Resumo: Discute os conceitos conhecimento ocupacional e conhecimento científico, levando em consideração a existência de um campo da Ciência da Informação formado pelos sub campos profissional e científico. Apresenta as incursões na sociologia e na teoria sistêmica das profissões, com o intuito de ampliar a visão da base de conhecimento existente entre os profissionais da informação.
Palavras-chave:
Profissional da informação; Conhecimento ocupacional; Conhecimento
científico; Ciência da informação.
Abstract: Discusses the concepts occupational
knowledge and scientific knowledge, taking into account the existence of the
field of Information Science formed by sub-professional and scientific
fields. Displays incursions in profession sociology and systems theory of
profession, in order to expand the vision of the knowledge base among
information professionals.
Keywords:
Information professional; Occupational knowledge; Scientific knowledge;
Information science.
Introdução
Nas últimas décadas são constantes os vários discursos e relatos referentes
à desestruturação das áreas profissionais, tendo em vista as exigências de
um mercado de trabalho e de uma organização social em transformação. A
flexibilidade nos horários de trabalho, o surgimento de novas profissões e o
desaparecimento de ocupações antigas, a reestruturação das empresas quanto
ao número de empregados envolvidos na produção de bens e serviços, além das
novas tecnologias utilizadas em todos os setores da sociedade, levam-nos a
considerar que as últimas décadas têm-se diferenciado das demais. Presume-se
que deixamos uma forma moderna para trás, na maneira de relacionar-se com a
natureza, e passamos a uma fase de reflexão, tanto no conceber o mundo que
nos rodeia quanto no modo de interagir com a natureza e com os outros seres
humanos.
Pode-se dar muitos substantivos para se referir a este momento, mas
preferimos nomeá-lo adotando a expressão utilizada por De Masi
(2003), quem a chama de pós-industrial. A sociedade pós-industrial difere-se
da precedente que explorava a natureza e os seus recursos, exteriorizados na
caça, na criação e na agricultura, em comparação ao comércio e à indústria.
São exemplos da forma predatória com que a sociedade se relacionava com a
natureza, além da produção de bens em larga escala sempre mais padronizados.
A sociedade pós-industrial “ não se apoiará mais sobre um setor único,
centralizado, mas sobre uma pequena rede de setores e fatores no mesmo nível
de importância (a informação, a ciência, os serviços, a própria indústria
etc.)”. (De Masi, 2003, p. 170). O autor tomou cuidado
para não ser determinista, mesmo porque, ainda estamos imersos no
pós-industrial sem compreendê-la totalmente. Por isso, “ não estamos nem
em condição de dar um nome preciso a essa mudança de época, de que,
entretanto, percebemos o imenso alcance”. (De Masi, 2003, p. 170).
Concepções e crenças da sociedade industrial são expressas na racionalidade,
machismo, capacidade de execução, padronização, especialização, eficiência,
produtividade e estrutura piramidal das organizações. Sabemos que na
sociedade pós-industrial é dada atenção especial à inteligência, à
criatividade e à estética. Nesta sociedade, devem-se exaltar as diferenças e
não as afinidades entre as culturas, valorizar também a qualidade de vida
das pessoas. Contudo, uma das consequências das transformações desta
sociedade é a desestruturação do trabalho (De Masi, 2003). Essas concepções
e características são formas de entrever as transformações ocorridas em uma
sociedade que numa determinada época era envolvida por uma ideologia moderna
(industrial) e na histórica recente expõe uma perspectiva de reflexão
pós-moderna (pós-industrial).
A mudança impelida dentro da sociedade pós-industrial atinge a manufatura,
descentraliza a produção de bens e influencia a gestão de serviços, mas
também faz crescer a miniaturização dos componentes de tecnologias etc. É
nítido o incentivo à pesquisa e à inovação como subsídios para a manutenção
das empresas no mercado competitivo. Decorre disso, a expansão de um setor
econômico – o terciário – no oferecimento de serviços, os mais variados
possíveis, alavancando a incompreensão do que é produzido pelas empresas
deste setor, tendo em vista à intangibilidade e à diversidade de serviços.
Outro fator de agravamento das condições materiais existentes manifesta-se
em muitos setores no progresso tecnológico - modificador da fabricação de
produtos e assessor da distribuição dos bens - , suscitando o oferecimento
de novos serviços à sociedade.
A dificuldade para compreender as mudanças expressa-se também na pergunta: o
que acontece com a sociedade e, em especial, com o trabalho e as profissões
de diversas áreas? A tecnologia está sendo considerada vilã desses novos
tempos (Dowbor, 2002, p. 15, 31 e 70). Para outros, a tecnologia está ligada
às muitas mudanças, na velocidade, na variedade, nas modalidades de
comunicação e na completa transformação das técnicas de administração de
dados (Mcguire, 1993, p. 9), em especial, nas tecnologias da informação (Marshal,
1993, p. 54-55). Outros ainda destacam a importância das tecnologias para a
organização das fábricas e a mudança que o progresso técnico impõe à
sociedade (De Masi, 2003, p. 175-182).
É nesse contexto, enquadrado nos últimos 40 anos, que ocorreu a
transformação nas organizações e nas relações de trabalho. É muito comum
observar o desenvolvimento de modalidades de teletrabalho e trabalho
domiciliar com horários flexíveis de entrada e saída; de trabalho temporário
ou muitos dos quais terceirizado. Trabalhadores em busca de autonomia para
controlar as condições de seu trabalho são levados a escolher a
informalidade, muitas vezes associada à perda da dignidade humana (Dowbor,
2002, p. 56).
A esse conjunto de enunciados, soma-se a evidente precarização do trabalho,
isto é, remuneração desigual, trabalhos temporários (mesmo para docentes do
ensino superior); corte de benefícios (como, por exemplo, assistência médica
e odontológica) e, como consequência, seguir rumo à informalidade.
Dowbor(2002) retrata o processo de proletarização, em que produtores são
proletários de seus meios de produção. Isso acomete categorias de
profissionais reconhecidas socialmente, como é o caso do médico, em que tais
profissionais liberais estão sujeitos às imposições das agências de planos
de saúde (Dowbor, 2002). São aspectos do trabalho que talvez surpreenderiam
até mesmo Marx.
Outra discussão em voga é a desregulamentação das profissões. Em um sistema
de regulação estatal com orientações liberais, as quais afetam os quadros
econômico, social e educacional, as possibilidades de flexibilização na
formação profissional (a multiplicidade de formações e especialidades e a
educação profissional à distância) e o desaparecimento de ocupações não mais
necessárias, surgem como consequências inevitáveis. Uma profissão, para
atuar nesse novo cenário precisa contar com a efetiva colaboração da
corporação na divulgação do seu trabalho às autoridades e, principalmente,
demonstrar à sociedade sua pertinência. No Brasil, o incidente ocorrido com
a profissão regulamentada de jornalista reabri a discussão a um público mais
amplo que não apenas os acadêmicos. Com isso, assegurar a manutenção do
grupo e planejar o desenvolvimento da profissão parecem ser os objetivos
comuns dos organismos corporativos em geral.
Por atuarem na distribuição de mensagens e dados agilmente, reforçarem a
manutenção da flexibilidade nos vários serviços e possibilitarem a
transmissão e a interligação de pessoas dispostas a produzir conhecimento e
inovar, as novas tecnologias da informação e comunicação são tomadas como
sujeitos relevantes para a sociedade. Os profissionais da informação
(arquivistas, bibliotecários, gestores da informação e museólogos),
envolvidos diretamente com o emprego de tecnologias para o tratamento de
informação e geração de conhecimento na sociedade, necessitam adequar-se às
novas exigências. Mas, para que isso aconteça, é impreterível entender as
profissões, seu papel social e a interação com outros campos.
As profissões são detentoras de um conhecimento esotérico, conforme
Freidson
(1998) e que as habilitam a intervir na realidade social. A área a qual
estão reunidos os profissionais da informação, a Ciência da Informação,
recebe influências das transformações e demandas atuais e de novas
exigências que nos faz repensar seu papel junto à sociedade.
Reconhecendo a influência direta do pano de fundo apresentado, tornam-se
necessárias propostas de explicação que revelem a condição dos profissionais
da informação nesse contexto, principalmente, se a reflexão envolver uma
hipótese da área, a qual sustenta que para se consolidar como ciência e seus
profissionais obterem respeito e prestígio social, é preciso conhecer
profundamente qual é o objeto, núcleo ou tema de pesquisa da Ciência da
Informação. Com isso, constituir sua base de conhecimento científico. Para
tanto, recai-se novamente nas ponderações sobre os conhecimentos
profissional e científico relacionados à Ciência da Informação.
O objetivo desta análise é mostrar a relevância da noção de base de
conhecimento ocupacional correlacionado ao campo da Ciência da Informação, e
indispensável para a permanência no tempo e no espaço dos profissionais da
informação a partir da manutenção de suas identidades. Entende-se por base
uma leitura fundacionalista que privilegia elementos estruturais sobre os
quais se erige conceitos e teorias com alto grau de complexidade, mas que se
referem, ao fim e ao cabo, à simplicidade de conceitos angulares. Procurando
resgatar o quadro-contexto relatado anteriormente, verifica-se a urgência da
proposta como uma direção para entender um dos aspectos do sujeito social -
o profissional da informação - seu campo e seus vínculos com a realidade.
Assumimos uma atitude exploratória para entrever uma noção com pouca
iluminação. Nesse sentido, serão mostradas algumas concepções gerais de
campo para compreender o que vem a ser o campo científico e de pesquisa, e
em especial, o campo da Ciência da Informação. Uma base de conhecimento
científico é definida resumidamente, com o auxílio de Bourdieu (1983) e
Bunge (1989), como o conjunto de conhecimentos científicos, as teorias
consolidadas, os conceitos aceitos pelos pares, além de pesquisadores
interagentes e os termos próprios de um campo (um limite discursivo e um
terreno de embates), mesmo que estes sejam partilhados por outras áreas. Com
efeito, há uma articulação da base de conhecimento científico e de outra
modalidade de conhecimento, ligada às ocupações que as caracterizam. Essa
última, estamos designando por base de conhecimento ocupacional,
especializado ou profissional. É o conjunto de práticas e experiências
acumuladas pelas ocupações. Estes dois tipos de conhecimento estão em
constante interação.
Sabe-se que as profissões são originárias das ocupações, as quais para
identificarem-se como tal requerem uma base de conhecimento ocupacional,
obtidos em escolas e através de outros dispositivos de formação. Este
conhecimento é o que sustenta uma profissão na demonstração de sua utilidade
social (a prática). Para ser utilizado como conjunto de conhecimentos,
carecem de pesquisadores de um campo científico que o discuta e o renove
continuamente.
Sabe-se que as bases de conhecimento científico e ocupacional são relevantes
para a identidade do profissional da informação e imprescindíveis para sua
justificação retórica. Com esse intuito, recupera-se preliminarmente as
ideias de Bourdieu (1983) e Bunge (1989) para se refletir sobre a base de
conhecimento científico. Com o objetivo de esclarecer a noção de base de
conhecimento ocupacional, utilizam-se os autores: Starr (apud Mcguire,
1993), Freidson (1998) e Abbott (1988). Daí então, será possível propor uma
resposta ao questionamento: que articulações podemos supor entre a base de
conhecimento ocupacional do profissional da informação com a base de
conhecimento científico do campo da Ciência da Informação?
O Profissional da Informação e as Bases de Conhecimento Ocupacional e
Científico
O conceito de profissional da informação não é nem está fechado. Há muitas
discussões a respeito do uso da expressão “profissional da informação” para
aqueles que não fazem parte da tríade mais comum (institucionalmente, no
Brasil pelos órgãos de fomento à pesquisa e ensino), ou seja, o arquivista,
o bibliotecário e o museólogo. Em muitos casos, esse profissional é definido
por trabalhar com a informação, o que dificulta ainda mais a sua compreensão
se esta não se fizer acompanhada de uma noção de informação bem definida e,
quem sabe, junto com alguns atributos, dependendo da área, como tecnológica
ou social.
Para definir profissional não se pode ser taxativo visto que são as práticas
que direcionam a definição o conteúdo de sua ocupação. Entretanto, segue-se
uma leitura pelo menos discutível de profissional de informação - analisada
do ponto de vista das práticas dos profissionais - que envolve os
arquivistas, os bibliotecários, os gestores da informação e os museólogos.
Nesse sentido, pode-se supor que profissionais da informação são os que
detectam, organizam, sistematizam, empacotam, avaliam e disponibilizam a
informação (Smit, 2000, p.130). Acrescentam-se a este grupo os gestores da
informação, administradores de sistemas de informação de várias formações,
engenharia, computação, sistemas de informação e outras, que mais
recentemente realizam tarefas muito semelhantes das dos arquivistas,
bibliotecários e museólogos, porém são oriundos de outras áreas do
conhecimento e, segundo as atividades que podem desempenhar, enquadram-se
perfeitamente no rotulo “profissional da informação”.
Essa definição evidencia as práticas e as ações para a realização de uma
atividade, mas não inclui referências históricas nem trata das instituições
onde atuam estes profissionais. Decerto, o questionamento histórico da
origem das profissões, das instituições formadoras, dos ambientes de
trabalho, dos processos decorrentes de sua profissionalização em diferentes
países e do contexto implicado nestas várias situações, poria de lado muitos
destes profissionais. Confrontaria, por exemplo, bibliotecários e cientistas
da computação, atualmente aglutinados - pelo menos do lado de cá do rio - em
uma só denominação, mas com práticas, objetivos, técnicas e literatura
especializada provindas de fontes diversas.
Contudo, o que se pode entender por profissão, para daí deduzir os mais
generalizantes entendimentos de profissional da informação? Além disso,
deve-se refletir sobre a relação entre a base de conhecimento ocupacional e
a base de conhecimento científico, para pensar a indubitável confluência
“profissional da informação - Ciência da Informação”. Inicia-se pela menção ao
conceito de profissão.
Para superar a ideia de profissão como portadora de uma formação em nível
superior – precisamente, ensino universitário -, é necessário sustentar uma
leitura mais ampla que leve em conta as relações de poder e as coerções
envolvidas no processo de legitimação de um espaço profissional. Starr (apud
Mcguire 1993, p. 5-6) define uma profissão como uma ocupação que regula sua
própria sistemática de formação, requer treinamento, tem uma base
tecnológica, conhecimento especializado; e possui uma missão de serviço e um
código de ética próprio. O conhecimento especializado ou base de
conhecimento ocupacional, refere-se à estrutura prático - teórica disponível
pela profissão em questão.
Uma definição estreita, porém muito utilizada, refere-se à educação formal e
às habilidades ocupacionais concedidas por instituições de ensino superior (Freidson,
1998, p. 51, 151). Um dos critérios para uma prática profissional ser
reconhecida socialmente é possuir um conhecimento reconhecido como tal para
exercer e realizar aquele conjunto de tarefas conferidas à determinado
conjunto profissional. Esse reconhecimento pode se dar de várias formas.
Entretanto, alerta o autor que o “ conhecimento em si não dá um poder
especial: somente o conhecimento exclusivo dá poder a seus detentores”. (Freidson,
1998, p. 104).
Profissões, nas palavras de Freidson (1998, p. 154), são aquelas que “
conquistaram o poder organizado de controlar elas próprias os termos, as
condições e o conteúdo de seu trabalho nos locais onde realizam”. Tendo em
vista que as profissões alcançaram lugar de destaque no século XX, muitas
ocupações começaram a exigir, e a lutar, pela condição de profissão,
processo chamado de profissionalização (Freidson, 1998, p. 109).
Portanto, as profissões representam grupos específicos de ocupações que
“ conquistaram um monopólio sobre o direito de controlar seu próprio
trabalho” (Freidson, 1998, p. 147), e não é apenas um conjunto de pessoas
perspicazes e dotadas de conhecimento extraordinário ou notório saber. Para
efetivar o reconhecimento, devem controlar a formação de seus profissionais
e elaborar estratégias políticas e legais para sua manutenção e
desenvolvimento (Freidson, 1998, p. 147). O conhecimento especializado é um
dos requisitos para que uma ocupação seja considerada ou elevada ao posto de
profissão. Este conhecimento repercute na divisão social do trabalho entre
as profissões, não forma a ação prática do profissional, mas a consolida,
fazendo-a reconhecida e identificada socialmente como dotada de um
conhecimento particular. Caso esse fato seja realmente possível diante da
liberdade de acesso ao conhecimento que presenciamos.
As habilidades, as competências e as destrezas sustentadas por tal
conhecimento específico destinam-se à resolução de problemas práticos. Estes
nem sempre são os mais confiável, pois quem regula e legitima socialmente o
exercício destas habilidades também é o próprio grupo que as gerou. Em
situações não tão atípicas, são os próprios profissionais quem avaliam os
possíveis desvios de conduta ou imperícias. A base de conhecimento
ocupacional, portanto, trata-se de um corpo de conhecimento sistematizado e
teorizado sobre as práticas, disponível para uso, manutenção e
desenvolvimento da profissão. Tarefa esta a ser executada pelos mecanismos
sociais de formação e reprodução dos quadros profissionais: as escolas, os
cursos etc. A despeito de nascer de uma prática, recuperada continuamente
pelas memórias profissionais, não se constituí em um todo acabado e
suficiente de conhecimentos. É nessa faixa fazia de saber, entre a prática
ou o exercício profissional propriamente dito e suas memórias reveladas
pelas best practices, que se encontra um lugar para o conhecimento
científico.
Nesse sentido, a base de conhecimento científico, diferente da base de
conhecimento ocupacional, é definida como o conjunto de teorias, métodos,
conceitos, modelos explicativos e conhecimento sistematizado por um campo
científico. Para que um campo científico possa dispor de teorias, conceitos
e modelos permutáveis com outras áreas, é importante provir de uma área
consolidada em questão. Esses não constituem toda a base de conhecimento,
são apenas elementos que as ciências dispõem para a utilização e aplicação
dos profissionais. Quando os profissionais se deparam com problemas em seu
cotidiano necessitam de fundamentos que orientam sua ação, mais do que
técnicas e procedimentos para agir na sociedade. Técnicas e procedimentos
podem ser considerados modelos, esquemas de ação e soluções para responder a
determinadas exigências. Ausente desse contexto, a ação nada explica, apenas
justifica as pretensões hipotéticas, revela desvios ou, quando é o caso,
ilustra o discurso teórico.
Os problemas encontrados pelos profissionais no seu dia a dia podem ser
respondidos pela aplicação de conhecimentos encontrados na base de
conhecimento científico que pode ser configurada por teorias e modelos
explicativos de outras áreas do conhecimento, e assim servem a profissionais
de várias áreas. Esta não é a única característica que se deve levar em
conta para definir uma profissão, mas representa a parte fundamental. Além
disso, faz-se necessário vincular-se a uma estrutura firme - sob uma
perspectiva fundacionalista - ou a nós – sob uma leitura reticular e
entrelaçada - que representam eixos de interesse temático. Tanto essa base
firme quanto os nós, devem referir-se a fontes seguras de conhecimento
(consolidadas) para que se consiga atuar na sociedade, tendo em vista que a
identidade das profissões depende das bases de conhecimento ocupacional e
científico da qual dispõem. Além disso, o domínio sobre a reprodução desses
conhecimentos revela o grau de desenvolvimento de uma profissão.
Segundo Morin (1999, p. 58-59), o conhecimento mais abrangente que o
conhecimento científico é um fenômeno que envolve vários aspectos, não só o
social, mas com uma definição que engloba as computações (associação,
inclusão, identificação, implicação) e separação (diferenciação, oposição,
seleção e exclusão) desde as células até o conhecimento humano. “O
conhecimento é, portanto, um fenômeno multidimensional, de maneira
inseparável, simultaneamente físico, biológico, cerebral, mental,
psicológico, cultural, social”. (Morin, 1999, p. 18). O fenômeno complexo do
conhecimento não se reduz a uma única fonte epistemológica, principalmente
se esta excluir aspectos essenciais para se conhecer o próprio conhecimento,
como o biológico ou o cultural.
Contudo, as bases de conhecimento referem-se aos planos cultural, social e
psicológico, tanto para a construção de um discurso profissional quanto de
um discurso científico explicativo do próprio conhecimento. O conhecimento
ocupacional (que forma a base de conhecimento ocupacional), por emergir das
práticas sociais dos profissionais pode ser permutado e regulado pelo grupo,
no exercício de seu domínio em relação às condições de trabalho, de
formação, de especialização e de certificação para o acesso aos espaços de
atuação. Além disso, as relações de poder e as questões sobre a conduta
suscitadas no diálogo entre os profissionais e os seus usuários de serviços,
devem constar da determinação da base de conhecimento ocupacional.
A base de conhecimento científico constitui-se de conhecimentos científicos,
teorias, conceitos e modelos. Uma teoria científica é uma hipótese ou contém
uma ou mais hipóteses como integrantes, tanto influencia a observação dos
fenômenos quanto o uso de instrumentos para a observação do fenômeno tem um
aparato que permite a sua verificação ou confirmação e não necessariamente a
explicação dos fatos, mas por instrumentos de verificação e previsão (Abbagnano,
1998, p. 952-953). A teoria orienta os objetos da ciência, oferece um
sistema de conceitos, resume e sintetiza o conhecimento, prevê fatos, indica
lacunas no conhecimento. Já os conceitos representam fatos e relações entre
fenômenos, devem exprimir, na medida do possível, a realidade (Lakatos;Marconi, 1994, p. 103).
Um conceito tem quatro funções: primeira, descrever objetos da experiência para permitir o seu reconhecimento, segunda, é econômica, ou seja, se relaciona ao caráter classificador do conceito de classificar fatos em conceitos, enquadrá-los; terceira, organizar dados da experiência e quarta, a previsão, considerada relevante para as ciências físicas. Segundo Abbagnano(1998, p. 168) as funções de organizar e prever são fundamentais para os conceitos científicos. Por seu turno, o modelo é um conceito na medida em que é geral, é uma simplificação ou idealização da experiência e é obtido pela análise das características e atributos próprios dos objetos empíricos. Exemplos de modelos são os modelos mecânicos que explicam o funcionamento de um fenômeno complexo (Abbagnano, 1998, p. 168).
Reconhece-se a base de conhecimento científico entre as práticas
profissionais no uso dos conhecimentos e conceitos científicos
sistematizados. Também poderiam ser observadas as práticas conduzidas por
meio de modelos de intervenção na sociedade, o que é mais comum à Ciência da
Informação. Uma técnica, como materializada no atendimento ao usuário em uma
unidade de informação, desdobra-se em conceitos chave como os de usuários,
fontes de informação, relações interpessoais, conceitos psicológicos
aplicados à análise de estados mentais de necessidade de informação entre
outros. Assim, o estranhamento do fenômeno, isto é, o afastamento do
familiar para compreendê-lo em outra instância – com recurso à análise e o
posterior relato explicativo – incidirá na constituição de uma teoria
específica sobre o atendimento do usuário no contexto das unidades de
informação.
Outra dificuldade no que tange à
definição do campo da Ciência da Informação é a pouca clareza sobre o que é
campo, noção encontrada mais subentendida do que explícita. Nesse sentido,
serão traçadas considerações a respeito do campo de pesquisa (de influência
positivista) e do campo científico (com lastro sociológico). A adoção de uma
destas perspectivas altera a compreensão da Ciência da Informação, e a
relação desta com a base de conhecimento ocupacional dos profissionais da
informação. De qualquer modo, é nítida a interação dos dois tipos de
conhecimento nos campos da Ciência da informação e dos profissionais da
informação.
O Campo da Ciência da Informação e a Articulação com os Profissionais da
Informação
A base de conhecimento científico de um campo pode servir a várias ciências,
domínios e jurisdições profissionais. Sabe-se que o campo da Ciência da
Informação não de fácil definição (Gonzales de Gomez, 2002, p. 25) e seu
objeto não se formalizou consensualmente (Paiva, 2002, p. 166-167). Um campo
científico engloba conhecimentos sistematizados e formalmente disponíveis,
metodologias utilizadas por seus pesquisadores, abordagens epistemológicas
próprias e outras adaptadas para a investigação de seus objetos, problemas
ou temas. Deve compreender tanto pesquisadores quanto profissionais que
utilizam o saber constituído, ou deveriam se beneficiar dos conhecimentos
gerados pelos primeiros, mas que são suscitados pelas práticas destes
últimos.
A reconhecida posição institucional da planificação da ciência na sociedade
não pode ser o único critério para forçar uma “área” transformar-se em um
campo científico, como sugerem as ações das agências de fomento à pesquisa
ou ‘Agências Universais’, segundo Gonzales
de Gomez (2003b). Em outras
palavras, uma “área do conhecimento”, dividia conforme a política de fomento
à pesquisa não é um campo, mas uma entidade hipotética criada
administrativamente para um fim específico. Defende-se uma leitura da
ciência a partir de seu movimento social, e não de seus vestígios tomados a
partir do conhecimento reificado. Uma ciência deve se referir tanto ao
conhecimento institucionalizado quanto aos sujeitos envolvidos em sua
construção. Para esclarecer o que vem sendo chamado de campo científico,
buscou-se algumas fontes iniciais. Bunge (1989, p. 35) define o campo de
pesquisa como um sistema de ideias. Um qualquer campo de pesquisa (C) possui
componentes em sua estrutura - se é que se pode chamar assim -, a saber:
(1) uma base filosófica ou visão geral G constituída por suposições gerais acerca do mundo, do conhecimento e da boa conduta;
(2) uma base formal F, ou conjunto de teorias lógicas e matemáticas utilizáveis em C;
(3) a base específica E de C, ou seja, o conjunto de teorias, hipóteses e dados obtidos de outros campos de pesquisa;
(4) o fundo de conhecimento K de C, ou seja, o corpo de conhecimentos, diferentes de E, obtidos no mesmo campo C em épocas passadas;
(5) o domínio D de C, ou universo de decurso de C, ou seja, o conjunto de objetos (por exemplo, álgebra, moléculas, plantas ou sistema social) a que se referem os membros de E e de K;
(6) a problemática P de C, ou seja, o conjunto de problemas relativos aos membros de D e que podem ser abordados com a ajuda de (1), (2), (3), (4) e, eventualmente, com elementos adicionais dos mesmos tipos;
(7) o objetivo O de C, ou seja, o conjunto de metas da pesquisa;
(8) a metódica M de C, ou o conjunto de métodos regulares (ainda que não necessariamente eficientes) para abordar os membros de P à luz de G, F, E, e K, e em vista de O. (BUNGE, 1989, p. 35-36).
Alguns dos componentes do campo de pesquisa são encontrados na Ciência da Informação, como uma base filosófica acerca do mundo, que no caso se pauta em uma visão produtivista e racionalista do gerenciamento de estoques de informação (Smit; Barreto, 2002, p. 14-16), concebida em seu início, pelo problema da ‘explosão de informação’ logo após a Segunda Guerra Mundial (Le Coadic, 1996, p. 6). A base específica (3, acima) do campo de pesquisa pode ser considerada as disciplinas científicas que, em seu conjunto, auxiliam a construção do campo da Ciência da Informação, a saber: a Biblioteconomia, a Filosofia da Ciência, a Arquivologia, a Estatística, a Informática, a Administração, a Museologia, a Sociologia e a Psicologia, entre outras (Pinheiro;Loureiro, 1995, p. 50).
O problema ou a insuficiência da Ciência da Informação é constatada nos
itens 2, 4, 5, 6, 7 e 8 de Bunge (1989) porque se choca com a dificuldade de
encontrar consenso paradigmático entre os pesquisadores sobre a conformidade
dos objetos, objetivos, problemas, metodologias e fundo de conhecimento
construído em épocas passadas. Isso não significa que a ciência não viva de
conflitos, mas como uma instituição racional, supõe-se eleger aspectos
comuns e agrupar a pluralidade na unidade.
Examinando o quadro de Bunge, verifica-se uma abordagem positivista da
ciência, na medida em que os campos de pesquisa que não seguem a “estrutura”
esboçada devem ser denominados pseudociências. Contudo, será que a
necessidade de requisitos supra-sociais, tais como os de Bunge, não dispensa
a compreensão do movimento humano da ciência tal como ele é? Parece ser o
que objetivam os que veem no objeto de uma ciência (informação) uma
categoria a priori, sem a qual não é permitido fazer ciência. Nesse sentido,
as relações de produção de conhecimento somente se configuram como reais a
partir da prévia consideração do objeto. Talvez uma ciência seja mais que um
aglomerado de iniciativas com o objetivo de responder a requisitos nem
sempre tão a-históricos como fazem pensar.
Pierre Bourdieu (1983), por seu turno, define o campo científico, qualquer
que seja ele, relacionando os sujeitos que atuam neste espaço social (os
cientistas). Eles estão em busca de reconhecimento e da competência que
trará investimentos e concentração de capital científico. Os cientistas,
tantos os novatos quanto os estabelecidos, excluem-se mutuamente na
tentativa de sua própria definição do que seja ciência. Assim, encontram uma
forma de exercerem, manterem ou conquistarem supremacia e reconhecimento.
Para Bourdieu (1983, p. 122-123), o campo científico é um: "
sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas
anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que
está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade
científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder
social; ou se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida
enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente (isto é, de maneira
autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente
determinado."
A definição de campo científico parece apropriada para observar as relações
e as interações entre os sujeitos na construção do espaço social, um
ambiente comporto de lutas, confrontos e embates para alcançar um poder
simbólico, materializados na autoridade e no reconhecimento científicos.
Esses podem trazer consequentemente investimentos concretos na forma de
financiamentos de pesquisas e outras estratégias de desenvolvimento.
Sob tal ótica, o conhecimento sistematizado, próprio da base de conhecimento
científico, é afetado pelos conflitos em busca de uma suposta autoridade
científica e da conceituação do que seja ciência para aqueles que estão na
ortodoxia, locus em que se encontram os cientistas renomados e tradicionais.
É prudente trazer a tona uma definição de campo que considera os sujeitos
que estão envolvidos na construção das teorias, modelos e conceitos.
As duas perspectivas do campo são úteis para compreender a configuração da
Ciência da Informação, o qual, existe efetivamente, na realidade, não
obstante, uma realidade socialmente construída. Segundo Dias (2002, p. 94),
essa afirmação vem se tornando consensual no Brasil, principalmente pela
influência das agências Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES)
que adotaram a expressão “Ciência da Informação”, mesmo sabendo que essa
terminologia não é predominante em outras partes do mundo (Informatika
na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS,
Information
Science nos Estados Unidos e Documentación na Espanha). Essa forma de
conceber a Ciência da Informação e outras áreas do conhecimento por
organismos de fomento à pesquisa que delimitam as áreas e as sub áreas do
conhecimento, constitui um tipo de epistemologia institucional gerida no
Brasil por estas agências (Gonzales de Gomez, 2003b). Presume-se que a
epistemologia institucional, mesmo contando com representantes da própria
área em questão, organiza o discurso em torno da Ciência da Informação e do
que deve ser considerado objeto. Nesse caso, a Ciência da Informação também
pode ser vista como um ambiente de lutas e marcação de posições, o mesmo se
estende aos campos correlatos.
O campo da Ciência da Informação pode ser assimilado de uma maneira
esquemática com uma filiação à realidade socialmente aceita. Esse campo
constituí-se de teorias, modelos, técnicas, procedimentos e conceitos.
Compreende as esferas profissional e científica que se interagem para a
manutenção do campo, estabelecendo uma interlocução ativa. As escolas, as
associações profissionais e científicas, as instituições de ensino e
pesquisa e as leis para seu reconhecimento constituem o aspecto tangível de
um campo do conhecimento. No caso da Ciência da Informação, consideram-se os
departamentos de ensino, os programas de formação nos níveis de graduação e
pós-graduação, as associações de pesquisa e de profissionais bibliotecários,
arquivistas e outros, além dos respectivos sindicatos reconhecidos
formalmente.
A esfera profissional é o espaço destinado à atuação dos profissionais da
informação, as quais são reguladas por sistemas de credenciamento (por
exemplo, o regime dos conselhos profissionais). Outras são ditadas pelo
mercado de trabalho. Nesse caso, supõe-se uma dependência do aspecto formal
do campo na elaboração de estratégias de manutenção da profissão e de seus
profissionais. Além dos locais de trabalho, a própria prática e exercício da
profissão estão inseridos neste espaço. Em outras palavras, a esfera
profissional supõe um campo científico da Ciência da Informação, no que
tange a sugestão de novos conhecimentos, a despeito de ter obtido relativa
autonomia e notoriedade particular. Conforme Bourdieu (1983) disputam o
poder de legitimar o que será considerado ciência. A esfera profissional,
também pode ser visualizada pela metáfora da arena e de confrontos sociais
entre os sujeitos.
Outra forma utilizada para caracterizar o controle sobre determinadas
práticas ocupacionais e lugares de atuação é chamada domínio. Para alguns
autores, a Ciência da Informação tem uma região clara de domínio (Paiva,
2002, p. 167). Os profissionais dominam certas práticas, conhecimentos e
competências. O domínio prescreve um conjunto de conhecimentos pertencentes
a um campo do conhecimento científico. Nesse sentido, a Ciência da
Informação detém a posse de métodos de pesquisa e utiliza diferentes
enfoques (Paiva, 2002, p. 167).
O domínio profissional ou jurisdicional, apresenta-se na atuação do
profissional da informação, mas também está explícito nas manifestações de
privatização de seus objetos de pesquisa, em especial, na disputa entre os
cientistas pela legitimidade e competência científicas, conforme sustenta
Bourdieu (1983). Na perspectiva de Abbott (1988), há distúrbios externos e
internos em um sistema de profissões e, como complementado pela teoria de
campo de Bourdieu (1983), esta ação dos sujeitos no campo científico - em
busca da autoridade científica - causa um tipo de instabilidade sistêmica.
O território, o aprisionamento, o acondicionamento e a privatização de
espaços são metáforas que manifestam a ideia de domínio, posse, seja de
objetos conceituais ou de conhecimentos sobre práticas ocupacionais que
exigem conhecimento especializado. O domínio sugere que os elementos
pertencem a um proprietário, um detentor, um dono. Entretanto, o que ocorre,
com efeito, são discursos que visam legitimar, quando muito, uma base de
conhecimento especializado, imprescindível para a resolução de problemas.
Uma jurisdição profissional, segundo Abbott(1988), é representada pela área
de controle exercido por uma ocupação ou um conjunto delas. As jurisdições
estão sempre se atacando ou se protegendo, segundo a teoria sistêmica das
profissões de Abbott (1988). Um problema social ou técnico pode ser
resolvido por uma ou mais jurisdições quando isso acontece existe um
conflito (distúrbio) em que um sistema busca ampliar ou desenvolver sua
jurisdição. O distúrbio é apaziguado dentro da profissão ou pela divisão da
profissão em outras profissões (abertura para que a tarefa seja feita por um
profissional especializado em tal problema) ou contornado por amalgamento
(reunião, união de várias profissões submetidas a uma jurisdição segundo um
objetivo comum) como aconteceu com os profissionais da informação reunidas
junto ao espectro da Ciência da Informação (Abbott, 1988).
A despeito da produção de conhecimentos, considerada no campo da Ciência da
Informação ou no exercício de domínio das práticas profissionais, a
manutenção e o desenvolvimento da jurisdição dependem de um saber
especializado. Nas práticas ocupacionais do profissional da informação, a
base de conhecimento traduz-se em competências determinadas. A pesquisa no
campo da Ciência da Informação depende da base de conhecimento ocupacional
dos profissionais, os quais sugerem objetos a serem estudados, comprometendo
este novo conhecimento à expansão e à proteção do campo profissional.
A separação e a segmentação dos dois tipos de conhecimento são aceitáveis
apenas em um nível analítico, uma vez que a interdependência sucumbe a
exclusão de qualquer um dos tipos de conhecimento. Em resumo, não há
trabalho na Ciência da Informação contemporânea que não dependa destes dois
tipos de conhecimento, ainda que o conhecimento ocupacional tenha sido
desenvolvido anteriormente. Talvez seja útil pensar que se a definição de
Bunge for utilizada para conceber um campo de pesquisa, haverá pouco espaço
para notar as interações sociais entre os agentes dos tipos de conhecimento.
Por último, pode-se sintetizar aspectos desta interação a partir do seguinte
esquema.
Figura: Interação das Bases de Conhecimento Científico e Ocupacional

Fonte: Elaborado
pelo autor.
Sustenta-se que as profissões existem sem o conhecimento produzido pelo
campo científico, mas não sem um conhecimento ocupacional ou especializado.
A despeito de ser imprescindível o emprego do conhecimento científico para o
avanço profissional. No caso da Ciência da Informação, o campo ocupacional
sugere objetos, temas e problemas de pesquisa. Ambos, base de conhecimento
ocupacional e base de conhecimento científico se ligam na manutenção da
formação dos quadros profissionais, sistemas de reprodução em escolas e
cursos, ao mesmo tempo em que são influenciadas pelo domínio profissional.
No contexto das profissões, não seria adequado dizer que a Ciência da
Informação produz conhecimento científico e os profissionais da informação
utilizam passivamente. Deve-se considerar o conhecimento ocupacional e sua
formação na história das profissões, bem como sua autonomia relativa com
respeito ao conhecimento científico, aspecto fundante na constituição de
qualquer profissão. No Brasil, a história revela que os mecanismos de
formação de profissionais da informação sustentaram institucionalmente a
Ciência da Informação, o que poderia subsidiar uma leitura mais crítica dos
que sustentam um profissional da informação passivo em relação ao
conhecimento produzido pela Ciência da Informação.
Considerações Finais
Deve-se ressaltar que a definição de Ciência da Informação, no contexto
brasileiro, estão intimamente associadas às propostas de uma epistemologia
institucional (Gonzales de Gomez, 2003b), a qual sugere o entrelaçamento
estratégico entre os campos Biblioteconomia e Arquivologia. O campo da
Ciência da Informação é considerado vasto por tratar de objeto, tema e
problema de caráter interdisciplinar, investigado por diversas ciências
humanas e sociais. Presume-se que um dos entraves para o
estabelecimento de teorias associadas ao campo ocupacional é produto da
própria história da Ciência da Informação, mas como esta fora concebida e
implementada no Brasil. Em 1970, com a implantação dos primeiros cursos de
pós-graduação na área, o país passou a empregar técnicas, teorias e
conceitos de uma linha anglo-saxônica da Ciência da Informação. Mas sua
incorporação não se deu ao acaso, dependeu profundamente de instituições
bibliotecárias.
Outra dificuldade, relaciona-se às pesquisas em torno do que é denominado
objeto de estudo da Ciência da Informação que compõem a base de conhecimento
científico, as quais estão sendo definidas sob um contexto claro de
competição. O acirramento das disputas também provoca a sensação de que a
base de conhecimento ocupacional está apartada do conhecimento científico. A
prática profissional depende cada vez mais de uma base de conhecimento
especializado para enfrentar os desafios da sociedade contemporânea. É uma
espécie de memória coletiva, sistematizada e aplicada pela categoria
profissional, na forma do emprego de técnicas e procedimentos para o
atendimento das exigências sociais.
Com isso, supõe-se que a base de conhecimento ocupacional não está sendo
explorada em sua interação com a base de conhecimento científico. Alerta-se
para a necessidade de se refletir sobre a base de conhecimento ocupacional,
nascida da prática, e que fornece problemas (fontes, temas e objetos de
pesquisa) e soluções para o campo da Ciência da Informação. Mais que
competências passíveis de medição, os profissionais possuem um tipo de
conhecimento teórico-prático e político-social que deve ser considerado. Em
outros termos, os profissionais da informação resolvem questões práticas de
um modo específico, com ou sem teorias sobre o movimento da informação na
sociedade, e isto deve ser reconhecido. Arquivistas, bibliotecários e
gestores da informação sempre resolveram problemas nas instituições em que
atuam com um aporte teórico acumulado por uma sucessão de experiências de
sucesso registradas em um intervalo longo do tempo. Resta à Ciência da
Informação considerá-las como fontes legítimas de conhecimento, as quais
interagem e impõem diretrizes à base de conhecimento científico.
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Sobre o autor / About the Author
carlosalmeida@marilia.unesp.br
Doutorado em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Professor do Departamento de Ciência da Informação da Unesp em Marília.