Resumo: A biblioteca
virtual é estudada como um objeto científico-técnico
e informacional e seu papel para a pesquisa científica é
investigado mediante a escuta das falas de pesquisadores brasileiros, usuários
de bibliotecas virtuais. A ação empírica que deu origem
a este estudo, associada à investigação teórica
de cunho interdisciplinar, consistiu na aplicação de questionário
junto aos atores mencionados. Este instrumento permitiu conhecer o juízo
que fazem do uso dos recursos da Internet, com ênfase na biblioteca
virtual. Partiu-se do pressuposto que sua eficácia resulta da oferta
de recursos de informação conjugados a dispositivos de comunicação,
para maior integração entre pares. Os resultados comprovam
a importância que a comunidade de pesquisa no Brasil confere a esse
serviço especializado de informação.
Palavras-chave:
“Biblioteca
Virtual; Biblioteca Digital; Pesquisa científica no Brasil; Comunicação
científica; Internet.
Abstract: In
this study of the virtual library and the role it plays for the scientific
community as an informational and scientific-technical object, a theoretical
interdisciplinary investigation was joined with an empirical procedure.
Through an e-mail questionnaire, Brazilian researchers were asked their
opinions about their reliance on Internet resources, particularly the virtual
library, in their research. The results demonstrate the contribution of
this specialized information service, which provides information resources
along with communication links created with a determined public in mind,
in this case, most especially the research community in Brazil.
Keywords: Virtual
library; Digital library; Scientific research in Brazil; Scientific communication;
Internet.
Introdução
No dia 10 de março do ano 2000, numa sala virtual de conversação (Chat) do programa Prossiga/IBICT/MCT, foi realizado um "simpósio eletrônico" [1] que reuniu dez pesquisadores brasileiros e estrangeiros de diversas e importantes instituições da área de Neurociências, convidados a discutir os avanços, nas últimas décadas, em Neurobiologia da aprendizagem e memória.
No dia e hora previamente acordados, conectados em rede, diante de seus computadores, em lugares e fusos horários diferentes, os pesquisadores debateram e produziram conhecimento, usando, para isto, um mecanismo destinado à comunicação informal, que, diga-se de passagem, em geral é efêmera e posta à disposição de um público restrito (Meadows, 1999, p.7). O debate foi, porém, registrado, editado e, posteriormente, publicado na reputada revista Brazilian Journal of Medical and Biological Research, sob a forma de artigo científico [2].
Este evento, mostrando o uso de um dispositivo da Internet que permite a interação de pesquisadores em tempo real, ilustra uma novidade cada vez mais freqüente: a utilização, pela comunidade científica, de novos meios eletrônicos visando a promover a comunicação entre pares e, conseqüentemente, favorecendo a produção do conhecimento, a disponibilização e a disseminação dos registros desta produção.
A biblioteca virtual, examinada neste estudo como um "objeto científico-técnico e informacional" (Santos, 1997) [3], é um desses novos mecanismos a integrar a infra-estrutura de informação necessária ao desenvolvimento da pesquisa, pois esta, como sabemos, não pode prescindir de um aparato complexo para desenvolver-se.
O ambiente tecnológico que abriga e dissemina a informação, passa por rápidas e intensas transformações, conforme estes "tempos acelerados" [4] em que vivemos. Cabe lembrar que o novo milênio herda um enorme e veloz crescimento da comunidade científica e da informação por ela produzida, bem como uma grande expansão do emprego de métodos e meios eletrônicos ao longo de toda a cadeia de construção do saber científico, segundo Meadows (1999, p.30-32) [5]. Em seu livro "A Comunicação Científica", embora enfatize a experiência dos países centrais, não deixa de observar a situação dos países periféricos em relação a tais questões.
Como conseqüência da expansão acima mencionada, é crescente a adoção dos meios eletrônicos para a produção e disponibilização dos resultados da pesquisa científica, como indicam estudos que atestam que os acadêmicos usam, cada vez mais, os computadores em suas atividades. Esses estudos também constatam a importância e a adequação da World Wide Web para a apresentação de resultados científicos.
Na era atual, o excesso de informação leva a um "desconhecimento forçado", provocando uma "grande inquietação para o trabalho intelectual" (Chartier, 1998, p.125). A necessidade de acompanhar a literatura primária relevante e, mesmo, a sua localização com a ajuda da literatura secundária, há tempos é uma tarefa penosa para os pesquisadores, em função do extraordinário crescimento da informação (Meadows, 1999, p.33). Diante dessa proliferação, "mais uma vez uma resposta foi procurada pelo lado da eletrônica" (Chartier, 1998, p.127). Da mesma forma que intermediários humanos – editores, bibliotecários e outros – filtram e processam a informação no ambiente tradicional, oferecendo catálogos, índices e outros modos de acesso à informação organizada, também no meio eletrônico estão comprometidos com as mesmas práticas. Assim, muitas bibliotecas e outras instituições acadêmicas em todo o mundo procuram oferecer modos de orientar usuários no processo de descoberta de informação de alta qualidade na Internet, rápida e eficientemente. A questão da qualidade é muito pertinente, sobretudo em relação às necessidades da pesquisa científica, já que a Internet é um grande repositório onde prolifera a informação relevante misturada a outras destituídas de valor, igualmente abundantes. Desta forma, a necessidade de triagem se impõe, sendo preciso considerar também que os pesquisadores podem não dispor de tempo, inclinação ou habilidade para navegar na rede em busca de recursos que apóiem o seu trabalho ou, encontrando-os, disponham de meios necessárias para consultá-los. A este respeito, Meadows (1999, p.75) pondera que, para um número expressivo de pesquisadores, o acesso amplo ao computador é recente e que o processamento informatizado da informação ainda é hermético para muitos.
Diante das singularidades da rede, por um lado, e das necessidades de acesso à informação e de uso de dispositivos de comunicação eletrônicos pela comunidade científica, por outro, o desenvolvimento de bibliotecas virtuais é, então, uma das soluções buscadas. Muito embora sirvam a públicos diversos – do cidadão comum ao cientista - e se organizem em função deles; se apresentem como gerais ou especializadas [6]; sejam vinculadas a instituições de natureza a mais variada - bibliotecas, museus, arquivos, departamentos universitários, laboratórios etc - a biblioteca virtual focalizada nesta pesquisa volta-se para a comunidade acadêmica de uma determinada área do conhecimento, ou seja, é especializada e vincula-se a uma (ou mais de uma) instituição de cunho predominantemente acadêmico. Por conseguinte, presta-se para apoiar, muito especialmente, o ciclo de criação, busca e uso de informação por parte dos pesquisadores da área de conhecimento que cobre.
A pergunta que então formulamos é: em que medida as bibliotecas virtuais se constituem, hoje, num serviço de informação de grande potencial e especial interesse para apoiar a pesquisa científica e a sua comunicação? Em relação a países periféricos, como é o caso do Brasil, tal pergunta é ainda mais procedente, porque pretendeu-se analisar, especialmente, as possibilidades que esse serviço oferece para os pesquisadores brasileiros, trabalhando com as percepções e apreciações desses atores sociais sobre o ambiente e os novos meios eletrônicos de informação e comunicação, sobre o uso que deles fazem e a opinião relativa à contribuição efetiva que oferecem – com ênfase na biblioteca virtual - para as atividades acadêmicas.
O objetivo deste estudo é, portanto, revelar a configuração, o papel e (por que não?) a importância da biblioteca virtual para a pesquisa científica, especialmente no Brasil e de outros recursos eletrônicos de informação disponíveis na Internet. Pretende-se contribuir para dar visibilidade às impressões e, mesmo, ao julgamento feito por pesquisadores brasileiros das vantagens e dos problemas relativos ao uso desses recursos.
Para alcançarmos nosso intento, servimo-nos de uma investigação teórica de cunho interdisciplinar associada a uma ação empírica, quando utilizamos métodos quantitativos para ouvir os usuários de algumas bibliotecas virtuais desenvolvidas no Brasil pelo já mencionado Programa Prossiga [7].
Após apresentarmos a nossa definição de biblioteca
virtual, antecedida pelos pressupostos que a configuram e que norteiam
a sua criação, descrevemos o método empregado em nossa
pesquisa, discriminamos as bibliotecas virtuais tomadas para o estudo,
seu público respectivo, revelando sua fala e os resultados apurados
a partir dela, enfocando os novos dispositivos eletrônicos de informação
e de comunicação.
1. Pressupostos para o entendimento da biblioteca vitual para a pesquisa científica e sua definição
Dois são os pressupostos que balizam a nossa acepção sobre a biblioteca virtual: o primeiro entende que, por suas características, a Internet requer a criação de um lugar hospitaleiro de informação especializada, adaptado às particularidades do meio eletrônico, por um lado, e às novas exigências da pesquisa, por outro: a biblioteca virtual.
A Internet, na dimensão de grande repositório de informação, que inclui, indistintamente, informação de qualidade e irrelevante, demanda a filtragem da informação. Esta, nem sempre se encontra prontamente disponível, exigindo ferramentas e também habilidades especiais para pronto acesso e utilização. A Internet revoluciona o conceito de informação, devido às suas características de virtualidade e, portanto, de desterritorialização, pois a noção de território, lugar fixo, no que tange à localização da informação é ultrapassada; de rapidez, já que a temporalidade do relógio nela não é significativa; de ubiqüidade, simultaneidade e fluidez, pelas alterações decorrentes da sua condição de intangível, pelo acesso simultâneo à informação e pelas possibilidades de contatos e de resposta rápida ou imediata via e-mail, salas virtuais de chat etc (Lévy, 1996).
O segundo pressuposto aponta a importância da biblioteca virtual para comunidades de pesquisa em geral e, de maneira especial, para aquelas dispersas geográfica e institucionalmente [8]. Preconiza que, para atingir plenamente seus objetivos, deve ser construída pelos seguintes atores humanos: o especialista da área temática focalizada, o qual demanda e demarca a informação em termos da relevância do seu conteúdo para o campo de conhecimento enfocado, definindo, portanto, o escopo temático da biblioteca virtual;o profissional de informação, que organiza o espaço das funções cognitivas, determinando as atividades de coleta, organização e disseminação das informações bem como a formatação dos serviços a serem oferecidos; e os profissionais de informática e de rede, responsáveis pelo desenvolvimento de aplicativos para o armazenamento da informação, pela administração e pelo funcionamento do servidor web da biblioteca [9].
Tais atores devem trabalhar de forma integrada, sob a orientação de um gerente do projeto, que, preferencialmente, deve ter aptidão para transitar tanto no nível do especialista no assunto quanto no nível técnico.
Estes pressupostos foram confrontados com a literatura da Ciência da Informação e de outras ciências afins, uma vez que o exercício interdisciplinar é relevante e necessário para o entendimento dos fenômenos da informação.
Considerando diferentes visões acerca do nosso objeto (Meadows,
1997, Borgman, 2000, Saracevic,2001, Saracevic e Dalbello, 2001, Place,
2002, Day, 2002) propomos um conceito que represente um conjunto de idéias
sobre biblioteca virtual voltada para a pesquisa científica. Neste
sentido, formulamos a seguinte definição:
A biblioteca virtual distingue-se das ferramentas de busca da Internet pela consistência dos resultados que o usuário final recebe em sua busca por informação, embora o uso intensivo de ferramentas eletrônicas seja uma exigência para a localização, manutenção e monitoramento da informação que disponibiliza. Pelo fato de constituir-se na Internet, distingue-se, igualmente, das bibliotecas, dos centros de documentação e de outros lugares físicos que organizam, armazenam e disseminam informação, que, no entanto, já podemos chamar de "híbridos": não os substitui, embora deva complementá-los. Tem um alcance amplo e diferenciado, por também prover dispositivos de comunicação e diversos serviços, fortemente marcados pelas especificidades da tecnologia digital em rede eletrônica, que permitem que usuários de uma ou de várias comunidades interajam, mesmo que dispersos em diferentes lugares.
A biblioteca virtual passa a estar, assim, cada vez mais entranhada
nas atividades sociais dos pesquisadores, o que revela sua força
potencial para o incremento da pesquisa acadêmica.
Muitas são as pesquisas que vêm sendo realizadas sobre a comunidade científica e seus processos de comunicação mediante o uso da Internet, a maioria delas no exterior [10], embora também no Brasil o número os estudos sobre o tema comece a ser significativo [11].
Os resultados de nossa pesquisa, apresentados a seguir, permitem observar a eficácia da biblioteca virtual e dos recursos que abriga, a partir da avaliação que dela fazem os seus usuários. Nossa apreciação considerou a dimensão informacional da biblioteca virtual e que esta dimensão integra também os dispositivos que possibilitam a comunicação informal: e-mail, salas virtuais (chats) entre outros.
Tínhamos como premissa que a biblioteca virtual seria amplamente utilizada para a busca de informação científica, mas quisemos aferir o significado de sua importância para o seu público, usando, como instrumento de coleta, um questionário. O grupo estudado consistiu num conjunto de usuários que se cadastraram voluntariamente em cinco bibliotecas virtuais do Prossiga, passando, com isto, a integrar uma mala direta para recebimento de notícias e outros dispositivos de informação [12]. São elas: a "Biblioteca Virtual sobre Bibliotecas Virtuais", a "Biblioteca Virtual de Economia", a "Biblioteca Virtual de Estudos Culturais", a "Biblioteca Virtual de Saúde Reprodutiva" e a "Biblioteca Virtual de Engenharia de Petróleo". A razão da escolha deveu-se ao fato de estas bibliotecas oferecerem diversos serviços aos seus usuários, como boletins eletrônicos e promoção de conversas via Chat.
O perfil dos usuários destas bibliotecas foi delineado a partir de um estudo estatístico realizado pelo Prossiga. Trata-se de um contorno muito geral, pois foram considerados apenas aqueles que se dispuseram a preencher os dados completos do formulário constante da homepage das bibliotecas virtuais. Esses traços abrangentes dão conta de que os usuários são predominantemente pesquisadores, de vários níveis: em termos percentuais, 78% vinculam-se a instituições de ensino superior e de pesquisa; em relação à formação acadêmica, é preenchido todo o espectro (da graduação ao doutorado); em relação à origem geográfica, há um predomínio absoluto de brasileiros (97%) e, quanto às regiões do país onde se situam, há maior concentração na região sudeste (55,5%), seguida da região nordeste (18,7%), sul (16,7%), centro-oeste (5,9%) e norte (3,2%) [13].
Ao atingirmos os integrantes do segmento pesquisado, partimos das indagações sobre o uso da Internet para fins de busca de informação, para em seguida olharmos o uso que fazem dos recursos que esta abriga, com destaque para a biblioteca virtual. Junto a este público, desejávamos saber até onde o uso da biblioteca virtual seria também valorizado para fins de comunicação, já que, na nossa concepção, ela se completa como lugar privilegiado de informação, na medida em que ofereça mecanismos que propiciem a comunicação entre usuários, e que estes façam uso dos mesmos.
A atividade desenvolvida na Internet deve ser entendida como algo que se realiza em um ambiente extremamente dinâmico. Assim, cumpre salientar que a pesquisa sobre a qual foram executadas as operações aqui relatadas representa um corte temporal efetuado entre outubro e novembro de 2001. Por pretendermos realizar uma pesquisa qualitativa, de cunhoexploratório, e não censitária, só foram considerados os questionários recebidos dentro desse período, embora outras respostas tenham sido enviadas por muito tempo após o seu encerramento. Para melhor caracterizar o ambiente eletrônico em questão, os questionários foram expedidos e recebidos por e-mail, tendo isto sido feito a partir do próprio instrumental disponível no interior de cada biblioteca virtual.
O segmento estudado conformou um universo de 9.842 usuários, para os quais o questionário foi enviado. Dos questionários remetidos, 618 foram considerados perdidos, já que foram devolvidos ao remetente em função da mudança de endereço de e-mail dos destinatários. Daí, considerou-se que os demais 9.224 questionários atingiram os usuários, sendo que, destes últimos, 3.449 retornaram respondidos no prazo definido. Logo, a pesquisa foi realizada por meio de uma amostra correspondente a 35% do universo de usuários inscritos nas cinco bibliotecas virtuais citadas, ou 37% daqueles que foram efetivamente alcançados.
O conjunto de respostas obtidas foi considerado representativo de todas as bibliotecas virtuais do Prossiga, ou seja, também daquelas cujos usuários não foram ouvidos, tendo em vista a homogeneidade do que disseram os respondentes, como se poderá constatar, a partir da apresentação dos resultados da pesquisa.
Considerando a biblioteca virtual à qual o entrevistado está filiado, obtém-se a distribuição do quadro 1, abaixo:
Quadro 1 – Nº de questionários recebidos por Bibliotecas
Virtuais
| Biblioteca Virtual de Origem | Questionários Respondidos | |
| Quantidade | % | |
| Biblioteca Virtual sobre Bibliotecas Virtuais | 587 | 17 |
| Biblioteca Virtual de Economia | 1002 | 29 |
| Biblioteca Virtual de Estudos Culturais | 893 | 26 |
| Biblioteca Virtual de Saúde Reprodutiva | 312 | 9 |
| Biblioteca Virtual de Engenharia de Petróleo | 655 | 19 |
| TOTAL | ||
A metodologia empregada em nossa pesquisa foi julgada apropriada para
uma avaliação de caráter mais geral e não para
um estudo específico e detalhado sobre a eficácia atribuída
pelos pesquisadores ao uso dos recursos eletrônicos para o desenvolvimento
de suas atividades. Os resultados obtidos para as questões apresentadas
são arrolados a seguir e, após, adicionam-se falas selecionadas
em função de sua expressividade.
3. As questões apresentadas e a fala dos pesquisadores
Os pesquisadores ouvidos pronunciaram-se a respeito do seguinte conjunto de questões:
A) Intensidade do uso da rede em relação a locais de uso: Do total consultado, 30% usam a rede só em casa, 41% apenas no trabalho, enquanto 29% o fazem em ambos os locais. O número de questionários que não obtiveram resposta a esta pergunta foi insignificante (menos do que 1%).
B) Finalidades de uso da Internet para as atividades de pesquisa - comunicação ou busca de informação: esta questão mostra uma forte inclinação para o uso da Internet com finalidades simultâneas de comunicação entre os pares e busca de informação, ou seja, 80% usam a rede em ambas as situações, atestando o que mostram os resultados de estudos empíricos nessa área, ou seja, a convergência de uso de meios eletrônicos de comunicação (correio eletrônico, listas de discussão, salas virtuais etc.) e de informação (bibliotecas virtuais ou digitais, entre outros), constatando-se a diluição das fronteiras ente ambos.
C) Freqüência de utilização da Internet para atividades de pesquisa: a maioria expressiva dos pesquisadores consultados (60%) usa a Internet intensivamente, enquanto 38% o fazem com média freqüência e apenas 1% usa raramente; 1% dos entrevistados também é o número dos que não responderam. Note-se que a valorização foi deixada ao arbítrio de cada respondente.
D) Impacto da Internet sobre a produção científica: esta questão foi a única a incluir uma pergunta aberta, para podermos colher as impressões sobre os impactos do uso da Internet para as atividades relacionadas à produção científica dos usuários. Deixamos para o final do presente artigo a apresentação de uma seleção das falas mais expressivas. Olhando o agrupamento das bibliotecas virtuais consultadas, já se tem uma visão clara de como a chegada da Internet foi importante para o desenvolvimento das atividades do conjunto dos consultados. Destes, 85% tiveram suas práticas modificadas pelo acesso à rede, ao passo que apenas 14% mantiveram os seus procedimentos poucos sensibilizados pelo novo instrumento, sendo que 1% deixou de responder a questão. Entendemos que as modificações expressivas foram também positivas.
E) Primeiro recurso de busca de fontes de informação: Internet ou biblioteca física (ou tradicional): 70% dos consultados têm na Internet o seu primeiro recurso de busca de informações, contra pouco menos de trinta por cento (29%) que continuam iniciando as suas procuras nas bibliotecas físicas, de suas ou de outras instituições; 1% dos consultados não respondeu.
F) Conteúdos de informação encontrados: forma eletrônica ou digital; forma tradicional (papel): mostrando coerência com as respostas da questão anterior, a grande maioria dos entrevistados (64%) admitiu encontrar os conteúdos de informação, indistintamente, em meios eletrônicos ou tradicionais; 19% os encontram principalmente em papel, enquanto 16% os encontram sobretudo sob a forma eletrônica. Cerca de 1% dos consultados deixou de responder.
G) Relevância dos recursos de informação e de comunicação na Internet - 1) Bibliotecas virtuais; 2) Correio eletrônico; 3) Listas de discussão; 4) Salas virtuais ("chats"); 5) Newsgroups; 6) Fóruns/Message boards; 7) Outros: o questionário, como visto, deixou uma abertura para que o entrevistado apresentasse algum(uns) recurso(s) de informação ou de comunicação além das alternativas elencadas, que seria(m) abrigado(s) na categoria "Outros". Entretanto, nenhuma resposta foi registrada neste caso. O gráfico 1, a seguir, mostra, de maneira comparativa, como os usuários vêem o conjunto dos recursos. É interessante notar uma expressiva inversão no julgamento que os usuários fazem dos recursos dados para exame (e que comentamos nos itens respectivos de cada um deles). Enquanto a biblioteca virtual e o e-mail alcançam a maior porcentagem no que diz respeito à relevância, os demais (listas, chats, news e fóruns) são vistos como pouco relevantes ou irrelevantes pela maioria.
Gráfico 1 – Relevância do conjunto de recursos eletrônicos

Mostra-se, a seguir, como os usuários vêem cada um desses recursos:
1) Bibliotecas virtuais (não fizemos menção aos outros nomes atribuídos a estas bibliotecas na rede, por entendermos que, para esse público de usuários, o nome empregado seria mais representativo do que queríamos aferir, em função da familiaridade com o mesmo). A maioria (69%) dos usuários das cinco bibliotecas virtuais consultadas concorda que estas são um instrumento "Muito relevante" para a sua atividade; 23% consideram-nas "Relevantes", enquanto os que as acham "Pouco relevantes" (5%), ou "Irrelevantes" (1%), somam apenas 6%. Ao lado disso, deixaram de opinar 2% dos entrevistados, número que pode ser considerado baixo, se comparado com as abstenções verificadas quando a pergunta se refere aos demais instrumentos de informação e comunicação, com se poderá constatar mais adiante.
2) Correio Eletrônico: analisando o conjunto das respostas, chama a atenção o fato de que este recurso contou com uma aceitação ligeiramente menor que a da biblioteca virtual. A surpresa se deve ao fato deste ser um recurso mais antigo e profundamente disseminado entre usuários da Internet que, além de possibilitar a comunicação em geral, de forma ágil, é também um meio eficaz para obtenção de informação. O correio eletrônico é visto como um recurso de comunicação e informação muito relevante por mais da metade (53%) dos consultados. Juntando-se a estes os 31% de usuários que vêem no correio eletrônico um recurso relevante, completam-se 84% de avaliações positivas. As avaliações negativas somam 10%, desmembrando-se entre os 8% que julgam este recurso pouco relevante e os 2% que o acham irrelevante para as suas atividades de pesquisa; 6% dos entrevistados não externaram qualquer opinião.
3) Listas de discussão: assim como os demais recursos de comunicação e de informação que serão analisados a seguir, as listas de discussão mostram um perfil de aceitação com um recorte diferente dos exibidos nos recursos anteriores. Duas são as características que serão vistas neste, e nos próximos instrumentos: a perda da primazia das avaliações "Relevante" e "Muito Relevante" e um significativo desconhecimento dos recursos, que pode ser depreendido do crescimento da ausência de respostas por parte dos usuários consultados [14].
As listas de discussão são consideradas "Relevantes" por 29%, e "Muito Relevantes" por 13% dos entrevistados, totalizando 42% de respostas positivas. Por outro lado, as avaliações negativas correspondem a 46% das respostas, já que 30% dos entrevistados consideram-nas "Pouco Relevantes" e, 15%, "Irrelevantes". Enquanto isso, 13% dos consultados não tiveram respostas a dar.
4) Salas virtuais (chats): se comparados os valores atribuídos a todos os recursos, foi nas respostas sobre a importância dos chats que surgiu o menor índice de avaliações positivas (14%, divididos entre 2% de "Muito Relevante" e 12% de "Relevante"), concomitante com o maior índice de avaliações negativas: 73% (30% de Pouco "Relevante" e 43% de "Irrelevante"). Também não foi inexpressivo o percentual de questionários sem respostas: 13%.
5) Newsgroups: seguindo a tendência que já se vinha verificando, as avaliações negativas suplantam largamente as positivas. Na totalidade das respostas, as positivas somam 25% (4% de "Muito Relevante" e 21% de "Relevante"), enquanto as negativas alcançam 55% (32% de "Pouco Relevante" e 23% de "Irrelevante"). Entre todos os usuários, o percentual dos que se abstiveram de opinar atingiu o valor mais alto, se considerado o conjunto dos recursos de informação e de comunicação estudados: 20% questionários sem resposta.
6) Fóruns/ Message Boards: estes são recursos de informação e de comunicação que praticamente dividem as preferências entre os usuários consultados quanto à sua importância para as atividades que exercem. Mostrando uma pequena inclinação para as avaliações negativas, com 45% das respostas (27% dos entrevistados julgam o recurso "Pouco Relevante" e 18%, "Irrelevante"), contra 41% de avaliações positivas (7% de "Muito Relevante" e 34% de "Relevante"). Também aqui é elevado o percentual de consultas que ficaram sem resposta:14%.
As falas selecionadas são apresentadas a seguir, agrupadas pelos
aspectos que ressaltam:
Os indicadores positivos foram, portanto: velocidade/agilidade no
acesso a informações e pessoas, sendo sua face negativa a
aceleração por vezes imposta ao ritmo do trabalho condicionado
pelo uso da Internet; ampliação da comunicação;
superação da distância (dentro do Brasil e em relação
a outros países) facilitando, inclusive, o compartilhamento do trabalho;
barateamento de custos; substituição do uso de outros meios
(telefone e fax); desburocratização; acesso mais democrático
à informação, diante da possibilidade de superação
de entraves burocráticos. Um fator negativo ressaltado, refere-se
ao grande volume de informação decorrente do uso da Internet,
aumentando, por conseguinte, a quantidade das tarefas a serem cumpridas.
Esta profusão também pode provocar dificuldades para a atualização
do pesquisador. Vale ressaltar, igualmente, que críticas foram feitas
à lentidão da rede (problemas de conexão).
Como já havíamos dito, nossa intenção foi
usar os instrumentos de medição para colher impressões
e não propriamente para traçar um quadro preciso sobre o
uso, por parte da comunidade de pesquisa da Internet, dos dispositivos
que ela abriga. A oposição qualitativo/quantitativo, vale
lembrar, "não corresponde a modos opostos e inconciliáveis
de ver a realidade" (Cardoso, 1986, p. 103). Os pesquisadores foram ouvidos,
pois pretendíamos que suas falas fornecessem indicações
preciosas (e assim elas o fizeram) para entendermos o alcance, para eles,
desse conjunto de meios para apoiar as suas atividades. Ao ouvi-los, considerando
aquilo que a Antropologia nos ensina – de que "o outro é alguém
que fala com sentido" (Pessanha, 1997, p.47-48) - pensamos ter cumprido
a tarefa proposta, aceitando o desafio de atribuir um sentido às
falas colhidas.
4. Considerações finais
Este artigo inicia-se com o relato de um evento que, por seus efeitos, igualmente mencionados, demonstra o potencial dos novos meios eletrônicos para o incremento da pesquisa científica.
Ao examinarmos a importância da biblioteca virtual para a produção e disseminação do conhecimento, partimos do princípio de que o ambiente em que os pesquisadores trabalham, bem como as suas atividades, vêm-se alterando com o emprego crescente das novas tecnologias digitais de informação e quisemos verificar a contribuição deste novo serviço para o público acadêmico, ouvindo as suas opiniões.
Tanto quanto as vantagens percebidas, os problemas não só foram apontados pela literatura que subsidiou este estudo, como foram revelados pela pesquisa empírica realizada. Buscou-se colher a visão dos pesquisadores sobre o alcance da Internet e, nela, da biblioteca virtual, que associa informação a mecanismos de comunicação para atendimento das variadas necessidades do trabalho acadêmico. Vimos que alguns destes mecanismos são de pleno uso, enquanto outros são desconhecidos ou pouco valorizados pelos acadêmicos. A nossa convicção de que a biblioteca virtual se completa como lugar de informação a partir de plena (ou maior) utilização dos meios de comunicação, leva-nos a reconhecer que estes ainda carecem de visibilidade e, portanto, tal potencial ainda não alcança a utilização devida. Embora a maioria considere a biblioteca virtual e o correio eletrônico dispositivos extremamente importantes (tendo em vista, inclusive, o entendimento de que a Internet trouxe mudanças significativas para suas atividades acadêmicas), o mesmo não acontece em relação a diversos outros dispositivos de comunicação: chat, news groups, listas de discussão, fóruns, message boards. Neste sentido, pareceu-nos oportuno dar relevo ao simpósio eletrônico realizado numa sala virtual de conversação e que, como vimos, foi considerado pela comunidade diretamente atingida - por suas repercussões e pelo produto que dele resultou e que tomou a forma de artigo científico – como uma atividade extremamente relevante.
Acreditamos que a divulgação das possibilidades oferecidas por esses novos meios, bem como a busca pela solução dos problemas apontados, fazem vislumbrar uma oportunidade rara para a renovação do trabalho dos profissionais de informação, tanto dos envolvidos com as bibliotecas físicas (que já se tornam híbridas) quanto com as bibliotecas virtuais.
Pelo fato de estruturar-se em hipertexto, a biblioteca virtual favorece, muito especialmente, os que a consultam: o pesquisador nela encontra um ponto de partida para navegação entre ilhas de significado, que ele enlaçará, conforme seu desejo, entendimento e alguma habilidade em manejar as ferramentas necessárias para tal. Como espaço de comunicação, vale-se (ou pode valer-se) das especificidades da Internet para propiciar o contato entre pessoas e agilizar extraordinariamente a troca e mesmo a produção de novas informações, num ambiente que possa ser reconhecido como hospitaleiro pelo seu público.
Entendemos que a biblioteca virtual se caracteriza como um instrumento imprescindível para integrar a infra-estrutura básica da ciência: apóia o desenvolvimento científico, na medida em que responde às emergentes mudanças que se processam em torno da informação e em função da evolução dos mecanismos de comunicação que pode e deve abrigar, os quais superam as dificuldades relacionadas às contingências impostas pelo tempo e pela distância .
Em relação aos atores que têm um papel destacado no desenvolvimento da biblioteca virtual, lembramos que estes desempenham funções diferenciadas, que demandam, necessariamente, um alto grau de interação (sobretudo considerando a mutabilidade e a cultura da própria rede) para a construção da biblioteca virtual, para que esta resulte num serviço dinâmico, cujos produtos sejam confiáveis e cujos efeitos sejam duradouros para a produção de novos conhecimentos científicos.
Podemos, por fim, acrescentar que é, sobretudo para realidades de países periféricos como a brasileira, sujeita a trocas desiguais, que a discussão sobre os novos territórios para a pesquisa científica, criados e mediados pela tecnologia digital da informação, se impõe.
[1] A iniciativa partiu do pesquisador brasileiro Cláudio da
Cunha, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Paraná,
que não só encarregou-se de solicitar a sala de chat ao Prossiga,
como de organizar o debate, convidando, em nome da SBNeC, os demais participantes.
Igualmente, responsabilizou-se pela moderação do mesmo e
pela sua edição posterior. Sobre a iniciativa, atendendo
a pedido nosso, fez os seguintes comentários enviados por e-mail:
"O apoio do CNPq foi muito importante para o sucesso desta experiência
e nós da SBNeC temos muito o que agradecer /.../ o último
[simpósio] foi submetido recentemente para publicação,
o que, esperamos, ocorrerá em breve. Tivemos um retorno muito bom
dos artigos publicados e foi grande o número de pedidos de separatas.
Após a publicação do primeiro chat, fizemos uma avaliação
da repercussão do mesmo enviando um questionário para todos
os pesquisadores que publicaram trabalhos sobre o tema nos últimos
dois anos. /.../ A maioria dos que responderam fizeram uma avaliação
positiva (o que foi crucial para que os editores do Braz. J. Med. Biol.
Res. continuassem publicando os textos das discussões seguintes).
Houve também algumas críticas, a maioria construtivas. Esta
foi também uma experiência que deu muito trabalho" (Cunha,
e-mail enviado em junho de 2002).
[2] Baddeley,
A., Bueno,
O, Cahill,
L. et al. (2000).
[3] Conforme este autor, o objeto é "científico, graças
à natureza de sua concepção, é técnico
por sua estrutura interna, é científico-técnico porque
sua produção e funcionamento não separam técnica
e ciência. E é, também, informacional porque, de um
lado, é chamado a produzir um trabalho preciso – que é uma
informação – e, de outro lado, funciona a partir de informações"
(Santos, 1997).
[4] Esta expressão é usada por Nicolau Sevcenko, que
vê a passagem do século XX para o XXI como um momento "assinalado
por um novo surto dramático de transformações, a Revolução
da Microeletrônica", responsável pelo clímax da aceleração
das inovações tecnológicas, cuja "escala é
multiplicativa" (Sevcenko, 2001, p.16) e pelo pensador Milton Santos, que
declara: "Nestes tempos acelerados, o tropel dos eventos desmente verdades
estabelecidas e desmancha o saber". (Santos, 1997, p.15). Claire Guinchat
e Michel Menou, referindo-se ao ‘‘espetacular’’ crescimento da taxa da
produção da documentação no mundo, lembram-nos
que um fator a caracteriza, a sua aceleração, e que nos anos
recentes, esta tem crescido mais rapidamente, ao contrário da previsão
de sua saturação e desaceleração (Guinchat,
Menou, 1991, p. 22).
[5] Trata-se da edição brasileira do livro, atualizada,
uma vez que a primeira edição data de 1974.
[6] A noção de serviço especializado de informação
considera as concepções e respectivas definições
de Bibliotecas, Centros Referenciais, Centros de Informação
ou Centros de Documentação, formuladas por Pauline Atherton
(1977). As características destacadas por esta autora para cada
um destes serviços levam-nos a acreditar que a biblioteca virtual
expressa uma combinação delas.
[7] Os fundamentos teóricos e instrumentais para a análise
empreendida foram buscados não apenas na Ciência da Informação,
mas também na Ciência da Computação, na História
da Ciência, na Sociologia da Ciência e na Geografia, pois pretendeu-se
favorecer os vínculos entre a primeira e as demais ciências.
Tal perspectiva permitiu focalizar a biblioteca virtual para além
dos objetos técnicos envolvidos – o computador, o programa, os protocolos,
as interfaces, etc – na medida em que se procurou compreender o ambiente
cognitivo e a rede de relações sociais que estes objetos
– importantíssimos na constituição da biblioteca virtual
– favorecem. Tais procedimentos foram realizados no âmbito de nossa
tese de doutorado, intitulada "Bibliotecas Virtuais: informação
e comunicação para a pesquisa científica" (Gomes,
2002), cujos resultados são reproduzidos neste artigo.
[8] Sobre a relevância dos recursos eletrônicos para comunidades
dispersas e a complexidade inerente aos mesmos, ver Philippe Hert (1997).
[9] Sobre a composição da equipe e as funções
exercidas por seus membros no desenvolvimento de bibliotecas virtuais,
ver Martin Belcher (2002).
[10] Ver, por exemplo, o artigo de Yin Zhang (2001, p.628-654), focalizando
o uso, pela comunidade científica, de recursos eletrônicos
baseados na Internet.
[11] Ver artigo de Lena Vania R. Pinheiro (2000).
[12] Para cadastrar-se, o usuário deve preencher um formulário
que permite melhor conhecê-lo, cujos únicos campos de preenchimento
obrigatório, porém, são os relativos ao seu nome e
seu endereço de e-mail.
[13] O detalhamento desses dados encontra-se em <http://prossiga.br/estatisticas>
acesso em maio de 2003.
[14] Como o envio das respostas é uma tarefa voluntária
e, até certo ponto, trabalhosa, consideramos que a eventual ausência
de uma ou outra resposta retrata uma dificuldade do entrevistado para formulá-la
(desconhecimento ou pouca familiaridade com o recurso), mais do que mero
desinteresse em responder a questão. Acreditamos, entretanto, que
esta lacuna sugere a necessidade de uma análise mais aprofundada
sobre o seu significado.
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Sobre a autora / About the Author:
Sandra Lúcia Rebel Gomes
sandrarebelgomes@yahoo.com.br
Doutora em Ciência da Informação – IBICT/UFRJ
Professora do Departamento de Ciência da Informação
da UFF e do Programa de Pós-graduação em Ciência
da Informação – PPGCI - UFF/IBICT