Resumo:
Discussão de aspectos semânticos e pragmáticos das linguagens de
representação da informação. São analisadas as duas principais
funcionalidades das referidas linguagens - representar o conhecimento
inscrito e promover interação entre usuário e dispositivo - com base em
teorias desenvolvidas na interrelação entre Ciências da linguagem e
Organização do Conhecimento. Observa-se que as reflexões recentes sobre as
linguagens documentárias incorporam aspectos políticos e éticos. Esses fatos
podem ser sintomas de mudanças importantes nas reflexões sobre as linguagens
de organização da informação, que acompanham a virada epistemológica que
caracteriza os estudos contemporâneos da Organização do conhecimento e da
informação.
Palavras-chave: Linguagens documentárias; Lingüística e Ciência da Informação; Organização do conhecimento; Organização da informação.
Abstract: This paper discusses the Linguistic
theories present in the construction of indexing languages. The two main
functions of these languages - knowledge representation and information
retrieval - are analysed based on theories developed in the
interdisciplinary relations established between Linguistics and Knowledge
Organization. It is observed that the recent aproaches on indexing languages
incorporate political and ethical aspects, going along with the
epistemological turn present in the contemporary studies on Knowledge
Organization.
Key words: Indexing languages; Linguistics and
Information Science; Knowledge organization; Information organization.
Introdução
A Organização da informação, enquanto campo disciplinar, tem como uma de suas preocupações mais importantes propor princípios e métodos para representar “[...]conhecimento institucionalizado e funcionalizado como informação” (Abril, 2004, p. 9).
Em outras palavras, procura-se criar métodos e instrumentos para fabricar informação documentária. Indexar, resumir e construir linguagens de representação são os termos técnicos que denominam essas operações (Kobashi, 1996). Com efeito, mais do que nunca, a informação é indexada por palavras (justapostas, relacionadas graficamente em mapas estáticos ou dinâmicos) que são também utilizadas para busca, ou seja, para indexar a pergunta do usuário.
A questão subjacente a essas preocupações é: como organizar informação
para que o conhecimento fique visível e possa ser acessado e fruído?
Neste texto, em que nos limitamos a discutir as linguagens de representação
da informação, caracterizaremos, inicialmente, os sistemas de recuperação de
informação porque é no interior destes últimos que se utilizam as linguagens
ditas documentárias.
A primeira questão a ser enfatizada em relação aos Sistemas de informação é
que eles são sistemas abertos, cujo equilíbrio é dependente de mecanismos de
regulação de diferentes naturezas (Wellisch, 1987). Como os sistemas de
informação são constituídos de substitutos representacionais, estabelecer
princípios e métodos para fabricá-los parece ser uma hipótese plausível para
a obtenção e manutenção da estabilidade e da qualidade desejadas.
A segunda questão a ser considerada é o fato de que o conhecimento e suas
representações se expressam pela linguagem. A criação de linguagens para
operar em contextos de produção e de busca de informação é, pois, parte
constitutiva da preocupação com a funcionalidade dos sistemas de informação.
A análise e a construção dessas linguagens comportam, certamente, inúmeras
abordagens, segundo as perspectivas políticas, ideológicas teóricas e
metodológicas adotadas.
Há abordagens, inclusive, que consideram supérfluas, ou mesmo pouco úteis, as operações globais de tratamento da informação e as linguagens de organização da informação. É certo, portanto, que muitos repositórios não requerem mecanismos tão sofisticados e complexos, como as linguagens documentárias, para filtrar informação. De outro lado, há o reconhecimento de que a informação participa de diferentes estruturas de significação, o que motiva a reflexão permanente sobre os métodos de elaborar linguagens apropriadas para os diferentes contextos e seus públicos.
Nesta última perspectiva, as linguagens documentárias são consideradas fundamentais, pois, sem elas não poderá haver comunicação e fluxo de mensagens. Dito de outro modo, o acesso à informação depende da linguagem para haver intercomunicação entre sistema e usuário. Desse modo, qualquer que seja a perspectiva teórica adotada, o porquê, o para quê e o para quem se organiza informação determinam sua construção.
Em síntese, estamos convencidos de que a informação organizada em sistemas
requer mecanismos de mediação. As Linguagens Documentárias são, nesses
dispositivos, instrumentos privilegiados de mediação que apresentam dupla
função:
a) representar o conhecimento inscrito e
b) promover interação entre usuário e dispositivo.
O fato de as linguagens de representação de informação serem elaboradas com fins comunicacionais supõe a necessária simetria entre a enunciação da produção de informação e a enunciação da busca de informação (Lima, 2007). As linguagens não são, pois, meras nomenclaturas ou listas de palavras e expressões utilizadas para etiquetar documentos para armazenamento. Ao contrário, são instrumentos essenciais para haver interação e diálogo entre sistemas de informação e usuários.
Estabelecidos os pressupostos que fundamentam a perspectiva que defendemos,
revisitaremos uma pequena parte do conhecimento já acumulado sobre os
instrumentos de representação, com base em categorias elaboradas no âmbito
das Ciências da Linguagem.
As teorias lingüísticas e as linguagens de representação
A Lingüística fundada por Saussure (1973) foi, durante todo o século XX,
enriquecida com abordagens funcionalistas e pragmáticas. Nesse percurso, a
língua, concebida como uma atividade social, passa a ser analisada por
métodos que entrecruzam diferentes disciplinas. A interdisciplinaridade
crescente dá origem, simultaneamente, à constituição de novos campos
autônomos, tais como a Psicolingüística, a Sociolingüística, a Análise do
discurso, a Terminologia, subcampos que contam hoje com ampla bibliografia
específica (Weedwood, 2002).
As diferentes abordagens influenciaram e continuam tendo influências importantes na área da Organização e recuperação da informação, em especial na construção de linguagens próprias para essas finalidades.
Um fato importante a ser destacado é que a idéia inaugural do estruturalismo
lingüístico - a de que há uma estrutura relacional abstrata subjacente aos
enunciados reais -, será apropriada por vários pesquisadores de nossa área.
Para Jean-Claude Gardin (Gardin, 1987, p. 49), a representação documentária
de um texto é formulada em uma linguagem que não se confunde com a linguagem
do texto, mesmo que os termos tenham aparentemente a mesma forma. Este autor
enuncia, portanto, a existência de um sistema abstrato, uma metalinguagem -
que permite expressar a mensagem textual por tradução, no eixo sintagmático.
O funcionalismo lingüístico, por sua vez, se erige reconhecendo a
diversidade de funções desempenhadas pela língua, as quais determinam sua
própria estrutura. Este pressuposto autoriza integrar a Linguagem
documentária ao conjunto das linguagens artificiais, aquelas que não
desempenham todas as funções da linguagem natural. No caso da linguagem
documentária, sua função é informativa: tratar e recuperar informação para
estabelecer intercomunicação entre usuário e sistema. A linguagem
documentária assumirá características estruturais próprias para dar conta
das funções informacionais, aspecto que discutiremos mais adiante, de forma
um pouco mais detalhada.
As noções de Tema e Rema, propostas pela abordagem funcionalista, que
sistematizam a gramática da frase em novas bases, terão impactos importantes
nos estudos da informação. De fato, essas noções darão origem à Gramática de
casos (Weedwood, 2002). O conjunto de funções sintáticas (agentivo,
locativo, benefactivo, instrumental), será largamente utilizado em alguns
sistemas de nossa área. Exemplo:
O sistema PRECIS.
As categorias da Gramática de casos, bastante similar à noção de faceta, inspirará a estruturação de linguagens documentárias por categorias sintáticas ou facetas. Exemplos: O Syntol (Gardin et al, 1964, Gardin, 1973), o Tesauro de Arte e Arquitetura do Museu Getty e o Tesauro do Patrimônio Histórico da Andaluzia (García Gutierrez, 1998), apenas para citar algumas linguagens que adotam explicitamente a Gramática de Casos.
Na segunda metade do séc. XX, com a virada pragmática no campo da
lingüística, o foco se desloca da estrutura abstrata da língua para o uso
que os falantes dela fazem. De forma simples, pode-se caracterizar a
pragmática lingüística como abordagem que estuda os fatores que regem as
escolhas lingüísticas na interação social. A pragmática, ao privilegiar a
análise dos princípios e práticas subjacentes a todo desempenho lingüístico
interativo, repercute também em concepções contemporâneas sobre a construção
das Linguagens Documentárias (Hutchins, 1975).
A introdução do conceito de Termo Preferido, nos Tesauros documentários, é um bom exemplo de escolha pragmática, ou seja, da incorporação do extra-lingüistico à estruturação das linguagens documentárias contemporâneas. O reconhecimento da variação e da equivalência semântica, mesmo em domínios especializados, e sua incorporação às teorias de construção de linguagens documentárias é fator que garante, de fato, a comunicabilidade dos sistemas de informação.
Dentre os signos peirceanos (Peirce, 1977), o símbolo, o signo estabelecido
por convenção, é certamente o mais importante para as Linguagens
Documentárias, embora não se possa, em contextos multimidiáticos, ignorar a
importância dos signos indiciais e icônicos. O paradigma da
comunicabilidade, que está na base da Semiótica peirceana, introduz o
sujeito em uma comunidade de linguagem. Aqui, o consenso sobre o significado
é alcançado intersubjetivamente, preocupação reconhecível também nas
reflexões de Wittgenstein (1996) sobre a linguagem e a comunicação, de resto
também presentes nas pragmáticas de Apel e de Habermas (Armengaud, 2006).
Na perspectiva que adotamos não se pode esquecer Bakhtin (1979), cuja obra
Marxismo e filosofia da linguagem, inaugura as abordagens teóricas que se
cristalizarão, posteriormente, nos trabalhos da Análise do Discurso, da
Sociolingüística e da Socioterminologia. Esses subcampos têm impactos não
desprezíveis sobre as reflexões sobre as Linguagens documentárias.
A idéia central de Bakhtin é que a língua é atividade social que se funda
nas necessidades de comunicação (Cintra et al, 2002). Assim, para o
pesquisador russo, as instâncias enunciativas são indissociáveis no processo
de produção de sentido. Enfatiza-se, assim, a fala, a parole, a enunciação,
o diálogo e o que dele resulta: o enunciado.
A compreensão da natureza essencialmente dialógica da linguagem determina,
em larga medida, as propostas de construção de Linguagens documentárias
ancoradas na Socioterminologia. Decorre daí a concepção de que as Linguagens
documentárias só podem operar adequadamente em horizontes sociais
determinados.
Compreende-se que as Linguagens Documentárias serão funcionais se forem territorializadas, locais. Não se pode esquecer, certamente, a Teoria Geral da Terminologia (TGT), de Wüester, um antecedente importante nas reflexões sobre os instrumentos terminológicos (Campos, 2001). A Sociolingüistica e a Socioterminologia, no entanto, têm sido contribuições importantes para superar as limitações da terminologia wüesteriana que pode, nos contextos da comunicação documentária, enrijecer a estruturação das linguagens documentárias.
As abordagens semânticas e pragmáticas, expostas de forma breve, têm tido
impactos importantes, embora não na proporção desejada, na operação dos
sistemas de informação. Com efeito, em muitos deles, o registro referencial
da informação (estamos falando, portanto, do campo da produção) e os
processos interlocutivos de busca (recuperação), são considerados
solidários.
Assim, se procura, de forma crescente, tornar a linguagem do sistema disponível também para o usuário, superando-se as práticas anteriores de limitar seu acesso apenas ao produtor da informação documentária.
A incorporação da linguagem do usuário aos sistemas de informação é um fato
recente e auspicioso. As unidades denominativas próprias dos usuários (as
folksonomias) tendem a ser uma instância complementar de indexação dos
sistemas de informação. Nesses modelos, admitem-se os processos de registro
referencial temático da informação, tanto pelo sistema quanto pelo usuário,
de modo a torná-los dialogantes.
É claro que restarão sempre resíduos que merecerão um processo de
padronização por parte do sistema (Spiteri, 2007). São, porém, experiências
interessantes, inovadoras, que claramente tentam dar solução às questões
semânticas e pragmáticas do processo interlocutivo dos sistemas de
informação.
Aspectos semânticos e pragmáticos das linguagens de representação
A Semântica requer olhar atento. Ela tem por objeto a descrição das
significações próprias às línguas (Tamba-Mecz, 2006). É um campo teórico
amplo, não homogêneo, do qual destacaremos apenas os aspectos que interessam
mais de perto às linguagens de representação da informação.
Os estudos semânticos de interesse para a discussão aqui empreendida
começam, de nosso ponto de vista, com a teoria dos campos semânticos,
segundo o qual o vocabulário de uma língua se compõe de subconjuntos
estruturados de campos. Nessa teoria, a noção de léxico, como conjunto
estruturado de unidades lexicais, suplanta a idéia de que a língua é uma
simples soma de vocábulos.
Em um campo semântico, uma área nocional permite definir as relações de
sentido entre os vocábulos que o recobrem e, em decorrência, permite
articular um campo conceitual a um campo lexical (Tamba-Mecz, 2006, p. 29.).
Reconhece-se, ainda, que os campos de conhecimento se expressam por termos,
unidades com significados especializados. Nesse contexto, o sentido do termo
se especializa porque é determinado pelo sistema ao qual o termo pertence.
O reconhecimento de que as unidades polilexicais são manifestações próprias
da criação de termos em campos especializados, aliado ao desenvolvimento dos
estudos de corpora, tiveram impactos importantes na constituição dos
instrumentos de representação. Muitas experiências dessa natureza foram
realizadas no Laboratoire d’Automatique Documentaire et Linguistique, do
CNRS, conduzidas por Gardin e Maurice Gross (Belly et al, 1970).
Compreender a ubiqüidade do sentido é, como se procurou mostrar, um fato
importante para a construção e uso das linguagens documentárias. Em síntese,
o que deve ser destacado é que as teorias pragmáticas não isolam os
significados lingüísticos em sistemas estanques, fato que permite explorar
as formas relacionais próprias das linguagens documentárias.
Relações entre termos nas linguagens de representação.
As Linguagens documentárias são constituídas de unidades especiais. Não por
acaso, o signo que interessa é a palavra denominativa (os nomes e os
sintagmas nominais ou, mais precisamente, as unidades polilexicais), que são
as unidades típicas das Linguagens documentárias. São unidades que designam
nomeando fenômenos e objetos de campos especializados. Para serem
funcionais, essas linguagens explicitam as relações entre os termos que as
constituem.
Não são unidades quaisquer, como vimos acima, porque são termos, cujo sentido advém do sistema ao qual eles pertencem. As relações entre os termos são, pois, determinadas por um sistema nocional ou campo conceitual. Ao contrário do que se pode pensar, as relações estabelecidas não são camisas de força arbitrariamente instituídas. Refletem, antes, as relações conceituais do campo nocional de origem.
Dito de outro modo, porque a palavra significa segundo o parâmetro nocional ou contextual considerado, a Linguagem documentária procura incorporar, por meio de diversos tipos de operadores semânticos, os contextos para interpretar os termos de forma precisa. Neutraliza-se, desse modo, a ambigüidade decorrente da indeterminação. Assim, a cada significante procura-se fazer corresponder um significado.
Por outro lado, os termos possuem valores, sejam eles da ordem da extensão,
da intensão, da equivalência semântica ou da implicação. Esses valores
relacionais (sinonímia, hiperonímia e antonímia, por exemplo) são descritos
tanto na língua comum quanto em linguagens artificiais. Nas Linguagens
documentárias, as relações sinonímicas, as de hierarquia e outros tipos de
associações, são expressos, via de regra, por formas de notação próprias,
que pretendem tornar evidentes o valor de cada termo no sistema.
Em certos casos, outras operações lógico-semânticas são realizadas. Referimos-nos, aqui, aos deslocamentos genéricos. A linguagem assim organizada e codificada permite que o usuário (indexador ou usuário do sistemas de informação) transite pelos conceitos para selecionar o mais adequado. Portanto, a linguagem documentária permite transformar unidades de conhecimento em unidades de informação ao codificar o referente de forma funcional, pragmática.
Os mecanismos estruturais de fixação do sentido e do valor de cada unidade
da Linguagem documentária não existem, portanto, para engessar as formas de
representar informação. Ao contrário, procura-se tornar explícitas as
relações conceituais existentes em um domínio para, em seguida, propor as
possibilidades de denominação referencial em dispositivos informacionais.
Com isso, procura-se aproximar as instâncias enunciativas próprias do
tratamento da enunciação produzida na busca de informação.
É preciso reconhecer, no entanto, que as Linguagens documentárias, embora
úteis, são imperfeitas. Sua atualização permanente é sempre um desafio. É
necessário, desse modo, encontrar formas de atualização e adaptação que
sigam mais de perto a velocidade e a dinâmica da criação terminológica para
que, de fato, seja garantida a sua função comunicacional.
Considerações Finais
Procurou-se neste texto expor alguns aspectos das Linguagens de
representação da informação, apontando aqueles que, em princípio, explicam
sua funcionalidade nos sistemas de recuperação de informação. A elaboração
desses instrumentos, como se procurou argumentar, é dependente de
fundamentos teóricos complexos.
A perspectiva histórica, com especial destaque para as reflexões filosóficas
e lingüísticas, é importante para compreender como ela se constituiu. A
história do campo mostra que aqueles que se dedicaram às ações de
informação, no afã de produzir instrumentos funcionais, procuraram na
Filosofia, na Filosofia da ciência, na Filosofia da linguagem, na Lógica e
na Lingüística, os fundamentos necessários para enfrentar esse desafio.
Nossos antecessores – Dewey, Otlet, Bliss, Ranganathan, Gardin, Austin, Dahlberg, Hutchins – demonstram com clareza os movimentos feitos para elaborar teorias sobre as linguagens documentárias e, principalmente, construí-las.
Não é demais relembrar Gardin (Gardin, 1964;
Cross; Gardin; Lèvy, 1964), que
propôs um modelo formal de linguagem documentária que se tornou
paradigmático: toda linguagem documentária é constituída por um conjunto de
termos (o léxico), por relações entre as unidades lexicais, determinadas a
priori (o eixo paradigmático) e por uma sintaxe que articula os
encadeamentos entre os termos da linguagem, em face de um documento
específico (o eixo sintagmático). É evidente que o modelo saussureano de
linguagem fundamenta as reflexões sobre as linguagens de representação de
documentos de Gardin.
A Inteligência Artificial tem também apresentado propostas para aprimorar as
formas de organizar e representar informações. Sowa (2000) afirma que os
conteúdos informacionais, para serem recuperados, devem ser categorizados
por meio de atributos relacionados lógica e semanticamente. As ontologias
são, nessa concepção, os sistemas de referência para categorizá-los e
representá-los. Em uma ontologia, são descritas as categorias de coisas que
existem ou podem existir em um domínio de aplicação. Para dar suporte ao
raciocínio sobre as coisas de um domínio, a representação do conhecimento
deve descrever o comportamento das coisas e as suas interações. As
ontologias são, em larga medida, correlatos eletrônicos de tesauros, pois
apresentam estrutura semelhante a estes últimos: termos de domínios
específicos, suas definições e relações entre os termos.
As ontologias pretendem ir além dos tesauros documentários. Essas abordagens
ampliam as possibilidades de organizar e ter acesso à informação em
sistemas. É necessário enfatizar que os dispositivos ditos inteligentes
codificam e armazenam informação condensada sob a forma de proposições
declarativas. A representação do conhecimento, na Inteligência Artificial
supõe, tal como na Organização da informação, a elaboração de substitutos,
expressos por uma linguagem artificial.
As representações, para serem funcionais, devem exibir atributos, estes últimos, obtidos por extração de informação textual. Supõe-se, portanto, que os sistemas inteligentes compreendem textos, selecionam informação e os representam, tarefas que, devemos admitir, não são triviais.
Além de representar o conhecimento, um sistema inteligente deve codificá-lo
em uma linguagem que possa ser processada computacionalmente. As
representações são expressas sob a forma de proposições lógicas. Segundo
Sowa (2000), por meio de linguagens lógicas é possível representar apenas
conhecimento declarativo. Contudo, segundo esse mesmo autor, o conhecimento
do mundo não pode ser encapsulado em enunciados declarativos. Assim, no
atual estágio de desenvolvimento dos recursos computacionais e da
Inteligência artificial, não parece ser possível pensar a automatização
completa dos processos de representação da informação.
Um outro problema, como já foi assinalado, torna mais complexa a questão
aqui discutida. Os sistemas de informação são sistemas abertos, sujeitos ao
desequilíbrio permanente. O paradoxo dos sistemas é continuar operante,
mantendo sua condição de sistema, na tensão que se estabelece nos processos
de troca contínua de informação com o exterior. Essas relações com o que é
externo determinam a necessidade de controles. Somente com esses controles
eles poderão continuar sendo sistemas.
Visto que os sistemas abertos evoluem na integração entre sistema e
ambiente, devem-se igualmente modificar, dinamicamente, os instrumentos de
controle: a atualização das linguagens documentárias é uma operação que visa
dar sustentação à evolução dos dispositivos de informação. Informação e
sistema, como se vê, são noções nucleares, porém problemáticas, na reflexão
sobre as os dispositivos informacionais. Não se pode, no entanto, deixar de
aprofundar a compreensão dos conceitos para que eles se tornem
operacionalizáveis em cada contexto racional.
As concepções filosóficas sobre a linguagem e a informação continuam, desse
modo, tendo influência notável nos estudos epistemológicos contemporâneos
sobre a representação da informação.
Pode-se citar, entre as contribuições mais recentes, as de Fhromann (1990, 1992), Blair (1990), González de Gómez (1993, 1996, 2006), Hudon (1997), Olson (2002), Beghtol (2005), García-Gutiérrez (2004) e Lopez-Huertas (2007). É clara, nas reflexões desses pesquisadores, a influência dos chamados Estudos Culturais ou das Teorias Comunicativas. São enfatizadas, nessas abordagens, a dimensão política e a dimensão ética, dimensões consideradas inerentes à organização da informação e do conhecimento.
Portanto, não apenas a metalinguagem da lingüística (vocabulário, léxico, semântica e sintaxe), foi definitivamente apropriada pela área para designar fenômenos e processos de tratamento e organização da informação. Passamos por um novo momento, no qual se enfatizam, de forma clara, as questões éticas e políticas constitutivas das ações para organizar informação para fluxo.
No contexto da organização da informação, informação é, sobretudo, elemento
de sentido a ser comunicado e interpretado. Essas operações só podem ser
viabilizadas por meio de linguagens apropriadas. Desse modo, as pesquisas
sobre a construção de linguagens de representação deverão ter continuidade.
Não acreditamos que elas sejam dispensáveis. As reflexões
estabelecidas na interface Lingüística e Documentação têm tido papel
importante para compreender e construir essas linguagens. Nota-se,
inclusive, a constituição de um subcampo autônomo (García
Gutiérrez, 1990,
2004), dentro da Ciência da Informação, que estabelece relações
interdisciplinares entre Ciências da Linguagem, Filosofia da Linguagem e
Epistemologia, para oferecer novas perspectivas para a área da Organização
da Informação e do Conhecimento. Essas novas abordagens merecem leitura
atenta.
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Sobre a autora / About the Author:
Nair Yumiko Kobashi
nykobash@usp.br
Doutora em Ciências da Comunicação (ECA-USP), Professora livre-docente, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.