Confronto simbólico, apropriação do conhecimento e produção de informação nas redes de movimentos sociais
Simbolic confront, knowledge appropriation and social movements networks information production
por Regina Maria MarteletoResumo: Os movimentos sociais, no ambiente mais recente da globalização, buscam novas formas de cooperação e de denúncia para encaminhar suas ações. A organização em redes de movimentos é uma forma dinâmica de intercambiar idéias e de fortalecer as ações de indivíduos, grupos e entidades. O artigo aborda os papéis que os atores são levados a desempenhar nessas redes, e de que forma investem recursos cognitivos, informacionais e comunicacionais nos processos de luta e de intervenção para a transformação social. Conclui-se que, nas redes de movimentos sociais, coloca-se em prática uma nova compreensão do conhecimento e da informação, além de formas inovadoras para a sua organização e gestão pelas organizações e movimentos da sociedade.
Palavras-chave: Redes de movimentos sociais; Conhecimento e Sociedade.Abstract: Social movements, at the most recent globalisation environment, seek for new courses of co-operative and denouncing actions. Net organisation of movements constitutes a dynamic way for exchanging ideas and allows the strengthening of individual, collective and institutional actions. This paper discusses roles which actors are led to play inside these nets, and the way they lay out cognitive, informational and communicational resources for the processes of struggle and intervention towards social transformation. Drawing a conclusion, it may be said that inside social movements nets a new conception of knowledge and information is put into practice, besides innovatory forms for its organisation and management by social organisations and movements.
Keywords: Social movements networks; Knowledge and Society.
1. INTRODUÇÃO
Diversos problemas e novos processos econômicos, políticos e sócio-culturais emergem com a chamada globalização do mundo. O Estado, o mercado, a sociedade civil e seus diferentes atores buscam, por diferentes meios, se adequar aos desafios da reorganização do capitalismo em escala global.
Neste contexto recente, a questão do conhecimento e do acesso à informação tomam uma nova e expressiva relevância no processo de desenvolvimento econômico, no exercício da cidadania, na educação e no trabalho.
Neste artigo, baseado em resultados de pesquisa realizada junto a redes de movimentos sociais que têm como paradigma de orientação e ação os princípios da educação popular e saúde, serão abordados os papéis dos atores nessas redes, quanto aos aspectos de produção do conhecimento e da informação e dos processos comunicacionais.
Pretende-se mostrar de que forma os sujeitos coletivos atuantes em grupos, entidades, associações da sociedade civil, enfrentam juntos os desafios gerados pelas condições de miséria humana, agora reconfiguradas pelos processos de globalização, em seus universos simbólicos, políticos e materiais de vivência.
Trata-se de uma análise interpretativa sobre os atores e suas capacidades inventivas para organizar as redes de movimentos por meio de recursos cognitivos, comunicacionais e informacionais.
2. REDES DE MOVIMENTOS SOCIAIS
Os movimentos sociais são formas de ação coletiva que ao longo do tempo vêm reagindo , com expressão política, aos contextos de dominação e exploração da população colocada à parte do processo de desenvolvimento econômico, do acesso aos bens simbólicos e materiais produzidos pelo esforço da sociedade como um todo.
As reações, nos movimentos sociais, podem ocorrer sob diferentes formas, que não são mutuamente exclusivas. No mais das vezes desenvolvem-se simultaneamente, mostrando diferentes facetas dos movimentos e seus projetos de construção de identidades sociais comprometidas com a cidadania. Conforme Scherer-Warren (1999, p. 14-15), tais reações ocorrem sob a forma de:
a) denúncia, protesto, explicitação de conflitos, oposições organizadas;
b) cooperação, parcerias para resolução de problemas sociais, ações de solidariedade;
c) construção de uma utopia de transformação, com a criação de projetos alternativos e de propostas de mudanças ."
Neste trabalho as redes de movimentos sociais são entendidas como uma vasta e indefinida teia formada pelos elos de contato entre agentes situados em diferentes posições no espaço social, de acordo com sua inserção de classe e de pertencimento a determinados campos - o comunitário, o filantrópico, o político, o religioso, o pedagógico, o acadêmico, das ONGs. A diversidade de status social desses agentes tem como contraponto objetivos e interesses comuns de melhoria das condições de vida (meio ambiente) e de participação social política (cidadania) da parcela da população não contemplada pelas políticas e serviços públicos, e sem acesso ao consumo. Do ponto de vista informacional, as teias sociais e estruturais dessas redes revelam as mediações cognitivas e comunicacionais presentes nas ações, representações e interações dos agentes.
De modo mais específico, o foco é dirigido para as ações e interações em rede de um conjunto de agentes que têm forte componente cognitivo, comunicacional e informacional, mesclando e confrontando discursos e cosmovisões próprios a cada um dos seus membros.
Pergunta-se sobre o que acontece quando um grupo de pessoas e organizações são levadas a cooperar para encaminhar atividades as mais diversas - como produzir bens e serviços, dispensar conhecimentos e cuidados, participar da vida democrática ou ainda partilhar atividades de apoio social.
Paralelamente, pergunta-se sobre o movimento da informação e dos sentidos nas redes assim delineadas, sabendo que tanto as informações quanto os significados encontram-se relacionados à ação social, entendida como intervenção de transformação no dado da realidade vivida pela população. Ou ainda de apropriação e interpretação sucessivas dos sentidos oficiais já atribuídos à realidade das coisas e das pessoas pela mídia, pelo Estado, pelo mercado.
Para perceber o movimento da informação como recurso simbólico - portanto prenhe de sentido cultural para os diferentes grupos e indivíduos - a cultura é aqui considerada como um "reservatório" ou "repertório" de práticas e referentes internos ou externos ao espaço social estudado que os agentes sociais mobilizam em função de tal ou qual conjuntura, mais do que normas e valores próprios aos grupos ou impondo-se mecanicamente a cada um dos seus membros.
3. OS ATORES E SEUS PAPEIS NAS REDES DE MOVIMENTOS
Nos espaços sociais formais - os campos ou organizações - os atores desempenham seus papéis de acordo com normas que orientam suas práticas e discursos. Os atores estão ligados entre si por papéis definidos - pelo menos parcialmente - do exterior, embora em todos os ambientes formais a variação de papéis, a ambivalência das normas que os definem, o caráter compósito de certos papéis e as interferências entre eles indiquem a dimensão estratégica inerente ao exercício dos papéis sociais (BOUDON, 1989, p.90). Por outro lado, as posições ou papéis ocupados pelas pessoas nesses espaços formais estão, freqüentemente, associados a atributos ou sinais exteriores que permitem situá-los na escala de status sociais.
Nos ambientes sociais informais - como as redes de movimentos - cada ator pode desempenhar, com maior ou menor sucesso, vários e múltiplos papéis. As relações horizontalizadas e a ausência de estrutura hierarquizada apontam para papéis que têm definições fluídas expressas por formas adjetivadas como líder, educador, cosmopolita, mediador e tantas outras quantas forem as formas de comunicação e negociação presentes nas redes de mobilização de recursos para a transformação social. Os papéis, nesse caso, são flexíveis e interdependentes.
Nas redes de movimentos estão presentes atores externos - intelectuais, religiosos, profissionais do setor público ou privado, membros de sindicatos e partidos políticos, dentre outros - e os atores internos - lideranças comunitárias, membros de grupos de ajuda mútua, de associações, escolas e outras entidades, pessoas das comunidades. Não se deve perder de vista, no entanto, o pertencimento de campo de cada um dos atores, que é indicador dos seus capitais lingüísticos, cognitivos e informacionais e, portanto, do seu lugar no espaço social. Pois estes indicam os conflitos e os interesses dos atores associados às suas cosmovisões próprias e a maneira como investem os atributos e habilidades adquiridos na sua aprendizagem e experiência social na representação dos seus papéis nas redes.
Nos estudos de redes sociais considera-se que existem atores que desempenham a função de personagens-chave, com base na idéia de que numa sociedade fragmentada, o que diferencia uma rede de um simples conjunto de indivíduos, é a sua maior capacidade de mobilização. E quem possibilita essa mobilização são os "personagens-chave" ou "personagens-ponte", que permitem a comunicação entre subgrupos e entre redes.(DEROY-PINEAU, 1991, p.43)
O foco da análise dos papéis está centrado na idéia de apropriação do conhecimento, com base no pressuposto de que se este último é um produto social, pode ser socialmente transformado pela ação das pessoas - a colaboração, o compartilhamento, a combinação de conhecimentos - para superar os limites do conhecimento que elas individualmente possuem.
Nas redes de movimentos existe um reconhecimento da importância de muitos tipos diferentes de conhecimento - tácito, vivido, teórico, histórico - para a compreensão dos problemas e a orientação das ações. O valor que é dado a essas formas de conhecimento cotidiano surge de um sentido de si mesmos que os atores elaboram enquanto agentes da mudança social. Nesse sentido, o conhecimento e a ação estão intrinsicamente interligados.
Na análise dos papéis dos atores nas redes de movimentos, o interesse é mostrar como as ações visando fins de transformação social criam modos de compartilhar as informações e de ampliar o conhecimento dos indivíduos, promovendo novas formas de compreensão, produção e uso dos conhecimentos. As novas formas de combinar conhecimento teórico e prático, a importância distinta e essencial de cada um deles para uma compreensão mais apropriada de como alcançar os objetivos dos movimentos é o que os atores denominam de "processos de construção compartilhada do conhecimento".
Para estudar os papéis dos atores nas redes de movimentos em educação popular e saúde foram construídas algumas categorias de modo a perceber os modos de combinação dos recursos comunicacionais, informacionais e cognitivos que cada um dos personagens-chave é capaz de mobilizar de acordo com as ações a serem encaminhadas e as representações que formulam sobre as suas práticas e vivências.
Vale lembrar que essas categorias não são mutualmente exclusivas, de forma que cada ator pode pertencer a mais que uma, o que enfatiza o caráter relacional das redes de movimentos. De fato, ao longo do tempo e em variadas situações as pessoas vão representando diferentes papéis e empregando diversos meios simbólicos e materiais.
Os atores selecionados foram aqueles identificados como figuras centrais na mobilização das redes sociais analisadas.
As categorias foram assim entendidas:
a) Mentor - que formula teoricamente a vivência prática, que orienta, que guia. No interior das redes estudadas, pode ser considerado tanto o mentor acadêmico quanto o "mentor popular", ou o representante das classes populares que formula idéias a partir da sua vivência prática nos movimentos populares. Ambos (mentores externos ou mentores internos) possuem a capacidade de articular teoria e prática na direção das necessidades e objetivos da população e seus movimentos organizativos. Por essa razão ocupam posições privilegiadas nas redes e para eles confluem diversos tipos de informações;
b) Articulador - que tem contato com outros subgrupos facilitando a comunicação e o fluxo de informação na rede. Estabelece contatos entre as pessoas, liga em cadeia. Em geral são aqueles que se beneficiam das aberturas estruturais e da conseqüente força dos elos fracos gerados quando uma relação serve de ponte entre dois subgrupos; (DEGENNE, FORSÉ, 1994, p.145)
c) Tradutor - que explica, a quem se pede explicação. Simboliza, representa, manifesta, deixa transparecer. Traduz algo em palavras para que todos possam compreender. Faz a mediação entre as informações e conhecimentos externos e aqueles do próprio meio dos membros das redes;
d) Instrumentalizador - que dá meios para a ação, para atingir objetivos na prática. Que passa ferramentas, instrumentos. Operador. Detém o conhecimento sobre o instrumento. De forma diferente do tradutor, tem ação mais prática do que discursiva;
e) Cosmopolita[1] - que faz as mediações, que intervém. Exerce papel de representante do seu campo ou de seu subgrupo na rede, facilitando a troca de informações entre aqueles e o ambiente mais amplo das redes. É mais do que um articulador por ser uma referência nas redes e ter influência sobre os seus membros. Pode agir como uma "terceira pessoa" externa a um subgrupo cada vez que uma negociação está bloqueada e necessita o auxílio de uma pessoa externa. O cosmopolita tem também a característica de ampliar os contatos entre redes.3.1 Os membros do campo comunitário e seus papéis nas redes de movimentos
O campo comunitário reúne os atores internos das redes de movimentos populares, que possuem laços de inserção e/ou moradia na comunidades locais, ainda que não sejam originários daquela região. Na análise de redes sociais alguns indivíduos se destacaram como figuras centrais na mobilização dos contatos no seu próprio subgrupo ou entre subgrupos, nas redes como um todo. Por essa razão têm papel relevante na comunicação, na transferência da informação e na apropriação dos conhecimentos para as ações políticas dos movimentos, o que certamente não releva os papéis exercidos pelos outros membros posicionados nas faixas menos centrais das redes, que pelas suas posições periféricas podem expandir os contatos com outras redes e/ou espaços mais formais, trazendo e acrescentando elementos novos às relações e aos significados, diminuindo assim as redundâncias.
Um traço comum aos membros das comunidades é o desenvolvimento de formas discursivas narrativas associadas a referências e memórias locais de lugares, pessoas e acontecimentos. Algumas delas são o discurso dramatizado, o poético, o recurso a metáforas, a ditados populares, à religiosidade. Outras são as formas mais propriamente políticas e ideológicas, que procuram associar o local (o comunitário) ao geral (ou nacional, ou global).
Os elementos narrativos poéticos, religiosos ou políticos demonstram formas diferenciadas - comunitárias ou associativas - de envolvimento e participação nas redes de movimentos que se organizam no espaço e no tempo, seja pela ação das Igrejas, dos partidos políticos ou sindicatos, das associações de moradores, dos grupos de apoio, das ações de extensão universitária e, ultimamente, das organizações não-governamentais.
As práticas interativas com atores oriundos de outros espaços sociais (ou campos) dá origem a processos de incorporação de certos elementos do discurso informacional (ou científico) pelo discurso narrativo. E a incorporação no sentido inverso também ocorre, o que parece ser um meio de alinhar discursos conflitantes para ajustar o entendimento e direcionar as ações.A metáfora da semente
A imagem da semente - sua semeadura, germinação, crescimento e coleta - é recorrente nas falas das pessoas da comunidade para representar os processos de luta e participação popular. É uma forma discursiva que serve para descrever as ações populares que se repetem no tempo e no espaço dos movimentos, agregando sentidos religiosos (a atitude perseverante e exemplar narrada pelas parábolas); políticos (a busca da mudança através da ação social coletiva); científicos (o emprego da metáfora como elemento de entendimento e reflexão sobre a realidade vivida)."(...) eu tenho aprendido o seguinte: que nós somos plantadores de sementes. A gente vai jogando a semente. Porque você veja: hoje em dia existem Sacolões volantes, um ônibus que vai com o legume, a verdura, por um preço bem mais barato do que está no mercado. Quer dizer, a gente plantou a semente lá quando trouxe aqueles caminhões lá de Papucaia, (...) a gente plantou. Hoje, eles estão usando. Quer dizer, de alguma forma, a gente interferiu, a gente mudou.(...) pode não acontecer neste momento, com a gente. Mas vai mudando o processo. As coisas vão mudando. (...) Eu acho que nós somos os plantadores da semente, a gente vai lá e planta, às vezes ela germina mais rápido, a gente ainda consegue ver, ainda consegue desfrutar. Mas às vezes não, leva um pouco mais de tempo, aí você já nem está mais naquele processo. No meu caso, por exemplo, agora já estou em outro processo, e foi outra coisa que eu já descobri, pela minha experiência : tem aqueles que são os abridores de caminho, os desbravadores, aquele que vai com facão, cortando o mato.(...) Eles só vêm, abrem a trilha, e depois eles ... É o meu caso. (...)Eu acho que tem pessoas que vêm com uma função. (...) aqueles jogadores da semente. A gente vai jogando, depois (...) Outros vão colhendo, e vão desenvolvendo. (...)Tem aqueles que vêm para desbravar a coisa, para lançar a idéia. Depois que ela está encaminhada, que ela está caminhando com as próprias pernas, aí eu não sei... A gente vai começar tudo de novo em outro lugar. (...) É, vai jogar semente em outro lugar." (Diretora de Rádio Comunitária)
A idéia de "processo" representa o estado de constante movimento do trabalho popular e comunitário designado pela palavra "luta". Há sempre uma retomada local e pontual do processo de luta, que demanda compartilhamento de recursos e energias dos grupos envolvidos, seja como semeadores, plantadores, desbravadores ou coletores dos resultados.
3.1.1 Os atores e seus papéis
MERCEDES era professora na Paraíba e precisou deixar o Nordeste, como muitos dos seus vizinhos e colegas do movimento. Já no Sudeste, vendo um grupo de homens se organizar para fundar uma associação de moradores para resolver os problemas da comunidade, achou que deveria ajudar. E começou a se envolver no trabalho popular."Então, quando a gente luta pelo bem do ser humano a gente cresce em dignidade; então, a gente se torna grande feito uma estrela, feito o sol, feito esse ar que a gente respira, enfim, a gente se sente feliz, realizada, dizendo assim: Graças a Deus, eu estou em paz com a minha consciência, eu tenho a consciência do meu dever cumprido."
A partir daí, foi crescendo no movimento e hoje se caracteriza como líder, acreditando que a comunidade deposita esperança nas lideranças, o que alivia a "aflição" que eles sentem quando procuram o poder público, que não responde. Sente-se às vezes frustrada por não ter conseguido por em prática suas propostas, principalmente na sua passagem pela presidência da associação de moradores e da região administrativa. No entanto, sabe que seu trabalho é reconhecido e respeitado pela comunidade. As pessoas aprenderam que o político vem e vai embora, enquanto quem é da comunidade continua lutando.
Ser líder, nas suas palavras, é não ser um "pedidor de favor" ao poder público. É adquirir qualidades ao longo da vida, com a experiência: saber porque está lutando, conhecer a vida do povo, seu sofrimento e suas carências, aprender a conviver sem se corromper - consciente ou inconscientemente.
Percebe que o movimento comunitário vem sendo retomado gradativamente. Na década de 80, com a organização e mobilização das associações de moradores, era um movimento unitário. A partir de 93 começou a retomada e o foco mobilizador não está mais nas associações de moradores.
Hoje é agente comunitária de saúde e membro do Conselho Distrital de Saúde, como representante do segmento dos usuários. Apesar de ser um órgão legítimo, "publicado no Diário Oficial", um direito da população de opinar sobre as verbas públicas, suas decisões não são respeitadas. O poder público usa as pessoas para fingir que elas participam, que decidem; mas, no final "eles fazem o que querem ...".
Mercedes é um dos atores com maior número de contatos na rede de movimentos. Estabelece elos com os três principais campos: o comunitário, o acadêmico, das ONG's. Na rede desempenha o papel de cosmopolita. Isso significa que tem forte pertencimento comunitário e é reconhecida como uma das principais responsáveis pelo contato entre a comunidade e os espaços institucionalizados ou formais.
Destaca-se ainda outra característica do cosmopolita - de se envolver no movimento nas suas diversas manifestações, participando das lutas pontuais, sem perder de vista a dimensão abrangente das redes de movimentos e suas questões. Possui ainda, como se espera de um líder cosmoplita, a característica de tradutora, pela capacidade de absorver determinados temas e questões oriundos da mídia ou do meio acadêmico e reelaborá-los na linguagem narrativa ou popular. Por exemplo, a cidadania (ter e exercer direitos e deveres) é associada à informação, ao conhecimento, e sua aquisição e uso desigual na sociedade."As pessoas têm muito saber, muitas pessoas que sabiam muito e que poderiam ter transmitido um pouco daquele saber, eles não transmitiram, se fecharam. E isso causou grandes males. Eu estou falando de categorias de profissionais, médicos, professores, magistrados, eu estou falando de forças armadas, de poder público, das coisas grandes, que têm. Então, eles tinham tudo para poder serem solidários com a sua nação, com o seu povo, com as suas crianças e, no entanto, eles não foram. (...) Então, o que que é solidariedade, para aqueles que estão com as mãos cheias de tudo, de todos esses direitos e não transmitem, não dividem com as pessoas?"
ROBERTO é morador da região há 40 anos, tendo passado por três bairros diferentes. A experiência do dia-a-dia, a partir do trabalho partidário, foi o que o levou ao trabalho popular. Mostra que no passado havia a junção de experiências de diferentes pessoas, uma passando o seu trabalho para a outra, havia conscientização e participação. No seu discurso a participação aparece apoiada no tripé: "observar, estar na concentração e ampliar o movimento." Começou sua trajetória de ativista no movimento estudantil, passando pelo movimento popular e o envolvimento partidário. Hoje é militante de partido político e do Movimento Negro, ressaltando a importância da formação política.
Considera que as pessoas que participam dos movimentos populares, as lideranças, devem procurar se formar politicamente, informar-se e ouvir as pessoas, trocando experiências e aprendendo. No passado a participaçào popular era maior, hoje existem movimentos isolados, não há unificação como havia nos anos 80. Hoje existe uma outra conjuntura, as pessoas precisam garantir sua sobrevivência e, por não acreditarem mais no governo vão para as ONG's, por exemplo, para desenvolver um trabalho mais individual.
Ele está presente em quase todos os eventos - reuniões, cursos, seminários, manifestações - relacionados ao movimento popular que se realizam na região. Circula pela região como funcionário de partido político e distribuindo o jornal de uma Organização não-governamental. Apesar de não ter propriamente liderança nem cargo no movimento aparece na configuração das redes de movimentos em posição de destaque, o que se explica pelo seu papel de articulador. Percorrendo os espaços das comunidades, falando com diferente pessoas, acaba por estabelecer elos entre grupos e pessoas que não se ligam diretamente. É aquele que se vale dos elos fracos para fortalecer os vínculos e a própria estrutura das redes.SÔNIA mora na região há cerca de 20 anos, desde que veio da Paraíba para o Rio de Janeiro. Morou primeiro, em meio a uma miséria grande, em barracos sobre palafitas. Descreve com detalhe as condições de vida das pessoas - e as suas próprias - naquela época. Sua descrição parece mostrar a percepção de alguém que vem de longe e que se espanta com a miséria da cidade grande, diferente do Nordeste, onde por maior que seja a pobreza, "as pessoas têm onde morar, têm um livre-arbítrio". Mostra sua satisfação com a fundação da nova comunidade com casas populares, onde foi morar.
Fala sobre as situações e experiências que a levaram ao trabalho popular, a partir de um problema familiar, quando percebeu "a distância da sociedade em relação aos problemas das comunidades." Destaca que nunca teve recursos materiais, mas tinha valores morais para dar aos filhos. "Guiada por Deus", resolveu suas questões familiares e começou a querer fazer algo pela comunidade. Um dia foi convidada por uma amiga para lutar, junto com ela, pela reabertura de um posto de saúde. E daí não parou mais, abrindo novas frentes para o trabalho popular com a criação de uma organização não-governamental que gerencia recursos repassados pelo poder público.
Sua posição de centralidade nas redes de movimentos é devida à sua projeção como líder na luta pela reabertura de um posto de saúde, o que evidencia seu papel de articuladora incansável, capaz de estabelecer contatos em diferentes espaços - no acadêmico, nas ONG's, nos setores do poder público - procurando apoio e participação de outras pessoas e grupos para atingir seus objetivos."É o caso das mulheres da [comunidade], do posto que fechou. Aquilo ali é um por dia que elas matam, porque primeiro foi aquela coisa : dois, três anos para conseguir começar a negociar, de tentar que a prefeitura pudesse assumir o posto. Depois, quando a prefeitura falou que podia assumir, que ia assumir, falou assim: 'Nós vamos assumir, mas vocês têm que criar uma entidade para a gente passar o dinheiro'. Aí começa a fazer obra, no meio da obra, a coordenação da AP e a engenheira que está lá acharam que a população estava fiscalizando demais. Porque a população ia lá todo dia para ver como é que estava a obra, e dava ainda alimentação para os operários. Isso foi um problema. Então, saíram de lá porque a população estava fiscalizando demais. Aí, o que acontece? Quando pára aí, você fala: agora as mulheres vão desistir, porque não atendem, não dão, é uma corrida de barreiras. Não tem aquelas corridas de olimpíadas? É uma barreira atrás da outra. Você fala: agora, elas vão amolecer. No outro dia, as mulheres correm (...), conversam com pessoas, articulam na Câmara dos Vereadores; no outro dia, estão no Gabinete do secretário. O que vai dar no outro dia, não sabem, mas é assim."
Sua ação de articuladora aos poucos se fortalece com o papel de instrumentalizadora, à medida que adquire e incorpora os meios para a mobilização e participação das pessoas. Ambos os papéis estão associados à ação, mais do que a uma intervenção teórica ou discursiva.
EVA vive na região há 40 anos, e sempre morou no mesmo local. Quando chegou não havia calçamento, e havia uma vala negra nas ruas. Nesse aspecto considera que ocorreu uma mudança no padrão de vida, quanto às transformações físicas na região: urbanização, infraestrutura. Por outro lado, houve uma mudança negativa na qualidade de vida, relativa às transformações culturais e de lazer oferecidas: os cinemas e teatros que existiam foram fechados, não existem mais. Os serviços públicos oferecidos à população são precários e o governo não atua para melhorar a situação. Ela vê o trabalho comunitário como um "dom", com o qual já se nasce.
"Eu não sei, eu acho que a gente nasce assim. Só falta um empurrãozinho. Um beliscãozinho, mas já está ali guardadinha a semente."....a gente está aí nessa luta comunitária, que está no sangue, eu sei que não vou conseguir nunca mais deixar disso, só mesmo quando eu morrer, porque eu faço o que eu gosto, agora eu estou fazendo muito mais."
Começou seu trabalho em escolas públicas, atuando no Conselho Escola-Comunidade. Ajudou a formar uma associação de funcionários, da qual foi presidente. Também participou de uma Associação de Moradores, hoje desativada. Sempre se envolveu com a questão da saúde comunitária e recentemente passou a atuar oficialmente como agente de saúde, depois de fazer o curso de formação.
Como liderança reconhecida na região, fala da necessidade de se conhecer a população e "saber chegar" até ela. É importante o carisma, o jeito de ser, que facilita a aproximação com as pessoas. É preciso saber dizer às pessoas quem é o agente de saúde, e o que tem para oferecer, "para que as pessoas escutem". É preciso saber se comunicar com as pessoas do "jeito certo, para fazer uma entrevista, por ex., para falar com os jovens sobre saúde. E o conhecimento é um recurso importante, que permite até mesmo perceber as doenças que a pessoa tem e não quer falar, apenas durante uma conversa.
Por isso também é essencial o conhecimento técnico-especializado na área de saúde. É preciso saber perceber os problemas das pessoas e convencê-las a procurar o posto de saúde. O contato com o conhecimento formal, e também com a realidade empírica, permite a instrumentalização informacional do conhecimento e sua aplicação na ação prática. Seus contatos na rede são quase todos com pessoas da comunidade, atuando como articuladora, sempre no nível da ação. Sua presença histórica no movimento e nas lutas pela saúde também a caracterizam como tradutora e instrumentalizadora, pela sua habilidade em relacionar a informação técnica e formal com os dados da vida prática, transformando informação em ação. Para exercer os papéis de articuladora, tradutora, instrumentalizadora é importante combinar certas habilidades pessoais com o interesse pela comunidade, o conhecimento prático adquirido na experiência e uma percepção dos problemas vividos pela população como carência de direitos de cidadania que não são contemplados pelo Estado."Então a gente vive um vida de doido mesmo, tem que entrar na frente e pedir, tem que ir junto e sabe você tem que ter amor por aquilo que você faz, eu acho que uma das coisas mais importantes e principais é o amor. Se você não tiver amor por aquilo que você faz pode ter certeza que não vai render nada, você vai fazer mal humorada, vai fazer só pelo dinheiro, tudo vai te aborrecer. Eu acho que você põe o amor na frente, principalmente quando se trata de ser humano. Gente, por vida eu brigo, para salvar vida eu brigo, eu brigo por tudo (...) Mas por vida humana eu brigo, muito mais, porque não tem cópia, não tem xerox. Se perder acabou. Então a gente tem que brigar (...), tem que ser, só vai brigando, fazer o que? Até pelos nossos direitos a gente tem que brigar, que coisa incrível (...) e isso não podia acontecer não, de jeito nenhum. Dão conferência de saúde, conferência para discutir saúde, um direito da pessoa. Caramba, tem que ter conferência para discutir saúde, e as pessoas estão morrendo todo dia. Então por isso eu acho que, eu agora como ser humano, esse trabalho que eu estou agora eu gosto, eu acho que é o que precisava, o que faltava na minha vida. Eu acho que eu não tenho que fazer mais nada."
DONA CÉLIA mora na região há 43 anos. Sempre desenvolveu uma trabalho espontâneo com pessoas doentes e participou de Pastorais da igreja. O trabalho comunitário parte de um dom, a "tendência de olhar os doentes". Dá muita importância à sua participação na Igreja e do seu incentivo ao estudo e à busca do conhecimento.
Antes de trabalhar como agente de saúde ela e outras mulheres freqüentavam a Igreja e, orientadas pelos padres, se profissionalizaram e formaram um grupo comunitário, oferecendo produtos preparados com ervas: sabonetes medicinais, xaropes, remédios e prestação de serviços nas comunidades. Recentemente escreveram em parceria com uma ONG um livro contendo as suas principais receitas de fitoterapia e rezas para cura. D. Célia representa uma personagem que revitaliza os elos comunitários. Sua forma de agir, como para outras pessoas da comunidade da região, parece ser muito influenciada pela religiosidade e também pela sabedoria adquirida na experiência de apoiar e cuidar dos outros.
Nas redes de movimentos seu papel principal é de instrumentalizadora. É procurada pela população, por entender e responder às pessoas da forma que estão precisando - seja para uma conversa, uma receita de ervas naturais ou tomando providências e dispensando cuidados como agente de saúde. E pelos especialistas das ONG's e do meio acadêmico, pelas suas narrativas sobre as experiências diárias com a população, pela forma de traduzir o comportamento e as expectativas da população, e também pela habilidade e interesse em adquirir conhecimentos para apoiar sua prática de agente de saúde.JOSÉ mora na região há 28 anos. Veio removido de outra favela e acredita que a mudança melhorou suas condições de moradia mas piorou o habitat:: "fui do paraíso para o inferno". Aos poucos foram construindo uma comunidade com o mosaico de diversas comunidades transferidas. Criaram a Associação de Moradores e na época (1984) havia forte relação entre a população e a entidade representativa. Essas lutas e transformações são experiências do passado que "servem para dar consciência".
Entrou para o movimento popular em 1989, no primeiro seminário da Associação de Moradores. Antes tinha a visão do voluntarismo, depois a mente se abriu. Não tinha mas passou a ter "sede de conhecimento", de aprender em todo lugar. Considera que o ponto central para qualquer militante do movimento popular é o conhecimento, e que este "custa caro", porque a pessoa tem que estar disponível, "tem que se dar para aprender". Procura fazer cursos, aprender, para poder avaliar se está fazendo bem e para poder "fazer mais fácil", com "conhecimento mais completo": "Minha base é o conhecimento, seja de que nível for".
Tem acumulado diversos cargos e funções nos movimentos populares. É presidente de uma ONG e do Conselho Distrital de Saúde, além de gerenciar, com recursos repassados pelo poder municipal, a instalação de postos de saúde nos CIEPs - Centros Integrados de Educação Popular. É uma referência importante nos movimentos e, na análise das redes de movimentos, é a pessoa que possui o maior número de contatos. Tem percepção forte de pertencimento comunitário e de representatividade da população nos cargos que ocupa, associadas a uma representação de classe social.
Sua capacidade de circulação e interlocução em diferentes espaços dentro e fora das redes de movimentos levam-no a desempenhar o papel de líder cosmopolita. Ele pode também ser considerado mentor no sentido do "intelectual orgânico" que formula questões teóricas para a direção do movimento popular a partir de sua consciência de classe e das experiências que compartilha com a população. Possui conhecimento prático alimentado pela experiência e pela apropriação de diferentes formas de conhecimento. Essas características fazem com que seja requisitado para estar à frente dos mais variados projetos, aconselhando, orientando. Por isso é considerado por muitos como centralizador, acumulando e dirigindo muitas atividades, sem delegar funções para outras pessoas do grupo."Eu sou uma pessoa, assim, que sempre adorei ler (...) a minha diversão número um é a leitura, só que hoje eu não tenho tempo para tal (...) E aí a informação se dá muito é na minha própria relação direta mesmo. E como eu tenho, quer dizer, você já tem alguma base, então você ouve determinadas coisas, ou lê determinada coisa, você consegue criar um raciocínio, porque eu estou sempre tentando enxergar atrás daquela informação que eu recebo. Quer dizer, eu acho que com isso você faz a sua mente trabalhar mais, mas, em contrapartida, você se apropria mais de informação e conhecimento."
Apesar de entrar em desentendimentos devido às suas opções políticas, é muito respeitado pelas pessoas da comunidade e das entidades. Sua capacidade de compreender e interpretar os diferentes saberes, usando-os de forma prática nas ações comunitárias, e o modo como articula seus contatos o torna um dos atores mais importantes nas redes de movimentos da região.
3.2 Os membros do campo acadêmico e das ONG's e seus papéis nas redes de movimentos
A participação de especialistas do campo acadêmico que ocupam posições de centralidade nas redes de movimentos é devida principalmente aos estudos e ações práticas no campo da saúde pública, na ótica da "educação popular e saúde".
Na década de 80 um grupo desses especialistas fundou uma Organização não-governamental para prestar assessoria à população nas suas lutas. Portanto, as pessoas que figuram como personagens-chave do campo acadêmico nas redes estudadas mantêm ou já mantiveram algum vínculo de atividade com esta ONG, além do vínculo acadêmico.
As redes devem possuir níveis de coesão e densidade regulares entre os elos, o que é o caso das redes estudadas. Se a coesão e a densidade são muito fortes, com alta concentração de elos no seu centro e poucos na faixa intermediária e na periferia, as redes correm o risco da redundância e da inércia. Ao contrário, as redes com baixos índices de coesão e densidade na sua configuração geral (centro, faixa intermediária e periferia), com grande número de elos fracos, formação de poucos grupos ou círculos, correm o risco de se desfazerem por excesso de ruído, ou incapacidade de comunicação entre sues vértices ou elos. Nas redes de movimentos sociais, seu "motor" são os chamados "núcleos de energia social" ou pontos de onde se originam demandas, interesses, questões, elaborados pelas comunidades, pela população. Os agentes externos dos movimentos (os especialistas, no caso) fazem parte das redes como assessores que apoiam a população, que é quem vive e formula as questões, para discutir e encaminhar soluções, empregando conhecimentos, habilidades técnicas, informações, estratégias políticas.
Essas considerações são importantes, e de certa forma explicam a pouca centralidade de alguns especialistas nas redes estudadas. Um especialista do campo acadêmico, por ex., com posição periférica nas redes, pode estar apoiando indiretamente as ações e as causas das redes de movimentos, ao levar e discutir no ambiente da academia as questões relativas às situações de vida das populações carentes: educação, saúde, saneamento, transporte, etc., gerando e transmitindo conhecimentos sobre essas questões e eventualmente ampliando os contatos das redes. Do mesmo modo, os especialistas das ONG's, que são entidades que por missão se encarregam de intermediar relações entre os movimentos e os espaços institucionalizados da sociedade, sobretudo os setores do poder público estatal, desenvolvem papéis de mediação entre os diferentes elos internos das redes e entre estes e os de outras redes e espaços formais. Finalmente, cada indivíduo ocupa posições relativas nas redes, que devem ser interpretadas sempre em relação ao conjunto dos elos de outros indivíduos e ao próprio papel das redes, no caso, o de mobilização de recursos materiais e simbólicos para a transformação social.
Os atores do campo acadêmico e das ONG's possuem certos traços discursivos comuns adquiridos nos seus espaços formais de pertencimento. O discurso científico e informacional - de forma diferente do discurso narrativo - está baseado na racionalidade, sendo fruto de um aprendizado formal, que tem legitimidade histórica e social. Entretanto, uma das características dos atores desses campos é a de elaborar críticas e de desafiar os critérios positivistas e elitistas do conhecimento e as formas como encontra-se semeado nas instituições públicas - como as acadêmicas, de prestação de serviços e de elaboração de políticas públicas. São mesmo uma espécie de dissidentes dos seus espaços institucionais de origem e pertencimento. Essa tomada de posição crítica, aliada ao convívio histórico com a população, aponta para uma questão importante para os movimentos populares: a preocupação com a linguagem e seu papel como criadora da vida social e cultural, e não como mero reflexo de uma realidade externa. É através das próprias relações nas redes que os atores exercitam e buscam sintonizar os diferentes discursos, o que não se realiza sem dificuldades ou conflitos, de ambas as partes: dos agentes externos e internos.Os atores e seus papéis
ROSÁRIA é engenheira sanitarista. Aos 17 anos começou a atuar no movimento estudantil e mais tarde, trabalhou na Secretaria de Saúde, além de fazer parte de um grupo chamado "Coordenação de Apoio aos Movimentos Populares". Atuou na área de saneamento e meio ambiente. Na região seu trabalho começou a partir de um Curso de Mestrado e do trabalho na ONG criada por especialistas para assessorar os movimentos. Na sua opinião nos últimos anos houve mudanças nos movimentos populares, que ficaram distantes das associações de moradores, hoje apoderadas pelos grupos de tráfico de drogas. Como exemplo do medo que a população tem da relação com esses grupos, conta que uma entidade comunitária organizou um evento em um espaço público que era conhecido como área do tráfico de drogas e as pessoas não compareceram: "Eu costumo dizer o seguinte: para mim, hoje, o tráfico não é mais poder paralelo; o tráfico, hoje em dia, ele está muito imbricado com o Estado." Muito embora a população esteja refém da violência do tráfico de drogas e da polícia, "isso não é motivo para parar o movimento popular." Apesar da violência ser um problema sério, não inviabiliza a ação da população, que cria alternativas de trabalho, "minando a violência por baixo, no dia-a-dia." Cita como exemplo o trabalho das mulheres e de outros grupos que criam atividades de arte e cultura para os adolescentes e as crianças. Atualmente é aluna do Doutorado em Saúde Pública e continua colaborando na ONG e nas comunidades, prestando assessorias informais de acordo com as demandas, individuais ou de grupos. Entende a assessoria como uma forma de "apostar na autonomia dos movimentos", dando pistas para que as pessoas decidam o que fazer. Nesse percurso vai construindo relações solidárias e de amizade com as pessoas das comunidades.
Parece reunir e interpretar dois papéis complementares entre si: o de cosmopolita, uma vez que pelas suas ações aproxima o seu campo de pertencimento - o acadêmico - de outros atuantes nas redes de movimentos. E o papel de instrumentalizadora, porque apóia diretamente as pessoas e grupos com base nos seus conhecimentos, habilidades e visão estratégica dos movimentos. Também exerce o papel de pesquisadora e geradora de conhecimentos sobre os movimentos, o que demanda um certo distanciamento e olhar crítico sobre o modo de aproximação do especialista em relação aos movimentos. O contato intenso com a comunidade, com o modo narrativo de suas falas, demanda um diálogo entre o conhecimento acadêmico e o popular. Em sua dissertação de mestrado retirou material das narrativas populares a respeito dos problemas de abastecimento de água na região, como o objetivo de escrever um texto acadêmico que também pudesse ser lido pelos seus informantes, e empregado nas discussões sobre os problemas da região."Quando eu fiz a minha tese de mestrado, eu entrevistei um senhor. Aí, quando eu terminei, todas as pessoas que eu entrevistei, eu tirei uma cópia da tese e dei, porque é uma história linear, que dá para entender (...). Aí, um dia ele chegou e falou assim: 'aquele seu trabalho está me ajudando tanto!'. Eu disse: 'Você que me ajudou a contar um pedaço dessa história também'. E ele falou que aquela história - a história do saneamento na cidade, a história de como foi sendo constituído em cada comunidade, a bica,(...) não sei o que, que isso era a coisa que, na hora de fazer a reunião comunitária, era o que mais mobilizava as pessoas. Porque elas se viam dentro daquele processo, se viam protagonistas daquilo. Isso, para mim, é um dos maiores aprendizados: as pessoas gostam dessa coisa de narrar a história delas e de ajudar você a contar a história delas. Não é que eles não saibam; você chega e só relata uma coisa que eles já conhecem."
RUI é jornalista e trabalha há seis anos no movimento. É pesquisador colaborador no jornal editado pela ONG de assessoria criada pelos especialistas. Acredita que a academia não possui real inserção junto às comunidades da região, e que sua própria participação se dá pelo trabalho da ONG. Mostra que a questão mais relevante na região é a tensão constante na relação Estado e Sociedade. O Estado retira-se de suas funções, repassando-as para grupos da sociedade, e assim os movimentos populares muitas vezes passam a assumir funções que não seriam suas e sim do Estado, ao invés de cobrarem dele e com isso perdem a autonomia a que se propõem. Sua avaliação sobre os movimentos populares é de que houve um esvaziamento da participação popular nas instâncias de discussão política, como o Conselho de Saúde, e um crescimento das instâncias de discussão prática, próxima da realidade. O esvaziamento da discussão política ocorre a partir de dois movimentos: do Estado, que se prende à discussão técnica, afastando a população da comprensão e da participação - distanciamento através da linguagem, que é inacessível à população. E da população, que se afasta dessa discussão técnica, que lhe é inacessível, e também da política, que não apresenta resultados concretos.
Quanto à sua própria atuação nos movimentos populares, considera que é pouco incisiva, devido à sua situação específica, de inserção no campo acadêmico, e não diretamente junto à comunidade. Para ele seria impossível a execução de certas tarefas práticas, que caberiam às lideranças. Tem visão diferenciada dos dois campos: o comunitário e o acadêmico. Este último tem uma função teórica, de produção do conhecimento enquanto o primeiro é ligado à prática e à ação legitimada pela inserção. O pertencimento a um desses campos legitima e dota de sentido a ação dentro de cada um deles."Uma autocrítica: poderia ser mais incisivo. Mas uma justificativa: por que não ser mais incisivo? Porque participar significa assumir compromissos e tarefas. E eu não tenho condições de assumir essas tarefas, bastante práticas. Eu estou dizendo o seguinte: não basta estar presente como discurso, é preciso que o discurso corresponda a determinada prática. Eu tenho procurado fazer isso, quer dizer, eu tenho princípios, evidentemente, e as atividades que me propus a fazer foram em torno desses princípios, embora me pareça também vazio fazer uma defesa de princípios e não ter uma prática correspondente. Isso é uma avaliação. Outra coisa, é que não me propus nunca a substituir o que quem tem inserção comunitária pode fazer. Porque eu acho que essa inserção é que dá legitimidade a determinadas ações (...). Mesmo que eu tivesse tempo para assumir, eu especializaria tanto, que seria totalmente esvaziado de sentido. Então, trabalhar com comunicação é fazer o que é possível fazer, em um espaço como esse, com a inserção profissional e de classe que eu tenho. Evidentemente que esse trabalho com a comunicação é contaminado por essa inserção, claro, mas é o que é possível fazer."
Apesar dessas posições em relação ao trabalho acadêmico, é reconhecido pela sua capacidade de tradutor e instrumentalizador do conhecimento especializado, como jornalista e nas discussões do Conselho Distrital de Saúde ou eventuais apoios técnicos às entidade populares. Seus contatos são feitos basicamente em função de sua habilidade teórica - a própria discussão sobre o movimento - e técnica - como jornalista.
PEDRO é professor na área de Epidemiologia e coordenador de um Núcleo de Estudos Locais em Saúde. É originário do Piauí, e seu plano na juventude era fazer Medicina - Saúde Pública - "mas fazer clínica antes." Com essa idéia quando se formou passou três anos no interior exercendo todas as atividades como único médico da cidade. Trabalhou em hospitais com parteiras que "sabiam mais do que eu" e lhes ensinava noções de assepsia. Em parceria com a prefeitura local trazia jovens de vários distritos rurais, que faziam estágio no hospital. Ensinava formas de saúde no ginásio e no lugar de "apresentar apenas teoria" levava os alunos para os distritos rurais, onde também dava expediente, e os alunos coletavam dados relativos à saúde da população. Nesses trabalhos começou a juntar as atividades de ensino e medicina para poupar esforços -"Eu era médico, mas eu nunca deixei de ser professor, mesmo quando eu era médico" - e pelo interesse em trabalhar com questões ligadas ao cotidiano das pessoas. Seu interesse pela pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, tinha começado na faculdade, no meio intelectual e de resistência dos quais participava ativamente. Salienta seu gosto em conversar com as pessoas, o que classifica como um "idealismo cristão" e optara pela medicina para fazer o bem às pessoas.
Hoje ele classifica a área acadêmica onde atua como um bom espaço para "misturar as coisas", um lugar onde se tem um alto grau de liberdade, que ele tenta exercer no programa de residência médica."No sentido docente-assistencial há muita dificuldade política, há muita desconfiança, criada reciprocamente, tanto da academia como do serviço... Normalmente o pessoal da academia chega no serviço em saúde para avaliar, por exemplo, e aí avalia e diz: 'não presta' e cai fora. Isso cria resistências. Não é uma coisa solidária. É uma coisa, muitas vezes, voltada para publicar, para atividades meramente acadêmicas, como se essa atividade não pudesse ser acadêmica e ao mesmo tempo extensiva, ao mesmo tempo não-acadêmica, ao mesmo tempo ter esse sentido das coisas. Para mim o aprimoramento desse sentido, de juntar diversas atividades, essa misturação de coisas, isso para mim o Programa de Residência, foi o meu grande espaço para desenvolver e me apaixonar mais ainda por essas idéias que são idéias que eu tenho uma paixão por elas há muitas décadas e pretendo levar pelo resto da vida. Isso aí a gente termina se agarrando a essas coisas para viver melhor, porque a vida só é um momento."
Uma crítica que faz à Academia é que, classicamente, ela separa as atividades de ensino, pesquisa e extensão. A idéia de integrá-las cresceu no programa de residência, porque os alunos atuavam na própria escola e nos serviços de saúde da área, com enfoque local. Mas as dificuldades políticas são grandes porque as pessoas da Academia criam resistência às atividades de extensão: "Estão mais preocupadas em publicar os resultados [das pesquisas], não se importando com a solidariedade." As mudanças na conjuntura política atual e o processo de "desinstitucionalização" dos órgãos públicos tendem a agravar esse quadro devido ao seu impacto nas atividades de extensão e de compromisso social desenvolvidas nos espaços acadêmicos.
Ao longo do seu trabalho pedagógico, de pesquisa e de contato com as comunidades formulou uma concepção acerca do conhecimento, que orienta sua prática acadêmica e as parcerias com outros grupos e entidades das redes de movimentos."Me interessa o tempo todo, e atualmente é o meu interesse principal, a idéia de que o conhecimento científico é uma coisa boa para o conhecimento das pessoas em geral, ou pelo menos um determinado conhecimento científico - as idéias práticas da ciência. As idéias práticas da ciência eu acho que elas servem para tomar decisões na vida cotidiana, que as pessoas aprendam uma forma mais metódica de agir nas suas práticas cotidianas (...) Eu quero passar essas coisas, eu quero passar essa mentalidade, mas eu quero entender a outra mentalidade (...) na nossa atividade de educação e saúde e de assessoria técnica a essas pessoas nós temos sempre presente que há um saber e uma mentalidade técnica popular - saber no sentido do conhecimento e mentalidade no sentido de modelo de apreensão das coisas."
Seu discurso é reflexivo, teórico, e ao mesmo tempo entrecortado por narrativas sobre as percepções críticas da população acerca das suas condições e situações de vida, por ex., a respeito de um personagem combativo no interior dos movimentos e sua formulação sobre a idéia de cidadania.
"Deixa eu contar uma do Sr. João: ele foi numa conferência e um doutor, acadêmico, supostamente do lado deles [da população], falou que as pessoas da favela não são cidadãos porque eles têm isso e não têm aquilo. Ele levantou o dedo e arremeteu contra: 'Não senhor, aqui nós somos cidadãos. Se o senhor quiser chamar de cidadão assim ou assado pode chamar, mas que é cidadão, é.' Porque há uma certa idéia, aqui mesmo dentro da Escola, de associar cidadania com essas benesses urbanas e na verdade ele entende muito bem que não é assim. A cidadania é uma questão não de acesso a bens, mas de valor, de valoração à dignidade humana. E ele sabe disso."
A sua capacidade de aproximação e de diálogo com grupos e pessoas das comunidades e a posição central na configuração das redes sugerem que ele representa o papel de cosmopolita e de tradutor. Ao mesmo tempo em que mantém forte expressão de pertencimento ao campo acadêmico, atenta aos modos de falar, representar e conhecer da população, facilitando a comunicação entre diferentes formas de conhecimento.
OSVALDO é pesquisador e fêz parte do grupo que criou uma ONG, é seu presidente e mentor. Mantém contatos freqüentes com os grupos e entidades ligados aos movimentos da região, além do trabalho de pesquisa, tomando contato com vivências e conhecimentos distintos - o conhecimento da academia, a vivência da população e as práticas das ONG's. A aproximação entre esses diferentes conhecimentos está presente tanto no seu discurso quanto nas ações: na conversa informal, nos cursos que oferece para a população da região, na prática acadêmica, na forma como coordena as temáticas e atividades do seu grupo de pesquisa. Suas ações refletem um compromisso social e ideológico com os movimentos populares.
Dedica-se a atuar praticamente e estudar os modos de mobilização e participação das pessoas nos movimentos populares, suas questões e interesses, na linha de estudos da educação popular. No campo da saúde pública tem formulado certas premissas críticas relativas à aproximação dos especialistas (técnicos de serviços de saúde, pesquisadores, estudantes) dos problemas da população, sempre baseadas na concepção de que existe uma "carência" cognitiva e informacional nas pessoas das comunidades carentes o que justifica, pelo menos em parte, seu estado de miserabilidade. É o que ele denomina de "culpabilizaçào da vítima", situação que expressa uma visão distorcida do especialista e dos órgãos públicos em relação aos problemas reais da população. O que precisa ser considerado são suas deficientes condições de vida e não atribuí-las a uma captação insuficiente ou incompleta das informações transmitidas nas campanhas e ações de saúde pública. Essa situação é devida a dois fatores principais. O primeiro é o afastamento e descaso do Estado em relação aos problemas das camadas populares da sociedade. O segundo é a posição elitista dos especialistas, que julgam seus conhecimentos superiores e capazes, por si sós, de resolver as mazelas das populações carentes, por meio de uma ação informacional linear e de via única: do conhecedor para os "depossuídos informacionais." Considera que existe uma "crise de interpretação" dos especialistas em relação às camadas populares, seus problemas, motivações e anseios, e que estes já não podem mais ser vistos ou analisados a partir dos mesmos modelos ou concepções de anos atrás. É necessário então buscar novos elementos teóricos e práticas para entender e atuar nas redes de movimentos. Seja na proposta de formação de uma Rede de Solidariedade reunindo os pequenos núcleos de iniciativas locais e de apoio social, seja pelo aprofundamento teórico dos ambientes de vida da população, como p. ex. a religiosidade."Se você aceitar as premissas de que a crise de interpretação é nossa, e que as classes populares têm seu próprio conhecimento, têm uma forma de raciocínio desenvolvida, têm uma avaliação da realidade, se você acha que isso acontece de fato, então a gente acha que esta busca da Religião tem um sentido para a população, não seria só uma fuga. Tem um sentido que seria, (...) não uma resposta às suas carências, mas talvez uma manifestação de uma certa intensidade, de viver a vida melhor. Não seria só para suprir carências, mas uma forma de você ter uma vida mais intensa, mais plena. O que eu não tenho clareza é se ele é tão religioso quanto dizem, se ele não é um espaço social legitimado, garantido, que todo mundo respeita, inclusive os traficantes."
As questões por ele levantadas e estudadas têm repercussão nos diferentes ambientes onde atua - o acadêmico, a ONG, o popular. Por isso é considerado como mentor e cosmopolita, fazendo mediações entre os campos, atuando para disseminar informações pela rede. Sua característica mais forte ainda é a de tradutor, colocando não apenas suas formulações teóricas como temas da atualidade política e econômica em linguagem acessível e ouvida por todos, nos trabalhos escritos, nas reuniões e cursos. É tido como referência nas redes estudadas, nas atividade teóricas, práticas ou nas estratégias políticas dos grupos.
RITA é coordenadora da ONG criada pelos especialistas. Começou no trabalho popular paralelamente ao seu trabalho com arte. Antes trabalhava no interior do Estado, fazendo trabalhos educativos com crianças, enquanto seus pais estavam em reuniões de organização da população rural. Passou a fazer parte de um projeto, na área de saúde, onde permaneceu durante oito anos trabalhando com grupo de teatro, serigrafia e TV popular. Sempre ligada à questão de saúde e educação, mudou-se para a capital e passou a trabalhar na ONG, onde, além da coordenação, se ocupa da produção do jornal e organiza cursos e seminários, além de atender outras demandas pontuais apresentadas por entidade ou pessoas dos movimentos. Considera que a ONG poderia estar agindo em várias frentes, pois ela permite qualquer tipo de trabalho - cultural, histórico, educação e saúde - desde que tenha a linha da participação popular. Surgem sempre novas demandas, por aulas de computador, por ex., porque as pessoas se interessam por coisas novas, e eles nem sempre estão preparados para atendê-las. Por outro lado, além dos diferentes projetos que desenvolve, a entidade é um posto de escuta para a população, para os seus problemas.
" [Meu trabalho] vem mudando no sentido de que em todos esses anos a relação com as pessoas vai ficando mais íntima, (...) mais amiga; você fica sabendo coisas que você não saberia há um tempo atrás; as pessoas te tratam diferente, têm muito mais carinho. A Mercedes agora quer que eu faça um vídeo - porque ela tem um caderno de ginástica, que até eu vou refazer: 'Educação física para todos'. (...) E esse caderno a gente fez um tempo atrás, ainda nem tinha programa de computador para fazer, a gente fez assim. E ela fez um lançamento do caderno, vendeu. E agora ela quer que eu faça um vídeo dela fazendo ginástica. Aí, eu falei que eu vou fazer. Vou pegar a filmadora, vou fazer em VHS, em vídeo comum."
Nas redes de movimentos tem posição de destaque, com bom índice de centralidade e de contatos variados. Pode ser considerada uma cosmopolita com forte característica de representante do seu campo. Uma marca nas suas ações é a atenção especial que dedica ao outro. Valoriza a conversa e a empatia, e usa esses recursos pessoais na construção da rede de contatos da ONG. Individualmente cria e mantém os elos com as pessoas em função do seu trabalho, viabilizando parcerias entre diferente grupos, fortalecendo a rede social. Nesse aspecto ela é articuladora. Exerce ainda o papel de tradutora devido à sua experiência e capacidade de ouvir as pessoas, de estar atenta a compreender as diferentes falas.
4. REDES DE MOVIMENTOS E REDES DE CONHECIMENTOS - COMENTÁRIOS FINAIS
O enfoque das redes no estudo dos movimentos sociais leva a perceber que esses movimentos estão colocando em prática uma nova compreensão do conhecimento e da informação. Uma primeira evidência que sustenta essa afirmativa são as formas dialógicas, instrumentais e políticas através das quais os agentes procuram estar mais bem-informados nos processos que denominam de apropriação do conhecimento criando formas de poder necessárias às mudanças sociais que almejam alcançar. Ao fazê-lo, elaboram uma visão do conhecimento como produto social distribuído, dotado de valor e que pode ser apropriado de diferentes formas, sempre transformáveis. A mudança social, a criação de mecanismos democráticos de participação e de cidadania estão associadas e dependem em grande parte da democratização e socialização da gestão do conhecimento. Outro aspecto evidenciado é a combinação entre o conhecimento científico e o conhecimento popular realizada por meio das ações e interações entre os agentes, cada qual desenvolvendo formas de conhecer e de aprender próprias aos seus campos ou espaços de inserção na sociedade. Nas redes de movimentos organiza-se um novo conjunto de ações e representações que conformam um campo de intervenção social onde se evidencia a importância do conhecimento prático para a compreensão e criação do poder de transformação da realidade vivida e das próprias instituições. Por sua natureza, esse conhecimento prático faz parte do conhecimento , ou seja, é parte integrante do mecanismo social de qualquer trabalho ou atividade e está ligado ao fazer, à ação. As ações podem ser aquelas do hábito ou da rotina de reprodução cotidiana mais ou menos passiva de fazer e representar as coisas, o mundo vivido e as instituições. Pode ainda tornar-se, em graus variados, ações políticas de criação e transformação dos modos de organizar e distribuir os conhecimentos na sociedade. Essa forma de conhecimento prático, associado ao fazer, incorpora elementos tácitos de compreensão e de poder de intervenção com propósitos transformadores ou às vezes simplesmente defensivos, realizando conexões com outras formas de conhecimento, teórico e histórico, de modo a ampliar a visão sobre as suas ações em rede e as diferentes alternativas a serem postas em andamento de modo conjunto pelos agentes internos e externos dos movimentos. O terceiro conhecimento nomeia nesse estudo essas diferentes combinações, sempre provisórias e renováveis ,entre o conhecimento científico (ou informacional) e o conhecimento popular (ou prático).
Uma conclusão da análise é de que o terceiro conhecimento tem uma existência latente, passível de ser observada nos elos sociais entre os agentes que compõem as redes e nos papéis que são levados a representar para encaminhar as ações e estratégias dos movimentos. Os modos de representar e interpretar seus ambientes de vida, as reflexões sobre suas práticas, as memórias sociais ou coletivas são elementos discursivos importantes de serem levados em conta no processo da análise interpretativa Estes são os indícios que o observador se utiliza para mapear certos "lugares de fala" e, por meio deles, perceber o modo de funcionamento do terceiro conhecimento nos diferentes elos das redes.
O caminho analítico e interpretativo percorrido leva a concluir que à formação das redes de movimentos sociais corresponde a criação de redes de conhecimentos que alimentam e dão sentido informacional às visões e estratégias de ação e de direção dos agentes. Os conhecimentos se constituem como matérias informacionais, que pelas suas qualidades imateriais, articulam entre si o que foi notado (observado) ou experimentado pelos agentes nas suas práticas , dentro do ambiente contextualizador da sociedade onde essas redes se movimentam.
BIBLIOGRAFIA
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DEGENNE, Alain, FORSÉ, Michel. Les réseaux sociaux; une analyse structurale en sociologie. Paris : Armand Colin, 1994.
DEROY-PINEAU, Françoise. Reseaux Sociaux : bibliographie commentée. Montréal : Université de Montréal, 1994. mimeo.
SCHERER-WARREN, Ilse. Cidadania sem fronteiras: ações coletivas na era da globalização. São Paulo: Hucitec, 1999.
[1] O termo foi empregado por R. K. MERTON para distinguir certos tipos de lideranças em comunidades. (Cf. DEGENNE, A., FORSÉ, M., Op. cit., p. 188-189)
Sobre a autora / About the Author:
Dra. Regina Maria Marteleto
Professora Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
MCT/IBICT - UFRJ/ECO