DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.2  n.3   jun/01                            ARTIGO 03

Poderia a  Internet (ou lógica do capitalismo avançado) subverter o projeto de globalização?
Could Internet (or the logic of advanced Capitalism) subvert the globalization project?
por Hilda Chacón
tradução: Maria Souza-Hogan *






Resumo: O apogeu da cibernética se evidencia na década de 1980. A partir dai, a Internet se converte em expressão tangível de uma nova era econômica: a “globalização” ou o “projeto neo- liberal”, segundo a perspectiva dos observadores. Durante esta década, assistimos à queda do socialismo na Europa ocidental, à queda do muro de Berlim em 1989, à crise do projeto sandinista em Nicarágua que desembocou com a derrota eleitoral de 1991, e o anúncio do “fim da história” por parte de alguns  intelectuais do primeiro mundo. A pós-modernidade é a lógica cultural conseqüente do processo de globalização econômico. Utilizo indistintamente os termos “globalização” e “neoliberalismo”, já que os considero duas maneiras distintas de se referir ao mesmo fenômeno econômico.
Palavras chave: Internet, Globalização, Neoliberalismo, Pós-modernidade, Lógica Cultural
 

Abstract: The apogee of the cybernetics is announced with clarity in the 1980's. From then, Internet becomes a tangible expression of a new  economic era: the " globalization ", or the " neoliberal project ", according to the perspective of the observers. During this decade we attended the collapse of the socialism in East Europe, the fall of the wall of Berlin in 1989, the crisis of the sandinista project in Nicaragua that ended at the electoral defeat in 1991, and the announcement of the "end of history " according to some first world intellectuals. Postmodernism is the cultural logic resulting from economic globalization process. I use the terms " globalization " and " neoliberalism " indifferently, since I consider they are two ways to talk about the same economic phenomenon.
Keywords: Internet, Globalization, Neoliberalism, Postmodernism, Cultural Logic
 


O apogeu da cibernética se evidencia na década de 1980. A partir dai, a Internet se converte em expressão tangível de uma nova era econômica: a “globalização” ou o “projeto neo- liberal”, segundo a perspectiva dos observadores. Durante esta década, assistimos a queda do socialismo na Europa ocidental, a queda do muro de Berlim em 1989, a crises do projeto sandinista em Nicarágua que desembocou com a derrota eleitoral de 1991, e o anuncio do “fim de historia” por parte de alguns  intelectuais do primeiro mundo [1]. O teórico estadunidense, Fredric Jameson, afirma em Postmodernism. Or the Cultural Logic of Late Capitalism (1991) que “a pós-modernidade” é a lógica cultural conseqüente do processo de globalização econômico – sendo a globalização, a etapa mais avançada do capitalismo (late capitalism) - . Neste trabalho, sigo a proposta de Jameson e aludo ao “ pós- moderno” para me referir à “lógica cultural” – a várias maneiras de fazer sentido- na época do capitalismo avançado  (ou a globalização econômica). Utilizo indistintamente os termos “globalização” e “neoliberalismo”, já que os considero duas maneiras distintas de se referir ao mesmo fenômeno econômico.

Ainda que Jameson afirme que a “pós- modernidade” não possa ser definida com precisão (Introd., XII) admite, entretanto, que pode-se observar as expressões e a “fenomenologia” do “pós- moderno”, assim como experimentar suas “genealogias multíplices” (Introd., XIII). O “pós- moderno”, segundo Jameson, se expressa a través de imagens que aparecem em “fragmentos” (25) e “descontinuações” (29), ou seja a maneira de “colagem” (31), “simulacro” (34, 46), “parodia” (17) ou “pastiche” (17). Para Jameson, as expressões do pós- moderno evidenciam a desaparição  do individual, e  adquirem um caráter mais “impessoal” (16).  Nos lembra também que no pós- moderno predominam os elementos visuais (70). Ainda que se possa constatar este caráter “impessoal” nas expressões culturais das sociedades de primeiro mundo, como Jameson  assinala, em Postmodernism (1991), não penso que esta asserção seja necessariamente aplicável às sociedades de periferia do processo de globalização. Em minha opinião, a lógica “impessoal” da pós- modernidade que caracteriza o processo de globalização econômica segundo Jameson, se converte em muitas outras categorias - incluindo os sentidos opostos e contraditórios- quando se articula desde a periferia do sistema de globalização.

 De todas as expressões possíveis da pós- modernidade, me interessa a Internet como fenômeno de mídia, no qual, segundo minha proposta, pode-se identificar as rupturas da lógica do capitalismo avançado. Me interessam particularmente estas rupturas cibernéticas, ou os “interstícios” onde ocorrem os processos de intercâmbio cultural, como comenta Homi K. Bhabha em The Location of Culture (1994), entre grupos diferentes, e entre as diferentes camadas da sociedade “global”. Me interessa explorar estas rupturas /descontinuações/interstícios da lógica cultural do capitalismo avançado na Internet, à medida em que  estas rupturas permitem a inserção de outras percepções da realidade, de novos tempos/espaços, de maneiras alternativas de perceber a realidade, (?) assim como de questionamentos abertos sobre o próprio processo de globalização. É precisamente nestas rupturas- geralmente articuladas longe dos centros de poder – onde se inicia, em minha opinião, a problemática mais importante sobre a proposta “global”. Destes interstícios, grupos tradicionalmente marginalizados do processo de toma de decisões, começam a se engajar (location, Bhabha) em lugares específicos, re- articulando interpretações da nova situação y reclamando novos espaços políticos,  da mídia cibernética, Internet.

Não me interessa  seguir a proposta de Jameson ao pé da letra, desde que Jameson, em minha opinião, estrutura um discurso abarcador e totalizador sobre o que ele considera como “a” lógica do capitalismo avançado, e escreve do ponto de vista de uma metrópole do processo de globalização, sem levar em conta as particularidades especificas das sociedades periféricas. Em minha opinião, a proposta teórica de jameson não deixa de ser um problema da modernidade.

Se pode constatar, baseado nos jornais da Internet, que a globalização econômica e suas formas de gerar uma “lógica cultural” (a pós- modernidade) motivam constantes debates na América Latina. Os intelectuais têm se manifestado a favor, e contra a globalização, com níveis diferentes de (des) ânimo. Dentro deste esquema, alguns teóricos latino americanos afirmam que a América Latina tem uma identidade cultural “híbrida” (García Canclini, Culturas, 307) e que “la globalización se hace cargo de la cultura” (García Canclini, La Globalización, 63); que América Latina tem desenvolvido uma “modernidad periférica” (Sarlo, 179); que a “imaginación en el poder” criou “nuevas formas de legitimidad del poder político” e que isto faz parte da “pós- modernidade” latino americana (Bartra, Las redes, 13).  Para Martin Hopenhayn, por exemplo, a pós- modernidade é nada mais do que a modernidade que reflete os conflitos sem solução (93), como lemos em “Postmodernism and Neoliberalism in Latin America”, em The Postmodernism Debate in Latin America (1995). Fernando Calderón afirma que na América Latina coexistem etapas incompletas e misturadas de pré- modernidade, modernidade, e pós- modernidade, em seu artigo “Latin American Identity and Mixed Temporalities”, (The Postmodern Debate, 54).  Roger Bartra em La tinta y la sangre (1999) afirma com certo orgulho que a globalização ha terminado com as formas autoritárias nacionais promovidas pelo estado mexicano (60). Também assinala a necessidade de desenvolver “una visión cultural global” desde que, em sua opinião, podem conjeturar “muchas alternativas e una grande cantidad de matizes detrás del neo-liberalismo que,  por momentos, parecería ser a la única opción que ha quedado en pie” (71).

Se pode afirmar que os intelectuais latino americanos também manifestam diferentes graus de nostalgia pela negação do projeto “nação” ante o avanço da globalização, e pelas exigências dos organismos financeiros internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Sem dúvida, esta nostalgia coexiste em uma colagem de imagens diferentes, sensações espaciais e emoções, produzidas na periferia do processo econômico. Bartra afirma que a globalização implica também a queda do que ele denomina “fundamentalidade” do estado moderno, e da esquerda socialista (La tinta, 84). Raquel Olea, por sua parte, afirma em “Feminism: Modern or Postmodern?”, em The Postmodernism Debate in Latin America (1995) que as nações latino americanas, assim como o socialismo do século XX, são projetos de uma “modernidade” que não incluem as mulheres. 0 movimento feminista, na opinião de Olea, é também um projeto da modernidade. A época da globalização econômica -- com  todas as mudanças políticas que a acompanham [2] -- suscitou o surgimento de novas formas de feminismo: o que ela chama “feminism of difference” (198). Esta nova forma de feminismo propõe a abolição / transformação do sistema patriarcal em quaisquer de suas manifestações possíveis. Neste novo enfoque da pós- modernidade, “the personal is the  political” (196), ao contrario do que Jameson afirma que ocorre nos países de primeiro mundo. Olea destaca a importância da criação artística como parte ativa desta proposta de mudança social neo- feminista. Em resposta a deificação da “pura razão” característica dos projetos da modernidade, o feminismo de diferença “involve[s] a revalorization of the experiential, of the body, and of practice itself, as modes of construction of rationalities that arise from logics rooted in the corporeality of women’s experience”(196). O feminismo de diferença da pós- modernidade, de acordo com Olea,  propõe “a space of symbolic production” (199). Existem na Internet, por exemplo, campos que nos dão acesso imediato a  cifras colecionadas  por organismos humanitários internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU), que nos informa da “feminización de la pobreza” [3]. Também é possível participar em colagens de imagens , vozes e reflexões na  Internet, do qual grupos diferentes em todo o globo expõem suas experiências e visão do mundo. A revista CiberLetras é um exemplo desta colagem de possibilidades.

  Nelly Richard, em “Reply to Vidal (from Chile)”, em The Postmodernism Debate in Latin America  (1995) nos relata a experiência da “Revista de Crítica Cultural”,  sob sua direção, como uma micro- experiência que “enacts a peripheral postmodernity specific to Chile and its historical-political experience in the last twenty-five years, a postmodernity that then coexists with, but is not reducible to, metropolitan postmodernism” ( ênfases minha, 308). Richard destaca o fato de que o pós- modernismo não tem uma cara única, mas que “lends itself to a multiplicity of significations” e destaca o caráter “polimorfo” do pós- moderno (308). A teoria nos leva a pensar de maneiras alternativas: “When one gets beyond the facile equation of postmodernism and market neolilberalism, it becomes readily apparent that some postmodernist texts activate (new) energies of resistance and critical opposition, while other deactivate them” (308). Como vemos, para Richard, o pós- modernismo tem “especificações locais” que não “se reduzem” necessariamente à concepção do pós- moderno nas metrópoles da globalização. Richard destaca a riqueza das expressões do pós- moderno na periferia, dados os vários níveis de fragmentação e dissonância  das sociedades situadas nestas áreas. Salienta que é importante utilizar “the postmodernist register” (308) no debate crítico da América Latina, já que assim permite a reapropriação / reconversão de “certain figures (fragmentation, hibridism, decentering…)” (309) que foram deixadas de lado pela maneira concreta em que estes temas se situam entre os problemas atuais no curso da história de nossas sociedades.  De acordo com Richard, estas exclusões /esquecimentos / fragmentações “can be reaccentuated critically by certain of the new theoretical inflections of postmodernism” (309).

Na Internet, se realizam inúmeros debates sobre a pós- modernidade e o feminismo do ponto de vista da periferia da globalização, que podem ser captados de qualquer parte do mundo a qualquer momento [4]. Desta maneira, a periferia estabelece seus temas e  questões no espaço cibernético, podendo assim questionar o próprio projeto da globalização econômica utilizando este próprio tempo- espaço. Estes questionamentos, em paradoxo, se articulam graças à lógica dos meios culturais do neoliberalismo, como a Internet.

Cabe destacar que o processo econômico da globalização, apesar de imposto unilateralmente aos países de terceiro mundo [5], é um sistema frágil. Peter J. Anderson afirma em seu livro The Global Politics of Power, Justice and Death (1996) que na “ age of gloobal interfusion” na qual vivemos, “many states are dwarfed in economic terms by giant global business” (42). Ainda quando a globalização econômica pressuponha a liberalização total das economias e a competição aberta do mercado a nível global, Anderson adiciona que “anything resembling full-blown traditional liberalism involves ‘unfair’ competition in which the disadvantages inherent to some actors mean they could lose out severely under such a system” (53). De acordo com este autor, “the global liberal economic system” pode concretizar transações econômicas em questão de segundos, mas também pode na mesma transação desestabilizar as economias regionais “overnight” (68). Ainda mais, em sua opinião, os governos de todo o planeta dependem destas transações econômicas cibernéticas frágeis de resultados finais imprevisíveis.  De acordo com Anderson, “[w]ith the instant access to economic information, political events and visible trends that computarisation has provided, speculators can byy and sell currencies on a massive scale literally within minutes”. Anderson exemplifica, com o caso da crises de setembro de 1992, na Inglaterra, em  conseqüência  da  perda de confiança dos  investidores da libra esterlina e na economia britânica. Esta “desconfiança” e suas conseqüentes mobilizações de dinheiro overnight (de noite ao dia) -, causou a retirada dos britânicos do Sistema Monetário Europeu (“European Monetary System”) “despite the fact that membership of the system was a loudly  declared cornestone of government policy”(68). Paradoxalmente, estes sucessos evidenciam a grande vulnerabilidade deste jogo econômico mundial, chamado “globalização” no qual todos os países são obrigados a participar. Este determinismo econômico tem gerado fortes reações em pontos diferentes do planeta, especialmente nas áreas que se encontram às margens da “globalização” onde as polêmicas são fortes entre os teóricos a favor da economia neo- liberal (Anderson, 68).

O GATT (Acordo Geral em Tarifas e Câmbios) se encarrega de negociar as condições de intercâmbio comercial entre os países, após a Segunda Guerra Mundial e tem sido “ o ponto de apoio do sistema liberal capitalista após a Segunda Guerra Mundial” (54) Anderson assinala que muitos estados dos que ele considera “less developed states” têm sentido as pressões do GATT para que liberalizem suas economias e eliminem barreiras de tarifas para os produtos estrangeiros, sem que estes países de periferia estejam na posição de proteger suas indústrias nacionais e de competir em igualdade de condições com os produtos provenientes dos grandes mercados. “They have felt that it has been a neocolonialist recipe for keeping them underdeveloped” (Anderson, 54). Alguns estados de economias subdesenvolvidas têm criticado o “extremely preferential access” (Anderson,54) que têm, por exemplo, os produtos japoneses para ingressar no mercado estadunidense. Este tratamento preferencial é o resultado de acordos políticos entre os Estados Unidos e Japão, devido aos japoneses terem permitido que os Estados Unidos estabelessem seu poderio na região do oceano Pacífico, depois da Segunda Guerra Mundial (54).  Anderson assinala o contra-senso de que ainda quando os estados altamente desenvolvidos estabelecem as bases da economia nos princípios mantidos pelo GATT , estes estados desenvolvidos não permitem que lhes sejam aplicados os mesmos “padrões” que se promovem nas economias do resto do planeta.

Me interessa destacar o fato de que os desastres econômicos nos mercados das bolsas européias têm ocorrido de um dia para outro, em conseqüência da fragilidade/vulnerabilidade das transações cibernéticas. Vivemos em uma época em que o conceito de dinheiro se mobiliza de um lugar a outro, de maneira “virtual”, sem deixar de ter um valor real. Este conceito tem implicações especificas na economia dos países [6]. Isso quer dizer que o poder da Internet – como o meio de transações da bolsa- reside na a capacidade de transportar conceitos (econômicos e culturais, comforme o caso) por convenções planetárias na era da globalização.  A nível econômico,  se pode confirmar que o meio (Internet) pode ser o maior inimigo de si próprio: as transações cibernéticas podem paralisar o mercado da bolsa de valores em todo o planeta em questão de segundos. Este meio de comunicação se depara com as limitações de sua própria natureza e subverte as premissas de sua existência. Marshall McLuhan escreveu há mais de 30 anos em Understanding Media (1966) que “el medio es el mensaje” (29) e que os meios são “traductores” de mensagens (77). A Internet, como meio- mensagem, traduz as profundas contradições/cismas do sistema econômico neoliberal.   Precisamente porque o meio- mensagem é questionado por si próprio a nível econômico, percebemos também a nível de sua lógica cultural – ou cibernética- as mesmas fissuras.

O único fato de que a Internet apresenta ruptura que questiona sua própria dinâmica, em minha opinião, abre uma série de possibilidades para os grupos situados na periferia do processo de globalização econômica, para juntar suas vozes/momentos/imagens/ palavras/discursos/narrativas nos intervalos do mundo cibernético e estabelecer desta maneira novas conexões, que de alguma maneira permitam o reconhecimento de sua existência e de suas opções de interpretação sobre os “tempos pós- modernos”. O meio-mensagem ao contrário do que afirma Jameson, permite a inserção na periferia do individual, do pequeno, do quotidiano, do esquecido pelos projetos modernos, presentes agora no espaço planetário cibernético. Estes erros caóticos são quase impossíveis de evitar. Qualquer pessoa com conhecimento tecnológico básico pode introduzir caos no sistema [7]. Retomando à afirmação de Raquel Olea de que “lo personal es político”, encontramos na Internet o translado de milhões de casos pessoais que cruzam vertiginosamente o planeta e que invalidam a afirmação de Jameson sobre o caráter anônimo e impessoal “do” pós- moderno. O jornalista e crítico cultural mexicano, Carlos Monsiváis, afirma por exemplo, que a Internet tem causado um retorno ao “género epistolar” e diz que “navegar es un acto de pasión” (La Jornada en Internet), 16 de outubro de 2000, htttp://www.jornada.unam.mx/2000/oct00/001016/03an1ckt.html)

Um exemplo grandioso das possibilidades de introduzir o caos no projeto de globalização com intenções políticas e a inserção de vozes/imagens e discursos da guerrilha zapatista no México, presentes na Internet. O Exercito Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) é uma guerrilha armada, que  ficou em evidência no mesmo dia em que o governo mexicano anunciou a entrada em vigor do Tratado de Comercio Livre (TLC ou NAFTA, suas siglas em inglês ) no dia 1° de janeiro de 1994. Esta é a primeira guerrilha na história do Ocidente que tem uma página na Internet (http://www.exln.org). Tem sido chamada “la primera guerrilla de la posmodernidad”, e como afirma Roger Bartha, é fundamentalmente uma guerrilha onde se tem produzido textos (La sangre, 19). A página da “web” do EZLN aproveita as possibilidades do meio cibernético para estabelecer as vozes dos indígenas maias, e obter reconhecimento internacional sobre uma situação nacional. Este uso do meio- mensagem cibernético por parte dos zapatistas tem permitido a sobrevivência deste movimento. Talvez o mais importante é  que o meio- mensagem elegido para difundir esta colagem de vozes/línguas/comunicados/imagens tem permitido legitimar a percepção do mundo das culturas maias em uma nação que se idealizou sem incluir os indígenas. (Bartra, La tinta, 40). Em geral, na América Latina, os indígenas no foram incluídos no projeto de nação moderna, estabelecido no século XIX., mas que como cenário exótico de uma história edificada pelos crioulos. A Internet, ou a lógica cultural do capitalismo avançado, com uma página dos zapatistas no site da Internet, expõe uma fissura no projeto do século XIX, ou o projeto incluso da modernidade, como menciona Jurgen Habermas em The Unfinished Project of Modernity   (1997). O surgimento desta guerrilha cibernética traz o problema do indígena à mesa de discussões sobre  “o nacional” na era de globalização, como  afirma Monsiváis em “Crônica de uma convenção” em EZLN. Documentos y Comunicados (1995) (316). De acordo com Monsiváis, o EZLN  “ha impulsado por vías heterodoxas muchos cambios electorales,  ha obligado a la sociedad y al Estado a replantearse la  cuestión  indígena y el  racismo, y ha vuelto inevitable el el análise conceptual y prático del  fenómeno de la violencia en  regiones como Chiapas donde no ha existido el Estado de derecho” como afirma em “Nadie lo dijo primero” Vuelta 213, agosto de 1994:38. No artigo “Will Nationalism be Bilingual?” publicado em Mass Media and Free Trade. NAFT and the Cultural Industries (1996), Monsiváis menciona que a invasão a quatro cidades por parte do exército zapatista em 1º de janeiro de 1994, em Chiapas (San Cristóbal, Oconsingo, Altamirano, e Las Margaritas) deu origem a “the biggest national debate I have witnessed” (140).

A jornalista mexicana Elena Poniatowska  também se refere ao anuncio do levantamento de armas dos zapatistas maias, que se publicou quase imediatamente nos meios cibernéticos, e afirma em First World Ha! Ha! Ha! (1995): “Neste dia, os Chiapas, o estado mais pobre do México, de repente se ergueu  e disse, ‘Nós, também, somos México, e não somos modernos. Somos analfabetos, não temos eletricidade, água encanada, nossas casas não têm piso, dois terços de nossas crianças não têm escola, temos o maior índice de tuberculoses do país, e a metade de nossa população não fala espanhol” (103).

    A lógica do capitalismo avançado expõe muitos rumos aos acadêmicos, como estudiosos de eventos culturais. Me uno à preocupação de Hegel, quem pensava que o objeto de estudo dos filósofos de sua época deviam ser os “tempos modernos” [8]. Acredito que deve ser também o objeto de estudo dos interessados em cultura. Os acadêmicos  agora têm um objetivo maior, que é o de atreverem- se a criar novas formas de se comunicarem, utilizando a lógica da globalização. A época em que vivemos nos exige maneiras de fazer mais sentido utilizando a lógica de multimídia,  para utilizar esse   meio de maneira mais ou menos apropriada.  De agora em diante, não deveríamos nos preocupar em articular discursos que demonstrem uma verdade,  mas construir colagens de fragmentos que convidem aos vários sentimentos humanos ! a criar sentido(s) lógico (s) ! Temos presente a oportunidade de incorporar  na Internet formas múltiplas de meios- mensagens,  em artefatos culturais mais variados, mais artísticos. Podemos também produzir discursos menos pretensiosos, abarcadores, ou generalizadores; em último caso: podemos deixar de buscar o lócus sagrado da lógica moderna.

Este trabalho que entrego para ser considerado , não escapa do pecado capital do academicismo moderno, desde quando proponho algumas interpretações do pós-moderno. Contudo, confio que esta discussão seja questionada- em sua totalidade ou em suas particularidades- e que meu propósito de apresentar uma interpretação da pós-modernidade, composta por muitos intevalos –discursos/ imagens/vozes/conexões- não produzidas por mim necessariamente dêem a oportunidade de investigar as diversas possibilidades que oferecem as rupturas da lógica cultural do capitalismo avançado. Não quero que meu intento seja interpretado como uma posição entusiasta sobre a globalização econômica. Sigo, com uma grande preocupação, as cifras do empobrecimento geral, oferecidas pelo organismo da ONU  e pelo jornais dos países da periferia, na Internet. Contudo, tenho a esperança de que a globalização não seja um projeto tão monolítico e autoritário nos países de terceiro mundo como se tem manifestado até o presente momento. Meu interesse tem sido expor as rupturas/descontinuidades/interstícios do próprio meio/mensagem, e as possibilidades para as vozes diferentes. Talvez estes intervalos que assinalei na Internet- como acontece no nível econômico- , logrem questionar a nível lógico a aceitação passiva e implacável do projeto de globalização, tal como se tem estabelecido nos países de periferia.
 

NOTAS
[1] Concretamente, me refiro a Francis Fukayama, cujo artigo “The End of History”,  publicado em The National Interest (Summer1989); gerou várias publicações a favor e contra a tese do autor.

[2] Raquel Olea e Nelly Richard, ambos intelectuais chilenos, reconhecem que um resultado positivo da globalização tem sido o fim da ditadura de Pinochet  e  o regresso da democracia constitucional em países do Hemisfério Sul: Chile, Argentina, Uruguai.

[3] Como exemplos, temos: a página da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os direitos humanos: http://www.unhchr.ch/html/menu2/9/vfindige.htm, a página na Web da ONU que denuncia as cifras atuais da fome no mundo: http://www.gersite.com/, e a página do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Mulher (UNIFEM) que difunde a experiência organizadora de milhões de mulheres no terceiro mundo em: http://www.unifem.undp.org/.

[4] Neste sentido, quero destacar o trabalho do jornal “La Jornada en Internet” (http://unam.netgate.net/jornada/) que se encarrega de refletir imagens, vozes e várias outras experiências que surgiram na periferia do processo de globalização econômica.

[5] Sendo absolutamente obrigatório para os países de terceiro mundo implementar ao menor prazo possível, todas as medidas de “saúde” econômica estabelecidas pelas entidades financeiras internacionais tal como o Banco Mundial, a Organização Mundial de Comércio ou o Fundo Monetário Internacional. Os serviços mais típicos são: a redução dos gastos estatais; o desmantelamento de bens e serviços sociais mantidos pelo estado-- especialmente nas áreas de educação e saúde --; a eliminação do subsídio estatal à produção nacional nos países de periferia; e a eliminação de tarifas, principalmente nos produtos que entram nos mercados latino americanos, manufaturados nos países de primeiro mundo.

[6] Estas implicações são muito mais trágicas para as economias da periferia.

[7] Um exemplo ilustrativo a que me refiro é o fluxo incontrolável do “vírus ”  transmitido pelo espaço cibernético. Podemos também lembrar do escândalo provocado pelo descoberta de que o vírus “I love you” que causou dano aos milhões de computadores ao principio do ano 2000, foi criado por dois jovens adolescentes das Filipinas, provenientes de um ambiente modesto e de recursos escassos.

[8]Hegel afirma que "The modern world is this essential power of connection..."
 


Referências Bibliográficas

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Sobre a autora / About the Author:
Dr. Hilda Chacón, FLLD
hxchacon@naz.edu
Nazareth College
4245 East Avenue
Rochester, NY 14618
Telephone: (716) 389-2687

[Tradução do artigo em espanhol publicado na revista CiberLetras - http://www.lehman.cuny.edu/ciberletras/]
[Por indicação da autora, foi mantida a tradução original de Maria Souza-Hogan]