Glosas Heterodoxas a um dos Motes do Dia, ou Variações
Anti-Sociológicas - I
por Tobias Barreto
Eu não creio na existência de uma ciência
social. A despeito de todas as frases retóricas e protestos em contrário,
insisto na minha velha tese: - a sociologia é apenas o nome de uma
aspiração tão elevada, quão pouco realizável.
Além deste caráter de simples postulado do
coração, que vê ou quisera ver na sociedade humana
um todo orgânico, subordinado, como os demais organismos, a certas
e determinadas leis, a palavra não tem outro sentido, que mereça
ser investigado.
Logo em princípio, salta aos olhos que o estudo
dos fenômenos sociais, considerados em sua totalidade e reduzidos
à unidade lógica de um sistema científico, daria em
resultado uma estupenda pantosofia, evidentemente incompatível
com as forças do espírito humano.
Se nem mesmo como ciência descritiva, que aliás
envolve, na opinião de Haeckel, uma contradictio in adjecto,
a ciência social é construtível, pois que não
podem ser descritos, todos os fenômenos da sua alçada, por
que razão se-lo-ia como ciência de princípios, como
ciência de leis, que têm de ser induzidas da observação
desses mesmos fatos?
Desconheço uma tal razão. Entretanto, não
se suponha que eu tenha jurado aos meus deuses fazer uma guerra à
sociologia. Não estou disposto a afrontar o martírio na luta
contra ela. Porém julgo ter o direito de exigir dos seus sectários
alguma coisa de mais sério do que meia dúzia de estribilhos
e convenções da escola. Exijo pouco, mas esse pouco é
tudo.
Enquanto pois, assim como a velha astrologia dos
Apolônios de Tiana, dos magos da Caldéia, passou a ser astronomia
dos Copérnicos, dos Galileus e dos Keplers, a nova sociologia
dos Spencers e outros sociólogos e magos do ocidente, não
passar também a ser socionomia de sábios, de estadistas
e políticos, estou firme na minha convicção: - a sociologia
é uma frase.
E isto parece tanto mais admissível, quanto
é certo que, bem ponderado, nem sequer já nos achamos no
período propriamente sociológico, mas no período
sociolátrico.
A religião da humanidade, o semideísmo dos grandes homens,
que é sem dúvida mais honroso, porém não menos
inexplicável que o semideísmo dos Césares, pertencem
a esta fase.
Entretanto, a sociolatria, ainda mesmo que lhe sirvam
de objeto as mais altas manifestações da grandeza humana,
é inconciliável com uma ciência social, qualquer que
seja o grau do seu desenvolvimento.
Desde que conhecemos, por exemplo, a natureza, a órbita
e a marcha dos cometas, não há mais lugar de contemplá-los
com admiração e terror. Assim também, se é
conhecida a lei da formação dos gênios, pois que os
gênios são fenômenos sociais, como todos da mesma ordem,
segundo pretende a sociologia, redutíveis a leis, para que engrandecê-los
e deificá-los?
(... continua)
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(...)
A contradição é palpável; e
destarte a sociolatria, que ainda reina nos próprios domínios
da chamada sociologia positiva, encarrega-se, por si só, de combatê-la
e aniquilá-la.
Não me é estranho que sociólogos mais
coerentes com os pressupostos apriorísticos da sua ciência
negam o mérito e importância dos grandes personagens. Mas
também é certo que o que eles assim revelam de senso lógico
não compensa-lhes a falta de senso histórico.
A pequenez das grandes, como a grandeza das pequenas individualidades,
é um paradoxo, apenas tolerável na esfera religiosa, onde
o valor das idéias não é determinado pela verdade
delas, mas sobretudo pela sua capacidade de iludir e consolar.
Debemur morti nos nostraque: é um bonito
princípio este, da igualdade perante a morte, porém
ainda mais estéril que o axioma democrático da igualdade
perante a lei, e como tal só tem um sentido, - no pórtico
dos cemitérios. Fora daí, dentro das raias da vida, no vasto
laboratório das idéias e das ações, a dupla
categoria de grandes e pequenos homens é a expressão
de um fato, que nenhum sofisma poderá jamais destruir.
É incalculável o gasto que se tem feito de
papel e tinta em proclamar o alto valor da sociologia. Porém mais
incalculável me parece a falta de senso com que, ainda hoje, os
sociólogos se julgam obrigados a demonstrar com argumentos de todo
gênero a realidade desse ramo de indagação e sistematização
científica.
Como se isto não fosse bastante para provar
justamente o contrário! Uma ciência, que é realmente
tal, não tem necessidade de fazer de sua própria existência
a primeira questão que lhe cumpre resolver.
Se ela de fato existe, os seus resultados incumbir-se-ão
de defendê-la. Insistir na demonstração de uma ciência
social, no sentido positivo da palavra, não é mais, por
conseguinte, do que uma prova indireta, ou uma confissão inconsciente
da sua inexistência.
Glosas Heterodoxas a um dos Motes do Dia, ou Variações
Anti-Sociológicas (Parte I, divulgada no "Diário de Pernambuco"
em agosto de 1884 - republicado em Estudos de Filosofia, Grijalbo-MEC,
1977, p 315-317; coletânea organizada por Paulo Mercadante e Antonio
Paim, com base nos Volumes I e III da Obra Completa, editada pelo Instituto
Nacional do Livro em 1966).
Tobias Barreto de Meneses (1839-1889) foi professor de Prática
do Processo, na Faculdade de Direito de Recife, Pernambuco, de 1882 a 1887.
Polímata, bacharel em Direito, fundador de um colégio, de
um jornal e de uma tipografia, foi um dos pioneiros da chamada Escola do
Recife. Crítico do ecletismo espiritualista e do positivismo, defendendo
a metafísica em um diálogo aberto com as ciências,
seus escritos podem ser considerados precursores do culturalismo. (Veja
também o artigo Relatividade
de Todo Conhecimento)
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