Resumo:
Na chamada era da informação, as empresas enxergaram que somente a gestão
eficaz das suas informações poderia auxiliá-las na tomada de decisões
alinhadas à estratégia organizacional, razão pela qual têm realizado
elevados investimentos para a implantação de sistemas de informação,
normalmente terceirizados, gerando excelente oportunidade para o crescimento
de empresas de tecnologia da informação, cujo discurso é centrado na gestão
da informação, para estimular a venda de seus produtos e serviços. Esse
trabalho ilustra o desalinhamento entre o discurso adotado por esse tipo de
empresa e as práticas que adota efetivamente na gestão de seu próprio
negócio. Optou-se pela realização de um estudo de caso de natureza
qualitativa, onde vinte e uma pessoas (diretoria, corpo gerencial e
profissionais ligados à atividade-fim da empresa) foram entrevistadas (sendo
que cada uma possui mais de dois anos de empresa e mais de três anos de
experiência na atividade), com vistas a confrontar os dados coletados com o
modelo genérico proposto por Davenport (1998), para a implantação e
acompanhamento da gestão informacional no âmbito da organização.
Palavras-chave: Informação; Gestão da informação;
Gestão estratégica da informação; Processo para implantação de gestão da
informação; Tecnologia da informação; Sistemas de informação.
Abstract: In the so called information age, the
efficient use of information was soon recognized by the companies as the
primary tool to make decisions in accordance with the organizational
strategies. This is the reason why they have invested heavily in
implementation of information systems, usually outsourced, generating an
excellent opportunity for information technology companies, whose focus is
on information management, to promote the sale of their product and services.
This paper depicts the non-alignment between the speech adopted by this kind
of company and the practices it adopts in the conduction of its own
business. We opted for a qualitative case study, in which twenty and one
people (including the board, managers and professionals that work with the
core business tasks) were interviewed (each interviewed person works more
than two years in the company and has more than three years of experience in
the activity), to confront the collected data with the generic model
proposed by Davenport (1998), that provides the framework for the
implementation and follow up of information management within the company.
Keywords:
Information; Information management; Strategic information management ;
Information management process; Information technology; Information systems.
Introdução
Na chamada “era da informação”, com a explosão no volume de informações disponíveis nas diferentes mídias, observa-se que a riqueza das organizações não provém mais do ativo contábil ou da massificação da produção, mas do capital intelectual, da identificação, aquisição e do processamento de informações relevantes, do uso sistemático do conhecimento de mercados, da racionalização dos processos de negócio e do alinhamento das tecnologias à estratégia organizacional, como geradores de vantagens competitivas.
De acordo com Beal (2004), as empresas do século XXI são organizações que existem em um ambiente repleto de inter-relações e que muda constantemente. Nesse contexto, informação e conhecimento constituem-se em premissas para se prever, compreender e responder a tais mudanças. Portanto, para serem eficazes, as organizações precisam ter seus processos decisórios e operacionais alimentados com informações relevantes, oportunas, completas e exatas, obtidas de forma eficiente e adaptadas às necessidades do negócio.
Para Marchand (2004), em um cenário de hipercompetição, onde a fidelidade
do cliente é desafiada continuamente, e as empresas devem transformar
rapidamente seus processos e competências para alcançar ou ultrapassar a
concorrência, o foco precisa estar concentrado nos processos e sistemas de
informação, com vistas a obter alto retorno e agregar valor para o cliente.
Nesse novo contexto de mercado, como resposta ao rápido surgimento de novas
tecnologias e áreas de conhecimento, que resultaram na redução do ciclo de
vida dos produtos e serviços, observou-se uma corrida frenética das
organizações em direção à revisão de suas estratégias, buscando na
tecnologia da informação a forma de aumentar a eficiência de seus processos
empresariais.
Através da utilização de sistemas de informação, as empresas acreditaram ser possível a obtenção de resultados imediatos, que permitissem aos administradores a adoção de um modelo de gestão baseado na informação, que, por sua vez, associado ao conhecimento organizacional existente, possibilitassem o acompanhamento das transformações do ambiente da empresa e a inovação de seus produtos e serviços.
Uma forma bastante utilizada pelas organizações, para a otimização da
gestão de seus recursos informacionais através de investimentos em
tecnologia da informação, tem sido a terceirização desse serviço junto a
empresas especializadas, buscando, de acordo com Leite (1997), além do
acesso imediato a novos recursos (físicos ou humanos), sem os quais
dificilmente conseguiriam atingir os objetivos no prazo adequado, a
possibilidade de maior concentração nas atividades-fim da empresa, a redução
de custos, maior eficácia e outras vantagens. O aumento da demanda por
sistemas de informação possibilitou o surgimento e o crescimento de inúmeras
empresas focadas no fornecimento de soluções baseadas em tecnologia da
informação.
Contudo, Gianesi e Corrêa (1994) ressaltam que, devido ao fato de ser o
produto final desse tipo de empresa a prestação de serviços especializados,
a qualidade está diretamente associada à comparação entre a percepção do
cliente quanto ao serviço prestado e sua expectativa anterior ao serviço, em
função dos seguintes aspectos: ausência de variabilidade, habilidade e
competência da empresa para a execução dos serviços, prontidão no
atendimento, atenção personalizada, capacidade de adaptação às necessidades
específicas do cliente, baixa percepção de risco, facilidade de contato e
acesso, qualidade e aparência das instalações e custo.
Tais aspectos tornam mais difícil a gestão do negócio de terceirização em
informática. Para Rus e Lindvall (2002), há ainda que se levar em conta que,
como os recursos principais de uma empresa de prestação de serviços em
tecnologia da informação não são plantas, prédios ou máquinas caras, mas
seus profissionais, esse tipo de empresa se depara com o problema da evasão
constante de experiência e entrada também constante de inexperiência,
gerando um grande desafio em termos de manutenção do nível de competência
necessária para se manter no mercado.
De acordo com Rus e Lindvall (2002), durante o processo de desenvolvimento
de um sistema de informação, documentos são elaborados, visando à captura do
conhecimento produzido. Se esse conhecimento for disponibilizado aos membros
de um time de desenvolvimento, em projetos subseqüentes, permitirá a
reutilização de soluções adotadas em diferentes problemas identificados;
contudo, se o conhecimento individual não for explicitamente capturado,
gerando as informações necessárias para o aprendizado de outros, a
organização poderá acessá-lo somente se puder identificar e acessar o
indivíduo que o detém.
Para estes autores, as empresas de tecnologia da
informação precisam dar a importância necessária à captura e
disponibilização de informações corretas para seus profissionais, já que
tanto os gestores que coordenam os processos de desenvolvimento de sistemas
de informação como os membros da equipe precisam de informações que os
ajudem na execução de suas atividades.
À luz da teoria proposta por Rus e Lindvall (2002), é possível deduzir que,
se a informação é fundamental para o processo de tomada de decisão pelas
empresas em geral, mais ainda o será para uma empresa prestadora de serviços
em Tecnologia da Informação (cujo principal serviço consiste no
desenvolvimento e na customização de sistemas de informação, adaptados para
a realidade do tomador do serviço e informatizados por uma determinada
tecnologia da informação, com o objetivo de propiciar aos clientes
informações, sejam elas estratégicas ou de acompanhamento).
Sem a informação adequada, é muito difícil a estruturação dos processos
de negócio da empresa, das pessoas e da tecnologia da informação, de forma a
atender às demandas do mercado. Sem informação, os processos organizacionais
são executados de forma subjetiva, sem um desejável alinhamento à realidade,
comprometendo, conseqüentemente, a produtividade e a competitividade da
empresa.
O objetivo desta investigação é avaliar até que ponto o discurso adotado por
uma empresa de
Tecnologia da Informação
para a comercialização de seus
produtos e serviços, defendendo as vantagens do acesso rápido, seguro e
confiável à informação, aplica-se a seu próprio negócio. Espera-se, com os
resultados obtidos, contribuir com empresas prestadoras de serviços de
tecnologia da informação a analisar seu processo de determinação das
próprias necessidades de informação e seus mecanismos de obtenção,
distribuição e utilização dos informes pertinentes a esse ramo de negócio,
com vistas a favorecer a identificação de possíveis lacunas e desvios em sua
gestão e propiciar a promoção de futuras ações corretivas.
Espera-se também que este trabalho seja uma fonte de consulta, um
instrumento que possa subsidiar futuras pesquisas interessadas em aprofundar
a questão do gerenciamento dos recursos informacionais, e que sirva de apoio
a gerentes de empresas em fase de implantação da gestão informacional.
A primeira parte do artigo contempla o referencial teórico, isto é, a base
conceitual do trabalho elaborada através de revisão da literatura, inicia-se
com uma breve abordagem sobre dado, informação e conhecimento, demonstrando,
na seqüência, por que a informação constitui-se em um recurso estratégico
para as organizações, essencial para a construção do conhecimento.
Em seguida, enfoca os conceitos sobre gestão da informação e gestão
estratégica da informação. O próximo tópico explica o processo genérico
sugerido por Davenport (1998) para a implantação da gestão dos recursos
informacionais em uma organização. Esse modelo é utilizado como base para a
análise dos dados coletados neste trabalho. Para finalizar a revisão
teórica, são apresentados os principais conceitos de tecnologia da
informação e de sistemas de informação, cujas características possibilitam o
entendimento do negócio desenvolvido pela empresa objeto deste estudo.
Após a revisão da literatura, são descritas a metodologia, bem como a
população da pesquisa, o método de coleta e análise dos dados. Em seguida,
discutem-se os resultados e as conclusões da pesquisa.
Revisão da literatura
Dado, informação e conhecimento
De acordo com Alvarenga Neto (2005), as definições de dado, informação e
conhecimento constituem-se pré-requisitos para qualquer discussão sobre
organizações do conhecimento e gestão da informação e do conhecimento.
Davenport e Prusak (1998) conceituam os dados como registros estruturados de
transações organizacionais, que criam a ilusão de exatidão científica, não
fornecendo julgamento nem interpretação para a tomada de decisão, devendo
ser avaliados em relação ao custo, velocidade de obtenção e capacidade de
armazenamento da organização.
Com relação ao conhecimento, Davenport (1998) o define como “a informação
mais valiosa e, conseqüentemente, mais difícil de gerenciar”. Seu valor
é adicionado pelo ser humano, ao agregar à informação a própria
interpretação, a própria sabedoria. Para o autor, o conhecimento compreende,
portanto, a síntese de múltiplas fontes de informação, a partir de uma
reflexão pelo ser humano. Na visão de Davenport e Marchand
(2004), o
conhecimento representa a informação dentro da mente das pessoas; logo, sem
o ser humano, não há conhecimento. Afirmam, portanto, que o conhecimento é
valioso porque os seres humanos criam novas idéias, percepções e
interpretações, a partir das informações, aplicando-os no processo de tomada
de decisão.
Por informação, objeto de estudo dessa pesquisa, Drucker (1990) afirma se
tratar de “dados dotados de relevância e propósito”.
Rezende e Abreu
(2006) entendem a informação como “todo dado trabalhado, útil, tratado,
com valor significativo atribuído ou agregado a ele e com um sentido natural
e lógico para quem a usa”. Davenport (1998) define informação como
dados
transformados por pessoas, ou seja, dados dotados de relevância e propósito,
requerendo unidade de análise e exigindo consenso em relação ao significado.
A informação corresponde à representação simbólica e formal de fatos ou
idéias, sendo diretamente afetada pela rede de relações, no contexto em que
se encontra inserida, que lhe dá significado.
Para Davenport e Marchand (2004), as informações correspondem aos dados transformados, quando de sua
interpretação e contextualização pelos seres humanos, constituindo-se em
veículo para expressar e comunicar conhecimento, cujo estado tem capacidade
de alterar. Portanto, as informações têm mais valor que os dados e, ao mesmo
tempo, maior ambigüidade, já que estão sujeitas a diferentes interpretações.
De acordo com Felix (2003), uma forma de se aferir a qualidade da informação
é através da avaliação de suas dimensões e atributos, conforme sintetiza o
Quadro 1, a seguir.
QUADRO 1 – Dimensões da qualidade da informação

Fonte: Felix, 2003, páginas 37 e 38.
Para esse autor, uma informação é considerada de qualidade quando os dados
são completos e quando o processo utilizado para transformá-los em
informação é eficiente. Garantir a qualidade das informações possibilita à
organização obter vantagem competitiva perante seus concorrentes. O valor da
informação é definido por Felix (2003) como a relação custo / benefício
existente entre a qualidade de uma informação e o desempenho que
proporciona, já que uma informação pode ser considerada relevante, mas gerar
baixo retorno para a organização; dessa forma, o lucro proporcionado, o
tempo para sua obtenção, a previsibilidade e a antecipação de resultados
constituem os indicadores mais comuns para a mensuração do valor da
informação.
Entendidos os conceitos sobre dado, informação e conhecimento, procurar-se-á
esclarecer os motivos que tornam a informação um ativo altamente estratégico
para as organizações.
A informação como recurso estratégico
Para Earl (2004), ao longo dos últimos 40 anos, muitos analistas tentaram
determinar os principais impulsionadores das mudanças no cenário mundial.
Inicialmente, acreditava-se que o poder dos computadores e da automatização
fosse o principal fator. Em seguida, as telecomunicações tornaram-se o foco
das atenções, devido à sua capacidade de redução do tempo e espaço. Mais
recentemente, as mudanças foram associadas ao poder de geração de valor da
informação, um ativo intangível da organização, responsável pela geração de
conhecimento que, por sua vez, apóia a inovação e a renovação dos produtos e
serviços da empresa.
De acordo com Bio (1989), o constante crescimento das empresas, em muitos
casos, traz como conseqüência o afastamento dos gestores da supervisão
direta das operações, tornando cada vez mais crítico o recurso da
informação, já que as decisões se tornam mais complexas e delicadas, e os
volumes de dados aumentam. Segundo esse autor, a informação é, portanto,
simultaneamente, a base e o resultado das ações gerenciais. A informação
oferecida aos gestores deve possibilitar-lhes a verificação da eficiência
dos resultados das operações da empresa no seu todo, viabilizando o
planejamento futuro, enquanto que, nos níveis intermediários da organização,
a informação deve permitir o controle de áreas específicas.
Choo (1998) recomenda que a informação seja utilizada pelas organizações
para dar sentido às mudanças do ambiente externo, para gerar novos
conhecimentos por meio do aprendizado e para tomar decisões importantes.
Para o autor, criar significado, construir conhecimento e tomar decisões
constituem processos interligados. A análise de como essas três atividades
se retroalimentam possibilita uma visão holística da maneira como a
organização faz uso da informação.
Ainda de acordo com o autor, a percepção da informação sobre o ambiente da organização propicia a construção do seu significado e orienta os processos de construção do conhecimento, que, por sua vez, deve ser compartilhado entre os indivíduos e a organização, para que possa ser transformado em inovação.
Portanto, a organização que for capaz de integrar eficientemente os
processos de criação de significado, construção do conhecimento e tomada de
decisão pode ser considerada uma organização do conhecimento, capaz de fazer
uso eficiente da informação, realizar ações baseadas em uma compreensão
correta de seu ambiente e de suas necessidades e obter, com isso, vantagem
competitiva.
Contudo, de acordo com Davenport (1998), apesar da importância da informação
para as organizações, os ambientes informacionais, em diversas empresas
pesquisadas pelo autor, são pobres, ou seja, ninguém sabe o que fazer ou o
que precisa saber; existe pouca informação acessível sobre funcionários,
clientes e até mesmo sobre os próprios produtos e serviços. Por essas
razões, no próximo tópico, será abordada a concepção de gestão da informação
e da gestão estratégica da informação.
Gestão da informação e gestão estratégica da informação
De acordo com Freitas (1992), ao lado das funções tradicionais
(tais como
produção, comércio, pesquisa, finanças e pessoal), surgiu uma função nova e
fundamentalmente transversal: a função informacional, que não se limita aos
muros da empresa, mas, pelo contrário, atravessa a empresa de departamento
em departamento, para ligá-los ao ambiente externo.
Tem-se assim a emergência de uma nova área da administração: a gestão da informação e, mais precisamente, de um ponto de vista geral, a gestão estratégica da informação. Para Rezende e Abreu (2006), o nível gerencial das empresas não pode ignorar como a organização utiliza a informação, quais são seus principais fluxos de informação, qual é a necessidade de informação de cada nível hierárquico e a competência de seu corpo gestor em administrar os recursos informacionais. Para esses autores, a utilização e a gestão da informação favorecerão as decisões, as soluções e a satisfação dos clientes (externos e internos).
A informação deve ser considerada como diferencial de negócios, quando
proporciona alternativas de lucratividade e retornos profícuos para a
empresa, seja sedimentando atuações e implementando os atuais negócios, seja
criando novas oportunidades de negócios, devendo, portanto, ser gerenciada
de forma estratégica.
De acordo com Alvarenga Neto (2005), as definições de gestão de recursos
informacionais ou, simplesmente, gestão da informação, podem ser
apresentadas a partir da sobreposição da perspectiva da tecnologia da
informação e da perspectiva integrativa. Na perspectiva da tecnologia da
informação, a gestão da informação é estudada como uma expansão ou
sub-disciplina de sistemas de informação gerenciais, enfatizando o aspecto
técnico, em que a informação é igualada a tecnologia da informação, ou seja,
o foco reside exclusivamente nas informações produzidas por computadores.
Nessa abordagem, segundo o autor, quanto maior e mais complexa for a
organização, menor será a probabilidade de se encontrar a melhor informação
e o melhor conhecimento, já que limita as fontes de informação às produzidas
pelo computador e, em muitos casos, às contidas no ambiente interno da
organização. Assim, de acordo com o autor, a perspectiva tecnológica da
gestão da informação, por não produzir informação suficiente para dar
suporte ao processo de tomada de decisão, tende a evoluir para a perspectiva
integrativa.
A gestão da informação na perspectiva integrativa, por sua vez, é entendida
pelo autor como um caminho convergente para a resolução dos problemas
informacionais, procurando integrar e harmonizar as fontes, os serviços e
sistemas de informações corporativas, visando a obter uma sinergia entre as
fontes internas e externas de informação organizacional, contemplando as
necessidades e o processamento das informações, ou seja, concentra-se nos
fluxos e ações formais de informação dentro da organização, a partir de
informações internas e externas, podendo estar ou não armazenadas em
computadores.
Nesse viés, a gestão da informação deve levar em consideração a cultura
organizacional, seu sistema de valores e as diretrizes definidas pela
organização em sua estratégia de negócios, apoiando e fortalecendo os
objetivos corporativos, além de fornecer opções estratégicas.
Na visão de Bergeron (1996) apud Frade (2001), a gestão da informação
constitui uma estratégia utilizada pelas organizações, visando a solucionar
seus problemas informacionais através da disponibilização de informações
corretas para uma determinada pessoa ou grupo de pessoas, no momento e na
forma adequados. Assim, a qualidade das decisões tomadas pelos gestores é
diretamente afetada pela disponibilidade de informações completas,
atualizadas e relevantes para a solução dos problemas da organização.
Beal (2004), adotando uma perspectiva mais tecnológica, afirma que a
expressão gestão estratégica da informação deve designar a administração dos
recursos informacionais de uma empresa, a partir de um referencial
estratégico. Segundo a autora, adotar uma gestão estratégica da informação
não implica abandonar a perspectiva permanente da gestão da informação
(voltada para a coleta, o tratamento e a disponibilização de informação que
dê suporte aos processos organizacionais, tendo em vista o alcance de seus
objetivos permanentes), mas adicionar a ela a perspectiva situacional (cujo
foco é a informação direcionada para a consecução dos objetivos estratégicos
estabelecidos para um determinado período).
A gestão estratégica da informação, então, na visão da autora, exige o
estabelecimento de definições, formatos, estruturas, domínios e regras que
permitam tratar a informação como um recurso a ser administrado, com
responsabilidades claras com relação a provimento, padronização,
distribuição, acesso, armazenamento e proteção.
Davenport (1998) propõe uma perspectiva ecológica para a gestão da
informação, centrada no ser humano, levando em consideração o ambiente
informacional como um todo, contemplando os valores e crenças empresariais
sobre informação (cultura organizacional); a maneira como as pessoas
utilizam efetivamente a informação e o que fazem com ela (comportamentos e
processos de trabalho); as armadilhas que podem interferir no intercâmbio de
informações (políticas) e os sistemas de informação que já se encontram
devidamente instalados e alinhados com as necessidades de informação
(tecnologia).
Para o autor, a gestão da informação deve possibilitar a integração dos
diversos tipos de informação (não-estruturada, estruturada em papel,
estruturada informatizada, etc), o reconhecimento de que o cenário sofre
constantes mudanças e a ênfase na observação, na descrição das necessidades
informacionais e no comportamento pessoal e informacional (que deve ser
direcionado para a efetiva utilização da informação em todas as atividades).
Apresentados os conceitos de diversos autores sobre gestão da informação e
gestão estratégica da informação, procurar-se-á, no próximo tópico, detalhar
o processo genérico para a implantação da gestão da informação, proposto por
Davenport (1998), verificando como esse processo afeta a escolha da
tecnologia da informação.
Processo genérico para implantação da gestão da informação e a tecnologia
da informação
Davenport (1998) entende a implantação da gestão da informação em uma
organização como um processo composto por um conjunto estruturado de
atividades que incluem o modo como a empresa obtém, distribui e utiliza a
informação e o conhecimento. Segundo o autor, ao definir o gerenciamento da
informação como um processo, torna-se possível sua mensuração e seu
aperfeiçoamento, além de uma abordagem interfuncional, englobando métodos,
ferramentas e técnicas de uma variedade de funções da empresa orientadas
para a informação.
Dessa forma, propõe um processo genérico, composto de quatro passos, a
saber: determinação das exigências, obtenção, distribuição e utilização de
informações.
Para a determinação das exigências de informação, de acordo com
Davenport
(1998), é necessário observar as atividades gerenciais, ou seja, compreender
quais são as informações necessárias para a gerência, o que constitui a
informação-chave, quais são os limites dessa informação, de que fontes devem
derivar e quais são os documentos mais utilizados e mais importantes.
Somente através dessa observação é possível realizar o mapeamento da
informação disponível na organização, elaborando-se um mapa da informação
corporativa, de forma a registrar os tipos de recursos informacionais
existentes, suas fontes e localizações, as unidades organizacionais
responsáveis e os serviços e sistemas a eles associados.
Após a determinação das exigências de informação, torna-se necessário
obtê-la. Para Davenport (1998), a obtenção de informação constitui-se em uma
atividade ininterrupta, ou seja, algo que não pode ser finalizado e
despachado. O autor considera ser mais eficaz o processo baseado em um
sistema de aquisição contínua.
Além disso, entende que o fornecimento de
informação deve garantir aos usuários que todos encontrarão aquilo de que
necessitam em um pacote composto por informações, produtos e serviços. A
atividade de obtenção de informação, segundo o autor, consiste em várias
tarefas, não necessariamente seqüenciais, a saber: exploração do ambiente
informacional, classificação da informação em uma estrutura (categorização),
formatação e estruturação da informação.
Uma vez obtida, a distribuição envolve a ligação de gerentes e funcionários
com a informação de que necessitam. Para Davenport (1998), se os outros
passos do processo estiverem funcionando, então a distribuição será mais
efetiva, ou seja, a definição das exigências informacionais ajuda a aumentar
a consciência de que a informação é valiosa, e a categorização e o formato
correto facilitam a distribuição. A organização deve definir a estratégia de
distribuição a ser adotada, podendo optar tanto pela divulgação às pessoas
autorizadas, partindo da premissa de que as pessoas não conhecem o que não
sabem, como pela disponibilização.
Nesta última estratégia, a informação fica disponível em algum lugar
acessível e de conhecimento das pessoas autorizadas, esperando por consultas
ad-hoc, considerando-se que, quando a distribuição é realmente necessária
sua eficiência é maior. Segundo o autor, a empresa pode ainda optar pela
adoção de ambas as estratégias de distribuição.
A utilização constitui a etapa final e mais importante do processo genérico
para a implantação da gestão da informação em uma empresa, conforme o modelo
sugerido por Davenport (1998), já que, “como um medicamento que não é
tomado, a informação de nada servirá, até que seja utilizada”. Para o
autor, quando os gerentes de alto nível sabem com que freqüência são
utilizadas as informações armazenadas na empresa, podem fazer o equivalente
ao que fazem os executivos das redes de televisão, quando medem o índice de
audiência, ou seja, aquilo que não costuma ser acessado pode ser eliminado
ou modificado e, o material mais popular, por sua vez, analisado para
descobrir por que é tão utilizado.
Davenport (1998) sugere que o uso da
informação pode ser institucionalizado em uma organização, através do
mecanismo de avaliação de desempenho e de recompensas e punições pessoais.
Para Beal (2004), a implantação de um processo de gestão de informação
possibilita a correta identificação das necessidades informacionais dos
grupos e indivíduos que integram a organização e de seus públicos externos,
permitindo à empresa o planejamento mais eficaz do investimento em
tecnologia da informação e sistemas de informação, com vistas a assegurar
melhor atendimento às necessidades de cada público-alvo.
Entendidos os conceitos sobre dado, informação e conhecimento, gestão da
informação, gestão estratégica da informação e o processo genérico para a
implantação da gestão da informação em uma empresa, e tendo-se verificado
como tal processo impacta diretamente na escolha da tecnologia da
informação, procurar-se-á, no próximo tópico, definir tecnologia da
informação e sistemas de informação, que correspondem, respectivamente, aos
instrumentos para manuseio dos dados e informações nas organizações e ao
principal negócio desenvolvido pelo tipo de empresa objeto desta pesquisa.
Tecnologia da informação e sistemas de informação
Para Balarine (2002), a tecnologia da informação diz respeito a objetos
(hardware) e veículos (software) destinados a criar sistemas de informação.
Cruz (2002) define tecnologia da informação como um conjunto de dispositivos
individuais, como hardware, software, telecomunicações ou qualquer outra
tecnologia que faça parte ou gere tratamento da informação ou, ainda, que a
contenha.
Luftman (1993) e Weil (1992) apud
Laurindo (2001) adotam um
conceito mais amplo, segundo o qual a tecnologia da informação corresponde
ao conjunto de sistemas de informação, hardware e software,
telecomunicações, automação e recursos de multimídia utilizados pelas
organizações, para fornecer dados, informação e conhecimento.
O’Brien (2001) define os sistemas de informação como um conjunto de
componentes inter-relacionados e interdependentes que, através de insumos
(entradas) produzem resultados (saídas) em um processo de transformação de
informação, visando ao atendimento de uma meta estabelecida. Freitas
(1997) entendem que os sistemas de informação são instrumentos que devem ser
utilizados para fornecer informações para qualquer uso que se possa fazer
delas. Campbell (1997) ratifica essa definição, ao afirmar que o objetivo de
um sistema de informação é a coleta e a transformação de dados em informação
para o tomador de decisão.
Para Laudon e Laudon (2004), os sistemas de informação podem ser definidos
tecnicamente como um conjunto de componentes inter-relacionados que
recuperam, processam, armazenam e distribuem informações para suportar
processos de tomada de decisão e permitir o controle de uma organização. De
acordo com esses autores, as atividades de input (entrada), processing
(processamento) e output (saída), dentro de um sistema de informação,
produzem a informação que a organização precisa para tomar suas decisões,
controlar suas operações, analisar problemas e criar novos produtos e / ou
serviços.
Laudon e Laudon (2004) sugerem que, em uma perspectiva de negócio,
os sistemas de informação constituem-se em importantes instrumentos para a
criação de valor para a organização, fazendo parte de uma série de
atividades que adicionam valor ao negócio, através da aquisição,
transformação e distribuição de informações que os gerentes podem utilizar
para melhorar o processo de tomada de decisão, otimizar a performance
organizacional e, conseqüentemente, aumentar a lucratividade da empresa.
Rezende e Abreu (2006) ratificam a afirmação de
Laudon e Laudon (2004),
observando que o foco dos sistemas de informação deve ser auxiliar os
processos de tomada de decisão na organização, ou seja, deve estar
direcionado para otimizar o negócio da empresa. Um sistema de informação
eficiente pode ter um grande impacto na estratégia corporativa e no sucesso
da empresa, gerando benefícios tais como: fornecimento de suporte ao
processo de tomada de decisão, geração de valor agregado aos produtos e
serviços, produção de melhores serviços e vantagens competitivas, geração de
produtos de melhor qualidade, apoio na identificação de oportunidades de
negócio e aumento da rentabilidade, geração de informações mais seguras, com
menos erros e mais precisas, redução da carga de trabalho, de custos e
desperdícios, fornecimento de maior controle das operações e outros.
Metodologia da pesquisa
Classificação da pesquisa quanto aos fins e meios
Esta pesquisa tem finalidade descritiva, porque visa a descrever percepções,
expectativas e sugestões das pessoas que trabalham na empresa que constituiu
objeto deste estudo, cujas necessidades de informação e de política de
gestão da informação se buscou detalhar. Quanto aos meios, optou-se por um
estudo de caso, de natureza qualitativa, por se revelar o mais adequado, em
função dos objetivos propostos.
Universo e sujeitos da pesquisa
O universo desta pesquisa compreende uma empresa mineira, situada no
município de Belo Horizonte, cujo principal negócio é a prestação de
serviços em Tecnologia da Informação. A empresa Tecnologia S.A. (nome
fictício, já que seus representantes solicitaram que não fosse divulgada sua
marca) foi fundada em 01/06/1987, completando, portanto, vinte anos de
existência em 2007.
Seu negócio consiste em oferecer soluções de tecnologia da informação
para o mercado, destacando-se, inicialmente, no segmento de ferramentas de
produtividade para o desenvolvimento de sistemas. A partir de 1995, iniciou
uma fase de expansão, passando a oferecer também serviços de consultoria,
treinamentos em tecnologia, desenvolvimento de sistemas de informação
específicos e alocação de profissionais especializados para atender às
necessidades de seus clientes. A área de atuação da empresa concentra-se na
região Sudeste e no Distrito Federal, contando com aproximadamente 150
colaboradores em seu quadro de pessoal, uma carteira de mais de 50 clientes
ativos e um faturamento anual de aproximadamente R$ 10 milhões.
Para a seleção das pessoas a serem entrevistadas (sujeitos da pesquisa),
levou-se em consideração o core business da organização, isto é, foram
contemplados todos os papéis envolvidos diretamente nos principais processos
de prestação de serviços em tecnologia da informação da organização, além
dos papéis gerenciais e estratégicos.
Foram entrevistados vinte e um colaboradores da empresa (diretoria, corpo
gerencial e profissionais ligados à atividade-fim da empresa, sendo que cada
profissional possui mais de dois anos de empresa e mais de três anos de
experiência na atividade), com tempo médio de quarenta e cinco minutos para
cada entrevista. É importante destacar que cada entrevista foi gravada, com
anuência do entrevistado, como forma de otimizar a riqueza de detalhes em
cada resposta obtida.
Coleta de dados
A metodologia empregada nesta pesquisa como instrumento de coleta e
tratamento dos dados privilegia a abordagem qualitativa. A escolha dessa
abordagem justificou-se pelo fato de constituir a alternativa mais
pertinente para o enfoque pretendido na pesquisa, cujo campo de coleta dos
dados e cujos participantes foram escolhidos propositalmente, com vistas a
subsidiar o pesquisador, em função de seu interesse de estudo. Também as
condições de acesso ao campo e a disponibilidade dos sujeitos envolvidos
foram fatores determinantes das opções do pesquisador.
Devido à necessidade de detalhes do objeto pesquisado, optou-se pela
entrevista por pauta, semi-estruturada, com o agendamento de diversos pontos
a serem explorados com o entrevistado, permitindo maior profundidade dos
dados a serem coletados, sem, no entanto, suprimir a oportunidade do
entrevistado de se manifestar livremente acerca do assunto abordado.
Estratégia para análise dos dados
Em função dos objetivos estabelecidos nesta pesquisa, foram identificadas as
características atuais do ambiente informacional da organização estudada,
mediante a investigação e análise das práticas adotadas para a gestão
estratégica da informação. Com base nas respostas obtidas, foi realizada a
confrontação com o modelo genérico proposto por Davenport (1998) para a
implantação da gestão da informação, o que permitiu verificar até que ponto
a empresa estudada aderiu aos próprios discursos, adotados para a
comercialização de seus serviços, ou seja, se está direcionada para uma
cultura baseada na informação, ou se o ditado popular “Casa de ferreiro,
espeto de pau” é aplicável a seu modelo de gestão da informação.
Tal confronto foi baseado em um olhar hermenêutico, ou seja, comprometido
com a interpretação do pesquisador, buscando explicar os encontros e
desencontros entre os elementos apresentados. Através da interpretação,
buscou-se chegar ao significado a ser compreendido, à luz das teorias
existentes sobre informação, tecnologia da informação, sistemas de
informação e gestão da informação.
Apresentação e análise dos resultados
Determinação das necessidades de informação
Os dados obtidos revelaram a existência de um grande problema de comunicação
interna, que prejudica o fluxo de informações relevantes na estrutura formal
da empresa, tanto vertical quanto horizontalmente. A Diretoria e algumas
pessoas privilegiadas detêm informações e conhecimentos sobre a missão e os
objetivos estratégicos da empresa e acreditam que a etapa de identificação
das necessidades de informação esteja alinhada com tais objetivos. Entendem
que as informações existem dentro da empresa, precisando apenas ser mais
divulgadas, ou seja, o principal problema, na percepção dessas pessoas, é a
inadequação do processo de disseminação das informações.
O desconhecimento revelado pela maioria dos entrevistados (aproximadamente
60%) quanto à estratégia e aos objetivos da empresa e quanto ao que é
esperado de cada um para que as metas sejam alcançadas, parece estar
diretamente relacionado à sua percepção de que a empresa tem dificuldade de
identificar as informações de que necessitam para realizar suas atividades:
“Como a empresa pode saber quais informações são necessárias para que eu
possa realizar minhas atividades, se ninguém, em momento algum, me procurou
para conversar sobre meu trabalho? Além disso, como minhas atividades podem
estar alinhadas a um objetivo comum, se nenhum objetivo foi definido e
divulgado?”.
Foi possível constatar que mais de 80% dos entrevistados sabem, de forma
tácita, quais são suas atividades e de que informações necessitam para
executá-las, mas não sabem se o trabalho que estão realizando encontra-se
alinhado aos objetivos estratégicos da organização, se a forma como executam
suas atividades está em conformidade com as normas e padrões da empresa, nem
se suas atividades estão sendo realizadas da forma mais eficiente possível.
Essa falta de feedback causa dúvida e, em muitos casos, desmotivação.
A causa da dificuldade da empresa em identificar necessidades de informação
pode estar associada à inadequação do processo de disseminação, conforme a
visão da Diretoria e de alguns entrevistados. Essa dificuldade, na opinião
de aproximadamente 50% dos profissionais, contribui para que a empresa não
consiga identificar que tipos de informação devem ser priorizados nem quais
atividades devem ser enfatizadas. Segundo essas pessoas, o processo de
priorização na empresa é informal e subjetivo, não alinhado a qualquer
objetivo estratégico.
Além disso, esse mesmo percentual de entrevistados acredita que as
informações disponíveis não permitem aos gestores o controle de suas
respectivas áreas de gestão. De qualquer forma, independentemente da causa,
é possível deduzir, com base nas respostas obtidas, que predomina a
percepção de que o processo para identificação das informações necessárias
aos profissionais da empresa Tecnologia S.A., para que possam realizar
satisfatoriamente suas atividades, é inadequado, já que depende fortemente
da interpretação de cada indivíduo, isto é, do conhecimento tácito dos
profissionais, dificultando o estabelecimento de padrões e,
conseqüentemente, a gestão efetiva desse processo.
Obtenção de informações dentro da organização
Quando questionados sobre a forma como as informações necessárias são
obtidas, os entrevistados citaram a troca de e-mails como a forma mais
utilizada, afirmando não existir um padrão formal homologado pela empresa.
Outros meios de obtenção de informação citados são as planilhas comuns
compartilhadas na rede (documentos do setor), os relatórios extraídos dos
sistemas de informação (sistemas computadorizados), as pesquisas na internet
e nos documentos existentes na empresa (fontes confiáveis regulamentadas),
as reuniões formais, e, principalmente, as conversas informais, conforme
ilustrado no Gráfico 1, a seguir.
GRÁFICO 1 – Principal fonte de informação na empresa

Fonte: Dados da pesquisa, 2007
Foi possível verificar a inexistência de um repositório central de
informações onde as pessoas possam compartilhá-las. Pelo contrário, cada
indivíduo utiliza um método diferente para recuperar a informação, de forma
subjetiva e, conforme o contexto. Essa afirmação pode ser comprovada por
algumas respostas dos entrevistados, tais como: “Para obter a informação
necessária, são necessários grande esforço e articulação, através de
conversas informais e pesquisas individuais na internet e nos documentos
disponíveis na empresa”, “o processo de obtenção de informações não é
padronizado; algumas chegam através de e-mail, sem nenhum formato
pré-definido, outras em papel e, outras a gente tem que se virar para
conseguir, através de conversas informais com quem acreditamos possuí-las”.
Esses dados são confirmados pela própria Diretoria, ao afirmar: “a
principal fonte de informações da empresa encontra-se nas conversas
informais e em planilhas compartilhadas através da rede de computadores,
sendo que as conversas informais predominam, proporcionando o
compartilhamento de conhecimento tácito através da socialização”.
Esta falta de padronização para a obtenção de informações contribui para o
resultado negativo ilustrado no Gráfico 2, relacionado à facilidade com que
as pessoas encontram as informações necessárias, em tempo hábil.
GRÁFICO 2 – Agilidade na obtenção da informação

Fonte: Dados da pesquisa, 2007
Esse gráfico revela que 72% dos entrevistados não consideram que as pessoas
dentro da empresa conseguem obter as informações necessárias em tempo hábil,
permitindo, portanto, concluir que o processo de obtenção da informação na
empresa estudada ainda é ineficiente.
Os gráficos 3,4,5, a seguir reforçam a percepção dos entrevistados
quanto à dificuldade na obtenção de informações na empresa.

O gráfico 3 revela que a grande maioria dos entrevistados tem dificuldade em
obter a informação correta, no momento da tomada de decisão. Adicionalmente,
84% dos entrevistados acreditam que a informação existente na empresa pode
conduzi-los a erro na tomada de decisão. Ao analisar essas duas informações
em conjunto, infere-se ser possível que um profissional da empresa consiga,
com esforço, acessar determinada informação, a qual pode vir a conduzi-lo a
erro, na tomada de decisão. O gráfico 5 corrobora esta afirmação, ao
demonstrar que 84% dos entrevistados não acreditam que as informações
obtidas sejam confiáveis, completas e apresentadas da maneira correta, o que
dificulta a realização de atividades e a tomada de decisões. Essas
informações são coerentes com os dados representados pelo gráfico 2 (72% dos
entrevistados não acreditam que as pessoas na empresa consigam encontrar as
informações necessárias em tempo hábil).
A tabela a seguir reflete a opinião dos entrevistados quanto à qualidade da
informação disponível na organização estudada, à luz do modelo de
classificação proposto por Felix (2003), que leva em consideração as
dimensões de tempo, conteúdo e forma.
Tabela 1 – Dimensões da qualidade da informação na empresa Tecnologias
S.A

Fonte: Felix, 2003, páginas 37 e 38 (Adaptado).
Os dados agrupados na Tabela 1 corroboram a afirmação da maioria dos
entrevistados de que as informações obtidas não são confiáveis, completas e
apresentadas da maneira correta, dificultando, conseqüentemente, a
realização de atividades e a tomada de decisões. É possível observar, de
forma geral, a inadequação dos informes da empresa, de acordo com a opinião
da maioria dos entrevistados, em todas as dimensões propostas por
Felix (2003), a saber: tempo, conteúdo e forma. Nesse contexto, soma-se ao
problema da disseminação ineficaz e ineficiente da informação a questão
preocupante da qualidade dos dados e informes disponíveis na organização. De
nada adiantará resolver um, se o outro também não for solucionado.
Em síntese pôde-se concluir que a etapa de obtenção de informações também
está inadequada, de acordo com a percepção da maioria dos entrevistados.
Conforme comentado anteriormente, provavelmente, a inadequação do processo
de obtenção de informação pela empresa Tecnologia S.A. seja conseqüência
direta da inadequação do processo de identificação das necessidades de
informação, da disseminação inadequada dos informes e, de forma preocupante,
da qualidade da informação existente.
Disseminação e compartilhamento de informações na empresa
Constatada a inadequação tanto da etapa de identificação das informações
necessárias à empresa, como da referente à obtenção de informações, e ainda
a deficiência do processo de disseminação de informações e dos sistemas de
informação da empresa, procurou-se analisar, com maior profundidade, quais
são os principais problemas e dificuldades para o compartilhamento desse
importante ativo, na opinião dos entrevistados.
A pesquisa revelou que a empresa pesquisada adota, na opinião de 94% dos
entrevistados, uma intranet técnica e emails padronizados pela área de
comunicação, como estratégia tecnológica para a disseminação de informações,
além de mecanismos físicos tais como quadros, murais, eventos e cartazes.
Contudo, conforme analisado anteriormente, tais mecanismos têm-se mostrado
ineficientes, já que a maioria dos entrevistados, incluindo a Diretoria,
classificam como inadequado o processo de disseminação de informações dentro
da empresa.
Em outras palavras, é possível constatar que existe um meio padrão para
disseminação de informações dentro da empresa, porém, ineficiente, já que a
maioria dos entrevistados percebe dificuldade na obtenção de informações,
além de ser elevado o grau de desconhecimento das informações existentes. Um
fato que merece ressalva é a observação de que praticamente todos os
entrevistados comentaram sobre a necessidade de implantação de uma intranet
corporativa, como forma de otimizar o processo de comunicação da empresa.
Tratamento e utilização institucional da informação
Os dados da pesquisa revelaram que 37% dos entrevistados preocupam-se com
questões culturais. Consideram que falta definir uma política com relação ao
tratamento e compartilhamento de informações, que possibilite a
institucionalização dos valores da organização.
A Diretoria da empresa confirmou esse problema, durante a entrevista, ao afirmar que os principais problemas, dificuldades e obstáculos para o compartilhamento de informações na empresa estão associados à falta de formalização de uma política para tratamento de informações, bem como a problemas de natureza comportamental, argumentando que, apesar da divulgação dos valores e expectativas organizacionais por ocasião de eventos da empresa, os profissionais têm demonstrado dificuldade em assimilá-los e colocá-los em prática.
Na opinião de alguns entrevistados é possível observar o esforço das
pessoas no sentido de compartilhar informações, mas, como não existe uma
política, uma cobrança, tal prática tem-se mostrado opcional, subjetiva,
dependendo de iniciativas individuais. Além disso, foi possível evidenciar a
prática comum de troca de informações através de conversas informais,
inviabilizando o resgate histórico de determinadas situações, já que
inexiste registro formal das informações.
Com relação à utilização da informação dentro da empresa Tecnologia S.A, o
gráfico 6 ilustra a opinião dos entrevistados quanto à existência de uma
diretriz ou política formal da empresa para o tratamento e utilização das
informações.
Gráfico 6 – Tratamento e utilização das informações

Fonte: Dados da pesquisa, 2007
O gráfico 6 demonstra que 88% dos entrevistados não conhecem ou não tiveram
acesso a qualquer política formal da empresa para o tratamento e o
compartilhamento das informações. Para a Presidência, apesar de não existir
tal política, os valores da empresa encontram-se descritos em um kit que
todo colaborador recebe, quando é admitido na empresa. Trata-se de manual
que descreve o comportamento esperado do profissional quanto a aspectos
como: comprometimento, transparência, trabalho em equipe, ética, alinhamento
estratégico e compartilhamento das informações. A pesquisa constatou,
contudo, que esse documento é desconhecido por todos os entrevistados. O
gráfico 7, a seguir, ilustra a percepção dos participantes quanto à
disseminação pela empresa da sua política e dos comportamentos
informacionais desejados.
Gráfico 7 – Disseminação da política informacional pela empresa

Fonte: Dados da pesquisa, 2007
O gráfico 7 ratifica os dados apresentados pelo gráfico. 6, ao demonstrar
que 83% dos entrevistados não acreditam que a empresa divulgue com clareza
sua política e os comportamentos que valoriza em termos informacionais,
principalmente por desconhecerem a existência de tal política, ou seja, o
que existe na empresa, de acordo com a opinião desses profissionais, são os
valores da Diretoria, que são divulgados através de exemplos, em eventos
anuais promovidos pela organização, com periodicidade julgada insatisfatória
para a devida assimilação.
A pesquisa revelou ainda que, além de não possuir uma política formal para o
tratamento e o compartilhamento de informações, a empresa também não
estimula o comportamento informacional desejado, na opinião de 72% dos
entrevistados. É possível deduzir, com base nesses dados, que, devido à
inexistência de uma política que possibilite a direção dos profissionais no
sentido desejado pela organização e, por falta de incentivos que induzam os
profissionais a adotarem uma postura coerente com os valores divulgados pela
Diretoria, o compartilhamento de informações está totalmente sujeito à boa
vontade e à iniciativa de cada indivíduo, o que concorre para a
não-priorização dessa prática e, conseqüentemente, para o agravamento do
problema de disseminação de informações e comunicação entre as pessoas e
áreas da empresa.
Tal problema poderia ser mitigado através de treinamentos dos colaboradores,
no sentido de desenvolverem comportamentos desejáveis, ligados à informação.
Contudo, quanto à questão dos treinamentos, 100% dos entrevistados revelaram
que a empresa não oferece qualquer tipo de treinamento que ajude seus
colaboradores a desenvolver os comportamentos desejados, reforçando a
afirmação de que as práticas envolvendo o tratamento e o compartilhamento de
informação dentro da empresa estão totalmente sujeitas à subjetividade de
cada indivíduo, gerando, conseqüentemente, os problemas evidenciados.
Demonstrando coerência com a afirmação de que o processo de obtenção e
disseminação de informações ainda é inadequado, no âmbito da empresa, a
pesquisa revelou, também, que 89% dos entrevistados acreditam que as
informações não são reutilizadas, perdendo-se tempo e esforço na coleta dos
mesmos dados duas ou mais vezes, razão que justifica o fator de não se
encontrarem as informações em tempo hábil, bem como as redundâncias e
conflitos de informações dentro da empresa Tecnologia S.A.. A visão geral,
tanto da Diretoria quanto dos colaboradores, é de que o processo de
reutilização da informação ainda é muito incipiente na empresa. Na prática,
inexiste um repositório centralizado de informações, de forma a garantir a
manutenção da memória organizacional.
O gráfico 8, por sua vez, ilustra as principais disfunções da informação na
empresa, na opinião dos entrevistados.
Gráfico 8 – Disfunções de informação na empresa

Fonte: Dados da pesquisa, 2007
A fragmentação da informação é apontada como a disfunção mais freqüente.
Quando a informação é seccionada entre diversas áreas, torna-se necessário
tempo e esforço para integrar as partes, de forma a resgatá-la
integralmente. A inconsistência de informações, ou seja, a circulação de
versões diferentes de uma mesma informação, gerando dúvidas quanto à sua
fidedignidade, é a segunda maior disfunção apontada. Em terceiro lugar,
posicionou-se a duplicidade de dados, caracterizada pela existência de
informações iguais ou similares em diferentes bases, gerando dúvidas quanto
à versão correta. A falta de confiança nos dados armazenados ficou em quarto
lugar, seguida por outros itens diversos, entre os quais a Diretoria
apontou, principalmente, a dificuldade dos profissionais em trabalhar de
forma colaborativa e em aceitar possíveis mudanças dentro da organização, em
função das habilidades de cada um, visando a facilitar a logística na
prestação de serviços.
Houve ainda reiteradas referências à inexistência de uma base de dados,
que possibilite a formação de uma memória organizacional, que seja de
conhecimento de todos os colaboradores da organização.
A gestão atual da informação na empresa, na visão dos colaboradores
Após a análise do processo básico de implantação da gestão da informação,
etapa por etapa, na percepção dos entrevistados, buscou-se obter sua
avaliação a respeito da gestão da informação na empresa nos dias atuais.
Os discursos de mais de 70% dos entrevistados quanto à sua percepção da
atual gestão das informações na empresa revelaram-se coerentes em relação ao
contexto já analisado, reforçando a idéia de que não existe atualmente na
empresa um processo básico para a gestão da informação, em consonância com o
modelo sugerido por Davenport (1998).
Apesar de a Diretoria entender que tal processo existe como conhecimento
tácito das pessoas, a maioria dos entrevistados revelou dúvidas quanto a
esse processo, observando que tal informalidade gera muita confusão, não
contribuindo para a melhoria da eficiência operacional (melhoria da
comunicação, motivação das pessoas, eliminação do retrabalho).
Conclusões
Resposta à questão-problema e aos objetivos da pesquisa
A pesquisa atendeu aos objetivos propostos, na medida em que possibilitou
verificar como a empresa Tecnologia S.A., cujo negócio é a prestação de
serviços em tecnologia da informação, determina suas necessidades de
informações e como as obtém, distribui e utiliza em seu próprio negócio.
Os dados da pesquisa revelaram que a cultura informacional existente na
organização baseia-se no conhecimento tácito de seus indivíduos, não
existindo uma política institucional clara que direcione o comportamento dos
profissionais quanto ao tratamento e compartilhamento de informações. Foi
possível ainda comprovar que as práticas internas da empresa em relação à
gestão da informação não se encontram coerentes com o discurso utilizado na
abordagem a seus clientes.
Ao investigar e analisar as práticas de gestão estratégica da informação na
empresa Tecnologia S.A., com base no modelo genérico sugerido por
Davenport
(1998) para a implantação da gestão da informação em uma empresa,
verificou-se que todas as etapas desse processo (identificação das
necessidades de informação, obtenção, distribuição e utilização) ainda se
encontram inadequadas, sendo realizadas informalmente, com base na
subjetividade e no bom-senso dos indivíduos, não existindo qualquer
regulamentação da instituição no sentido de normatizar a operacionalização
desses passos. Nesse contexto, à luz da definição de gestão da informação,
proposta por Davenport (1998), é possível afirmar que a organização estudada
ainda não possui implantada a gestão dos seus recursos informacionais.
Contribuições e recomendações
A informação é a condição essencial para a geração de conhecimento, o qual,
por sua vez, constitui o ativo mais valioso das organizações nos dias
atuais, constituindo-se em matéria-prima para a diferenciação da empresa no
mercado em que se encontra inserida, seja mediante a inovação de produtos e
serviços, seja através da implantação de uma política agressiva de preços,
possibilitada pela alta eficiência operacional.
Para que a empresa Tecnologia S.A. possa gerir de forma mais eficaz e
eficiente seus recursos informacionais, torna-se necessária a implementação
de um ambiente informacional controlado, ou seja, organizado e coerente com
os objetivos estratégicos desejados pela organização. Nesse contexto, é
fundamental a avaliação dos impactos das modificações necessárias, tanto na
cultura como nos comportamentos organizacionais, os quais influenciam e são
influenciados pela informação. Portanto, é essencial o estabelecimento de
uma política que defina qual é a postura desejada pela empresa no tratamento
e compartilhamento das informações.
É recomendado ainda, tendo em vista o contexto de alta competitividade do
mercado, que a empresa busque concentrar mais seus esforços na criação de
valor para o cliente, através do uso adequado da informação, contemplando os
seguintes aspectos: identificação clara e precisa das próprias necessidades
de informação (da empresa e de seus colaboradores), em função dos objetivos
estratégicos; utilização da tecnologia da informação como ferramenta para a
otimização do compartilhamento e da obtenção e distribuição das informações;
divulgação clara da disponibilização da informação de forma que possa ser
facilmente localizada e utilizada como apoio indispensável para os processos
decisórios e para a gestão da empresa; incentivo e mobilização dos
colaboradores, seja através de treinamentos e mecanismos de premiação e
punição, seja mediante a reestruturação de espaços físicos, no sentido do
trabalho cooperativo, compartilhamento da informação e promoção de novas
idéias em toda a organização.
A implantação de um processo básico de gestão da informação que atenda a
esses aspectos, além de lhe possibilitar maior vantagem competitiva no
mercado, abrirá caminho para um efetivo conhecimento organizacional e para a
preservação da memória da instituição.
Espera-se que os resultados obtidos concorram para o aumento da eficácia e
da eficiência não apenas da empresa Tecnologia S.A., mas também de outras
empresas prestadoras de serviços de tecnologia da informação,
possibilitando-lhes analisar seu processo de gestão informacional, com
vistas a identificar possíveis lacunas e desvios e promover as ações
corretivas pertinentes.
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Sobre os autor / About the Author:
Mestre em Administração de Empresas e pesquisador do grupo Processos Organizacionais e Inovação, FEAD; Arquiteto de Software da IBM.