DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.6  n.6   dez/05                            ARTIGO 04

Princípios de Organização e Representação do Conhecimento na Construção de Hiperdocumentos
Principles of knowledge organization and representation in hyperdocument construction
por Maria Luiza de Almeida Campos e Hagar Espanha Gomes




Resumo: Os princípios de organização de conteúdos já estabelecidos no âmbito das Teoria da Classificação e do Conceito fornecem bases teóricas e metodológicas para o planejamento e elaboração de hiperdocumentos. Concebido inicialmente para a elaboração de esquemas de classificação bibliotecária, o Método de Faceta,  elaborado por Ranganathan, mostrou-se útil em várias outras oportunidades de organização de informação- documento, em especial na elaboração de tesauros. O método consiste, de um lado, em identificar classes gerais ou facetas, no interior das quais se inserem as classes específicas e, de outro, em  princípios para relacionar estas últimas. O hipertexto introduziu uma nova tecnologia de estruturação de documentos para permitir navegação através de uma abordagem não-linear ao texto. Mas não se ocupa do conteúdo semântico, que é o objeto deste estudo, em especial na preparação de hiperdocumentos com fins didáticos em ensino à distância. Em um hiperdocumento assume-se que cada pedaço de texto deve ter um conteúdo exclusivo a fim de evitar redundância desnecessária e sobrecarga cognitiva. Documentos sobre uma temática, em especial para fins didáticos, são relativamente simples de redação, por conterem conhecimento já estabelecido, mas têm alguma complexidade em sua estruturação para permitir navegabilidade desejada pelo leitor. Cada pedaço de texto, ou nó, é, na verdade, o desenvolvimento de um conceito, de sorte a produzir pedaços mutuamente exclusivos. Neste aspecto, a Teoria do Conceito complementa o Método de Faceta, ao contribuir para a organização interna do conteúdo de cada nó, pois neste sentido um nó é considerado um conceito. Desta forma, ao definir a abrangência de conteúdo a ser tratado em um nó conceitual deve-se primeiro esgotar todos os elementos que permitem o entendimento deste nó/conceito, ou seja: o que é o conceito e quais os seus elementos constitutivos.
Palavras-chave: Hiperdocumento; Teoria da Classificação Facetada; Teoria do Conceito; Hipertexto de autoria.

Abstract: Hypertext introduced a new technology in document structure so that non-linear reading is possible. But it is not involved with semantic content. Principles for organization of subject content were established in the field of the Faceted Classification and of the Concept theory. They constitute sound theoretical  and methodological bases for  planning and writing hyperdocuments.  Faceted Classification method consists, on the one hand, of identifying general or facet concept classes within which are specific mutually exclusive classes and, on the other, of principles for their organization and relationships. Concept theory provides orientation towards organization of node content.  These are main points for the organization of documents/information. Such theories provide conditions for coherent nodes and contribute to avoid cognitive overload.
Keywords: Hyperdocuments; Faceted Classification Theory; Concept Theory; Hypertext authoring.
 
 
 

1. Uma nova forma de escrita: a escrita hipertextual

A elaboração de hiperdocumentos impõe organizarmos o pensamento em pedaços de informação que se ligam em unidades de conhecimento, que, nos atrevemos a dizer, talvez seja a forma mais natural de escrita. Entretanto, durante séculos, estivemos condicionados à escrita linear devido aos suportes que contiveram esta forma de expressão. Atualmente, com os hiperdocumentos, expressar o pensamento em uma rede de conceitos requer aprender a construir uma nova forma de escrita. É nesta direção que investigaremos a produção de hiperdocumentos.

Desde o berço da civilização o homem documenta as observações e questionamentos da realidade que o cerca utilizando várias formas de suportes. Este processo de deslocamento do mundo físico para o mundo das inscrições, que chamaremos de informação, pode ser entendido como um processo de transporte. Como nos apresenta Latour:
 

"[...] A informação não é um signo, mas uma relação estabelecida entre dois lugares, o primeiro que vem a ser uma periferia e o segundo que vem a ser um centro, com a condição de que entre os dois circule um veículo que freqüentemente chamamos de forma mas que, para insistir em seu aspecto material, eu chamo de inscrição. [...] O que é então a informação? É o que os membros de uma expedição devem levar consigo a fim de que um centro possa obter a representação de um outro lugar. Por que passar pela interpretação de um veículo, de um desenhista, por que reduzi-lo ao escrito, por que simplificá-lo a ponto de antecipar apenas algumas amostras? Por que simplesmente não transportar o lugar, em sua integridade, para o centro? [...] Ora, a informação permite justamente que se conserve a forma sem ter que se embaraçar na matéria. [...] Vê-se que a informação não é uma "forma" no sentido platônico do termo, mas uma relação muito prática e muito material entre dois lugares, onde o primeiro negocia o que o deve ser negociado com o segundo para que seja possível observá-lo e agir à distância sobre ele. Em função do progresso das ciências, da freqüência das viagens, da exatidão dos desenhistas, da amplitude das taxionomias, da envergadura das coleções, da riqueza dos colecionadores, poder-se-á antecipar mais ou menos matéria e carregar com mais ou menos informação veículos de maior ou menor confiabilidade. Assim, a informação não é um signo, mas um ‘carregamento’ colocado em inscrição cada vez mais portáteis e exatas, relativas a uma variedade cada vez maior de matérias. [...]" (Latour, 1996, p.24-26)


A partir desta perspectiva Latouriana, em que a informação não se configura como um objeto, mas antes de tudo é um processo de transporte do mundo fenomenal para um meio/veículo onde o mundo possa ser diminuído, materializado, sintetizado, se tornando concreto, vamos pensar o hipertexto.

Para Latour, alguém só pode começar a conhecer algo (um objeto, uma pessoa) quando este algo é encontrado pela segunda vez. Vários encontros (expedições, investigações) com o evento compõem o que para Latour se chama ciclo de acumulação. Durante os ciclos, eventos, pessoas, espécimes, diagramas, mapas e coisas, que estão distantes, podem ser trazidos para um centro de cálculo através de suas inscrições (ou vestígios) para que então o conhecimento sobre o que está distante (uma pessoa, um objeto) seja produzido.

As inscrições são, assim, produtos de dois objetos, o mundo real e o espírito científico (refletindo-se um no outro), "são imagens virtuais produzidas pelas humildes práticas da escrita e da produção de registros". (Latour, 1985, p.26)

O hipertexto, neste contexto, será definido como um novo veículo textual que se caracteriza como uma inscrição que possibilita uma maior aproximação entre o ato de organizar temáticamente uma idéia/questão e o ato da escrita, pois a escrita hipertextual, como toda produção textual, se realiza através de associação de conceitos interligados formando uma rede de conceitos. Além disso, o hipertexto é o primeiro suporte de escrita que potencializa uma escrita em rede.

A escrita hipertextual como rede não possui um início, um meio e um fim, pois uma rede não possui hierarquias - ela se caracteriza por ter elementos que se associam e se conectam a partir de relações de semelhanças e interesses. A associação que aqui nos referimos não é determinada a priori da elaboração do hipertexto, pois o "sentido emerge e se constrói no contexto, é sempre local, datado e transitório" (Levy, 1993, p.22). O que queremos afirmar é que cada palavra transforma, pela ativação que propaga ao longo de certas vias, o estado de excitação da rede semântica, mas também contribui para construir ou remodelar a própria topologia da rede ou a composição dos nós. (Levy, 1993, p. 24).
 

"O contexto designa portanto a configuração de ativação de uma grande rede semântica em um dado momento. Reiteramos aqui a conversão do olhar já tentada para a abordagem macroscópica da comunicação: podemos certamente afirmar que o contexto serve para determinar o sentido de uma palavra; é ainda mais judicioso considerar que cada palavra contribui para produzir o contexto, ou seja, uma configuração semântica reticular que, quando nos concentramos nela, se mostra composta de imagens, de modelos, de lembranças, de sensações, de conceitos e de pedaços de discursos. Tomando os termos leitor e texto no sentido mais amplo possível, diremos que o objetivo de todo texto é o de provocar em seu leitor um certo estado de excitação da grande rede heterogênea de sua memória, ou então orientar sua atenção para uma certa zona de seu mundo interior, ou ainda disparar a projeção de um espetáculo multimídia na tela de sua imaginação" (Levy, 1993, p. 24)


O conceito de associação ao qual nos referimos – aquele em que contexto possibilita a construção de associações, e também, onde as associações são construídas pelo contexto - permite pensar todo um movimento criativo não somente no ato da leitura, mas fundamentalmente nos processos de elaboração da escrita.

Este artigo discute uma nova forma de escrita, através de uma tecnologia chamada de Sistema Hipertexto que possibilita a elaboração de um produto – o hiperdocumento -, impondo novas formas para a escrita e afetando os processos de linearidade na leitura.

O Sistema Hipertexto possibilita a elaboração de textos não lineares, com uma estrutura complexa, também chamada de hiperestrutura, que consiste em um grafo direcionado onde os nós são trechos de informação e os arcos são elos que ligam estes trechos entre si (Conklin, 1987). Pode ser também definido como uma "abordagem da gestão da informação na qual os dados são armazenados em uma rede de nós conectados por ligações. Os nós podem conter textos, gráficos, áudio e vídeo, bem como programas de computador ou outras formas de dados" (Smith & Weiss, 1988).

Essencialmente, o que caracteriza o hipertexto é sua capacidade de ligação dos conteúdos conceituais no interior de um documento ou de vários documentos, de modo não linear.

Esta capacidade pode ser descrita, segundo Conklin (Conklin,1987), como um meio baseado em computador para o pensar e a comunicação: o processo de pensar não constrói novas idéias uma de cada vez, partindo do nada, e cada idéia se transformando numa pérola acabada. O pensar parece antes proceder de várias frentes para uma única, desenvolvendo e rejeitando idéias em diferentes níveis e em diferentes pontos em paralelo, cada idéia dependendo de outras e contribuindo para outras; o processo de comunicação é, na prática, serial e limitado ao processamento lingüístico. Comentários relacionados, notas de rodapé, referências cruzadas são recursos do autor para informar ao leitor que ali estão informações úteis, caso ele esteja interessado.

Assim, o hipertexto tem uma vocação maior, que está além de suas possibilidades tecnológicas, que é o de ser um instrumento de representação de conhecimento através de uma nova forma de organização das informações para o ato da escrita.

Atualmente, através desta nova tecnologia intelectual, é possível dissociar também o processo de leitura do processo de escrita. O hipertexto permite que se realize um processo associativo e não-linear de leitura. O que nos leva a repensar os processos ligados à ordenação de idéias que se refletem nos modos de organização de escrita, ou seja, novos processos para uma nova forma de escrita – a escrita em rede. Neste contexto, investigamos um tipo de hipertexto denominado de hiperdocumento, com a finalidade de apontar marcos teóricos e metodológicos que possam auxiliar na sua elaboração.
 

2. Hiperdocumento

A tecnologia de hipertexto permitiu unir os processos de escrita e leitura, de forma não-linear. Ao escrever um texto, em suporte de papel, o autor realiza um processo linear, onde as cadeias lógicas de raciocínio devem ter início, meio e fim. O processo de leitura vem-se adaptando há milhares de séculos a este processo linear da escrita; mas o processo de leitura é por natureza não-linear. Quanta das vezes depara-se o leitor com a busca de outros documentos que possam auxiliar a definição de um termo, a contextualização histórica da temática apresentada, a determinação da escola de pensamento do autor, entre outras questões. Com a tecnologia de hipertexto, o autor apresenta para o leitor possibilidades de direção de leitura. Nos hiperdocumentos, essas possibilidades evidenciam a dimensão conceitual que o autor empregou em seu texto. Toda "navegação" possível de ser feita está condicionada a esta dimensão conceitual, pois o hiperdocumento se caracteriza por ser um hipertexto fechado e por estar dentro de um domínio de aplicação/conhecimento, com ligações explícitas entre os nós. (Campos, 1999)

Além disto, as possibilidades tecnológicas trouxeram também, neste caso, toda uma discussão a respeito de como construir hiperdocumentos e como resolver problemas inerentes a este novo objeto, ou seja, o transbordamento cognitivo, também denominado de sobrecarga cognitiva e desorientação.

A sobrecarga cognitiva pode ocorrer tanto na etapa de autoria do hiperdocumento quanto na de leitura. Para o autor do hiperdocumento, pode ser considerada como uma sobrecarga mental, pois é necessário nomear nós e definir relações semânticas entre eles. Para o leitor, esta sobrecarga ocorre pela constante escolha de opções e caminhos a trilhar. A desorientação ocorre quando o leitor se sente perdido na teia de informação, perdendo a noção de onde se encontra no caminho percorrido, ou seja, no conjunto informacional da aplicação. (Conklin, 1987). A compreensão na leitura de um documento é um dos principais propósitos de um leitor e isto não é exceção para um hiperdocumento.

Por outro lado, a legibilidade de um documento é definida como o esforço mental despendido no processo de construção. Assim, se queremos aumentar a legibilidade de um hiperdocumento, precisamos ajudar os leitores na construção de seus modelos mentais, fortalecendo fatores que apóiam este processo e enfraquecendo aqueles que o impedem. Neste caso, fortalecendo a coerência e enfraquecendo a sobrecarga cognitiva. (Thuring et al.1995)

Para garantir a coerência no nível do nó é necessário repensar os processos de escrita, que se configuram na estrutura do texto do nó conceitual. Sendo o hiperdocumento um novo meio textual de informação, é necessário pensar em uma nova retórica e estilo para a produção do texto. Alguns autores, atualmente, investigaram nesta direção ( Landow, Moulthrop, 1992), mas é importante considerar estas questões da escrita no momento em que o nó conceitual é elaborado.

O que vem sendo feito, em maior escala, é a conversão de textos produzidos linearmente para a forma hipertextual. O produto gerado através deste processo nem sempre é a melhor opção para garantir coerência do texto no nível do nó. (Nilsen, 1993)

No contexto do hiperdocumento, podemos pensar no papel do autor e no papel do leitor enquanto ação interpretativa. Desta forma, a Análise de Discurso de linha francesa, coloca-nos frente a fenômenos lingüísticos[1] que possibilitam ou dificultam os sentidos na formação discursiva, neste caso, na construção textual.

O texto é uma unidade de sentido a partir de uma significação discursiva, ou seja, o texto, na análise do discurso, é visto como a materialidade do discurso. É necessário pensar as condições de produção do texto, neste caso, do texto em forma de hiperdocumento.

A escrita hipertextual inaugura um novo processo de autoria. Ao escrever um texto em hipertexto, o autor, além de ter domínio da temática sobre que se propõe a escrever, precisa dominar, também, esta nova tecnologia intelectual. O hiperdocumento possui uma nova materialidade discursiva onde se configura uma forma de escrita que não utiliza mais o lápis, e o papel e o pensamento linear, mas que se coloca entre as possibilidades tecnológicas de interface homem-máquina e as possibilidades da própria construção discursiva e de ordem de um dado domínio de conhecimento.

Para garantir a coerência entre os nós, os autores devem limitar a fragmentação característica do hiperdocumento.
 

"Esta característica parece ser endêmica nos hiperdocumentos e resulta da segmentação da informação em nós disjuntos e sua apresentação em janelas separadas. A fragmentação pode resultar numa falta de contexto interpretativo e assim deixar a impressão de que o hiperdocumento é um agregado de pedaços de informação reunidos frouxamente e não um todo coerente." (Thuring et al. 1995.p.60)


Uma medida que pode reduzir esta impressão é representar, explicitamente, os relacionamentos entre os nós..Além disto, é de fundamental importância que o autor de um hiperdocumento possa ter diretrizes consistentes na etapa de planejamento do texto e navegação/ leitura para a elaboração de hiperdocumentos.
 

3. O planejamento de hiperdocumentos e as bases teóricas da Organização e Representação do Conhecimento.

O planejamento de um hiperdocumento visa estabelecer, de um lado, a estrutura do texto, buscando criar nós mutuamente exclusivos. Esta é uma ação que pode evitar desorientação. Para tanto, deve ser concebido numa visão sistêmica a qual, naturalmente, fornece a priori indicações para algum tipo de relacionamento. De outro lado, deve considerar os princípios para ligação entre os nós.

O planejamento pode considerar, ainda, os níveis de necessidade dos leitores a quem se destina o hiperdocumento, contornando o aspecto da sobrecarga cognitiva, a saber, oferecendo a possibilidade do leitor encontrar a informação no nível desejado - apenas indicação, ou aprofundamento do conceito[2].

A estrutura do hiperdocumento consiste, então, em estabelecer as unidades conceituais/os nós e ligações entre eles de sorte a garantir consistência do documento como um todo. Em certa medida, os hiperdocumentos podem ser comparados a um sistema de conceitos, pois são nós conceituais ligados a outros nós através de um dado nível de relação Acoplado ao "ser hipertextual" existe uma ação classificatória: as ligações entre os nós são implantadas a partir de uma rede de associações.

Para estabelecer nós mutuamente exclusivos, a Teoria de Classificação Facetada de Ranganathan fornece os princípios básicos para as relações lógicas. Um desses princípios o da exclusividade, determina que em cada classe de conceito devam ser esgotadas todas as características e propriedades que compõem aquela classe, ou seja, um dado conteúdo só deve pertencer àquela classe e não a outra. No caso do hiperdocumento, um nó deve ser trabalhado desta forma, como um todo coeso, para que depois possa dele se fazer diversos usos.

Sendo cada nó uma unidade conceitual, encontram-se na Teoria do Conceito os elementos que norteiam o desenvolvimento daquele fragmento de texto.

O planejamento consiste, então, em identificar as classes gerais e, no seu interior, as específicas, e os relacionamentos genéricos e semânticos/associativos, contribuindo a Teoria de Classificação Facetada para esta identificação. Para a identificação do conteúdo de cada nó contribui a Teoria do Conceito, como se verá a seguir.

3.1 Princípios da Teoria da Classificação e da Teoria do Conceito e a aplicação em hiperdocumentos
Na elaboração de hiperdocumentos nos deparamos com as seguintes questões: Como "recortar" a temática a ser apresentada em unidades que possibilitem o entendimento do leitor? 2. Como, no interior de uma unidade, deve-se relacionar os conceitos de forma a auxiliar o processo de compreensão do texto? Estas duas questões nos colocam frente a problemas relacionados com a classificação dos conteúdos informativos de hiperdocumentos, que estão relacionados com a problemática cognitiva, ou seja, proporcionar ao leitor uma leitura (navegação) que possua uma coerência conceitual e produza sentido.

Quanto à primeira questão, consideramos que princípios desenvolvidos por Ranganathan possam auxiliar nos procedimentos relativos a forma de determinação das unidades temáticas. Entretanto, sabemos que Ranganthan elabora sua Teoria da Classificação com o intuito de criação de tabelas de classificação. A leitura que fazemos deve ser vista como uma apropriação de aspectos visando atender a elaboração de hiperdocumentos.

A Teoria da Classificação Facetada foi desenvolvida por Shiyali Ramamrita Ranganathan na década de 30, visando evidenciar os princípios utilizados na elaboração da Colon Classification (também denominada de Classificação de Dois Pontos), tabela de classificação elaborada para a organização do acervo da Biblioteca da Universidade de Madras, na Índia. ( Ranganthan, 1967)

A Teoria de Ranganathan consiste na classificação de idéias/conceitos em Facetas (classes gerais num domínio do conhecimento) que são manifestações de Categorias Fundamentais (classes gerais). Ranganathan identifica cinco Categorias Fundamentais (Personalidade, Matéria, Energia, Espaço e Tempo), que agem como uma orientação para se pensar na estruturação / organização de qualquer domínio. Ela consiste em identificar as possíveis classes gerais (categorias) de conceitos em qualquer área do conhecimento, facilitando, assim, a análise de sua estrutura conceitual. O postulado das Categorias é um princípio normativo adotado para organizar um Universo/Domínio, ou seja, um "corpo" de conhecimento sistematizado. Podemos considerar um hiperdocumento como um sistema que se constitui de unidades conceituais que se relacionam de maneira consistente.

Podemos afirmar que, à semelhança do que ocorre nos documentos textuais, às unidades em um hiperdocumento estão reunidas de uma forma policotômica, revelando que a formação dos assuntos tratados em um hiperdocumento é complexa. Ranganthan propõe uma nova forma de analisar um dado domínio de conhecimento, que nos parece útil para se pensar os domínios de assunto em um hiperdocumento. Esta nova forma de analisar apresenta como princípio classificatório não mais uma metodologia dicotômica/binária, ou decatômica e sim uma policotomia ilimitada. Os métodos de divisão, ou seja, aqueles que auxiliam a organização do conhecimento em um dado domínio foram durante muitos séculos dicotômicos Na dicotomia encontram-se duas divisões no primeiro estágio, duas divisões de cada uma destas divisões são formadas no segundo estágio e assim por diante, a representação esquemática da dicotomia chama-se "Árvore de Porfírio". No âmbito da representação de assuntos que ocorre nos documentos esta forma de classificação falha, pois os assuntos dos documentos não fazem parte de um domínio de conhecimento somente, muito pelo contrário, eles são complexos. A analogia que apresenta Ranganthan, com a "Árvore Baniana"- tipo de figueira indiana, que se espalha por uma grande área enviando galhos para o solo, os quais criam raízes formando vários troncos.- é muito mais apropriada. A representação da Árvore Baniana apresentada por Ranganthan para manifestar seu princípio norteador de divisão de um domínio de conhecimento, ou seja, o princípio das categorias, pode também ser estendido para o universo dos hiperdocumentos, pois é necessário pensar as temáticas tratadas com uma abrangência conceitual que não está relacionada somente a uma raiz/núcleo, mas a diversos núcleos, dependendo da forma como as unidades de conhecimento se relacionam.

Desta forma, a categorização ( também denominada de método de facetação) é um processo que requer pensar o domínio de forma dedutiva, ou seja, determinar as classes de maior abrangência dentro da temática escolhida. Na verdade, aplicar a categorização é analisar o domínio a partir de recortes conceituais que permitem determinar a identidade dos conceitos (categorias) que fazem parte deste domínio. Em um hiperdocumento, a categorização além de possibilitar a determinação da forma como a temática do documento será "recortada", ou seja, classificada para formar um todo coerente; serve também, para auxiliar na elaboração do conteúdo do nó conceitual. Como a escrita modelar reúne pedaços de informação, se faz necessário selecionar os grupos de informação. Assim, se em determinado nó a questão tratada diz respeito às propriedades do leite, o seu processo de industrialização deve ser tratado em um outro nó para que se possa ter uma coerência lógica na distribuição dos conteúdos. Esta coerência já deve estar prevista na elaboração do hiperdocumento através da análise de seleção de conteúdos que passam por uma perspectiva lógica de classificação das relações de uma mesma ou de diferentes categorias.

Dizemos que a categorização é um procedimento estabelecido pelo Método de Facetas, porque as facetas são consideradas manifestação das categorias dentro de um domínio.

O Classification Research Group, na Inglaterra, identificou categorias que ocorrem com mais frequência, e que, de fato, são desdobramentos das Cinco Categorias Fundamentais de Ranganathan. (Vickery, 1966, p. 46-47) São elas: coisas, substâncias, entidades que ocorrem naturalmente; suas partes; sistemas de coisas; atributos de coisas; objeto da ação (paciente); relações entre coisas, interações; operações sobre coisas; propriedades de atributos, relações e operações; lugar; condição;tempo.

As categorias apresentadas acima podem ser vistas como um roteiro de análise de um dado tópico que se queira desenvolver O conteúdo das facetas com suas classes específicas pode ser considerado como fragmentos de texto – os conceitos - que estão relacionados hierarquicamente. A análise de conteúdo de cada fragmento pode revelar outras espécies de relacionamento.

No que diz respeito à segunda questão, apresentada no início desta sessão, ou seja, possibilitar no interior de uma unidade temática do hiperdocumento relacionamentos consistentes entre as unidades conceituais ali apresentadas, consideramos que os princípios desenvolvidos por Dahlberg em sua Teoria do Conceito ( Dahlberg, 1978) possibilita um nível de coerência e consistência entre as unidades conceituais.

A Teoria do Conceito possibilitou uma base mais sólida para a determinação e o entendimento do que consideramos conceito, para fins de representação/recuperação da informação. Dahlberg desenvolve esta Teoria nos anos 70, visando adotar princípios para a elaboração de terminologias no âmbito das Ciências Sociais (Dahlberg, 1978). Nesta mesma época, evidencia a ligação entre a Teoria do Conceito e a Teoria da Classificação (Dahlberg, 1978a). Posteriormente, utiliza a Teoria do Conceito no campo das linguagens documentárias de abordagem verbal, especificamente para a elaboração de Tesauros. Nesta comunicação interessa-nos ressaltar os princípios que regem a Teoria do Conceito e que serão úteis na elaboração de hiperdocumentos.

No hiperdocumento um nó conceitual se caracteriza por ser uma unidade de conhecimento – o conceito (Dahlberg) que corresponde à menor unidade de informação da temática a ser tratada, e é considerado o elemento que permite ao leitor traçar seu caminho de leitura.

Uma das primeiras questões que se coloca quanto à natureza do conteúdo dos nós de um hiperdocumento é a utilização de uma etiqueta lingüística apropriada para um determinado conteúdo temático. Caso contrário, isto pode levar o leitor a uma sobrecarga cognitiva e prejudicar o entendimento do texto. Para garantir uma certa univocidade entre a etiqueta lingüística empregada e o conteúdo comunicado, é necessário seguir o princípio de univocidade relativa apresentado na Teoria do Conceito e que teve origem na Teoria da Terminologia de Wuester ( Wuester, 1981) . O principio evidencia que para cada etiqueta lingüística, ou seja, a forma verbal, devemos ter somente um conteúdo significativo em um dado domínio representando um referente no mundo fenomenal.

Uma outra questão, em que princípios estabelecidos na Teoria do Conceito podem ser úteis para garantir a consistência no nível do nó conceitual em um hiperdocumento, é como garantir coerência no interior de um nó e entre os nós.

Assim, a questão que sempre se coloca na modelização dos conteúdos dos nós é como separar estes "pedaços de informação", para que depois possam ser interligados pelo leitor do documento através da navegação. Se, no primeiro nível, foi possível identificar as temáticas tratadas pelo hiperdocumento como um todo e definir o que denominamos de estrutura da obra, através de princípios da Teoria da Classificação Facetada, agora é necessário estabelecer os critérios para relacionar os conteúdos de forma consistente.

Nesta perspectiva, o nó conceitual é definido como um conceito geral (Teoria do Conceito) que é representante de uma classe de conceito. Assim, ao se definir a abrangência de conteúdo a ser tratado em um nó conceitual, deve-se primeiro esgotar todos os elementos que permitem o entendimento do que é o conceito e quais são os seus elementos constitutivos. No caso do hiperdocumento, um nó deve ser trabalhado desta forma, como um todo coeso, para que depois possa dele se fazer diversos usos. Esses elementos apresentam-se na definição conceitual, elaborada por Dahlberg na Teoria do Conceito.

Dahlberg classifica as definições em nominal, ostensiva e conceitual. Esta última é a que nos diz respeito, pois fornecerá elementos para estabelecimento de links/relações entre os fragmentos de texto. Ela se desdobra em definição genérica – que produz relações hierárquicas, a definição partitiva, que produz a relação todo-parte, a definição por negação, que é rara, mas que produzirá o relacionamento de oposição e, finalmente, a definição que caracteriza a função do objeto, o que produzirá relacionamento funcional. (Dahlberg ,1983).

No espaço da elaboração de uma escrita modelar, como a que se dá nos hiperdocumentos, entender a natureza das relações é imprescindível. Elas devem ser regidas por princípios classificatórios, pois uma simples conexão entre os nós, sem princípios pautados por relacionamentos lógicos e ontológicos, acaba acarretando ligações que nem sempre são as mais apropriadas.

Assim, os seguintes tipos de relações devem orientar o autor do hiperdocumento no momento de sua elaboração.

Relação Hierárquica - relacionamento que possibilita a ordenação, entre os nós conceituais de um hiperdocumento, de uma linha de raciocínio onde as idéias estão interligadas por uma sucessão lógica. Isto quer dizer que esta relação representa seqüências de idéias interligadas de mesma natureza, formando cadeias e renques lógicos de conceitos que poderão constituir um só nó. Um exemplo deste relacionamento, no domínio de um hiperdocumento sobre a elaboração de tesauros, é a ligação que deve existir entre o nó conceitual "Tesauro" e os tipos de tesauros existentes como: "Tesauro Multilíngue" , "Tesauro Monolíngue", entre outros tipos.

Relação Partitiva - relacionamento que possibilita a ordenação, entre os nós de um hiperdocumento, de uma linha de coordenação ontológica. Isto significa dizer que esta relação evidencia seqüências de idéias entre os elementos que constituem o objeto ou entre as etapas de um processo. Como as relações hierárquicas, a relação partitiva estabelece uma certa prerrogativa de precedência entre os nós conceituais que fazem parte deste relacionamento, o que é de suma importância para textos didáticos. Por exemplo, no domínio da temática tesauros, um nó conceitual que trate do "Planejamento do Tesauro", representa conceitualmente o processo de organização de um tesauro. Como todo processo possui etapas, que podem ser definidas como partes do processo no tempo e no espaço; para o entendimento dos procedimentos de "Planejamento do Tesauro" é necessário estabelecer ligações com os conceitos de "Delimitação da Área"; "Público Alvo"; "Levantamento das Fontes"; "Formas de Apresentação", para citar alguns dos conceitos partitivos relacionados.

Relação funcional-sintagmática: relacionamento que estabelece ligações entre nós conceituais de natureza diferente, e que não são classificados como uma parte ou etapa de um conceito. Por exemplo: a partir de um conceito que denote um processo ou operação, leva a conceitos que suplementam essas ações, como na seguinte seqüência: produção – produto – produtor – comprador. Seguir princípios estabelecidos que identifiquem como podem se relacionar conceitos de natureza diferente, permite que se elabore hiperdocumentos que não dêem a impressão de um agregado de informação que se reúne "frouxamente", mas de um relacionamento que se constrói sob uma perspectiva lógica/coerente. Um exemplo de estabelecimento deste relacionamento em um hiperdocumento, ainda no domínio de tesauros, é a ligação que se estabelece entre uma entidade e um processo, como o Tesauro e seu Planejamento.
 

4. Considerações finais: a navegação nos hipertextos

A navegação é o espaço do leitor. O objetivo da tecnologia do hipertexto é a navegação. As Teorias utilizadas contribuem cada uma a seu modo para a navegação que, num hiperdocumento visa, entre outros, oferecer uma seqüência, que é a proposta do autor, mas não é a única.

No hiperdocumento, o leitor encontra direções que o autor sugere a partir do planejamento – as ligações a priori. – e outras ligações exigidas pela redação. São ligações que o leitor vai encontrando à medida que navega, aceitando as opções ou não. Mas esta pode não ser a forma mais ao gosto do leitor.

Por exemplo, num hiperdocumento para fins didáticos o autor procura conduzir o leitor segundo uma priorização dos conceitos. Esta priorização é indicada pelos botões ao final de cada página e também no sumário geral ou nos sumários de tópicos complexos, os quais fornecem de pronto uma visão ampla do conteúdo daquele tópico.

Outra forma de navegação proposta pelo autor reside na própria redação do conteúdo. Por vezes é preciso mencionar no texto algum conceito que está desenvolvido em algum ponto do hiperdocumento. Para evitar que o leitor se perca pulando logo para um ponto que pressupõe domínio de conceitos anteriores, pode-se estabelecer um link apenas para um glossário com a definição ou explicação breve de cada conceito. Se esta dependência não existe, o link pode levar o leitor direto do link para o tópico desejado. A experiência mostra que, no primeiro caso, ao consultar o glossário o leitor pode encontrar uma indicação do tipo "Saiba mais"e continuar, sob sua responsabilidade, a navegação. Isto pode levá-lo a uma desorientação.

Se ele pode iniciar a navegação a partir de qualquer ponto, há pelo menos duas formas de fazê-lo. Uma delas, é a oferta de um plano sistemático dos conceitos desenvolvidos nos nós, a outra, a oferta de uma lista alfabética daqueles nós. Estes dois mecanismos ajudam o leitor a se orientar novamente, quando for o caso.


Notas

[1] Fenômenos lingüisticos como a polifonia, a pressuposição, a negação, o discurso direto e indireto, as palavras entre aspas, o metadiscurso, a parafrasagem, a ironia, imitação, o pastiche. (MAINGUENEAU, 1987).

[2] Emprega-se o termo ‘conceito’ tendo em vista que, no hipertexto, cada nó é um conceito (Rumbaugh)
 

Referências bibliográficas

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Sobre as autoras / About the Authors:

Maria Luiza de Almeida Campos
mlcampos@nitnet.com.br

Doutora em Ciência da Informação
Universidade Federal Fluminense
Endereço: Rua Tiradentes 210, apt. 602
Ingá, Niterói - RJ- Brasil
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Hagar Espanha Gomes
hagarespanha@terra.com.br

Livre Docente
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Santa Rosa, Niterói -RJ Brasil
CEP 24240-260