Resumo: Trata do conceito inovador de auto-arquivamento
e suas implicações no sistema de publicações
científicas. Esta nova filosofia procura minimizar as conseqüências
provocadas pelo controle editorial, pela revisão severa entre os
pares e pela reserva dos direitos autorais. A experiência da Budapest
Open Access Initiative (BOAI) é relatada com o objetivo de mostrar
uma ação efetiva que viabiliza o auto-arquivamento. Fundamentada
no acesso livre (open access), a BOAI pretende uma reorganização
dos mecanismos de produção do meio científico, baseada
em conceitos mais democráticos de acesso ao conteúdo.
Palavras chave: Arquivos-abertos, Sistema de Publicação,
Budapest Open Access Initiative, Acesso Livre, Auto-arquivamento
Abstract: This paper treats of the innovative concept
of Self-Archiving and its implications in the system of scientific publications.
This new phylosophy tries to minimize the consequences caused by editorial
control, by a hard peer reviewing and copyrights. The experience of Budapest
Open Access Initiative (BOAI) is reported with the purpose to show an effective
action which make the self-archiving feasible. Based on open access, the
BOAI intends to reorganize the mechanisms of scientific environment production,
based on more democratic concepts of access to content.
Keywords: Open Archives, Publication System, Budapest
Open Access Initiative, Open Access, Self-archiving
1. Introdução
A nova era da Internet tem provocado grandes mudanças
no seio dos sistemas de publicações. Ao estabelecer um paralelo
entre publicação eletrônica e publicação
impressa, observa-se que a primeira apresenta grandes vantagens em relação
a segunda, tornando-se uma das principais fontes de informação
e de meio de disseminação de pesquisas científicas,
além de proporcionar uma maior visibilidade e acessibilidade ao
conteúdo.
Taubes (1996) aponta algumas vantagens da publicação eletrônica, em relação à tradicional. Dentre elas, o autor cita a possibilidade do uso de :
No que diz respeito ao valor quantitativo da
produção científica do pesquisador, as publicações
eletrônicas dão um passo a frente do modelo tradicional. Além
de contabilizarem a produção individual (quantos artigos
o autor publicou) e o número de citações (índice
de impacto), as novas tecnologias de informação e comunicação
possibilitam obter o somatório de vezes que o artigo foi acessado.
Anterior ao surgimento da Rede, toda a publicação
científica era produzida em papel a um custo alto. Ainda hoje, devido
a fatores econômicos ou por problemas de distribuição,
os pesquisadores enfrentam sérias dificuldades de acessar grande
parcela da literatura científica. As editoras comerciais criam obstáculos
que dificultam o acesso às informações, e conseqüentemente
à sua disseminação. Os custos elevados das publicações
científicas, tanto na forma impressa quanto eletrônica, são
barreiras para muitos pesquisadores, bibliotecas, instituições
de ensino e de pesquisa. Mesmo as instituições e universidades
com grandes recursos não têm acesso a todas as publicações
científicas. No modelo tradicional de publicação,
os gastos de editoração são repassados ao usuário
no momento de acessar o documento por meio de cobranças de assinaturas.
Mesmo com o aparecimento da possibilidade de disponibilizar a produção
científica via Internet, grandes editoras ainda se beneficiam, exigindo
pagamento no acesso a versão em linha da revista científica,
nas licenças de uso de sites e no sistema de pagamento por artigo
lido (pay-per-view). Esta atitude tem prejudicado pesquisadores
que pouco ganham com o mercado editorial e cujo objetivo é, ao final
do processo, divulgar o trabalho científico produzido. É
neste sentido que Harnard (2201a) comenta que
Em outras palavras, raramente os pesquisadores
visam o lucro econômico quando publicam suas pesquisas em publicações
científicas. Os objetivos estão muito mais voltados a divulgar
seus trabalhos para obter reconhecimento profissional, influência
e prestígio junto à sua comunidade, e, principalmente, contribuir
para o desenvolvimento da ciência, disseminando o conhecimento.
No contexto mais mercadológico que científico, muito se perde. Tanto o pesquisador não atinge a ampla divulgação de seu trabalho científico em sua comunidade científica, quanto enfrenta sérias dificuldades na obtenção das informações que necessita. As alternativas proporcionadas pelas tecnologias de informação, se não eliminam, ao menos reduzem essas barreiras.
Outro ponto que tem sido bastante debatido como fator de dificuldade para divulgação da grande massa de produção científica é a questão relacionada a revisão entre os pares. Godlee (2000) alerta que a revisão feita por um comitê de uma revista científica passou de uma função prática de seleção para um papel de garantia inquestionável da qualidade do artigo, sem contemplar a transparência necessária para este processo. Entre os diversos aspectos negativos da tradicional revisão entre os pares, a autora destaca: a morosidade do processo, o grande volume de tempo dedicado pelos pesquisadores para exercer esta tarefa, a variabilidade de critérios e a seletividade e arbitrariedade excessivas. Muitos trabalhos científicos de qualidade têm sua divulgação limitada devido a julgamentos parciais por parte de um comitê científico. Estes trabalhos "não controlados" têm encontrado um espaço na Rede para serem divulgados e, cada vez mais, estão sendo citados em pesquisas científicas de renome. É evidente que um certo tipo de filtragem é importante, no entanto ele não deve existir a ponto de prejudicar a divulgação do produto científico.
Alguns fórum científicos têm
se formado para discutir questões relativas a revisão entre
os pares. Um deles foi a International Conference on Biomedical Publications
based on the Peer Review System and Global Communication (Revuelta
1998) realizada em Praga, em setembro de 1997. Neste encontro, foram
discutidos os seguintes pontos relacionados a metodologia de seleção
de trabalhos científicos e considerados prejudiciais ao processo
de qualificação:
Os processos de avaliação dos trabalhos
para publicação não estão isentos de erros,
livres de discriminação e de conflitos de interesses. A estrutura
tradicional montada para a qualificação do trabalho de pesquisa
será ainda a forma desejada pela comunidade? O que as novas
tecnologias de informação e comunicação poderiam
contribuir para a melhoria deste processo?
Aliados a questão do mercado editorial e da
revisão entre os pares, encontram-se problemas relacionados
aos direitos autorais. A preocupação com a apropriação
ilegal da propriedade intelectual e a violação dos direitos
autorais não surgiu com a Internet e com as publicações
eletrônicas. Trata-se de um problema que sempre existiu na publicação
impressa, e vem resistindo aos mecanismos e leis coercitivos. A lei sobre
direitos autorais (Lei 9610 de 19 de fevereiro de 1998) não faz
distinção entre o meio impresso e o digital, gerando discussões
que mostram que a questão dos direitos autorais está em evolução,
não sendo possível fazer uma previsão do seu futuro.
Segundo Martins Filho (1998), "os direitos morais e patrimoniais sobre
a obra pertencem ao autor que a criou" e se caracterizam por dois aspectos:
Portanto, a lei de direitos autorais garante
ao autor o controle exclusivo sobre a sua obra e, para alguns, são
válidas tanto no ambiente impresso (mundo real) quanto no eletrônico
(mundo virtual). As cópias sem autorização e o roubo
da propriedade intelectual (plágio) no ambiente eletrônico,
são, portanto, violações ao direito autoral.
As questões relativas aos interesses econômicos que envolvem as publicações comerciais são minimizadas quando se discute o interesse das comunidades acadêmicas e científicas, cuja preocupação maior é, tão somente, a proteção à propriedade intelectual.
A divulgação de um pré-print
é um direito legal do autor e só pode ser modificado no caso
de imposição por normas editoriais de uma revista.
No sistema tradicional de publicação,
geralmente o autor perde o direito de divulgar um artigo, um relatório
de pesquisa ou outro documento desta natureza, uma vez que já tenha
se comprometido com uma casa editorial. Este quadro tem sofrido mudanças
significativas. Algumas revistas científicas têm explicitamente
encorajado autores a divulgarem seus pré-prints e postprints.
Neste contexto, algumas ações estão sendo tomadas no âmbito do sistema de publicação científica com o intuito de incentivar o acesso e a divulgação dos trabalhos produzidos. A comunidade científica vem tentando retomar o controle de suas publicações, criando mecanismos para possibilitar o acesso livre e gratuito.
Este artigo trata especificamente do conceito inovador
de auto-arquivamento que, como veremos mais adiante, procura minimizar
as conseqüências provocadas pelo controle editorial, pela revisão
severa entre os pares e pela reserva dos direitos autorais. A experiência
da Budapest Open Access Initiative (BOAI) é relatada com
o objetivo de mostrar uma ação efetiva que viabiliza o auto-arquivamento.
3. A Iniciativa dos Arquivos Abertos (Open Archives Initiative
- OAI)
Em 1991, Paul Ginspard, implantou o primeiro repositório
de eprints mantido pelo Laboratório Nacional de los Alamos,
Novo México. Inicialmente concebido para área de Física,
conta hoje com as áreas de Matemática e Ciências da
Computação. O crescente número de artigos arquivados
nesse repositório desde o período de sua criação
comprova o sucesso desse modelo para comunicação científica.
Várias iniciativas similares foram criadas em diferentes áreas do conhecimento, como por exemplo o GogPrints [i], a Perseus Digital Library [ii], NSDL Open Archives [iii], PhysNet [iv]. Inicialmente, surgiram informalmente como um meio de compartilhar em uma mesma comunidade os resultados de pesquisas, relatórios preliminares, trabalhos ainda não revisados (non-peer reviewed), etc. Com o aumento desses tipos de repositórios disponíveis na Web, sentiu-se a necessidade de criar uma estrutura técnica e estabelecer padrões de tecnologias de informação e comunicação que viabilizassem a interoperabilidade entre eles.
Com este objetivo, foi realizado em Santa Fé, Novo México, em outubro de 1999, um encontro com representantes das organizações que gerenciam provedores de serviços de eprint. Como fruto desta reunião, foi implantado a Iniciativa dos Arquivos Abertos (Open Archives Initiative - OAI). Esta iniciativa tem como objetivo desenvolver e promover a implantação e a disseminação dos conteúdos dos arquivos de eprint, chamados arquivos abertos.
A denominação "arquivos" é utilizada pela comunidade de eprint para se referir aos repositórios de trabalhos acadêmicos, e passou a ser usada pela OAI, num sentido mais amplo, para definir os repositórios de informações armazenadas. (Lagoze, 2001).
A OAI é apoiada pela Digital Library Federation, pela Coalition for Networked Information e pela National Science Foundation, e dedica-se a solucionar problemas relacionados a interoperabilidade entre os arquivos abertos, com o objetivo de ampliar o acesso às publicações científicas e acadêmicas.
Atualmente, existem, registrados na OAI, 95 provedores de dados (data providers), que disponibilizam os metadados dos conteúdos de seus arquivos e 9 provedores de serviços (data services) que executam a coleta automática de dados (harvesting) nos arquivos abertos.
A filosofia definida pela comunidade que participa
da OAI envolve várias noções. O conceito de auto-arquivamento
é um deles. Segundo Van de Sompel & Lagoze (2000), o auto-arquivamento
é uma das soluções grandemente incentivadas pela OAI.
É justamente este conceito que passamos a descrever a seguir.
4. Auto-arquivamento : conceituação
Segundo descrito no site (http://www.eprints.org/self-faq)
reservado a questões sobre Eprint da Universidade de Southampton
do Reino Unido, auto-arquivar (to self-archive) significa depositar
um documento digital em um site público da web, preferencialmente
em repositório do tipo Eprint compilado para o protocolo
Open Archive Initiative (OAI). Ao submeter um documento em um ambiente
desta natureza, o autor informa o conteúdo de um conjunto de metadados
definido pela OAI a um sistema do tipo Eprint e envia o documento
ao repositório ou indica a url onde se encontra o texto referente
aos metadados. O protocolo OAI é importante para viabilizar a coleta
automática dos metadados.
Agindo desta forma, o autor garante a visibilidade
e acesso aos trabalhos de pesquisa desenvolvidos, aumentando as possibilidades
de ser citado e conhecido amplamente. Além disso, minimiza radicalmente
as barreiras impostas nos sistemas tradicionais de publicação.
Em outra palavras,
O auto-arquivamento não restringe o ato de depositar um documento exclusivamente ao autor do texto eletrônico, mas admite igualmente a submissão por terceiros, desde que autorizada pelo autor.
A tipologia de documentos em um sistema de auto-arquivamento
reflete o caminho habitual percorrido no registro de uma pesquisa. Assim
sendo, um repositório Eprint deve permitir a inclusão
tanto de pré-prints como de postprints e fazer a ligação
entre as diversas versões.
O software Eprint desenvolvido pela Universidade
de Southampton admite todas estas possibilidades. Este software
está sendo atualmente adotado pelo Instituto Brasileiro de Informação
em Ciência e Tecnologia (IBICT) que já conta com repositórios
de arquivos abertos implantados em algumas comunidades científicas
nacionais.
Uma das grandes preocupações dos cientistas no que se refere ao auto-arquivamento consiste na qualidade dos trabalhos submetidos ao repositório. É importante salientar que a revisão pelos pares continua a ocupar seu papel essencial no controle do material publicado.
A filosofia dos arquivos abertos faz uma alerta aos
procedimentos de negociação de transferência de direitos
autorais junto ao editor. Uma solução interessante
adotada quando o editor não admite o auto-arquivamento do postprint
é sugerida no site do Eprint (http://www.eprints.org/self-faq)
da seguinte forma :
Finalmente, é necessário esclarecer
a diferença entre auto-publicação (vanity press)
e auto-arquivamento (refereed research). No modelo preconizado pelos
arquivos abertos, o fato de tornar público um texto científico
não significa que se trate de uma publicação. No entanto,
o fato do artigo ter obtido uma boa apreciação entre os pares
é suficiente para ser contado como publicação. A distinção
no meio científico é portanto a qualidade do trabalho e para
isto necessita da validação de um grupo de especialistas.
Nesse sentido, Harnard (2001) esclarece que
5. Budapest Open Access Initiative (BOAI)
Ações concretas que seguem a filosofia do auto-arquivamento começam surgir no cenário mundial. Uma delas é a Budapest Open Access Initiative (BOAI) (http://www.soros.org/dev/manifesto/read.shtml). Esta iniciativa foi criada em dezembro de 2001 durante o encontro promovido pelo Open Society Institute (OSI [v]). Participaram vários representantes de instituições que apóiam o acesso livre (open access) da literatura de pesquisa.
Por open access, a BOAI entende uma literatura
A Iniciativa salienta que em todo o processo
deve ser dado ao autor o controle da integridade do conteúdo do
trabalho e respeitado o direito de ser citado e devidamente referenciado.
O encontro de Budapeste teve como objetivo maior
impulsionar os esforços de vários países no sentido
de disponibilizar gratuitamente artigos produzidos por cientistas. O leque
variado de assuntos discutidos contemplaram:
Como salientado por Grimware (2002), para atingir
o que pretende a concepção do open access será necessário
quebrar as barreiras impostas pelos altos preços das assinaturas
de revistas científicas. O autor salienta que
Para tanto, a BOAI adota duas estratégias
principais. A primeira delas diz respeito ao auto-arquivamento, onde o
autor deposita seus textos completos em arquivos eletrônicos abertos.
Estes arquivos devem seguir as normas do protocolo da Open Archive Initiative
para que possa ser efetuado a coleta automática de dados, facilitando
o acesso ao conteúdo. A segunda estratégia refere-se ao financiamento
de revistas de pesquisa que não cobrem pela assinatura ou acesso.
A finalidade da iniciativa de Budapeste não
é boicotar os editores científicos, mas tornar acessível
os produtos produzidos pelas comunidades científicas, ou seja quebrar
barreiras. Em recente participação na lista de discussão
da American Scientist Fórum (http://amsci-forum.amsci.org/archives/september98-forum.html),
Bosc (2002) esclarece alguns pontos de atuação da BOAI. Segundo
a autora [vi]
Como podemos observar, as ações
do BOAI estão em comum acordo com os conceitos descritos para o
auto-arquivamento.
6. Conclusão
No decorrer dos últimos anos, tem-se observado
importantes mudanças no sistema de publicação científica.
Se por um lado a Internet e as novas tecnologias da informação
e da comunicação têm oferecido os meios tecnológicos
para viabilizar estas transformações, por outro, o mundo
da ciência tem buscado novas estratégias de divulgação
e acesso dos resultados de pesquisas.
O auto-arquivamento tem sido uma opção de grande aceitação no mundo científico. Este meio tem encontrado espaço em iniciativas semelhantes ao BOAI, citado no presente trabalho. Fundamentado na filosofia do acesso livre, ela pretende uma reorganização do sistema de publicações, baseada em conceitos mais democráticos de acesso ao conteúdo.
Procuramos neste artigo mostrar esta nova concepção de publicação científica, esclarecendo o conceito inovador de auto-arquivamento e sua aplicação na BOAI.
[i] http://cogprints.soton.ac.uk/
[ii] http://www.perseus.tufts.edu/
[iii] http://siteforscience.nsdl.cornell.edu
[iv] http://physics-network.org/PhysNet/
[v] Fundada pelo bilionário filantropo George Soros, a OSI tem
como seu principal objetivo a construção de uma sociedade
aberta.
[vi] Tradução livre do texto original em francês
BOSC, Helene. BOAI: faisons tomber les fausses-idées. LISTSERVER.SIGMAXI.ORG. Disponível em: < http://listserver.sigmaxi.org/sc/wa.exe?A2=ind02&L=september98-forum&F=l&S=&P=19048>. Acesso em: 07 jun. 2002.
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Sobre as autoras / About the Authors:
Ligia Café
PhD em Lingüística
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia - IBICT
SAS Quadra 5 Lote 6 Bloco H
70070-914 Brasília - DF
Márcia Basílio Lage
Bibliotecária
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia - IBICT
SAS Quadra 5 Lote 6 Bloco H
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