DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.10  n.1   fev/09                  ARTIGO 01

    Os documentos de amanhã: a metáfora, a escrita e a leitura nas narrativas em formato digital
    Tomorrow documents: metaphor,writing and readind in digitally formated texts
    por Aldo de Albuquerque Barreto
     


    Resumo: A produção da informação se processa hoje como uma cultura de muitas vozes formando a narrativa intertextual. Neste artigo se fala e se compara no tempo atual os documentos lineares e os documentos digitais. Atualmente as tecnologias da informação estão definitivamente inseridas no contexto do pensamento e dos atos de informação. Os usuários agora com a web, podem se colocar frente ao grande arquivo da humanidade e navegar com instrumentos infinitamente mais corretos que os astrolábios de navegação marítima. Documentos digitais ampliam o acesso e a inclusão informacional e existe uma explicação econômica e uma explicação de proximidade da informação para indicar que os documentos de amanhã serão em sua maioria em formato digital. O artigo analisa como a escrita na internet subverte a estrutura da linguagem, pois agrega ao texto imagem, vídeo, som e outras condições que à aproximam do pensamento do gerador e da oralidade.

    Palavras-chave:  Documentos em formato digital; Link como uma metáfora, Escrita e leitura na web, Disponibilidade da informação; Nova economia da produção de informação.

     

     

    Abstract:  The information production as it is processed today is proper of a culture of many voices speaking and it is transforming the language of texts to a hypertext format. This article analyses and compares linear and digital documents. Currently intensive technologies are definitively inserted in the context of thoughts and acts of information. The users now with the web are placed facing the great archive of humanity and they are sailing with instruments infinitely more correct than the astrolabes of maritime navigation. Digitally formated documents increase the access and inclusion into the information world. There are an economic and document acces motive indicating that tomorrow documents will be in its majority digitally formatted. In this article, writing in the Internet is seen as changing the structure of language adding to the text content an image, a video, a sound and other conditions that approach to the way authors think and orality.
    Key words: Digitally formatted documents; Link as a metaphor,Writing an reading in the web; New information economy.

     

     


                                                                                            Metáfora do grego metaphorá pode significar transporte, translação.

     

     

     


    A diversidade cultural1 engloba as diferenças culturais que existem entre as pessoas e seus artefatos de informação e comunicação, como a linguagem, a escrita as tradições, a forma como as sociedades estão organizadas, sua concepção de moral e de religião, e as suas políticas. Nenhuma cultura é pura, todas são resultantes de contatos e empréstimos. A idéia de cultura tem se transformado para ser o conceito de culturas, pluralidade que inclui a cultura da elite, mas também a de diferentes grupos sociais e sua produção informacional.

    A produção da informação se processa hoje, como uma cultura de muitas vozes formando a narrativa intertextual. Na história da informação nos últimos cinqüenta anos vemos que ela se entrelaça com própria história do século vinte quando a humanidade viu inserir no seu convívio mais inovações do que em todo o resto da sua história. Dentro do período, desde a secunda metade do século passado, aconteceram importantes inovações que viriam para mudar a face do mundo. É, particularmente, notável o período entre 1945 até 1948 quando uma bolha tecnológica nos deu a fissão nuclear que produziu a primeira bomba atômica, foi desenvolvido o Eniac e depois o Univac-1, os primeiros computadores de aplicação geral, Alexander Fleming recebeu o prêmio Nobel pela descoberta da Penicilina no Hospital St. Mary em Londres só disponibilizada em 1941, um avião voou mais rápido do que o som, foi inventado o transistor, foi fundado a Unesco, Norbert Wiener publicou Cybernetics sobre a teoria matemática da informação e Vannevar Bush Vídeo publicou "As we may think."

    Acabava a guerra e a informação mantida secreta naquele período seria colocada a disposição do mundo. Uma explosão de informação que incomodava o designado pelo presidente Roosevelt o Dr. Vannevar Bush, para de 1938 a 1942 ser o responsável pelo Comitê Nacional de Pesquisa depois Office for Scientific Research and Development; sua missão foi congregar cientistas americanos e europeus para direcioná-los ao esforço aliado de guerra. Em 1945, Dr. Bush escreveu no periódico Atlantic Monthly o seu artigo famoso sobre o excesso de informação em ciência e tecnologia e possíveis entraves que haveria organizar e repassar a sociedade às informações mantidas secretas durante a guerra. Iniciava em 1945 a história recente da informação que divido em três períodos: a gestão da informação, o conhecimento pela informação e ao tempo do ciberespaço8. Como na figura 1:

    Figura 1 – Os três tempos da ciência da informação

     


    Estes períodos não são excludentes. O tempo da gestão e controle da informação continua a ter sua importância até os dias atuas, bem como a interiorização da informação e a geração do conhecimento. Destacamos nesta cronologia o foco principal que dominou o período.

    Interessa neste artigo falar do tempo atual e seus documentos digitais. Assim, desde 1990 as tecnologias da informação estão definitivamente inseridas no contexto do pensamento e dos atos de informação. Neste ano Tim Barnes Leevídeo, trabalhando no CERN, Centro Europeu para a Energia Nuclear, liberou como um arquivo aberto, a interface da Internet que conhecemos como WEB.

    O primeiro web site que Tim Berners-Lee construiu, inicialmente unicamente com página de texto, foi no CERN e foi colocada online em 7 de agosto de 1991. Oferecia uma explicação sobre o que era a World Wide Web, como alguém poderia criar um navegador, como instalar e configurar um servidor web, e assim por diante.

    Em 2008, dezoito anos depois no mesmo CERN, espaço das coisas novas, fronteira da França como a Bélgica, alguns cientistas procuram, em uma máquina fantástica, recriar o que aconteceu no inicio do universo e localizar a partícula que a deu forma ao mundo. A partícula primeira, sem a qual não teria havido o momento de dizer: “ “E então que a luz se faça”. Luz tão necessária para entender as mudanças por que passam com a autoria, o formato, a escrita e a leitura no ambiente eletrônico das redes de informação e comunicação. Mas, como diria Santo Agostinho 2, “de que adianta esta luz se ela não brilha em mim” como não acende naqueles mais incrédulos das coisas novas que existem e mudaram seu contexto.

    A proximidade da informação com o receptor aumenta o seu uso e a inclusão informacional. Os usuários, os leitores, agora com a web, podem se colocar frente ao grande arquivo da humanidade e navegar, isto é, descobrir e conhecer, com instrumentos infinitamente mais corretos que os astrolábios de navegação marítima. Não se trata de uma desordem que se instalou, mas de uma nova ordem, outro regime de informação.

    A transferência da informação tem elementos indispensáveis para sua realização como já indica Jakobson 3 de maneira clara e acessível. Um ato de comunicação se efetiva quando um emissor envia uma mensagem a um receptor. Para se realizar de forma eficaz a mensagem necessita ter acessibilidade verbal ou passível de ser verbalizada. É, primordialmente, necessário que a mensagem esteja em um código comum ao emissor e ao receptor existindo um canal físico e uma conexão psicológica que os capacite a entrarem e permanecerem em contato dentro do código. A acessibilidade à mensagem é uma barreira psicológica que afasta até fisicamente o receptor e os estoques de conteúdos.

    Assim quanto mais perto de nós está à informação maior será seu e potencial uso, pois melhor será a acessibilidade ao documento. Melhor e mais fácil a emissão, a recepção, o canal e o contato psicológico. A barreira psicológica fecha o aceso a muitas pessoas que, se sentem constrangidas, até em entrar nos palácios onde se instalam algumas bibliotecas. Na figura 2 pretendemos visualizar a facilidade do uso e o acesso a informação. Quanto mais perto da fonte estiver o usuário maior e melhor sua possibilidade de uso.

     

    Na figura 2 - Acesso a informação e sua proximidade

     



    Com a Internet e seus estoques em fluxo temos que reconhecer a existência de dois tipos de artefatos de informação em sua relação ao seu tempo e o espaço e autoria:

    Artefatos de informação fechados: são objetos de informação que se encontram explicitamente formatados e finalizados, por razões das características de sua estrutura ou por uma necessidade de integridade de seu formato. Seu conteúdo, de espaço provinciano, não pode e nem deve ser alterado após sua finalização. O valor de uso e a sua relevância podem ser explicitados para cada usuário. São exemplos deste tipo de objetos livros, artigos de periódicos impressos, imagens acabadas, documentos históricos, legais ou contratuais etc..

    Artefatos informação abertos: são objetos de informação que estão com os enunciados em se fazendo ou que, apesar de acabados, podem ter seu conteúdo modificado devido a um diálogo entre o gerador e o documento ou pela participação permitida de outros usuários em rede. O valor de uso é circunstancial, pois a utilidade da informação para o receptor está relacionadaa um determinado momento do tempo e da completeza do documento. A relevância varia em relação a circunstância em que se encontra a sua criação em um determinado momento. Exemplos deste tipo de objeto seriam os artigos de periódicos online e interativos, blogs, textos como o do Painel do Tempo da ONU ou os testos da rede de pesquisa do DNA

    A criação em documento aberto está menos no espaço físico e mais nos sistema dominado por várias tecnologias de transferência do saber. O espaço demarcado é substituído pela topologia das narrativas intertextuais, o espaço de colocação ou disposição das palavras em um enunciado.  O conceito de "desterritorialização da informação" ocorre quando não se tem mais um ponto de referência exato no espaço de disponibilidade de um conteúdo. De fato, já não há um espaço único para uma cultura e suas narrativas.

    O texto se desterritorializa na sua centralidade e se re-territorializa na cotidianidade dos conteúdos cosmopolitas abertos para o mundo com uma linguagem de enunciados imediatos em oposição aos documentos provincianos, aterrados no limite de seu próprio formato. Para a informação aberta e em fluxo é preciso existir uma transmissão é um diálogo interativo entre geradores e receptores com afinidade nos objetivos e na qualidade do artefato em construção.

    Este novo aspecto da informação traz problemas para a determinação dos direitos de sua propriedade. A propriedade intelectual de uma informação, que se encontra em construção e em um suporte digital quando gerada por diversos autores em rede necessita, para que seja estabelecida, um novo contrato de convivência e trocas.

    Para Foucault,4 o que determina a "função-autor" não se constrói simplesmente atribuindo um texto a um indivíduo com poder criador, mas se constitui como uma "característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade", ou seja, indica que tal ou qual discurso deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa determinada cultura, receber um certo estatuto. O que faz de um indivíduo um autor é o fato de, através de seu nome, delimitarmos, recortarmos e caracterizarmos os textos que lhes são atribuídos. Mas na  autoria em rede é impossível atribuir um discurso a um autor, pois nenhuma linguagem se sobrepõem a outra e todas concorrem para a narrativa final como uma bricolagem de enunciados que se juntam como em mosaico. Os textos se conectam através de vínculos semânticos e sociais.

    A criação aberta está menos no espaço físico e mais nos sistemas atemporais conduzidos por várias tecnologias de transferência de documentos e do saber. A geografia é substituída pela cronologia das narrativas 5 intertextuais, aonde os documentos não têm limite em seu território; quando não se tem mais um ponto de referência exato de jurisdição. Não existe mais um espaço único para a narrativa em formato digital.

    Os enunciados 7 se reformatam na cotidianidade de uma “cultura de jogos de enunciados imediatos" 6.  O ciberespaço 8 é visto como uma dimensão da sociedade em rede, onde os fluxos definem novas formas de relações sociais entre os signos de inscrição da escrita. Este espaço multicultural está associado à rede mundial de documentos intertextuais na Internet. O indivíduo rompe com alguns princípios tidos como regras provincianas do lidar com a narrativa, alterando valores e crenças para determinar a nova sociabilidade textual existente no mundo.

    Na Internet cada um é o seu próprio publicador o que acabou com o monopólio da fala e com o poder do capitalismo editorial dos documentos e instituiu a liberdade das vozes socializadas e em concorrência. Se no principio era o verbo, no novo mundo da navegação do conhecimento, o homem e sua palavra estão em rede conectados ao seu outro. A velocidade do meio impõe à escrita outro traço, o traço de uma escrita que se quer livre do signo demarcado em uma relação biunívoca. O significado preso a uma relação única com o significante é uma fratura do imaginário que se quer alforriado e expandido, adiado na percepção e desfamiliarizado nos temas classificados em universos simbólicos particulares.

    Há algo de positivo na simultaneidade, que se contrapõem ao tempo de uma escrita tradicional; na interioridade da escrita digital há tempo místico um tempo que soleniza todos os tempos, pois se coloca em um momento do presente com a memória do passado e uma perspectiva de futuro, uma celebração de todos os tempos.

    O linguagear da escrita digital lança um enunciado em um jogo de linguagem com o outro, como sendo parte de um discurso, que irá se completar. Palavras e enunciados tem na condição digital um caminho de significantes liberados. O imaginário ampliado tem diferentes significantes para o mesmo signo. Um enunciado tem no formato digital um adiamento do significado até que todos os caminhos intertextuais sejam trilhados.

    Se a metáfora é entendida como a potencialização do significado, onde começa a metáfora em um enunciado digital? Uma nova condição de associação além do signo é atribuída nesta nova escrita onde cada link é uma metáfora. O link  no conteúdo digital não redireciona a leitura ele a significa ou desliga-se de seu significado. Não é só uma translação é uma transgressão A metáfora é, então, o  adiamento e desfamialiarização do traço desta nova escrita.

    A pergunta que se coloca nesta contemporaneidade é: estamos preparados para lidar com documentos em formato digital na web, tanto em termos cognitivos quanto no controle dos estoques usando técnicas de organização da informação de regimes estáticos? Os documentos do futuro próximo serão em sua maioria digitais e existe uma explanação de racionalidade econômica para esta afirmação.

    A Nova economia vídeo dos documentos em formato digital

    Sobre o valor da informação
    Seguindo esta linha de reflexão, associamos o conceito de valor à demanda pela informação que se encontra localizado em uma realidade específica e é potencializada pela sua função de transferência. O conceito de valor é subjetivo e específico para cada indivíduo, de acordo com a sua escala de preferências, suas prioridades racionais, sua hierarquia de desejos. Um indivíduo valoriza a informação A em relação a B, dentro desta escala de preferências. Neste caso, o valor do conteúdo A, para cada indivíduo, vai depender:

    I. Da preferência de conhecer A em detrimento do conhecimento contido em B;

    II. Da competência cognitiva do indivíduo em decodificar os documentos A e B e decidir sobre sua potencial relevância;

    III. Do documento A e do documento B estarem em um código que seja simbolicamente significante para o receptor e permita sua apropriação.

    Assim, se no julgamento do receptor, o valor do documento A é maior que o valor do documento B, este efetuou uma decisão baseada no grau de utilidade de um conhecimento desejável. Portanto, o valor entre duas opções é subjetivo, obedece a critérios de demanda individual e só se efetiva na possibilidade de haver uma absorção do conhecimento pelo receptor. Este valor nada tem a ver com o custo de produção do documento e muito menos com seu preço de mercado.

    Oferta e demanda no novo contexto informacional
    É importante indicar, para o campo da informação, que as forças da oferta e a da demanda não se equilibram da mesma forma que nos mercados tradicionais. No âmbito das trocas de informação, é a oferta que cria a demanda, até porque o receptor desconhece a qualidade dos conteúdos guardados  nos acervos e, assim,  não sabe o que poderia desejar, apesar de conhecer, com alguma lucidez, sua necessidade de informação.

    A oferta de informação é constante, forte, conhecida; a demanda é irregular e fragmentada; é uma demanda dividida em micro núcleos sociais diferenciados em vários aspectos. A oferta de informação se localiza em um mundo caracterizado pela centralidade do discurso e por uma forma homogênea e classificada dos documentos. 

    A demanda vive em terras de compromissos estéticos, pois possui regalias relacionadas a sensibilidade e percepção do receptor. A demanda é frágil e heterogênea e se localiza na subjetividade do indivíduo que,  lida com a forma cristal, mas sabe estar na chama o entendimento. Em uma economia tradicional a quantidade da demanda influencia o custo do produto . No mundo da informação esta condição como a demanda aclamada a e no mundo digital esta condição quase não se apresenta

    O mercado de informação, quando existe, é atormentado pela relação custo, preço e valor. A mesma "mercadoria" informação possui diferente valor para diferentes sujeitos consumidores. Configurar um preço de equilíbrio é impossível,  pois o preço pode estar muito abaixo ou muito acima do valor que, determinado usuário esta disposto a pagar, por razões subjetivas de uso individualizado. A mesma "mercadoria" pode variar consideravelmente em seu preço em um mercado aberto devido a esta condição de valor itinerante. Fácil é colocar um preço de capa no livro, no fascículo do periódico impresso, no jornal diário, no disco, na base física, o cristal admite seu preço mas não a chama do conteúdo.

    A situação ilustra uma condição técnica em que se configuram os custos nas unidades de informação convencional. Os elementos que determinam o custo aumentam sempre com o acréscimo dos acervos sem que aconteça igual crescimento no volume da demanda. Isto implicará em um rendimento decrescente na escala de produção, pois é produzido mais que o necessário. Em unidades de informação esta ineficiência é necessária para atender aos requisitos de qualidade esperado pelos usuários no sistema de armazenamento e recuperação tradicional. Cada usuário ao acessar o sistema espera encontrar lá todos os documentos que irá precisar. No somatório de todos os usuários forma-se um estoque com considerável excedente .

    Mas isso implica em enormes custos crescentes na economia tradicional de produção da informação. Principalmente dos custos fixos associados a capacidade de produzir. Como exemplo, indicamos uma fabrica construída para produzir dez mil geladeiras. Ao se consumir só mil geladeiras o custo fixo da capacidade de produzir todas as unidades incidirá nestas mil geladeiras produzidas provocando um incrível aumento no seu custo e preço.

    Na produção de documentos digitais, não existe uma fabrica física e a quantidade produzida não é perseguida pela quantidade do consumo. Não existem os custos fixos da “planta de produção”,  de estocagem física e distribuição convencional. O custo de se produzir dez artefatos culturais digitais será quase o mesmo ao produzir mil ou dez mil. O custo, aqui, é marginal constituído de despesas de pouca variação.

    Na nova economia  da informação digital acabam os custos fixos relacionados com a capacidade de produção estabelecida por padrões de uma instalação física. É a economia da cauda longa. Cauda longa, do inglês The Long Tail, é um termo utilizado na estatística para identificar distribuições de dados que se adaptam a Curva de Pareto.

    No conjunto produtos que existem na zona da Cauda Longa têm um valor comercial equivalente aos dos produtos populares. As facilidades de produção, disponibilização e consumo oferecidas pelo meio digital, e a Internet fazem com que produtos economicamente de baixo consumo no mundo físico das trocas se tornem, quando disponibilizados no meio digital, valiosos devido ao seu baixo custo comparativo. A figura 3 mostra na Cauda Longa, a zona de produtos com enorme custo, devido aos custos fixos e a zona dos produtos digitais onde o custo de produção é basicamente o mesmo independente da quantidade produzida e que aparece na zona do eixo paralelo. Para uma quantidade de zero a infinito o custo permanece quase constante.

    Figura 3

     




    O mercado de produção de massa muda na Internet para o mercado de nichos de interesse, reunindo, na condição de utilidade do produto, o seu valor de uso e sua prioridade de utilização.  Foram identificadas forças propulsoras na distribuição de produtos digitais de informação: a) Maior acesso a ferramentas para sua produção. Se você não consegue publicar um livro, no mundo dos editores, disponibilize  o livro ou artigo, você mesmo na internet. b) Maior facilidade na disponibilização de quantidades: se um site permite o acesso a dez mil documentos, pouco esforço tecnológico será necessário para incrementar isso para cem mil documentos. c) Maior facilidade  de acesso devido a proximidade do receptor com o estoque de informação.

    Existe, portanto, uma explicação econômica e de mercado que confirma a possibilidade de serem os documentos de amanhã, em sua maior parte, documentos digitais por condição racional de produção.  Há que se refletir sobre a apropriação digital. O processo cognitivo de assimilação do conhecimento através da informação digital é diferenciado da quando ocorre através da escrita linear em base fixa. Conhecer é um ato de interpretação individual pelas estruturas mentais de cada sujeito. A apropriação da informação e geração de novos conhecimentos irá se modificar, em um cenário onde a consciência humana  já tem os sentidos condicionados pelo formato digital da leitura e da escrita.


    A nova escrita
    Com os documentos em formato digital, surge uma nova escrita, que se exemplifica na "postagem de enunciados" 9. Tradicionalmente, a escrita convencional é feita em dois estágios: no primeiro o da criação, quando a idéia do texto age livremente na mente do gerador; o segundo quando traduz seu pensamento para uma inscrição de informação, editada de acordo com as regras formais do código lingüístico; temos na uma escrita editada pelo gerador, algo  diferente do que foi elaborado no seu imaginário criador e livre. Na escrita digital, os dois estágios se unem. O autor da informação faz a sua edição no momento de sua criação. Seu pensamento se mescla com a montagem das palavras em pixels de carbono de uma tela de raios catodos. Momentos fantasmagóricos na criação e transferência eletrônica da da informação.

    Os enunciados em jogo tem sua inscrição  simplificada e de alguma maneira, subvertem a estrutura da linguagem, pois agregam a escrita uma imagem, um vídeo, sonorização, como foi realizado com o presente artigo. Nas postagens, os conteúdos em formato digital não estão presos a uma paternidade definida. Eles se realizam na transparência das relações interpessoais, onde nenhuma linguagem comanda a outra.

    Há que entender, porém, que não existem jogos de enunciados escritos sem conflito, pois não existem discursos únicos, mas sempre narrativas em luta. Isso significa que, para cada enunciado ativado, no processo de composição da escrita digital existem outros reprimidos, desativados, emudecidos, sem acesso. Para cada conteúdo legitimado existem bandos de conteúdos excluídos da narrativa total. Esta é uma condição de luta do imaginário .

    O emissor e o receptor da informação vivem em uma ambiência privada, seja para a criação como para o entendimento da coisa; é uma cerimônia que acontece em mundos diferentes: o da sua criação e o da interiorização. Contudo, só a informação explícita, inscrita e formatada transita na esfera pública, que é o espaço de vivência da escrita e dos documentos.

    Uma escrita é, assim, formada pelas inscrições que uma linguagem fixou em um determinado formato de suporte. Uma agregação que compõe um todo significante, o traço que grafado em uma estrutura. Pode estar em um traçado linear ou em formato digital, mas é denunciado pela marca de uma escrita com a possibilidade de apresentar, no mesmo contorno, uma explanação visual, gestual, figural, musical, verbal.

    A escrita linear, também,  permite ao leitor viajar no seu imaginário a incontáveis espaços, dentro da forma em que está presa como a um território definido. Na escrita intertextual, uma palavra pode levar a mil imagens, a infinitos espaços exilados de um formato cêntrico, com liberdade territorial. A escritura digital é externa à linguagem,  agrega outros sentidos ao entendimento e não se prende ao espectro linear de uma escrita de enunciação contínua e destinada a um espaço único

    Convivemos, cada vez mais intensamente, com esta escrita aberta. O interesse na leitura digital e suas possibilidades vagueantes vêm da sedução da viagem por espaços entrelaçados; a escritura digital traz um novo padrão para o “grammé” que é a marca de uma escrita, e também. para imaginário do leitor.

    As bases cêntricas de inscrição da narrativa foram virtualizadas. Estamos convivendo com um novo padrão de escrita e de leitura, presenciando momentos fascinantes de transformação nos modelos de comunicação. Não se trata mais só da existência da Internet, hoje já uma velha tecnologia, nós vivemos agora o arrebatamento das conseqüências que ela vem provocando. A escrita pós-Internet, sem mudar o código, mudou sua condição de uso. A escritura não é mais fixa em uma única base e pode ir por diferentes espaços para explicar ou enriquecer seu tema com diversidade cultural.

    A condição de leitura também não permanece a mesma. O deciframento ainda vai de signo a signo, mais o signo se espacializou e sua agregação exige, cada vez mais, uma apresentação com visualização amigável que elimine o estresse cognitivo da assimilação.

    A leitura hoje é imagética em sua visualização. Nos canais de transferência transitam com velocidade diferenciada. A interatuação necessária para manter em contato emissor e receptor tem novas regras. A inscrição em formatação digital, como a magia, opera na dimensão das sensações espaciais quando das percepções do imaginário.

    A imaginação da coisa e sua representação foram modificadas, pois a coisa imaginada dispersou-se em um fluxo continuo de significados que vão se construindo em um tempo fabuloso. No espaço cibernético, o significante explodiu em novas paisagens do imaginário. Nessa configuração, a imaginação simbólica transformou todas as possibilidades do traçado da escrita e da interiorização da leitura.

    Os enunciados de uma escrita linear de pensamento convergente em um modo definido foram substituídos por uma nova sociabilidade do signo, pautada em uma representação que é potencial e adiada no significado. O imaginário explodiu nos formatos do meio eletrônico, "prorrogando" o significado dos enunciados até que se percorra todo o caminho dos documentos entrelaçados. Palavras e enunciados têm, na condição digital, caminhos de significantes libertados de relações únicas.

    Um enunciado atribuído por uma linguagem padrão tem, no formato digital, um deslocamento dos caminhos do significado. Ocorre, portanto, uma nova condição do imaginário, que vai além de um signo atribuído. O significado nunca é total em uma composição digital, quando permeada por narrativas paralelas. Assim, todos os significados ficam com sua percepção "prorrogada" até o leitor percorrer o fluxo de metáforas que a intertextualidade permite e se complete a trilha escolhida para o seu caminhar nos espaços de significação.

    Dentro de uma narrativa há um momento em que seu criador sente que existe uma configuração favorável do tema para possibilitar ao leitor uma saída da estrutura de origem para potencializar o entendimento,  o significado do conteúdo pela metáfora. Assim, ao contrário dos textos impressos, que propõem uma narrativa em linha reta com uma ordem para a leitura, a escrita digital pode ser transformada, por decisão do leitor, em uma malha de blocos de textos interconectados em movimento e descentramento.  A saída do texto de origem e feita através dos links de metáfora.

    A metáfora criada é apontada na estrutura dos conteúdos digitais, por estas saídas do texto central e realiza a transição entre o mundo do leitor e o mundo dos textos entrelaçados. Neste sentido o link passa a compor a estrutura da linguagem propondo a condição das unidades de leitura intercambiáveis. A metáfora de saída do texto potencializa o significado, produzindo um terremoto de palavras e agregam ao significado por adição , por comparação, negação e por substituição temática.

    Os enunciados intertextuais podem, nessa saída, desligar-se do texto de origem ou ser uma "aumentação" do sentido ou uma transgressão ao texto inicial. As metáforas de transgressão apresentam virtualidade do discurso indicando outras unidades de leitura além da narrativa de origem. Uma unidade de leitura é chamada por Roland Barthes de Lexia. 10 As lexias são indicadas como os locais do texto em que as palavras de um enunciado entram em um terremotos de significação; são fragmentos do texto que caracterizam uma unidade de leitura, um corte completamente arbitrário sem qualquer responsabilidade metodológica. A lexia é o envelope de um volume semântico, a voz do texto tutor, a linha saliente de um texto plural.

    O texto tutor seja ele o primeiro ou um dos seus muitos elos será sempre quebrado, interrompido em total desrespeito por suas divisões naturais; "o trabalho do "texto superposto", é o momento que se subtrai toda a ideologia de totalidade consiste precisamente em maltratar o texto, em cortar-lhe a palavra". 10

    A metáfora digital se estabelece, então, como um rizoma na negociação entre o leitor e o texto. O leitor vai eleger seu destino para a próxima lexia ou continuar seu caminho linear na narrativa origem. Isso acontecerá por avaliação e negociação de seu interesse em permanecer ou ir com o link. É uma oposição a idéia de hierarquia textual, pois ao contrário da estrutura de uma árvore, um rizoma pode conectar qualquer ponto à qualquer outro ponto, oferecendo muitos começos e muitos fins. É o leitor, através dos seus caminhos de leitura, que vai elegendo temporariamente os sucessivos centros da narrativa. E o caminhante tem, no caminho da sua percepção, infinitas opções de trilhas potenciais e, o caminhar, só é limitado pela competência do seu próprio conhecer.

    O leitor já não é mais o perseguidor de significados, mas o provocador de jogos de informação. Ao jogar de volta seus enunciados, o leitor cumpre um propósito do fenômeno da informação, que é o de conhecer e fazer acontecer o sutil evento da percepção pela consciência, percepção que conduz ao conhecimento do objeto percebido. A essência desse fato é a sua intencionalidade. Um enunciado de informação deve ser direcionado, arbitrário e contingente para atingir o seu destino; produz sempre tensão quando da interatuação de competências distintas existentes em dois mundos: o do gerador do enunciado e o do receptor para o quem o conhecimento se destina.

    Assim, também nos momentos de passagem, a informação tem sua distinção mais bela, pois transcende ali a solidão fundamental de todo ser humano pensante, quando um pensamento criador se faz informação inscrita e essa informação se quer conhecimento no receptor. Que joga nova geração. Essa é a qualidade e a característica contida no fluxo da informação que, por essa razão, é tão raro e extraordinário.

    Em um processo de comunicação, um jogo de enunciados é um fato bastante acessível ao entendimento. Os eventos são claros: as pessoas falam e escrevem, compartilham palavras entre si. Um ato de conhecimento pode estar associado ao conteúdo de uma cadeia de enunciados jogados entre gerador e receptor, em uma cerimônia com ritos próprios; é uma passagem simbolicamente mediada,  por uma condição de percepção do indivíduo. Jogos de informação são próprios de estruturas em formato digital aberto, em que o linguagear de enunciados escritos, forma uma narrativa que vai se construindo.

    Para a informação aberta em fluxo não acontece apenas  uma transmissão de informação; existe um linguagear12 interativo, mediado pela escrita, entre geradores e receptores. Os envolvidos possuem afinidade com o contexto informacional e preocupação com a qualidade do objeto em construção.

    A modificação que estes novos documentos colocam nos atos de informação é estrutural, pois modificam o arcabouço da coisa toda. Não é só o computador pessoal que modificou o contexto informacional. Sobreveio uma nova condição de relacionar os indivíduos com a informação, modificando o tempo e o espaço desse relacionamento, tanto em sua geração, quanto na sua recepção.

    Nos cenários tradicionais de informação, antes  havia um fluxo de eventos sucessivos em um tempo direto, mensurável e direcionado a um único espaço de informação. Se um novo cenário de informação se avizinha há que lidar com ele, pois, "  aqueles que sabem viver como se extinguindo são esses os que atravessam de um para o outro lado.”13

    Animal diferenciado é quem trabalha com a informação, pois vive conjurado em um abismo de jogos de palavras, de enunciados e documentos distinguidos; operando entre técnicas ortodoxas e com uma forte chamada para um novo proceder. Mais que qualquer outro profissional, só sobreviverá aquele que souber mesclar saberes do passado com uma perspectiva de futuro; "há que ter grandes asas quem ama os abismos" das metáforas digitais e de tudo que é novo e está vindo para mudar.
     

     

     

    Referências Bibliográficas e notas


    [1] A maior parte da reflexão deste texto é atribuída ao pensamento selvagem do autor a quem deve ser creditada toda responsabilidade. Por esta razão , excepcionalmente, juntou-se para este artigo as notas e as referencias bibliográficas usadas no texto

    [2] Santo Agostinho, As confissões, Ediouro, Rio de Janeiro, 2001.

    [3] Jakobson, R., Linguística e Comunicação, Cultrix, São Paulo, 1993

    [4] Foucault,M., O que é um autor?, Passagens, Veja, 3ª edição, Lisboa, Portugal
    5Narrativa: exposição de um acontecimento ou parte de um acontecimento encadeado, reais ou imaginários por meio de palavras, imagens, conto ou história; um texto de narração.

    [6] WITTGENSTEIN, Ludwig. Observações filosóficas. São Paulo: Edições Loyola, 2005: “o termo jogo de linguagem deve salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”

    [7] Enunciado – parte de um discurso que forma uma narrativa total em associação com o contexto em que é proferido.

    [8] Ciberespaço - Ciberespaço é o espaço das comunicações por rede de computador. Sua comunicação acontece de forma virtual.E um espaço de comunicação que descarta a necessidade do homem físico para constituir  o ato em si como fonte e do relacionamento, dando ênfase ao ato da imaginação. O termo ciberespaço foi cunhado em 1984 , por William Gibson, um escritor canadense, que usou o termo em seu livro de ficção científica, Neuromancer.

    [9] Postagem, Postagens - Post  significa "Postar" (equiv. ao inglês to post). Sua forma substantivada refere-se a uma entrada de um texto num em um jogo de linguagem, quando se trocam enunciados em uma estrutura documental em formato digital aberta.

    [10] Barthes, R.. S/Z, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1992.

    [11] Rizoma - É um conceito desenvolvido por Deleuze e Guatarri no livro intitulado Mil Platôs. Os autores utilizam a metáfora de um tipo de vegetação aquática, que se desenvolve na superfície da água, não possuindo tronco ou caule, ela é totalmente ramificada e sem qualquer hierarquia.  Segundo Geoge Landow em seu livro Hypertex 2.0 de 1997 o rizoma opõe-se a idéia de hierarquia, pois ao contrário da estrutura de uma árvore, um rizoma, em tese, pode conectar qualquer ponto à qualquer outro ponto, oferecendo muitos começos e muitos fins.

    [12] Linguagear - Como seres humanos, vivemos imersos em um fluir incessante de ações que Maturana chama de "linguagear". A linguagem é usualmente entendida como uma transmissão de informação simbólica. Mas, em seu trabalho, Maturana deixa o conceito de informação completamente de fora; diz que os símbolos são secundários ao ato de linguagear e que é essa coordenação de condutas. Então, o linguagear é um modo de viver caracteristicamente humano, no qual somos imersos desde crianças. In: M.Vaz, N. - O Linguagear é o modo de vida nos trabalhos humanos, Revista Ciência e Cultura da SBPC, número 60, julho de 2008.

    [13] Nietzsche, F. - Assim Falava Zaratustra, Editora Tecnoprint S.A, Rio de Janeiro, [sem data], primeira parte, Preâmbulos.



    Sobre a autor / About the Author:

    Aldo de Albuquerque Barreto
    aldobar@globo.com

    Doutor em Ciência da Informação, The City Univerty, Londres, Inglaterra; Pesquisador titular no IBICT.