturas
On Informatization of Low-income Communities in Rio de Janeiro and its
Relationship with the Concept of Structure Transforming Information
por Lucia Thereza Lessa Carregal







Resumo: Este artigo apresenta o papel exercido, hoje em dia, pela informatização das comunidades, localizando-a em um contexto brasileiro de desigualdade, em que o poder da tecnologia contrasta com a exclusão e a pobreza. Apontam-se caminhos pelos quais a informação - se geradora de transformações estruturais - pode ser usada para ajudar iniciativas comunitárias para a superação do abismo tecnológico e o desenvolvimento socioeconômico, com ênfase nas condições educacionais e comunicacionais das comunidades de baixa renda. São trazidas também indicações para uma compreensão política desse processo.
Palavras chave:  Informatização, comunidade, informação, políticas de comunicação, comunicação política

Abstract: This article explores the role played by current communitarian information technologies, locates it in a brazilian context of inequality, where technology powers contrasts with exclusion and poverty. The study points out how information - under structural transformation aspects - could be used to help comunitarian efforts to overcome its handicap by reducing the technological gap and improving social-economic development, mostly the educational and communicational conditions of individuals of low-income communities. It also brings some directions for a further political understanding of this process.
Key-words: Informatization, community, information, communication policies, political communication

 

Introdução

O Brasil passa por um momento crucial. Cenário, praticamente em toda a sua história, de fortes limitações no campo da comunicação, atravessou o século XX no esforço quantitativo de dotar o povo de meios de recepção de informação e comunicação baseados em tecnologias de massa, das quais as principais foram o rádio e a televisão. Tais meios têm cumprido seu papel de emissores daquilo que as camadas dominantes consideram necessário e suficiente para a população. Tornaram-se, também, instrumentos onipresentes no cotidiano popular, instaurando novas demandas e comportamentos.

O país oficial embrenha-se no século XXI querendo obter, no mais breve tempo e em perspectiva mundial, uma imagem atualizada e competente. Para isso, pensa em queimar etapas, tentando recuperar o tempo perdido por meio de novas tecnologias e processos, não todos necessariamente bem sucedidos no mundo desenvolvido. Tais tecnologias e processos são fornecedores instantâneos de formas e conteúdos temidos ou louvados, no limite, ora por sua capacidade de mecanizar as mentes ora de estimular a criatividade das pessoas.

A comunicação eletrônica está sendo utilizada por governos, meios de comunicação de massa, empresas e pessoas, para reduzir tempo e eliminar espaço. É possível que essas novas formas de comunicação - desde que utilizem sistemas virtuais de informação consistentes e confiáveis - possam contribuir para um maior entendimento entre pessoas e grupos sociais e, sobretudo, para a superação do imenso abismo que continua a crescer entre os setores favorecidos e os desprotegidos de nossa sociedade.

A cidade do Rio de Janeiro acompanha essa mobilização e procura se adaptar - por intermédio de órgãos públicos, ONGs, empresas privadas e população em geral - a duas realidades cada vez mais presentes e exigidas: o computador e a internet. Em que medida esse movimento dará ou não frutos para essa população parece depender de uma necessária reflexão sobre os rumos e as estratégias a serem seguidos para que mais uma vez não se frustrem as expectativas dos mais pobres.

O primeiro passo para esse novo estado de coisas tem sido, desde a década de 90, o estímulo à informação tecnológica (comunidades equipadas com recursos e cursos populares de informática) e ao comércio eletrônico. Pode-se dizer que nossa sociedade maximiza, hoje, o uso da informação com finalidades instrumentais e comerciais. Robert Kurtz  [1][2001], por exemplo, é assaz pessimista: "Não há mais, é lícito pensar, nenhum oásis emocional, cultural ou comunitário alheio às garras econômicas: o cálculo orientado pelo lucro abstrato e a política empresarial de custos perfazem, no início do século 21, todo o circuito da existência".

Acresce que a organização, processamento e recuperação dessa informação recebem pouca ou nenhuma atenção e, pior, raros são os setores que estudam ou questionam a essência mesma dessa forma de conhecimento.
Ocorre que, para Belkin e Robertson [apud Araújo; Freire, 1996], "informação é o que é capaz de transformar estruturas". Esse enfoque é certamente ignorado nos cursos de comunicação e, pode-se dizer, tem pouca valorização mesmo no campo especializado da ciência da informação.

Seria valioso que ambas as áreas - ciência da informação e comunicação - se aprofundassem, integradas, no fenômeno que pretendem estudar: a mensagem e seu encontro com o receptor, ou seja, a informação, sua recepção, uso, implicações e conseqüências. Pois, se informação é tudo aquilo que transforma estruturas, trata-se, portanto, de uma das mais poderosas forças a serviço do homem, força esta que nosso país ainda não usou em toda a sua potencialidade.
 

O objetivo deste trabalho

Para que o conceito de informação como propiciadora de mudanças estruturais possa ser aplicado à situação concreta da cidade do Rio, deveríamos, preliminarmente, verificar se as tentativas de queima de etapas, em termos de atualização da massa empobrecida frente aos nichos tecnológicos, leva em conta esse novo viés. Em outras palavras, se o que está sendo enfocado como informação tem realmente condições de transformar estruturas, no entendimento de Belkin e Robertson [apud Araújo, 1996].

Esse alvo inicial não nos impede, como parte do interesse e objetivo deste trabalho, de investigar como se dá a questão da informatização das camadas de baixa renda na cidade do Rio de Janeiro. E isso porque essas camadas se ressentem de maior acesso a uma informação mobilizadora e transformadora, e sequer se sentem participantes ativas da comunicação conservadora existente. Tal constatação não impede o reconhecimento de que, de algum modo, elas estão sendo minimamente informadas - e afetadas - em seu processo de rápida informatização, louvando-se aqui os esforços envidados por setores responsáveis pela luta em prol da democratização da informação.

O fato desse acesso divulgar o dia-a-dia dessas comunidades, suas oportunidades de trabalho e lazer, bem como o resgate de seu passado contribui para a consciência das pessoas de serem comunidade e condutoras de sua história.
 

A informação ofertada

Iniciado este trabalho, deu-se o tremendo fato dos atentados terroristas nos Estados Unidos. O bombardeio, por parte da mídia, de corações e mentes de todo o mundo com as notícias, imagens e análises do que se passou possibilitou constatar a queda de barreiras da chamada "informação jornalística" no meio popular. Já no dia seguinte era visível que  a quase totalidade da população tinha conhecimento do acontecido, via televisão, rádio, jornais e, até, pela internet. Em todos os níveis socioeconômicos observados, mesmo dentre os mais pobres, verificou-se, inicialmente, uma geral consternação, revelando que as fontes de emissão da notícia haviam conseguido passar o mesmo teor de mensagem, embora sobre ela cada um tivesse suas próprias versões. É verdade, que com o passar das horas e dos dias, surgiram visões contrastantes e despertaram-se antigos antagonismos que polarizaram, de forma ambivalente, a crítica ao modelo capitalista e a censura ao primitivismo dos métodos utilizados pelos terroristas. Toda essa mudança foi fortemente sentida pela população, que passou a transmitir, igualmente, esses questionamentos, em uma visão por isso mesmo mais objetiva.

Os meios de massa dividiram-se entre os que buscavam as notícias na fonte e os que simplesmente retransmitiam os fatos e suas respectivas análises. Registre-se que a Internet foi, nesse caso, cenário de um fenômeno comunicacional: foi a primeira a noticiar os acontecimentos mas, por isso mesmo, sofreu um quase "engarrafamento" técnico, pelo número incalculável de tentativas de acessos e pela baixa velocidade das conexões, o que gerou um visível abandono, pelo público, de sua rota jornalística.

O tempo de se baixar uma imagem passou a conspirar contra a eficácia dos mais poderosos sites e o formato texto foi a solução por todos eles encontrada, para dar conta de tantos milhões de solicitações. Esse foi um fator de afastamento do público mais popular, já que a leitura supõe um mínimo de prática e de tempo, para seu exercício e fixação. As pessoas queriam saber tudo, velozmente, a todo momento, e a televisão foi o veículo que melhor respondeu a essa demanda.

No Brasil e no Rio, no entanto, essa familiarização com a notícia externa contrasta, especialmente, com o nível de conhecimento mostrado por essa mesma população sobre fatos e eventos relativos a sua própria realidade, principalmente quanto ao entendimento de seus processos e categorizações.

Em um exemplo próximo e cotidiano, é comum se ouvirem, de parte de integrantes das comunidades populares, queixas sobre os mais variados serviços, sobretudo aqueles prestados pelo setor público, sem praticamente a contrapartida do conhecimento dos mais elementares direitos do consumidor. Nesse sentido, registra-se grande número de reclamações sobre produtos mal fabricados, com assistência técnica deficiente ou inexistente. Ao mesmo tempo, dá-se pouca ou nenhuma importância à relação entre esses fatos e o modelo produtivo brasileiro, voltado para a geração de bens descartáveis, de consumo supérfluo, destinados a uma camada mínima da população. Os prejudicados não percebem os nexos entre tais lacunas e os correspondentes deveres inerentes aos poderes de governo, produtores de bens ou prestadores de serviços.

Daí deduzir-se que a qualidade da informação, sua gênese e vinculação com a realidade, anda a reboque da quantidade de dados de que dispõem as pessoas sobre o que se passa a seu redor. É aí que a informatização pode prestar um serviço preliminar, já que muitos dos produtores de bens e serviços têm, em seus sites, indicações de esclarecimento, substituição e até indenização frente a prejuízos. Esses dados, contudo, além de não estarem suficientemente divulgados, não são vinculados a estratégias políticas mais amplas, de defesa do consumidor, cidadania ou participação.
 

O contexto dessa informatização

Pierre Lévy [1998a], analisando a "impotência dos atores mediáticos" - ou seja, a Técnica, o Capital, as Finanças, as grande Multinacionais, os Estados - afirma que esses atores não se mostraram tão poderosos perante excluídos e povos do terceiro mundo, aos quais se atribui, em geral, o papel de "marionetes". Para ele, as recentes transformações técnicas não foram, em sua maioria, decididas por aqueles gigantes. Como exemplo, cita, quando do surgimento da internet, a expectativa da grande imprensa e da TV, depositada em protagonistas hegemônicos, como o governo dos EUA, os proprietários de grandes empresas de informática ou de telecomunicações. Ora, alguns anos mais tarde, verificou-se que esses "atores mediáticos" realizaram fusões e investimentos industriais, mas não influíram, de modo significativo, na "edificação do ciberespaço".

Recorda Lévy [1998a] que entre 1990 e 1996, a revolução da internet foi iniciada e desenvolvida pelo movimento social da cibercultura. Este, ao contrário da televisão, que mostra a sociedade do espetáculo, cria um processo de inteligência coletiva amplamente difundido entre os próprios internautas.

Lembro aqui também o episódio do Napster, em que as grandes gravadoras - após uma luta jurídica inglória contra esse site revolucionário - têm tentado se afirmar perante uma rede crescente de pequenos sites voltados para a difusão de todo tipo de música, com pequenos lucros ou até gratuitamente.

Hoje, está havendo um movimento de minimização do papel dos pequenos usuários na grande rede, no qual vozes catastrofistas pregam o advento de uma era dominada pelos grandes capitais. Lévy [1988a] duvida do caráter progressista dessas vozes que ignoram o movimento social.
 

Para entender comunidade, universalidade

O universal abriga o aqui e o agora da espécie,
seu ponto de encontro,
um aqui e um agora paradoxais,
sem lugar ou tempo claramente assinalável .[2]
Pierre Lévy

Para discutir os conceitos de ciberespaço e mundialização, Lévy [1998b] se pergunta: de que mundialização se trata? Sua reflexão leva-o, inicialmente, a tentar entender o conceito de universalidade. Em sua abordagem, o autor confronta-o com realidades também abrangentes, como religião e ciência.

As religiões universais, a ciência e o ciberespaço destinam-se, para esse autor, a reunir o conjunto dos homens e "fazê-los participar da inteligência coletiva da espécie"… Por outro lado, religiões e ciência abrem "lugares virtuais", em que a humanidade se encontra a si mesma. Já o ciberespaço usa menos a "virtualidade", e mais uma tecnologia real, posta ao alcance da mão.

Em relação a essas categorias, Lévy [1998b] distingue três grandes etapas da história: as pequenas sociedades fechadas, de cultura oral, que viviam valores universais em plano local; as sociedades "civilizadas", imperiais, usuárias da escrita, que viviam uma totalidade desprovida de universalidade; a cibercultura, correspondente à mundialização concreta das sociedades, que inventa uma universalidade carente de totalidade.

No início, lembra Lévy [1998b], a humanidade não conhecia a totalidade nem a ela aspirava. Tudo se passava nos limites da tribo. Homens, deuses, conhecimentos, técnicas, nada tinha âmbito ou destino universais. O que traz, portanto, a transformação do local em universal? Para Lévy [1998b], é a comunicação instaurada pela escrita e, depois, pela imprensa, que criam a possibilidade de extensão indefinida da memória social. Mas esse estágio é visto, pelo autor, com pessimismo:

A abertura universalista é efetuada, ao mesmo tempo, no tempo e no espaço. O universal totalizante traduz a inflação dos signos e a fixação do sentido, a conquista dos territórios e a sujeição dos homens. O primeiro universal é imperial, estatal. Impõe-se pela diversidade de culturas. … [Nossa espécie] se encontra e comunga em meio a estranhos espaços virtuais: a revelação, o fim dos tempos, a razão, a ciência, o direito… Do Estado às religiões do livro, das religiões às redes concretas da tecnociência, a universalidade se afirma e toma corpo, mas quase sempre pela totalização, a extensão e a manutenção de um sentido único. … Ora, a cibercultura, terceira etapa da evolução, mantém a universalidade dissolvendo a totalidade. Pela planetarização econômica, a "densificação" das redes de comunicação e transporte, ela tende a formar uma comunidade mundial, ainda que desigual e conflituada - Lévy [1998b]  .[3]

A Era da Comunicação Virtual traz, assim, aquilo que Lévy chama de "ressurgimento da oralidade em escala planetária": é como se os princípios da escrita se fundissem com os do oral, gerando uma nova forma de comunicar. O autor se dedica, então, a estudar os mecanismos que propiciam e envolvem esse tipo novo de comunicação.
 

Os dispositivos da comunicação cibernética

Inicialmente, Lévy [1994] considera possível formular uma tipologia dos dispositivos de comunicação com base nos seguintes termos:
a) ausência de um coletivo da comunicação, como no caso do telefone, um dispositivo do tipo Um e Um [4];
b) não há interatividade, e sim um centro emissor e uma multiplicidade de receptores. Este segundo dispositivo, representado pelos meios de massa, chama-se Um e Todos;
c) um novo tipo de interação, o espaço cibernético, que é a emergência de uma inteligência coletiva, que se poderia chamar de Todos e Todos.

No interior do espaço cibernético, há uma variedade de ferramentas, dispositivos e tecnologias intelectuais, resume Lévy [1994]: hipertextos, multimídia interativos, simulações, mundos virtuais, dispositivos de tele-presença, inteligência artificial. E lembra ele: "… a própria mídia, hoje, está numa hibridação com o espaço cibernético…" Confirmando-o, temos aqui no Brasil exemplos como a Folha de S. Paulo, cujo estilo editorial de redação já está emulando a escrita para a web, com seus parágrafos curtos, concisos, extremamente objetivos, cuja origem, por sua vez, foi influenciada pela redação publicitária.

O controle possível em uma mensagem digitalizada é fino e instantâneo. E Lévy [1994] compara: "… os bits da informática são como gens na genética, isto é, a microestrutura". Integram um conjunto tecnológico e possibilitam, segundo o autor, "…o controle molecular de seu objeto, o que dá uma fluidez a todas essas mensagens e lhes dá também a possibilidade de uma circulação muito rápida."

Portanto, indaga Lévy [1994]: "O que há em comum em todas as bases nos bancos de dados do espaço cibernético? Não são as mensagens fixas, mas sim seu potencial que, dependendo de quem vai utilizá-lo, vai para uma direção ou outra". Deste modo, é possível ligar um contexto - que havia desaparecido - com a escrita e os suportes estáticos. É também viável, através disso, reencontrar uma comunicação viva da oralidade, só que infinitamente ampliada e complexificada. É o que observamos, hoje, com o hipertexto ou a multimídia interativa. O importante é que a informação esteja sob forma de rede, e não tanto a mensagem, porque esta já existia numa enciclopédia ou dicionário, conclui Lévy.
 

Informação e universidade: um ângulo do problema

Na tentativa de explicitar elementos que possam contribuir para a superação do desnível social em termos de comunicação e informação, ressalto o papel da universidade, por sua função de geradora de conhecimento sobre a informação.

Sobre a responsabilidade acadêmica neste processo, considero importante retornar ao enfoque seminal de Pedro Demo [1986] sobre as três dimensões da universidade, pesquisa, ensino e extensão. Para este autor, a pesquisa, atividade-fim da universidade, amplia suas possibilidades quando capta a realidade para gerar reflexão própria e traduzir, contextuadamente, o conhecimento alheio. Daí que o ensino, para transmitir um saber realmente amplo, universitário, tem de ser ministrado não isoladamente, e sim essencialmente vinculado à pesquisa e à extensão.

Já a dimensão extensão resulta do compromisso social de uma universidade e realiza-se pela aplicação do conhecimento e pela intervenção na realidade. É atividade de grande relevo acadêmico, por dinamizar ações de caráter social, contribuindo para a qualidade das outras dimensões essenciais da universidade, quais sejam, a pesquisa e o ensino [Demo, 1986].

A universidade brasileira integra o jogo de forças de duas realidades conflitantes, porém intimamente ligadas: o privilégio e o poder dados pela formação superior e a pobreza da maioria da população. Essa universidade tem também responsabilidade pela política social do país e, por isso, deve se preocupar com a desigualdade social como um problema que engloba todas as suas dimensões, embora, é claro, não se esgote aí o sentido da universidade. Além disso, os que têm formação superior, no Brasil, estão em dívida social para com toda a sociedade, que lhes deu a chance de um aperfeiçoamento [Demo, 1986].

O fiel da balança para a universidade, segundo este autor, está na prática da consciência social, que significa saber dos problemas e, sobretudo, engajar-se nas soluções viáveis e construir alternativas. Lança-se sobre a universidade este desafio porque, entre as elites, é a que tem mais condições de autoconsciência - ou seja, a capacidade de apontar não só os problemas de outros setores, mas principalmente os que ela traz à sociedade - num reconhecimento que configura talvez o grau mais elevado de consciência social.

Pode-se, portanto, questionar a universidade em termos de comunicação, por formar profissionais para os meios de massa e não para uma comunicação de tipo social e comunitário, havendo aí uma distorção da academia e de suas funções. O estudante de comunicação que se interesse por comunidade pode vir a ser um competente profissional comunitário. Inversamente, um aluno desinteressado jamais será competente em área alguma, apesar de seu diploma. O equívoco está na dicotomia comunicação de massa/comunicação de tipo social e comunitário. Ser treinado para trabalhar na mídia não é problema para um profissional de comunicação comunitária. Um bom radialista pode fazer programas para uma emissora grande e para uma prefeitura, sindicato ou associação cultural [5].

O aluno de comunicação deveria, portanto, conclui Demo [1986] evoluir de uma consciência social para um compromisso social. Para tanto, exercitar-se-ia na percepção, teórica e prática, dos condicionamentos socioeconômicos que marcam as instituições, iniciando-se tal exercício pela própria instituição em que está inserido, a universidade.

É por meio da universidade, sobretudo nas áreas de comunicação e ciência da informação que, em primeira instância, o aluno e futuro profissional aprende e desenvolve conceitos, na maioria das vezes incompletos e pouco estruturados, do tipo "informação é medida de redução de incerteza", "informação não se confunde com significado" ou, como predomina nos meios de massa e no senso comum, "a informação é caracterizada por uma mensagem original, imprevisível, surpreendente, atraente para o público receptor".

Enquanto isso, como referimos, Belkin e Robertson [apud Araújo; Freire, 1996] atribuem à informação um papel muito mais substancial. Araújo o confirma [1989]: o verdadeiro poder da informação, aliado aos modernos meios de comunicação de massa, dá ao homem ilimitada capacidade de transformar culturalmente a sociedade e a própria humanidade.
 

A informação transformadora

Em um recorte mais específico, pode-se dizer que a informação capaz de mudar as estruturas é justamente aquela que, na definição filosófica mais simples, relaciona, referencia

… dois ou mais objetos de pensamento concebidos como sendo ou podendo ser compreendidos num único ato intelectual de natureza determinada, como identidade, coexistência, sucessão, correspondência, etc. … Toda relação reflexiva, simétrica e transitiva entre os elementos de um conjunto. … [Ferreira, 1998].

A capacidade de estabelecer tais relações e referências constitui o exercício de um dos atos fundamentais do pensamento e é auxiliada pela forma como se apresentam os objetos a serem relacionados. Sua resultante é a consciência sobre o mundo, o primeiro passo para sua transformação. Portanto, se a informação não traz, em si ou como subsídio, essas características, dificilmente ela será um instrumento transformador.

Esses vazios em termos de exame, análise e conhecimento sobre a natureza mais profunda da informação talvez expliquem, num movimento de retorno, o pequeno reconhecimento de que dispõem a comunicação e a ciência da informação no meio acadêmico, e até na própria sociedade. E como corolário, as áreas responsáveis pelo estudo e a dinamização da informação em âmbito universitário não estão, em sua maioria, formando quadros que ajudem as camadas pobres brasileiras no enfrentamento de sua realidade.
 

Comunidade e comunicação: a ausência do micro na política

O mundo das comunidades vive, intensamente, uma relação frutífera com as ongs - organizações não-governamentais. Estas integram o conjunto definido pelo Centro de Estudos do Terceiro Setor [2001], como "organizações privadas sem fins lucrativos, em suas diversas formas institucionais, subconjuntos e denominações (terceiro setor, organizações não governamentais sem fins lucrativos - ongs, associações, institutos, fundações, movimentos sociais) e em suas variadas áreas de atuação (assistência, defesa de direitos e promoção da cidadania, desenvolvimento, cultura, recreação, saúde, educação, meio-ambiente).

O próprio Centro [2001] reconhece como seu principal objetivo

… integrar e dar sinergia a iniciativas de pesquisa que até agora permanecem isoladas ou circunscritas. As razões desse isolamento consistem, às vezes, simplesmente na ausência de conhecimento mútuo, mas podem também estar relacionadas aos limites impostos por divisões temáticas. As informações disponibilizadas neste espaço pretendem contribuir para aproximar iniciativas e temas, apostando na idéia de que a expressão 'terceiro setor' é um bom caminho para isso.

Como exemplos dessa pesquisa ainda incipiente, temos trabalhos listados pelo Centro [2001], como o de Regina Novaes, Juventude - conflito e solidariedade, de 1998, publicado pelo Iser - Instituto de Estudos da Religião. Nele são apresentados relatos de agentes envolvidos em 23 iniciativas, projetos ou instituições que lidam com a questão da juventude no Grande Rio, entre os quais ongs, pastorais ou grupos de origem religiosa e grupos informais de jovens de classe média. Do outro lado do espelho, temos um estudo como o de Leilah Landim, Ações em Sociedade: militância, caridade, assistência etc., também de 1998, em que são descritos trabalhos feitos no Iser, no âmbito do projeto Filantropia e Cidadania no Brasil. São resultados de pesquisas referidas ao vasto e diferenciado universo das ongs, entidades sem fins lucrativos e associações voluntárias.

Os trabalhos sobre o setor referem-se, em sua maioria, a experiências e reflexões feitas sobre recortes mais ou menos específicos aplicados a determinadas comunidades. Eles avançam a reflexão sobre aspectos importantes do panorama e do movimento comunitários, mas não estudam, em profundidade, o microuniverso das comunidades e suas inter-relações com o campo macro da comunicação e da política. Esse tema, comunicação e comunidade, ressente-se no Brasil de maiores estudos (ou de maior divulgação dos estudos existentes), que enfoquem sua dimensão política e auxiliem os agentes de comunicação em comunidade em seu trabalho.

Nesse rumo, há setores socioeconômicos que se relacionam fortemente com a comunicação, mas os mundos oficial e empresarial não têm tido a necessária percepção para lidar com essas formas emergentes, quanto mais de relacioná-las com a comunidade. Mais uma vez, a universidade, a mídia e a própria sociedade têm revelado menor sensibilidade às novas interações. A organização como fator de comunicação e seu interagente é uma delas. Foram as comunicações - nelas incluídos os transportes - que possibilitaram a unidade social e seu desenvolvimento de vila a cidade, até chegar à moderna cidade-estado, e hoje, a sistemas organizados de dependência mútua que cresceram até abarcar todo um hemisfério. Pode-se dizer que "os engenheiros de comunicações alteraram o tamanho e o feitio do mundo" [Araújo, 1994]. Ao mesmo tempo, uma organização horizontalizada, estimuladora da criatividade, dinâmica não só propicia como fomenta a troca de informação e, portanto, a comunicação.

Outro setor extremamente ligado à comunicação é esse dos transportes, sobre o qual é ainda mais marcante a ausência de reflexão sobre a sua interação com o da comunicação. São considerados, em geral, campos completamente distantes. Embora não podendo trazer aqui suficientes elementos para essa discussão, julgo necessário apontar tais fatores como possíveis de equiparação, buscando, mais do que suas paridades, as intercessões que permitiriam, se bem exploradas, dinamizar ambos os setores, a comunicação e os transportes. Principalmente nos tempos atuais, em que estes últimos enfrentam um círculo de fogo, já que acossados justamente pelos avanços da informatização - que ao eliminarem o espaço desviaram o foco para o tempo - vêem agora diminuir, em nível mundial, a confiança  sobre suas formas mais avançadas e de massa, com o advento das chantagens e agressões terroristas.

A ação política e comunicativa, na linha proposta por Habermas, porém, pode equacionar esses novos domínios entrecruzados e neles influir, fazendo-os render seu máximo e superar suas dissensões e indiferenças. Nesse sentido, a universidade teria um papel relevante, indicando caminhos de reflexão e interfaces possíveis. Sente-se falta de uma visão mais abrangente sobre a comunicação, que não leve em conta somente os meios tradicionais de massa.

Sergio Caparelli [1997], em Das políticas de comunicação à comunicação política (e vice-versa), faz extenso levantamento sobre esses temas, a meu ver estreitamente ligados a uma visão de comunidade. Resumo aqui [6] as principais descobertas desse autor, em seu exaustivo estudo, para indagar se a questão comunicação e comunidade não caberia nessa dimensão política, já que lida com expressivo segmento de nossa população, afetado pela mídia, porém gerador de formatos próprios de comunicação.

Tem havido, segundo Caparelli [1997], duas tendências de pesquisas na comunicação em universidade: uma que surge nos anos 70, dissociando política e comunicação sendo que para este olhar, o primeiro campo, o da política, é exercido por pessoas e instituições assim reconhecidas pela sociedade (presidente, circunstâncias partidárias, horário político e relações do cidadão ou instituições civis com o Estado. "Assim, essa tendência procura analisar a dimensão institucional da comunicação e da política para intervir nos seus segmentos mais importantes (rádio e televisão), procurando redirecioná-la para a consecução de outros objetivos, geralmente político-ideológicos" [Caparelli, 1997]. Tal enfoque, para este autor, raciocina em termos de "políticas de comunicação".

A segunda tendência de pesquisa é configurada por Caparelli [1997] como datando do fim da década de 80, e sendo considerada hegemônica a partir dos anos 90. Sua mudança de perspectiva é sinalizada por um novo ciclo eleitoral, após 20 anos de exceção. O princípio desse enfoque é que "a política está em todas as partes. Não existem palavras, gesto ou ação que, mesmo que se empenhe em negá-lo de forma explicita, não se projete politicamente, considerando o político em um sentido amplo, enquanto posicionamento valorativo de um indivíduo ou grupo frente ao conjunto da comunidade que integra" [Mangone e Warley, 1996, p. 16, apud Caparelli 1997]. Essa tendência situa no passado a economia como o determinante dos processos históricos e sociais, papel esse hoje ocupado pelo "complexo comunicacional - com sua derivações na moda, no estilo de vida, na formação das imagens de políticos e empresas … [Barbosa Filho, 1997, p. 42, apud Caparelli 1997]. Tal corrente produz, segundo o autor, conhecimento em função do conceito de "comunicação política".

Todavia, em meio a copiosa massa crítica dedicada a estudos gerais e detalhados sobre comunicação e política, esse autor [1997] não menciona a questão comunidade. Ressalve-se que, após rever os processos históricos os quais, em seu estudo, deram seqüência a essas duas tendências de pesquisa, ele entra em nosso tema de interesse. Anuncia, por fim, os poderes micro como possíveis de libertar a comunicação de sua prisão midiática, em uma conclusão que senti necessidade de transcrever:

"Resta-nos saber - e aqui se situa um dos pontos mais importantes da ordenação do campo - como estabelecer uma ponte entre as políticas de comunicação ou a economia-política crítica da comunicação e a comunicação política propriamente dita. Em outras palavras, de que forma passar do macro para o micro, de que forma dar atenção aos aparatos de produção discursiva e ideológica e, ao mesmo tempo, reconhecer que quando analisamos as brechas, as gretas por onde circula o discurso político mais formalizado e regularizado, estamos vendo de que maneira o poder se traveste nessa espécie de zona liberada onde, mesmo quando não fala o aparato, sempre fala o sistema" [Mangone e Warley. 1994, p.31]. Outra questão permanece em aberto, ou seja, de que forma se poderia criar um conhecimento nas relações entre comunicação e política com pressupostos teórico-metodológicos definidos, metodologia refinada, rigor acadêmico e, ao mesmo tempo, direcionados a uma práxis transformadora, ou melhor, como aproximar a universidade do cotidiano dos cidadãos. Só com essas respostas as reflexões das políticas de comunicação perderiam seu discurso excessivamente normativo e as reflexões da comunicação política relativizariam seu mediacentrismo.

Estará essa visão sendo reconhecida como relevante, nos meios da pesquisa em comunicação? Janice Caiafa [2001], por exemplo, em seus artigos, tem abordado temas menos institucionais, como o do desejo, ao focar a mídia e o aumento de seus poderes. E eu a cito aqui por seus trabalhos na ótica micro, em que a política da comunicação está estreitamente ligada à antropologia urbana, como em seu livro inicial, Movimento Punk na Cidade: a invasão dos bandos sub [7], em que ela expõe uma consistente visão de comunidade, ou ainda em sua ênfase no tema da velocidade e as decorrências desse fator no mundo micro.
 

Algumas inquietações das comunidades

É de ressaltar que as áreas social e comunitária continuam tendo muito pouco espaço também nos meios de comunicação de massa e os integrantes dessas comunidades não têm tido, em geral, oportunidade de se expressar. Eles têm, de si mesmos, a imagem social construída pela mídia. E sentem que são notícia somente quando protagonistas ou vítimas de acontecimentos distantes do cotidiano das comunidades.

Manifestam, porém, contentamento quando têm acesso a canais outros de comunicação, mesmo que estes apresentem, como no caso da internet, dificuldades de posse e de desenvolvimento de sua utilização.

O que importa, entretanto, é que as camadas empobrecidas sofrem mais essa dificuldade: além das diversas formas de marginalização a que estão submetidas, elas podem estar sendo inconscientemente mantidas em um isolamento virtual, que as distancia das reais possibilidades de entender e lidar com a informação hoje, sobretudo com sua instantaneidade e descartabilidade. E nesse sentido, não estão contando com a ajuda da universidade e, muito menos, dos meios de comunicação de massa, para superarem esses obstáculos.

Há, assim, uma ambivalência, experimentada por muitos dos que lidam com a comunicação e com a ciência da informação. A ponto de Araújo indagar, sobre o real objeto de estudo do campo teórico: "Se informação é aquilo que altera estruturas no interior de organismos e, se a ciência da informação vem lidando fundamentalmente com o reempacotamento e a reembalagem de mensagens e com a disseminação 'desse produto', não será esse nome no mínimo inadequado para a práxis e a teoria dessa área?" [Araújo, 1994].

O quadro não é, todavia, nítido. Percebe-se que a chamada comunicação informal, talvez uma filha caçula entre os diversos nichos da comunicação é, por estranho que pareça, reconhecida em alguns setores da ciência da informação por sua índole de "inovação, como agente catalisador de novas idéias na pesquisa, bem como seu caráter estratégico no setor produtivo e na sociedade como um todo" [Araújo; Freire, 1996]. Essa faculdade traz a comunicação informal - soberana nas comunidades - para um plano atual e até mesmo prospectivo, espécie de plataforma onde podem ocorrer estimulantes confrontos com outras visões comunicativas, bem como embates preparatórios de novas realidades comunicantes, que devem, provavelmente, interessar aos campos da comunicação e da ciência da informação.

Tais perspectivas adicionam um compromisso aos que lidam com a transmissão do conhecimento para os que dele têm sido, desde sempre, alijados: trata-se de uma responsabilidade social, que pode ser vista como o real background da Ciência da Informação [Wersig; Neveling, apud Araújo, 1996].

É interessante notar que muitas pessoas dos meios universitário e mesmo profissional se inquietam com a dificuldade de informatização do meio popular, seja em termos de aprendizado das técnicas características dessa nova mídia, seja, principalmente, pela impossibilidade de haver equipamentos - em número suficiente e a um preço acessível às camadas empobrecidas. Pudemos observar que realmente a posse das máquinas está longe do alcance desses setores, a não ser para aqueles aquinhoados pelo trabalho de instituições sensíveis a essa lacuna, das quais a principal é o CDI [8], estímulo e exemplo para todos os que trabalham no movimento comunitário. Surge, no entanto, um fenômeno paralelo a essa carência, que é o empuxo de curiosidade verificada nos segmentos destituídos de recursos. Essa atração tem se mostrado poderosa e tem estimulado soluções contingentes, como a utilização dos equipamentos à disposição, sobretudo nos ambientes de trabalho. Há também soluções que beiram a precariedade, tais como a adesão a planos de crédito mirabolantes [9] ou a técnicas ainda pouco práticas, como alguns dispositivos de acesso instantâneo à rede mundial, ligados ao aparelho de TV, PDAs (tipo palm) etc.
 

Comunicação virtual personalizada?

Sherry Turkle [s.d. a], professora de sociologia do MIT, estuda há muito as relações praticamente emocionais que as pessoas estabelecem com seus computadores.

Ela sintetiza, em poucas palavras, a complexidade desse tema sugerindo um pequeno episódio: um homem de 80 anos de idade, fingindo ser uma moça de uma cidade americana, relaciona-se, por intermédio do computador e durante um ano, com um homem mais jovem, de outra cidade. Turkle [s.d. a] vê, nesta possibilidade real, sérios desdobramentos, como por exemplo o idoso ser um menor, etc.

A autora, que recentemente publicou o romance Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet [10], dá atenção a nuances desse jogo muito comum na internet: o "role playing", ou seja, o assumir vários papéis e a condução de interações românticas on-line.

Turkle [s.d. b] revela grande habilidade em ouvir - o que ela chama de "retorno à sensibilidade freudiana para com a linguagem com que as pessoas se expressam". Esse é o recurso preferido em suas pesquisas, no complexo mundo da cibercultura. "Um computador é só um instrumento", dizem seus entrevistados e, para essa autora, há que se estudar tal linguagem.

E ela sugere também a necessidade de se pesquisar a questão dos papéis assumidos durante o acesso à internet, principalmente em Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet [s.d. b].

A vida real (RL, em inglês, por "real life") é somente mais uma janela, e quase sempre não é a melhor", diz um estudante universitário entrevistado pela autora. Ele considera o mundo em que habita no computador tão real quanto a sua vida verdadeira.

E Turkle [s.d. b] descreve: esse rapaz fala do tempo que gasta em "ser" diferentes personagens, em diversos MUDs (multi-user domains - ou domínios de multiusuários). Enquanto ele salta de "janela" em "janela", assume diferentes papéis, exemplifica ela, como fazer o dever de casa (e adianto: corresponder-se com a namorada virtual, pesquisar o último sucesso musical ou entrar em um site pornô). O próprio rapaz se descreve como um ser com a mente em ruptura, sendo um em cada "janela". O computador e a internet permitem-no explorar diferentes aspectos de si próprio. Outro usuário diz: "você é quem você finge ser".

Há dez anos Turkle publicou seu mais famoso livro, The Second Self: Computers and the Human Spirit. De lá para cá, experimentamos mudanças dramáticas em nossa relação com os computadores. Já não teclamos "comandos" para uma máquina, agora entramos em "chats", navegamos em mundos simulados, criamos realidades virtuais. Mais importante ainda, o poder psicológico do computador não está limitado à interação Uma e Uma pessoa/máquina. Agora, milhões de pessoas interagem em redes onde podem falar, trocar idéias e sentimentos, assumir 'personas' de sua própria criação.

A questão abordada em Life on the Screen é a reavaliação de nossas identidades na era da internet. Estamos usando a tela do computador para nos engajar em novos modos de pensar a evolução, os relacionamentos, a política, o sexo, o self, o outro. Para a autora, emerge um novo senso de identidade, descentralizado e múltiplo.

A relação pessoal que os integrantes de comunidades empobrecidas estabelecem com o computador tem muito a ver com a abordagem de Turkle. O fato de eles serem de origem e vivência de baixa renda não os exila da categoria de internautas modernos. Pode-se dizer que, nesta área, suas maiores carências são materiais, de equipamentos mais eficientes e de meios de acesso e conexão mais rápidos e confiáveis. No interesse, no desempenho e na maneira de lidar com o mundo virtual, eles são perfeitamente comparáveis a seus colegas de classes econômicas superiores, e até de países mais desenvolvidos. E talvez se possa dizer que no quesito criatividade eles são até mais bem aquinhoados pois, justamente impulsionados pela falta de recursos, inventam modos novos de utilizar as brechas esquecidas pelo sistema e trazem o contributo de sua linguagem, novidade criadora num mundo que "fala" quase que somente o techno.

Ainda nesse nicho, o da criatividade, a equipe do projeto e-comunidade [11] é testemunha da facilidade com que alguns membros de comunidades populares desempenham papéis jornalísticos não específicos, sem que tenham tido qualquer formação ou mesmo prática. Sentam-se ao lado do computador e ditam matérias completas, em linguagem simples, com uma noção clara de timing, linguagem e direcionamento de suas mensagens.

Nesse projeto, temos nos deparado também com integrantes desses grupos que nos mostram sua produção poética, musical, gráfica (escrita e imagem) de grande originalidade e riqueza de recursos. Com rapidez comparável à do veículo eletrônico, eles se assenhoreiam de instruções e técnicas e desenvolvem, a partir daí, uma produção estimulante, em termos de instrumentos e processos.

É comum ouvirmos, de integrantes das comunidades, referências à criação de papéis imaginários, em que representam personagens muitas vezes estranhos ao mundo de suas comunidades, mas revestidos de inventividade e engenho.
Pode-se também partir, como no caso da comunidade do Morro do Urubu, um subúrbio do Rio de Janeiro, de um problema concreto, como a pichação de paredes, por exemplo - que incomoda a comunidade não tanto pelo aspecto do enfeiamento do meio ambiente, mas porque a polícia costuma deter os garotos pichadores - e transformá-lo em fonte de criatividade e até de novos recursos para a comunidade.

Nesse exemplo, uma ong italiana ensinou, a jovens pichadores de várias comunidades as técnicas da pintura em grafite, em muros autorizados. A Associação de Mulheres do Morro do Urubu - Amamu - está apoiando o esforço desses jovens, estimulando-os a exercerem suas habilidades em locais dentro e fora da comunidade. Hoje, esses desenhos estão na internet, em página própria, no site "Pintando o sete na internet" [12].

Em outro exemplo, a Amamu lançou, em parceria com o CDI e a IBM, um curso de informática para jovens da comunidade e os primeiros 49 alunos receberam como missão construir a rede do curso, na sede da Amamu, além de confeccionar os diplomas dos outros alunos. Os resultados foram tão bons que, entre os formados, 2 dois estão estagiando, um no site do Elefantinho e outro na RioLuz.

É emocionante verificar a empolgação desses jovens, seu desejo de superação e, principalmente, a extrema criatividade de gerar produtos e processos novos em uma realidade ainda bastante carente, em termos de recursos e instrumentos. Turkle, certamente, gostaria de entrevistá-los e de refletir, à luz das experiências desses jovens, imbricando comunicação virtual e comunidades pobres do Rio de Janeiro.
 

Conclusão

Muito haveria ainda a dizer sobre esse tema, sobre as experiências partilhadas com a gente de comunidade e seus agentes conscientes e puros, envolvidos, alegremente, num trabalho voluntário que lhes tira o tempo de maiores ganhos econômicos. Seriam histórias e cenas de um cotidiano fundamental para o conhecer e o assumir de uma cultura esquecida. Mas  só muito lentamente vamos resgatando esse acervo vivo, pois a mídia de massa faz crer, todo o tempo, que só interessa o dia-a-dia dos famosos. Daí que para ser também desprezado pelos próprios membros da comunidade, que o julgam de menor importância, é um passo. Falando em desesperança, eu registraria a decepção de muitos, que ainda não puderam se matricular em um curso, não têm acesso a qualquer computador ou não tem tempo para outra atividade além do trabalho desgastante

Seria igualmente importante tentar entender as contradições existentes no processo de informatização das comunidades, algumas das quais afloradas neste pequeno trabalho. Para isso, estamos sempre esperando a contribuição daqueles que dominam os instrumentos teóricos e possuem o dom de entender e interpretar os sinais vindos dos acontecimentos.
Eu deveria contar também da esperança de muitos desses 'comunitários' na informática, no sonho de que esta ofereça  melhores condições de vida e trabalho a todos os que embarcaram na aventura digital. E não poderia esquecer a entrada no projeto de jornais parceiros, realizados por setores das comunidades que já têm interesses específicos, como o meio ambiente, o samba etc.

Dadas as carências de tempo e espaço, no entanto, concluo este artigo na intenção inicial de acentuar a necessidade de se estudar mais as características, relações, recursos, implicações e carências da informação, essa ainda inaproveitada alavanca de transformação estrutural.

O próximo passo seria, uma vez incorporada à noção de informação seu sentido de transformação estrutural, o trabalho de escuta para a reflexão dos comunicantes, que esta sim, orientaria a ação possível junto aos comunicados.
 
 

Agradecimentos
Recordo, aqui, mais uma vez, o apoio que tenho recebido do Prof. Aldo A. Barreto, incansável divulgador de uma informação transformadora, além de um mestre sempre interessado no progresso de seus orientados. Agradeço também a minha colega Ledda Maria Martins Dias, que leu, com atenção, a versão final deste artigo, e fez valiosas observações.
 

NOTAS

[1]  Robert Kurz, sociólogo e ensaísta alemão, é autor de "O Colapso da Modernização" (Paz e Terra) e "Os Últimos Combates" (Ed. Vozes) e escreve mensalmente na seção "Autores", do Caderno Mais!, da Folha de S. Paulo

[2]  L'universel abrite l'ici et maintenant de l'espèce, son point de rencontre, un ici et maintenant paradoxal, sans lieu ni temps clairement assignable (Lévy, 1998b).

[3]  L'ouverture universaliste s'effectue à la fois dans le temps et l'espace. L'universel totalisant traduit l'inflation des signes et la fixation du sens, la conquête des territoires et la sujétion des hommes. Le premier universel est impérial, étatique. Il s'impose par dessus la diversité des cultures. … Oui, notre espèce existe désormais en tant que telle. Elle se rencontre et communie au sein d'étranges espaces virtuels : la révélation, la fin des temps, la raison, la science, le droit... De l'État aux religions du livre, des religions aux réseaux concrets de la technoscience, l'universalité s'affirme et prend corps, mais presque toujours par la totalisation, l'extension et le maintien d'un sens unique. … Or la cyberculture, troisième étape de l'évolution, maintien l'universalité tout en dissolvant la totalité. Elle correspond au moment où notre espèce, par la planétarisation économique, par la densification des réseaux de communication et de transport, tend à ne plus former qu'une seule communauté mondiale, même si cette communauté est ô combien! inégalitaire et conflictuelle.

[4]  A propósito, Edgar Morin relata, em entrevista na internet, a ambigüidade de sua relação com o telefone. Apesar de este se inserir de modo invasivo em sua vida, perturbando-o e impedindo-o de trabalhar, ele declara não suportar a idéia de ter sua linha cortada. E espera sempre, inconscientemente, o apelo miraculoso de uma voz amistosa e calorosa que, subitamente, surge ao telefone, após anos de silêncio. (Disponível na internet via http://www.cybertribes.com/morin.html Arquivo consultado em 12/10/2001).
[5]  PALÁCIOS, Marcos. Sete teses equivocadas sobre comunidade e comunicação comunitária. In: Comunidade e comunicação comunitária [s.n.ed.].

[6]  Caparelli (1997), ao refletir sobre comunicação e política, chama a atenção para as mutações havidas nesses campos, desde a passagem da ditadura militar de 20 anos para uma democracia, no início dos anos 80. Ele observa que o enfraquecimento do Estado e o fenômeno da globalização trouxeram perspectivas novas para as análises, tanto da política quanto da comunicação. E finalmente, no caso brasileiro, a assunção da televisão enquanto meio de comunicação hegemônico e o deslocamento do eixo da escrita para a imagem redefiniu prioridades no campo da pesquisa. Nessa sociedade, a dimensão pública "aparece como específico espaço social, habitado e vivenciado por imagens.(...) Esta proliferante construção de imagens introduz no cenários novos componentes" (Rubin, 1990, p. 62, apud Caparelli 1997). …
A ementa do Grupo de Trabalho Políticas de Comunicação, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, Intercom, dão, já nos anos 90, uma pista sobre suas prioridades: políticas públicas democráticas de comunicação; políticas de comunicação no Brasil; legislação brasileira e internacional de comunicação; políticas de implantação de novas tecnologias de comunicação.
Mais recentemente, nota-se um aumento de reflexões baseadas na perspectiva da economia política crítica da comunicação, tendo, como pano de fundo, a convergência das telecomunicações e da comunicação.
Segundo o levantamento de Caparelli (1997), 400 teses e dissertações foram produzidas no período entre 1992 e 1995. Desse total, 87 (21%) tinham como eixo principal as relações da comunicação com a política. As análises do discurso constituíam o eixo principal de 36 (41,3%) trabalhos e as políticas de comunicação 21 (24,1%). E assinala o autor: a Compós - Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação - trabalha muito as questões da análise do discurso; processos eleitorais; e políticas de comunicação, na perspectiva da economia política.
E, de repente, nessa nova dimensão pública dos meios de comunicação, pesquisadores descobrem o recorte espetacular da política pela televisão, do palanque eletrônico aos partidos eletrônicos. Nessa perspectiva de análise das relações da comunicação e da política, o olhar é deslocado da produção/intenção para a recepção e a construção de sentido (Lima, 1990, apud Caparelli 1997). Nas palavras de Mattelart, "A nova realidade mediática comprova que a TV não apenas superou os demais media mas os liquidou: tornaram-se apêndices da linguagem, da lógica e da supremacia da TV na cultura (Marcondes Filho, 1990, p.60, apud Caparelli 1997).
Temas como o papel da sociedade na construção cotidiana da democracia e os modos de organização da resistência, já levam em conta o sujeito, o indivíduo. As preocupações desviam-se da produção para a mensagem, o imaginário, o discurso, as novas sociabilidades. Verifica-se uma rediscussão de conceitos como espaço público ou esfera pública, originados em Habermas mas atualizados num período em que a televisão torna-se um meio de comunicação hegemônico (Caparelli, 1997). Reflete-se também sobre ética, sociabilidade; tecnologia; cenários e imaginários políticos. E, assinala o autor, "Até mesmo o estilo muda. Os títulos são imaginosos sobre o novo imaginário. Exemplos, selecionados ao acaso, são O camelo, o dromedário e o caracol (n.21, ano 2, 1992), ou A pilhagem do imaginário (n.21, ano 2, 1992)."

[7]  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1985 (2ª ed., 1989).
[8]  O Comitê pela Democratização da Informática - CDI - é uma ong sem fins lucrativos, que promove programas educacionais e profissionalizantes (Escolas de Informática e Cidadania), para reintegrar à sociedade os membros de comunidades pobres, principalmente crianças e jovens, diminuindo a exclusão social no Brasil e no mundo. Além desse trabalho pioneiro de levar a informática às populações menos favorecidas, o CDI promove a cidadania, alfabetização, ecologia, saúde, direitos humanos e não-violência, através da tecnologia de informação. A instituição pode ser melhor conhecida em seu site
   www.cdi.org.br
[9]  Há bancos trabalhando com oferta de máquinas em operações a perder de vista, acompanhada de instruções sobre como montar o equipamento no regime "do it yourself", aumentando assim irresponsavelmente o número dos que se habilitam ao acesso e, conseqüentemente, as frustrações dos que fracassam nesse intento. Nesses casos, não estão sendo informadas as dificuldades reais de pagamento de contas telefônicas,  manutenção de suporte para os computadores, preço dos periféricos, despesas para as quais não há qualquer menção de linha de crédito.

[10]  Life and the Screen: Identity in the Internet was released by Simon and Schuster in November 1995.
[11]  O e-comunidade, integrante do Núcleo de Comunicação Comunitária do Projeto Comunicar, da PUC-Rio, é uma iniciativa que viabiliza um jornal eletrônico para comunidades. Seu principal objetivo é contribuir para diminuir a exclusão digital de parcelas de nossa população. Para isto, propõe-se a fornecer elementos para que as próprias comunidades possam ter seus jornais on-line, em uma ótica própria de cada grupo, que passa a ser não somente receptor do meio de comunicação mas também seu idealizador e produtor. Para mais informações, o endereço do site é www.ecomunidade.cjb.net
[12]  O site Pintando o sete na internet pode ser visitado em www.cipro.cjb.net (o Cipro é um de nossos parceiros), ou então em www.ecomunidade.cjb.net (jornal Urubu-Rei`o primeiro a entrar no projeto e-comunidade).
 
 


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Sobre a autora / About the Author:
Lucia Thereza Lessa Carregal
lulessa@rdc.puc-rio.br

Doutora em Ciência da Informação e Comunicação pela UFRJ/ECO/IBICT
Professora de Webwriting no Depto. de Comunicação da PUC-Rio e
Coordenadora do projeto e-comunidade, de jornalismo eletrônico para comunidades.
Endereço: Rua Marquês de S. Vicente 225 – PUC-Rio – Departamento de Comunicação.
Telefone: (21) 2529-9290.