DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.2   n.3  jun/01                       COLUNAS

Glosas Heterodoxas a um dos Motes do Dia, ou Variações Anti-Sociológicas -
por Tobias Barreto
 

   Eu não creio na existência de uma ciência social. A despeito de todas as frases retóricas e protestos em contrário, insisto na minha velha tese: - a sociologia é apenas o nome de uma aspiração tão elevada, quão pouco realizável.

   Além deste caráter de simples postulado do coração, que vê ou quisera ver na sociedade humana um todo orgânico, subordinado, como os demais organismos, a certas e determinadas leis, a palavra não tem outro sentido, que mereça ser investigado.

   Logo em princípio, salta aos olhos que o estudo dos fenômenos sociais, considerados em sua totalidade e reduzidos à unidade lógica de um sistema científico, daria em resultado uma estupenda pantosofia, evidentemente incompatível com as forças do espírito humano.

   Se nem mesmo como ciência descritiva, que aliás envolve, na opinião de Haeckel, uma contradictio in adjecto, a ciência social é construtível, pois que não podem ser descritos, todos os fenômenos da sua alçada, por que razão se-lo-ia como ciência de princípios, como ciência de leis, que têm de ser induzidas da observação desses mesmos fatos?

   Desconheço uma tal razão. Entretanto, não se suponha que eu tenha jurado aos meus deuses fazer uma guerra à sociologia. Não estou disposto a afrontar o martírio na luta contra ela. Porém julgo ter o direito de exigir dos seus sectários alguma coisa de mais sério do que meia dúzia de estribilhos e convenções da escola. Exijo pouco, mas esse pouco é tudo.

   Enquanto pois, assim como a velha astrologia dos Apolônios de Tiana, dos magos da Caldéia, passou a ser astronomia dos Copérnicos, dos Galileus e dos Keplers, a nova sociologia dos Spencers e outros sociólogos e magos do ocidente, não passar também a ser socionomia de sábios, de estadistas e políticos, estou firme na minha convicção: - a sociologia é uma frase.

    E isto parece tanto mais admissível, quanto é certo que, bem ponderado, nem sequer já nos achamos no período propriamente sociológico, mas no período sociolátrico. A religião da humanidade, o semideísmo dos grandes homens, que é sem dúvida mais honroso, porém não menos inexplicável que o semideísmo dos Césares, pertencem a esta fase.

   Entretanto, a sociolatria, ainda mesmo que lhe sirvam de objeto as mais altas manifestações da grandeza humana, é inconciliável com uma ciência social, qualquer que seja o grau do seu desenvolvimento.

   Desde que conhecemos, por exemplo, a natureza, a órbita e a marcha dos cometas, não há mais lugar de contemplá-los com admiração e terror. Assim também, se é conhecida a lei da formação dos gênios, pois que os gênios são fenômenos sociais, como todos da mesma ordem, segundo pretende a sociologia, redutíveis a leis, para que engrandecê-los e deificá-los?
 

(... continua)
(...)
 

   A contradição é palpável; e destarte a sociolatria, que ainda reina nos próprios domínios da chamada sociologia positiva, encarrega-se, por si só, de combatê-la e aniquilá-la.

   Não me é estranho que sociólogos mais coerentes com os pressupostos apriorísticos da sua ciência negam o mérito e importância dos grandes personagens. Mas também é certo que o que eles assim revelam de senso lógico não compensa-lhes a falta de senso histórico.

   A pequenez das grandes, como a grandeza das pequenas individualidades, é um paradoxo, apenas tolerável na esfera religiosa, onde o valor das idéias não é determinado pela verdade delas, mas sobretudo pela sua capacidade de iludir e consolar.

   Debemur morti nos nostraque: é um bonito princípio este, da igualdade perante a morte, porém ainda mais estéril que o axioma democrático da igualdade perante a lei, e como tal só tem um sentido, - no pórtico dos cemitérios. Fora daí, dentro das raias da vida, no vasto laboratório das idéias e das ações, a dupla categoria de grandes pequenos homens é a expressão de um fato, que nenhum sofisma poderá jamais destruir.

   É incalculável o gasto que se tem feito de papel e tinta em proclamar o alto valor da sociologia. Porém mais incalculável me parece a falta de senso com que, ainda hoje, os sociólogos se julgam obrigados a demonstrar com argumentos de todo gênero a realidade desse ramo de indagação e sistematização científica.

    Como se isto não fosse bastante para provar justamente o contrário! Uma ciência, que é realmente tal, não tem necessidade de fazer de sua própria existência a primeira questão que lhe cumpre resolver.

   Se ela de fato existe, os seus resultados incumbir-se-ão de defendê-la. Insistir na demonstração de uma ciência social, no sentido positivo da palavra, não é mais, por conseguinte, do que uma prova indireta, ou uma confissão inconsciente da sua inexistência.



Glosas Heterodoxas a um dos Motes do Dia, ou Variações Anti-Sociológicas (Parte I, divulgada no "Diário de Pernambuco" em agosto de 1884 - republicado em Estudos de Filosofia, Grijalbo-MEC, 1977, p 315-317; coletânea organizada por Paulo Mercadante e Antonio Paim, com base nos Volumes I e III da Obra Completa, editada pelo Instituto Nacional do Livro em 1966).

Tobias Barreto de Meneses (1839-1889) foi professor de Prática do Processo, na Faculdade de Direito de Recife, Pernambuco, de 1882 a 1887. Polímata, bacharel em Direito, fundador de um colégio, de um jornal e de uma tipografia, foi um dos pioneiros da chamada Escola do Recife. Crítico do ecletismo espiritualista e do positivismo, defendendo a metafísica em um diálogo aberto com as ciências, seus escritos podem ser considerados precursores do culturalismo. (Veja também o artigo Relatividade de Todo Conhecimento)