Resumo: A Ciência da Informação
tem recebido muitas influências das Ciências Cognitivas, que
são encontradas também no âmbito da gestão da
informação e da inteligência empresarial. Neste trabalho,
a inteligência empresarial foi analisada sob o ponto de vista da
Biologia do Conhecer. Argumenta-se em favor da idéia de que esta
teoria possibilita discutir os conceitos de informação e
de conhecimento sob uma perspectiva inteiramente nova. Por conseguinte,
a Biologia do Conhecer poderá influenciar, significativamente, os
estudos voltados para a gestão da informação e da
inteligência empresarial e a Ciência da Informação
como um todo.
Palavras-chave: Inteligência Empresarial;
Pequenas e Médias Empresas; Conhecimento; Informação;
Biologia do Conhecer
Abstract: The Information Science has been receiving
a lot of influences from the Cognitive Sciences, which have been observed,
also, in the information management and business intelligence studies.
In this work, the business intelligence activity was analysed under the
cognitive approach of the Biology of Knowledge. It is argued in support
of the idea that the Biology of Knowledge enables one to discuss the concepts
of information and knowledge from an entirely new point of view. Consequently,
the Biology of Knowledge could, significantly, influence the studies in
the fields of information management and business intelligence and the
Information Science as a whole.
Keywords: Business Intelligence; Small and Middle-sized
Business; Knowledge; Information; Biology of Knowledge
1. Introdução
A Ciência da Informação contém elementos que demonstram a sua relação com outras ciências, tais como as ciências naturais, com os estudos da comunicação, com a ciência da computação e com as ciências sociais.
Segundo Vakkari (1994), o que se observa neste percurso de relações
com outras disciplinas é que, a partir do final dos anos 70, um
grande número de pesquisadores convenceram-se de que o caminho mais
promissor para a área estaria no enfoque cognitivo. A essência
dessa idéia é a percepção, a cognição
e as estruturas de conhecimento humano pautadas no paradigma cognitivo
representacionista e computacionista, que serão tratadas mais à
frente.
Segundo Belkin (1990), os autores representativos da abordagem cognitiva
na Ciência da Informação são Taylor, Wersig,
Dervin e Brookes, este último considerado um dos primeiros proponentes
da visão cognitiva na área.
O relacionamento da Ciência da Informação com as Ciências Cognitivas ocorre no sentido de se compreenderem os processos cognitivos envolvidos no comportamento de usuários de sistemas, de produtos e de serviços de informação. Isto é observado quando a Ciência da Informação tenta descrever as formas através das quais os indivíduos coletam, selecionam e utilizam a informação nos estudos de usuários, por exemplo. A idéia subjacente aos estudos de uso e de usuários de informação é a de que a informação é o elemento gerador da solução de problemas relacionados ao ambiente no qual os usuários atuam. A resolução desses problemas leva o usuário a modificar, ou melhor, a aumentar o seu estoque de conhecimento, pois a informação é o elemento que gera o conhecimento no indivíduo.
Outro aspecto importante, no qual estão também presentes os princípios da cognição, refere-se aos estudos cujo foco são os ambientes organizacionais para a estruturação de sistemas de informação, para implantação de atividades de gestão da informação, de inteligência competitiva e de gest. Neste caso, observa-se a transposição dos princípios humanos para as organizações, dando a elas capacidades cognitivas e, portanto, características antropomórficas de obtenção e de processamento de informação. Observa-se, nesse contexto, a influência das abordagens cognitivista e, conexionista, que serão descritas mais à frente.
Segundo Mostafa e Moreira (1999), a abordagem cognitiva dominante na Ciência da Informação é o cognitivismo. Quase a totalidade dos autores da área, quando inscritos na perspectiva cognitiva, baseiam seus trabalhos nessa abordagem. Como exemplos, as autoras citam termos tais como “modelo mental do usuário”, “representação do sistema de informação”, que permeiam a literatura da área, termos esses comuns nos textos cognitivistas.
A explicação que Capurro (1991) oferece a respeito dessas questões pauta-se na idéia de que a Ciência da Informação apóia-se em três paradigmas epistemológicos: o paradigma da representação, o paradigma da relação fonte-canal-receptor e o paradigma platônico. O primeiro paradigma tem como base o fato de que o ser vivente é cognoscente, ou seja, é observador de uma realidade externa e separada dele. O processo de conhecer consiste na assimilação desse mundo através da capacidade de criar representações dos objetos do mundo na mente do ser cognoscente. O segundo paradigma toma o fenômeno da comunicação humana como uma metáfora a ser aplicada a diferentes níveis de realidade. Quando o ser humano se comunica, diz-se que ele troca informação. A partir desta premissa, a Ciência da Informação é fundamentalmente preocupada com o impacto da informação sobre aquele que a recebe. Ao mesmo tempo, aqueles que recebem a informação são usuários de informação preocupados em resolver seus problemas. E, sob o ponto de vista do último paradigma, o conhecer humano não é um processo biológico, psicológico ou sociológico, mas é algo objetivo por si. Assim, a Ciência da Informação volta-se para o estudo do “mundo da informação” e para contribuir para a análise e para a construção desse mundo.
Nesta linha de pensamento, muitos têm sido os trabalhos que abordam a questão da informação como elemento gerador de conhecimento. Segundo Barreto (1997), os anos 80 são marcados por uma modificação no posicionamento dos agentes que operam as práticas informacionais, em virtude da inserção de novos modelos tecnológicos e conceituais. A informação passa a ser vista como um fator que se relaciona com o conhecimento e com o desenvolvimento humano. Ela é considerada como fator modificador da consciência do homem e de seu grupo social. Nesse sentido, o objetivo da informação e de suas unidades gestoras é promover o desenvolvimento do indivíduo, de seu grupo e da sociedade, desenvolvimento entendido como um acréscimo de bem estar, um novo estágio de convivência, alcançado através dela.
Assim, a idéia básica, subjacente aos estudos da Ciência da Informação, é a de que o conhecimento se dá quando a informação é percebida e aceita, sendo toda alteração provocada no estoque mental de saber do indivíduo, oriunda da interação com estruturas de informação. Este modo de compreender a informação e o conhecimento pode ser encontrado na “equação fundamental“ de Brookes (1980), para quem conhecimento é uma estrutura de conceitos ligados por suas relações e informação é como uma pequena parte dessa estrutura. A estrutura de conhecimento, que pode ser subjetiva ou objetiva, é transformada pela informação em nova estrutura de conhecimento.
Os estudos sobre a inteligência humana ocorridos nos anos 60 e 70 conservaram a ambição de modelizá-la e desenvolveram uma corrente de pesquisas sobre os sistemas “auto-organizados”. Nessa fase, Maturana e Varella (1984), concebem a Biologia do Conhecer propondo uma discussão a respeito da natureza do conhecer que parte da premissa de que os seres vivos são sistemas determinados por sua estrutura, numa condição de complementariedade estrutural entre sistema e meio. Nesse caso, o meio pode somente desencadear uma mudança estrutural no organismo, mas não sob a forma de interações instrutivas – informação como determinante do conhecimento - que determinem o comportamento, mas que podem ou não desencadear comportamentos. Essa dinâmica ocorre tanto do meio para o organismo, quanto do organismo para o meio.
No âmbito da Ciência da Informação, poucos são ainda os estudos que discutem sobre a informação e o conhecimento na perspectiva da Biologia do Conhecer. Neste texto, é apresentada uma pesquisa cujas discussões acerca da informação e do conhecimento tiveram como bases os princípios daquela teoria. A pesquisa teve como foco a inteligência empresarial no âmbito das pequenas e médias empresas – PME.
O desenvolvimento do trabalho em empresas desse porte justifica-se pelo fato de que as PME representam a maioria das empresas em todos os países, e, segundo Chér (1990), muitos autores ponderam que essas empresas têm uma importância substancial na evolução da sociedade, contribuindo do ponto de vista econômico, social e até político. Desta forma, esse extrato de empresas tem se mostrado essencial e indispensável a economias desenvolvidas ou em desenvolvimento.
Além disso, uma das características mais importantes das PME é a personalização, que diz respeito à relação de proximidade entre o empresário e o seu negócio. O pequeno empresário é aquele indivíduo que concebe o seu negócio e o gerencia. Isso faz com que ele seja o elemento determinador da forma de gerenciar a empresa, de estabelecer contatos e de definir os focos de atenção sobre o ambiente de negócios. Assim, o pequeno empresário, segundo Chér (1990) é capaz de perceber, com facilidade, sinais de mudança no ambiente de negócios.
Entretanto, apesar da literatura sobre as PME abordar a característica de personalização, os perfis dos gestores dessas empresas e a forma como observam o ambiente de negócios não são muito discutidos em trabalhos relacionados à inteligência empresarial. Esses estudos tratam de verificar como as empresas captam, processam, analisam e utilizam informação sobre o ambiente externo, configurando-se sob uma ótica funcionalista, não analisando o meio no qual as empresas se encontram, suas especificidades e suas histórias.
Os estudos pautam-se pelo princípio de que é suficiente
descrever, implementar e analisar os modelos adotados pelas PME, tendo-se
como parâmetros os modelos abordados na literatura e utilizados pelas
grandes empresas. Assim, perpetuam-se as idéias de que as empresas
são entidades processadoras de informação e que
informação, por si só, é o fator determinante
das mudanças, do sucesso e da sobrevivência das empresas no
ambiente de negócios.
O estudo ora apresentado teve como dados para serem analisados os depoimentos
de seis empresários, proprietários de PME mineiras, a respeito
de suas histórias de vida e das histórias de suas respectivas
empresas. Desse total de empresas, 03 eram pequenas empresas e 03 eram
médias empresas, escolhidas a partir de dois critérios básicos:
primeiro, que a empresa estivesse há mais de 10 anos no mercado;
segundo, que os proprietários das empresas estivessem, de alguma
forma, participando da gestão das atividades da empresa. Nesse conjunto,
uma pequena e uma média empresa eram do setor de serviços,
uma pequena e uma média empresa eram do setor industrial e uma pequena
e uma média empresa eram do setor primário. A partir disso,
pôde-se analisar a conduta desses empresários à frente
de seus respectivos negócios, assim como questões-chave sobre
inteligência empresarial e discutir sobre informação
e conhecimento na perspectiva da Biologia do Conhecer.
2. As influências das teorias cognitivas nos estudos sobre organizações de negócios
As Ciências Cognitivas tiveram as suas discussões iniciadas em meados da década de 50, com o paradigma central ‘metáfora do computador’.Basicamente, tanto o cognitivismo quanto o conexionismo, vertentes tradicionais das ciências cognitivas, tratam do conhecer humano pautados na idéia de que ele acontece pela transmissão de informação, captação da informação advinda do meio e processamento dessa informação pela mente do ser cognoscente.
Do ponto de vista dos estudos em organizações de negócios, naqueles baseados em princípios cognitivistas, a organização obtém informação do e sobre o seu ambiente e a processa numa analogia direta entre organizações e máquinas, mais especificamente, computadores. Por sua vez, a literatura que se apóia no conexionismo enfoca a auto-organização de organizações sociais ou a estrutura em redes para cooperação intra-organizacional. Essa literatura tem como referências sistemas, estruturas e processos. Dessa perspectiva, tanto os estados cognitivos prévios na rede organizacional como a nova informação proveniente do ambiente afetarão o conhecimento organizacional resultante.
A literatura e a prática da inteligência empresarial tem
recebido muitas influências das Ciências Cognitivas. Nessa
área, a literatura considera a informação como o elemento
que possibilita que a organização, entidade pensante, tome
consciência das mudanças e tendências do ambiente externo
de negócios, num quadro de dependência crítica entre
a organização e o ambiente. Quanto ao conhecimento, essa
mesma literatura traz subjacente a idéia de que assimilar as experiências
dos clientes, concorrentes, parceiros e demais atores do ambiente externo,
possibilita renovar o conhecimento da empresa, rejuvenescendo as estruturas
mentais dos responsáveis pelo seu gerenciamento. Essas idéias
fundamentam-se na transposição das teorias cognitivas tradicionais,
que serão abordadas mais à frente, para as organizações.
Assim, as empresas adquirem, de alguma maneira, “vida própria” e
“inteligência” para captar informação do ambiente externo,
processá-la e utilizar aquela necessária à sua permanência
no mercado, relegando aos indivíduos, membros das organizações,
um papel secundário neste processo.
3. Uma outra visão sobre a cognição: a Biologia do Conhecer
Diferentemente das teorias tradicionais sobre a cognição, na perspectiva da Biologia do Conhecer, somente é informação a perturbação do meio aceita pela estrutura do indivíduo. O conhecimento é ‘conduta adequada’ e ação efetiva em um contexto relacional no qual cada comportamento é um ato cognitivo. A cognição é uma ação que depende de interação congruente - se não há interação, não há cognição. Para os autores da teoria, “conhecer é viver, viver é conhecer”. Nesse sentido, como os indivíduos têm histórias únicas, interagem com o meio de formas diferentes, e, portanto, conhecem e aprendem diferentemente. Ao mesmo tempo em que um ser humano vive em contínua interação com o ser dos outros, vive também experiências individuais intransferíveis.
Maturana (1997) destaca a ‘linguagem’ como mecanismo fundamental
de interação nos sistemas sociais humanos. A linguagem é
considerada como um sistema de condutas e não um sistema de símbolos
e regras utilizados para a comunicação, tal como tradicionalmente
definida. Por sua vez, as condutas, que definem uma linguagem, são
determinadas pela emoção, que, para o autor, é um
fenômeno biológico que ocorre no nível da corporalidade,
ou seja, é necessário que haja uma pré-disposição
física para que uma interação aconteça. Nessa
perspectiva, não há ação humana sem uma emoção
que a estabeleça como tal, e a torne possível como ato.
4. A inteligência empresarial à luz da Biologia do Conhecer
De acordo com a Biologia do Conhecer, a história da dinâmica de interações que um indivíduo estabelece no meio, modifica a sua conduta neste meio a todo o instante, ainda que as características desse indivíduo permaneçam as mesmas. Daí a importância, neste trabalho, de focalizar a história de vida dos entrevistados, história da empresa e as relações que estabelecem, bem como a forma como as mantém em seu meio de negócios. Para isto, foi desenvolvido um roteiro de entrevistas, estruturado em três blocos. O primeiro bloco conteve perguntas acerca do respondente, de sua história de vida familiar e profissional, de suas relações no dia-a-dia e de suas leituras prediletas. O segundo bloco propiciou ao respondente falar sobre a sua empresa, desde a sua criação, sobre o ambiente no qual atua e como atua; sobre as relações que ele considera importantes para o funcionamento da empresa e sobre a sua percepção acerca do mercado. No terceiro, é utilizada a técnica de incidente crítico, tendo como objetivo fazer com que o entrevistado descrevesse uma situação ocorrida no ambiente da empresa (considerando, aqui, o ambiente organizacional como um todo, sem distinguir ambiente interno e externo), a qual tivesse uma relação direta com ele, que o tenha influenciado a tomar uma decisão importante para a empresa, observando se o evento foi uma informação, tal como considerada nos estudos sobre inteligência empresarial.
O roteiro de entrevistas foi desenvolvido basicamente com o intuito de fazer com que, do ponto de vista cognitivo da Biologia do Conhecer, fosse possível trabalhar com a idéia de que os empresários, criadores e proprietários de suas empresas são indivíduos determinados por sua estrutura e que vivem uma dinâmica histórica de interações com o meio, ou seja, “conhecer é viver, viver é conhecer”. E, para completar, foi importante também a opinião de Filion (1991), de que família, a educação recebida por um indivíduo, ou seja, a sua história de vida de um empresário condiciona a sua forma de ver o mundo e, conseqüentemente, a sua forma de gerenciar um negócio.
É em função dessas questões que o roteiro
contém perguntas relacionadas à formação do
empresário, sua história familiar, seus interesses em leituras
e lazer, e não apenas questões voltadas para descrever
as suas empresas e a sua atuação nelas. Considera-se o negócio
dos empresários como um elemento, ou domínio, que faz parte
de suas vidas de um modo geral, e não de algo que existe independente
de outros domínios pelos quais eles transitam. Procurou-se, então,
ao analisar os dados, relacionar esses vários elementos, a fim de
demonstrar a conduta dos empresários frente às suas empresas.
4.1 Os resultados da pesquisa e a relação com a Biologia
do Conhecer
Na literatura sobre inteligência empresarial, a informação
é um elemento que possibilita que as organizações
conheçam as tendências do seu ambiente externo de negócios,
visto que os sinais do ambiente externo têm força suficiente
para determinar as estratégicas das empresas, impondo mudanças
significativas às suas atividades. Por essa razão, o ambiente
externo deve ser constantemente monitorado, através das práticas
de obtenção e análise de informação
sobre o mesmo, para que a organização reconheça as
tendências, as oportunidades e as ameaças do mercado, e desenvolva
respostas apropriadas a ele. O investimento nesse tipo de atividade mostra-se
como uma condição de superioridade organizacional em um meio
de negócios e, conseqüentemente, condição
superior de sobrevivência e de competitividade frente às
demais organizações. Dessa forma, toda essa literatura
procura persuadir os empresários a institucionalizar
atividades de inteligência empresarial, como uma função
organizacional importante, cuja essência está na informação
processada.
A inteligência empresarial também tem sido considerada, por muitos autores, como uma atividade que favorece o processo de aprendizagem e a consolidação do conhecimento organizacional. Os gerentes que idealizam as estratégias empresariais devem estar cientes de tudo o que ocorre no ambiente “externo” à organização e devem saber “interpretar os sinais” advindos desse ambiente, tendo como suporte atividades de gestão da informação e especificamente de inteligência empresarial. A informação, nesse contexto, é o fator-chave de sucesso para as organizações de negócios, pois ela lhes possibilita compreender as “mensagens” do mercado e, no seu interior, criar as condições para responder a esse mercado com produtos e serviços inovadores.
O que se encontra subjacente a essa posição é a idéia de que as empresas são sistemas processadores de informação, entidades inteligentes, que captam informação do meio externo, processam-na e lançam seus produtos ao meio externo - ao mercado. A base disso reside na transposição que se faz das teorias cognitivas, principalmente do cognitivismo, para as organizações, dando a elas propriedades antropomórficas.
A partir dos dados obtidos através das entrevistas, foi possível observar que aqueles empresários que descreveram com maiores detalhes a sua história familiar e identificaram a existência de empreendedores na família, ou ainda que tiveram maior grau de educação formal, parecem conduzir os seus negócios de forma mais pró-ativa. Ou seja, eles respondem sobre o meio de negócios com uma visão mais ampliada sobre as suas possibilidades de atuação, sobre a concorrência, não ficando restritos ao seu setor específico. Além disso, eles parecem ter uma preocupação maior em delegar as funções de rotina da empresa e voltam sua atenção para os contatos com clientes, parceiros, movimentos associativos e para a participação em eventos. Seus contatos extrapolam as pessoas da própria empresa. Essa questão também é observada no tipo de leitura que fazem, pois seus interesses também são mais variados.
Esses aspectos nos possibilita afirmar que compreender as condutas dos empresários é extremamente importante, mais relevante do que procurar saber qual informação é necessária para eles e como eles as utilizam. Observar essas condutas mostra quais sãos os domínios (contextos, grupos, eventos) pelos quais esses empresários transitam, o que permite uma melhor compreensão das relações que estabelecem e como as estabelecem. Outra questão hoje considerada importante sobre a cognição, principalmente no âmbito da psicologia construtivista, diz respeito à importância de se levar em conta o dizer e o fazer do indivíduo, pois representam uma unidade funcionalmente inseparável. Segundo Bruner (1997), não se descarta o que as pessoas dizem sobre os seus estados mentais e, o agir e o dizer (ou experimentar) só podem ser interpretados no contexto da conduta comum da vida. Dizer, fazer e as circunstâncias nas quais o dizer e o fazer ocorrem não se separam, mas demonstram as possibilidades do momento. No âmbito da Biologia do Conhecer, isso significa que o que ocorre no meio e a um indivíduo ou a um grupo de indivíduos e ao meio somente ocorre se há interação congruente e consensual entre eles.
Os dados obtidos através das entrevistas com os empresários das PME mostraram, também, que a permanência de suas empresas, no ambiente de negócios, não possui uma relação direta com a existência de atividades profissionais ou com infra-estrutura especializada para o trato da informação, tal como se discute nos estudos sobre gestão da informação e inteligência empresarial. Isso pode ser constatado através dos depoimentos dos entrevistados, quando afirmam que participam intensamente de eventos da área de atuação de suas empresas, preocupam-se com a atualização de leituras a respeito do seu negócio e acompanham ou estabelecem pessoalmente contatos com pessoas da empresa e de outras instituições. Assim, confirma-se o que diz a literatura sobre inteligência empresarial: durante todo o tempo, as pessoas, nas organizações, monitoram o ambiente de negócios (GILAD & GILAD, 1988) e os empresários aplicam-se consideravelmente em negociações e no estabelecimento de contatos, conforme mostra Dollinger (1985).
A despeito de não utilizarem mecanismos formais ou sistemáticos de obtenção, processamento e análise de informação, os empresários têm consciência de que precisam estar “informados” a respeito de suas empresas e do meio no qual atuam. Os entrevistados consideram que não têm problemas de acesso a informações que lhes sejam necessárias para o gerenciamento de suas empresas e para compreenderem o que ocorre no mercado. Assim, do lugar que ocupam, os empresários acreditam que sabem tudo a respeito de seus respectivos negócios e que não precisam sistematizar atividades de gestão da informação ou de inteligência empresarial em suas empresas.
O uso que os empresários fazem de “informação” ocorre no cotidiano de suas experiências relacionadas aos seus respectivos negócios. Através das entrevistas, foi possível observar que o que prevalece entre os empresários não é a idéia de utilizar uma fonte de informação ou outra, mas, sim, de estabelecer ou não relações e de mantê-las em função das necessidades de suas empresas. Assim, cada empresário estabelece as suas redes de relações e interações de forma diferenciada, ainda que os “tipos” de relações coincidam entre eles, por estarem em domínios semelhantes: porte da empresa, cidade, país, setor industrial, meio de negócios, etc.
Essas relações e interações possibilitam que os empresários estabeleçam não somente uma rede de conversações, mas, também, que desenvolvam condutas próprias para atuarem no meio de negócios. Observa-se que as condutas são bastante particulares, ainda que apresentem semelhanças com relação a alguns aspectos. Isso é possível de ser observado quando descrevem o mercado, a rotina de trabalho e a história de suas empresas. Maturana (1997) afirma que cada indivíduo tem histórias diferentes porque interage diferentemente com o meio, criando comportamentos específicos em cada domínio do qual faz parte.
Tal como as relações, fatores como a idade, o sexo e a rotina de trabalho mostraram-se também, através das entrevistas, como fortes indicadores de como os empresários atuam no ambiente de negócios, quais são os seus focos de atenção, as suas prioridades no que se refere à resolução de problemas, bem como quais são as relações e interações que possuem, que estão pré-dispostos a estabelecer e como mantêm e criam novas interações no meio de negócios. Alem disso, os aspectos mencionados podem indicar alguns caminhos para sensibilizar os empresários a expandir os seus focos de atenção relativos às atividades de suas respectivas empresas e ao meio de atuação das mesmas, bem como podem influenciá-los a modificar ou abandonar algumas condutas.
Em uma das questões da entrevista, foi solicitado aos empresários que descrevessem uma situação na qual um evento ocorrido no ambiente de negócios da organização (sem especificar ambiente interno ou externo) os tenha influenciado a tomar uma decisão importante para a empresa. A intenção, na verdade, era saber se havia ocorrido algum fato no ambiente chamado “externo” de negócios – tal como preconizado pela literatura sobre inteligência empresarial - que pudesse ter sido conhecido por eles, através de uma notícia ou fonte de informação convencional qualquer, que os tenha levado a modificar, melhorar ou inovar algo em suas respectivas empresas.
Dos seis empresários, somente um deles descreveu um fato que foi desencadeado por um evento ocorrido externamente à empresa. A situação apresentada foi relacionada a um problema com um produto, que influenciou o empresário a adotar medidas sanitárias até então não utilizadas na empresa.
Os demais relatos, relacionados ao contexto econômico do país ou a situações já em curso nas empresa, são indicadores de que as técnicas e os modelos que a literatura descreve, e que muitas empresas adotam para acompanhar o mercado, somente sistematizam as formas de busca, registro e disseminação dos dados acerca do ambiente “externo” das empresas. Entretanto, a não utilização dessas ferramentas, no caso das empresas dos entrevistados, não as fez serem organizações de pouco sucesso, ou lhes perturbou a permanência no mercado. Ao contrário, todas as empresas têm mais de dez anos de existência, sendo que a mais nova delas, com exatamente esta idade, começou como pequena empresa e hoje é uma média empresa com expansão de seus produtos.
Além do mais, esses empresários entrevistados acompanham tudo o que se relaciona com os seus respectivos negócios, tal como já mencionado, e não condicionam essa monitoração a atividades específicas para tal fim. Os seis entrevistados estão constantemente atentos ao seu negócio, tanto no que se refere ao que ocorre rotineiramente na empresa, quanto ao que ocorre ao redor da empresa, relativamente ao setor de atuação da mesma. Tal preocupação em monitorar o ambiente de negócios mostra-se pela participação ativa e constante dos empresários em eventos relacionados ao seus respectivos negócios, pelo tipo de leitura que fazem sobre a área de atuação da empresa, ou sobre questões relacionadas à empresa.
Da mesma forma, somente um empresário de uma pequena empresa possui um gerente de marketing que faz um acompanhamento mais sistematizado do ambiente de atuação da mesma. É importante ressaltar que o objetivo de se contratar um gerente de marketing aconteceu porque, no entender no entrevistado, tal atividade é imprescindível para uma empresa que tem um bom produto. Mas, para o entrevistado, acompanhar o ambiente de negócios sempre foi importante e é também para os demais profissionais ligados ao gerenciamento da empresa. O entrevistado afirmou que sempre teve essa preocupação e, de acordo com as suas respostas, acompanhar o ambiente de negócios parece estar incorporado às práticas de gestão da empresa, pois os diretores, hoje seus filhos e genro, possuem a mesma visão a esse respeito.
Entretanto, do ponto de vista dos entrevistados, a “informação”, tal como compreendida no âmbito da gestão da informação e da inteligência empresarial, não é o fator que determina ou possibilita melhores condições de sobrevivência às suas respectivas empresas. Os empresários são trabalhadores da informação, no sentido de que eles têm consciência de que precisam e de que utilizam “informação” no dia-a-dia de suas atividades, no contato com outras pessoas, nas decisões, mas não necessariamente como a literatura discute. Além disso, as empresas do conjunto de entrevistados já se encontram em atividade há um bom tempo. É claro que neste trabalho não houve a intenção de fazer uma avaliação das condições das empresas no meio de atuação das mesmas, mas as respostas dos entrevistados demonstram que a informação é um fator importante para a condução dos seus negócios, mas que não é dado um tratamento especial a ela no contexto das empresas. E, sobretudo, a ausência de atividades voltadas para sistematizar o acesso e o uso de “informação” nas empresas, não foi apontada pelos entrevistados como algo prejudicial aos negócios.
Os empresários têm consciência da importância de estarem cientes de tudo o que se relaciona aos seus respectivos negócios e fazem isso a todo o tempo através das suas atividades, acreditando que sabem identificar tudo o que é importante para a condução de suas empresas. Monitorar o ambiente de negócios, no caso dos entrevistados é uma prática que se estabelece no dia-a-dia de suas atividades, rotineiras ou não, na manutenção das suas redes de relações e interações com pessoas e instituições da própria empresa ou não, através de suas leituras e da participação em eventos.
Dessa forma, os entrevistados responderam prontamente a todas as questões relacionadas às suas empresas e aos respectivos ambientes de negócios. O interessante é que a forma como cada entrevistado descreve aspectos sobre o seu negócio é única, mesmo entre os empresários que fazem parte do mesmo setor, como no caso dos dois entrevistados do setor primário, que atuam com laticínios.
Como avaliar essas opiniões acerca do ambiente de negócios de cada entrevistado? Aos olhos de um observador, elas poderiam estar corretas; aos olhos de outro, elas poderiam ser totalmente equivocadas. A Biologia do Conhecer admite que há muitas realidades e explicações para um mesmo fenômeno, sendo todas legítimas, ao que Maturana e Varella (1984) denominam de “objetividade entre parênteses”. São legítimas porque cada entrevistado encontra-se em domínios diferentes, apesar de gerenciarem empresas de pequeno e médio portes, estarem situadas na mesma cidade (Belo Horizonte), no mesmo país, etc. A forma como cada empresário “distingue” o seu negócio no meio e o descreve demonstra como o conhecer sobre algo é diversificado e dependente da história de relações e interações no meio. Do lugar que ocupam, os entrevistados discorrem sobre as suas empresas e sobre o que acontece no ambiente no qual atuam, acreditando conhecerem-nos e possuírem “informação” suficiente acerca desse ambiente de negócios e sobre tudo o que ocorre em suas respectivas empresas, seja com relação às atividades da empresa, relações e interações, situação do mercado de atuação, etc.
Na Biologia do Conhecer, o conhecer humano não se dá pela captação, por parte do organismo, de objetos externos a ele, mas sim na manutenção da conduta adequada em cada um dos vários domínios de ação nos quais um indivíduo transita e estabelece as suas relações e interações. Conhecer é estar em interação congruente e consensual, indivíduo-indivíduo e indivíduo-meio. Assim, o conhecimento dos empresários acerca de seus respectivos negócios se estabelece nessas interações recorrentes, com outros indivíduos, e se mostra através da avaliação que fazem do mercado, ao nomearem pessoas importantes para a empresa, na participação em eventos. Portanto, são condutas que se estabelecem no contato com os demais membros da organização ou de outros indivíduos ou grupos, consensuais que se produzem na convivência e na história dessa convivência. Do ponto de vista da Biologia do Conhecer, isto significa que os empresários operam, a todo o tempo, na linguagem, nessa rede de relações e interações. Esse conjunto de condutas que ocorre consensualmente, na linguagem, constitui a linguagem organizacional e, se ela se mantém, podendo e devendo se renovar continuamente, mantém-se a empresa, congruente com o meio no qual atua.
Além disso, do ponto de vista da Biologia do Conhecer também não é possível afirmar que um indivíduo conheceu algo por intermédio de “informação” (tal como considerada nas teorias cognitivas tradicionais e incorporada aos estudos sobre gestão de informação e em especial sobre inteligência empresarial). Informação é uma perturbação (de qualquer natureza) que pode ou não desencadear mudanças nas condutas de um indivíduo e o que vai definir isto é o próprio indivíduo. Saber, portanto, qual informação possibilita que alguém conheça sobre algo, é necessário possuir a sensibilidade para reconhecer que tipo de perturbação é aceita por um indivíduo. Até que ponto isto é possível?
Desta forma, o conhecer dos empresários acerca de suas empresas e de seu ambiente de negócios não ocorre necessariamente pela obtenção de informação tal como habitualmente é discutido na literatura referente a gestão da informação e inteligência empresarial, mas no seu cotidiano de trabalho, através das suas condutas adequadas no meio e da manutenção das redes de relações e interações.
4.2 Algumas ponderações
Diante de todas essas questões e, considerando a abordagem cognitiva
deste trabalho, alguns pontos devem ser levados em conta no que diz respeito
às atividades de gestão da informação e inteligência
empresarial. Nos estudos desta natureza, observa-se uma tendência
de se prescrever a “informação correta” para os empresários,
clientes potenciais de recursos informacionais. Na literatura sobre inteligência
empresarial, o funcionalismo com que os modelos e as técnicas são
descritos impede que sejam analisados aspectos importantes relacionados
aos potenciais usuários das ferramentas propostas e do meio no qual
esses usuários se encontram. É possível que, mesmo
se utilizarem modelos e técnicas considerados na literatura como
eficazes, muitos empresários desconhecem aspectos importantes relacionados
ao seu ambiente de negócios, apesar de suas empresas serem de sucesso
e, igualmente, de muitos dados sobre esses ambientes já se encontrarem
em suas respectivas empresas. É possível ainda que muito
do que seja realmente importante aos empresários não se encontre
registrado nas empresas ou em qualquer outro meio, mas no fluxo das
relações e interações estabelecidas entre os
membros dessas organizações.
Assim, se a “informação” for considerada sob o ponto de vista da Biologia do Conhecer, é possível estabelecer atividades de gestão da informação e de inteligência empresarial livres de modelos e da idéia de prescrição de informação. O foco de estudo deslocar-se-ia da mecânica de como as organizações obtêm, processam, analisam e disseminam informação para a análise de como os empresários atuam e gerenciam os seus negócios, os contatos que estabelecem e como os estabelecem, os domínios pelos quais transitam, ou gostariam de transitar, as pessoas que estão mais próximas deles e como são essas relações entre eles no âmbito de suas empresas.
Considerar esses aspectos pode permitir observar que tipos de recursos de informação podem ser motivadores para cada empresário no sentido de torná-los efetivamente úteis a eles. É fundamental observar, também, a pré-disposição dos empresários em aceitar os recursos informacionais que lhes possam ser úteis, considerando as possibilidades de cada um, ou seja, as possibilidades de seres determinados por sua estrutura e que, ao mesmo tempo, vivem em interações com o meio.
É importante ressaltar ainda que, apesar de ter direcionando
o foco para a inteligência empresarial, no que se refere aos empresários,
julgamos ser relevante considerar a idéia de acompanhamento do ambiente
de negócios como um todo e não apenas considerar os aspectos
do ambiente externo, tal como tem sido preconizado na literatura. Seguindo
o ponto de vista adotado neste trabalho, o ambiente organizacional se constitui
das redes de relações e interações que extrapolam
os limites impostos pelas noções de “ambiente interno”
e de “ambiente externo” tratados como domínios separados
e independentes.
5. Ciência da Informação e Biologia do Conhecer: a informação, o conhecimento e o usuário de informação
No âmbito da Ciência da Informação, a informação tem sido discutida principalmente sob o olhar dos cognitivistas e conexionistas, cuja idéia básica é a de que, se recebemos uma “informação”, imediatamente a processamos e somos capazes de dar uma resposta ao emissor daquela informação, pois a compreendemos da mesma forma que ele. Outra idéia é a de que precisamos dos atores que nos transmitem informação para que seja possível aumentar o nosso estoque de conhecimento. Nesta perspectiva cognitiva tradicional, muitos têm sido os trabalhos que consideram a informação como elemento gerador de conhecimento, no indivíduo, e que têm norteado as reflexões sobre o usuário da informação e, conseqüentemente, sobre a concepção e o desenvolvimento de estruturas de informação.
Isto pode ser observado nos estudos sobre necessidades, demandas e usos de informação que procuram investigar como indivíduos obtêm, processam e usam informação, como buscam informação sobre algo, que tipos de fontes lhes são importantes e como as utilizam, e para que usam determinada informação. Estes aspectos levantados têm como objetivo saber que tipo de problemas os usuários procuram solucionar através do uso de determinada informação.
A respeito dos indivíduos, os estudos preocupam-se em levantar aspectos relacionados às suas atividades, profissão, faixa etária, nível educacional, bem como tipos de informação ou de recursos informacionais utilizados e a freqüência de uso dos mesmos, dentre outros pontos.
Entretanto, se a informação e o conhecer humano forem observados de outro ponto de vista, novas questões podem ser consideradas a respeito dos usuários de informação, na Ciência da Informação, que podem contribuir para o desenvolvimento de estruturas de informação.
Sob o olhar da Biologia do Conhecer, a informação é uma perturbação do meio (de qualquer natureza) que pode ou não ser aceita pelo indivíduo. O que vai definir a aceitação de uma perturbação como informação é a estrutura biológica do “usuário de informação”, considerando a sua pré-disposição emocional em aceitar tal perturbação, bem como a sua história de vida e os vários domínios de ação por onde transita.
Ainda na perspectiva daquela abordagem, também não é possível afirmar que um indivíduo conhece algo por intermédio de “informação” (tal como considerada nas teorias cognitivas tradicionais e incorporada aos estudos da Ciência da Informação).
A Biologia do Conhecer, diferentemente das teorias cognitivas tradicionais, considera que não se adquire conhecimento pela captação e processamento de informação, mas conhece-se a todo instante, no viver cotidiano. O conhecimento que se tem sobre algo é fruto da interação congruente com este algo, em um domínio específico (uma empresa, uma família, um grupo de amigos).
Portanto, é importante considerar, ao adotarmos os conceitos de informação e conhecimento da Biologia do Conhecer, que os usuários de informação são seres humanos individuais e sociais, que vivem uma deriva de experiências individuais e intransferíveis, determinadas por sua estrutura biológica, ao mesmo tempo em que vivem em contínua interação com outros indivíduos. Nessa existência cotidiana, os usuários de informação vivem em domínios de ação (empresa, família, lazer, amigos, etc), fazendo parte de diferentes redes de relações e interações. Cada domínio de ação pelos quais transitam possibilita aos indivíduos estabelecerem redes de relações e interações que, embora distintas, influenciam as suas condutas no meio, a sua linguagem e as suas pré-disposições de aceitar ou não determinada perturbação, ou informação. Isto significa que, mesmo participando de domínios de ação que influencie o seu comportamento, há aspectos comportamentais que são exclusivos de cada indivíduo e que devem, também, ser considerados, ao serem eles observados como usuários de informação.
Na atividade de se observarem indivíduos como usuários de informação, a Biologia do Conhecer oferece a possibilidade de considerarmos não somente os aspectos que são levados em conta ao estudarmos o comportamento de usuários de informação tendo subjacentes as teorias cognitivas tradicionais, mas outras questões também importantes e, provavelmente, mais difíceis de serem observadas, mensuradas e utilizadas para o desenvolvimento de estruturas de informação. Na perspectiva cognitiva daquela abordagem, é importante também considerar a história e as condutas (rotina de trabalho, hábitos, etc) dos indivíduos, no domínio de ação em que estão sendo observados (escola, trabalho, atividades, etc), os contatos que estabelecem no cotidiano e como e por quê eles ocorrem; as pré-disposições e interesses relacionados ao domínio de ação no qual estão sendo observados (assuntos relacionados, publicações específicas, etc), motivação para utilizar os vários tipos de estruturas de informação que podem vir a ser propostas para os atender.
Estas questões determinam, aos profissionais de informação, a necessidade de desenvolverem novas habilidades para lidarem com os seus usuários. Uma delas é a capacidade de perceber as particularidades de cada indivíduo, pois temos trabalhado com as questões relacionadas aos comportamentos comuns desses usuários.
Estas questões apresentadas não se esgotam neste trabalho.
Ao contrário, elas apenas começam a se delinear como possibilidades
para os estudos sobre usuários, sobre empresas ou sobre qualquer
outro tema que seja de relevância para a Ciência da Informação.
Não há, também, a intenção de propor
um modelo para estudar o comportamento de usuários de informação.
Entretanto, os princípios da Biologia do Conhecer, ao estabelecerem
novas discussões acerca da informação e do conhecer
humano, trazem à Ciência da Informação o desafio
de discutir também sobre o desenvolvimento de estruturas de informação,
não mais como determinantes do conhecimento de usuários,
mas somente como possibilitadoras da alteração do conhecimento
dos indivíduos.
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Sobre a autora / About the Author:
Mônica Erichsen Nassif Borges
mnassif@eci.ufmg.br
Doutora em Ciência da Informação
Professora da Escola de Ciência da Informação da
UFMG
Av. Antônio Carlos, 6627
Campus da Pampulha – Belo Horizonte – MG