DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.6  n.6   dez/05                            ARTIGO 02

Notas sobre a dinâmica da sociocomunicação no ciberespaço[1]
Remarks on cyberspace social communication dynamics
por Walter Clayton de Oliveira, Silvana Ap. B. G. Vidotti e Fátima Ap. Cabral




Resumo: O Ciberespaço é uma teia colossal, um dispositivo de comunicação que associa características múltiplas e opostas. Neste sentido, analisamos, teórica e descritivamente, a dinâmica da sociocomunicação no Ciberespaço e discutimos em que medida ele pode ser aplicado diante das inter-relações que emergem entre os indivíduos pertencentes às comunidades virtuais. Consideramos que, o Ciberespaço, assim definido, configura-se como um locus de extrema complexidade e difícil compreensão. Assiste-se, assim, a uma aceleração do metabolismo social.
Palavras-chave: Ciberespaço, Sociocomunicação; Informação; Auto-Organização; Ciência da Informação.

Abstract: The Cyberspace is a colossal tissue, a communication device that associates multiple and opposing characteristics.  In this direction, we analyze, theoretician and descriptive, the dynamics of the social communication in the Cyberspace and argue where measured it can be applied ahead of the interrelations that emerge between the pertaining individuals to the virtual communities.  We consider that, the Cyberspace, thus defined, is configured as one locus of extreme complexity and difficult understanding.  It is attended, thus, to an acceleration of the social metabolism.
Keywords: Cyberspace; Social Communication; Information; Self-Organization, Information Science.
 
 
 

Introito

A introdução de novas tecnologias com base na digitalização, a comunicação em rede e o Ciberespaço trazem modificações no espaço da mídia, caracterizado pela utilização de suportes tradicionais representacionais e pela produção e transmissão de mensagens na forma linear, i.e., de um emissor para um receptor, num processo de retroalimentação. As novas tecnologias apresentam um quadro de transformações que explodem os modelos clássicos de comunicação, assim como os valores atribuídos a eles. O novo modelo comunicacional privilegia a rede, nomeadamente o Ciberespaço, a interatividade e a virtualidade como motores de um novo espaço público e de uma nova inteligência. Desde a utilização doméstica até a empresarial, os sistemas informáticos acompanham-nos em cada faceta da nossa vida fornecendo informações ou ampliando as nossas capacidades de cálculo, memória, comunicação, etc.

Essa simbiose de homem e sistema de informação através de periféricos denominados interfaces ampliam as capacidades humanas a ponto de determinadas tarefas poderem ser integralmente entregues aos sistemas informáticos. Assistimos, pois, a uma diluição da fronteira homem-máquina. "Em outras palavras, o lado tecnológico da equação homem-tecnologia está em contínua expansão" (SARACEVIC, 1996, p.56). Sobretudo nas últimas décadas do século XX e início deste século, as relações do homem com seu ambiente vêm sendo realizadas, em grande parte, no Ciberespaço, na arquitetura de computadores e redes.

Ciberespaço é um termo cunhado por William Gibson em 1984, e designa uma estrutura infoeletrônica transnacional de comunicação de dupla via em tempo real, multimídia ou não, que permite a realização de trocas (personalizadas) com alteridades virtuais (humanos ou agentes inteligentes); ou, em uma só expressão conceitual, uma estrutura virtual transnacional de comunicação interativa. Criando uma imagem – da imbricação entre comunicação e filosofia, pode-se ver o rio de Heráclito, o fluxo do devir. Em uma margem, a comunicação em redes digitais, a cultura pós-moderna, a vertigem evolucionista da relação com a técnica, a globalização e as injustiças sociais da chamada sociedade de consumo, do espetáculo ou da informação. Do outro lado do rio, a filosofia, com suas escolas, sistemas e doutrinas: um permanente estado de debate virtual das questões do ser, do homem e do mundo. Como argumenta Mizrach (2002):
 

[…] today humans are busy erecting a new kind of landscape which is totally artificial: what many, following science fiction writer William Gibson, have called cyberspace. Though it can be used to simulate and model 'nature,' it also can exhibit properties never found in this or any other world. This new kind of space that people are coming to inhabit is curious in many ways. For one thing, it is a "no-space" because it is nowhere: a "consensual hallucination" in which people interact with widely distributed data through textual and visual representations. The laws of physics do not apply in cyberspace, and thus neither do standard limitations on human modes of locomotion, self-representation, or capabilities. Cyberspace is a cultural landscape where rivers can flow uphill and forests can be made of crystal trees - or things infinitely far more bizarre.


O Ciberespaço representa um meio de comunicação técnico universal, de fácil acessibilidade, usabilidade, baixo custo e disponibilidade global. A rede já transpôs suas primeiras fases de experimentação e se tornou peça fundamental para sociedade pós-moderna, podendo ser caracterizada como mass-media. Segundo Vidotti (2001, p.44):
 

Podemos pensar na Internet como uma grande biblioteca, ou como um ambiente hipermídia coletivo, no qual os usuários são agentes ativos do processo de armazenamento, indexação, recuperação e disseminação de documentos eletrônicos hipertextuais, um ambiente auto-organizado em permanente mutação.


O Ciberespaço funda uma ecologia comunicacional: todos dividem um colossal hipertexto, formado por interconexões generalizadas, que se auto-organiza e se retroalimenta continuamente. Trata-se de um conjunto vivo de significações, no qual tudo está em contato com tudo: os hiperdocumentos entre si, os indivíduos entre si e os hiperdocumentos com os indivíduos. A partir da hipertextualidade, a Internet põe a memória de tudo dentro da memória de todos. Nesse quadro de deslocamentos e rupturas, o fenômeno Ciberespaço precipita mudanças em sua matriz empreendedora, a comunicação. O objetivo fulcral deste trabalho foi analisar a seguinte problemática: como ocorre a dinâmica sociocomunicacional no Ciberespaço?

Tratamos, aqui, o Ciberespaço pela teoria dos sistemas sociais, teoria da informação e comunicação, teoria geral dos sistemas, teoria de auto-organização e teoria sistêmica, uma vez que:
 

* O Ciberespaço baseia-se em tecnologias, mas sua difusão e importância social se baseiam em comunicação;
A sociedade é um fenômeno de comunicação;
* O Ciberespaço, enquanto meio técnico acelera e aumenta o processo sociocomunicacional e o condensa: uma grande parte das comunicações via Internet conecta-se com comunicações que já faziam parte da rede, e criam novos rizomas;
* O aprofundamento da condensação leva à forma de sistemas sociais, auto-organizados, que concatenam comunicações.


Empregamos, neste opúsculo, proposições medulares da Ciência da Informação e a abordagem dos sistemas sociais como parte integrante da teoria geral dos sistemas, baseando-se numa concepção particular de comunicação enquanto processo fundamental que constitui sistemas sociais e forma, em última instância, os fundamentos para uma sociedade da informação[2]. Logo, nos concentramos num dos aspectos mais profícuos que está fornecendo uma nova dinâmica à comunicação e à sociabilidade contemporânea: a sociocomunicação, utilizando para tal empresa, uma profícua e extensiva incursão na literatura além de uma observação teórica das peculiaridades do Ciberespaço.

Certamente não foi por acaso que a rede desenvolveu-se de maneira exponencial e as necessidades de se comunicar aumentaram vertiginosamente nos últimos anos. Consideramos aqui o Ciberespaço holisticamente e a sociocomunicação em especial como meio de difusão, catalisação e propagação do conhecimento. A dinâmica da comunicação humana concretiza-se por meio de ações expressivas que funcionam como sinais, signos e símbolos, que comunicamos uns com os outros de modos e por canais muito diferentes e muito complexos. Talvez não passe, no entanto, de um equívoco unanimizante e homogeneizador, tanto sobre a natureza do conhecimento, como sobre a natureza da comunicação, a idéia de um conhecimento universal, comunicado universalmente através das novas tecnologias informativas. Mas é o que acontece quando a razão comunicativa se esgota na lógica da razão informativa: o imperativo tecnológico da teoria da informação dispensa o imperativo ético da racionalidade comunicativa, dispensa a razão do "outro", que preside a participação e a comunicação do conhecimento que é preciso dar à comunidade. E há mais, já que atualmente a mixórdia da transmissão do conhecimento para aqueles que dele necessitam é uma responsabilidade social, essa responsabilidade social pode ser vista como o real background do profissional da informação e da Ciência da Informação.

A sociedade pós-moderna com suas características, entre elas a mundialização do capital e as novas tecnologias (Ciberespaço), têm propiciado novas oportunidades para o profissional da informação pois apesar das mudanças, dos desafios, das possibilidades profissionais, e das grandes transformações tecnológicas e espaciais, a essência das ciências que sustentam a profissão do bibliotecário, a Biblioteconomia e a Ciência da Informação e o seu objeto de trabalho – o ciclo informacional, não foram mudados. Embora a teoria seja a mesma, a prática do bibliotecário, especialmente aquela que se baseia em todas as facilidades oferecidas pelas novas tecnologias e a mundialização do capital, bem como no método científico da invenção, lhe abre muitos caminhos, muitas outras possibilidades de prestar serviços informacionais e sugere uma nova forma de administrá-los. Entrementes, a Ciência da Informação se preocupa com os princípios e práticas da produção (geração), organização e distribuição da informação. Assim como, com o estudo dos fluxos da informação desde sua criação até a sua utilização, e a sua transmissão ao receptor em uma variedade de formas, através de uma variedade de canais. Esta transmutação de idéias, métodos, do pensar em si tem que respeitar as características existentes e manifestas da área de Ciência da Informação, do objeto informação em si, com toda as suas condições, características e singularidades. Conforme Capurro (2003):
 

Informação não é algo que comunicam duas cápsulas cognitivas com base em um sistema tecnológico, visto que todo sistema de informação está destinado a sustentar a produção, coleta, organização, interpretação, armazenamento, recuperação, disseminação, transformação e uso de conhecimentos e deveria ser concebido no marco de um grupo social concreto e para áreas determinadas. Só tem sentido falar de um conhecimento como informativo em relação a um pressuposto conhecido e compartilhado com outros, com respeito ao qual a informação pode ter o caráter de ser nova e relevante para um grupo ou para um indivíduo.


Assim, toda uma argumentação deve ser construída para mostrar as qualidades e a viabilidade desta transferência de teorias, conceitos e metodologias, que precisa estar clara e convincente; deve estar detalhadamente explicito e explicado como este pensar ou a metodologia se insere no mundo da Ciência da Informação. Esta é uma área de estudo muito especial, pois tem forte dimensão prática e operacional, que está muitas vezes, conceitualmente, dependente de uma tecnologia intensa, com elevado teor de inovação e em contínua mutação.

Nesse sentido, inserindo um dos objetos de estudo da Ciência da Informação - fluxo e transferência de informação - no contexto do Ciberespaço e da sociocomunicação como algo capaz de mudar estruturas, este trabalho justifica-se para observamos os fluxos de informação, compreendermos a comunicação e as construções sociais e simbólicas das comunidades virtuais. Além disso, ao estudarmos a informação/comunicação através da sociocomunicação, consideramos as relações de poder que advêm de uma organização não-hierárquica e espontânea e procuramos entender até que ponto a dinâmica da comunicação, do conhecimento e da informação interferem nesse processo. Em outras palavras, os efeitos produzidos no mundo do trabalho, os diferentes mecanismos criados para a persuasão das massas, as distintas formas assumidas pelo poder para confrontar interesses, desejos e frustrações suscitados no imaginário pela ilusão do consumo e as novas realidades de sentido produzidas no e pelo Ciberespaço, são alguns aspectos que fazem da pós-modernidade, da civilização atual, um paradigma que é – tomando aqui uma máxima de Nietzsche (1968)- "a negação do homem pelo próprio homem".

Hoje, toda a compreensão das mudanças socioculturais é impossível sem o conhecimento do modo de atuar dos meios comunicacionais como meio. O mundo instantâneo dos meios infoeletrônicos envolve-nos a todos. Não é possível desprender-se da moldura info-tecno-comunicacional. Nesse sentido, tentamos depreender um novo meio de comunicação atrelado às novas tecnologias de informação – no referido trabalho, a sociocomunicação, além de verificarmos a aplicabilidade de alguns conceitos e teorias emergentes em Ciência da Informação.

E, diante dessa nova relação entre homem e máquina as necessidades humanas precisam atravessar a linha que as transformará em bits. Não queremos, de modo algum, inscrever a nossa voz no coro que se levanta em alarido crescente contra a dissolução dos fundamentos do mundo moderno, diabolizando a técnica e dando mecha às cruzadas anti-tecnológicas, tecnófobas, avessas a computadores, entendemos, no entanto, que a racionalidade tecnológica é um projeto da pós-modernidade, que racionaliza o espaço e o tempo, e nos normaliza. Por um lado, anula e compensa ruídos, ajustando o homem à máquina, de maneira a evitar perdas de mensagem. Por outro, globaliza o tempo, impondo-nos a ilusão de uma vizinhança global: banaliza todas as misérias deste mundo, ofusca-nos com o brilho de sonhos que nos vampirizam a alma e produz o conformismo. Pois, a sociedade é também um fenômeno de comunicação.

Neste trabalho, enfocamos o Ciberespaço enquanto aparato técnico que otimiza e condensa uma grande parcela das comunicações. Neste sentido, pretendemos romper a membrana que separa o universo paralelo virtual – Ciberespaço – do universo concreto que habitamos. Ou seja, tentamos desmistificar a Internet e suas propriedades como um complicado oceano de dispositivos inteligentes, em que a distinção entre hardware e software era difusa e poucos indivíduos sabiam navegar. E, contemporaneamente, não há limites que possamos erguer contra a capacidade de fazer: o imperativo tecnológico legitima-se pela potência. E não é excessivo dizermos, neste contexto, que a racionalidade informativa tecnológica alimenta um desígnio de homogeneização universal, impondo ao planeta uma razão macrocéfala e total.
 

A dinâmica da sociocomunicação no ciberespaço

O Ciberespaço constitui uma vida comunitária regulada por interações, e não por leis, decretos ou portarias. Os seres orgânicos das comunidades virtuais, desvencilhados da coincidência histórica entre espaço e tempo, fazem valer o salvo-conduto para estar em toda parte sem sair do lugar. Longe de dispensar os indivíduos de deveres éticos, o Ciberespaço propõe uma coexistência auto-organizada, em constantes revisões. Longe de padronizar condutas com base numa "maioria moral" (normas e interdições a serviço das totalidades dominantes), a "ciberética" apóia-se em regras e valores consensuais estabelecidos pelas células de indivíduos, respeitando-se a pluralidade de contextos, os projetos societários e, acima de tudo, a liberdade de manifestação do pensamento.

Por sua natureza desterritorializada e desordenada, o Ciberespaço resiste a qualquer forma de regulamentação externa ou de censura. A ausência de ditames governamentais representa o ponto de Arquimedes para assegurar à rede virtual condição de consolidar-se como canal de comunicação, informações e idéias, em moldes interativos e descentralizados. O campo de batalha delimita-se. De um lado, elites obstinadas em estender à Web, sob variados pretextos, a gama de comandos que exercem na quotidianidade. De outro, as forças sociais transformadoras, que anseiam projetar o Ciberespaço como ambiente propício a uma ética de reciprocidades entre os indivíduos comunicantes.

Não nos parece difícil discernir de que lado está as perspectivas de uma práxis fundada em processos de colaboração por afinidades, sem monopólios ou coerções. Comunidades virtuais, entrelaçadas às ações concretas dos movimentos coletivos são como grãos que aspiram correlatar-se para tecer dinâmicas éticas solidárias e formas evoluídas de opinião pública muita além da interatividade propiciada pela rede.

Para além das possibilidades interativas do Ciberespaço, as experiências relatadas nos mostram que o fundamental neste processo são as outras reapropriações que cada receptor/usuário interativos elaboram e que se constituem em uma permanente negociação de sentidos envolvendo os aspectos culturais, econômico e sociais.

Como essas reapropriações não se caracterizam como algo próprio de uma das partes, uma vez que elas se manifestam tanto pelo emissor como pelo receptor, é possível afirmar que esta dinâmica resulta numa imbricação de sentidos que favorecem o surgimento do "sincretismo" do qual nos fala Canevacci (1996). Assim, o processo de interação entre os elementos culturais existentes tanto na recepção como na emissão, não devem ser vistos na perspectiva da anulação dos primeiros e sim como algo que proporciona uma troca entre os dois lados, seria a multiplicidade que precede a unidade. É este momento de troca que possibilita o enriquecimento da interatividade no sentido das interações sociais que ela pode vir a desencadear. Como argumenta Santos (1990), o sujeito do conhecimento das interações sociais é mais sábio do que o sujeito de conhecimento das interações físicas, ou estritamente lógicas, pela razão elementar de que ignora mais e vive, portanto, em permanente estado de descoberta.

Por outro lado, as experiências relatadas mostrando as mobilidades do receptor interativo vêm comprovar que a suposta hegemonia do mundo tecnologizado não se efetiva, o que coloca em questionamento as discussões centradas nas duas vertentes teóricas: uma que traça um discurso de exortação aos novos dispositivos técnico-informacionais e outra que, numa visão apocalíptica, só vislumbra os danos que estes novos meios trarão à humanidade. As nossas reflexões visam apontar uma outra forma de olhar a relação homem/máquina, sistema/ambiente e sistema/sistema tendo como base a negociação que se estabelece entre eles. A proposta, assim, é a de que ao ampliarmos o nosso olhar, passemos a observar como o indivíduo contemporâneo empreende as suas invenções e constatar que é na microestrutura social e na dimensão relacional do quotidiano que se pode fazer outras releituras do processo dinâmico comunicativo instaurado pelo Ciberespaço, enfatizando aqui a sociocomunicação. Para tanto, torna-se necessário efetivar mudanças teórico-metodológicas e incorporar outras formas de ver o homem no seu contexto sócio-cultural, que na sociedade contemporânea não se limita apenas ao receptor ou ao emissor mas na interação destes em um outro locus, ou seja na dimensão da fertilidade proporcionada pelo coletivo.

Ao tentarmos concretizar esse espaço de informação e torná-lo ao mesmo tempo um espaço de pensamento e um lugar de sociabilidade, procuramos construir um outro mundo, diferente da representação tradicional de espaço físico — um ambiente de palavras que são também conceitos. Conceitos, no entanto, não se definem sozinhos e só ganham significado a partir de sua associação com outros conceitos. Segundo Deleuze; Guattari (1997), cada conceito será, pois, considerado como ponto de coincidência, de condensação ou de acumulação de seus próprios componentes. Plano de conceitos, ilimitado e curvo, construído através de pontes e bifurcações, sempre mudando, em movimento constante, dependendo das conexões e associações que apareçam. Desse modo, os elementos que formam a estrutura do mundo são palavras, letras: a interface do pensamento. Isso é uma tentativa de conceitualizar o Ciberespaço, criar uma interface a partir dessa conceitualização e devolver um mundo de pesquisas sobre Ciberculturas para o indivíduo — um mundo que ele também possa habitar e interagir com outras pessoas, como é característico desse espaço digital.

Desta forma, o mundo (auto)-organiza-se em torno de dois pontos principais: o mundo como palavras e o mundo como pensamento, sendo palavras, a interface gráfica do pensamento. Pensamos por conceitos, por associação de conceitos. E também pensamos hipertextualmente. Recentes estudos de neurociências sugerem que nossa maneira de pensar, de fato, ocorre em rede. O modelo do hipertexto é análogo ao modo como o cérebro trabalha: uma intrincada rede de neurônios conectados por trilhas de energia elétrica, gerando informação mais das conexões do que das identidades fixas. Os neurônios funcionam como se fossem blocos de construção desta rede, mas o pensamento acontece quando os caminhos são percorridos pela rede elétrica. As idéias emergem de milhões de neurônios e de suas combinações. O hipertexto também é a forma da WWW. Para dar consistência ao pensamento representado por palavras, em forma de conceitos, buscamos na filosofia a criação de arquiteturas do pensamento e da elaboração de conceitos.

A filosofia quase sempre se valeu de cenas e metáforas para criar conceitos, desenvolver idéias e representar o pensamento. Desde Platão e a alegoria da caverna, Leibniz e as séries incompossíveis, Nietzsche e Zaratustra, Deleuze e o plano de imanência, o pensamento é representado no espaço; ou ainda, como um espaço onde algo acontece. Utiliza cenas, personagens e descreve experiências para exemplificar e representar conceitos. Seguindo esta idéia, pretendemos construir um palco, como um espaço onde cenas ocorrem. Não um palco newtoniano, desconectado dos personagens que nele atuam, mas um palco moderno, onde a ação de cada indivíduo serviria para mudar esse espaço e estivesse intimamente ligada à formação deste. O palco como uma vasta membrana, que incluísse matéria e espaço — no entanto, num mundo onde não existe matéria, que é constituído de fluxo de informações, tanto palco quanto personagens são formados com o mesmo princípio; nesse sentido, são o mesmo. Cada conceito, então, não teria uma única definição: partimos do princípio deleuziano de que cada conceito só se forma na associação com outros conceitos e, para associá-los, seria preciso percorrer esse espaço e viver experiências. Qual seria, então, a ligação entre o espaço de pensamento e o espaço digital? Através da articulação entre representação, espaço e sujeito, é possível entender que o modo como o ser humano percebe e (auto)-organiza o espaço físico está diretamente relacionado à representação de nosso espaço de pensamento.

Habitamos espaços diferenciados. Espaços, físicos, imaginados, representados… Ciberespaço. São espaços produzidos pela cultura e pela técnica. Mas também somos produzidos pelo espaço em que vivemos. O homem medieval habitava a Terra, mas vivia ameaçado pela idéia de ser enviado para o Inferno ou com a esperança de ao Paraíso. Esperança… Foram lugares de esperança e de liberdade ao longo da história, espaços definidos tanto pela cultura quanto pela ciência, que moldaram nossa presença no mundo físico. Além do espaço celeste medieval, a crença numa quarta dimensão, nas maravilhas do Ciberespaço… O homem nunca se conformou em habitar apenas um tipo de espaço e sonhou freqüentemente com lugares de liberdade, do corpo e da alma. Atualmente, esta percepção de um espaço de liberdade é deslocada para o espaço digital. Um lugar sem matéria, longe das leis do mundo físico, onde cada um pode ser quem quiser e construir o espaço como melhor lhe convier. O Ciberespaço é um espaço em construção. Espaço de liberdade ou não, o modo como ele será construído e como estaremos presentes nele dependerá da compreensão do que é esse espaço digital.

Em síntese, diante de cenários tão indecifráveis no âmbito do Ciberespaço a aproximação da Ciência da Informação, Ciberespaço, teoria dos sistemas sociais, comunicação, auto-organização e autopoiese nos levou a algumas constatações:
 

* Que o pensamento sistêmico e complexo, via métodos como o do construtivismo radical, nos parece como o mais adequado para a observação de processos de mudanças;
* Que as abordagens cognitivistas podem e devem ser mais aplicadas aos estudos de Ciência da Informação, Ciberespaço e comunicação;
* Que o conceito de autopoiese, desde Maturana e Varela e, sobretudo Luhmann, pode contribuir para a compreensão dos processos de construção de sentido e de identidade, não só nos sistemas vivos e psíquicos, mas também nos sistemas sociais e ciberespaciais;
* Que a tese de Luhmann de que os sistemas são constituídos de redes autopoéticas de comunicação amplia, em muito, as opções de análise no campo da comunicação no Ciberespaço, por exemplo, ao libertar a comunicação de seu caráter utilitário e instrumental;
* Que o tratamento dispensado à comunicação nas comunidades virtuais precisa superar a razão instrumental e linear e substituir os modelos de transmissão e controle por modelos mais dialógicos, mais interativos e menos controlados.


Quanto à construção de sentido no mutável ambiente ciberespacial, vimos que se dá em novas bases, no campo da fronteira do relacionamento homem/máquina, sistema/ambiente e sistema/sistema. A construção de sentido é influenciada pela própria auto-referencialidade, em interação com as informações emanadas pelo ambiente, e aparece como uma seleção, resultante de cognição, na busca de reduzir a complexidade. É um processo circular, dialógico, que ocorre, quase sempre, à margem das redes oficiais de comunicação. Por isso, não é possível afirmar que essas mudanças só geram reações negativas, uma vez que foi possível perceber, nesse processo cognitivo de percepção, interpretação e seleção, que alguns mecanismos e comportamentos podem emergir, como adaptação evolutiva, o distanciamento irônico, a libertação criativa e até mesmo a anulação ou eliminação, dependendo da estrutura do sistema naquele dado momento.

A partir da autopoiese, via determinismo estrutural, foi possível identificar o recurso à auto-referencialidade e a identidade como reação as mudanças. Ainda que em um sistema a estrutura mude o tempo todo, num processo de adaptação às modificações também contínuas do ambiente, o invariante, aqui, seria organização. Se desestruturada, pode levar à extinção do sistema.

Por outro lado, quando trabalhamos com a sociocomunicação enquanto processo sócio-biogenético, temos de mostrar o seu caráter casuístico e seletivo. Há de se focalizar os momentos e os lugares em que ruído passa a dar lugar a informação. Para tal, não podemos tomar os comunicandos (emissor e/ou receptor) como subsistemas de um sistema cultural já preestabelecido. Um tal sistema, caso exista, não passa, por sua vez, de um produtor de ruído, a partir do qual surge a diferença entre sistema de sentido e ambiente de signos e sinais. Esta diferença é insuperável porque as combinações possíveis sempre excedem as combinações atualizadas, em cada momento. É por isso que sistemas sociocomunicacionais evoluem e não podem permanecer em equilíbrio. Eles mudam quando percebem informação seletiva, em forma de novidades, em seus ambientes. Diferente da seleção biológica, nas escolhas sociais o ambiente natural dá lugar a um ambiente virtual que deve ser considerado uma criação interna do próprio sistema em desenvolvimento. Ele próprio exibe variações permanentes para si próprio. A relação social sistema/ambiente é considerada conseqüentemente como uma relação entre sistemas de comunicação, e não uma relação entre cultura e ação individual.

A relação provém de acontecimentos casuísticos, de flutuações, que lhe conferem um certo grau de improbabilidade, nomeadamente em três níveis: a) que a mensagem alcance outros; b) que, ao encontrar outros, a mensagem seja entendida; c)e que ela - se recebida e entendida - seja aceitada.

Apenas quando a sociocomunicação deixa de ser vista como uma troca de pensamentos, de sentimentos ou de qualquer forma de experiência pessoal no sentido mais largo, ela pode ser captada como um fenômeno emergente em relação a sistemas psicológicos (seres humanos, observadores). Ela representa um nível diferente de organização, tal como os sistemas biológicos se distinguem em relação a sistemas físicos.

No entanto, enquanto a sociocomunicação ocorre, sistemas psicológicos continuam a experienciar, sentir e pensar. Se ficassem com os comunicados do sistema social, a sua experiência terminaria, e com ela matéria prima das comunicações. Nada mais haveria que pudesse ser "irritado", "desvirtuado", aproveitado e usado em processos de sociocomunicacionais. De forma análoga, a matéria física precisa continuar a se reproduzir para que a vida biológica possa continuar.

A experiência do ser humano (pensamento, percepções refletidas, etc) não se confunde com a comunicação, mas faz parte unicamente da sua vida psíquica, tal qual a existência de elementos químicos não se confunde com a vida biológica, embora forneça certos elementos para ela. Ou, dito de outra maneira: quando uma experiência psíquica for exibida, trata-se já de comunicação e não mais de experiência pessoal. Para poder entrar como elemento no processo comunicativo ela precisa ser recodificada e adaptada para tal. Ela precisa ressurgir em forma de linguagem audível e em forma de gestos e sinais visíveis. Só depois desta transformação de elemento psíquico para elemento comunicativo a experiência pessoal pode ser processada pelo sistema social. Este lhe pode atribuir um significado bem diferente do intencionado pelo sistema psíquico, tal qual um corpo biológico, para usar outra metáfora, funcionaliza as suas células, usando-as tanto para constituir a pele como para formar o cérebro. A sociocomunicação usa as ações comunicativas dos participantes para criar o seu próprio sistema. Ele as usa, abusa, esgota as contribuições dos participantes na sua própria dinâmica de processar informações.

O acoplamento entre sistemas psíquicos possibilita a comunicação, mas ainda não é sociocomunicação. A promessa "Eu vou lhe contar algo" nada diz sobre o que vai ser contado. E não se sabe de antemão se essa "promessa" não significará, na verdade, uma "ameaça". A sociocomunicação está sujeita a suas próprias leis. Ela é um fenômeno emergente, com seus próprios processos biogenéticos embora utilize os sistemas psicológicos no ambiente como elementos de sua construção. Sociocomunicação não é, portanto, apenas uma forma de interação atribuída a uma ação individual, mas uma forma de surgimento, diferenciação e autorenovação de sistemas sociais.

O que até aqui conjeturamos é a possibilidade de se pensar o humano como um híbrido animal-tecnologia, que desde o seu aparecimento sobre a Terra traz como estigma a invenção permanente de si, afetando o seu meio e sendo afetado e constituído por este mesmo meio, deixando, ao longo da sua jornada, restos e tesouros que, ora se denomina cultura, ora tecnologia, ambos constituindo as realidades que permeiam a própria existência humana.

É assim que se pode enxergar o cenário contemporâneo, onde as tecnologias são (re)inventadas com tamanha velocidade que os efeitos sobre uma humanidade sempre volátil e cambiante nem sempre podem ser apreendidos na mesma velocidade. E diante do desconhecido, ou melhor, do ainda não conhecido, sente-se apreensão, medo mesmo; ou ao contrário, faz-se apostas de ganhos e lucros.

Talvez, nos dias de hoje, possamos salientar que o que há de mais radical, quando se compara esta com outras realidades, seja a idéia de um novo espaço, entendido como virtual, já amplamente conhecido com o nome de Ciberespaço. Vêm desta singular zona espacial e temporal promovida pelas chamadas novas tecnologias a novidade para o que se pode chamar de uma recente experiência de habitação no mundo para o humano. Ou seja, mantendo os termos das reflexões iniciais deste texto, vem do Ciberespaço a possibilidade de um novo exercício humano. Lembre-se, um exercício nem mais verdadeiro nem definitivo que aqueles tantos que o antecederam, apenas um outro exercício, uma outra face que se desvela.

Nesse sentido, reprovamos, aqui, contudo, as abordagens que, desde uma perspectiva da racionalidade linear e econômica, que se apropriam dos conceitos darwinistas e os reescrevem em sua face social, justificam processos de exclusão, de descarte, como processos de seleção natural, na qual só sobrevivem os aptos e competentes predadores. Também não acreditamos na tese de que as teorias e os métodos sistêmicos ou cognitivos são conservadores porque reduzem a vida social e cultural às lógicas da natureza, pois está justamente aí, na reaproximação com a natureza, a possibilidade de nos redimirmos da opção limitadora que nos separa do mundo e de nós mesmos.

Finalizando, vale dizer que não objetivamos negar nem substituir as teorias e os métodos tradicionais. Eles têm, ainda, sua utilidade e validade. Mas acreditamos que, ao trazer novos enfoques e novos olhares para o debate no campo da dinâmica comunicativa ciberespacial, estamos contribuindo para a legitimação desse campo nos estudos da Ciência da Informação, da comunicação e do Ciberespaço.

Nossas últimas palavras são: para nós, para os artistas, os filósofos e os cientistas, o que conta é a emergência da imaginação num mundo dominado pela razão, qualquer que seja ela, científica, tecnológica, social, econômica etc. O campo científico, tecnológico, social e econômico não é apenas domínio da razão, mas também espaços de produção e agenciamentos múltiplos, capazes de liberar forças da imaginação e da vida. Pois cada época produz seu pão e seu circo, suas leis e seu ópio, suas repúblicas e sua poesia. Não vemos porque o impulso alquímico produzido pela sociocomunicação e pelo Ciberespaço seria mais alienante do que qualquer outra forma de fabulação.


Notas

[1] Este texto, elaborado em co-autoria, faz parte da dissertação de mestrado do primeiro autor, concluída em maio deste ano na UNESP.

[2] Para melhor depreendermos a comunicação enquanto ponto nevrálgico que compõe sistemas sociais, nos reportamos à base teórica de Niklas Luhmann.
 

Referências Bibliográficas

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Sobre os autores / About the Authors:

Walter Clayton de Oliveira
oliveirawc@gmail.com

Mestre em Ciência da Informação, Professor da Unemat - Universidade do Estado de Mato Grosso - Campus Universitário de Tangará da Serra - MT


Silvana Ap. B. G. Vidotti
vidotti@marilia.unesp.br

Doutora em Educação, Departamento de Ciência da Informação da Unesp - Universidade Estadual Paulista - Campus de Marília - SP


Fátima Ap. Cabral
facabral@marilia.unesp.br

Doutora em Sociologia, Departamento de Sociologia e Antropologia da Unesp - Universidade Estadual Paulista - Campus de Marília - SP