Vitaminas Filosóficas - a arte de bem viver
Autor: Theo Roos
Editora: Editora Casa da Palavra
200 páginas, 1ª Edição
ISBN: 857734021X
Filosofia para um grande público. Como
pílulas aplicáveis no dia-a-dia, essas Vitaminas filosóficas fazem efeito e
trazem sabedoria, liberdade e autoconhecimento.
Nada melhor que Nietzsche, Camus, Foucault, Sócrates, Deleuze, Hanna Arendt
e companhia para casos de paixão, ansiedade, preguiça, angústia. Tudo isso
somado a letras e músicas de ídolos do rock e do pop, como Bob Dylan,
Rolling Stones, Nirvana, David Bowie, Madonna.
Um dos condições mais marcantes na vida cultural do Brasil atual é o
crescente interesse pela filosofia. Na escrita acadêmica a filosofia ou a
quase filosofia embasa espetaculares "papers" para um
status mais pomposo. Em alguns casos torna a escrita enigamática,
para compreensão de poucos ou de ninguém quando em um festival de "nonsense"
é usada para impressionar leitores incautos e avaliadores ingênuos. Enfim o
papel tudo aceita.
Vitaminas Filosóficas, do autor amante do rock e filósofo Theo Roos é
um sucesso pela sua simplicidade de exposição e por suas analogias fáceis e
pertinentes. Durante dois anos, uma rede de TV alemã apresentou as tais
vitaminas na forma de programa seriado. Lá a filosofia vai para a televisão,
onde não se fica só com a filosofia perene do BBB.
As "Vitaminas" agora estão disponíveis em um livro em que, Deleuze,
Schopenhauer, Nietzsche, Sócrates são contados com a ajuda de Bob Dylan,
Janis Joplin e Van Morrison.
Vitaminas são pílulas que têm finalidades de combater a fraqueza, compensar
carências , corrigir alguma disfunção metabólica, em suma, são indicadas
para devolver a saúde e o bem estar. Esse parece ser o mesmo propósito
do autor.
Theo Roos assinala no prefácio: Este livro não traz coisas para serem
entendidas, mas em compensação traz muitas coisas para serem feitas. Ele
também fala que o livro é uma caixa de ferramentas, para que, através da
sabedoria dos filósofos, possamos mudar nosso modo de pensar e, assim, nos
tornarmos pessoas mais ativas com uma vida melhor.
O livro conta como esses filósofos aplicaram suas idéias à vida. Até
porque traz sempre a mesma mensagem edificante: a filosofia é uma arte do
bem-viver, um pouco como se a “Fenomenologia do Espírito”,de Hegel fosse
apenas uma versão mais complicada de como descobrir a si mesmo sem precisar
gastar dinheiro com análise.
Em uma época atual quando é comum se alimentar da transgressão de
padrões e normas, a transgressão pode, porque não, se transformar em
mercadoria. Livros de ajudam o entendimento da filosofia estão vinculados à
ao estágio atual da indústria cultural.
Vitaminas filosóficas – a arte de bem viver traz na embalagem apenas uma
advertência: “Filosofia faz bem à saúde”. Mas, isso é coisa que se
possa aprender com um livro? Pode ser um primeiro passo e o autor nos faz o
convite, com entusiasmo, colorindo seus textos com letras de canções de
rock.
Vale reproduzir uma parte do livro que explica a filosofia de Deleuze com a
ajuda das palavras de Bob Dylan:
Em Mil platôs, e também em Anti-Édipo, um dos seus melhores
trabalhos, escrito em parceria com Félix Guattari - com quem Deleuze
tinha uma singela aliança - há uma frase:
"Um pouco de erva e água clara". Esse é o lema dos nômades.
"Todo mundo tem que ficar bolado", canta Bob Dylan, que, aliás,
se chama Robert Zimmermann - também tem no nome o "Z" do
ziguezague filosófico. O "bolado" de Dylan é frágil, ambíguo, tem um
significado que remete tanto a bola quanto a "onda" que os hippies
curtem. Um pouco de erva. Não é à toa que Dylan era o cantor de
Deleuze.
"Aproveite aquilo que você conseguiu por coincidência", diz uma
música de Dylan. Essa atitude, que dá uma chance ao acaso e ao
destino, é sempre audível em suas canções.
O nômade é uma figura de destaque na obra de Bob Dylan.
Não admira que o professor de filosofia de Vincennes deseje filosofar
como as músicas de Dylan:
Como professor que sou, desejaria muito dar uma aula do mesmo
jeito que Dylan compõe uma canção. Eu precisaria começar como
ele, com uma batida, com sua máscara de palhaço, com aquela arte
na qual todos os pormenores se sintonizam, apesar de improvisados.
Deleuze como músico e Dylan como filósofo. Dylan pensa enquanto Deleuze
canta.
Sim. Costumo roubar idéias, mas não almas.
Deleuze cita Dylan e comenta:
Ele é o contrário do plagia dor. O contrário, mas também o mestre
ou exemplo do plágio. Ele faz longos ensaios, mas tudo sem método,
sem regras e receitas. Casamento sem relacionamento, mas de papel
passado. Como um saco, no qual eu enfiasse tudo que encontrasse
- desde que eu também me enfie no saco. Encontrar, achar, ao invés
de criar regras, ao invés de conhecer de novo ou reconhecer.
O Professor Dylan torna-se uma pessoa conceitual para Deleuze
- Dylan e Deleuze são enfiados num mesmo saco.
As linhas principais da filosofia deleuziana - estímulos à ação e à
tomada de atitude
- encontram-se também no poema "Eleven outlined epitaphs", que
Deleuze destaca para descrever o estilo de Dylan:
Uma palavra, uma melodia, uma história, uma frase,
Chaves ao vento, destrancando pensamentos
E sobre pensamentos travados o sopro do ar
Do jardim.
O professor Dylan ensina na aula imaginária de Deleuze.
Destrancar pensamentos, dar textura às idéias, abrir as portas do pensamento
e produzir novos vínculos, arejar a cabeça com um sopro de ar do
jardim. Mais uma vez com "Eleven outlined epitaphs", o professor
Dylan completa:
Não devo ficar sentado cismando
Refletindo e perdendo tempo
Que eu pense sobre as idéias que ainda não foram
Pensadas. . .
Não, eu preciso reagir rápido e defender
Com palavras como armas
Vestidas de melodias
Que ressoem anos a fio
E tocar meu zelo de empregá-las justas
Formulá-las de outro modo, em novas harmonias
Para proteger meu mundo
Contra todos os bocudos
Que querem devorá-las
Como alimento
Não sair do contexto das idéias, mas concentrar-se nas idéias sensíveis,
não cismar, não parar de pensar, mas pensar reagindo, esses são
os conselhos do professor Dylan. Do interior, nos centros de vibração
das idéias, desenvolvem-se ressonâncias e surgem outras idéias ainda
não anotadas. Desenvolve-se também um estilo bem pessoal de escrita e de
vida
no mesmo poema.
Para mim não se trata
Do que as pessoas sabem
Mas, sim, do que as pessoas sentem...
Eu segui um outro caminho...
E nesse caminho eu continuo seguindo...
Onde nenhuma alfândega contrarie meus projetos
E os pensamentos não contem
Onde se ferem os sentimentos
E eu estou do lado dos sentimentos feridos
Massacrados por martelos insensíveis
Sangrando pelos enferrujados pregos cravados
E eu pergunto, Jim
Qual é o partido desse tipo de sentimento?
Como Nietzsche e Camus, Bob Dylan se move no espaço de ressonância dos
sentimentos.
Lá, onde os sentimentos são notas musicais que formam melodias, lá, onde os processos de transformação podem acontecer, lá, onde algo acontece e vai além.
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O que seria da arte de viver se não fosse a música?, pergunta o prefácio
do livro.
Aldo de Albuquerque Barreto
Esta recensão contou com a colaboração do texto de Vladimir
Safatle que é professor no departamento de filosofia da USP em matéria
publicada na Folha de São Paulo e de menssagem do blog de Karla Hansen em matéria
publicada em 16/1/2007, todos analisando o conteúdo do presente livro.
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