DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.1  n.3  jun/00                            ARTIGO 01

Os Agregados de informação - Memórias, esquecimento e estoques de informação
Information aggregates - Memories, forgetfulness, and information stocks
por Aldo de Albuquerque Barreto

 
Resumo: Conceituamos como estoques de conteúdos de  informação toda reunião de  estruturas de informação. Estoques de informação representam, assim, um conjunto de itens de informação organizados (ou não), segundo critério  técnico, dos instrumentos de gestão  da informação e com conteúdo que seja de interesse de uma comunidade de receptores. Quanto mais o estoque de informação estiver codificado em uma metalinguagem  mais estará ocultando a informação completa em linguagem natural. Um  estoque de itens codificados servirá, principalmente, para  direcionar o receptor  para a informação útil, mas estabelece a necessidade de haver um duplo fluxo de comunicação, um modelo de linguagem que se sobrepõe à natural. Como decorrência das condições técnicas e econômicas, produzidas pela peculiar ambiência de convívio da oferta e demanda em unidades de estoques de  informação, existe um reflexo ocasionando circunstâncias políticas que  afetam a distribuição da informação e a potencial geração do conhecimento no indivíduo e na sociedade. No contexto político  esta  distribuição  é afetada  pois o produtor de informação tenderá a transferir produtos que minimizem uma condição de  ineficiência operacional  do seu estoque,  em detrimento de uma situação que maximize a expectativa  de qualidade  de informação da    demanda   dos seus usuários. Aqueles que detêm o poder sobre os estoques institucionais de informação  também detêm o poder sobre a  sua   administração e  distribuição e conseqüentemente sobre o conhecimento gerado na sociedade e o seu potencial de desenvolvimento. O produtor de informação, proprietário dos estoques, decide sobre quais os itens de informação devem ser armazenados e quais as estratégias para a sua distribuição à sociedade. Decide, ainda, sobre o  empacotamento  tecnológico para a sua distribuição, considerando  que alguns  dos canais de distribuição são tão intensivos na utilização de tecnologia,  que  podem  direcionar a própria estratégia na transferência da informação. A gestão dos estoques de  informação pode ser tão autoritária quanto as políticas que a orientam. Será tanto mais autoritária quanto maior for o poder de oferta sobre a demanda colocada pelos receptores.
Palavras Chave: Agregados de Informação; Estoques de Informação; Memória; Esquecimento; Distribuição da Informação

Abstract: We considered as stocks of  information the whole  of  the  structures of information. Stocks of information represent then a group of items of information organized (or not), second  a technical criterion, of the instruments of administration of  information.. The more the stock of information is codified in a metalanguage  the great will be the  hiding of information in natural language. A stock of codified items will serve, mainly, to address the receiver to the useful information, but it establishes the need to a double communication flow. As consequence of the technical and economical conditions, caused by the peculiar environment of  supply and a reflex exists in the political conditions affecting the distribution of the information and to potential generation of the knowledge in the individual and in the society. In the political context the distribution is affected and  the producing of information will tend to transfer products that minimize a  operational inefficiency of the stock, in detriment of a condition that also maximizes the expectation of quality of the demand from users. Power on the institutional stocks of information, will give power over its administration and distribution and consequently on the knowledge that it generated in the society and the potential development. The producer  of information, the owner of the stocks, decides on which  items of information should be stored and which the strategies for  distribution to the society. He decides, still, on the technological packing for your distribution, considering that  some of the distribution channels  are so intensive in the use of technology  that they can direct the own strategy in the transfer of  information. The  administration of  stocks of information  may  be as authoritarian as the politics that guide it. It will be as authoritarian as supply goes larger than the demand placed by users.
Keywords: Information Agregates; Information Stocks; Memory; Forgetfulness; Distribution of Information

 

Conceituamos como estoques de informação toda a reunião de estruturas de informação. Estoques de informação representam, assim, um conjunto de itens de informação organizados (ou não), segundo um critério técnico, dos instrumentos de gestão da informação e com conteúdo que seja de interesse de uma comunidade de receptores. As estruturas de informação que se agregam nos estoques podem estar em diferentes níveis de completeza em relação a uma mesma peça de informação: ter o formato só da referência bibliográfica, ou do título,  do resumo, indicadores por palavra-chave, ou o texto completo.

Uma mesma estrutura de informação pode reunir um ou mais dos elementos indicados. Pode estar configurada em linguagem natural ou em uma metalinguagem para controle e localização, representada por um conjunto ou um subcódigo do código lingüístico comum à comunidade de usuários com a qual o estoque se relaciona.

Quanto mais o estoque de informação estiver codificado em uma metalinguagem mais estará ocultando a informação completa em linguagem natural. Um estoque de itens codificados servirá, principalmente, para direcionar o receptor para a informação útil, mas estabelece a necessidade de haver um duplo fluxo de comunicação.

Assim, dentro de um determinado contexto de tecnologia dos sistemas de  informação, buscou-se uma solução
simplista onde havia um problema bem determinado de volume de informação. O problema consistia em controlar e administrar o volume da produção da informação, em um mundo de muitos documentos e com uma comunicação com o receptor em desordem; a solução  seria a busca da ordem através de uma metodologia que se utilizava de  fatores de redução do código de comunicação , através da (re)formatação da  linguagem na informação primária, a fim de atender aos requisitos técnicos e de produtividade (espaço, tempo) de um sistema de recuperação da informação.

A solução técnica operacional trouxe porém uma “economia de informação” indesejável,baseada em três tipos de seleção, por exclusão, na formação dos estoques de informação:
     A primeira seleção é a de itens de informação que vão entrar para o formar o estoque de informação, os acervos; os critérios e a política de inclusão são determinadas por mediadores que atuam em nome dos receptores; todo ato de selecionar uma parte de um todo representa um favorecimento daquela parte e um ocultamento do todo não favorecido na escolha.
     A segunda seleção transforma o conteúdo dos documentos pois apenas partes do documento original são utilizadas,para representar o documento todo;estas partes representativas do documento são os descritores, as palavras chaves; o método modifica a integridade da estrutura da informação. Esta seleção esconde a informação.
     A terceira seleção consiste em traduzir as partes selecionadas anteriormente, para uma  nova linguagem controlada, não natural; assim,  em nome da ordem, é preciso promover a compatibilidade da linguagem de entrada e da linguagem de saída do documento no sistema. Esta seleção representa uma violência simbólica no universo de significação do receptor e de sua comunidade informacional.

O sistema de armazenamento da informação obedece a um rígido formalismo técnico e reducionista, que serve aos propósitos de gerenciamento e controle da informação em uma determinada situação.
Vale notar que separamos a noção de ocultamento da informação proveniente de sucessivos processos de seleção e reformatação de conteúdos, de um sistema de localização e controle da informação utilizando metadados. Sistemas de metadados, enquanto, facilitadores no processo de localização e recuperação da informação são válidos, mas devem operar, mesmo se incluídos como uma ferramenta no estoque de conteúdos , de maneira invisível para o receptor da informação. Não se deve confundir um sistema de metadados com um esquema de indexação ou de classificação da informação. Sistemas de metadados não podem interferir com o sistema de significação da informação, com o universo semântico dos receptores.
A partir dos anos 80 novos modelos tecnológicos e conceituais vêem provocando uma modificação no posicionamento dos agentes que operam as práticas de seleção redutora, principalmente devido a:
            1. uma nova visão conceitual de que a informação se relaciona com o conhecimento e com o desenvolvimento humano; afetar sua integridade pode afetar ao processo de conhecimento como um todo.
            2. queda considerável no custo e na operação dos arquivos magnéticos;
            3. desenvolvimento acelerado da microeletrônica e suas tecnologias paralelas e do acesso ao computador pessoal e as redes de informação;
            4. desenvolvimento acelerado da telecomunicação e suas tecnologias subordinadas.

Os fatores técnicos possibilitaram o desenvolvimento e a preferência por estoques de informação em texto completo e linguagem natural em base digital.
A nova visão conceitual entende que os estoques de informação representam um importante recurso no processo de geração do conhecimento, mas que por si só não o operam. A geração do conhecimento é uma condição complexa na qual os estoques estáticos de informação representam apenas uma etapa inicial.
A figura abaixo mostra a condição complexa dos mecanismos que interferem com a geração do conhecimento:
 

O Crescimento dos estoques de informação:
Grandes estoques crescentes de informação, que se acumulam em um tempo sem limites, degeneram a vivência
cotidiana em que o conhecimento se realiza no indivíduo. A sintonia do sujeito consciente se dispersa em um mundo de informações irrelevantes, imprecisas e ultrapassadas e com uma distribuição inadequada.

O conhecimento, potencialmente armazenado em estoques de informação, acumula-se exponencialmente em estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo colocando-se filtro de entrada para limitar qualitativamente o crescimento destes estoques, a coisa toda tenderá a ruir em pedaços, devido ao seuprópriopeso, a menos que se modifique as proporções relativas da estrutura em relação ao seu conteúdo físico (Thompson,1961).

Há mais de 350 anos, Galileu formulou,seu princípio da similitude o qual nos fala quenenhum organismo biológico ou instituição humana, que sofra uma mudança de tamanho e uma conseqüente mudança de escala, passa por isso sem modificar sua forma ou conformação. Galileu seguia um princípio matemático definido como a “Lei do Quadrado e do cubo”; isto é, seu volume (de Informação) cresce em uma razão quadrada,a superfície (espaço) que o contém (estrutura dos estoques) deve ser reformatado emuma razão cúbica. Existe uma relaçãoentre o volume e a forma que o contém. Esta seria a razão de maçãs nascerem em árvores altas e de galhos longos e o melão nascer no chão. De a girafa ter longas pernas considerando seu corpo e o rinoceronte ter pernas pequenas e grossas.

Contudo a macieira não pode seguir crescendo para aumentar o volume de produção de seus frutos, haverá um momento em que por sua própria estrutura, vergará sob seu peso e quebrará.

Há um processo de diferenciação estrutural, mediante o qual uma organização diferencia-se em duas, que diferem uma da outra em estrutura e função, mas que juntas são funcionalmente equivalentes à organização menos diferenciada.

A analogia destes conceitos ao crescimento dos estoques de informação leva a crer que estas estruturas de
armazenagem, que por compromissos de qualidadecom seus receptores tendem a crescer em volume periódica e
cumulativamente, terão em um determinado momento que enfrentar um problema de forma e crescimento. A menos que sejam pensadas estratégias de adaptação destes estoques elestenderão a “quebrar” por seu próprio peso, i.e., transformar-se em agregados inúteis de informação ou por conteremum exagerado percentual deexcedente não relevante e prioritário ou por terem custos operacionais de trabalho inviáveis com sua manutenção. (veja mais adiante o labirinto em Rede de estrutura sempre mutável)

Esta condição dos estoques de informação nos traz a imaginação as questões de memória e do esquecimento. Certamente não podemos treinar o esquecimento como treinamos para aumentar ou aprimorar nossa memória.O esquecimento é uma qualidade da memória, que a preserva e a mantém saudável. Nossa memória funciona, e só funciona porque nos é dada a capacidade do esquecimento.

De um dia para o outro retemos em nossa memória as informações relevantes e prioritárias e esquecemos o resto. Contudo, as instituições de memória, de estoques, podem operacionalizar o esquecimento e através de mecanismos de administração tentar diminuir os estoques excedentes, reformatar ou fragmentar a estrutura da memória.

Este equilíbrio entre a memória e o esquecimento é belamente apresentada por Jorge Luís Borges em seu conto "Funes o Memorioso".(Borges,1989)

Irineo Funes o protagonista da estória, por razões de uma doença, passou a ter uma memória sem limites: " eu tenho mais memórias em mim mesmo que todos os homens tenham tido desde que o mundo é mundo" conta ao narrador. Funes, não recordava somente cada folha de cada árvore de cada monte, como também cada uma das vezes que a tinha percebido ou imaginado. Era incapaz de idéias gerais. Não podia armazenar somente o símbolo genérico "cão". Este símbolo, como todos os demais, abrangia diferentes indivíduos específicos, o cão das 10 horas, o cão da tarde, o visto de perfil ou o visto de frente.Ao relembrar de algo em um outro contexto esta informação era adicionada a informação já existente, aumentando sua memória.

Irineo Funes não podia esquecer, por uma condição da sua própria natureza.Sua memória infinita não legitimava a informação ou facilitava a comunicação com seus semelhantes. Imobilizado em sua casa, decidiu pela opacidade.

"Minha memória, senhor (dizia ele ao narrador), minha memória é um imenso depósitode lixo." (Borges,1989).

Acreditamos quea estrutura das memórias estão preenchidas com informação de conteúdo inverso às necessidades de uma demanda global.

A hierarquia das necessidades humanas, que determina o comportamento dos indivíduos, foi mapeada por A. Maslow (Maslow, 1970) para indicar os fatores determinantes da motivação, desempenho e satisfação no trabalho. No seu estudo empírico, Maslow, apresenta uma pirâmide das necessidades humanas e o comportamento associado a cada nível desta pirâmide. Adaptamos este esquema para, em uma tentativa intuitiva, relacionarmos o que seria possivelmente a demanda e a oferta de informação, em sua estrutura básica.
 


Na pirâmide das necessidades humanas , o indivíduo movimenta-se da base para o topo, passando de um estágio para o outro somente quando todas as suas necessidades, naquele estágio, fossem satisfeitas. A configuração piramidal procura indicar um maior número de pessoas na base do que no topo. Na base da pirâmide estariam as pessoas que procuram satisfazer as suas necessidades básicas de alimentação, habitação, vestuário, saúde, educação, sendo que o seu comportamento seria fundamentalmente o de perseguir e satisfazer estas necessidades, que representam a segurança de existir em um determinado espaço. Desta forma, procuram, prioritariamente, informação de utilidade para a sua necessidade de segurança, ordem e liberdade do medo e da ameaça.

No estágio acima, estariam os indivíduos que, tendo resolvido as suas necessidades de segurança, orientam-se por um comportamento participativo e por uma vontade de permanecer aos grupos em que participam, seja no trabalho, na comunidade, afetivos ou profissionais.  A demanda, então,  é basicamente por informação que lhes garantam a permanência segura nos diversos contextos em que habitam e que desejam permanecer. Elaboram a informação em proveito próprio e das instituições em que participam.

No topo da pirâmide, os indivíduos, tendo satisfeito as necessidades anteriores, são impulsionados por sentimentos de auto-realização e vinculam-se à informação com compromissos de reflexão, criatividade e realização de seu potencial.

Ao se configurar a demanda nesta forma simplificada, pode-se deduzir, contudo, que o fluxo de informações agrega qualidade no sentido da base para o topo.

Acredita-se que a oferta de informação, ou seja, a estrutura dos estoques, relaciona-se à demanda como uma pirâmide invertida, inversamente proporcional em termos quantitativos e qualitativos às posições da informação demanda da (Figura 3), configurando situações de racionamento e excedente de informação nos seus extremos.
 


A figura  indica a tendência histórica de composição dos estoques de informação.Grande parte da seleção de informação e toda a ideologia redutora de significados da informação está orientada para as duas partes superiores da pirâmide das necessidades globais de informação.A grande massa de indivíduosna base da pirâmide demandam uma informação inexistente.

Os critérios de seleção de que falamos anteriormente são excludentes, nesta condição prática. Como a grande massa de informação é dirigida para uma elite informacional, são formados excedentes que, cumulativamente aumentam o volume da oferta de informação, criandouma crescente disparidade com a demanda total e potencial dos estoques de informação se pensados como umtodo. Ou seja os estoques aumentam sempre para uma população que não vai consumi-los proporcionalmente.

A Figura  abaixo procura mostrar esta relação excedente e excluídos de informação.
 
 

 Vale notar, neste ponto, que as figuras apresentadas representammodelos da realidade, para uma melhor compreensão do texto. Não existe portanto um determinismo radical nas figuras; as ilustrações devem ser vista com flexibilidade e tolerância.

A oferta e demanda de informação devem ser analisadas por diferentes pontos de vista: o técnico, o econômico e o político.

Sob o ponto de vista técnico a oferta de informação é resultante de um processo de produção, ou transformação, com eventos bem definidos.A oferta no sentido técnico não está condicionadasempre com a possibilidade de criar valor ou uso. Assim se uma mercadoria se torna sem valor ou uso devido a um estado do mercado, o processo que a produziu e a oferta que se constituiu continua valida no sentido técnico da palavra.

Sendo as duas as funções básicasdo mercado de informação:a função de produção de estoques de informação, e a função de transferência da informação, estas estãoconectadas, respectivamente, às condições deofertae demanda da informação em um determinado contexto. Umestoque de informação produzido, representa a oferta de informação, institucionalizada,em um determinado contexto informacional. Por outro lado, para uma realidade específica, que necessita informação,a função de transferência, efetiva a distribuição da informação estocada, com a intenção de atender a está demanda potencial.

Em um mercado tradicional oferta e demanda se ajustam considerando às condições próprias deste mercado. Se não considerarmos os radicalismos do mercado, a demanda tem um papel primordial no ajuste. Se a demanda por determinado produto aumenta ou diminui a oferta tende a se ajustar a estas variações.

O mercado de informação tem características que lhe são peculiares. Estudos já realizadospermitem indicar que na ambiência de informação é a oferta que determina a demanda por informação.

Esta afirmação aparece nos estudosdo Dr.URQHART, (Urqhart 1976) idealizador da British Lending Lybrary em Boston Spa, na Inglaterra, indicava que:
“ Estas propostas vêm de uma fonte que acredita implicitamente no homem econômico e no conceito de que demanda cria oferta. A ausência de qualquer resultado útil nas tentativasanteriores de pesquisa econômica da transferênciada informação, sugere que os testes básicos dos economistas, não seaplicam a este campo (ciência da informação). A posição parece indicar que o homem da informaçãoésubstancialmente diferente do homem econômico. Sem dúvida ele vive em um mundo onde oferta pode criar demanda”.

A elaboração da base técnica conceitual para explicara afirmação de que é a oferta que orienta a demanda é bastante simples, conforme apresentamos a seguir.

No mercado de geladeiras, por exemplo,se ocorre um aumento de demanda pelo produto, a oferta tenderá a se ajustar a esta demanda oferecendo um volume maior do produto. Inversamente, se a demanda por geladeiras diminuir, a oferta ira se ajustar com uma menorprodução.

Gestores de unidades de informação precisam a aumentar as suas condições de produção (oferta)de maneira periódica e cumulativa, mesmo que não ocorra um acréscimo na demanda por informação. Assim uma biblioteca aumenta a sua coleção, anualmente,por exemplo,mesmo que os seus usuários permanecem no mesmo patamar de solicitações por informaçãooumesmo que o número de usuários permaneça o mesmo e o volume de sua demanda também. O mesmo ocorre com uma base de dados, ou com o acervo de um arquivo ou de um museu. Haverá sempre nestas unidades de informação, um acréscimo periódico, contínuo e cumulativo de itens de informação, no estoque de informações armazenadas, ainda que, a demanda por informação nestas mesmas unidades, permaneça constante,no caso limite.

A limitação da demanda e sua razões estão explicitadas na conceituação que  acompanham as figuras já apresentadas.

Vale lembrar que estamos diferenciando em nosso raciocínio o conceito de estoque e fluxo de informação. O volume do estoque, estático, aumenta pelo fluxo contínuo e dinâmico de itens que são adicionados. O estoque de informação representa um custo fixo,é independente da escala de produção; este custo que já foi incorrido não pode mais ser decidido, "bygones are bygones forever".

Ainda que, a demandatenha um acréscimo, não é mantida qualquer proporcionalidade entreos acréscimos da oferta, aqui indicadospelos acréscimos no estoque de informação, e os acréscimos da demanda por produtos e serviços de informação.

Esta é uma condição operacional básica, ela é técnica, não é econômica nem é política. É valida para qualquer unidade de informação,pois estanecessita estar apta a atender os requisitos de qualidade como: confiabilidade, cobertura, novidade e abrangência na sua oferta de produtos e serviços de informação para atender aos requisitos impostos pela demanda. É uma condição operacional da oferta que se relaciona à própria existência da unidade de informação. Seu gerente não pode assumir a atitudeeconômica racional de só aumentar a oferta (acréscimo do acervo), caso ocorra um acréscimo da demanda, pois a longo prazo isto levaria a extinção daquela unidade de informação. O homem de informação, neste sentido não pode ser racional; ele é tecnicamente operacional, ele é estratégico.

Conseqüentemente, esta condição de oferta/demanda de informação vai ocasionar implicaçõeseconômicas e políticas.

As implicações técnicasse localizam, particularmente, na eficáciados estoques de informação, na capacidade de produção e na distribuição da informação.

O aumento constante e cumulativo no volume dos estoques de informação armazenada afetará diretamente a produtividade destes estoques, no que se refere a  recuperação de itens de informação para distribuição.

O crescimentoconstante no volume dos estoques de informação ira afetar, ainda, a capacidade de produção das unidades de informação. O crescimento contínuo, da oferta, sem que ocorra um igual acréscimo da demanda por produtos de informação, implicará em um rendimento decrescente de escala de produção, isto é,unidades de informação tendem a operam sempre com capacidade ociosa ou no que chamamos deineficiência operacional desejável,pois esta ineficiência é necessária para atender aos requisitos de qualidade que sãocolocadas por seus usuários.

As condições econômicas se refletem nas condições técnicas expostas acima. Todas a estrutura de custos deve ser repensada, pois devido ao efeito da acumulação de estoques de informação, que é dissociada da demanda, o que ocasiona a existência de rendimentos decrescentes de escala eda ineficiência operacional desejável, as unidades de informação, estarão operando sempre,emuma condição normal, com custos crescentes.

Como decorrência das condições técnicas e econômicas, ocasionadas pela peculiar ambiência de convívio da oferta e demanda em unidades de estoques deinformação, existe um reflexo nas condições políticas afetando a distribuição da informação e a potencial geração do conhecimento no indivíduo e na sociedade. No contexto político a distribuição é afetada, pois o produtor de informação tenderá a transferir produtos que minimizem a ineficiência operacional desejável do seu estoque, mais do que os que maximizem a expectativade qualidade da demanda dos seus usuários.

Aqueles que detêm o poder sobre os estoques institucionais de informação,também, detêm o poder sobre asuaadministração edistribuição e conseqüentemente sobre o conhecimento gerado na sociedade e o seu potencial de desenvolvimento.

O produtor de informação, detentor dos estoques, decide sobre quais os itens de informação devem ser armazenados e quais as estratégias para a sua distribuição à sociedade. Decide, ainda, sobre oempacotamentotecnológico para a sua distribuição, sendo que, algunsdos canais de distribuição são tão intensivos na utilização de tecnologia,quepodemdirecionar a própria estratégia na transferência da informação.

O detentor do poder sobre estes estoques (oferta) possui condições políticas de manipular a disponibilidade e o acesso à informação. Ao decidir as suas estratégias de distribuição, o produtor de informação procura maximizar o uso das informações que teve de estocar, para minimizar o excedente do estoque não produtivo. Como a demanda se localiza em uma realidade fragmentada, de múltiplos espaços sociais diferenciados, a distribuição da informação correrá sempre o risco de ser feita de acordo com uma estratégia de repasse do menor conhecimento comum, ou seja,o maior volume possível do estoque deve ser transferido para um maior público comum em suas competências para assimilar a informação repassada; sem que seja considerada a qualidade da informação ou o interesse do indivíduo ou da sociedade, por aquela informação que está sendo distribuída.

A gestão dos estoques deinformação pode ser tão autoritária quanto as políticas que a orientam. Será tão mais autoritária quanto for maior o poder de oferta sobre a demanda colocada pelos receptores.
 

Custo, Valor e Preço da Informação
Como foi visto no item anterior, o custo de produção no mercado de informação esta relacionado a umacondição técnica que denominamos de ineficiência operacional desejável. A oferta estará sujeita a esta condição, operando assim, em níveis crescentes de custo de acordo com cada caso especifico deuma unidade de informação particular. Desta formao custo da oferta não terá uma relação estreita com um possível preço de mercado da informação ou o seu valor de mercado. As escalas de desejo que determinam a utilidade da mercadoria informação serão o valor de uso e o valor semiótico.

O valor de uso determina a utilidade da informação para determinado receptor, que estará disposto a pagar por esta informação muito mais do que a sua relação real com custo ou preço; quanto mais alta estiver posicionada esta utilidade da informação na escala de preferências do consumidor maior será o valor que este lhe atribuirá.

O valor semiótico é entendido aqui como a medida da competência individual do receptor em decodificar a estrutura de signos para realizar o entendimento necessário ao consumo da informação. Assim o valor semiótico precede aos demais valores da informação: valor de uso e valor de mercado.
 

A avaliação dos estoques de informação e os labirintos do conhecimento
Operando com custos crescentes e em uma situação desejável de ineficiência operacional, o sistema de recuperação da informação procurou sempre medidas de avaliação de sua capacidade de ser útil ao receptor da informação.

As mais famosas destas medidas forma desenvolvidas e testadas por Cyril Cleverdon no Cranfield Institute of Tecnhology. As medidas de Cleverdon procuram um indicador para a capacidade do sistema de estoques de informação recuperar informação relevante. As medidas chamadas de recuperação e precisão, apesar de tecnicamente ultrapassadas são utilizadas conceitualmente até hoje.

Contudo, independente de qualquer avaliação de desempenho, estoques de informação serão sempre estoques de informação em sua condição de movimento: são recursos estáticos na ação do conhecimento. Representam um ambiente quieto com crescimento programado. Sua condição de estática espera fica revelada em nosso próprio falar contemporâneo: - Vou entrar em um arquivo; a idéia de viagem em direção ao local da informaçãoe de ingresso mostram a circunstância de serena espera para possibilitar uma ação maior. Entrar em um arquivo, porém, revela a condição de labirinto de nossa memória. O viajante de um arquivo não pode nunca colocar seu olhar de cima para baixo para visualizar os caminhos certos. Há que se percorrer todas as alamedas para conhecer o labirinto.

Assim como Teseu, na passagem da informação para o conhecimento, devemos percorrer infindáveis labirintos de informação estocada, labirintos físicos, labirintos digitais, labirintos da nossa memória.

Nesses caminhos nos deparamos com três tipos de labirintos:o clássico é o labirinto de Cnosso, assim que se entra a única coisa que se tem a fazer é chegar ao centro. Se o labirinto de Cnosso fosse desenrolado, teríamos entre as mãos um único fio. O fio de Ariadne que o mito nos apresenta como o único meio, estranho ao ambiente, para, depois de entrar, sair do labirinto. O fio de Ariadne muito nos lembra os isnstrumentos de organização e controle  providos pela ciencia da informação. Incidentalmente podemos encontrar no caminho o Minotauro e devemos lutar com ele; são os metadados que deveriam estar transparentes em nosso percurso; escondidos devem servir unicamente para possibilitar controles internos; fora de controle o Minotauro se transforma em uma metalinguagem que esconde a linguagem natural.

O segundo tipo de caminho é o labirinto de Irweg. O Irweg propõe escolhas alternativas, pois todos os caminhos levam a um ponto morto, exceto um que leva a saída. Se desenrolado pelo fio de Ariadne o Irweg toma a forma de uma árvore, com diversos becos sem saída, mas ao percorre-los chegamos mais perto de nosso intuito. É como o nosso pensamento divergente, apontando para diversos caminhos antes de encontrar aquele que nos direciona para a elaboração final da informação transformando-a em conhecimento.

O terceiro tipo de labirinto e do tipo de uma Rede, na qual cada ponto pode ter conexão com qualquer outro ponto. Não é possível desenrolá-lo; os labirintos dos dois outros tipos tem um interior com seu próprio emaranhado e um exterior, se entra e se sai do labirinto. O labirinto de terceira ordem não tem interior ou exterior. Pode ser finito ou infinito e, em ambos os casos, considerando que cada um dos pontos de sua formação pode ser ligado a qualquer outro, o seu próprio processo de conexão é um contínuo processo de correção das conexões. É sempre ilimitado pois a sua estrutura é sempre diferente da estrutura que era um momento antes e cada vez se pode percorrê-lo segundo linhas diferentes.   É o labirinto dos estoques virtuais de informação, das estruturas de informação em hipertexto onde o conhecimento opera por associações convergentes ou divergentes de informações acessadas. ( ECO 1989) .

A idéia de estoques de informação como labirintos do conhecimento é apresentada já, por D'Alembert na introdução de sua Enciclopédia:
"...o sistema geral das ciências e das artes é uma espécie de labirinto de caminho tortuoso que o espírito enfrenta sem bem conhecer a estrada a seguir..."

Armazém dos discursos de informação aos estoques cabe a função de guarda do saber acumulado; a ação de conhecimento se realiza em outro local: os espaços de vivência e convivência dos receptores da informação. Onde o cristal se faz chama.
 
 

Notas:

 
Referências:

[1] BORGES, J.L. .Ficções. Editora Globo, 5 edição. Rio de Janeiro, 1989

[2] ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Nova Fronteira, Trio de Janeiro, 1989. ( Grande parte das indicações sobre labirintos foi retirado do ensaio, a Árvore de Porfírio)

[3] MASLOW, A.H. Motivation and Personality. New York, Harper, 1970. Ver também
    http://www.wynja.com/cgi-wynja/bookstore.cgi?maslow.html

[4]  THOMPSON, D'Arcy. On Growth and Form. Abridged Edition. Cambrige University Press, Inglaterra, 1961. (Capítulo II - On Magnitude)

[5] URQHART, D.J., Economic Analysis of Information Services, J.Doc., v.32, n 2 , pp123-25, 1976

[6] JAENEKE, P.,  To what end Knowledge Organization, Knowledge Organization  (1994)  n 1, pp 3-10

[7] HUMPHREY,  N. , Uma História da Mente:  A evolução e a gênese da Consciência, Campus, Rio de Janeiro, 1994

[8] LANCASTER, F. W. , The measurement  and evaluation of library services, Information Resource Press, USA, 1977

[9] KING, D.W. e Bryant, E.C. , The evaluation of information services and products, Information Resource Press, USA, 1971

[10] BARRETO, A. de A. ,  A informação e o Cotidiano Urbano, Ibict/Eco,  Rio de Janeiro, 1991

[11] FARRADANE, J., The nature of information, Journal of  Information Science,  v. 1, n. 3 , London , 1970

[12] FARRADANE, J. , Knowledge, information and information science, Journal of  Information Science, v.2, n. 2, London, 1980

[13] HABERMAS, J. Conhecimento e Interesse, Guanabara, Rio de Janeiro, 1987

[14] BUTCHER, H.J., A inteligência Humana, Perspectiva, São Paulo, 1968

[15] MORIN, E. , O método, O Conhecimento do Conhecimento, Biblioteca Universitária, Lisboa 1986
Sobre o autor / About the Author:
    Aldo de Albuquerque Barreto
    aldoibct@alternex.com.br  -  http://www.alternex.com.br/~aldoibct
    PhD, Pesquisador Titular do IBICT
    Presidente da ANCIB