Mnemotécnica e tecnovidade
Mnemotechnics and technovelty
por Luiz Carlos B. Paternostro
Resumo: A mnemotécnica tem muito o que dizer sobre os seus produtos recentes, sobre as assim chamadas Tecnologias da Informação e da Comunicação, bem como sobre métodos, usos e princípios derivados das práticas culturais que ajudou a consolidar. Os esforços em distinguir a informação do conhecimento, o nomotético do idiográfico, as reduções que o discurso impõe ao real ou, visto de outro modo, o caráter constitutivo das representações, tudo isso sugere a conveniência de um estudo cuidadoso do edifício mnemotécnico. Algo que poderia igualmente tornar visíveis, ou mesmo esclarecer algumas questões fundamentais mais além daquele esforço de entendimento.
Palavras-chave: Mnemotécnica, Informação, Conhecimento, Tecnologia da Informação, Saber.Abstract: Mnemotechnics has a lot to say about its novel products, e.g. the so called Information and Communication Technologies, as well as about methods, uses and principles, from the very cultural practices it has contributed to. The endeavour to separate information and knowledge, nomothetic sciences from idiographic ones, the reductions discourse imposes upon the real-world, or rather from another point of view, the constitutive character of representation; all this sugests it would be worth carrying out a careful study about the mnemotechnic building. It might also disclose, or even clarify some fundamental issues beyond that struggle for understanding.
Keywords: Mnemotechnics, Information, Knowledge, Information Technology, Wisdom.
Richard Feynman chamou a atenção para uma diferença importante entre as preocupações da Física - seu tempo simétrico, sua ahistoricidade - e as de outras disciplinas, como a Cosmologia - ciência do passado e do futuro deste Mundo: "(...)é, pois, possível, a partir do presente, dizer algo sobre o passado. De fato, os físicos não costumam fazer isso. Gostam de pensar que as únicas questões são do gênero 'dadas estas condições, que vai acontecer a seguir?'. Mas todas as outras ciências se confrontam com problemas completamente diferentes; de fato, todas [sic] as outras disciplinas - história, geologia, cosmologia - têm problemas de outro gênero." [1]
Em outro contexto, Kurt Lewin, seguindo uma distinção de Ernst Cassirer [2], analisa criticamente o estatuto da Psicologia como ciência moderna, isto é, "galileica", a partir do modelo da Física, comparando conceitos modernos com outros, que ele denominou "histórico-geográficos", herdados do antigo "aristotelismo": em Galileu, a categoria cede lugar à série, e se abandona a antiga classificação dos fenômenos por sua "freqüência" ou "legitimidade" com as exceções representando incômodos casos "fortuitos" ou "imperfeitos" relativamente à aplicação da "lei" [3]. A série corresponde a uma matematização capaz de recompor (sintetizar) a trama do real e dá autoridade constitutiva autônoma à função. Toma o lugar da autoridade da "realidade dada" substancial, que continha, de algum modo, o conceito e da qual deveríamos extraí-lo ("abstraí-lo"). O "elemento comum" aristotélico é substituído, no conceito funcional, pela lei de formação do fenômeno. O que Leibniz encontrou na "lei de respondência" [4] e Walter Benjamin na "semelhança extra-sensível" [5].
Mais tarde, legitimidade termina por confundir-se com existência. Outro artigo de Kurt Lewin [6] compara as ciências sociais com as ciências naturais quanto ao problema da "existência" dos objetos das investigações empíricas e, assim, quanto à sua "legitimidade". O argumento metodológico da inapreensibilidade de certos objetos das ciências sociais quando comparados aos das ciências naturais "(...)não nega a existência do fenômeno [no exemplo de Lewin, as emoções, para a Psicologia] mas tem o mesmo efeito de manter o tópico fora do campo da ciência empírica." [7].
Por outro lado, as polêmicas sobre a validade dos conhecimentos produzidos pelas atividades práticas frente aos derivados das ciências nomotéticas, são muito mais antigas. Nomotéticas, aqui, no sentido da distinção (1894) entre método idiográfico e nomotético, de Wilhelm Windelband: o idiográfico trata do fato individual, como na história ou na cartografia; o nomotético ocupa-se de leis gerais, como na física ou na matemática. Aliás, para Windelband uma tal distinção não se aplica aos objetos, ou fatos cognoscíveis, mas aos "objetivos": "no que diz respeito ao seu tratamento do ponto de vista do conhecimento, os fatos se comportam de modo totalmente neutro, de maneira que os mesmos objetos podem ser examinados tanto de um ponto de vista nomotético como idiográfico. Contudo, dependendo do procedimento escolhido, os fatos reconhecidos diferem radicalmente" [8].
Robert Klein (Os Humanistas e a Ciência, 1961) recoloca a questão na controvérsia renascentista entre "humanistas" e "práticos", na assim chamada disputa delle arti, não reconhecendo nossa nítida linha de separação entre as ciências humanas e as ciências da natureza. Até mesmo porque a valoração que se fazia no século XV era praticamente oposta à moderna: "A querela entre juristas e médicos, já qualificada como antiga por Salutati em 1399, prolongou-se durante todo o século XV e é instrutiva sobre a idéia que se faz da relação entre ciências e ciências da natureza. Parece, paradoxalmente para nós, que as ciências da natureza passam [ali] por 'incertas' e especulativas (ao menos naquilo que têm de melhor), e as ciências humanas, em particular o direito, por 'práticas' e seguras. (...)sobre a natureza e o 'posicionamento' das duas classes de ciências o acordo era geral. Entretanto, a pretensão do humanismo de se erigir numa sorte de metaciência fez que o problema se colocasse em outros termos, derivados da Ética a Nicômaco: sophia contra episteme. As ciências da natureza se tornaram, aparentemente para sempre, a 'ciência' simplesmente. (...)Vê-se o que torna os humanistas 'anticientíficos': eles não se interessam por 'puros dados', independentes da história e dos valores. Como então representar ou explicar seu contato indiscutível com os precursores e os criadores da ciência moderna?(...)a faísca desses contatos surge muito tarde. (...)essas condições ideais eram recentes. A transformação que as tornou possíveis ocorreu em todos os domínios ao mesmo tempo. Assim, a idéia de que o pensamento pode esposar os fenômenos e substituir a natureza passa da alquimia medieval, através da filosofia ficiniana e da estética de Leonardo, para as ciências da natureza." [9].
As afinidades entre as observações de Richard Feynman e Kurt Lewin são ainda mais estreitas do que podem parecer à primeira vista, apontando para as mesmas diferenças de uma postura funcional frente a outra categorial. Por exemplo, Feynman [10], ao descartar as tentativas de elaboração de tabelas de coeficientes de atrito para os metais puros com o argumento de que, no caso de se polirem e se eliminarem as impurezas das superfícies de duas placas de cobre, o resultado não será uma redução, mas um enorme acréscimo do coeficiente de atrito, recorda-nos que são forças atômicas que fazem com que aquelas superfícies permaneçam mais ou menos unidas. Isto é, a tabulação de semelhanças sensíveis [11] na busca de leis derivadas de regularidades empíricas terminou, pelo menos neste caso, por deixar de considerar questões teóricas mais fundamentais envolvidas, inclusive, na explicação moderna daquelas regularidades. Na tensão entre a substância e a função, entre o nomotético e o idiográfico, ou entre a série e a categoria, subsiste outra disciplina. Com base no trabalho da historiadora Frances Yates [12], uma narrativa de Fausto Colombo (Os Arquivos Imperfeitos, 1986) sobre o desenvolvimento da mnemotécnica ocidental nos chama a atenção, em particular, para a evolução dos suportes de armazenamentos e recordações (mneme, anamnese), vistos pelos antigos como estruturas auxiliares formais, independentes de seus conteúdos eventuais ("acidentais"), em direção, durante a Idade Média, a um novo entendimento daqueles artifícios, já não mais considerados como expedientes, mas efetivamente como reflexos, ou duplos do Mundo que afirmam representar.
Uma vez que o empírico, antes acidental, pode ser "recordado", "ampliado" e mesmo "reproduzido" (poder metonímico) pelos instrumentos mnemotécnicos apropriados, então, ao mesmo tempo que as "novas descrições" (os novos mundos) acrescentam não apenas novos conteúdos mas novas estruturas ao edifício dos lugares, o universo passa a ser visto, ele mesmo, como um sistema mnemotécnico a ser decifrado, e a insuficiência da representação torna-se provisória. "Lembrança torna-se sinônimo de conhecimento(...)" [13].
A fé, interessada, na capacidade sintética dos sistemas em (re)produzir a realidade corresponde, no limite, a uma aparentemente ingênua desvalorização ou denegação do irredutível e à sua pura assimilação ao edifício mimético. Observar as vicissitudes da mnemotécnica no mundo que ela ambiciona um dia substituir produz a distância necessária para uma avaliação mais profunda e mais serena, entre outras coisas, das tecnovidades.
É nesse contexto que gostaria de discutir, como exemplo privilegiado, a suficiência representativa do modelo, como sucedâneo e como evocação de um original. O modelo, antes de cair sobre a realidade, encontra-se e realiza-se nela. É - assim como a idéia - menos utopia do que espaço agônico de constituição política do mundo [14]. E por isso, o que fica de fora, o marginal ao modelo, antes que excesso, é constitutivo.
A invisibilidade dos bastidores, o encapsulamento, o ocultamento de informação anunciam melhor representar o mundo (o real-world), isto é, falar em seu nome. Hipertrofiam o aspecto metafórico do signo, em detrimento do metonímico e, ao pretender simular a transparência do familiar [15], diferem para a lógica da interface, como dificuldades de comunicação, como provisórias dificuldades técnicas, aquelas inerentes aos problemas. Acrescentam uma nova complexidade de mediação em nome da comodidade - assimilada à padronização e universalização de procedimentos - fundamentada em uma duvidosa "psicologia do usuário", em uma suposta "natureza dos interlocutores". Comodidade de qualquer modo inatingível - quando muito, alívio momentâneo -, dificuldade imponderável, de antemão: qualquer complexidade refere-se sempre aos meios, nunca às finalidades, não existem intenções complexas, mas, sim, tarefas complexas. Certamente, algumas intenções podem ser confusas.
Tais expedientes "facilitadores" ocupam um espaço imenso, pouco deixando para o que declaram significar. Cegos para o irredutível, sacrificam a representação de importantes diferenças em nome da comodidade de intercâmbio das representações.
Chegamos finalmente na questão da redução incontornável nas representações. Mas só pensamos em reducionismo porque se pretendeu, em primeiro lugar, substituir ao invés de interagir. Um modelo de representação não monádico, isto é, que não ambiciona incluir no objeto, como sua propriedade, o conjunto de todas as suas relações possíveis, tampouco é redutor: desde o princípio evoca, dialoga e negocia; é, por assim dizer, metonímico, antes que metafórico.
Assim como as representações não substituem seus objetos, elas tampouco podem ser consideradas, em princípio, intercambiáveis. Os fatores de escala nos mapas não visam, em primeiro lugar, abreviar ou ampliar os mesmos espaços, mas sim ressignificá-los [16]. Arquivos pessoais não são pequenas malas diretas, um país não é uma enorme cidade, etc.
A produção do objeto se dá pela margem, pela exigência de preenchimento, pela convergência necessária entre signo e significado no entendimento. Entendimento no mundo, antes que do mundo, já que não se pode abdicar da presença no mundo. Certamente, lembrando-me daquelas colas plásticas de dois componentes separados, a combinação mágica dos reagentes potenciais pode brilhar como insight (pré-fabricado): "é claro, é isso mesmo!". Estrabismo e paramnésia como duplo e descoberta.
E, assim como não se pode confundir gênese e função, tampouco se deveria assimilar conhecimento a informação. Sua tão perseguida comensurabilidade só é obtida ao preço do enfraquecimento do próprio poder mimético. A maquilagem das diferenças está fundada na constituição de um não-saber operacional. E, em um mundo cuja legitimação se confunde com o puro procedimento, o operacional se traveste em fundamental, e o autista em demiurgo. O não-saber constituinte torna explícito o projeto de esvaziamento dos conceitos [17] tendo em vista sua comensurabilidade. Ao preço do próprio conhecimento, que nunca está na coisa, mas que se faz no mundo, entre as coisas, das quais não é propriedade acabada ou duplo abstrato, mas um seu constituinte [18].
Notas:
1. [Feynman(QL):147].
2. [Substanzbegriff und Funktionsbegriff, 1910]; ver tb. [Cassirer(FF):7-11]
3. ver [Lewin(CM),1931].
4. ver [Lebrun(CS)]
5. ver [Benjamin(DS)]
6. ver [Lewin(FD), 1947]
7. [Lewin(FD):215]
8. ver [EPhU(OPh):2935-2937]
9. [Klein(HC):321-323]
10. [Feynman(FL):12-5]
11. fenotípicas, segundo [Lewin(FD)]
12. [Yates(GB):Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, 1964]; [Yates(AM):The Art of Memory, 1966]
13. ver [Colombo(AI):35]
14. cf. Deleuze (PA), Prefácio à Anomalia Selvagem, de Antonio [Negri(AS)]
15. ver [Wittgenstein (IF):§436], citando Santo Agostinho
16. ver Yves [Lacoste(GI)]
17. ver Bruno [Snell(DE):19ss]
18. ver [Paternostro(MR),(EA)]
Referências:
Benjamin, Walter. (DS) - "A Doutrina das Semelhanças" in Obras Escolhidas - I. São Paulo: Brasiliense, 1985 (Orig. 1933)
Cassirer, Ernst. (FF) – Filosofía de las Formas Simbólicas. México: Fondo de Cultura Económica, 1998 (Orig. 1964)
Colombo, Fausto. (AI) - Os Arquivos Imperfeitos. São Paulo: Perspectiva, 1991. (Orig. 1986)
Deleuze, Gilles. (PA) -"Prefácio", in Negri, Antonio, A Anomalia Selvagem. São Paulo: Ed34, 1993 (Orig.1981)
EPhU - OPh. (OPh) - Encyclopédie Philosophique Universelle. Les Oeuvres Philosophiques. Dictionnaire. 2 V. Paris: PUF, 1992.
Feynman, R.; Leighton, R.; Sands, M. (FL) - The Feynman Lectures on Physics, Vol I. Reading, Mass: Addison-Wesley, 1963.
_______________. (QL) - O Que é uma Lei Física? Lisboa: Gradiva, 1989 (Orig.1965)
Klein, Robert. (HC) -"Os Humanistas e a Ciência (1961)", in A Forma e o Inteligível. São Paulo: EdUSP, 1998 (Orig.1970)
Lacoste, Yves. (GI) - A Geografia: isto serve, em primeiro lugar para fazer a guerra. Campinas (SP): Papirus, 1988.
Lebrun, Gérard. (NS) - "A Noção de Semelhança de Descartes a Leibniz", in Dascal, Marcelo, Conhecimento, Linguagem e Ideologia. São Paulo: Perspectiva; EdUSP, 1989.
Lewin, Kurt. (FD) -"Fronteiras na Dinâmica de Grupo (1947)", in Teoria do Campo em Ciência Social. São Paulo: Pioneira, 1965 (Orig.1951)
_________. (CM) - "O Conflito entre os Modos Aristotélico e Galiléico de Pensamento na Psicologia Contemporânea", in Teoria Dinâmica da Personalidade. São Paulo: Cultrix, 1975. (Orig. 1931)
Paternostro, L.C.B. (EA) - Elementos para uma Avaliação Crítica das Interfaces Homem-Computador. Dissertação de Mestrado, Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1993.
_______________. (MR) - Modelos na Realidade às Margens da Modelagem. Tese de Doutorado, IBICT/CNPq, ECO/UFRJ, 1998.
Snell, Bruno. (DE) – A Descoberta do Espírito. Lisboa: Edições 70, 1992 (Orig. 1975)
Yates, Frances A.(GB) – Giordano Bruno and the Hermetic Tradition. Chicago: UCP, 1991. (Orig. 1964)
______________. (AM)– The Art of Memory. London: Pimlico, 1992. (Orig. 1966)
Wittgenstein, Ludwig. (IF) - Investigações Filosóficas. Col. Os Pensadores. S.Paulo: Ed. Abril, 1979. (Orig. 1953)
Sobre o autor / About the Author
Luiz Carlos Brito Paternostro
patern@alternex.com.br
Dr. [Ciência da Informação], UFRJ/ECO, IBICT/CNPq, 1998
Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Endereço residencial/ Personal address:
Av. N. S. Copacabana, 1049/601 - 22060-000
Rio de Janeiro, RJ, Brasil