Resumo: A organização do conhecimento
no ciberespaço pode ser explicada filosoficamente e operacionalmente
por intermédio do conceito de virtual. No primeiro caso,
o virtual responde pela maneira de ser, uma vez que as obras se realizam
no pólo da virtualidade de várias maneiras, onde a conjunção
e...e... constitui-se em aliança desenhando o conhecimento sob a
forma de rede e explicando a desmaterialização das obras
. No segundo caso, permite a operacionalização dos
conceitos filosóficos como o paradoxo do sentido e rizoma ,
ilustrando um novo modelo de escrita, que é o hipertexto,
bem como explicando a indexação no ciberespaço.
O não fechamento semântico e o não fechamento
físico das obras desmaterializadas, ambos possíveis pela
virtualização, apontam que não há uma sintaxe
geral a ser adotada na indexação na Internet.
Palavras-chave: Virtual; organização
do conhecimento; ciberespaço; indexação; mecanismos
de busca; tecnologias da informação; rizoma.
Abstract: The organization of knowledge in cyberspace
may be explained in a philosophical and operational way by means
of the concept of what virtual means. In the first case, virtual is responsible
for the way of being, since the works are realized in the virtuality
pole in different manners, where the conjunction 'and' is an alliance designing
knowledge under the form of a net and explaining the works' de-materialization.
In the second case, it permits philosophical concepts, like the sense
paradox and rhizome, to happen, illustrating the new model of writing,
that is, the hypertext, and explaining indexation in cyberspace.
The semantic non-closing and the physical non-closing of the de-materialized
works, both possible in virtualization, point out that there is not a general
syntax to be adopted in indexation on the Internet.
Keywords: Virtual; knowledge organization;
cyberspace; indexation; search engine; information technologies; rhyzome.
1. Introdução
O virtual é o principal atributo do ciberespaço e que melhor o descreve. Ele dispõe o conhecimento e a informação em um espaço e estado contínuos de modificação, em função de sua plasticidade e fluidez, permitindo a interatividade e organizando o conhecimento em forma de rizoma, um novo tipo de escritura, descrita por Deleuze e Guattari (1995, v.1), porém só visualizada e possível ou mesmo inteligível a partir do hipertexto funcional.
O virtual tem importância capital na compreensão da maneira de ser dos objetos, em especial das linguagens e obras, pois explica um tipo diferente de realidade, aquela tomada no pólo da atualização ou da “reificação”, ou seja, da coisa ou da materialidade, que estamos acostumados, cuja qual mantemos uma relação de intervenção, controle e organização física.
A materialidade teve papel fundamental na noção de “representação” na Ciência da Informação”, pois contempla os registros, os meios de inscrição das obras. Assim, a representação da informação requer significado (representação temática) mas também requer a descrição dos suportes (representação descritiva) e por isso mesmo abandona, em parte, a definição clássica de representação da linguagem, ou seja, aquela que define o signo como signo, no seu desvio em relação à coisa significada (poder de representação) e a existência de convenções regulando a relação do signo com a coisa.
Entretanto, toda essa lógica da linguagem e da organização do conhecimento, formulada e baseada na linguagem verbal escrita parece entrar em crise quando se admite que há, no ciberespaço, uma desmaterialização da formas simbólicas (obras), fato este associado corretamente ao virtual, visto que o mesmo explica a “desterritorialização dos signos” e portanto a “desmaterialização das obras”.
O artigo pretende discutir filosoficamente a questão, para explicar
um novo modelo de realização da obras no ciberespaço
tomada no pólo do virtual, pois essa compreensão ajudará
a compreender uma mudança de paradigma, na qual a organização
do conhecimento está inserida.
2. Definição de Virtual
Lévy (1996) escreveu sobre o virtual e seus desdobramentos filosóficos,
sendo que no Quadro 01 os diferentes sentidos do virtual são abordados,
do mais fraco ao mais forte:
| DEFINIÇÃO | EXEMPLOS | |
| Virtual no sentido comum | Falso, ilusório, irreal, imaginário, possível | |
| Virtual no sentido filosófico | Existe em potência e não em ato, existe sem estar presente | A árvore na semente (por oposição à atualidade de uma árvore que tenha crescido de fato) / uma palavra na língua (por oposição à atualidade de uma ocorrência de pronúncia ou interpretação) |
| Mundo virtual no sentido da possibilidade de cálculo computacional | Universo de possíveis calculáveis a partir de um modelo digital e de entradas fornecidas por um usuário | Conjunto das mensagens que podem ser emitidas respectiva-
Mente por: - programas para edição de texto, desenho ou música; - sistema de hipertexto; - bancos de dados; - sistemas especializados; - simulações interativas, etc. |
| Mundo virtual no sentido do dispositivo informacional | A mensagem é um espaço de interação por proximidade dentro do qual o explorador pode controlar diretamente um representante de si mesmo | - mapas dinâmicos de dados apresentando a informação
em função do “ponto de vista”, da posição ou
do histórico do explorador;
- RPG em rede; - videogames; - simuladores de vôo; - realidades virtuais, etc. |
| Mundo virtual no sentido tecnológico estrito | Ilusão de interação sensório-motora com um modelo computacional | Uso de óculos estereoscópicos, datagloves para visitas a monumentos reconstituídos, treinamentos em cirurgias, etc |
QUADRO 01: OS DIFERENTES SENTIDOS DO VIRTUAL, DO MAIS FRACO AO
MAIS FORTE
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34,
2000. p. 74.
A palavra virtual, no sentido filosófico que interessa à discussão, vem do latim medieval virtualis, derivação de virtus, designando força ou potência. O virtual existe em potência e não em ato, por isso tem como pólo o atual, e não o real, comumente associado ao termo.
Assim, o virtual é potência em curso de atualização, e ambos pertencem ao real. Exemplificando o virtual, Lévy (1996) lança a situação da árvore que está virtualmente presente na semente. Então, o termo “virtual” não pode se opor ao real, mas ao atual, uma vez que a virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes. Nesse contexto, o virtual não substitui o real, mas antes multiplica as oportunidades para atualizá-lo.
Ainda de acordo com o Autor, o virtual “é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização.” (LÉVY, 1996, p.16).
O ciberespaço parece encarnar a força virtual, em curso de atualização, mas ao mesmo tempo sem perder a sua virtualidade: o espaço de leitura atualiza-se como espaço de escrita e vice-versa. Ou então, a leitura em outras leituras e escritas transversais.
Assim como Deleuze (apud ALLIEZ, 1996, p.49) que diz que todo
atual “rodeia-se de uma névoa de imagens virtuais”, Lévy
(1996, p.43) admite um outro estágio da atualização,
ou seja, a virtualização, onde,
A virtualização é a passagem de uma solução
dada (a atualização) a um outro problema, isto é,
do atual ao virtual. Entretanto, não um virtual como maneira
de ser (no Quadro 02), mas a virtualização como dinâmica
ou processo (se no quadro abaixo estivesse representada, a virtualização
partiria do atual retornando ao virtual, cf. Esquema 1, p.7).
Vale observar que esse processo não é característica conferida somente aos signos (como virtualização do pensamento), mas a humanidade tem se valido da virtualização das ações, do corpo e do ambiente físico através das técnicas e da complexidade das relações sociais por meio dos contratos, para estabelecer o estado de hominização ao longo de sua existência (LÉVY, 2000).
Já o oposto do real é o possível, de acordo com
Deleuze (apud ALLIEZ, 1996) em que Lévy (1996) se baseou
para escrever “O Virtual”. Assim, o real assemelha-se ao possível,
mas lhe falta a existência, enquanto o atual responde ao virtual,
conforme Quadro 02:
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| SUBSTÂNCIA |
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| ACONTECIMENTO |
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QUADRO 02: OS QUATRO MODOS DE SER E AS QUATRO PASSAGENS
FONTE: LÉVY, Pierre. O que é o virtual.
São Paulo: Ed. 34, 1996. P. 138. [2]
O virtual é uma configuração de forças, que visa a manifestar-se em uma atualização. A isso Lévy chama de solução a um problema, dado que o virtual é problemático por essência. A atualização é portanto, um acontecimento, “efetua-se um ato que não estava pré-definido em parte alguma e que modifica, por sua vez, a configuração dinâmica na qual ele adquire uma significação.” (LÉVY, 1996, p.137).
A atualização, ao inventar, ao criar uma solução ao problema, não mobiliza recursos visando a preencher uma forma, ou ainda, não coloca uma forma à disposição de um mecanismo de realização. Ela cria uma informação nova, exemplificando com a ocorrência da pronúncia de uma palavra ou interpretação de um texto.
Por isso, a atualização, que une os pólos virtual e atual, é da ordem do acontecimento, da criação, ao contrário da realização (possível-real) que sendo da ordem da substância, supre de matéria uma forma preexistente. É uma forma na qual a realização confere uma matéria mediante uma seleção entre possíveis. A realização é uma eleição ou seleção e não uma resolução inventiva de um problema, então os possíveis são candidatos à realização portanto, não são um campo problemático como no caso do virtual, pois o “envoltório de possibilidades presta-se apenas a uma realização exclusiva.” (LÉVY, 1996, p.59).
Prosseguindo com o raciocínio, a força do virtual está na sua saída, posto que é potência, por isso é dito “existir” como modo de ser, e o atual é a manifestação dessa força, seu acontecimento, por isso é dito “acontecer”, uma vez que possui a atualização como prerrogativa. Já o possível como lhe falta a existência, pode-se dizer que ele apenas “insiste”, ou as determinações para sua existência insistem, e no real, a substância subsiste ou resiste, porque é material.
Entretanto, o possível, o real, o virtual e o atual, embora quatro modos diferentes de ser, quase sempre operam juntos nos fenômenos concretos em que se pode analisar. São as misturas que se manifestam nos fenômenos de modo que os processos de possibilidade e de realização só adquirem sentido pela dialética da atualização e da virtualização. Lévy (1996) cita o exemplo de um texto, em que a possibilidade e a realização constituem-se os aspectos técnicos e materiais, mas que por sua vez influenciam fortemente na criação de uma mensagem e na configuração de uma ecologia cognitiva [3]. Não coincidentemente, a Paleografia chama de “material subjetivo” aquele sobre o qual se executa uma escrita ou inscrição.
Ao mesmo tempo, na produção de um texto, há a produção e criação de idéias, portanto um espaço virtual de significações que será respondido com uma atualização ou ainda com uma virtualização, e nesse sentido o meio ou espaço de inscrição pode operar a proeminência de um modo de ser ou outro.
Visualizando de outra maneira, o diagrama do Esquema 01 resume os quatro modos de ser e os processos envolvidos nessa transferência.
ESQUEMA 01 [4]: OS QUATRO MODOS
DE SER E OS PROCESSOS ENVOLVIDOS.
FONTE: LÉVY, Pierre. O que é o virtual.
São Paulo: Ed. 34, 1996. p. 145.
A dialética do virtual e do atual, quando capturada pelo real,
é reificada, objetivada, coisificada. Já o possível
e o real retomados pelos processos de atualização e de virtualização,
tornam-se subjetivados, onde:
Esse aspecto quádruplo que envolve os fenômenos é
uma evidência, por si só, para desconfiar das teorias lingüísticas
dualistas para estudo das linguagens, e sobretudo do conteúdo. O
desvelar dos processos da ordem da matéria e do acontecimento, nas
formas simbólicas, e a necessidade de compreendê-los traz
à tona a importância dessa discussão.
Deleuze (1998, p.241) diz que o virtual é a característica da idéia. Isso quer dizer que a existência, o pensamento são produzidos a partir dele e tal pensamento não remete à forma de identidade no conceito. Lembrando que a linguagem é a virtualização do pensamento, de modo que no virtual “a diferença e a repetição fundam o movimento de atualização, da diferenciação como criação, substituindo, assim, a identidade e a semelhança do possível”.
Portanto, distingue-se do possível, que é concebido como a imagem do real, e do real como a semelhança do possível. O real é a semelhança de um possível que foi encarnado em uma substância à semelhança de sua imagem, que a priori já tem uma “forma”, uma identidade no conceito (bom senso e senso comum). Assim, o real está ligado às imagens identitárias de compreensão da linguagem e do mundo.
Apesar da linguagem ser em essência virtual, sua atualização se prende na correspondência da identidade fixa do significado ao seu significante. Na escrita, a diferenciação como criação parece não conseguir substituir a identidade e a semelhança do possível. Deleuze propõe, em toda a sua filosofia, pensar a diferença em vez de reduzi-la a uma identidade, maquinar o pensamento, através da linguagem, em vez de enxergá-lo como algo mais profundo.
Se aparentemente o diagrama apresentado parece apontar um dualismo entre o acontecimento e a substância, na verdade esconde uma profunda unidade entre ambos. Assim, os fenômenos que envolvem formas concretas e simbólicas fundem-se em processos, ora da ordem da seleção, ora da ordem da criação, ora da realização, sendo o ciberespaço o ambiente que potencializa, sobretudo, os eixos inventivos da criação, dado que desloca as obras para um espaço desmaterializado, onde a atualização de textos/leituras volta sempre ao estado de virtualização.
No ciberespaço não só o texto é em essência virtual, mas o espaço de inscrição, ou seja, a mídia torna-se também virtual. O caráter virtual do texto, no hipertexto é elevado à potência: linguagem e meio virtualizam-se. Assim, “o texto é posto em movimento, envolvido em um fluxo, vetorizado, metamórfico, estando mais próximo do próprio movimento do pensamento, ou da imagem que hoje temos dele.” (LÉVY, 2000, p.48).
Desse modo, a digitalização torna possível um imenso plano semântico, no sentido de Lévy (várias obras) ou mil platôs, no sentido de Deleuze e Guattari (1995) acessível em todo lugar. Esse é o caráter da virtualidade do conhecimento e da informação, sempre em movimento, esperando a atualização e/ou virtualização.
Uma inferência já se pode fazer sobre as formas simbólicas do ciberespaço: são, em essência, metamórficas. Não se confinam em um fechamento físico da realização de uma forma, na fixidez temporal resultante do registro material, e sobretudo no fechamento semântico, normativo e editorial, estes dois últimos responsáveis pela normalização da forma [5].
O movimento das formas está sempre produzindo novas “dobras”, tanto entre os conteúdos, quanto do sentido, uma vez que não há delimitação entre a estrutura física e lógica, lembrando que a dobra é a continuidade do avesso e do direito, e o sentido se distribui dos dois lados, ao mesmo tempo. Aliás, a bidirecionalidade é a encarnação do paradoxo do sentido no ciberespaço, mas a dupla direção não diz respeito somente ao autor e leitor, mas a virtualização afeta as relações entre público e privado, próprio e comum, subjetivo e objetivo, mapa e território (LÉVY, 1996).
O hipertexto, nas redes digitais, está desterritorializado [6], graças aos seus dispositivos, dentre deles o “link” que faz a ligação de contexto entre os enunciados e os conteúdos, estabelece o vínculo entre os vários nós, tornando o espaço (do ciberespaço) além de contínuo, contíguo também. Evidentemente, isso provocará uma mudança nas obras de representação do conhecimento.
Salienta-se ainda que, no sentido estritamente filosófico, toda forma simbólica, seja ela qual for, é em essência virtual. Confere à informação e ao conhecimento o caráter de virtualidade, uma vez que não se esgotam ou acabam quando são utilizados. Não são bens de consumo meramente materiais, seu valor e inexorabilidade vêm da virtualidade, pois a escrita carrega esses atributos, como a não-presença, o desprendimento de um aqui-e-agora, entre o contexto de produção e recepção da mensagem.
As formas simbólicas, como “bens” virtuais apresentam-se em problema, abrem espaço à instauração do sentido, à resolução ou atualização do texto. Entretanto, o pólo da realização é regido pela lei de exclusão mútua: ou...ou... Não há como realizar-se de duas maneiras diferentes e em dois lugares ao mesmo tempo. O impresso, ao apresentar a “obra acabada” elege uma possibilidade de realização, e a tradição hermenêutica encarrega-se de despontencializar o bem virtual do texto, uma vez que a atualização do mesmo deve atingir um denominador mental comum, ou seja, o sentido único.
Em outra palavras, retomando Deleuze (1998), embora a linguagem (mais especificamente a palavra) sendo instituída de virtualidade, possuindo portanto um alto nível de desterritorialização, ela acaba sempre fixando o significante (isto é, a palavra), assim que o significado não pára de deslizar-se sob a palavra, pois, ela acaba operando ao mesmo tempo todo um sistema de reterritorializações. Qualquer coisa pode fazer as vezes da reterritorialização, isto é, “valer pelo território perdido; com efeito, a reterritorialização pode ser feita sobre um ser, sobre um objeto, sobre um livro sobre o aparelho ou sistemas” ou mesmo sobre o significado, sobre o próprio significante, sendo que o regime significante faz operar todo um sistema de reterritorialização (DELEUZE; GUATTARI, 1997, v.5, p. 224).
No que isso implicaria? Implicaria que a virtualidade da linguagem, que tem o intuito de virtualizar o pensamento, ao ser capturada pelos registros atualizados, acaba gerando o já conhecido, tal é o problema da organização da linguagem e da atribuição da significação (porque o sentido é de outra natureza, está ligado à multiplicidade e não à totalização semântica). Dessa maneira, o significante, para Guattari (1992) é um grande redutor da polivocidade expressiva, onde faz calar as virtualidades infinitas das línguas.
O ciberespaço proporcionará ao significante romper com as semiologias/semióticas lineares e binárias e instaurar novas linhas de fuga rizomáticas onde o sentido alonga-se, bifurca-se “n” vezes, nos pontos-signos de uma nova Semiótica. Não mais uma coisa ou outra, mas as duas direções, várias direções, unindo signos de sentido.
O que torna o ciberespaço diferente é que o texto atualiza-se em um hipertexto, lembrando, sem nunca perder seu potencial virtual. O hipertexto certamente não se trata do mesmo texto impresso, estático, linear, preso na materialidade do objeto. Ao que parece, dada a hibridização e virtualidade, tanto das linguagens, quanto do meio, o conhecimento produz signos que geram outros signos, mas estes não se tratam, obrigatoriamente, de significantes (no sentido restrito do termo). Estamos rumos à construção da ideografia dinâmica (LÉVY, 1998a) onde novas simulações, novas representações, novos movimentos, ícones, narrativas se juntam nessa tarefa de produzir enunciados e sentido.
Ao utilizar o hipertexto, face às características do ciberespaço, com a interatividade (ou bidirecionalidade) e a virtualidade (que põe as formas simbólicas em um espaço e estado contínuos de modificação), efetua-se a virtualização ou hipertextualização, e a organização do conhecimento assim procede, não mais operada por uma “norma” ou sintaxe geral (calcada no significado). É essa a discussão que interessa, para tanto as bases filosóficas do hipertexto encontram-se no conceito de “rizoma”, de Deleuze e Guattari (1995, v.1), onde serão detalhadas, a partir do próximo capítulo.
Já que estamos falando de uma pesquisa, iremos apresentar o nosso problema, objeto e a hipótese de investigação (no sentido de premissa) antes dos pressupostos teóricos e dos resultados.
Assim, o nosso problema de pesquisa foi a desmaterialização
das formas simbólicas, no ciberespaço, à organização
clássica do conhecimento: como classificar e catalogar obras desmaterializadas?
Já o nosso objeto específico foi a organização
virtual do conhecimento no ciberespaço por meio da indexação
realizada pelos buscadores ou sites de pesquisa na Internet (Google,
Yahoo!br e KaZaA), sendo a nossa hipótese formulada, de acordo com
um aporte teórico, da linguagem, que apresentamos uma parte neste
artigo, a saber:
3. O Virtual e a Organização do Conhecimento no Ciberespaço
3.1 Os Elementos da Doxa e o Paradoxo do Sentido
De acordo com Monteiro (2002), o virtual também serve como base
funcional ou operacional para dois aspectos (filosóficos) da escritura
hipertextual que explicam, por sua vez, a organização virtual
do conhecimento no ciberespaço: o paradoxo do sentido e o rizoma.
Para entender o paradoxo do sentido há a necessidade de saber que o mesmo tem como oposição a doxa, ou seja: bom senso e senso comum que devem ser explicados anteriormente, pois os mesmos estão constantes na organização clássica do conhecimento. Assim, Deleuze, em sua obra “Lógica do Sentido” (1998) demonstra criticamente como o “bom senso” enquanto sentido único, e o “senso comum” como designação de identidades fixas, levam a identificar o sentido com a significação.
Esses dois aspectos da doxa, são assim explicados: O bom senso é o sentido único, exprime a existência de uma ordem de acordo com a qual é preciso escolher uma direção e se fixar nela. Então, o bom senso tende a caminhar sempre do singular ao regular, por isso mesmo o bom senso é, em essência, repartidor: de um lado e de outro, nunca em duas direções ao mesmo tempo.
Essa teoria do paradoxo do sentido, Deleuze a fez baseando-se em Alice,
da história de Lewis Carroll. O “País da Maravilhas”
tem sempre uma dupla direção, como também ela é
(Alice) aquela que sempre perde a identidade, a sua,
a das coisas, e a do mundo [7].
Exemplificando melhor a dupla direção, citamos Deleuze (1998, p.1) “quando digo ‘Alice cresce’, quero dizer que ela se torna maior que era. “Mas por isso mesmo ela também se torna menor do que é agora. “Sem dúvida não é ao mesmo tempo que ela é maior ou menor. “Ela é maior agora e era menor antes.” Mas o fato de crescer, também a torna capaz de ficar menor, isto é, Alice não cresce sem a possibilidade de ficar menor, e inversamente.
A repartição implicada pelo bom senso defini-se precisamente como distribuição fixa ou sedentária. O bom senso é agrícola, pois visa à instalação de cercados, propriedades e classes. Assim sendo, o bom senso desempenha papel capital na determinação da significação. Mas não desempenha nenhum na doação de sentido, porque o “bom senso vem sempre em segundo lugar, porque a distribuição sedentária que ele opera pressupõe uma outra distribuição, como o problema dos cercados supõe um espaço primeiro livre, aberto, ilimitado, flanco de colina ou encosta.” (DELEUZE, 1998, p.79) [8].
O bom senso, além de determinar uma direção, isto é, o sentido único, ele determina antes de tudo o princípio de um sentido único geral, assim que, esse princípio faz com que escolhamos uma direção em preferência de outra.
Mas, escolher o outro sentido, não se trata de escapar do bom senso, pois o outro sentido seria ainda um senso único, uma vez que o paradoxo do sentido toma sempre os dois sentidos ao mesmo tempo, as duas direções ao mesmo tempo.
O paradoxo de sentido, está em ir às duas direções ao mesmo tempo e tornar impossível uma identificação, colocando a ênfase ora num, ora noutro dos efeitos. É o que se irá definir como duplo sentido, onde na verdade é a ruptura com a ecologia cognitiva da escrita no tratamento da informação.
Já o senso (sentido) comum não se diz respeito de uma direção, mas de um órgão, uma função, uma faculdade de identificação, que relaciona uma diversidade qualquer à forma do “mesmo”. Isto quer dizer que o senso comum é a instância capaz de referir o diverso à forma de identidade de um sujeito, à forma de permanência de um objeto ou de um mundo. Assim, a linguagem opera por determinações de significação: manifesta pessoas e relaciona nomes, designa objetos, classes, propriedades, significados, segundo uma ordem fixa.
Dessa forma, a linguagem parece impossível fora do sujeito que se exprime ou se manifesta nela e ainda a linguagem não parece possível fora de tais identidades que designa. Entretanto, tais identidades levam sempre à significação nas proposições, porque a doação de sentido, segundo Deleuze (1998), precede todo bom senso e senso comum: representa os dois sentidos (as duas direções são possíveis) ao mesmo tempo, o devir-louco, e o nome perdido (o não senso da identidade perdida, irreconhecível): eis o paradoxo do sentido.
Assim, o bom senso é a afirmação de que todas as
coisas há um senso único, e por isso tem papel importante
na determinação da significação. Já
o senso comum é designado por identidades fixas, isto é,
a compreensão do mundo a partir de unidades estabilizadas do sentido.
Resumidamente, teríamos as IDENTIDADES FIXAS (bom senso) DO SENTIDO
ÚNICO (senso comum), que no tratamento da informação
transformou-se na REFERÊNCIA FIXA DO CONHECIMENTO, classificado,
catalogado, etiquetado e armazenado, conforme nossa análise., no
Quadro 03:
| REFERÊNCIA FIXA | SENTIDO ÚNICO | IDENTIDADE ÚNICA | UNIVERSALIDADE |
| CLASSIFICAÇÃO
(conteúdo) |
Reprodução do modelo hierárquico das classes, das estruturas da linguagem, da raiz como imagem da árvore-mundo . Reprodução das relações ontológicas do conhecimento. Criação de um sistema de classes fixas de assuntos, indicando que há um só sentido, uma só classe a ser adotada para o assunto. | A identidade do assunto, dos referentes ontológicos,
baseia-se na unidade estabilizada do
Conhecimento. |
A universalidade do conhecimento, a partir de uma classe, como extensão da universalidade das interpretações dos textos, das ciências. A classe, expressa por um significante, e transformada em notação internacio- nal, conferiu a homogeneidade onto-lógica dos referentes científicos. |
| INDEXAÇÃO
(conteúdo) |
Reprodução da estrutura da linguagem,
por meio das instruções semânticas que conferem
o fechamento
semântico, através do significante fundador, que recolhe todos os conteúdos ou significados sob o termo adotado, que indica o sentido certo. |
A identidade do assunto baseia-se na unidade estabilizada da linguagem. | Criação e adoção de linguagens controladas em várias áreas do conhecimento humano: os tesaurus. |
| CATALOGAÇÃO
(forma) |
Formação de um sistema de descrição que confere o fechamento físico das obras, que indica uma só direção a ser tomada à organização e à localização do conhecimento. | Identificação única da obra, por meio da catalogação, que atribui a identidade fixa de autores, obras e assuntos, sob um número. | Criação e aplicação de normas e padrões internacionais de formatos de catalogação, conferindo universalidade à identificação das obras. |
QUADRO 03: A REPRESENTAÇÃO DA INFORMAÇÃO E A REFERÊNCIA FIXA DO CONHECIMENTO
O modelo espelha o paradigma da escrita e a pragmática
da organização do conhecimento, e tem como base filosófica
os seguintes aspectos:
b) a identidade única dada aos assuntos e à entrada do autor e obras (expressa por um número de chamada), a propósito do senso comum como designação de identidades fixas;
c) a universalidade do conhecimento traduzida pela escolha de classes fixas do conhecimento, como extensão da universalidade das interpretações dos textos, também como reflexo da homogeneidade ontológica dos referentes científicos.
Já o “universal” é demonstrado por Lévy
(2000) como parte integrante de uma ecologia cognitiva da tecnologia
da escrita e dos textos impressos. O sentido único e o domínio
englobante do significado são partes constitutivas da escrita para
garantir a mesma interpretação entre os atores da comunicação
que estão em contextos separados. E a Biblioteconomia levou esse
modelo, que propõe o fechamento semântico, até as últimas
conseqüências. Mas se isso ocorreu, é porque a escrita
assim o permitiu e permite até hoje pois, no regime significante
do signo, a relação simples entre a palavra e a coisa, entre
o significante e seu significado, permite tal agenciamento: é a
base da representação (criticada por DELEUZE; GUATTARI, 1995,
v.1), que permite o corte significante suprindo a ausência da coisa
ou do autor, ou seja, a descontextualização entre a produção
e recepção das obras.
O paradoxo do sentido diz respeito à escritura hipertextual e é a base filosófica à compreensão da instauração do sentido e da indexação, no ambiente do ciberespaço. É uma nova maneira de produzir sentido e de buscar assuntos, mais livre, mais incerta.
A identidade única assim como o sentido único do fechamento semântico são desmontados pelo paradoxo do sentido, pois é possível ir às duas direções (bidirecionalidade), assim como é impossível atribuir imagens identitárias clássicas construídas no ambiente da escrita.
Para Deleuze (1998, p.1), o paradoxo do sentido na linguagem é exemplificado de duas maneiras. Primeiro, pelo duplo sentido ou direção (contrariando o bom senso), já exemplificado pela Alice, e por sua vez explica o ciberespaço: “pertence à essência do devir avançar, e puxar nos dois sentidos ao mesmo tempo.” No meio digital, esse paradoxo pode ser sentido entre o puxar e avançar da escrita/leitura, bem como não há o sentido único, o significado certo a ser instaurado ou utilizado na organização do conhecimento.
No segundo caso do paradoxo do sentido, diz respeito à identidade perdida (contra o senso comum), a impossibilidade de se atribuir a identidade única à Alice, assim como no ciberespaço não há referências (identidades) fixas do conhecimento, em que se possa atribuir uma estabilidade dos referentes ontológicos, tal como nas classes destinadas a esse objetivo, na pragmática da escrita.
O meio digital veio para demonstrar a tese que Deleuze já havia defendido somente no âmbito da linguagem. Os agenciamentos por ele identificados na instauração do sentido, na linguagem verbal escrita, só são sentidos agora, com a “desterritorialização” dos textos no ciberespaço, por isso mesmo o “virtual” é o principal atributo do ciberespaço, porque ele demonstra e faz possível identificar a escritura rizomática, no hipertexto, e o paradoxo do sentido da linguagem, que aqui é do meio (mídia) também, e todos esses elementos estão presentes na organização virtual do conhecimento.
A organização clássica do conhecimento, usa o esquema da Árvore de Porfírio, que tem como modelo e definição as dicotomias sucessivas, ordenando as idéias segundo sua compreensão crescente e extensão decrescente, relacionando de forma indistinta a realidade espiritual e a realidade natural. Assim é o agenciamento da Árvore de Porfírio e da escrita: a subsunção da realidade natural (mundo) à realidade espiritual (livro) (FRAGOSO, 1997, p. 88).
No léxico do ciberespaço, especificamente na organização do conhecimento, percebeu-se que não há uma rubrica adotada como “certa” ou como sentido único à recuperação do conhecimento, por isso mesmo o significado (seja uma classe ou um descritor), como expressão única ou primordial, não desempenha papel principal na determinação da significação.
O ciberespaço está misturando as noções de unidade, de identidade e de localização, atributos relacionados à identidade única, à determinação de unidades estabilizadas do sentido por meio do senso comum. Todas essas implicações atingem diretamente à questão da identidade dos assuntos e da localização fixa dos volumes ordenados em acervos fisicamente codificados, que no ciberespaço não existem. Lévy (1996, p.25) afirma que as coisas só têm limites claros no real pois “a virtualização, passagem à problemática [caso do ciberespaço], deslocamento do ser para a questão, é algo que necessariamente põe em causa a identidade clássica, pensamento apoiado em definições, determinações, exclusões, inclusões” [...].
Em suma, o paradoxo do sentido, na organização do conhecimento no ciberespaço, torna instável os principais atributos da doxa, o bom senso (sentido único) e o senso comum (identidade fixa), presentes na escrita e na representação da informação, ambas organizadas a partir de classes e categorias.
Não há também a universalização do conhecimento e de sua organização em classes fixas, já que o virtual distribui o conhecimento em fluxo, uma vez que não há o fechamento físico das obras (exemplares etiquetados nas estantes), ou a realização de uma forma exclusiva. A universalização, aqui, se dá pela livre distribuição do conhecimento e a conexão “todos-todos” no ciberespaço.
3.2 O Rizoma
FIGURA 01: PROGETTAZIONE DEL PERCORSO FORMATIVO
FONTE: TOZZI, Tommaso. Rizomatica (od a radice). In: GRONCHI,
Sandro. Progettazione del percorso formativo. Disponível em: <http://digilander.libero.it/ricercavisiva/articoli/progettazione%20percorso%20FORMATIVO.htm>
O rizoma é um novo tipo de escritura proposta por Deleuze e Guattari (1995, v.1). É a realização (no ciberespaço sempre tomada no pólo do virtual) da multiplicidade de signos, linguagens e sentidos: rizoma por oposição ao modelo de árvore. Seria o novo paradigma de escrita que já está impondo uma nova pragmática de organização do conhecimento no ciberespaço.
Para falar sobre o rizoma voltamos à questão da árvore, uma vez que esta serviu não só como imagem mas como método de organização do conhecimento ou mesmo como modelo de episteme ocidental, posto que procedeu as divisões, as hierarquias e as dicotomias. Basta lembrar da árvore definicional semântica de Aristóteles e de Porfírio, que deram origem às árvores do conhecimento, onde a lógica binária é a realidade da “árvore-raiz”. Esse tipo de livro evoca a árvore, que é a imagem do mundo ou a raiz é a imagem da árvore-mundo, é o livro clássico, que detém a interioridade orgânica, significante e subjetiva.
Essa imagem da árvore-mundo[9] procede representando a realidade natural do gênero dividindo-o por meio de dicotomias, como uma raiz, até as espécies mais específicas, de modo que o livro como realidade natural é acolhido pelo livro como realidade espiritual, sendo o livro a imagem do mundo. É o pensamento clássico, com suas estruturas que reduz as leis de combinação, de conexão levando às classificações intermináveis, via de regra binárias de oposição, presas à raiz ou à estrutura.
Assim o livro imita o mundo; mas como a lei do livro, que é a da reflexão, do Uno que se torna dois estaria no mundo, na natureza, que é Una? Certo é que ela (a lei de uma lógica binária) preside a própria divisão entre mundo e livro, natureza e Arte. “Um torna-se dois: cada vez que encontramos esta fórmula, mesmo que compreendida o mais ‘dialeticamente’ possível encontramo-nos diante do pensamento mais clássico e o mais refletido, o mais velho, o mais cansado.” (DELEUZE ; GUATTARI, 1995, v.1, p.13).
Acontece ter a natureza outra essência, ela não é binária, ela tem raízes pivotantes, com ramificação mais numerosa, lateral e circular, não dicotômica. Desse modo, Deleuze e Guattari (1995, v.1) afirmam que o espírito é mais lento que a natureza. O livro como realidade natural deveria ser pivotante, rizomático, mas o livro como realidade espiritual (criação do espírito) insiste em desenvolver a lei do Uno, que se torna dois, o dois que se tornam quatro, etc. O livro árvore ou raiz fixa um ponto, uma ordem, uma estrutura a partir de onde deverá fixar o sentido. Assim é com a Lingüística, com o estruturalismo e todo pensamento que necessita de uma forte unidade principal para desdobrar-se em relações biunívocas, onde tal pensamento não compreende a multiplicidade.
O múltiplo “n” não se acrescenta uma dimensão superior,
mas ao contrário, sua fórmula é n-1”, onde subtrai-se
o único ou a singularidade da multiplicidade a ser constituída.
O um é múltiplo e não existe fora da multiplicidade
a acolhê-lo, que poderia ser ilustrado com a seguinte proposição:
“a vida é numericamente uma, mas formalmente múltipla (ONETO,
1997). Este sistema é o RIZOMA, em que:
Ou seja, a multiplicidade implica em um desenho rizomático
de pensamento portanto, de produção do conhecimento e de
escrita. Assim, os Autores em “Mil Platôs’ (1995, v.1, p.15-seq.)
enumeram as características do rizoma, cujas quais reproduziremos
a seguir:
1ª e 2ª- Princípios de conexão e de heterogeneidade
Especialmente esses princípios, parece-nos a apresentação
do hipertexto onde a conexão se faz em qualquer ponto do sistema
através de links, que ligam nós lingüísticos,
nós imagéticos, sonoros, híbridos ("modos de codificação
muito diversos") e que na conexão entre os vários agenciamentos
não há como separar o objeto de seus signos, ou seja, não
há fechamento físico, ou pacotes materiais de unidades semióticas
delimitadas, tal qual o livro impresso, como também não há
uma relação simples e mecânica entre as palavras e
as coisas (do regime significante do signo) e por isso
mesmo é utilizado o termo "cadeias semióticas".
O mundo virtual assim procede e torna possível a operacionalização dessa proposição, uma vez que as cadeias semióticas, de toda natureza, encontram-se no mesmo espaço e estado contínuos de modificação, quer seja, em fluxo, assim como no dispositivo informacional que Lévy (2000) apresentou para caracterizar o ciberespaço, permitindo as conexões entre os próprios signos e também entre os agenciamentos coletivos "todos-todos", do dispositivo comunicacional do ciberespaço.
Prosseguindo com as características do rizoma, no que diz respeito à heterogeneidade da língua: Uma cadeia semiótica é como um tubérculo que aglomera atos muito diversos, lingüísticos, mas também perceptivos, mímicos, gestuais, cogitativos: não existe língua em si, nem universalidade da linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoás, de gírias, de línguas especiais. Não existe locutor-auditor ideal, como também não existe comunidade lingüística homogênea. A língua é, segundo uma fórmula Weinreich, 'uma realidade essencialmente heterogênea.' (apud DELEUZE; GUATTARI, 1995, v.1, p.16). Podem-se sempre efetuar, na língua, decomposições estruturais internas: isto não é fundamentalmente diferente de uma busca de raízes. Há sempre algo de genealógico numa árvore, não é um método popular. Ao contrário, um método de tipo rizoma é obrigado a analisar a linguagem efetuando um descentramento sobre outras dimensões e outros registros. Uma língua não se fecha sobre si mesma senão em uma função de impotência.
Novamente vemos as características do hipertexto, onde a língua não se fecha nos aspectos verbais do significante, pois se quer heterogênea, se quer híbrida, descentrando do verbalismo e do logocentrismo da linguagem verbal escrita e abraçando outras dimensões, outros códigos, outros sentidos, levando os textos à pluritextualidade e à conseqüente multisemiose, quer seja, à multiplicidade. Nesse ambiente, como é possível totalizar o sentido no significado?
3º- Princípio de multiplicidade
Observa-se que as linhas em que os Autores falam não são
lineamentos ou linearidades do tipo arborescente, ou seja, ligações
localizáveis entre pontos e posições, mas conexões
que se dão em qualquer parte do sistema (como no primeiro princípio)
para signos polivalentes, polifônicos, plurais, de modo que
o ideal de um livro seria expor, na mesma página, "acontecimentos
vividos, determinações históricas, conceitos pensados,
indivíduos, grupos e formações socais" (p.18) e acrescentaria
ainda, vários signos.
A multiplicidade é um conceito-chave filosófico e precioso para explicar o desenho dessa nova escritura do conhecimento, ou seja da rede: não há centro de significância (conforme a ruptura a-significante infracitada), não há estruturas que se dividem hierarquicamente por meio do pensamento dipolo. Aqui lembramos do paradoxo do sentido, que afeta também o público e o privado, o singular e o múltiplo, o formal e o informal, a ciência e o popular: é possível ir às duas direções ao mesmo tempo ligando contextos múltiplos de criação e múltiplos sentidos.
Já a conexão é a peça chave da multiplicidade, lembrando que o livro rizomático é um agenciamento em conexão com outros agenciamentos, outras multiplicidades, sendo o virtual (digital) o dispositivo necessário para que tal distribuição de escritura possa existir, sem perder sua potência ao realizar-se, porque não se realiza na exclusão mútua ou...ou...., ou seja, não elege uma possibilidade de realização.
Mais uma vez vemos os nós de signos plurais dessa escritura (sistemas semióticos ou regime de signos), formando os agenciamentos coletivos de enunciação - o hipertexto - conectando-se, por meio de links, aos agenciamentos maquínicos de corpos, que são os sistemas físicos ou de conteúdo, portanto pragmáticos, pois implicam em contextos de produção, acontecimentos, tecnologias como as mídias digitais e virtuais, constituindo a máquina abstrata, que é o ciberespaço, onde se dá o pico de desterritorialização dos agenciamentos.
4º- Princípio de ruptura a-significante
A ruptura a-significante poderia ser metaforicamente comparada ao
"jump", ao salto de um link ao outro, de um nó de
signos plurais aos outros, numa distribuição randômica,
não mais pela descendência, pela hierarquia com seu modelo
dicotômico ou de raiz que distribui o conhecimento do gênero
até as espécies, do menos diferenciado ao mais diferenciado,
como na árvore como imagem do mundo de Porfírio.
5º e 6º - Princípio de cartografia e de decalcomania
Precisamos ver o outro modelo (segunda figura) de árvore,
a raiz fasciculada ou pivotante, que segundo os Autores, a modernidade
se vale de bom grado. É uma falsa representação
de rizoma porque a multiplicidade se encontra presa numa estrutura,
de modo que a maior parte dos métodos modernos para fazer proliferar
séries ou para fazer crescer uma multiplicidade valem perfeitamente
numa direção: linear.
Guattari (1992) já havia observado que o significante estruturalista é sempre sinônimo de discursividade linear. O que é um livro senão manchas de significantes, representando um modelo de ciência raiz, hierárquica (método dicotômico) reproduzindo a linearidade da linguagem que por sua vez se reflete no pensamento científico? Já havíamos denunciado as classificações intermináveis que o sistema binário científico procede nas ciências e no estruturalismo. É o que os Autores chamam de "reprodução.
Tal método nada mais faz que não seja reproduzir o já
existente, mesmo que com variações e avanços científico
e teórico, é o velho pensamento "dipolo" o Uno-dois
persistindo na linguagem e claro, nas ciências, uma vez que não
se faz ciência sem linguagem, portanto representada em livro, pelo
menos na impressão. Nesse sentido, o significante nos faz acreditar
na homogeneidade ontológica dos referentes escriturais e científicos,
que reproduzimos na organização do conhecimento.
Seria possível que os Autores pudessem antever com tanta
similitude os hipertextos na web? Aqui até o nome "mapa"
é predito, como os mapas de navegação dos sites.
No ciberespaço, os hipertextos e sites se sucedem, não
por hierarquias ou decalques, mas por várias entradas, por mapas
que desenham ou representam a "multiplicidade", sendo a web-page
uma singularidade dessa multiplicidade, ou o n-1 de um site, e o site,
por sua vez, uma singularidade do ciberespaço. Não
seria esta a fórmula do rizoma?
As várias entradas não seriam os vários links
possíveis à conexão de uma página? É
sempre possível "entrar" ou "saltar" de uma página, não
somente pelo significante (por isso o significante linear e estruturalista
da escrita impressa é colocado em questão no ciberespaço)
mas por nós de semióticas gestuais, imagéticas e sonoras,
que "retomam sua liberdade na criança e se libertam do decalque,
quer dizer, da competência dominante da língua do mestre."(DELEUZE;
GUATTARI, 1995, v.1, p.25). Um traço provoca uma sinestesia,
um jogo de imagens (do pensamento) em que nada lembraria uma escrita, por
isso mesmo A HEGEMONIA DO SIGNIFICANTE DEVE SER RECOLOCADA EM QUESTÃO
NO RIZOMA.
Após apresentar os princípios do rizoma, e relacioná-los
com o hipertexto, como nova forma de representação do conhecimento,
iremos fazê-lo com relação aos mecanismos de busca
no ciberespaço, isto é, como forma de organização
virtual do conhecimento.
(1º) conexão: a possibilidade de conectá-lo em qualquer ponto do sistema, diferentemente da árvore ou raiz onde as conexões possíveis se dão hierarquicamente, por meio de um centro de significância. Como o conhecimento está configurado no ciberespaço em forma de rede, assim também os serviços de pesquisa comportam-se nos resultados retornados, e de pronto, ter acesso aos mesmos na íntegra. Escapa do fechamento físico das obras e do paradigma da materialidade e da noção de acervo ou armazenagem do conhecimento. Aqui as formas simbólicas encontram-se em fluxo, em estado contínuo e contíguo no mesmo espaço semântico/semiótico.
(2º) heterogeneidade: os traços conectados não se dizem respeito somente aos significantes (palavras), mas regimes de signos muito diferentes. O resultado de busca pode aparecer sob várias linguagens, imagens, textos, músicas, ilustrando a descentralização do verbalismo na organização do conhecimento no ciberespaço,como por exemplo o KaZaA que busca e compartilha multimídia, ou mesmo o Google que busca o conhecimento diretamente por imagens (ícones).
(3º) multiplicidade: não é um múltiplo que se deriva do Uno e nem ao qual o Uno se acrescentaria (n+1), mas o Uno é sempre subtraído dele (n-1). Como ele não possui estrutura, porque não advém do Uno-dois, ou seja, do pensamento dipolo e de suas relações binárias e dicotômicas, o múltiplo possui n dimensões, com suas linhas de fuga e de desterritorialização. A multiplicidade é, sobretudo em seu sentido filosófico, a produção do conhecimento (e da escrita) que favorece uma topologia das multiplicidades, em forma de “diagrama” e não uma raiz ou estrutura. Assim procede o sentido no léxico utilizado à recuperação da informação, que revela a multiplicidade de conteúdos na Internet e ao mesmo tempo a impossibilidade do fechamento semântico do conhecimento. No ciberespaço não há centro de significância estruturado, hierarquizado, linear, ou instrumentos de organização do conhecimento que reproduzem o modelo de significância, sentido único e referência fixa.
(4º) a-significante: assim sendo, não existe então um sistema centrado de significância, o rizoma é a-centrado, não hierárquico e não significante, por isso mesmo, onde não tem começo ou fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda, não precisando do “corte significante”: quando se utiliza CASA, CASAS, HOUSE... na recuperação da informação, não há um centro de significado, ou significância expresso em um só termo autorizado utilizado à busca. Todos os termos são possíveis. A ruptura a-significante não opera mais do menos diferenciado ao mais diferenciado, dos gêneros às espécies, do geral para o específico (lógica formal de organização do conhecimento), como nas classificações hierárquicas, mas por meio de linhas de fuga, pelo meio, aqui e ali, o léxico comporta-se assim.
(5º) cartografias: o rizoma não tem centro, hierarquia e corte significante, então, suas ligações ilustram um mapa, e como tal possui várias entradas onde seu sentido dar-se-á por meio de cartografias. “Mover”, essa é a função da desterritorialização, sair e entrar, sem começo ou fim, tudo parece ser pego pelo “meio”. Isso posto, os serviços de busca ou pesquisa devem ser considerados como ferramentas de cartografia a serviço do leitor ou usuário que fará, por si só, suas ligações de contexto, seu próprio mapa cognitivo.
(6º) decalcomania: contra também aos cortes significantes
que levam à redundância do significante, à reprodução,
à decalcomania. Assim, o livro (impresso) é um decalque,
“decalque dele mesmo, decalque do livro precedente do mesmo autor, decalque
de outros livros sejam quais forem, decalque interminável de conceitos
e palavras bem situados, reprodução do mundo presente, passado
ou por vir.” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, v.1, p.36). Já o rizoma
não é objeto de reprodução, nem externa como
a árvore-mundo, nem interna como a estrutura-árvore, porque
o mesmo não tem centro, hierarquia e corte significante. A multiplicidade
e as várias possibilidades de tratamento da informação
no ciberespaço ilustram que não há uma maneira correta
de organização do conhecimento que deva ser empregada e reproduzida
pelos outros sistemas para tentar atingir a “universalidade”.
5. Principais Resultados
O virtual torna possível a conjunção e...e... das obras e da busca conceitual dessas obras no ciberespaço, ao contrário do real, onde as coisas têm limites claros, classes e propriedades, sendo que o potencial de realidade é regido pela lei de exclusão mútua (ou realização exclusiva) ou...ou... Não há como se realizar de duas maneiras diferentes, isso porque apenas uma possibilidade é eleita à realização de uma forma.
No Quadro 04, o real não está sendo questionado como oposto de virtual (que tem este último seu pólo de oposição no atual) mas ressaltando o real como oposição do possível, que elege apenas uma forma de realização. Ao mesmo tempo ilustra o real tomado no pólo do atual (real-atual), em que a função da interpretação, do fechamento semântico imposto pelo significado e também pela condição de territorialização (fixação) dos signos (fechamento físico), serve de oposição à realidade virtual que opera a desterritorialização da obras no ciberespaço.
Poder-se-ia esquematizar os agenciamentos desenvolvidos em ambos ambientes,
a partir de nossas conclusões, da seguinte forma:
| PÓLO
TECNOLOGIAS |
REAL-ATUAL
Realização de uma forma |
REAL-VIRTUAL
Virtualização das formas |
| FORMA
IMPRESSA |
Fechamento semântico (significado)
Fechamento físico (volume) |
|
| FORMA
HIPERTEXTUAL |
Não fechamento semântico (sentido)
Não fechamento físico (ciberespaço) |
QUADRO 04: O REAL E O VIRTUAL NOS AGENCIAMENTOS DAS FORMAS SIMBÓLICAS
Assim, mediante ao estudo do virtual, do paradoxo do sentido e do rizoma
na organização do conhecimento no ciberespaço, a partir
dos mecanismos de busca (indexadores) pesquisados (Google, Yahoo! br e
KaZaA), apresentamos alguns dos principais resultados da pesquisa:
Do ponto de vista FILOSÓFICO torna possível a virtualização da formas simbólicas a conjunção e...e... contra a realização de uma forma:
B) O VIRTUAL COMO BASE FUNCIONAL OU OPERACIONAL:
Do ponto de vista FUNCIONAL opera os atributos do rizoma e o paradoxo do sentido desmontando a referência fixa do conhecimento:
* contra as imagens identitárias clássicas da cultura do impresso, o ciberespaço é uma maneira mais livre, mais aberta de organização do conhecimento.
C) A DESTERRITORIALIZAÇÃO DA BIBLIOTECA E A DESMATERIALIZAÇÃO
DAS FORMAS SIMBÓLICAS (ESTA ÚLTIMA, PROBLEMA DE TESE), AMBAS
POSSÍVEIS PELA VIRTUALIZAÇÃO, PÕEM EM QUESTÃO
A MUDANÇA DE COMPORTAMENTO, TANTO DE BIBLIOTECÁRIOS E DOCUMENTALISTAS,
QUANTO DE LEITORES E PESQUISADORES:
Do ponto de vista da ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO:
* não há a noção de armazenagem do conhecimento, dada a desterritorialização e desmaterialização das formas simbólicas no ciberespaço;
* não se pode mais estabelecer o corte radical, seja físico ou semântico, entre os signos e seus objetos, uma vez que os agenciamentos de enunciação funcionam diretamente nos agenciamentos de conteúdo no espaço virtual.
Do ponto de vista dos LEITORES:
6. Conclusão
Desse modo, o paradoxo do sentido desmontando os elementos da doxa, torna instável a referência fixa do conhecimento, que no modelo da escrita era obtida pela classificação/ indexação e catalogação. Noções de identidades fixas (senso comum) e de sentido único, seja direção, seja significado (bom senso), não são o fundamento filosófico das formas simbólicas no ciberespaço, bem como de organização do conhecimento operado nas mesmas, onde a classificação e a catalogação perdem sua auto-referência. Tais métodos e técnicas também refletem o paradigma da representação do conhecimento da escrita de outra maneira: o pensamento dicotômico forma (catalogação) x conteúdo (classificação), conforme o Quadro 03, sendo que no ciberespaço temos uma representação do conhecimento diagramado em rede, que escapa das mediações significantes e estruturalistas, como também a noção de “forma” dentro dessa dicotomia desaparece, uma vez que os registros estão lá desmaterializados.
Os princípios do rizoma demonstram que os mecanismos de busca, tal como a escritura hipertextual, possuem atributos que desmontam o modelo linear, arborescente, hierárquico e estruturalista da escritura impressa, quer seja do significante, da representação objetal, dos predicados de Aristóteles, imprimindo outro modelo e agenciamentos. A árvore como imagem do mundo, a realidade espiritual organizada ontologicamente por meio das estruturas arborescentes, as árvores de conhecimentos, como nas classificações, ou ainda dentro da própria estrutura da linguagem, como nos tesaurus, não encontram um terreno fértil e estável no ciberespaço, que é em essência, movediço, sendo que a função da desterritorialização (4º aspecto do agenciamento, da teoria de DELEUZE; GUATTARI, cf. nota 6) é o movimento, por isso mesmo, não há como estabelecer referências “fixas” do conhecimento.
Assim, descartamos a classificação e a catalogação como ferramentas de organização do conhecimento no ciberespaço. O modelo rizomático, com suas conexões e sua multiplicidade, impõe um outro paradigma, uma outra pragmática, que leva à instauração do sentido e a outro tipo de organização do conhecimento. Em especial, contra o significado, contra os fechamentos significantes, temos no modelo rizomático o princípio a-significante expresso pela indexação flexível dos mecanismos de busca, que na organização do conhecimento, nos diz que não há apenas um rubrica certo à organização do conhecimento. São várias as linhas de fuga, no ciberespaço, que tornam impossível as dicotomias que levam à divisão dos centros de significância, por isso mesmo, a-significante.
A indexação na Internet, como modelo possível de organização do conhecimento, sem o fechamento semântico das linguagens documentárias e atuando diretamente na linguagem natural, é uma tarefa gigantesca, posto que essa organização é “relativa” e nem sugerimos, em momento algum, que seja absoluta, trata-se apenas de entendê-la como tratamento da informação. Mas, por outro lado, temos sido privilegiados por novidades, serviços que se aperfeiçoam, flexibilizam-se, mediante as nossas necessidades de conhecimento e informacionais, mecanismos de busca poderosos e flexíveis, na especificação de argumentos de pesquisa e que permitem realizar pesquisas com um bom nível de controle.
A virtualidade vem para atualizar toda a pragmática anteriormente formulada na escrita, e mesmo que se repitam práticas e formas desenvolvidas para a escrita, a plasticidade do ciberespaço tende a complexificar tais modalidades, uma vez que é impossível impor a dinâmica do real, dos fechamentos e da referência fixa nesse ambiente movediço, desterritorializante em essência (porque é virtual).
Nesse contexto, o virtual como base filosófica e funcional, tem
papel fundamental para obter a compreensão da falta de fechamento
semântico do léxico na indexação no ciberespaço
(a questão do sentido x significado), bem como a falta de
fechamento físico ( a questão da não realização
de uma forma, “a obra acabada”), isto é, da desmaterialização,
da desterritorialização, ambas possíveis pela virtualização
das formas simbólicas no ciberespaço.
[1] Resumo e divulgação da tese intitulada “A Organização
Virtual do Conhecimento no Ciberespaço: os agenciamentos do sentido
e do significado”, em seus principais conceitos e resultados, defendida
no Programa de Pós-Graduação em Comunicação
e Semiótica, PUCSP.
[2] Pierre Lévy (1996) notadamente baseou-se na filosofia de
Deleuze (muitas vezes não citado) para escrever seu livro “O virtual”
bem como outros temas envolvendo a questão da linguagem.
[3] O conceito de ecologia cognitiva está ligado ao estudo das
dimensões técnicas e coletivas da cognição,
onde as tecnologias condicionam as formas de pensamento ou as temporalidades
de uma sociedade (LÉVY, 1993).
[4] No primeiro quadro, o termo “potencial” foi substituído
por “possibilidade”, para não gerar confusão com o potencial
do virtual.
[5] Embora a padronização exista nas mídias digitais,
visando a compatibilidade e conversão de dados e sistemas de informação,
não se trata de maneira alguma do fechamento normativo das formas
simbólicas, como no caso da normalização documentária.
[6] O conceito de desterritorialização pode ser entendido
como movimento, fluxo, aquilo que não se fixa em um território,
que não perde a sua virtualidade. Teoricamente, em Deleuze e Guattari
(Mil Platôs, 5 v.) é o quarto elemento do diagrama (contra
a estrutura) da linguagem, sendo o primeiro elemento a expressão,
o segundo o conteúdo e o terceiro o território.
[7] Questão da identidade perdida: “Quem é você?
Perguntou a Lagarta. “Alice respondeu, meio encabulada: “eu.. .nem sei,
Sir, neste exato momento ... pelo menos sei quem eu era quando me levantei
esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças
desde então.” [...] “Receio não poder me explicar, respondeu
Alice, porque não sou eu mesma, entende?” (Carroll, Alice:
Alice no país das maravilhas, 2002, p.45). Questão
das duas direções: Nessa história, Alice tem
a capacidade de crescer e diminuir sucessivamente com a ingestão
de um cogumelo, isto é, ir às duas direções,
e quando se diz “ao mesmo tempo” quer dizer que ela não tomava
apenas uma direção, como o fazemos nas interpretações
e na fixação do significado, mas as duas. Essa questão
é mais profunda em “Alice através do Espelho” onde
Carroll brinca com a imagem especular invertida de qualquer objeto assimétrico.
Quer dizer, num espelho todos os objetos assimétricos (que não
se sobrepõem em suas imagens especulares) ficam ao contrário.
Assim a proposição “ir às duas direções
ao mesmo tempo” ganha sua real potencialidade, onde Alice caminhava para
trás para chegar à frente, pois as direções
frente e trás são invertidas quando se caminha em direção
a um espelho, movendo a imagem oposta. (Carroll, Alice: Alice através
do espelho, 2002).
[8] Deleuze (1998) quer dizer que o significado pressupõe o
fechamento semântico, o cercado, a classe, próprios da interpretação
das disciplinas hermenêuticas. O significado é
operado por uma correspondência objetal e linear, isto é,
nome/objeto, significante/significado, sendo que o sentido escapa dessas
mediações redutíveis.
[9] A imagem da árvore, como representação da
estrutura organizativa do mundo real, embora sugerida no século
III por Porfírio, materializou-se no pensamento filosófico
talvez por inspiração religiosa, na retomada dos autores
clássicos, como Aristóteles, pelos medievais. Essa imagem
remonta na Bíblia, especialmente no livro de Gênesis que descreve
a criação do mundo, onde no Jardim do Éden o “Senhor
Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à
vista e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e
a árvore da ciência e do mal.” Mais adiante, Deus ordenou
que não se comesse da árvore do bem e do mal, e foi justamente
dessa árvore que Eva comeu, e como castigo (sem cometer nenhuma
heresia) fomos condenados a ter uma episteme dicotômica e fomos expulsos
do paraíso (Gn. 2, 9). A metáfora da árvore,
segundo Burke (2003, p. 82) era utilizada, na Idade Média, para
visualizar a organização do conhecimento. “Além de
árvores do conhecimento como a Arbor scientiae, de Raimundo Lúlio,
escrita por volta de 1300, mas reeditada diversas vezes no período,
havia árvores da lógica (a chamada ‘Árvore de Porfírio’),
árvores da consagüinidade, árvores da gramática,
árvores do amor, árvores das batalhas e até uma árvore
dos jesuítas (com Inácio na raiz).” Assim, a árvore
lógica de Porfírio (assim chamada porque baseada na lógica
clássica aristotétlica) e as árvores de conhecimento,
dividindo as disciplinas, constituem-se a base lógico-filosófica
da indexação e da classificação, respectivamente,
sobretudo na distribuição dos nomes (substâncias) do
gênero à espécie, método que consiste na compreensão
crescente e extensão decrescente, como também nas categorias,
que fornecem a orientação lógico-espaço-temporal
às palavras na ordenação dos termos na indexação
pré-coordenada.
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TOZZI, Tommaso. Rizomatica (od a radice). In: GRONCHI, Sandro.
Progettazione del percorso formativo. Disponível em: <http://digilander.libero.it/ricercavisiva/articoli/progettazione%20percorso%20FORMATIVO.htm>.
Acesso em: 06 set. 2002.
Sobre a autor / About the Author:
Silvana Drumond Monteiro
drumond@sercomtel.com.br
Professora Adjunto do Departamento de Ciência da Informação
da Universidade Estadual de Londrina
Mestre em Biblioteconomia pela PUCCAMP
Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUCSP.