DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.6  n.6   dez/05                            ARTIGO 05

O paradigma biológico do conhecer e a questão da informação
The biologic paradigm of to know and the information question
por Pablo Marcos Derqui




Resumo: O conceito de informação é abordado em sua dimensão paradigmática, analisando-se a questão pelo prisma do paradigma da complexidade da auto-organização em biologia, representado pela teoria da autopoiese. Através dessa análise tenta-se redimensionar a questão da informação, e suas conexões com o conhecimento, a partir da natureza biológica do ser humano, abordando assim uma perspectiva epistemológica nova para a  Ciência da Informação.
Palavras-chave: Paradigmas em Ciência da Informação; Epistemologia da Ciência da Informação; Conceito de Informação; Conceito de Conhecimento; Auto-organização; Autopoiese. Biologia do conhecer.

Abstract: The concept of information is approached in its paradigmatic dimensions, analysing the question by the prism of the auto-organization complexity paradigm, represented by the autopoetic theory. Through thus analysis of the question of information, and its correlations with knowledge from the human being biological nature, a new epistemologic perspective is proposed to understand the role of the Information Science.
Keywords: Paradigms in Information Science; Epistemology of Information Science; Concept of Information; Concept of Knowledge; Auto-organization; Autopoiese; Biology of awareness.
 
 
 

Introdução

Em uma Dissertação de Mestrado já defendida (DERQUI, 2004), investigamos os conceitos de informação e conhecimento através das conjunturas paradigmáticas que moldam essas conceituações. O ponto crítico desse trabalho foi, em primeiro lugar, equilibrar o que se conhecia sobre o tema (os conceitos de informação e conhecimento) para poder estabelecer, então, uma diferença entre aquilo que precisamos conservar em nosso conhecer (as noções que já utilizamos, de um modo ou de outro, sobre esses conceitos) e aquilo que precisamos mudar em nosso entendimento da questão para dizermos que nos informamos, isto é, que a abordagem utilizada para o problema mostrou algo novo ou relevante. Nessa dissertação, a questão era apresentar uma nova abordagem paradigmática para o fenômeno da informação e do conhecimento, o que tentaremos aqui novamente mas de forma simplificada. Apresentar algo que consideramos novo é um processo difícil, porque se nos determos em demasia naquilo que é comum, comunicável, estaremos apenas conservando um certo conhecer, confundindo a recorrência deste último com informação; se, por outro lado, acentuarmos demais a mudança, podemos nos alienar em relação ao background comum (social e culturalmente construído) do nosso conhecer, e a diferença, por não achar um solo seguro a partir do qual possa ser apreciada, pode se dissipar como a estrutura instável de uma bolha de sabão. E sem essa diferença, não podemos reorganizar nosso conhecer, não podemos dizer que nos informamos ou que tentamos compartilhar essa informação. Curiosamente, portanto, o processo que empreenderemos (fazer uma diferença em nosso conhecer que possa ser compartilhada como informativa) para esclarecer o tema, é o próprio tema de que nos ocuparemos: o que se quer dizer com passagem de uma informação? O que é essa questão da informação, afinal?

De certa forma, poderia ser dito que um conceito de informação já foi utilizado no parágrafo anterior (e para o qual voltaremos mais adiante). Contudo, a questão (da informação) subsiste, principalmente, porque ela continua a ser formulada (tanto em CI quanto no senso comum do dia-a-dia) de um mesmo modo, cristalizado na pergunta: o que é informação?

Ora, se perguntamos o que é informação é porque, de algum modo, já queremos que nosso interlocutor nos responda que informação é algo, uma coisa, um fenômeno apreensível, um objeto transacionável. Estamos, dessa maneira, perpetuando um modo de conhecer a questão. Por mais que sofistiquemos a pergunta, se continuamos a perguntar por um objeto sempre estaremos esperando que a resposta nos fale de um objeto. Se configurarmos em nossa pergunta a informação como algo já dado, pré-existente, estamos já configurando um modo de conhecer o fenômeno da informação, fechando o acesso ao questionamento desse mesmo fenômeno.
 

O fenômeno da informação

Temos, então, que nos questionar sobre a pergunta. Por que nos perguntamos o que é informação, e não o que é o fenômeno da informação? Se não perguntamos pelo fenômeno (ou seja, se não perguntamos como isto vem a ser isto?), é por acharmos que este é auto-evidente. Podemos intuir que fazemos isso, basicamente, porque julgamos que nossas mudanças são desencadeadas por um agente externo, a informação, a qual gera, por conseqüência, o conhecimento. Não chegamos a esse julgamento por motivos triviais, mas porque, ao nos acercarmos de um fenômeno, lançamos mão de algo semelhante que sirva de comparação com aquilo que queremos explicar. No caso, comparamos a informação com tudo que também pensamos que nos modifica, o alimento, o ar, as coisas e o movimento das coisas que nos perturbam, e assim achamos que estas estruturas possuem propriedades que determinam nossas mudanças (o alimento amargo nos enoja, o ar frio nos faz tiritar) e, vendo a informação como mais uma estrutura, ela também pode nos modificar. Utilizamos essa comparação como um recurso explicativo quando dizemos que a informação é "como um alimento para alma", ou mesmo quando usamos a expressão "fluxo informativo", comparando-a com outros fluxos materiais que trazem mudanças.

Podemos chamar a esse recurso de metaforização, no qual procuramos compreender algo utilizando uma outra coisa no lugar e que, pela sua familiaridade, é mais fácil de manejar. Porém, a metáfora, neste caso, não é um recurso de expressão, mas de tentativa de explicação. Para um poeta, dizer que ‘fulano é uma máquina pensante’ é forma de expressar uma qualidade ou sentimento associado ao termo máquina. Para um cientista, porém, não há nenhum interesse nas qualidades ou sentimentos relacionados com o termo máquina, mas sim em como podemos usar o exemplo de organização de uma máquina para estabelecer um paralelo com a organização da mente. Da mesma forma, quando utilizamos uma metáfora para explicar o fenômeno da informação, o fazemos pensando em algo cuja organização seja semelhante àquilo que pretendemos explicar. Não por acaso, os exemplos de metáforas usados para entender a informação foram se valendo, sucessivamente, das estruturas que supomos conterem informação: primeiro os materiais impressos, os livros, depois as bibliotecas e, atualmente, os computadores e as redes de computadores.

Esse recurso, porém, guarda uma armadilha: o uso recorrente dessas metáforas pode tornar-se um padrão, ou mais que isso, um verdadeiro paradigma e, como explicou Thomas Kuhn (2001), paradigmas tendem a substituir os fenômenos na explicação que destes tentamos fazer. É nessa substituição (explícita ou implicitamente acatada) que reside o problema, porque na aproximação entre um fenômeno familiar e outro não, para fins de comparação, podemos facilmente confundir a similaridade entre os fenômenos com uma equivalência entre eles, não distinguindo as diferenças organizacionais entre as estruturas desses fenômenos. Outra conseqüência negativa dessa confusão é que quando alguém propõe eliminar ou reestruturar o paradigma reagimos mal pensando que é o próprio fenômeno que se está propondo acabar, impedindo assim que se note a natureza metafórica do paradigma.

É nessa confusão entre organização e estrutura que reside, também, uma explicação para o porquê de sempre fazermos a pergunta da informação como coisa geradora. É irresistível que no cotejamento entre um fenômeno inapreensível (as nossas mudanças comportamentais) e um fenômeno cotidiano reconhecível e, sobretudo, manejável (o livro, o documento, os bits) tomemos as estruturas destes últimos como possuindo uma organização parecida com a organização das estruturas que perfazem o comportamento (isto é, o comportamento de informar-se).

Como poderíamos, porém, nos aproximar do fenômeno da informação sem apelar para metáforas que confundem estrutura e organização? Uma resposta óbvia seria distinguindo claramente o que é estrutura e o que é organização, no fenômeno da informação, e relacionando esta distinção com as metáforas que usualmente aplicamos à informação. Para isto, porém, é necessário que nos detenhamos em o que queremos dizer por estrutura e organização [1], senão não seremos capazes de dizer se os cotejamentos que realizamos (as metáforas) são válidos em relação à organização dos fenômenos que comparamos.

Para chegarmos a uma distinção entre organização e estrutura precisamos assumir, porém, um modo diferente de explicar os fenômenos, no qual a descrição deste último não precisa ser a sua representação. Tradicionalmente, a representação é a caracterização das propriedades do fenômeno ou objeto, as quais assumem a tradução destes últimos num caráter mais ou menos objetivo. Porém, ao assim procedermos, podemos cair na ilusão de estarmos "resgatando" através da descrição a essência constitutiva do objeto/fenômeno. Desse modo, estamos sempre explicando os fenômenos à partir da lógica da descrição; ou seja, tudo tem um ponto fundante à partir do qual os fenômenos tem sua causa e se articulam. Abandonar essa linearidade (ou hierarquização) da explicação não é fácil e nem comum, mas a ciência contemporânea tem adotado cada vez mais um modo diferente de explicar, um modo podemos chamar de complexo. Nesse modo, a observação de um fenômeno (isto é, apontar sua existência) é dizer como ele está organizado, e isto significa dizer como suas partes (estruturas) estão relacionadas e até que ponto podemos mudar essas estruturas sem que a relação que mantém a organização do fenômeno se desfaça.

Por exemplo, podemos observar várias formas de asas em um avião, mas nós só teremos um avião enquanto essas formas (estruturas) mantiverem uma certa relação com outras estruturas (como a fuselagem ou forma dos profundores). Se estivéssemos falando de um ponto de vista clássico, diríamos que estamos nos referindo à "essência" do avião. Porém, desse ponto de vista, estaríamos falando de propriedades fixas e atributos, e então fecharíamos a explicação apenas à descrição de sua estrutura. Esta é a distinção que devemos fazer no modo complexo entre organização e estrutura: a simples descrição de uma estrutura (forma, cor, composição, ou outros atributos) não encerra a organização de um fenômeno, aquilo que o distingue de outros fenômenos. Como diria Edgar Morin, não se trata de descrever uma diferença na substância, mas de descrever uma diferença de organização entre os fenômenos. A organização de um fenômeno não procede das estruturas que a implementam, porque existe como tal para vários tipos de implementação estrutural.

O que é, então, a explicação de um fenômeno? Não é a descrição linear de suas propriedades e características, porque senão estaremos atribuindo a organização desse fenômeno a uma descrição da estrutura, em vez de mostrarmos como essa estrutura se articula de modo tal a observarmos o fenômeno, ou seja, como este último "surge". Uma explicação (científica ou não) deve tentar, ao descrever estruturas, identificá-las como compondo uma articulação na qual se estabelece uma relação tal entre suas unidades que podemos, então, observar o fenômeno que propomos existir. Se propomos que a informação existe, deveríamos poder dizer quais as estruturas envolvidas e quais as relações possíveis entre elas afim de que possamos observar a informação enquanto fenômeno. Este é, porém, o maior problema da Ciência da Informação: gerar uma explicação para um fenômeno que envolve estruturas díspares em sua organização, como o organismo humano (e suas estruturas cognitivas) e as estruturas de inscrição da informação (os signos fisicamente configurados). É a tentativa de abarcar essas estruturas em uma única explicação que não diferencia seus níveis organizacionais que leva a paralelismos inadequados entre estruturas baseando-se apenas em semelhanças (como confundir a condução de elétrons em circuitos computadorizados com as conexões sinápticas do sistema nervoso). É essa confusão que leva à descrição do fluxo físico de documentos ou de dados com um "fluxo informacional". Para contornar esse problema conceitual da CI, portanto, propomos uma abordagem que diferencie os níveis organizacionais das estruturas envolvidas no fenômeno da informação, começando pela organização do usuário da informação (ou seja, começando pelo ser humano enquanto estrutura biológica).

O problema da fenomenologia da informação será, assim, explicado a partir das estruturas que em última instância são as que realmente produzem informação: as estruturas vivas. Maturana e Varela (1999, 2001, 2002) são dois autores que se dedicaram a compreender o que são essas estruturas e o que as singulariza enquanto fenômeno. Em sua abordagem, eles lançaram mão do recurso de simplificar a escala da estrutura, para tornar mais fácil explicar como uma estrutura se organiza a ponto de podermos dizer que ela está viva. O que eles examinaram, enfim, foi a célula, e tomaram a organização desta como paradigma para explicar o vivo. Em síntese, o que a explicação deles diz é que o vivo surge quando substâncias se agregam num ciclo fechado de produção das estruturas que mantém esse próprio ciclo. A célula, portanto, surge como o exemplo mais cabal desse conceito: as substâncias celulares participam da construção da estrutura que as mantém num ciclo fechado (a membrana), e esta própria membrana participa na produção das substâncias que a estruturam, fechando o ciclo. Portanto, pode-se dizer que unidades vivas autoproduzem-se, derivando dessa descrição o termo autopoiese (auto, por si mesmo, e poiese, produção) para denominar a teoria dos autores.

O que os autores notaram, porém, é que o seu conceito de vida tinha uma implicação mais ampla, que alcançava fenômenos que costumamos descrever como mente, informação ou inteligência, por serem abarcados numa explicação do processo de viver como um processo de conhecer (mas de conhecer no regime dos sistemas autopoiéticos). O conhecer surge ele próprio como sinônimo de vida, e não como uma propriedade desta, dependente do advento de estruturas sofisticadas (como o cérebro). Todo sistema autopoiético (ou seja, todo sistema vivo) é um sistema de conhecer. Por outro lado, não podemos falar de conhecer fora dos sistemas autopoéticos, o que tem conseqüências sobre o nosso entendimento do que seja o fenômeno da informação. A implicação disso para uma noção de informação deriva das seguintes considerações feitas a partir da organização da vida como um sistema autopoiético:

1) Um sistema está vivo quando notamos que ele se modifica continuamente para manter a organização de uma fronteira que o distingue de todo o resto (sua identidade). Suas estruturas estão sempre em continua mudança e abertas para os influxos de matéria e energia do meio, mas o critério de organização destas mudanças está comprometido com a manutenção dessa fronteira. A manutenção da vida é a manutenção dessa fronteira. Um ser vivo começa a morrer quando a coordenação entre as estruturas que mantém sua organização torna-se deficiente. Essa coordenação, porém, só é possível se o sistema for operacionalmente fechado no nível da sua organização. Se as estruturas vivas fossem abertas a instruções (isto é, se permitissem que a configuração de suas estruturas pudesse ser determinada a partir de fora do organismo) o sentido de uma organização iria até onde todas as instruções possíveis o permitissem – algo compreensível para um computador que depende de algoritmos, mas não para um ser vivo que precisa evoluir por si próprio. A organização de um ser vivo é, portanto, sempre fechada, ele não pode (e não tem como) importar organização, porque ele próprio só existe por que é auto-organizado.

2) Ao fechar sua própria organização, o ser vivo pode inovar e conhecer, porque ele passa a ditar o regime de suas transformações em função da organização de sua fronteira. Conhecer passa a ser, na verdade, sinônimo de estar vivo, já que para continuar viva a unidade autopoiética precisa continuamente estabelecer uma diferença entre o que precisa ser conservado em suas estruturas e o que precisa ser mudado, para que a fronteira que mantém sua organização se mantenha razoavelmente idêntica e a sua identidade possa ser continuada. Isso não implica, porém, numa consciência da identidade (o que seria outra discussão), mas na manutenção dos processos que mantém essa identidade. Uma ameba não pode dizer "Sou uma ameba", mas ela mantém continuamente os processos que a configuram como tal. O conhecer aqui, portanto, é a manutenção de um regime das transformações estruturais que especifica um determinado modo de ser.

3) Ao contrário dos sistemas não-vivos, que buscam o equilíbrio, os sistemas vivos perfazem a manutenção de sua identidade através da continua recursividade da sua organização, isto é, eles nunca chegam um isomorfismo perfeito. A desigualdade, o desequilíbrio entre suas estruturas, é a característica mais marcante do vivo, mas é um desequilíbrio pontuado pela necessidade de manter a continuidade de sua organização. Então, as diferenças que o sistema vivo realiza para manter esse desequilibro próximo de um patamar que não estilhace sua organização e que ao mesmo tempo não mate o processo vital da recursividade, acabam sendo as diferenças que informam o ser vivo sobre ele a sua circunstância. Essas diferenças, portanto, mantidas em regimes diferentes de conservação (e de modificação) de acordo com as possibilidades de organização de suas estruturas, são vitais para o ser vivo. Em última instância, são sempre a essas diferenças que nos referimos quando mencionamos o termo informação. Não importa se essas diferenças correspondem a estruturas mais estáveis (por exemplo, a carga filogenética dos indivíduos) ou estruturas mais temporárias (como as ligações sinápticas mantidas por uma ontogenia específica), elas são sempre o fruto da capacidade criativa do sistema autopoiético de gerir as transformações estruturais que a recursividade continuada de sua organização exige.

No paradigma biológico, portanto, a noção de informação se modifica da importação de organização para a de criação de diferenças que orientam a reorganização de estruturas estabelecidas. Essa organização prévia, que é o modo como o organismo espera que sua conduta se coadune com seu entorno, é o conhecimento que o sistema guarda para si. A dinâmica entre esse conservar e esse criar é que sustenta o conhecer e, por extensão, a própria vida.

A partir dessa noção podemos começar a articular um conceito de informação que contemple o fenômeno, ou seja, que além de uma aproximação metafórica, alcance uma explicação de como o fenômeno está organizado. Tal explicação contemplaria um dos principais critérios das explicações científicas (MATURANA, 2001), que é o de indicar com qual fenômeno estamos lidando. A noção da informação como fruto da criatividade dos sistemas autopoiéticos permite circunscrever o fenômeno a um mecanismo que o gera (os sistemas recursivos de autoprodução estrutural). Deste modo, o conceito não se perde na mera descrição de um processo ou de algo supostamente objetivo, mas explicita a informação como parte da organização dos sistemas específicos da vida. Podemos, assim, formular um conceito de informação que é uma explicação de como esta última surge enquanto fenômeno, ou seja, do que devemos observar em um sistema para dizermos que este está organizado enquanto sistema que se informa:

Informação é a produção de uma diferença (ou diferenças) entre o que é conservado e a que é mudado em uma dada estrutura (ou estruturas) em relação a uma mudança que é produzida pela organização recursiva dos sistemas autopoiéticos.

O ato de circunscrever o fenômeno da informação ao sistema em que ele surge é fundamental porque a informação em si (como o processo da diferenciação das estruturas dos sistemas) pode surgir também em sistemas de natureza diferente, e, se isso não for levado em consideração, desvirtua-se o conceito de informação proposto porque ele passaria a não apontar as condições de organização em que a informação surge, as quais mudam de acordo com as possibilidades estruturais dos sistemas considerados. Por exemplo, o conceito de informação em Tecnologia da Informação (B., [2004?]) pode ter a seguinte formulação:

Informação é a quantidade de incerteza que é anulada pela identificação do símbolo recebido pelo destinatário.

Esse conceito estaria errado ou parcialmente mal formulado? Não, apenas identifica a informação em sistemas abertos. Observe-se que nós temos dois pontos em aberto: uma incerteza (que é a possibilidade combinatória dos símbolos) e uma certeza, que é a escolha do símbolo por um destinatário. A informação é a medida dessa incerteza (a riqueza de combinações simbólicas) porque o sistema, sendo aberto, prevê que algo vai determinar o valor e as possibilidades combinatórias das mudanças possíveis.

Sob um ponto de vista humano, essa incerteza como medida de informação é chocante, porque associamos informação com dirimir dúvidas, e não o seu oposto. Mas, sob o ponto de vista dos sistemas abertos, é congruente, porque todo sistema aberto (mecânico ou elétrico de computação), é executado por um algoritmo, o qual será mais complexo quanto com mais combinações possíveis (incertezas) for capaz de lidar, assim executando um comportamento igualmente complexo. A informação, nesses sistemas, existe, mas possui uma outra natureza, que é justamente a de permitir uma articulação aberta. Isto implica, porém, que por mais sofisticados que esses sistemas possam ser, não são capazes de se iniciarem sozinhos, isto é, possuem uma autonomia relativa. É necessário que algo exterior determine uma condição inicial mínima de equivalência entre estados, por exemplo, determinando que 0 significará X e que 1 significará Y. A questão aqui é não confundir essa determinação exterior com o operar dos sistemas abertos (por mais complexos que sejam). Computadores não manipulam símbolos, manipulam combinações entre estados físicos. Dizemos que eles manipulam símbolos porque os vemos executando operações de escolhas entre estados aos quais determinamos certos valores, mas somos nós que determinamos, em última instância, o que esses valores são e as hierarquias de suas combinações.
 

Informação e sentido

Como sistemas operacionalmente fechados, as unidades autopiéticas (isto é, os seres vivos) agem recursivamente sobre suas estruturas criando diferenças entre aquilo que é conservado e aquilo que é mudado, e sobre estas diferenças podemos dizer que houve uma escolha, e como com toda escolha possivelmente também uma mudança de sentido. Embora essa explicação preencha nosso critério presente para o conceito de informação, ela ainda parece muito abstrata, considerando-se que ainda falta explicar porque geralmente consideramos informação como sendo signo, significação, e como sendo também um processo de troca simbólica.

Como um sistema operacionalmente fechado troca informações? Mais uma vez, devemos ficar atentos à aplicação metafórica das palavras, e aqui, ao sentido que damos ao termo troca. Ninguém supõe que seres vivos troquem informações, porque isso implicaria que suas estruturas internas estariam fisicamente conectadas, como as de um computador numa rede de computadores. O que os seres vivos fazem é coordenar suas ações de modo que as diferenças criadas entre uma mudança e outra (de seus estados internos) compartilhem um evento (que é a complexidade dessa mesma coordenação, e não a representação de algo interno ou externo). A esse evento os seres vivos dão um valor comunicacional, mas para esse evento assumir o aspecto de um significado ou símbolo é preciso um certo grau de incremento na complexidade organizacional da espécie de ser vivo em questão.

Quando podemos dizer que um ser vivo apresenta um comportamento simbólico? Pensemos primeiro num comportamento mais primitivo: a fuga. Animais fogem por vários motivos: por medo de predadores, de luzes ofuscantes ou relâmpagos, de fogo, ou qualquer outro motivo, e cada animal foge porque desenvolveu uma reação de fuga de acordo com o perigo que julga possível à sua estrutura, logo, à sua sobrevivência (mosquitos fogem de pequenas rajadas de vento, elefantes não). Imaginemos agora um pequeno incêndio no fundo da floresta. Os animais próximos, cada um a partir de sua própria estrutura, reagem a essa perturbação com uma fuga. Os animais em torno, mesmo não detectando nenhum fogo, vêem os outros animais em fuga o põe-se a fugir também, engrossando a debandada que a partir daí se torna geral na floresta. A fuga, para os animais que estavam longe do fogo, assumiu um valor comunicacional, porque mesmo longe da perturbação original uma história de acoplamentos estruturais fez com que a fuga assumisse a posição daquela perturbação. As abelhas realizam algo semelhante quando executam uma "dança" que repete a rota de uma colheita bem-sucedida de pólen. Temos um comportamento comunicacional, portanto, quando este desencadeia um comportamento na ausência (ou longe) da perturbação que o originou (ou originaria). Isso não significa que esse comportamento substitui (simboliza) aquela perturbação, apenas que está conectado a ela por uma história de coordenações de acoplamentos estruturais. O comportamento simbólico, porém, partirá sempre de um background comunicacional, mas o simbólico está em um patamar distinto de organização das coordenações consensuais, não como substituição (representação), mas como uma recursão sobre essas mesmas coordenações.

Voltemos ao nosso exemplo da fuga (para tratarmos desse patamar distinto de organização na comunicação) e agora imaginemos o homem primitivo na mesma situação. Ele também reagirá igualmente como seus companheiros do reino animal durante uma debandada geral da floresta. Provavelmente ele fez isso durante muito tempo, agindo apenas instintivamente. Mas houve um ponto qualquer do tempo em que ele mudou esse comportamento, em que ele parou para refletir sobre essa fuga. Não nos interessa saber agora se essa mudança foi gradual ou abrupta, mas em que consistiu essa mudança. Dar-se conta de algo, "percebê-lo", só é possível se podemos comunicá-lo a outrem como a nós mesmos, e para isso essa comunicação, além de abstraída das perturbações que a originaram, precisa ser abstraída do próprio comportamento que ela instancia. Assim, uma fuga não é apenas uma fuga, mas pode ser algo mais. Um gesto de indicar perigo não é apenas um gesto de indicar perigo, mas algo mais, destacado para ser apreciado por si mesmo. Essa recursão torna possível fazer de uma comunicação o objeto de outra comunicação. Esse algo mais implica na possibilidade de manipular os comportamentos comunicacionais, tornando-os reversíveis, ou seja, não-necessários (isto é, os seres humanos se tornaram capazes de repetir um comportamento comunicacional longe, ou na ausência, de qualquer perturbação que o justificasse).

É a reversibilidade da comunicação (a comunicação livre de si mesma) que passa a instanciar a possibilidade da linguagem, porque torna os eventos comunicacionais como não necessários, portanto tornando-os passíveis de valorização social (pela sua escolha[2]), assim perfazendo comportamentos comunicacionais simbólicos. O símbolo é o comportamento comunicacional valorizado, o que destacamos em nossas conversações, aquilo que é importante conservar entre uma mudança e outra, a que pese que essa conservação não será sempre homogênea. Não é o símbolo enquanto estrutura configurada (como o som de uma palavra ou sua gravação gráfica) que desencadeia comportamentos comunicacionais, mas, pelo contrário, as coordenações de coordenações desses comportamentos, que sustentam o uso dessas estruturas para a manutenção de uma dada regularidade comportamental socialmente valorizada. Mesmo quando a estruturação simbólica pareça tão sofisticada que escape a qualquer instância comportamental. É a necessidade de manter a coesão de nossos acoplamentos estruturais que faz com que vejamos o símbolo como a matéria prima do elemento informacional, e que, por extensão, vejamos a informação como um elemento, razoavelmente estável.

Qual a razão disso? A principal é a que não temos acesso às transformações estruturais da nossa biologia que realizam esse acoplamento, nem das nossas, nem dos outros, apenas temos acesso àquilo que podemos apontar de comum em nossas coordenações de coordenações consensuais. Aquilo que podemos apontar são as regularidades em nossas coordenações lingüísticas, as quais elevamos ao valor de símbolos, porque ordenam as transformações que não vemos em nós, e nem nos outros, aos indiciá-las através de um sistema de coordenações consensuais que as predizem. Aqui, a linguagem surge como um fenômeno que não é nem coletivo, nem individual, mas da interação dos dois, um atuando sobre o outro. O que é sustentado, na linguagem, é um certo acoplamento nas interações relacionais do linguajar [3], e não a informação, que é ação dinâmica de criar as diferenças que mantém esse acoplamento, que é por natureza plástico (como nosso sistema nervoso).

Uma comunicação simbólica, portanto, une convergência e divergência, porque quando procuramos conservar um certo valor (como sendo um significado) não podemos fazê-lo por outro modo que não pela sua atualização continuada. Não se trata, porém, de uma dicotomia entre o individual e o coletivo, entre o indivíduo e a sociedade, mas de um evento que é atuado ao mesmo tempo pela criatividade recursiva de muito indivíduos e que, portanto, qualquer isomorfismo estrutural na comunicação é continuamente moldado por um processo cuja característica especial é a mudança. Ou seja, como seres autopoiéticos, nós conservamos as coisas mudando-as. Por esse motivo, em CI falamos da tendência polissêmica do signo, contra a qual construímos instrumentos de controle (vocabulários controlados, thesauros, classificações), que atuam como um filtro na atualização continuada de um determinado sentido cujo valor se quer conservar, constringindo seu uso dentro de uma determinada ordem.
 

Informação e conhecimento

A questão da informação dirigida para o paradigma biológico do conhecer é se a informação é um elemento controlável, passível de conformação. É a noção representacionista de informação como coisa (elemento) geradora ou transportadora de conhecimento, porém, que coloca essa questão em relevância, através de uma lógica de causa e efeito que obscurece a natureza biológica do conhecer, impedindo que o vejamos como um processo dinâmico (mas nunca causativo ou linear) entre conhecimento e informação. O conhecimento está em aquilo que sabemos, sobre o que conservamos da experiência sobre nós, os outros ou o mundo, e a informação está na diferenciação que fazemos sobre as coisas que sabemos, mas estas não determinam aquelas, e nem toda diferenciação, nem toda mudança resulta em uma acomodação conseqüente com o estado anterior. Tanto na natureza, quanto em nossas comunicações simbólicas, existem diferenciações realizadas que não redundam em uma sistematização, mas mesmo assim elas são realizadas. Podemos chamá-las de desinformação, mal-entendidos, ou comportamentos excêntricos, mas mesmo assim elas fazem parte do conhecer, e não existe nenhum critério que possa julgar de forma absoluta sua irrelevância; essas diferenciações (como informações) continuam a fazer parte do conhecer, sejam ou não reconhecidas como conhecimento. Conhecimento e informação não são fenômenos contíguos, ou equivalentes em algum sentido, mas modos diferentes de agir no desenrolar de nosso conhecer.

Podemos entender melhor esses modos diferentes do nosso conhecer ao nos debruçarmos sobre o que acontece quando sistematizamos as diferenças que criamos entre aquilo que conservamos e aquilo que mudamos. Quando articulamos informações em um sistema que recupere o sentido de uma mudança, estamos tentando conservar um dado momento do nosso conhecer em algum tipo de estrutura, ou seja, estamos tentando produzir um determinado conhecimento desse conhecer. Esse sistema[4] é uma articulação de valores (escolhas) que podem ser arranjados em modos diferentes de predizer o curso de determinados eventos ou ações. A despeito de existirem esses modos diferentes, um aspecto comum a esses sistema de conhecimento é abstrair as informações dos contextos complexos de onde surgiram, reduzindo-os para um contexto mais simples e manejável e, principalmente (mas não necessariamente), não mutável, porque a mutabilidade reduziria a capacidade predicativa do sistema.

Em um vocabulário controlado, por exemplo, podemos abstrair a noção amor de todos os contextos complexos que a geram, e a colocar em um contexto mais simples, que pode ser uma hierarquização (Psicologia – Comportamento Sexual – Amor e sexo). O sistema preverá, então, alguém para o quem a diferença entre sexo e afetividade encontrará sentido em um contexto mais acadêmico e laico. Se um outro alguém estiver passando por um momento em que essa diferença só tiver sentido em um âmbito religioso, o sistema não o abarcará. Mas como todos nós nos movimentamos através de contextos extremamente complexos, não há garantia nem mesmo para o primeiro caso. Isso não significa que sistemas de conhecimento não possam predizer de modo preciso, mas apenas que eles não trabalham diretamente com informações. "A informação surge num contexto de criatividade que justifica sua própria apreciação" (DERQUI, 2004, p. 123).

Se a questão da informação não passa pelo manejo direto do informar-se, como relacioná-la com o esforço da CI em comunicar o conhecimento de forma organizada?

Para tanto precisamos pensar o conhecimento como tentativa de sistematizar um saber de modo que este possa ser repetido (ou avaliado) por outros. Esse modo é ditado pelo que é permitido diferenciar entre aquilo que esse saber deve conservar e aquilo que se pode mudar nele próprio, e essas permissões girarão em torno de um critério organizador que dirá o que é válido ou não no contexto de execução de um determinado conhecimento. O critério organizador, assim, dirá qual a margem de manobra na diferenciação de um saber estabelecido sobre o qual age o stress de uma mudança. A informação no sistema de conhecimento, portanto, se relacionará como o informar-se a partir do critério organizador desse sistema. Esse relacionamento será modulado pela flexibilidade desse critério, o qual pode ser dividido em duas atitudes básicas: prescritiva e proscritiva.

Se o critério se apegar a manter uma predição restrita, prescritiva, a flexibilidade desse relacionamento será respectivamente menor, e a meta-informação[5] com a qual poderemos trabalhar nesse sistema de conhecimento precisará ser inflacionada para cobrir todas as possibilidades do informar-se. Se o critério, por outro lado, estabelecer apenas o que não pode ser feito e não o que se deve fazer – ou seja, indo de uma idéia de que o que não é permitido é proibido para uma idéia de que o que não é proibido é permitido (VARELA et al., 2003, p. 200) –, tornando-se assim apenas proscritivo, a flexibilização será maior e o informar-se estará mais livre para reorganizar o sistema de conhecimento, se necessário. Poderíamos classificar essas duas atitudes como modelos de conhecimento, o prescritivo como A, e o proscritivo como B. Porém, não há nessa ordem qualquer escala de valor, já que os dois modelos cumprem um papel de acordo com o fenômeno que tentam abordar. O modelo A, por exemplo, responderia pela abordagem dos fenômenos que se organizam pelo equilíbrio, e para cujo manejo é preciso especificar todas as etapas envolvidas, como na construção de uma ponte ou quando se escreve um programa de computador. Em B, por outro lado, temos os fenômenos que se auto-organizam, onde apenas sabemos o que não devemos ou podemos fazer, como o médico que sabe o que não é recomendável para o estado de seu paciente, mas que precisa acompanhar a evolução do seu estado de saúde para adaptar os seus conhecimentos.

Como modelos, porém, A e B não são absolutos, e tudo depende de como o fenômeno é encarado quanto à sua organização e estrutura, podendo existir casos limítrofes em que os dois modelos serão aplicados. O conhecimento se articulará em torno de um critério que dirá como o fenômeno de que trata está organizado, isto é, o critério cria um domínio no qual o conhecimento é desenvolvido, reorganizando o informar-se em um meta-domínio informacional que pode estabelecer diferenças onde antes o informar-se não as enxergava. Atualmente, por exemplo, existem projetos de engenharia de sistemas (GERSHENSON, 2005) que estabelecem uma diferença entre o controle tradicional, orientado passo a passo, e um controle que se orienta de forma auto-organizada. O modo como essa diferença é trabalhada, prescritiva ou proscritivamente, é que talhará a natureza da meta-informação com a qual poderemos trabalhar enquanto cientistas da informação, portanto é preciso que consideremos o critério organizador dos conhecimentos com os quais trabalharmos, e não, simplesmente, ver o conhecimento apenas como um resíduo mental da informação.

Podemos afirmar, enfim, que conhecimento e informação não são fenômenos independentes, mas modos de agir frente ao conhecer, que coordenamos em razão deste último. Essa distinção é fundamental para não perdermos a dinâmica social da criação de sentidos. Criação aqui é uma palavra-chave, em contrapartida à noção representacionista da "aquisição do conhecimento".

Na representação cremos que o conhecimento já preexiste de algum modo no mundo (é preciso adquiri-lo), principalmente em sua forma objetiva, o qual é constituído de informações também objetivas, e, sobre o qual acrescentamos nossos conhecimentos subjetivos, compostos por informações também subjetivas. No modo representacionista de entendimento, o conhecer é um fenômeno cindido, portanto um processo que corresponde apenas a uma dinâmica dual: se conformar ou não se conformar, adaptar-se ou não adaptar-se, informar-se ou não informar-se. Por essa razão, as metáforas para entender conhecimento e informação no representacionismo lançam mão de exemplos de fenômenos lineares ou seqüenciais, como a ordem de uma biblioteca ou o processamento de dados. Ou seja, temos apenas um modo de conhecer, no qual este é um processo preenchido por etapas de reconhecimento e assimilação. Paradoxalmente, é a assunção do conhecimento e informação como processos estanques, contíguos, que leva à confusão conceitual entre eles, porque ao não pensarmos o conhecer como uma operação de distinções que se diferenciam enquanto modos de atuar, mas como um processo dependente do reconhecimento de uma realidade objetiva ou subjetiva, conhecimento e informação deixam de ser operações de distinção diferenciadas para ser o resultado desse reconhecimento, tornando-se indistinguíveis. É preciso entender a informação como uma operação de distinção, como uma possibilidade de se articular uma diferença, não simplesmente com um conteúdo que transmite essa diferença.

Sem essa distinção (do conhecimento e da informação como modos de organizar o conhecer enquanto, respectivamente, conservação e mudança), a noção de informação como uma construção de caráter social não se sustenta, porque o julgamento dessa construção estará constrangido por uma lógica dualista que verá a informação apenas como uma tensão entre o subjetivo e o objetivo, e a relação entre o individual e o social não poderá abarcar todas as nuanças "intersubjetivas" que encontramos na sociedade, como as noções éticas, morais, jurídicas, ético-científicas, e assim por diante. Com essa distinção, contudo, podemos entender o caráter criativo do informar-se como construtor (e por vezes destruidor) de domínios de conhecimento.

O que o paradigma biológico do conhecer coloca em pauta é uma fenomenologia para a questão da informação e do conhecimento baseada na natureza humana, em sua biologia, algo ausente no paradigma representacionista e nas metáforas usualmente aplicadas ao fenômeno da informação. Para a Ciência da Informação significa contar com uma conceituação de informação e conhecimento fenomenologicamente consistente com sua missão de tornar a informação um bem social, porque se expõe as limitações desta ciência ao mostrar o informar-se como um evento não passível de "objetivação", por outro lado mostra a possibilidade de articular a relação entre conservação e mudança nos critérios que organizam os domínios do conhecimento. Essa articulação só é possível, porém, se o fenômeno da informação for considerado em sua complexidade diferenciada, não homogênea, entre a meta-informação (as diferenças socialmente permitidas em certos domínios de conhecimento) e o informar-se, como uma relação de modulação recíproca e contínua.


Notas

[1] Ver mais sobre o conceito de organização e estrutura em A árvore do conhecimento (2002).

[2] Por valorização entenda-se uma atribuição tanto negativa quanto positiva ao evento comunicacional, as quais são igualmente importantes por promover a conservação do sentido de um valor por meio de contrastes.

[3] Termo utilizado por Maturana e Varela para referir-se à linguagem como uma ação relacional estabelecida pela coordenação de coordenações de ações consensuais na comunicação.

[4] Não utilizamos aqui a acepção de sistema como a de um conjunto de elementos relacionados regulados por um processo autônomo que lhes outorga uma mesma finalidade, à qual estão obrigados. Sistema de conhecimento é simplesmente um limite que é imposto a esse conhecimento, por escolha de seus critérios definidores, e que existe para o reconhecimento efetivo desse conhecimento por aqueles que o utilizam, mas não por uma imposição obrigatória independente do uso desse conhecimento. Em CI utiliza-se o termo Sistema de informações, contudo este não contempla uma distinção entre o informar-se, a meta-informação e o conhecimento (ver nota abaixo). Essa noção é mais adequada aos sistemas de informática, onde as mudanças nas transformações dos estados físicos (estruturais) do sistema é previsível e passível de ajuste dentro de um limite imposto pelos critérios do algorítmo.

[5] O termo meta-informação serve para uma distinção importante entre o informar-se e aquilo que compartilhamos (como uma regularidade) nesse mesmo informar-se: o que se destaca como resultado de nossos acoplamentos estruturais em nossas coordenações de coordenações consensuais, é um traço que, paradoxalmente, é mínimo em relação ao informar-se porque este precisa recriar complexas relações em função de um devir também complexo, mas vai além dele por abstrair algo do informar-se que pode tornar-se comum e assinalável. Este traço comum, porém, não é estável e nem definido, porque é continuamente atualizado pelas coordenações de coordenações consensuais, possuindo, contudo, como que um "feixe" de sentidos previsíveis de acordo com uma história de acoplamentos estruturais que pode apontá-lo como uma categoria ou critério de fenômeno ou objeto. Por causa dessa "previsibilidade", a meta-informação esta próxima do conhecimento, por permitir a articulação deste último em um sistema de expectativas de ações no mundo.
 

Referências Bibliográficas

B., David. Introdução à teoria da informação. Campinas: PUC, [2004?], 21 p. Notas de aula n. 4, Engenharia Elétrica, Princípios de Telecomunicações.

DERQUI, Pablo Marcos. Fundamentos dos conceitos de informação e conhecimento em Ciência da Informação através de uma abordagem dos paradigmas emergentes da auto-organização e autopoiese. São Paulo, 2004. Dissertação (Mestrado em Ciências da Informação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.

GERSHENSON, Carlos. A general methodology for designing self-organizing systems. Brussel. 2005. Disponível em: <http://homepages.vub.ac.be/~egershen>

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 6.ed. São Paulo: Perspectiva, 2001.

MATURANA R., Humberto; VARELA G., Francisco. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2002.

MATURANA R., Humberto. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

_______________________. Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001

MORIN, Edgar. O paradigma perdido: a natureza humana. 5.ed. Lisboa: Publicações Europa-mérica, 1991.

VARELA, Francisco J.; THOMPSON, Evan; ROSCH, Eleanor. A mente incorporada: ciências cognitivas e experiência humana. Porto Alegre: Artmed, 2003.
 


Sobre o autor / About the Author:

Pablo Marcos Derqui
pderqui@prefeitura.sp.gov.br
derkip@ig.com.br (pessoal)

Bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Escola de Comunicações e Artes/USP.
Mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes/USP.
Chefe da Seção Técnica de Catalogação de Assuntos e Classificação, na Secretaria da Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo.

Trabalho já apresentado (em co-autoria) no XXI CBBD:
A mudança de plataforma tecnológica e a migração do sistema de gerenciamento de acervo das Bibliotecas do Município de São Paulo : relato de experiência.

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