Resumo:
Abordagem sobre a mediação da informação, comunicação e educação no processo
de construção do conhecimento, por meio das tecnologias, ambientes e agentes
sociais envolvidos na transmissão da informação e na interação a partir da
qual se realiza esse processo.
Palavras-chave: Mediação e construção do conhecimento; Informação e Construção do conhecimento; Comunicação e Construção do conhecimento; Educação e construção do conhecimento.
Abstract: It approaches the mediation of
information, communication and education in the process of the knowledge
construction by technologies, ambients and social agents involved in the
transmission of information and interaction to carry this process out.
Key words: Mediation and knowledge construction;
Information and Knowledge construction; Communication and Knowledge
construction; Education andKnowledge construction.
Introdução
A compreensão de que a informação se constitui em conhecimento comunicado que pode ser retomado no esforço de revisão e reflexão que subsidiam a construção de novos conhecimentos ou reconstrução daqueles já estabelecidos, torna perceptível a sua característica de produto da ação comunicativa que coloca em comum o conhecimento instituído e promove a interlocução necessária ao pensar.
Dentro dessa perspectiva, então, pode-se conceber a comunicação como um
processo inerente ao compartilhamento de saberes, procedimento
essencialmente caro ao fazer da educação, que dele se vale para apresentar
conteúdos informacionais que sustentem as ações de geração do conhecimento,
podendo provocar o aparecimento de uma nova informação, quando quem constrói
esse conhecimento, fazendo uso da ação de comunicação, o representar por
meio das diversas linguagens.
Assim, percebe-se a existência de pontos de confluência entre os campos da
Informação, da Comunicação e da Educação quanto à mediação através da qual
transcorre o processo de construção do conhecimento, tema focalizado como
objeto central da reflexão que se apresenta neste texto.
Mediações no processo de construção do conhecimento
O processo de construção do conhecimento se dá por meio de um movimento
complexo, no qual os sujeitos interagem entre si, mas também com as
informações, processando-as para, a partir de seus enquadramentos, de suas
possibilidades cognitivas, se apropriarem dos conteúdos acessados. Desse
modo, o processo de construção do conhecimento, dependente, também, da
interação com o acervo simbólico transmitido através de suportes e ambientes
que se ocupam da preservação e do acesso aos conteúdos informacionais que
subsidiam o desenvolvimento das práticas do conhecer.
Esta etapa subsidiária, que Debray (2000) denominou de transmissão, pode ser
compreendida, na perspectiva da Ciência da Informação, como transferência da
informação que, conforme González de Gomez (1993) caracteriza-se por um
conjunto de ações, por meio das quais os grupos sociais e as próprias
instituições organizam e implementam a comunicação da informação.
Assim, pode-se inferir que a transferência e a transmissão da informação,
respectivamente no enfoque da Ciência da Informação e da
“midiologia”,
caracterizam a etapa inicial e subsidiária do processo de construção do
conhecimento, na qual ocorre a comunicação dos conhecimentos estabelecidos.
Essa etapa inicial corresponde ao movimento de acesso, constituído de ações
de comunicação e de transferência ou transmissão de informações atuando na
mediação entre os acervos informacionais, entre o conhecimento estabelecido
e os sujeitos que buscam construir conhecimento.
Nas atividades de acesso ao conhecimento estabelecido, ao conhecimento
registrado, os educadores, os espaços informacionais e seus agentes são os
mediadores que transmitem as informações disponíveis, realizando assim, as
práticas informacionais.
Evidentemente o saber apenas se desenvolve a partir de um processo de
comunicação, do estabelecimento de prioridades, da tomada de distância em
relação ao primeiro contato com a informação, mas também é dependente dos
espaços e canais de transferência de informação, assim como dos agentes que
neles e com eles atuam e que acabam por mediar a ação comunicativa.
Por outro lado, quando ao final do processo, o conhecimento é gerado e
comunicado, tem-se novamente a informação que permite a visibilidade desse
conhecimento, por estar contida em um suporte de registro, constituindo
assim um documento que representa, conforme Pédauque (2003), um objeto, uma
inscrição em um objeto, cujas fronteiras físicas são facilmente
identificadas. Também representando um objeto de comunicação regido por
regras mais ou menos explicitas que materializam um contrato de leitura
entre o autor e o leitor.
Debray (1993, p. 80), ao discorrer sobre o papel dos utensílios, elabora um
argumento passível de ser compreendido como definição do lugar do documento
na experiência humana. Diz esse autor que,
No homem, o utensílio prolonga o gesto e se desliga dele. Este desligamento, ou esta exteriorização material das faculdades humanas, ‘produzidas’ de certo modo pelo corpo e pondo-se a viver uma vida autônoma em uma sucessão de utensílios e máquinas, define, tanto como a linguagem, o critério de humanidade. Meu cérebro há de morrer, mas não estas notas que decifro diante de vocês, inscritas com tinta sobre o papel que vai durar mais do que eu. [...] O utensílio sobrevive ao órgão. [...] o homem só tem acesso a um começo de imortalidade por suas próteses.
Portanto, o processo de construção do conhecimento está associado ao conteúdo simbólico da informação e se dá em uma passagem mediada pelos suportes de registro e por uma condição de solidão tanto para o emissor (autor) quanto para o receptor (leitor) da informação. Nesses momentos de passagem a solidão fundamental de todo ser humano é superada, já que neles torna-se possível a interação que permite que o pensamento se materialize na informação e, depois de registrada em um suporte, seja analisada e transformada no processo de construção de um novo conhecimento. (Barreto, 2001).
O conhecimento resulta, assim, de uma ecologia regida pela interação social
e os instrumentos de registro, acesso e processamento das informações que
representam uma cadeia formada pela inter-relação de conhecimentos
antecessores, enfim é um ato humano que se apóia nos recursos tecnológicos
de extensão da memória.
Conhecer supõe a presença de sujeitos; um objeto que suscita sua atenção
compreensiva; o uso de instrumentos de apreensão; um trabalho de debruçar-se
sobre. Como fruto desse trabalho, ao conhecer, cria-se uma representação do
conhecido – que já não é mais o objeto, mas uma construção do sujeito.
(França, 1994, p. 140).
O conhecimento é privado, enquanto a informação é pública. A informação pode
ser transmitida, distribuída, disseminada; mas o conhecimento, por si só,
está impedido desse movimento. A sua circulação apenas é possível com a sua
representação pela informação. Conforme Le Roy (1997, p. 28)
“Quando se deseja compartilhar um conhecimento, este deve ser traduzido em informações, para que o destinatário possa absorvê-las e transformá-las em conhecimento – se ele quiser.”
Na verdade esta é uma construção coletiva, fruto da interlocução com os diversos “textos”, cujas leituras o sujeito já tenha feito anteriormente. Conforme Bougnoux (1994), o conhecimento é o que nos é possível apreender através de nossos sentidos, de nossa cultura e meios.
No impacto com o real, com o que é dado e apresentado durante uma
existência, se recorre ao “acervo” simbólico construído, a partir da memória
de experiências pregressas e do aprendizado da cultura, na tentativa de uma
elaboração que auxilia na construção de um novo momento de “equilíbrio”
frente a esse real. Entretanto, nesse empreendimento, o sujeito também
recorre ao imaginário que sustenta seus movimentos perceptivos, os quais
buscam encontrar “pistas” indicadoras dos caminhos possíveis da reconstrução
do “equilíbrio”.
No esforço de apreensão de algo que se apresenta como novo, como elemento
que desestabiliza, recorre-se ao simbólico e ao imaginário a fim de se
alcançar novamente uma estabilidade desejada. Quando nas interações com o
meio algo emerge, provocando a percepção e gerando algum tipo de
perturbação, ou até mesmo quando num movimento recursivo há algum elemento
interno que perturba o sujeito, ocorrem mudanças na estrutura do ser, embora
tais mudanças sejam decorrentes do próprio processo de recepção ativa,
geradora da informação singular.
Nesse sentido é que Mahoney (1998, p. 360) afirma que “[...] a
‘informação’ deve ser traduzida literalmente de sua origem latina: in
formare, ‘que se forma a partir de dentro’. Dentre outras coisas, a
determinação da estrutrura implica que o conhecimento objetivo é impossível
de ser atingido [...]”.
Em síntese, esta afirmação vindica que se admita não haver a possibilidade
de se conhecer algo de forma direta. A percepção do mundo não é suficiente
para a construção da sua representação no “mundo interior”. Percebe-se o
“mundo exterior”, mas somente na ligação do que se percebe com o simbólico e
o imaginário é que se pode representar o “mundo exterior”.
A Informação, a Comunicação e a Educação são ativas no processo que assegura
o agir de cada sujeito na construção do conhecimento e contribuem para a
potencialização da sua capacidade de interpelar, de interferir, de criar e
recriar o conhecimento instituído, tanto no seu acervo simbólico singular
quanto no plano do acervo simbólico estabelecido socialmente.
A educação formal atua na esfera da transmissão do acervo simbólico
instituído, como também da sua reconstrução, especialmente quando se trata
do ensino superior. Por meio do processo de transmissão da cultura acumulada
pode-se gerar possibilidades de troca de subjetividades em ambientes de
interação a partir da qual se torna possível o debate, a exposição dos
contrários, as convergências, a visibilidade das impossibilidades e
possibilidades, elementos fundamentais na renovação do acervo simbólico
socialmente estabelecido.
A interação é um elemento essencial do processo de comunicação e de
construção de sentido, correspondendo a um fenômeno sócio-cultural, cujas
características são lingüísticas e discursivas e podem ser observadas,
descritas, analisadas e interpretadas. A interação não corresponde ao ato de
produzir um enunciado para alguém com o objetivo de trocar informações, mas
sim a uma ação de organização da fala, de modo a facilitar a compreensão
entre os interlocutores. (Brait, 2001).
Desse modo, poder-se-ia identificar o espaço da interação como o espaço de
possibilidades de interseção dos ambientes da informação, da comunicação e
da educação, como se tenta representar na Figura 1.
Figura 1 - O ambiente da interação na construção do conhecimento: campo de
interseção da Informação, da Comunicação e da Educação.

O mundo da cultura é constituído de signos e instrumentos que buscam representar e interferir nos fenômenos que são desvelados a cada sujeito no decorrer de suas experiências. Entretanto, a compreensão desse “mundo da cultura” só ocorre a partir do esforço de aproximação entre o “novo” que se apresenta e os demais signos já conhecidos e incorporados ao nosso acervo simbólico singular. Nesse sentido, Bakhtin (1999, p. 4) afirma que
Os signos só emergem, decididamente, do processo de interação entre uma
consciência, individual e uma outra. E a própria consciência individual está
repleta de signos. A consciência só se torna consciência quando se impregna
de conteúdo ideológico (semiótico) e, conseqüentemente, somente no processo
de interação social.
Na perspectiva bakhtiniana, o espaço da interação se constitui no centro das
relações sociais, contexto social que é movido fundamentalmente pela
interação verbal, portanto, para ele o elemento central da interação é a
dialogia que se pauta em três princípios:
a) da sociabilidade (essencial para a intersubjetividade);
b) dos signos (mecanismos de interlocução, de ação, de apoio à ação);
c) da constituição dos sujeitos (da construção de suas identidades) na intersubjetividade e na intra-subjetividade. (Dahlet, 1997)
A partir da enunciação, nosso “mundo interior” entra em conexão com o “mundo exterior”, permitindo a construção de nossas identidades. “O mundo interior e a reflexão de cada indivíduo têm um auditório social próprio bem estabelecido, em cuja atmosfera se constroem suas deduções interiores, suas motivações, apreciações, etc.” (Bakhtin 1999, p.112-113).
A atividade mental do sujeito, que Bakhtin (1999, p.61) denomina de
introspecção, representa o “discurso interior” constituído de
“signos
interiores”. No entanto, o sujeito apenas alcança a autocompreensão quando
se expõe ao exterior, quando é desvelado e revelado ao outro. Assim, a
autocompreensão exige expressão em forma exterior ou quase exterior e
somente se dá na medida em que o “signo interior” identifica e transpõe os
limites que separam o seu “universo interior” e o “universo coletivo”,
experiência na qual se torna possível sua reconstrução e a própria
reconstrução coletiva do mundo social no qual está inserido.
Essa ligação complexa está em constante movimento, o que nos coloca sempre
frente aos estados permanentes de crise entre “equilíbrio” e
“desequilíbrio”. Por sua vez, esse estado de crise é o que move os sujeitos
em direção à construção de sua autenticidade que, numa perspectiva
sociológica, corresponde à sua capacidade de intervenção, de interpelação,
de expressão, enfim de ação frente à vida e ao mundo.
O sujeito se constrói na crise entre “equilibração” e “desequilibração”, num
processo de interação com o outro e com o mundo da cultura, que é composto e
refeito também pelo instrumental tecnológico, não sendo, portanto, o seu
desenvolvimento resultado de sua ação solitária e dos movimentos
intra-subjetivos que realiza. Para Bakhtin, até mesmo nossa
intra-subjetividade é “povoada” pelas “vozes”, “imagens”, “sons”, “aromas”,
enfim, lembranças e marcas de nossa experiência que a todo o momento,
consciente ou inconscientemente, interferem no nosso estar no mundo.
Conforme Bakhtin, na interação ativa emerge a possibilidade da significação
que:
[...] não está na palavra nem na alma do falante, assim como também não está na alma do interlocutor. Ela é o efeito da interação do locutor e do receptor produzido através do material de um determinado complexo sonoro. [...] Só a corrente da comunicação verbal fornece à palavra a luz da sua significação. [...] A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como uma réplica está para a outra no diálogo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra. (Bakhtin, 1999, p. 132).
Assim, a interação é compreendida como um processo tanto verbal quanto social. Enquanto a enunciação é um produto da interação social, o diálogo é uma forma de interação verbal face a face, embora a interação não esteja restrita ao discurso oral, podendo corresponder também a um ato impresso. (Brait, 2003).
Bakhtin, ao tratar da interação social na qual se constrói sentido, também
aborda a dialogicidade presente nas fontes impressas, inclusive de caráter
científico, afirmando que:
[...] o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as de outros autores: ele decorre, portanto, da situação particular de um problema científico ou de um estilo de produção literária. (1999, p. 123).
A interação pode ser considerada como o espaço da produção de sentidos e ainda de manifestação e produção das relações sociais. Dessa forma, ela não se restringirá ao verbal nem tampouco se configurará, necessariamente, apenas na presença física dos interlocutores. Para Bakhtin (1997), a própria compreensão é dialógica e a interação extrapola a presença material dos participantes e a própria idéia de intercâmbio verbal face a face, podendo não ser consensual, admitindo-se, inclusive, que o silêncio pode ser um elemento da interação, relacionado às condições de compreensão do sentido.
Para ele todas as produções verbais, orais ou escritas, devem ser consideradas como réplicas no contexto dialógico, mesmo quando são monológicas e unilaterais.
A dialogia é fundamental na produção de sentido pela condição de elo pelo
qual trafegam as idéias e se estabelece o contato fundamental para o ato de
conhecer. O conhecimento pode estar registrado em livros ou outros suportes
ou não estar materializado, e, qualquer contato com ele se dará na interação
por meio do acesso às informações existentes nesses objetos de registros ou
na interação com os sujeitos. “É através deste processo dialógico e
discursivo que conseguimos conhecer o Outro e os seus pontos de vista, as
suas histórias. Aprendemos um enorme acervo de conhecimentos, não só acerca
do mundo, mas acerca de nós mesmos, por intermédio do discurso com os
Outros.” (Bruner, c1996, p. 128).
Os discursos podem ser constituídos em situações de comunicação verbal
espontânea e em textos, sejam esses de caráter de ficção, científico ou de
cunho ideológico. Os textos escritos (impressos ou não) surgem em situações
de comunicação cultural de maior complexidade.
Ao compreender que qualquer enunciado representa uma unidade de comunicação
verbal, admite-se que o seu delineamento é traçado pelo diálogo estabelecido
entre os interlocutores que interagem em torno da sua temática. Dentro desta
compreensão, Bakthin (1992, p. 293-294) pondera que
Todo enunciado – desde a breve réplica (monolexemática) até o romance ou o
tratado científico – comporta um começo absoluto e um fim absoluto: antes de
seu início, há os enunciados dos outros, depois de seu fim, há os
enunciados-respostas dos outros (ainda que seja como uma compreensão
responsiva muda ou como um ato-resposta baseado em determinada compreensão).
O locutor termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou para dar
lugar à compreensão responsiva ativa do outro.
No diálogo ocorre a alternância de enunciados que denominamos de réplicas.
Qualquer que seja a réplica, breve, longa ou fragmentária, sempre apresenta
um contorno que expressa a posição do seu autor, podendo receber uma
resposta de algum interlocutor. Para Bakthin a qualquer enunciado pode-se
desdobrar uma réplica, sendo possível, com relação a ela, tomar uma posição
responsiva. Segundo esse autor, “Esta relação só é possível entre
enunciados provenientes de diferentes sujeitos falantes. Pressupõe o outro
(em relação ao locutor) membro da comunicação verbal.” (1992, p. 294,
esclarecimento do autor).
Para acentuar a importância do contexto da interação na instalação das
condições tanto do desenvolvimento dos sujeitos singulares quanto do
desenvolvimento social e da formação das bases culturais que norteiam ambos,
pode-se arriscar uma geometrização, apresentada na Figura 2, na tentativa de
assinalar o locus da interação enquanto espaço potencializador da construção
das subjetividades e intersubjetividades, assim como de interação entre
unidade e multiplicidade, onde as ações de comunicação, de informação e
também educacionais se entrelaçam.
Figura 2

Nas ações comunicativas, através de seus recursos tecnológicos, o homem pôde
elaborar e verbalizar seu pensamento, apresentando-o exteriormente, e
encontrou formas para alcançar e tentar compreender o pensamento de seus
semelhantes, de interferir e agir sobre a realidade, na tentativa de
transformar o mundo, controlar os eventos que o surpreendem e que provocam o
seu desequilíbrio e o seu mal estar no mundo, como também de aprender sobre
o mundo e sobre si mesmo.
Conforme Ferreyra, o homem se destaca em relação aos demais seres por sua
capacidade de produzir comunicação na interação. “A comunicação se gesta,
nasce, cresce, evolui e transforma as pessoas e seus entornos a partir do
fenômeno de relação. [...] A atualização do homem efetua-se na cultura e
efetiva-se pela comunicação, único meio possível de intercâmbio cultural.”
(1998, p. 17-19).
Colocando em foco o ponto de interseção entre os sujeitos sociais, movidos a
interagir em função dos eventos com os quais se deparam, pode-se situar
também a “voz” de Vygotsky, que, na perspectiva da corrente sócio-histórica
da psicologia destaca que: “A comunicação direta entre duas mentes é
impossível, não só fisicamente como também psicologicamente. A comunicação
só pode ocorrer de uma forma indireta.” (Vygotsky,
1995, p.128).
Para Vygotsky, , o ser humano, ao construir a linguagem e todos os
instrumentos, isto é, seu “acervo tecnológico”, também construiu as
condições de interagir com outros de sua espécie, comunicar suas
experiências, conhecer o mundo e desenvolver suas funções psicológicas.
(Pino Sirgado, 2000, p.32-43).
Dentre esse acervo tecnológico pode-se destacar a comunicação oral, a
escrita, a leitura e os instrumentos que dinamizam e dão suporte às ações de
comunicação e transmissão.
Na comunicação oral a interação entre os interlocutores é fundamental, e
sempre se desenvolve em contextos dinâmicos, cuja mudança depende de
princípios, convenções e outras restrições decorrentes dos eventos e das
ações envolvidas nesse ato. Conforme Dijk (2000, p. 89),
[...] um ato de fala usualmente está encaixado no desenvolvimento da (inter)-ação. [...] Durante a (inter)-ação, a pessoa vai gradativamente construindo os traços relevantes do contexto e as mudanças para os estados contextuais subseqüentes: ela estará consciente não apenas das características globais do contexto social do frame e seus componentes, como também das ações de fato realizadas nesses contextos e frames. Ela então construirá os objetivos e intenções (conhecimentos subjacentes e desejos) dos co-participantes, em particular do falante, e julgará se os objetivos dos atos de fala são compatíveis com as condições iniciais.
Enquanto a comunicação oral representa uma interação direta, na comunicação escrita a interação depende mais prioritariamente do código verbal do que de pistas contextuais, da linguagem gestual, do universo semântico partilhado entre os sujeitos da ação comunicativa e das regras de conversação vigentes. (Kato, 1995).
Por meio da escrita registra-se (materializa-se) o pensamento verbal, que
representa a tradução do pensamento em palavras, buscando a sua compactação
sintática, num discurso planejado, enquanto o discurso oral não diferencia
sintaticamente as informações. Com a apropriação da escrita o homem
transforma a linguagem em objeto de pensamento, objetivando o enunciado da
comunicação oral de diversas formas e padrões que se diferenciam daqueles
usuais na oralidade. Essa transformação
Supõe o isolamento de certas emissões que, pelo próprio fato, são tiradas do uso imediato e transformam-se em objetos opacos, sobre os quais novas atividades intelectuais são possíveis. [...] Além de serem objetos de ação, esses fragmentos de emissões transformam-se em objetos de análise, sobre os quais é possível estabelecer comparações, quer dizer, determinar semelhanças e diferenças que conduzirão a novas categorizações. (Ferreiro, 2004, p. 153).
Além disso, ocorrem transformações no próprio processo de comunicação do conhecimento, de produção da informação. Segundo Barreto (2001), pesquisas realizadas na Universidade de Toronto existem dois tipos de linguagens: a do pensar e a da edição e formatação do texto. Enquanto a linguagem do pensamento apresenta pequenas sentenças compostas de cinco a sete palavras, na edição a linguagem é mais formal, procurando a utilização de padrões normativos e de procedimentos formalizados.
O ato de escrever é uma atividade pragmática porque tem, como qualquer outra
atividade humana, uma intencionalidade, uma necessidade ou interesse, enfim,
uma finalidade que impõe um plano de ações, a realização de operações e a
dependência de um contexto, de uma situação. (Câmara Junior, 2003).
Na comunicação os sujeitos se encontram por meio de códigos buscando
aceitação e reconhecimento, o que também pode ser visualizado quando ela é
realizada por meio da escrita. O sujeito que se comunica utilizando a
escrita sabe que está escrevendo algo que deverá ser lido por alguém, que
poderá ou não compreendê-lo, aceitá-lo ou rejeitá-lo.
A relação do ser humano com os processos de escrita está intrinsecamente
ligada ao processo de produção do conhecimento e da comunicação, bem como
das relações entre os sujeitos e de uma espécie de trama de
saber/poder/comunicar, que permeia cada uma destas áreas. (Cardinale
Baptista, 1999).
No ato da escrita, para alcançar compreensão e aceitação, o autor do texto
procura apoio no produto da comunicação de outros autores. A
intertextualidade cria um contexto de fundamentação da “fala” documentada
pelo produto da escrita. Assim, ao examinar um texto é comum a constatação
de que este reflete a conjunção ou a disjunção de opiniões acerca do tema
tratado.
Na perspectiva de Bakthin (1992) todo texto é uma polifonia, ou seja, um conjunto de vozes que se exprime. Essas vozes podem ter sido convocadas intencionalmente pelo autor, enquanto outras podem emergir sem o seu pleno controle. O que mais importa é que essas vozes se articulam, se contrapõem, se legitimando ou se desqualificando mutuamente. Esse contexto interativo, no qual diferentes “vozes” entram em relação foi denominado por Bakthin de dialogismo, tendo destacado ainda que “Cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de outros enunciados.” (1992, p. 291)
.
A leitura, por sua vez, representa uma tecnologia voltada à análise e
interpretação dos textos, com o objetivo de possibilitar a interiorização do
pensamento materializado por meio da palavra escrita, num processo de
ampliação do próprio pensamento. Assim, a leitura não envolve apenas o
estímulo visual, mas também outras informações não visíveis, que estão no
universo cognitivo do leitor. (Kato, 1995, p. 82).
Mas, as práticas de leitura passaram por transformações, influenciadas tanto
pelo formato e condições materiais dos suportes de registro dos textos
quanto pelas sociabilidades próprias de cada tempo histórico. Os leitores
manuseiam, percebem e observam o texto através de sua estrutura e por meio
do suporte, procedendo à possível compreensão do que é lido. As formas
também produzem sentido e a leitura é sempre uma prática constituída de
gestos, espaços, movimentos e hábitos que interferem na interpretação.
Por esta razão é que Chartier (1994, 1999) alerta que reconstruir as dimensões históricas do processo de leitura obriga que se considere que a construção dos sentidos também sofre influência das formas pelas quais os textos são recebidos e apropriados por seus leitores.
Além disso, cada leitor tem suas particularidades em relação ao ato da
leitura, decorrentes da sua escolaridade, habilidades e expectativas quanto
ao conteúdo lido, o que indica que a leitura é um processo de interação
dinâmica entre o leitor e o texto, no qual os atos estimulados pelo texto
fogem ao controle do próprio texto, dando origem ao surgimento da
criatividade no ato da percepção.
A leitura representa uma operação que envolve, mais do que a decodificação
de informações, elementos não informativos, relacionados ao prazer que
emerge da interação estabelecida entre o leitor e o texto. Como ação humana,
a leitura é movida por intencionalidades e marcada pelas potencialidades do
leitor, implicando nas lacunas de interpretação, inerentes aos processos
humanos.
A superação dessas lacunas apenas se concretiza quando o leitor identifica a
dialogia presente no texto e na sua própria leitura. Também Zumthor
(2000,
p. 74-75) associa a leitura à dialogia afirmando que
[...] porque ela é encontro e confronto pessoal, a leitura é diálogo. A ‘compreensão’ que ela opera é fundamentalmente dialógica: meu corpo reage à materialidade do objeto, minha voz se mistura, virtualmente, à sua. Daí o ‘prazer do texto’; desse texto ao qual eu confiro, por um instante, o dom de todos os poderes que chamo eu. O dom, o prazer transcendem necessariamente a ordem informativa do discurso, que eles eliminam depois. [...] O leitor não pode senão entrar no jogo, confronto gratuito e vital [...]
Na apreensão do código escrito, através da percepção visual, o sujeito pode perceber as lacunas do texto ou de sua própria interpretação, frente à “estabilidade” imposta à informação, que pode ser “manuseada” em movimentos de avanço e retorno às partes do texto, de acordo com as necessidades de cognição desse sujeito.
Conforme Bougnoux (1994, p. 98-99), na leitura do código escrito o sujeito tem o poder de girar em torno da mensagem fixa, desempenhando o papel de receptor ativo, contando com o olho que “[...] tem um poder separador muito superior ao ouvido que é menos analítico e mais sujeito aos valores da harmonia ou síntese. [...] A leitura permite que se volte atrás diferentemente da voz que é unidirecional.”
Mas a leitura dificilmente deixa marcas e a interpretação pode ser realizada
de formas diferenciadas por leitores distintos, o quê faz com que os textos
apenas existam em decorrência da existência de um leitor que lhes dê um
significado. Também a compreensão do texto lido passa pelo manuseio que se
altera de acordo com o formato.
As competências e expectativas dos leitores interferem na interpretação dos
textos, portanto, inexiste um modelo ou padrão mais adequado para o
exercício da leitura. Cada leitor carrega consigo conhecimentos prévios e
lacunas que se misturarão às particularidades do contexto em que se efetua a
leitura, ao texto e ao próprio formato de registro.
As obras – mesmo as maiores, ou, sobretudo, as maiores – não têm sentido estático, universal, fixo. Elas estão investidas de significações plurais e móveis, que se constróem no encontro de uma proposição com uma recepção. Os sentidos atribuídos às suas formas e aos seus motivos dependem das competências ou das expectativas dos diferentes públicos que delas se apropriam. (Chartier, 1994, p. 9).
Na busca da interpretação, a escrita apóia a visualização das idéias que surgem durante a reflexão. Ao anotar, o sujeito tenta codificar, representar a estrutura do seu pensamento, isto é, representar a base da sua interpretação. Por outro lado, o escrever também auxilia o processo de apreensão da informação na memória.
Segundo Del Nero (1997, p. 341-354), a codificação e a interpretação são etapas da formação de memórias, sendo a primeira um processo de representação da informação captada que facilita a geração de conexões que formam uma teia conceptual no córtex, que representa o conhecimento construído pelo sujeito que interpreta.
Nesse mesmo sentido, pode-se dizer que a visualização das formas e cores e a
audição dos sons a partir dos registros visuais e sonoros, agregada à
informação escrita gerada a partir do esforço de interpretação dessas
informações imagéticas e sonoras, integram o processo de conhecer.
Os recursos tecnológicos para o registro, acesso, disseminação, transmissão
e comunicação do conhecimento produzido; os acervos e ambientes que
colecionam e/ou dão acesso ao conhecimento comunicado (informação); e os
próprios mediadores desse acesso (agentes sociais da Educação, Comunicação e
Informação), interagem para a ação de conhecer.
Assim, ao analisar esse complexo cenário, identifica-se a presença de
elementos tecnológicos e humanos, envolvidos no registro, disseminação,
recuperação, transmissão e processamento das informações, que se inserem, se
alternam e se entrelaçam aos sujeitos envolvidos na construção do
conhecimento.
Considerações finais
A partir dessa abordagem, conclui-se que a geração do conhecimento
representa um processo que demanda ações por meio das quais se pode retomar
o conhecimento previamente construído, sobre o qual se reflete acerca das
convergências, divergências e incongruências em relação a uma nova
informação, o quê conduzirá ao pensamento reflexivo que subsidiará a
construção do conhecimento singular, como também daquele que, no consenso,
se estabelece como instituído socialmente. O movimento de retomada ocorre na
interação que se dá em várias práticas sociais, mas de forma especial em
ambientes como os da educação formal.
Por outro lado, no cerne de tais práticas encontra-se o princípio do
compartilhamento do conhecimento em processos de interação assegurados pela
ação comunicativa, seja ela da comunicação direta (ou informal), seja ela da
comunicação indireta (mediada ou formal), possível por meio da informação
registrada.
Nesse contexto se verifica, então, a mediação exercida por ambientes, ações,
agentes, conteúdos, suportes, recursos tecnológicos, que se articulam na
interseção entre a informação, a comunicação e a educação, cujo objetivo é o
estabelecimento de estratégias a partir das quais se torna possível a
geração de saberes.
Assim, o tema da construção do conhecimento, como também a sua relação com o
objeto informação, motiva um olhar mais atento para os pontos de
interlocução da Ciência da Informação com os campos da Comunicação e da
Educação, de modo que se possa avançar na compreensão da travessia que se
traça entre informação, conhecimento e nova informação.
Referências Bibliográficas
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revista de Ciência da Informação, [Rio de Janeiro], v. 2, n. 4, ago. 2001.
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Sobre a autora / About the Author:
Henriette Ferreira Gomes
henriete@ufba.br
Profa. Adjunto do Instituto de Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia.