Arquivo em (dis)curso: o
sujeito-arquivista discursivizado em Brazil, o filme
Archive in (dis)course: the subject-archivist in the film 'Brazil'
(1985)
por Jonathan Raphael Bertassi da Silva e Lucília Maria Sousa Romão
Resumo: Neste artigo temos em vista a tensão entre
apatia e engajamento vivida pelo sujeito-arquivista no filme Brazil (1985),
dirigido pro Terry Gilliam. Para interpretar nosso corpus de pesquisa, nos
pautamos no referencial teórico da Análise do Discurso de matriz francesa, a
qual considera o sujeito em sua interpelação pela ideologia e o inconsciente,
oferecendo deste modo bases para romper com o discurso dominante sobre uma
“imparcialidade” supostamente desejável no exercício profissional da área. Em
nosso trajeto, buscamos outros conceitos de “arquivo” e recuperamos as
preocupações sobre o papel do arquivista pós-moderno tal como enunciadas pelo
canadense Terry Cook. Compreendemos que esse percurso tem muito a acrescentar
sobre a necessidade de romper com o estereótipo do arquivista “neutro” e
“apático”, tal como postulado desde Hillary Jenkinson .
Palavras-chave: Arquivo; Ideologia; Sujeito; Discurso;
Cinema; Imaginário.
Abstract: In this paper is shown the tension between apathy and engagement lived by the subject-archivist in the film Brazil (1985), directed by Terry Gilliam. To interpret our research corpus, we seek for support in the theory of the Discourse Analysis of French matrix, which considers the subject as crossed by the ideology and the unconscious. These offer bases to break the dominant discourse of "impartiality" intented to be the desirable in the professional exercise of the area. Other “archive” concepts were considered and recovered the concerns on the post-modern archivist's function as enunciated by the Canadian archivist Terry Cook. We believe that to understanding this factors will break with concepts of “neutral and “apathetic” archivist's stereotype as postulate since Hillary Jenkinson.
Keywords: Archive; Ideology; Subject; Discourse; Movies; Imaginary.
Introdução
“There’s room for far more irrationality than most people are willing to admit exist in their lives. It’s all around them. They don’t recognize it.” 1 Terry Gilliam
Neste trabalho, intentamos fazer circular parte dos resultados de uma
pesquisa (Slva, 2009) em Ciências da
Informação e da Documentação pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
de Ribeirão Preto da USP. Nela, nos debruçamos sobre a
obra mais aclamada do cineasta
Terry Gilliam,
Brazil (1985), para verificar
os efeitos de sentido materializados no filme sobre o arquivo e a profissão
arquivística. Como vários enfoques são possíveis e foram levados em conta na
monografia original – desde abordagens teóricas dos teóricos do cinema até
os da linguagem – entendemos que o recorte mais válido para este artigo em
particular, bem como a análise que compõe nosso corpus, é privilegiar a
teoria da Arquivística em autores nacionais e internacionais, dos quais
destacamos, entre os últimos, as reflexões do canadense Terry Cook. Através
delas, notamos tanto um possível diálogo com a análise do discurso (teoria
que guiará nossa análise) quanto críticas pertinentes sobre a instituição
arquivística que possibilitam uma interpretação de Brazil com relevância
para pensar sobre o papel do arquivista na contemporaneidade.
Pressupostos teóricos da Análise do Discurso
Para construir uma reflexão sobre o discurso do filme, levando em conta a
relação da linguagem com sua exterioridade, mobilizamos alguns conceitos
teóricos relevantes à
análise do discurso (AD) francesa, sobretudo os de
sujeito, ideologia e esquecimentos. Sobre o sujeito, vale registrar que
trabalhamos com o sujeito do discurso, efeito de na linguagem (Pêcheux,
1997), que sempre assume uma posição ao enunciar. Para isso, a análise do
discurso leva em
conta o sujeito como interpelado pela ideologia e pelo inconsciente.
Não tratamos aqui do sujeito empírico, quantificável, passível de categorizações ou de regularidades, mas o sujeito afetado pelas condições sócio-históricas, que não são sempre as mesmas, nem iguais nem homogêneas para todos. Considerando, então, que o sujeito, como efeito da linguagem, é sempre uma posição entre outras, pode se deslocar, é heterogêneo, errante e migrante, pontuamos que os sentidos que ele produz são plurais, marcados pelo equívoco, ambiguidades e incompletude, uma vez que os sentidos do são construídos no momento da enunciação, de acordo com a posição dos sujeitos. Assim, sujeito e sentido se constroem juntos afetados pela ideologia.
“A ideologia é um ritual com falhas e a língua não funciona fechada sobre si
mesma: abre para o equívoco” (Orlandi, 2006, p.20). Todavia, apesar da
heterogeneidade que impede o discurso de ser “estável” e “fechado”, o
sujeito enuncia a partir de uma formação social, filiando-se ao
interdiscurso sustentador dos atos de linguagem e, ao mesmo tempo,
provocando rupturas e deslocamentos nas redes de filiações. Na Análise do
Discurso, temos a ideia de que não há sentido, mas efeitos de sentido entre
sujeitos interlocutores. “As palavras têm sentido em conformidade com as
formações ideológicas em que os sujeitos (interlocutores) se inscrevem”
(Fernandes, 2005, p.23).
Não é claro, para o sujeito, que ele interpelado em sujeito pela ideologia (Pêcheux, 1997), ocupando uma posição dentre outras possíveis. O estudo do discurso, que inclui em seu corpo teórico a ideologia e o inconsciente da psicanálise, concebe os textos como produtos de um trabalho ideológico dos sentidos, trabalho este que não é consciente ao sujeito, mas afetado por dois esquecimentos (Pêcheux, op. cit.). Primeiro, temos o chamado esquecimento número 1 ou ideológico, que marca o sujeito no momento em que ele enuncia, criando palavra ele um efeito de posse das suas palavras, como se ele fosse a fonte dos sentidos que produz:
"O esquecimento número 1 é o que dá conta do fato de que o sujeito falante não pode, por definição, se encontrar no exterior da formação discursiva que o domina. Ou seja, o sujeito se constitui pelo esquecimento do que o determina. Ele se constitui pela sua inscrição na formação discursiva. Pelo esquecimento número 1 é que tem a ilusão de ser a origem do que diz" (Orlandi, 2006, p. 21).
Temos também o esquecimento número 2, chamado esquecimento enunciativo, em que o sujeito diz de um modo, apagando outras possibilidades de fazê-lo:
"O esquecimento número 2 é da ordem da formulação. O sujeito esquece que há outros sentidos possíveis. Ao longo de seu dizer vão-se formando famílias parafrásticas de tudo aquilo que ele podia dizer, mas não disse. Esse esquecimento não é da ordem do inconsciente e muitas vezes o sujeito até recorre a essas margens de seu dizer para precisar o que está dizendo. (Orlandi, 2006 p. 21)"
Esse sujeito, efeito da linguagem afetado pelos dois esquecimentos, que se
inscreve de um modo e não de outro e que se constitui na formação discursiva
à qual se filia, tem a certeza de ser dono do que diz, acredita não
existirem outros sentidos possíveis para o seu discurso. Ao tomarmos a
ambiguidade, a incompletude e a opacidade inerentes à linguagem, temos um
lugar privilegiado para a interpretação do sujeito que a produz, que faz uso
da linguagem e, ao mesmo tempo, é efeito dela. Através desses conceitos,
como veremos, é possível lançar um olhar menos ingênuo sobre o arquivo e o
profissional da área, atentando para sua relação com o contexto
sócio histórico a partir do qual, conscientemente ou não, ele constrói seus
sentidos.
Além do literal: outros sentidos sobre “arquivo”
Distanciando-se da noção de memória estagnada no tocante aos movimentos
sociais, as raízes epistemológicas da palavra “arquivo” – do grego
archeion
– revelam, por volta do século III ou II a. C., sentidos de registros
oficiais administrativos (bem como o local de preservação destes); mas,
antes disso, a origem no termo arch remonta ao sentido lato de poder,
comando e autoridade (Rousseau; Couture, 1998). Nota-se, portanto, como os
arquivos são parte indissociável das relações de poder-subordinação, muito
embora cobicem uma assepsia supostamente desejável de valores políticos. Derrida
(2001, p.11) legitima o conceito do arquivo como local onde o poder
é exercido,“ ali onde os homens e os deuses comandam, ali onde se
exerce a autoridade, a ordem social, nesse lugar a partir do qual a ordem é
dada – princípio nomológico”.
Para Paes (2002, p.16), o arquivo “é a acumulação dos documentos, em sua maioria textuais, criados por uma instituição ou pessoa, no curso de sua atividade, e preservados para a consecução de seus objetivos, visando à utilidade que poderão oferecer no futuro”. Seu esboço teórico cabe à Arquivística, definida como “ uma ciência de informação social, que estuda os arquivos (sistemas de informação (semi-)fechados), quer na sua estruturação interna e na sua dinâmica própria, quer na interacção com os outros sistemas correlativos que coexistem no contexto envolvente” (Silva, 2002, p.214).
Desse modo, a Arquivística distingue-se do conceito de Arquivologia, dado
que esta desenvolve-se, de acordo com Silva (2002), na segunda
metade do século XIX com o Historicismo, no qual os arquivos tornam-se
laboratórios do saber e os arquivistas são tomados como auxiliares da
História, enquanto a Arquivística, mais antiga, tem suas raízes definidas a
partir do século XVI, com normas regulamentares que vão gradativamente
ganhando forma de postulados e conferindo à disciplina uma construção
conceitual para o saber edificado na prática milenar da gestão de arquivos.
As definições sobre o que é “arquivo” não param por aí. Concordamos com
Ferrarezi e Romão (2008) sobre a percepção de “arquivo” ser delineada, ao
longo do tempo, de forma simplista que privilegia o aspecto físico, material
e técnico da instituição, semelhante ao que ocorre com o pensamento
tecnicista nos estudos sobre o documento, com frequência, relegados a
esmiuçar detalhes do suporte físico.
Segundo Schwartz e Cook (2002, p.11), o senso comum
entende os arquivos como instituições que salvaguardam a verdade: “ records contain the pristine
evidence of past acts and historical fact”
2. No imaginário profissional a
identidade do/sobre o arquivista reitera essa concepção de neutralidade e
guarda de documentos probatórios, visão calcada principalmente na diferença
entre os documentos que compõem o acervo de cada instituição, uma vez que
“estoca-se livros e periódicos em bibliotecas e ao passo que documentos
gerados pelas administrações são estocados em arquivos” (Smit, 2003, p.3).
Ou seja, além de disponibilizar o documento tendo-se preocupação de
recuperar seu “conteúdo” – como se conjetura que ocorre na biblioteca – o
arquivista deve fornecer o registro como prova. Em suma, o arquivo é tomado
em relação com a instituição controladora, que guarda e organiza registros
de modo sistemático e seguindo critérios pré estabelecidos, contando com
profissionais competentes para o manuseio dos documentos – estes, pensados
em correspondência a uma ordem original, não fragmentável, com uma
“destinação” clara para que recebam seu lugar no arranjo em função dela
(Pacífico, Romão, 2006). Existem, contudo, outras concepções sobre o que é
arquivo.
Um dos teóricos que mais mobilizamos na pesquisa que gerou este artigo (Silva, 2009), o canadense Terry Cook, defensor da dita corrente pós-moderna da Arquivística, defende uma abordagem que visa devolver ao olhar do arquivista a historicidade do arquivo e sua função social, daí recorre a teóricos das Ciências Sociais que lidam com a cultura: “Cultural theorists, most notably Michel Foucault and Jacques Derrida, see “the archive” as a central metaphorical construct upon which to fashion their perspectives on human knowledge, memory, and power, and a quest for justice”3 (Schwartz; Cook, 2002, p.4).
Para a Análise do Discurso de matriz francesa, o termo arquivo é entendido
como “campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão” (Pêcheux,
1982, p.57). Esse campo não é referente a documentos físicos, mas a zonas de
memória que o sujeito teve acesso e se submeteu previamente, às regiões do
já-lá nas quais buscou a “voz sem nome” do interdiscurso para significar(-se)
(Pacífico; Romão, 2006). Pêcheux, no mesmo texto (1982), discorre sobre a
divisão da leitura do arquivo, cujo desígnio é a manutenção da dominação
política da classe privilegiada, a qual teria o “embasamento” necessário
para interpretar os documentos, em detrimento de outras leituras possíveis:
" este divórcio cultural entre o ‘literário’ e o ‘científico’ a respeito da leitura de arquivo não é um simples acidente: esta oposição, bastante suspeita em si mesma por sua evidência, recobre (mascarando esta leitura de arquivos) uma divisão social do trabalho de leitura, inscrevendo-se numa relação de dominação política: a alguns, o direito de produzir leituras originais, logo ‘interpretações’, constituindo, ao mesmo tempo, atos políticos (sustentando ou afrontando o poder local); a outros, a tarefa subalterna de preparar e de sustentar, pelos gestos anônimos do tratamento ‘literal’ dos documentos, as ditas ‘interpretações’" (Pêcheux, op. cit., p.58)
O processo de interpretação, para Orlandi (2005) não é livre, pois é determinada de modo desigual na formação social. Além da memória constitutiva, ou interdiscurso, que garante a interpretação constituindo o trabalho histórico do sentido, a interpretação também é determinada pela memória institucionalizada do arquivo (no sentido da análise do discurso), que separa quem tem ou não direito a interpretar. Há, por tradição, profissionais legitimados para a leitura do arquivo, que são geralmente os “literatos”, como filósofos e historiadores (Pêcheux, op. cit.), que são considerados socialmente aptos a interpretar. Para Foucault (2005), “o arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares” (Foucault, 2003,p.147). É o arquivo que especifica discursos, que permite a ressurreição de enunciados inertes.
Ao invés de unificar tudo que foi dito em um discurso, ele diferencia os discursos em sua multiplicidade. É um sistema de enunciados como acontecimentos e coisas, entendido em sua prática discursiva, o que diferencia a noção foucaultiana do arquivo organizado histórica e cronologicamente, com um fio “lógico” como na arquivística. Para esse mesmo autor (Foucault, 2005 p.147), arquivo não tem o peso da tradição, não é uma “biblioteca sem tempo nem lugar de todas as bibliotecas”, nem tampouco o esquecimento que abre margem para qualquer palavra nova. O arquivo é, por essa ótica, uma prática que permite aos enunciados tanto subsistirem quanto se modificarem, num sistema que forma e transforma enunciados. A análise e descrição do arquivo deve ser vista tendo em conta sua alteridade, com o exterior da nossa linguagem ali presente.
Por considerar o exterior na linguagem e as práticas discursivas, o conceito
de arquivo foucaultiano, com suas transformações e modificações nos
enunciados, ao mesmo tempo em que possibilita a manutenção dos mesmos, se
aproxima da noção da análise do discurso, que também considera o arquivo em sua
multiplicidade de leituras possíveis, sendo a exterioridade inscrita na
língua indispensável na análise. Pelo viés da Análise do Discurso, busca-se
rastrear os muitos discursos materializados nos documentos, visto que eles
suscitam uma rede de memória em suas linhas que extrapola a leitura
“literal” do texto (Ferrarezi; Romão, 2008), distanciando-se assim de uma
interpretação supostamente unívoca do discurso, como muitas vezes pretende a
arquivística.
É esse o diferencial da análise do discurso, pois a maioria das concepções de documento não considera os elementos discursivos. “O material de arquivo está sujeito à interpretação e, mais do que isso, à confrontação entre diferentes formas de interpretação e, portanto, não corresponde a um espaço de ‘comprovação’, onde se suporia uma interpretação unívoca” (Nunes, 2005, p.2). Visamos, portanto, ir além das definições frequentemente simplistas de arquivo para considerar a historicidade da instituição arquivística. É neste sentido que entendemos a contribuição de Cook relevante e notamos um diálogo possível entre análise do discurso e Arquivística.
Um dos fatores que atravessam o sujeito arquivista no filme de Gilliam e
evidenciam a alteridade que o constitui é a ligação com o sonho e o desejo
inconsciente. Na arquivística, uma das obsessões que talvez merecessem um
olhar psicanalítico é a veneração, apontada por Cook (1980), pelo chamado
princípio da proveniência, às vezes chamado de “respeito ao fundo”, segundo
o qual documentos originários de uma instituição não podem ser misturados
com outros fundos. Muitas vezes, isso é estendido também a organização, que
em tese precisa manter a linha seguida originalmente. Desde o manual dos
arquivistas holandeses Muller, Feith e Fruin – obra de 1898 que foi divisora
de águas na evolução da Arquivística – a disciplina considera a manutenção
da ordem original a regra mais importante de todas, da qual as demais
derivam. “Acreditavam que respeitando, ou recriando, a organização dos
sistemas originais de registro dos documentos, o arquivista poderia deixar
claro para os pesquisadores o contexto administrativo em que os documentos
foram originariamente criados” ( Cook, 1998, p.6)
A importância de
Jacques Derrida é reconhecida por Cook (2001) graças ao livro do
autor francês voltado integralmente ao conceito de arquivo, com o resgate de
noções freudianas para o debate. Como resultado, teóricos de diversas áreas,
da Antropologia à Psicologia, voltaram o olhar para o arquivo a partir da
crítica detalhada em Derrida. O livro, desde o título, sugere o arquivo como
doença, impressão reforçada no título que recebeu sua tradução para o
inglês, Archive Fever (“Febre de Arquivo”). Derrida entende o arquivo como
local de disputas onde se preza pela consignação de seus detentores, onde o
heterogêneo não é bem-vindo quando ameaça a expressão de poder do Estado.
Ao recorrer à psicanálise, Derrida coloca o arquivo como lugar da origem, ao qual se quer sempre voltar, na pulsão de morte que busca obsessivamente um início. Murguia (2008, p.15) percebe na obra de Derrida a interpretação psicanalítica do pensador francês sobre o arquivo a busca do sujeito por encontrar e possuir o lugar de origem, supostamente alcançável nos arquivos: “Eis esse o mal de arquivo: colocando-se como origem quer se voltar sempre a ela. Esse eterno retorno impede o impulso de vida que é, justamente, sair das origens. No caso do arquivo, ele seria o lugar que guarda os documentos nos quais se podem encontrar registros do momento da origem”. O autor alega que a documentação do passado selecionada conscientemente para compor o arquivo é também formada por fragmentos do inconsciente. Entendemos que esses fragmentos podem compor um espaço de resistência, de tática – no sentido de Michel De Certeau, também citado em Murguia (2008, p.15) – de enfrentamento aos sentidos dominantes, uma vez que geralmente os arquivos representam a memória oficial nos moldes burgueses, pois o “arquivo é expressão de poder do Estado Moderno” (Murguia, 2008 , p.14); logo, é característico da Modernidade se apoiar na instituição arquivística para sustentar sua formação discursiva.
Em Brazil, o inconsciente se estabelece para o arquivista Sam Lowry não
apenas como refúgio escapista da realidade cinzenta na qual impera a “febre
de arquivo” e o impulso parafrástico pelo eterno retorno às origens nos
moldes de Derrida, mas surge ainda como ruptura para fugir à compulsão do
arquivo, como pontuado no último delírio do protagonista, no qual ele e os
terroristas à margem da sociedade, liderados pelo personagem de Robert
DeNiro, literalmente explodem o denominado “Ministério da Informação”,
simbolizando a busca do protagonista por se desprender do sistema vigente.
Não só no princípio da proveniência , mas no arranjo dos fundos o discurso
se faz presente. Schwartz e Cook (2002) entendem os sentidos naturalizados
pelo arquivo, inclusive nos sistemas de classificação do arranjo, com
consequências sociais alarmantes, mas nem por isso realizadas de modo
explícito e consciente.
O arranjo, entendido por “ordenação dos documentos em fundos, a ordenação das séries dentro dos fundos e, se necessário, dos itens documentais dentro das séries” (Paes, 2002, p.122) é privilegiado em sua formação original até na fase corrente, com ecos da obsessão pela origem apresentada por Derrida e depois criticada em parte pelo norte-americano Schellenberg (2006), a partir do momento no qual este sugere, valores primários e secundários para os documentos públicos modernos, delimitando assim alguns mais “importantes” que outros.
Na teoria arquivística, a função de separar os “ papéis que possuem
valor futuro, contendo informações valiosas, dos documentos inúteis”
(Paes, 2002, p.42) é celebrada como uma das vantagens técnicas do arquivo,
parte do trabalho de seleção para a qual o arquivista é considerado
profissional capacitado. Jardim (2008) alerta para a opacidade informacional
nessas decisões quando são tomadas pelo Estado, na constituição do
patrimônio documental. Segundo o autor, alguns poucos documentos são
monumentalizados, o que é recorrente também em países latino-americanos, mas
no caso destes influenciam fatores práticos como a falta de espaço ou
extinção de repartições públicas, com a mera salvaguarda dos documentos se
confundindo com a monumentalização do acervo de valor dito “histórico”.
A perspectiva da função pública sobre esses documentos supostamente mais
importantes é tomada como neutra a partir da atuação, também tomada como
objetiva e isenta, do profissional da informação, que se pauta em técnicas
como a dos valores primário e secundário de Schellenberg para cristalizar
determinados efeitos de sentido em detrimento de outros possíveis. Com a
análise do discurso,
sabemos que o discurso jamais é qualquer um e sempre é determinado pela
exterioridade que lhe é constitutiva, pelos esquecimentos que constituem o
dizer do sujeito do qual ele se supõe dono. Acreditamos que o processo de
seleção dos documentos monumentalizados, naturalizando alguns conforme
indicado por Jardim, se relaciona discursivamente com as noções já referidas
dos esquecimentos nº 1 e 2 de Pêcheux (1997).
Para desconstruir o ideal centralizador do arquivo público como neutro,
Jardim (2008) fornece as bases para entender que a organização da
administração pública é permeável à interferência de atores sociais. A
informação publicizada do Estado que se pretende democrático deve garantir
acesso aos cidadãos, com visibilidade sobre processos políticos e culturais,
de modo diverso do que vimos, por exemplo, no período de ditadura militar no
Brasil e em outros países da América do Sul nos anos sessenta e setenta. A
noção de transparência administrativa estatal, contudo, abre para muitas
leituras e esbarra em zonas de tensão entre sociedade e Estado.
Para alguns autores, dentre os quais o celebrado Schellenberg, cabe ao arquivo negar acesso à certos documentos (de ordem estratégica e militar, por exemplo), o que supostamente é favorável ao interesse público: “o interesse público é obviamente mais bem servido se for negado o acesso a documentos que contenham informação militar que afete a segurança presente e futura da nação. Tais documentos devem ser mantidos fora do seu alcance” (Schellenberg, 2006, p.348). Tanto na retomada histórica de nossos arquivos atrelados ao regime militar, como o SNI de Golbery do Couto e Silva e o Deops, quanto nos sentidos inscritos sobre o controle arquivístico estatal em Brazil e as fontes literárias na qual seu roteiro buscou inspiração (sobretudo 1984 e O Processo), percebemos que o interesse público nem sempre é tão “obviamente bem servido” quando Schellenberg supõe, sem considerar aí jogos de poder que tornam a necessidade ou não de manter certos fundos publicizáveis ou não.
Um dos itens dignos de nota nessa tensão entre sociedade e Estado, tão
presente e satirizado em Brazil, é a burocracia. O termo “burocracia” é
bastante polissêmico e é utilizado para indicar desde o governo de altos
funcionários e o controle racional e eficiente administrativo até o controle
e alienação do poder. O incontrolável paperwork de Brazil, que em dado
momento literalmente engole um dos personagens, ilustra também o exagero de
informações que hoje nos bombardeia pela mídia, com o arquivo (no sentido
discursivo) transbordando pelo excesso e, paradoxalmente, conduzindo ao
esquecimento, amortecimento da memória que não permite o rastreamento do já-lá. Ao explicar o conceito de memória discursiva,
Ferreira (2008) menciona o conto Funes, o
memorioso, de Jorge Luis Borges, para comentar como o lembrar, pelo excesso,
acaba conduzindo ao esquecimento, à fragilidade da memória. Segundo a
autora, o efeito de tudo saber do discurso midiático conduz o sujeito-leitor
à experiência vivida por Funes, o protagonista do conto. Trata-se de “um
excesso que, em seu transbordamento, conduz à falta” Ferreira
(2008, p.14).
Tal como no
conto de Borges, várias metáforas que remetem ao dilema do esquecimento pelo
excesso podem ser vistas também na sétima arte, como no transtorno sofrido
pelo personagem de Guy Pearce em Amnésia (Memento, 2000), mergulhado num sem
fim de registros fotográficos que, na montagem inovadora do filme contado de
trás para frente, indicam uma possível interpretação remetendo à confusão do sujeito-leitor frente à hiper oferta de textos midiáticos, inclusive
não-verbais, característica de nossos tempos, como já analisamos em outro
trabalho (Silva; Romão; Pacífico, 2009).
O arquivista entre a apatia e o engajamento em Brazil
“A única forma de me livrar de meus medos é fazer filmes sobre eles.”
Federico Fellini
Para evidenciar os conceitos elucidados até aqui, mobilizamos um recorte de
Brazil, em cena mostrada no meio da projeção da versão integral do filme
(com 142 minutos), quando o protagonista é finalmente promovido ao cargo que
recusava desde o início de Brazil.
Figura 1 – Warrenn: personificação do “administrador” de Hillary Jenkinson?

Entre os instantes de 01h 06min e 53s a 01h 08min e 56s, Sam Lowry (Jonathan
Pryce) conhece o Departamento de Recuperação de Informações, logo após ser
promovido pelo vice-ministro Helpmann (Peter Vaughan). Quando encontra o
novo patrão, o seguinte diálogo se sucede:
Warrenn: Põe metade como terroristas e metade como vítimas.
Sam: Meu nome é Lowry, Sam Lowry.
Warrenn: Sim. Não. Cancele. Está bem. Bem vindo a bordo!
Sam: Não seja ridículo, Jenkins. Sim, Sim. Você vai gostar daqui. Temos uma
super equipe de... está brincando... executivos. Faça 3 cópias. Espero
grandes coisas... 2 cópias... de sua parte. Cá entre nós... esse
departamento... Cadastramento deveria ser fechado... está sendo
super estimado.
Numa guinada repentina, Warrenn vira-se para uma das portas do edifício.
Warrenn: Aqui estamos. Um número só seu em uma porta só sua. E detrás dessa
porta
um escritório só seu. Parabéns, DZ/015. Bem-vindo à equipe.
Diferente do que observamos no Departamento de Cadastramento, onde o personagem
trabalhava anteriormente, no lobby de Recuperação de Informações não vemos o
caos informacional entre os funcionários da instituição arquivística. Ao
contrário: Lowry é recebido com extrema gentileza pelo recepcionista (Anthony
Brown), sem necessidade de apresentar documentos de identificação pessoal.
Desde esse momento, por sinal, Sam mostra-se arredio e deslocado no Departamento,
sempre olhando os arredores (como a Figura 1 ilustra).
Esse efeito de desarticulação com o novo contexto está presente em vários momentos de Sam nas cenas em que ele surge nesse recinto, instalando efeitos de sentido que nos remetem à humanização gradual do protagonista: dos trajes que ele troca por dica do amigo Jack Lint (Michael Palin) até se descobrir chefe involuntário de uma tropa inteira de soldados (quando finalmente consegue entrar em contato com Jill). Sam jamais parece acostumado com a ideia do poder que tem, após a promoção. Seu relacionamento com os novos colegas (incluindo Lint) é problemático e não há o mesmo companheirismo estabelecido no Departamento de Cadastramento.
Dessa forma, Brazil discursiviza uma posição-sujeito estranha ao corpo
burocrático do sistema, que escapa ao controle da formação discursiva
dominante, através de sua interpelação pelo inconsciente. Migrar para o
Departamento de Recuperação de Informações significa, para o arquivista, mudar de
posição-sujeito, entretanto como esse processo não ocorre de forma
cristalina, certos sentidos escapam ao controle da classe dominante. Lowry
representa justamente essa “pane” no sistema, o arquivista que ascendeu e
não reconhece seu novo lugar, não se instalando como voz imperiosa e
mostrando-se antagônico à ideia de ser detentor do poder, de se inscrever
como paráfrase de um Kurtzmann, Lint ou do vizinho de escritório Harvey Lime
(Charles McKeown, também co-roteirista). Tal recusa implica num
acontecimento discursivo que desregula o pré-estabelecido sobre o que é ser
um arquivista de “alto nível”, na distopia representada em Brazil,
desencadeando um conflito entre o velho (representado por Lint e Lime,
sobretudo) e o novo (Lowry).
Tal como aponta o trabalho de Freitas (2004, p.8), a literatura internacional sobre as Ciências da Informação migrou para da perspectiva histórico-sociológica predominante até os anos oitenta para a crescente ascensão de novos discursos ligados ao empreendedorismo privado: “se vemos a discursividade ‘tradicional’ dominando amplamente até início dos anos 80, a partir de meados dos anos 80 começam a ganhar força as novas discursividades, que passam a dominar nos textos internacionais da área de informação em meados dos anos 90”. No Brasil, essa migração entre regiões de sentido promovidas pela ciência da Informação ficou mais marcada nos anos noventa, com o neoliberalismo do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas, nos Estados Unidos, tais sentidos já se instalavam na década anterior. Como a análise do discurso considera a exterioridade indissociável do discurso, o impacto das condições de produção deve ser posto em análise, a cena introdutória do Departamento de Recuperação de Informações é particularmente reveladora nesse desígnio.
Ao levar o interdiscurso sobre os acionistas da bolsa de valores e dos
administradores da alta cúpula do setor privado para uma instituição
estatal, Brazil faz circular sentidos sobre o crescente domínio do setor
privado, que avança na direção do Estado e confunde as noções do que é
público e privado. Resgatam-se os sentidos sobre hierarquia militarizada no
filme, que constituem regularidade discursiva na obra: os subordinados de
Warrenn (Ian Richardson) andam em fila, sincronizados, sempre acompanhando
os movimentos do chefe (Figura 1). Riera Guignet (2007) traça um paralelo,
no qual Josef K. (personagem elaborado por Kafka para O Processo) e Sam
superam, por etapas, um labirinto em que a única saída possível é a morte ou
o sonho, como é falado no ambíguo desfecho de Brazil. O discurso sobre o
labirinto é também uma regularidade em Brazil, sobretudo nos cenários
relativos aos profissionais da informação, bem como os sonhos de Lowry,
gradualmente dominados por monólitos negros que compõem percursos sombrios
do qual o personagem tenta escapar.
Tais percursos labirínticos, principalmente no caso dos monólitos negros
gigantes, remetem a tentativa de fechar os sentidos, muito característica da
Ciência da Informação, ou da Arquivística, impedindo que o sujeito circule
livremente por outras interpretações que não a legitimada pelo sentido
dominante. Os manuais da ciência da informação corroboram com essa tentativa extremada de
controlar o dizer, sob pretexto de guiar o sujeito-leitor no mar de
interpretações polissêmicas de um dado documento, como percebemos em texto
de Smit e Kobashi (2003, p.15): “o controle de vocabulário é um meio para
produzir confiança no sistema de organização e busca de informações
arquivísticas”.
Entretanto, em Brazil, tal como lembra Gomes (2005), o aparato técnico é ao
mesmo tempo futurístico e retrógrado, o que foi elaborado cuidadosamente
pela cenografia do filme, indicada a um prêmio Oscar, em computadores cujo
teclado é idêntico a uma máquina de datilografia, por exemplo. Há outro
movimento intertextual nesses labirintos do filme, que resgatam a discursividade da animação surrealista polonesa
Labirynt (1963), curta
metragem mudo de Jan Lenica que, tal como Brazil, mostra um protagonista sem
nome que voa com asas mecânicas e é mentalmente aprisionado numa câmara de
tortura semelhante a do Depto de Recuperação de Informações no clímax. Em
ambos os filmes está marcada a denúncia sobre a tecnologia, em universos nos
quais aparatos high tech convivem lado a lado com signos visuais muito
datados (os figurinos e cenários de Labirynt parecem ter saído diretamente
de anúncios do século XIX).
Em ambos os filmes, o pré-construído é inscrito nos sentidos sobre a
tecnologia, que se pretende futurística mais está à serviço dos sentidos
dominantes de sempre, surgindo como simultaneamente rústicas e inovadoras.
Boa parte do processo de humanização do sujeito-arquivista, por sinal,
parece ser voltada a livrar-se da influência nefasta da mecanização de si
mesmo, tal como vemos na batalha contra o samurai (Figura 2), numa das cenas
de sonho. Dirks ([s.d.]) nos lembra que o Samurai de ferro é a representação
da tecnologia de ponta japonesa, aqui opressora e gigante perto da
posição-sujeito sonhadora e livre.
Quanto à visibilidade do filme para o Departamento de Recuperação de Informações, nota-se aí uma divisão da leitura do “arquivo” tal como enunciada por Pêcheux (1982): os “literatos” de um lado, cuja interpretação é socialmente legitimada pela ideologia; e os “operários” do outro, aos quais cabem apenas a decodificação inócua e trabalho acrítico com os suportes físicos, ou regras burocráticas. Freitas (2001, p.77) compreendeu essa separação não só na leitura, mas também no próprio conceito de informação: “a condição histórico-social básica para a constituição das práticas que possibilitam a construção da noção de informação é a separação entre produtores e consumidores da cultura, separação que também se inscreve na própria história social dos registros”.
Do ponto de vista da arquivística, Brazil é visionário na medida em que antecipa uma tendência cada vez mais comum nos arquivos e na disciplina derivada, a ciência da informação: a recuperação “precisa” dos dados, feitas por profissionais altamente especializados por meio de recursos da microeletrônica, culminando na valorização crescente da chamada representação temática da informação.
A organização física e técnica de dados, que parece ser o mote do Departamento de
Cadastramento, perde espaço para a recuperação do “conteúdo” dos textos, que
é o escopo do Departamentode Recuperação de Informações. Bata notar como a
migração de um departamento para outro é tomada como ascensão profissional e
pessoal para Lowry. O diálogo entre Cadastramento e Recuperação de
Informações – que nos remetem respectivamente, à representação descritiva e
temática da informação – está longe de ser pacífico. Enquanto os
funcionários do segundo são vistos como superiores hierárquicos despóticos
em Cadastramento, a “tropa informacional” liderada pelo hiperativo Warrenn
entende o outro Departamento como ultrapassado (“Cá entre nós... esse
departamento... Cadastramento deveria ser fechado... está sendo super-estimado”).
Figura 2 – Samurai representa a tecnologia contra a humanização do
arquivista

Tendo em mente a alusão com o setor privado inscrita nos significantes
verbais e principalmente não verbais neste recorte, observamos que Brazil
instala sentidos de sucateamento do Estado, nos quais as posições ocupadas
variam entre o conformado (Kurtzmann) e o administrador hiperativo (Warrenn)
que parece ocupar um lugar junto ao lucro, à produtividade pro encomenda que
não condiz com o imaginário que o Estado constrói de si mesmo. Trata-se da
redução do papel do Estado discursivizada no filme, tendo como base suas
condições de produção e a época no qual foi rodado. Essa separação entre os
departamentos, com vantagem para Recuperação de Informações, mostra uma
passagem administrativa/burocrática que parece ir de Taylor a Fayol. Se em
Cadastramento as “tropas” de Kurtzmann eram vigiadas à distância pelo
relógio, no departamento de Warrenn o papel do administrador parece ainda
mais intenso e os funcionários subalternos literalmente correm atrás do
patrão, tomando os mesmos rumos que ele, alienados nos sistema burocrático.
Apesar de ser considerada uma “evolução natural” do método taylorista, o fayolismo nos parece caminhar mais na direção da iniciativa privada em
comparação com seu antecessor, porque fomenta mais o individualismo e a
autoridade do administrador: “Fayol privilegia a concorrência como
fundamento de maior eficiência e o interesse individual como mola propulsora
da ação humana, atribuindo direito divino à autoridade do administrador da
empresa, que se situa no vértice, donde as comunicações que obedecem a esse
único fluxo emanam” (Tragtenberg, 2006, p.244).
Em algumas falas de Warrenn, essa ode ao individualismo profissional é bastante marcada (“Um número só seu em uma porta só sua. E detrás dessa porta um escritório só seu”). A competitividade aparece inscrita com a mesa dividida violentamente entre Lowry e seu vizinho de escritório, poucos segundos após este recorte. Não há uma sala isolada entre o chefe e seus subordinados como no saguão de Cadastramento; ao contrário, o patrão aqui parece asfixiado de tão imerso nos empregados e nas decisões a serem tomadas, saindo do mero papel de fiscalização dos subalternos (como havia em Kurtzmann). O administrador do fayolismo, tal como descrito no livro de Tragtenberg, nos remete em grande parte ao “administrador” de Hillary Jenkinson – teórico britânico clássico da Arquivística duramente criticado por Terry Cook – num efeito de aliança na formação discursiva da obra desses dois autores. Decisões formais, excesso de rapidez e controle do patrão, etc. – fazem falar os sentidos da elevação do “administrador” em Fayol e a total submissão a este recomendada, com todas as letras, por Jenkinson.
Os sentidos da competitividade estão muito presentes nos diálogos desse
recorte, com as decisões-relâmpagos de Warrenn (“Sim. Não. Cancele. Está
bem.”) entrecortadas com a apresentação que ele faz do departamento a Lowry.
A desumanização da figura do patrão é crescente no transcorrer de Brazil e
Warrenn é ainda mais mecanizado que Kurtzmann, trazendo ao debate a memória
da desumanização do trabalho com a informação suscitada pela ascensão do
setor privado nos anos oitenta. No cruzar da apresentação a Sam com as
decisões burocráticas tomadas simultaneamente, o discurso verbal da cena
produz efeitos de sentido bastante reveladores.
Por exemplo, o trecho “Espero grandes coisas... 2 cópias... de sua parte” possibilita uma leitura indicando que as “grandes coisas” que Warrenn espera do novo funcionário se limitam a operações burocráticas acríticas e desumanas (“2 cópias”). Além disso, certas marcas discursivas na fala do personagem nos remetem à próxima etapa, após o fayolismo, na “evolução” administrativa e burocrática (que permeia, também, os arquivos correntes): a Escola de Relações Humanas de Elton Mayo, entendida como uma resposta patronal ao surgimento de grandes sindicais em meados do século XX, no qual se visa a psicologização dos problemas do operariado através da solução de supostos impasses pessoais na adaptação ao trabalho burocrático, dissimulando a luta de classes (Tragtenberg, 2006).
Em Warrenn, percebemos pretensos incentivos cordiais à união de
Sam ao grupo (“Você vai gostar daqui.”, “Bem-vindo à equipe”, etc) nesse
suposto intuito de fazê-lo sentir-se à vontade no novo ambiente de trabalho.
Entretanto, o discurso do filme não deixa por menos e cruza esses pretensos
elogios ao efeito de denúncia sobre a matematização do trabalho (o número do
escritório, “Põe metade como terroristas e metade como vítimas”, “Faça 3
cópias”, etc), materializando a crítica à opacidade do trabalho que o
sujeito supõe esconder com o discurso (pseudo)humanista da escola de Mayo.
Considerações finais
Pautar nossa pesquisa sobre o imaginário do profissional da informação no
filme de Gilliam, assim, requer levar esse dilema entre o público e o
privado que o arquivista enfrenta desde a década de oitenta, colocando o
filme (que data de 1985) como ponto de partida privilegiado para compreender
o processo que leva a essa (con)fusão entre os setores público e privado,
com avanço do segundo sobre o primeiro desde os anos noventa no Brasil, sob
a égide do neoliberalismo. Para tanto, é necessário colocar em debate que
papel tem o arquivista nos sentidos sobre “progresso” e “desenvolvimento”
que estão em jogo, levando à tona o discurso inscrito na teoria e prática do
ofício.
Durante nosso trajeto, percebemos divergências da teoria iconoclasta da análise do discurso com os manuais ingênuos que norteiam os princípios básicos da disciplina arquivística, desde o Manual dos arquivistas holandeses e a obsessão pelo princípio da proveniência em Hilary Jenkinson. Entretanto, foi possível encontrar convergências no seio da própria Arquivística com as preocupações dos teóricos da área ditos pós-modernistas, dentre as quais destacamos, várias vezes ao longo da pesquisa, o canadense Terry Cook, que, aos poucos, vem sendo descoberto pelos profissionais da informação brasileiros, visto que sem dúvidas tem muito a acrescentar sobre a necessidade de romper com o estereótipo do arquivista “neutro” e apático, tal como postulado desde Jenkinson. Acreditamos ser possível um diálogo entre a Arquivística e a análise do discurso tendo as indagações de teóricos como Cook realizando o papel de intermediárias entre as duas disciplinas.
[1] “Há lugar para muito mais irracionalidade que a maioria das pessoas
está disposta a admitir na vida delas. Está ao redor delas. Elas não
reconhecem isso.” (tradução nossa)
[2] “registros que contêm evidência cristalina de atos do passado e
fatos históricos.” (Tradução nossa)
[3] “Teóricos da cultura, notavelmente Michel Foucault e Jacques Derrida,
vêem ‘o arquivo’ como uma metáfora central concebida para formar suas
perspectivas em conhecimento humano, memória e poder, bem como uma
problemática da justiça.” (Tradução nossa).
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AMNÉSIA. Direção: Christopher Nolan. Intérpretes: Guy Pearce; Carrie-Anne Moss; Joe Pantoliano e outros. Produção: Newmarket Capital Group. Título original: Memento. 113 min. Lançado em 2000.
BRAZIL – O FILME. Direção: Terry Gilliam. Intérpretes: Jonathan Pryce; Kim Greist; Robert DeNiro; Ian Holm; Bob Hoskins; Peter Vaughan; Michael Palin e outros. Música: Michael Kamen. Produção: Embassy International Pictures. Distribuído pela 20th Century Fox. Título original: Brazil. 1 DVD (142 min). Lançado em 1985.
LABIRYNT. Direção: Jan Lenica. Produção: Studio Miniatur Filmowych. 15 min. Lançado em 1963.
Sobre o autores / About the Authors:
Jonathan Raphael Bertassi da Silva
Mestrando em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
Lucília Maria Sousa Romão
Professora do curso Ciências da Informação e da Documentação e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.