Recuperação da informação
por Joana Coeli Ribeiro Garcia
Se buscarmos no dicionário o sentido do vocábulo recuperação, encontramos: “ato ou efeito de recuperar-se” e, para recuperar: “recobrar (o perdido)” (Ferreira, 1975, p. 1200). Para as áreas que lidam com a informação, o sentido é outro, pois para se recuperá-la, há que se selecionar, armazenar, preservar, tratar por um sistema, para permitir que o desejo sentido ou latente do usuário seja atendido, avizinhando-nos a um sentido diverso de perdido. Para Choo (2006), recuperar uma informação é disponibilizá-la ao usuário / consulente, que a solicita por necessidades espontâneas e / ou induzidas, objetivando construir significado, produzir novo conhecimento e tomar decisões, sejam administrativas, sejam pessoais.
Recuperar informação constitui preocupação do belga Paul Otlet, já no Século XIX, ao idealizar o “mundaneum”. Objetivando tornar acessível o conhecimento disponível àqueles que dele necessitam, utiliza-se do conceito expandido de documentação e da tecnologia disponível para abordar os principais problemas bibliográficos, por entender que os registros bibliográficos não se resumem aos livros (Pereira, 2000, p. VIII).
Dedica sua vida a desenvolver métodos que registrem o máximo de informações para tornar o conhecimento disponível e para que se possa facilmente encontrar o que se busca. Com esse objetivo, cria as fichas catalográficas padronizadas (12,5 x 7,5 cm), a microficha, a bibliografia universal, a classificação universal, dentre outros instrumentos.
Semelhantemente, o americano Vannevar Bush (1945) arquiteta o “memex” como um sistema mecânico capaz de reproduzir as conexões mentais (as we may think) realizadas pelo homem para facilitar a recuperação da informação. E, recentemente a pesquisadora espanhola Dra. Maria José Huertas, Presidente da International Society of Knowledge Organization (ISKO), propõe metodologia alternativa para ampliar o conhecimento sobre um objeto, partindo de conceitos em dicionários especializados e identificando possibilidades de utilização de termos representativos. Após o que, cria categorias, expandindo as possibilidades de representação do objeto, pela utilização de todos os termos que o identificam.
A recuperação da informação é, dentre as funções profissionais, a que Du Mont (1991), estudando o continuum da responsabilidade social do profissional da informação, categoriza como de segundo, terceiro e quarto estágios. Ela concebe que, para recuperar, convém que, em primeiro lugar, desenvolvam-se e se mantenham os estoques / acervos. A partir de então, os profissionais se ocupam do atendimento às necessidades de informação dos recursos humanos da corporação onde se localiza a unidade de informação, mas também com a sociedade, incluindo usuários e não usuários. Assim, necessidades atendidas significam informações recuperadas.
Como visto, essa atividade preocupa profissionais que se dedicam à formação dos estoques, ao tratamento da informação, ao atendimento de quantos necessitam da informação e ao uso que dela fazem. Nos tempos atuais, o meio eletrônico nos apresenta soluções e nos socorre, na maioria das vezes, pela realização de buscas com quase sucesso total.
E, Berners-Lee (2006) nos anuncia outras soluções trazidas pela web semântica, que permitirão, com facilidade, por exemplo, que se cruzem informações confinadas em programas de editores de texto, planilhas e calendários, conectando-as e reunindo-as. O desenvolvimento de ontologias é uma expectativa para resolver os problemas de indexação, facilitando, portanto, a recuperação.
Para os profissionais da informação, é difícil admitir, mas é imprescindível. Nós, bibliotecários, cientistas da informação ou como queiramos nos denominar, devemos realizar essa reflexão crítica a respeito do conceito dicionarizado de recuperação. E o começo pode situar-se em Kapsner (1956), afirmando que usamos classificações que mais escondem do que disseminam a informação, pois os sistemas são usados pelos bibliotecários que estabelecem e usam as classes, oferecendo possibilidades conflitantes para qualquer mortal que queira encontrar o livro ou a informação.
Ou no capítulo: Perdidos nas Estantes, da publicação: A conturbada história das bibliotecas de Battles (2003), bibliotecário de Houghton, biblioteca que abriga as obras raras de Harvard. Neste capítulo ele relata que perdidos tanto podem ser as obras, como os leitores. Isso nos conduziria a aceitar o conceito do dicionário nas áreas ou profissões citadas, admitindo que recuperar seria exatamente encontrar algo perdido.
Com um fato ilustrativo, o citado autor, nos conta a história de um bibliotecário que catalogava, descrevendo ao máximo seu objeto, acreditando fazer a coisa certa, pois estaria possibilitando a recuperação por diversidade de buscas. Infelizmente esse bibliotecário não atendia à produtividade exigida pelo sistema, e foi convidado a se aposentar. (Battles, 2003). Ficção ou realidade, para os que conhecem as áreas, ou para os que buscam informação, essa é uma história de crédito fácil.
Battles (2003) afirma ainda, que desde os tempos de Melvil Dewey, e hoje não é diferente, por deficiências na classificação, o leitor não é conduzido com eficiência à fonte correta da informação. Ao contrário disso, “ele é alienado e confundido por classificações, por assuntos que enfatizam o conhecimento profissional”.
Battles (2003, p.206) refere também às entradas para a formação dos catálogos, usando seu livro como exemplo. “Eu me pergunto se os catalogadores irão classificá-lo como um livro de história, de memórias ou de ficção”. E continua: “receberá um número de chamada com prefixo ‘GT’, reservado a obras sobre ‘usos e costumes, incluindo os de comer e beber’”? Provavelmente encontrá-lo-emos em língua e literatura, como decisão final.
Bibliotecários, como os escribas da Idade Média, não se limitam a armazenar e classificar. Eles criam seus próprios textos, na forma de sites de buscas on-line, concordâncias em CD-ROM e outros textos eletrônicos, para não falar em guias de estudo e bibliografias impressas. (Battles, 2003, p. 209)
E o fazemos com a melhor das intenções, “colocando o usuário como o foco de nossas atividades” e convencidos, por outro lado, de que facilitamos a vida dos usuários. Aprendemos que os os fins justificam os meios, embora, como no exemplo a seguir, os meios nem sempre resolvam todas as situações.
Assisti um colega a colocar seus livros nas estantes que haviam acabado de ser indexados. Percebi que os livros de estatística, ao invés de ficarem juntos, se espalhariam pelas prateleiras, pois alguns iniciavam pelo 31, de estatística, seguido de dois pontos e o assunto relacionado; outros, pelo assunto, seguidos de dois pontos 31. O colega estuda dentre outras coisas estatística aplicada, é o único usuário de sua coleção, conhece o acervo que construiu, portanto não tem dificuldades em localizar as obras. O indexador tem conhecimento dessas condições, sabe qual a área de interesse, e a coleção indexada é pequena, consta de mais ou menos 300 publicações. A constatação é que o indexador tratou de forma diversa obras em situações assemelhadas.
Para a situação relatada, conhecemos as explicações e podemos alegar uma diversidade de razões, mas o que verdadeiramente pesa é que somos constantemente traídos pelo que somos. Levando-nos a representar pelo que conhecemos, pelo contexto que nos rodeia, pelo que pensamos. De outra parte, as representações sofrem as influências societárias, são abstrações construídas pelos homens que vivem em sociedade e que as transferem para as ferramentas utilizadas para indexar. É o mesmo que admitir: usamos representações de representações ou meta representações.
Na realidade, não se pode falar em recuperação da informação sem falar nas atividades que a possibilitam, nas relações e nas intermediações que ocorrem para o sucesso de quem a usa. Uma peça de teatro faz sucesso se houver um bom argumento, um diretor que a dirija, atores que incorporem a história e a desempenhem com maestria. Cenário, iluminação, som, espaço físico para os ensaios e para acomodação do público, divulgação, impressão dos ingressos ou site na web que os disponibilize e sistema de entrega dos bilhetes são serviços complementares ao sucesso da peça.
Transferindo esses aspectos para a nossa realidade e guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica à recuperação da informação. Para discordar de “recuperar o perdido” (Ferreira, 1975, p. 1200) devemos considerar a recuperação da informação envolvendo a criação do autor; a editoração impressa, eletrônica, ou qualquer outro meio de registro que disponibilize as idéias aos leitores; a seleção e conseqüente formação de estoques; quem representa e como representa a informação; a formação dos catálogos impressos, de bases de dados em seus vários formatos e sua disseminação por meios tradicionais e / ou eletrônicos; por via de conseqüência quem os organiza e quem realiza buscas; por fim, o usuário que utiliza a informação, com os objetivos citados inicialmente.
No momento da recuperação, há uma tendência a valorizar o ator que a possibilitou – o profissional da informação – mais do que o autor e os parceiros envolvidos em todas as etapas. E isso porque o sucesso da busca permite a satisfação do usuário. Em outras palavras, a recuperação da informação, se tudo conspirar a favor !
Referências Bibliográficas:
BATTLES, Matthew. A conturbada história das bibliotecas. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003. 238p.BERNERS-LEE, Tim. ... e ele criou a WEB. Veja Especial Tecnologia. p. 40-41, jul. 2006.
BUSH, Vannevar. As we may think. The Atlantic Monthly, July 1945. Disponível em: http://www.ps.uni-sb.de/~duchier/pub/vbush/vbush-all.shtml Acesso em: jul. 2006.
CHOO, Chun Wei. A organização do conhecimento: como as organizações usam a informação para criar significado, construir conhecimento e tomar decisões. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2003.
DU MONT, Rosemary Ruhig. Ethics in librarianship: a management model. Library Trends, p. 201-215, Fall 1991.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 15 imp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. p. 1200.
KAPSNER, Oliver L. The Catholic University of America Library in action. Special Libraries, v.47, n.7, p.307-313, sept. 1956.
PEREIRA, Maria de Nazaré Freitas. Prefácio que esclarece o leitor a propósito do sonho de Otlet: aventura em tecnologia da informação e comunicação. In: PEREIRA, Maria de Nazaré Freitas, PINHEIRO, Lena Vânia Ribeiro. O sonho de Otlet: aventura em tecnologia da informação e comunicação. Rio de Janeiro: IBICT, 2000, 291p
Joana Coeli Ribeiro Garcia
joanacoeli@uol.com.br
Doutora em Ciência da Informação pela UFRJ/IBICT, Professora do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da UFPB.