Resumo: Apresenta uma breve
revisão de abordagens teóricas acerca do iconismo, apontando
sua função na percepção e na construção
do conhecimento e da informação. O texto também apresenta
a relação entre ícone, percepção e as
categorias peirceanas. Destaca o debate estabelecido entre Umberto Eco
e Maldonado acerca do iconismo.
Palavras-chave:
Iconismo;
Iconismo-percepção; Iconismo-cognição; Iconismo-categorias
peirceanas; Percepção-categorias peirceanas.
Abstract: This paper presents one brief revision
of the theoretical approaches concerning iconism, its function to perception,
knowledge and information construction. It presents iconism, perception
and the Peirce's categories. It detaches the debate between Umberto Eco
and Maldonado concerning iconism.
Keywords: Iconism; Iconism-perception; Iconism-cognition;
Iconism-Peirce's cathegories; Perception-Peirce's categories.
1. Introdução
A construção e a comunicação de conhecimentos demandam o domínio do código verbal, entretanto, talvez haja um elemento que anteceda a própria formação de conceitos teórico-culturais a partir da linguagem verbal, que seria a própria imagem.
As primeiras escritas que conhecemos são ideográficas indicando o forte papel da imagem na percepção e comunicação humana, o que nos convoca a refletir a linguagem articulatória, que a partir dos gregos alcançou o status de principal veículo de pensamento, como não sendo a única forma de construção de sentidos que, em primeira instância, demanda a existência de movimento.
Ao se retomar, mesmo que de forma superficial, e somente a título ilustrativo, algumas das etapas mais marcantes do desenvolvimento da cadeia evolutiva da espécie humana, pode-se rememorar o papel relevante que os deslocamentos físicos e movimentos corporais desempenharam nas transformações que culminaram com o aparecimento do Homo sapiens sapiens.
O principal elo que ligou os Australopíthecus ao Homo sapiens sapiens foi a característica de poder movimentar-se de forma ereta. Esta possibilidade permitiu não apenas movimentos mais ágeis e velozes no caminhar, como também o mesmo nível de movimentos manuais que permitiram o aparecimento do Homo habilis, cuja capacidade de mobilização física e manual possibilitou a criação de utensílios e a realização de atividades sociais que proporcionaram a aquisição de um sentido primitivo de comunidade.
Assim, o movimento exigido para a criação das ferramentas, utensílios, assim como para o contato social no grupo, tanto para a execução de tarefas e ações de defesa e sobrevivência, quanto de compartilhamento de alimentos e outras ações mais complexas, promoveram o desenvolvimento cerebral, representando, portanto, a senha para a ampliação da capacidade de imaginação e de percepção.
Tal ampliação assegurou o surgimento do Homo sapiens sapiens que, ao desenvolver suas culturas e tecnologias, passou a ter algum nível de controle sobre o mundo, já que com a conquista da ampliação da imaginação e da percepção alcançou sua principal ferramenta que foi a linguagem. A partir da linguagem, com ela e nela, pôde expressar pensamentos e conceitos abstratos e estruturar sua cadeia de conhecimentos.
Assim, pode-se dizer que o movimento é um elemento caro à percepção, ocupando um lugar central no momento em que se percebe e concebe o mundo, motivando-nos a considerar que nossa experiência se forma com base numa relação importante entre a plasticidade e a semântica.
A percepção implica em atividade, tendo surgido, portanto, paralelamente ao movimento, durante a própria evolução da espécie humana. E, nesse sentido, extrapolando a esfera humana, Mahoney chega a afirmar que "As habilidades locomotoras surgiram a partir dos esforços das primeiras formas de vida para manter e expandir o seu acesso às fontes de luz mantenedoras (nutricionais) da vida." (1998, p.131, observação do autor).
Em sua obra Processos humanos de mudanças, ao tratar sobre o lugar central dos processos emocionais na experiência humana, como também no desenvolvimento psicológico, esse autor acaba por demonstrar a relação entre emoção e movimento a partir da própria definição etimológica do termo emoção que tem origem na palavra movere (mover). Mahoney complementa ainda que, num sentido mais abrangente, as emoções, portanto os movimentos, estão vastamente envolvidas na percepção. (1998, p. 182-183).
Nesse mesmo sentido encontra-se a voz de Maturana (2001, p.25; 67-80) que define emoção como sendo uma disposição corporal para o agir, consistindo ainda no processo de associação, de regularidades de comportamento, enfim na constituição de um mundo de ações, através do qual o homem pode conhecer.
No entanto, há um "mobiliário" do mundo no qual estamos inseridos que não se pode capturar plenamente, que não pode ser ordenado na linguagem, portanto não pode ser alçado pelo estatuto da semântica. Conforme Whitehead (apud MAHONEY, 1998, p.48) "[...] existe ‘a mobília do universo’ independentemente do nosso conhecimento, percepção ou imaginação acerca dela."
Se a linguagem articulada funda o mundo compreendido, há também o que escapa à linguagem. Então há algo no movimento que, em determinadas circunstâncias, pode se "insinuar" à percepção, que captura esse "algo" a partir do operador da semelhança. Este operador, por sua vez, se estabelece com base numa certa ordem que antecede à imagem e se funda na linguagem articulada, numa "gramática", isto é, numa semântica, já que o pensamento está marcado por designações que se dão por palavras. Entretanto, pode-se dizer que sentimos as substâncias, os fenômenos e então correlacionamos essa sensação, esse sentimento à palavra.
Assim, o fenômeno da percepção sugere também um poder de seleção e se apresenta como locus da apreensão dos elementos de sentido a partir de nossos enquadramentos. Não há percepção sem movimento como não há uma relação natural entre signos e objetos. A percepção é gerada a partir da experiência, que é formada por plasticidade e semântica, e dentro dela o homem é capaz de ver o mundo que só adquire dignidade ontológica quando passa a ter significado para esse homem, quando enfim se constitui num mundo fenomênico.
O mundo fenomênico representa então o mundo ordenado pela busca da dignidade ontológica, já que existir implica em estar posto numa ordem. Pode-se dizer que há um mundo independente dessa ordem que é capturado através da percepção e, dentro dos limites próprios da nossa capacidade de perceber, nossos sentidos são estabelecidos. Mas, a experiência perceptiva não é puro acolhimento do mundo e sim construção do mundo na atribuição de sentidos, que envolve a ordenação, a lógica e o modo de construção plástica.
A partir desta reflexão emerge a indicação de que
além da linguagem articulada há outras substâncias
que atuam na construção dos sentidos, há diversos
níveis de articulação e não apenas aquele que
se dá na arbitrariedade da relação sígnica
e na linearidade do significante. Tal discussão representa então
o substrato para o debate do iconismo localizando-o, assim, em posição
de relevo no tema da percepção.
2. Percepção e iconismo: um percurso teórico-histórico
Normalmente confunde-se percepção
com visão muito em razão dos diversos resultados de pesquisas
empíricas que apontam a grande probabilidade de que 75% da percepção
humana seja visual em função da especialização
evolutiva. Segundo Santaella (1993, p.11),
[...] a orientação do ser humano no espaço, grandemente responsável por seu poder de defesa e sobrevivência no ambiente em que vive, depende majoritariamente da visão. Os outros 20% são relativos à percepção sonora e os 5% restantes a todos os outros sentidos, ou seja, tato, olfato e paladar.
Depois da visão, a audição
é o segundo sentido mais importante para a percepção,
o que evidencia o grande número de signos visuais e sonoros criados
pelo homem ao longo de sua história. Por outro lado, a forte presença
da visão na percepção fez com que, em boa parte, os
estudos neste campo fossem dirigidos à análise da visão,
ou melhor, à relação entre objeto observado, notado,
e a retina e o globo ocular, não se concentrando nas relações
entre objeto percebido e a própria mente, isto é, na compreensão
dos processos mentais que comandam a percepção.
Desde os gregos tais questões estavam postas de algum modo, entretanto, sempre foram tratadas numa perspectiva dualista, na qual ora se focalizava com maior ênfase o "mundo exterior" com seu "mobiliário", ora enfatizava-se o "mundo interior". Desta maneira as teorias da percepção se dividiram em duas fortes correntes: a do nativismo e a do empirismo.
A corrente do nativismo, cujo principal integrante foi Descartes, respondeu às questões da percepção com o argumento de que a síntese efetuada pela mente dá-se com base na intuição, sendo inata, eliminando a possibilidade da aprendizagem.
Diferentemente, a corrente empirista defendeu a tese de que a síntese realizada pela mente é a resultante de um processo de inferências construídas a partir de conhecimentos adquiridos anteriormente através da experiência do sujeito cognoscente. Para tal corrente as idéias são apreendidas e não introduzidas na mente por uma "força estranha" e, com sua tese, impulsionou de alguma maneira, o desenvolvimento das teorias da percepção.
No século XVIII, o filósofo e historiador David Hume, ao adotar a noção trabalhada por Locke sobre a combinação de idéias simples e complexas, acabou por aprofundar a teoria da associação, na qual estabeleceu a distinção entre impressões e idéias, considerando as primeiras enquanto elementos essenciais à atividade mental, numa aproximação ao que atualmente denominamos de percepção, e as idéias como as próprias experiências mentais que ocorrem na ausência de objetos estimulantes da percepção. Porém, Hume adotara os fundamentos mecanicistas e trabalhou a noção de percepção à luz do empirismo e do associacionismo, perseguindo o desvelamento de leis que poderiam determinar o funcionamento do universo mental. (1999, p.23-42).
Posteriormente, mais exatamente no século XIX, Wilhem Wundt, buscou aprofundar a discussão em torno da percepção e chegou a admitir a idéia de que o homem, ao observar algo, capta a síntese das percepções, fortalecendo a tese de que a experiência visual não corresponde à associação de cada uma das sensações e emoções resultantes da percepção sobre o objeto visto, o que o levou a designar "[...] o processo real de organização dos vários elementos numa unidade como o princípio da síntese criativa ou a lei das resultantes psíquicas." (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p. 84, destaques dos autores).
Desse modo, sua teoria acabou por flexibilizar o tratamento sobre o processo da associação, acentuando que a percepção é um processo ativo da mente e no qual é realizada a síntese criativa a partir da qual é composta uma visão do "todo", que não corresponde, portanto, à simples associação das possíveis partes constitutivas do objeto percebido.
Porem, na construção histórica das teorias sobre a percepção foi Kant quem enfatizou a unidade desse ato que, para ele, representava a organização ativa dos elementos percebidos do objeto, numa experiência unitária e não apenas a partir da associação desses elementos captados pelas impressões, defendendo a tese de que a mente dá forma e organização aos objetos apreendidos através da percepção.
A visão teórica de Kant antecedeu e, mais tarde viria de alguma forma a influenciar, na primeira metade do século XX, o surgimento no campo da psicologia da corrente denominada de Gestalt que partiu, inicialmente, do estudo da percepção do movimento, tomado como princípio que os fenômenos representam nossas impressões de movimento.
A teoria da Gestalt passou então a defender a idéia de que a percepção constitui-se em uma totalidade e que, quando se busca construir a compreensão dos elementos captados do fenômeno observado, com base na análise que demanda ações de reflexão e de abstração, acaba-se por destruir a própria percepção deste.
Quebrando a polarização entre a corrente do nativismo e do empirismo a teoria da Gestalt buscou evidenciar a característica espontânea da percepção, defendendo que esta ocorre com base na organização sensorial realizada pelo sistema nervoso central.
Assim, pode-se dizer que a Gestalt volta-se ao estudo da experiência imediata sem, entretanto, se restringir aos campos visual e sensorial, mas focalizando também, conforme Köhler, "[...] os processos da aprendizagem, da recordação, dos impulsos, da atitude emocional, do pensamento, da ação, etc. [...]" (1947 apud SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p. 305).
A disposição da Gestalt em tratar da organização da percepção a partir de uma posição ativa do sujeito, e da sua relevância no processo de aprendizagem, tornou-se fundamental para a não exclusão da consciência enquanto tema de estudo da psicologia, especialmente nos anos nos quais as teorias comportamentalistas exerciam uma predominância muito forte.
No transcorrer do final da primeira metade e do início da segunda metade do século XX surgiram vários estudos que passaram a identificar as características singulares das diversas linguagens que sustentam a comunicação e a ação humana, inaugurando-se um período de fecundas discussões em torno da existência de linguagens próprias às imagens e aos sons.
Tais estudos surgiram num contexto no qual a pesquisa semiológica, partindo do alicerce teórico saussuriano, voltava-se, conforme Eco (1998, p. 286-287), para a compreensão de textos complexos que eram, em sua maioria, veiculados pelos meios de comunicação, com o objetivo de desvendar as estratégias de enunciação, buscando compreender as relações das imagens veiculadas com a linguagem verbal que teria o papel de eliminar imprecisões e contribuir para o estabelecimento do sentido.
Entre esses estudiosos situa-se Pasolini para quem a primeira linguagem humana corresponde à ação que os homens desenvolvem nas relações de reciprocidade com outros e com a realidade física, sendo as "línguas escrito-faladas [...] apenas uma integração desta linguagem primeira [...] linguagem da sua fisionomia, do seu comportamento, dos seus costumes, dos seus ritos, da sua técnica corporal, da sua ação [...]"([1965], p.162-163).
Dentro dessa perspectiva, Pasolini defendeu
a idéia de que o cinema se realiza com base nessa linguagem primeira,
isto é, num conjunto de ações. Nesta situação,
a percepção é mobilizada por essa linguagem primeira
da ação e não por uma língua escrita e/ou falada
que, conforme o autor,
[...] não é mais do que uma integração e um meio deste agir. [... porque] no momento em que o leitor a escuta ou lê, em resumo: a percepciona, liberta-a de novo da convenção lingüística e recria-a como dinâmica dos sentimentos, dos afectos, das paixões, das idéias: redu-la a entidade audiovisual, quer dizer: reprodução da realidade, acção [...] ([1965], p.167).
A partir dessa reflexão Pasolini
alerta para a necessidade de uma análise sobre a linguagem cinematográfica
que considerasse a ocorrência, no cinema, de uma sucessão
de percepções, sugerindo assim a construção
de uma semiologia capaz de tratar a linguagem da ação.
Também analisando a possível existência de uma linguagem cinematográfica, Metz defendeu a idéia de que há, no filme narrativo, uma sintagmática, já que este é dividido em segmentos autônomos, podendo a montagem representar a sua sintagmática, o que denotaria a existência de uma "gramática" do filme, diferente das demais gramáticas em virtude de não ser arbitrária.
Assim, no seu entendimento de que a linguagem cinematográfica não corresponderia a uma linguagem arbitrária, Metz argumentou que ela estaria então em permanente alteração. E, a partir de sua teoria, também acabou por defender a idéia de que "Somente a lingüística geral e a semiologia geral (disciplinas não normativas, simplesmente analíticas) podem fornecer ao estudo da linguagem cinematográfica, ‘modelos’ metodológicos apropriados." (1976, p. 207 –208, observação do autor).
Por outro lado, Garroni ([1972], p. 65), tomando como referência as reflexões de Metz acerca da possibilidade de uma semiologia da linguagem do cinema que por sua vez dispensaria qualquer abordagem analítica para ser compreendida, argumentou sobre a importância de se abandonar a reivindicação de uma semiologia da linguagem cinematográfica em favor da adoção de uma abordagem semiótica que, ao seu ver, seria mais pertinente por se ocupar tanto das grandes quanto das pequenas unidades de construção de sentido.
Esse percurso teórico que acabou traçando as discussões à luz da semiótica trouxe para o centro das análises a questão da construção dos sentidos, que implica em intencionalidade e em algo construído no contexto, no qual ícones ou palavras são acionados, tentando-se com essa aproximação identificar o lugar ocupado pela linguagem articulada e visual na percepção e no pensamento.
Frente à existência de diferenças entre o ato de pensar e o ato de falar, sendo este último freqüentemente submetido a um determinado nível de controle, pode-se considerá-lo uma ação, enquanto que o ato de pensar, muitas vezes, constitui-se apenas em um evento mental sobre o qual não necessariamente ocorre algum tipo de controle. Isso poderia conduzir à idéia de que o pensamento estaria ligado a uma instância mais imagética do que lingüística, embora não se possa deixar de acolher a tese de que os ícones podem representar veículos imediatos do pensamento.
Quando se admite que o pensamento é o resultado de uma produção que ocorre através de um meio representacional, cujos elementos estão em conexão com elementos existentes no mundo, fora do espaço mental, admite-se que há propriedades intrínsecas aos ícones, que não podem ser identificadas enquanto propriedades semânticas.
A possível "semelhança" entre uma representação e um determinado objeto implica na possibilidade dessa representação possuir propriedades de sentido que poderão variar de acordo com o contexto, não podendo, desta maneira, esse sentido estar diretamente associado a um conceito de semelhança. Uma relação de semelhança não pode justificar, descrever ou explicar uma relação de intencionalidade, uma relação de sentido que, a cada momento ou circunstância, poderá sofrer alterações.
Deleuze (1990, p. 39), ao discutir a proposta
de Metz, chega a defender que
[...] a narração não passa de uma conseqüência das próprias imagens aparentes e de suas combinações diretas, jamais sendo um dado. [...] A narração nunca é um dado aparente das imagens, ou o efeito de uma estrutura que as sustenta; é conseqüência das próprias imagens aparentes, das imagens sensíveis enquanto tais, como primeiro se definem por si mesmas.
O contexto e a disposição
dos sujeitos em relação às imagens é que determinarão
o que delas se insinuará à construção dos sentidos,
o que acentua que estas não podem, a priori, compor uma narrativa.
Do campo das artes emergiram outros empreendimentos investigativos como os de Gibson, Arnheim e Gombrich que também trataram sobre a percepção das formas visuais. Gibson trouxe a contribuição de formular a teoria da existência de diferenças entre o pensamento verbal e o pensamento visual, defendendo que não há nenhum vocabulário de imagens como há para as palavras, argumentando que "Como todo artista sabe, há pensamentos que podem ser visualizados sem serem verbalizados." (GOMBRICH, 2001, p. 1).
Para Gibson seria necessária a formulação de uma nova teoria capaz de dar conta do que representa a imagem, isto é, uma nova teoria da percepção. Desse modo, ele propôs que a percepção baseia-se na seleção incidental de sensações visuais acerca das coisas do mundo. As informações visuais sobre um determinado objeto são formuladas a partir do momento em que algo não ordinário se insinua, alçando uma instância de relevo, colocando-se em perspectiva no nosso campo visual. Enfim, os aspectos da diferença e não de regularidade determinam que uma informação visual alcance nosso campo de percepção.
Dentro de sua perspectiva acerca da percepção visual Gibson argumentou que, enquanto a linguagem articulada (de palavras) pode ser inventada, no campo da imagem isso não é possível, já que a essência da imagem está justamente no fato de que sua informação não pode ser explicitada, não pode ser traduzidas em palavras ou símbolos. E, a maior parte do que pode ser perdido num quadro, num desenho, numa pintura ou numa fotografia, corresponde às informações que somente podem ser extraídas a partir da mudança de perspectiva da ordem do ambiente ótico gerado no movimento do observador.
Segundo Santaella (1993, p.14-15) as discussões que foram travadas em torno da percepção no campo das artes como a pintura, o desenho, a escultura, ainda apresentaram limites à compreensão do campo visual, o que colaborou para o processo de distanciamento entre as teorias da percepção e a filosofia, influenciando a eliminação de abordagens mais especulativas (não experimentais), que talvez pudessem aprofundar os estudos sobre o papel da percepção nos processos de construção dos conhecimentos.
No entanto, não se pode desconsiderar o lugar que a teoria da Gestalt assegurou aos estudos da consciência no campo da Psicologia e que, em alguma medida, acabou por contribuir para o aparecimento do movimento fundador das bases da psicologia cognitiva que buscou se vincular aos estudos da sensação, da percepção, do pensamento e de outras atividades mentais, concentrando-se, mais especificamente, no processo de construção do conhecimento.
A psicologia cognitiva tem sido bastante criticada porque, ao tomar como objeto de estudo o processamento da informação, de alguma maneira, deixou de enfatizar o papel da motivação e da emoção sobre o processo de pensamento e no comportamento humano.
Entretanto, deve-se destacar que esta corrente, ao focalizar a percepção, o pensamento e outros processos mentais ligados ao processo de construção do conhecimento acabou adotando um enfoque multidisciplinar que permitiu a reunião de abordagens diferenciadas como as da psicologia, da lingüística, da antropologia, da filosofia, das ciências computacionais, das neurociências e da inteligência artificial, conduzindo as pesquisas em torno da percepção a um momento fertilizador da construção de uma rede de análises mais complexas deste fenômeno.
Outra contribuição aos estudos da percepção ocorreu a partir da teoria criada por Peirce na primeira metade do século XX, na qual foram abordados elementos que até então não tinham sido estudados e que proporcionaram as condições de re-introdução da Filosofia no cenário científico da discussão do tema da percepção.
Nesse mesmo período o lingüista Saussure também desenvolveu estudos sobre os signos, entretanto, restringindo-o à esfera da lingüística e denominando-os de semiologia. Assim como Barthes, no seu projeto de uma semiologia estrutural, Saussure buscou examinar a relação entre a lingüística e a semiologia, tendo concluído que há lingüística em qualquer fenômeno semiológico, não podendo haver significação sem língua. Embora tenha admitido que há fenômenos não lingüísticos, esse autor defendeu que estes só podem ser apreendidos através da língua.
De outro lado, Saussure também se ocupou de investigações concernentes à existência ou não da dupla articulação da imagem, estudando a possibilidade da existência de uma linguagem imagética, mas sempre perseguindo um enquadramento dos diversos sistemas de signos aos esquemas da linguagem articulada.
A compreensão de que os objetos, as imagens, os comportamentos, nada significam prescindindo da língua, dos sistemas lingüísticos, se caracteriza no dogma do estruturalismo de que a construção de sentido prescinde uma estrutura lingüística, já que no sentido perceptivo não há semântica ou uma "gramaticalidade".
Deve-se ressaltar que Saussure, Barthes e demais estruturalistas, ao concentrarem-se no estudo dos signos, preocuparam-se com a formulação de uma ciência sobre a linguagem verbal, adotando um enfoque mais detido nas relações e inserções dos signos no sistema lingüístico.
Conforme Santaella (1996, p.38-39), numa direção semelhante à de Saussure, pode-se localizar Kristeva, Hjelmslev, como também Umberto Eco. A autora entende que tais estudos acerca da teoria dos signos acolhem os suportes teóricos emergentes da lingüística, que trazem subjacente o viés do estruturalismo lingüístico.
Entretanto, se o mundo é concebido enquanto movimento instituído na percepção que o qualifica e no qual os objetos da realidade são notados e ganham forma na nossa percepção, é a relação homem-mundo que determina os padrões dessa percepção.
Pode-se entender que a percepção se realiza na correlação que se estabelece entre a imagem e o sistema das ações humanas, tendo como base dessa relação a semelhança. A este entendimento parece se juntar o de Wollheim que, segundo Picado, aponta o problema do iconismo não como o das "[...] relações entre signos e referentes, mas entre os sistemas de signos e uma certa disposição (ou modalização) no nível da própria experiência sensível [...]" (2001a, p. 7, observação do autor).
Através da percepção pode-se captar tanto a semelhança atribuída por meio de esquemas conceituais quanto pela familiaridade com que fazemos uso de sistemas de significação. Tais argumentos que se apresentam nas vozes de Maldonado (1974), Wollheim (1994) e de Gombrich (1995) parecem reforçar que o problema do iconismo consiste na compreensão de como se realiza, no campo da sensibilidade, a seleção dos elementos de construção dos sentidos, o que implica a investigação de como é operada a cooperação entre recepção e representação.
Por este raciocínio poder-se-ia assinalar que o iconismo está vinculado ao esforço cooperativo que se dá na experiência sensível entre a recepção de caracteres sensíveis e a respectiva correlação num sistema simbólico dado. Assim, o objeto central do iconismo resultaria no desvelamento do processo de cooperação entre a experiência sensível, a qual se poderia denominar de primeira ordem, e a ordenação que se busca através da representação, resultando na construção dos sentidos.
No percurso histórico da construção de uma abordagem cognitiva da percepção, localiza-se também a contribuição de Peirce, cuja teoria não desvinculou o conhecimento da percepção, como também procurou estabelecer a relação desses com as linguagens desenvolvidas pelo homem. Para ele todo pensamento é icônico, já que as imagens mentais formuladas sobre algo representam um ícone que é apreendido visualmente num determinado instante e de relance.
Todos os elementos existentes no mundo podem se insinuar aos nossos olhos, mas, somente quando se enquadram nas possibilidades de nossos órgãos do sentido é que são captados por nossa percepção, o que implica em sofrimento que emerge do confronto com as invariâncias, com a ausência de semelhança que, contrariamente, produziria uma sensação de conforto.
Nesse sentido, pode-se perceber um nível de convergência entre as teses de Peirce e aquelas defendidas por Gibson quanto à percepção da informação visual a partir da não regularidade, que torna o objeto perceptível através dos elementos que não são ordinários.
Conforme Santaella (1993, p.16), a teoria semiótica de Peirce é uma teoria sígnica do conhecimento e não é incompatível com a admissão do inconsciente, já que grande parte de nossa percepção está no inconsciente, embora esta só possa ser controlada quando o objeto, o percepto, é compreendido, interpretado, o que ocorre na secundidade, no confronto, na interação, na ação e reação, enfim no conflito.
O problema da percepção em Gibson (1994) consiste no fato de que entre o que é percebido e aquilo que provoca a percepção ocorre um descompasso porque sempre perdemos ou agregamos informações ao fenômeno observado (ao percepto). A pergunta colocada por Gibson consiste em saber como e a partir do que a mente humana realiza esse acréscimo de informações, de onde ela extrai essas informações.
Além disso, uma outra questão foi colocada por ele, apresentando o desafio ainda maior de compreender qual o motivo que, de um modo geral, conduz a um nível de sintonia entre esse acréscimo feito pela mente e o que pertence realmente ao fenômeno, assegurando ao homem o poder de agir com considerável sucesso sobre o mundo e seu "mobiliário".
Nesse aspecto, mais uma vez poder-se-ia estabelecer uma relação entre esse processo de seleção e/ou acréscimo realizado pela mente na percepção, dentro da perspectiva de Gibson, com a secundidade peirceana, na qual ocorrem os conflitos a partir dos quais a percepção é controlada por meio das ações de diferenciação e seleção.
Para Peirce, o objeto imediato que é interno ao signo, exerce a mediação entre o signo e o objeto dinâmico que está fora do signo e que mesmo de fora dele acaba determinando-o, da mesma forma que este último exerce a mediação entre o objeto e o interpretante.
Assim, a definição de ícone
em Peirce poderá assumir uma característica cognitiva
enquanto potencialidade de ser apreendida. Conforme Carmelo
[...] o ícone peirceano é o fenômeno que funda cada possível juízo de semelhança. O ícone não é o mesmo que uma imagem mental (que reproduz um objecto), pois, no caso da imagem, ter-se-ia já de abstrair, entre muitas imagens particulares, uma geral (como de muitos pássaros particulares se abstrai a idéia geral de pássaro). A imagem mental funda-se no iconismo e é icônica porque se baseia na semelhança, mas opera sempre a partir de modelos, a partir dos quais reproduz (secondness/thirdness). Por seu lado, o iconismo é sempre uma qualidade da firstness. (2002, p. 2, observações do autor).
Dessa forma, pode-se inferir que o
ícone corresponderia ao fenômeno sob o qual é possível
construir uma representação desse objeto que é icônico,
sendo, portanto, o iconismo a base sob a qual o fenômeno é
percebido. Assim, evidencia-se que o ícone representa um elemento
fundamental ao processo de percepção, representando o suporte
sobre o qual ocorre o processo perceptivo.
Nessa linha de reflexão, o iconismo alcança o status de elemento central do processo de percepção, que também se torna fundamental na geração dos signos, motivando o desenvolvimento da semiótica, já que esta se ocupa do estudo da gênese dos signos e do seu papel na construção do conhecimento.
A semelhança de um objeto é definida pelo grau de adequação deste com um segmento constitutivo do objeto real, numa relação que é estabelecida pelo campo perceptivo. Desse modo, a semiótica se introduziria neste foco de estudo do iconismo, no qual a semelhança se manifesta enquanto a maneira por meio da qual o sujeito conhece e ressignifica o mundo.
De outra forma, Peirce ocupou-se de criar os fundamentos que edificaram a semiótica enquanto ciência, estudando os signos, mas também as relações entre signo, pensamento, linguagem, conhecimento e ação, estabelecendo três categorias que representam os modos de conhecer, de construir conhecimento, isto é, de apreender os fenômenos na consciência, sendo elas a primeiridade, a secundidade e a terceiridade.
Num enfoque diferenciado Peirce, no próprio curso de suas opções, concebia o signo num raio de maior abrangência, não o restringindo à linguagem articulada, à linguagem verbal, mas buscando compreender a própria dinâmica da percepção e do processo de construção do conhecimento.
Para ele o signo teria um sentido abrangente, podendo também significar ação, experiência ou até mesmo uma qualidade de sentimento. Ao criar suas três categorias de conhecimento, focalizou a racionalidade somente na sua terceira categoria (terceiridade), compreendendo a intelecção autocontrolada como o terceiro modo de conhecer. Assim, dentre as três categorias, duas delas, a primeiridade e a secundidade, não correspondem a conhecimentos que se possa enquadrar em categorias formais.
O próprio Peirce (1977, p.22) preocupou-se em registrar que sua pergunta dirigia-se ao "[...] que aparece a cada um de nós em todos os momentos de nossas vidas.", apontando que suas indagações científicas ocupavam-se do conhecer enquanto um ato permanente da existência humana que se inicia nos próprios sentimentos, não sendo apenas instituído a partir de ações autocontroladas que completam o ciclo da cognição.
Mais precisamente é na categoria da primeiridade que as relações entre sensibilidade e apreensão dos fenômenos surgem com maior intensidade, trazendo ao palco das reflexões semióticas a questão do ícone enquanto forma do objeto que se "oferece" ao "olhar" humano, mas que ainda não se caracteriza como um signo.
Num contato primeiro, (imediato) com o fenômeno, a mente se volta à interpretação, sem que esta ação seja plenamente realizada. A primeiridade representa um instante de observação inaugural do fenômeno, uma primeira modalidade de operação mental, por meio da qual as substâncias são flagradas num campo ainda de imprecisão. O ícone, que representa as "formas" interiores da substância, permite uma aproximação fecunda e geradora do desvelamento do que Peirce denominou de phaneron (fenômeno), através do qual este emerge ao plano da consciência que foi caracterizado por ele como o "lugar" ou a instância complexa na qual são apreendidos os fenômenos e por meio do qual o homem pode conhecer o mundo e a si mesmo.
2.1 Ícone, percepção
e as categorias peirceanas
Na condição de filósofo
e lógico, Peirce voltou-se à tentativa de compreender
o desenvolvimento do pensamento, a partir da experiência, enquanto
elemento constitutivo do conhecimento. Nesse sentido percorre um caminho
reflexivo acerca dos três tipos de raciocínio (dedução,
indução e abdução) que o conduziu à
abordagem de possíveis operações mentais que se desenrolam
durante as experiências.
Ao focalizar tais operações chegou à formulação dos três níveis de operações, às quais denominou de primeiridade, secundidade e terceiridade, e na sua construção argumentativa em torno delas acabou abduzindo o papel do ícone no processo de construção do conhecimento.
Peirce ([1978], p.15), tratando sobre esse tema, argumentou que "Se o homem adquiriu a faculdade de adivinhar os desígnios da Natureza, não foi certamente através de uma lógica crítica e autocontrolada.", identificando que o iconismo desempenha um papel relevante no ato de conhecer, podendo estar ligado ao processo de captação de informações sensoriais, já que ícones não correspondem a componentes a partir dos quais unidades sentenciais podem ser elaboradas, já que a estes não é possível se estabelecer regras de combinações que permitam a constituição de uma proposição.
Uma imagem pode provocar a construção de referências ao objeto com o qual guarda um nível de semelhança quanto às suas propriedades intrínsecas, devendo-se pontuar que para ele a semelhança não corresponderia a uma propriedade representacional. Entretanto, Peirce identificou o locus da iconicidade no campo da operação mental da primeiridade que equivaleria às primeiras operações na construção do pensamento. Para ele, o ícone corresponderia a um corpo sensível que pode impulsionar nossa experiência a uma "visibilidade" possível do objeto, não estando relacionado exatamente a uma representação gráfica como entendem os semiólogos.
Em Peirce um ícone não corresponde a traços de similaridade em relação à aparência do objeto, e sim a um signo que dirige nosso campo perceptivo através de uma similaridade mais relacionada a uma semelhança com aspectos constitutivos desse objeto que podem ser captados pelo "olhar" do seu interprete.
Assim, semelhança não está associada à aparência, mas mais precisamente a uma característica importante para o reconhecimento do objeto, já que Peirce tratava da ação do ícone em termos antropomórficos, sempre relacionados a uma anterioridade ao físico. Esta visão pautava-se nos princípios da semiótica que, por corresponder a uma teoria sobre a construção dos sentidos, estando, portanto, mais diretamente ligada à atividade humana de apreensão do real.
Conforme argumenta Maldonado (1994, p.182) "[...] o problema da iconicidade é inseparável do problema da relação entre categorização conceitual e categorização perceptiva, e inseparável também do problema da relação entre estrutura do pensamento e estrutura da realidade."
Então, ao se analisar as formulações de Peirce das três instâncias de operações mentais (primeiridade, secundidade e terceiridade), quando tenta abduzir sobre o processo de construção do conhecimento possível da realidade, acaba-se por compreender a própria abordagem peirceana acerca do iconismo.
Na primeiridade algo do fenômeno se destaca do resto como uma "idéia" que entra em relevo dentre às quais está ligada, como uma espécie de abstração por meio da qual esta idéia se ressalta no interior de um conjunto que se está "experimentando", sendo o ícone o elemento síntese dessa primeiridade, lembrando-se o que também alertou Peirce quanto ao fato de "O primeiro ser indeterminado, e o primeiro indeterminado de alguma coisa é o material de que ele é formado [...] é o caráter do primeiro." (1977, p. 12).
Mas, nesse processo do conhecer ocorre um outro tipo de operação mental na qual as idéias são impulsionadas a emergir de nossa sensibilidade, na medida em que ganham maior intensidade no campo perceptivo. Assim, nesta segunda forma de abstração (secundidade) se dá uma influência oposta ao processo separativo que ocorre na primeira forma de abstração (primeiridade), estabelecendo-se ações comparativas e de associações.
A partir desse movimento inaugura-se a terceira forma de abstração que Peirce denominou de "medisense" na qual as ligações, associações entre as "idéias percebidas" se consolidam, edificando-se e/ou fortalecendo-se um conjunto de idéias associadas. Estas três categorias de operações mentais devem ser compreendidas enquanto "[...] modos de operação do que Peirce chama pensamento-signo, que tem seu locativo na consciência [...] lugar onde interagem formas de pensamento [...]" (SANTAELLA, 1996, p.101-102).
O ser humano, através das ações que realiza na sua experiência, em contato com os fenômenos da natureza (que se constituem nele próprio e seu "mundo interior" (corpo e mente) e no "mundo exterior" com seu "mobiliário"), coloca-se em movimento, o que lhe possibilita a experiência da sensibilidade cercada de estados de indeterminação considerados livres, nos quais tem origem o seu conhecer num nível ainda de possibilidades e de modelizações (primeiridade) que proporcionam impressões ou sentimentos de qualidade, uma qualidade do "objeto" que não se pode reproduzir ou traduzir.
Tais estados dão início a um processo de sensações que evidenciam/diferenciam aspectos do fenômeno que entram em comparações (secundidade). Deste "instante segundo" apreende-se as regularidades que conduzem aos hábitos, normas e leis que se tornam o "termo de mediação" e sustentáculo das ações e reações do ser humano, consistindo então num "instante" de abstração no qual o pensamento é resultante de um processo de cognição.
Conforme destaca Santaella (1996, p.132), para Peirce "[...] pensar é uma espécie de ação, raciocinar é uma ação deliberada [...]", significando o raciocínio um pensamento sob autocontrole. Poder-se-ia então concluir que as categorias peirceanas da primeiridade, da secundidade e da terceiridade correspondem ao sentimento, à sensação e à cognição respectivamente.
Na primeiridade o homem experimenta uma consciência geral que não pode ser rápida e plenamente descrita, não pode ser reflexionada nem dividida, mas que tem elementos de impressões que representam um sentimento que não pode ser classificado e catalogado, tampouco traduzido, mas que poderá acionar a percepção dentro de seus níveis de possibilidades. Entretanto, a primeiridade não corresponde diretamente à percepção e sim à apreensão da qualidade do fenômeno que na consciência se transforma em sentimento da qualidade.
Este sentimento da qualidade corresponde
à apreensão do que o fenômeno tem na sua materialidade
como forma, cor, textura, som etc. Assim, a primeiridade representa a capacidade
do homem sentir as qualidades dos fenômenos sem interpretá-las
e abstraí-las, isto é, sem traduzi-las. No entanto, a primeiridade
não está desligada da percepção, correspondendo
a uma primeira instância do processo perceptivo a partir do qual
o homem pode desencadear suas abstrações. Conforme Santaella,
Ocorreria na consciência, em termos de primeiridade, algo profundamente análogo ao que ocorre na retina, quando da fixação da imagem. Assim como a retina fixa e retém a imagem perto de um quarto de segundo, para então enviá-la ao cérebro, dentro do cérebro, qualquer coisa apreendida (seja pela visão, tato, olfato ... ou qualquer fusão deles) fica retida por algumas partículas de segundo para que a memória possa vivamente fixá-la como um todo. Esse lapso de tempo ou imperceptível interrupção no fluxo da consciência cognoscente comporia o sentimento de qualidade, que nos levaria a traduzi-lo por impressão, isto é, qualidade que se imprime na consciência e que é inanalisável no instante em que está presente, visto que para conhecê-la, necessitamos de sucessividade no tempo, suficiente para quebrar a memória em partes, digitalizando o que era indivisível. (1996, p.140, observações da autora).
A partir desta visão a percepção
presente na primeiridade é "cândida" entendida por Santaella
como uma percepção "[...] totalmente assomada pela simples
qualidade de impressão de um phaneron (fenômeno)." (1996,
p. 144, observação nossa). Esta qualidade de impressão,
de sentimento, ao objetivar-se na consciência ou numa forma exterior,
constitui-se num ícone. Assim, o fenômeno apreendido numa
primeira instância, ou melhor, o sentimento da qualidade apreendida
desse fenômeno nada mais é do que o ícone correspondente
às formas e aos sentimentos que se constituem no substrato a partir
do qual o raciocínio e o exercício da lógica serão
efetuados.
O ícone não representa uma substância morfológica entre o signo e o objeto, não é a forma visual que indica a relação entre eles, mas sim a semelhança de propriedades internas, estruturais do objeto. Para Peirce o ícone corresponde à semelhança, mas a uma semelhança nativa, radical, ligada às origens, às estruturas do objeto, ao seu interior, aos traços estruturais do objeto, se traduzindo num sentimento da qualidade desse objeto.
Conforme Santaella (1996, p.153, observação
da autora), para Peirce
[...] qualquer materialidade é potencialmente apta a preponderar como ícone (pouco importa qual seja o material-suporte: som, traço, cor, pedra, movimento físico, palavra ... etc.), posto que o ícone não diz respeito à materialidade em si, mas ao material enquanto qualidade de configuração.
Tomando por base esta proposição,
pode-se dizer que o iconismo representa o sentimento da qualidade, a semelhança
entre traços estruturais, isto é, as relações
estruturais entre o ícone e a coisa, pautada numa ordem da estrutura
perceptiva. Desta forma, o problema do iconismo, embora ligado à
comunicação, também envolve uma teoria da percepção,
uma psicologia da percepção.
O ícone cumpre um papel de grande relevância na percepção que conduz ao processo de abstração e construção do conhecimento, até mesmo porque no instante da apreensão do sentimento da qualidade, ele gera fendas nas inferências produzidas pela consciência num estágio de estabilidade dos conhecimentos construídos por experiências passadas.
2.2 O debate entre Eco e Maldonado acerca
do Iconismo
Eco constrói uma crítica
ao iconismo situando-se entre aqueles que tomam a semiótica enquanto
o estudo dos códigos visíveis. Por esta razão associa
o iconismo à definição dos signos icônicos que
apresentam uma certa semelhança exterior com o objeto denotado.
Embora em suas análises aborde a estruturação do campo perceptivo (psicologia da percepção) e a codificação das mensagens visuais (teoria da semiótica), prefere abraçar esta última como seu objeto central de análise, parecendo evitar um olhar mais acurado sobre o lugar que o iconismo ocupa na percepção, chegando a afirmar que o código icônico é diferente do código de reconhecimento (perceptivo), sendo o seu campo pertinente às teorias semânticas e o campo dos códigos de reconhecimento à psicologia da percepção.
Na sua concepção, o iconismo primário desencadeia o julgamento perceptivo, tomando por base a semelhança, entretanto, este não pode ser definido e tal semelhança icônica primária não pode ser confundida com regras de similaridade utilizada no estabelecimento dos hipoícones. (1998, p. 289-292).
Na perspectiva de Eco existiria um código icônico capaz de estabelecer a equivalência entre um certo signo gráfico e um traço pertinente do código de reconhecimento. Mas, a semelhança no âmbito dos signos icônicos não se trata de uma semelhança entre o signo e o objeto, e sim entre o signo e algumas características do fenômeno (do objeto) que foram capturadas e passaram a compor a estrutura perceptiva.
Um novo conhecimento só pode ser aduzido quando se pode identificar, a partir das características que estão na estrutura já dada da percepção. Desta forma, a semelhança não se limita aos traços físicos, morfológicos, e sim aos aspectos internos do fenômeno capturado a partir da estrutura perceptiva do interpretante.
O sentimento da qualidade configurado, que para Peirce corresponde ao ícone, mas que Eco entende como sendo um iconismo primário, viabiliza o prolongamento desse sentimento de forma que, o que foi configurado (o ícone) adentra/convoca a percepção por meio de outros modos de operação mental como a secundidade e a terceiridade, indicando a importância do iconismo no processo semiótico que assegura a cognição.
Eco (1998, p.295) considera que o iconismo trata da natureza dos signos icônicos, da teoria dos códigos e coloca-se em oposição ao iconismo perceptivo, parecendo resistir em aceitar o debate de temas que conduzam à questão da existência de um mundo independente da significação, situando-se entre aqueles que tratam o ícone como representação do objeto que envolve as condições de observação a partir das quais os contornos do objeto são transcritos.
O código icônico está ligado à construção das imagens no espaço (dimensão das formas concretas), enquanto a psicologia da percepção preocupa-se com as condições de percepção, com as dimensões que são mobilizadas no plano abstrato, na construção dos sentidos, que não se concretizam em formas. E este aspecto é exatamente o que autoriza a inserção da psicologia na discussão do iconismo, já que as relações de semelhança ocorrem no campo da percepção.
Contrariamente, Maldonado (1994) defende que as condições de percepção estão numa dimensão virtual, na qual se opera a construção de formas, atualizando a percepção no plano concreto. O ato de conhecer não corresponde a alcançar as substâncias, as coisas, os objetos, mas sim os signos. As idéias são signos, e conhecemos por meio das relações que estabelecemos entre essas idéias. Assim, ao tratar do fenômeno do iconismo, este autor considera necessária tanto uma abordagem dos campos da figuração quanto da percepção.
Pensando a semiótica na perspectiva peirceana, enquanto uma ciência dos processos, dos regimes, dos modos de produção da significação, da produção sígnica e não como uma ciência da natureza dos signos, pode-se falar de signos e de percepção, como também se pode admitir que a própria percepção é um fenômeno semiótico.
A matéria possui uma transitividade que nos permite percebê-la e traduzi-la através dos signos. Mas o que é percebido não é uma regra, e sim algo que "coisificamos" por meio das convenções, das regras culturais, algo que tem um estatuto ontológico independentemente de uma "gramática", enfim independente do investimento simbólico.
Desse modo, o iconismo precisaria tratar
das propriedades características de um objeto que fazem com que
ele venha a ser capturado para esse investimento simbólico. Maldonado
compreende que todo conhecimento é pautado numa relação
de semelhança e de diferença, dispondo-se, nesta perspectiva,
a discutir o iconismo para além da representação gráfica,
abordando:
a) a natureza icônica da percepção;
b) a natureza icônica do conhecimento;
c) a caracterização da natureza dos signos icônicos.
Na perspectiva de Maldonado, as investigações
sobre iconicidade deveriam estar centradas em responder questões
mais concernentes ao papel do iconismo na percepção e sobre
a natureza icônica do conhecimento que é regido pelas relações
de similaridade icônica.
Contrariamente, Eco compreende que apenas a natureza dos signos icônicos representa o ponto focal da semiótica, reforçando teses estruturalistas que enquadram a semiótica peirceana enquanto uma teoria sobre a discursividade da significação e desconsiderando que o próprio Peirce relevou as relações entre a percepção, a discursividade e a cognição.
Ao debater sobre o problema da semelhança Eco (1998, p.285) parece afirmar que seria um desatino uma atitude de negação ao fato de que nossa vida se sustenta em relações de semelhança, que reconhecemos as pessoas pela semelhança, que a constância da percepção é assegurada pelo reconhecimento de formas e que por razões formais é que somos capazes de distinguir os fenômenos.
Mas, o homem não percebe designando, como também reconhecer não é perceber. Nesse sentido é que Picado (2001b, p. 6), ao assinalar o problema do iconismo no âmbito das investigações semióticas, defende que estas deveriam se propor a responder questões acerca da "[...] proximidade entre a ordem das representações, a experiência sensível e o princípio da interpretância."
Antes do reconhecimento uma percepção
já operou, destacando o objeto para um primeiro plano, o que caracteriza
o sentido fenomênico da percepção e, embora não
se possa declarar a experiência perceptiva, há uma gramática,
uma enciclopédia sobre a qual opera a percepção. Essa
constatação permite a assertiva de que o nível da
percepção é o nível do enunciável e
não do enunciado.
3. Considerações Finais
O campo perceptivo é o campo das modelações por meio das quais alcança-se o processo abdutivo, sendo então o conhecimento sobre o mundo produzido nas relações entre uma organização estética e uma organização conceitual.
Para Peirce a ampliação do conhecimento se dá em um processo no qual experimenta-se a intuição abdutiva, quando ainda não se estabeleceu um juízo determinante (conhecimentos estabelecidos), o que aponta a necessidade da consolidação de uma semiótica capaz de teorizar sobre as relações entre a sensibilidade, a produção sígnica e a produção de conhecimento.
As condições nas quais a semelhança é apreendida pela percepção devem ser alvo dos investimentos teóricos e empíricos dos semioticistas, sob o acolhimento dos argumentos psicológicos, a fim de que se possa construir conhecimentos científicos acerca dos modos como a experiência sensível é organizada, como também a própria cognição.
Para o aprofundamento dos estudos sobre
o papel do iconismo na percepção, não se pode interditar
a abordagem dos aspectos psicológicos que envolvem a significação
e que até mesmo antecedem e desencadeiam o próprio processo
de representação, fundante do mundo informacional.
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Sobre a autora / About the Author:
Henriete F. Gomes
henriete@ufba.br
Profª. do Departamento de Documentação e Informação
Instituto de Ciência da Informação
Universidade Federal da Bahia
Mestre em Educação
Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação
da FACED/UFBA