DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.5  n.3   jun/04                            ARTIGO 06
Significações da Informática no Mundo Presente *
Meanings of Informatics in Contemporary World
por Luís Carlos Lopes






Resumo: No texto que segue, há uma proposta de compreensão das significações que dariam base ao atual uso massivo de recursos informáticos, tentando abrir a discussão para uma temática mais ampla.
Palavras-chave: Informática; Informação; Comunicação.

Abstract: The following text presents a proposal towards understanding of the meanings which grounds contemporary massive use of informatic resources. The author tries to open the discussion for larger subjects.
Keywords: Informatics; Information; Communication.
 
 
 

Introdução

Muitos bytes e muita tinta de impressão têm sido gastos para trazer o entendimento das mudanças nas esferas públicas e privadas de nosso tempo, no que se refere à presença dos recursos informáticos. Vários autores cantam loas à decantada nova revolução científica e industrial, que teria criado um admirável mundo novo. Outros, em graus variados, vão desde a tecnofobia, apontada por Breton, até a crítica mais ponderada aos problemas de nosso tempo. Os adeptos da tecnofilia, muito bem organizados e com forte suporte material, acreditam que tudo já está escrito e que só é preciso seguir no caminho dos novos eleitos.

Ainda outros, como Breton, postulam que existem problemas nesta realidade, apontando que ela não pode ser apenas reificada sem maiores discussões. Continuam argumentando que se, por um lado, não se pode fechar os olhos às mudanças tecnocientíficas e simplesmente demonizá-las, por outro, não se pode dizer que a história acabou e que os problemas humanos são solúveis pelo uso de novas técnicas e novas máquinas. Os que buscam novos caminhos preferem rejeitar a tecnofilia e a tecnofobia, optando por alternativas que levem a discussão para outras searas mais planas e translúcidas.
 

A idéia da informação e a informática

Apesar de datar dos últimos 50 anos, a idéia da informação e das máquinas para geri-la, presidindo as sociedades contemporâneas, ganhou fôlego especial nas últimas duas décadas. Há alguns anos, fala-se em "sociedade da informação", mais recentemente, em "sociedade ou era do conhecimento", sempre se repetindo, com variações, a chegada a um mundo novo, imaginado por Huxley e Asimov de máquinas pensantes, robôs, cyborgs etc. Guardando-se as devidas proporções e cuidados, este mundo chegou e, com ele, novas utopias e más compreensões da realidade material e simbólica circundante.

Nas livrarias e bibliotecas atualizadas, é possível encontrar centenas de títulos sobre a new age. Alguns, sem nenhuma importância intelectual, constituem em mera publicidade sem fundamentação ou coleções de argumentos com forte inspiração religiosa ou utópica. Diz-se que são obras desta natureza por portarem e desenvolverem idéias dogmáticas ou crenças idealizadas sobre as possibilidades do mundo.

Outros autores e títulos se revelam, apesar de terem a mesma origem, portadores das novas verdades travestidas de um, pelo menos aparente rigor acadêmico respaldadas por instituições públicas e privadas (universidades, centros de pesquisa, governos e empresas). Até mesmo assuntos técnicos acabam sendo tratados como se fossem ou parecessem ser novas pedras filosofais e novas possibilidades de transmutar algumas substâncias em ouro. A futurologia, muito presente, funciona de modo muito semelhante às antigas religiões baseadas na predição e nas certezas sobre um futuro que seria próximo, à imaginação grandiloqüente sobre o presente e suas possibilidades de desdobramento.

Curiosamente, mesmo em autores mais respaldados por sua inserção universitária, é fácil encontrar um modo de pensar que representa um imenso recuo e a negação das conquistas intelectuais do século XX. O positivismo evolucionista do século XIX está muito presente nestes autores, que adoram a filosofia do progresso, sem pelo menos citá-la, mantendo um universo de ambigüidades. Recua-se, ainda mais, na direção de uma nova escolástica representada por novos profetas que, infelizmente, nem sempre têm o brilho dos do passado. Mas nada disto é claro. Ao contrário, a discussão sobre o problema prima por não ter opções filosóficas, políticas e ideológicas expostas e intervinculadas aos pressupostos das idéias veiculadas.

A presença generalizada da internet coincide com a campanha massiva de promoção da informação como substitutivo do verdadeiro conhecimento. Esta campanha é visível, praticamente em todas as mídias. Sempre há um jeito de dizer que o conhecimento tradicional não teria mais lugar no mundo em que vivemos. O uso costumeiro das máquinas digitais suscita a certeza de que se chegou a um mundo novo, sem pecado e sem passado, no qual todos são convidados a se integrarem. Tudo isto deu um novo fôlego aos mitos da cidade informacional planetária, tão criticado por alguns autores, especialmente por Philippe Breton. A inquestionável visibilidade social do problema é inversamente proporcional a sua interpretação mais profunda.

Não se duvida de que existam novidades no plano da organização das economias, sociedades e culturas humanas. As novas tecnologias criaram novas possibilidades de consumo, novas e imensas fortunas pessoais e empresariais, abrindo-se novos mercados. As sociedades humanas, quando atingidas por estas novidades, vêm sendo alteradas em alguns de seus hábitos e costumes. As crenças dominantes ganharam novas dimensões, acomodaram as mudanças no plano da materialidade da vida às antigas construções mentais, adaptando-as a um novo contexto. Portanto, não é que não existam mudanças, o problema está em perceber que o passado não é algo que se possa descartar, sem deixar profundas marcas e, de algum modo, continuar a influenciar o presente.

Parte-se do princípio de que os recursos informáticos – máquinas, programas e seus operadores humanos – conformam um conjunto de relações entre objetos, indivíduos e grupos sociais de grande evidência em nosso tempo. Estes recursos estão presentes, em escalas diversas, entre todos os segmentos da tessitura social e são acreditados pela grande maioria como essenciais as suas vidas. Isto vale para o Brasil, assim como para a França, sobretudo nas grandes cidades, em sua vida urbana comum.

Três potências se combinam na configuração do uso destes recursos e nos processos de significação da informática no mundo presente. Estas potências ou forças de impuxo do presente são representadas: pela forte prevalência do capital financeiro sobre o industrial e por todas as implicações deste fato nas relações sociais e culturais de nosso tempo; pelo elevado desenvolvimento da tecnociência, com inúmeras aplicações práticas nos espaços públicos e privados; pelo surgimento, com a convergência do fim do socialismo real e o desenvolvimento do estatuto neoliberal, de um novo tipo de Estado que não se pretende mais como tutor e protetor da organização social.

Esta prevalência do capital financeiro teve enorme impacto sobre a organização social, tanto no sentido macro de um novo arranjo material e simbólico das classes e grupos, como no sentido micro, de fundamentar o fortalecimento ou o aparecimento de novas identidades e subjetividades individuais e coletivas. A relação atual com o dinheiro, aliás, crucial no universo do capitalismo, é uma das características tangíveis desta nova realidade.

Em um de muitos e possíveis exemplos, capazes de levar à compreensão do problema, quase não se vai mais ao banco para fazer alguma operação financeira sem a intermediação dos recursos informáticos. Nossas contas bancárias são, hoje, informações depositadas em bancos de dados que contêm, igualmente, inúmeras informações sobre as nossas vidas. Os bancos, ao saberem de onde vêm nossos recursos e em que os aplicamos, possuem uma verdadeira cartografia de nossas vidas públicas e privadas.

Os registros bancários não refletem necessariamente o dinheiro real que possuímos. Ele não necessita estar ali, onde foi depositado. Ao contrário, a conta é, sobretudo, uma referência abstrata ao dinheiro concreto. Se falarmos sobre a relação das empresas com os bancos, não há muita diferença. As pessoas jurídicas, cada vez mais imbricadas com o sistema financeiro, têm suas possibilidades de continuarem a existir determinadas pela política econômico-financeira em vigor.

Crê-se que a automação bancária tem tido um papel central na conformação do mundo presente, aproximando a informática de quase todos os membros das sociedades mais urbanizadas do planeta. Por outro lado, o uso generalizado dos recursos informáticos viabilizou a chamada mundialização dos negócios, na escala hoje conhecida. A possibilidade de gerir a produção industrial, a circulação comercial e financeira, mesmo com sua fragmentação em países diferentes, é uma das novidades que as redes permitem. Por onde forem, os negócios de qualquer natureza são sempre acompanhados pelos computadores e pelos bancos que, em última análise, estão na ponta do processo atual de internacionalização das economias em escala planetária.

Vive-se, nas nações mais industrializadas como a França e nas ‘emergentes’ [1] como o Brasil, o pressuposto do capitalismo financeiro, o que significa que a ligação, a estruturação e o movimento comunicacional e econômico do sistema social se dá fortemente pela via financeira. Isto porque se precisa de dinheiro para quase tudo, e são os bancos os mediadores de seu uso. A partir do antigo processo de mediação, os bancos foram se apropriando do capital ao ponto de serem seus grandes detentores. Talvez, neste fato, esteja a grande diferença de nossa época para o contexto anterior. Os bancos passaram a ser os grandes patrões, isto é, os verdadeiros donos do mundo. Os demais investidores ou se associaram a eles ou ficaram as suas mercês, o que dá no mesmo.

O dinheiro flui entre a sociedade e os negócios, destacando-se os conglomerados financeiros, incluindo a indústria (setor secundário) e a agricultura e extração (setor primário), que fazem existir o status quo. O setor terciário da economia expande-se sobre a batuta do sistema financeiro, que além de ser parte integrante deste, comanda-o e aos demais.

Não há universalização absoluta destes fatos. É preciso advertir que mesmo dentro das nações mais desenvolvidas existem nichos que escapam a esta realidade de controle, baseada na transação bancária e na circulação da moeda nas entranhas do mundo dos negócios e da vida social. O dinheiro entra e sai dos bancos, simulando a caixa do input e do output da teoria dos sistemas mais tradicional. Pelo menos assim parece para o observador externo. Sabe-se que não é exatamente deste modo que as coisas se processam. Mas, a força daquilo que parece ser é imensa em qualquer sociedade humana. Basta existir tal potência, para que cidades simbólicas e, por vezes, fantasmagóricas, dominem corações e mentes.

Não há como negar a hegemonia relativa deste tipo de capitalismo que não é exatamente novo, mas, sem dúvida, ganhou contornos específicos nas últimas três décadas. Talvez esta hegemonia seja a grande base material do sucesso do paradigma informacional, fundamentando a crença em um mundo semelhante a uma caixa escura, tal como um cofre-forte fechado, que só se abre para receber ou pagar, sempre mais para receber, e menos para pagar. Esta caixa escura seria uma das bases para a construção de novos edifícios teóricos e novas religiosidades que serviriam para dar suporte à existência.

Uma outra caixa, não menos potente, é visível no horizonte da história de nosso tempo, trata-se da tecnociência. A expressão tecnociência tem sentido amplo e sinaliza para o fato da adoção de modelos de pesquisa e intervenção científica fortemente ancorados na técnica, isto é, instrumentais. A maior parte dos massivos investimentos em ciência feitos no mundo presente é voltada para a produção de máquinas, produtos de uso e tecnologias capazes de se incorporarem rapidamente às lógicas de consumo e ao objetivo do lucro. Sem dúvida, a fatia mais expressiva da tecnociência está nos produtos e nos processos ligados de modo direto ou indireto à informática.

A representação matemática do mundo tão perseguida por Galileu na Renascença, reafirmada na Era da Luzes e na revolução científica a partir do XIX, encontrou, finalmente, seu porto na produção de novos engenhos e procedimentos. Estes fizeram e ainda fazem crer que houve a derradeira aproximação de Deus e que, agora, mesmo agnósticos, conseguiu-se substituí-lo, por meio da construção de máquinas que ‘pensam’ e ‘decidem’ de modo mais confiável do que os homens. Isto explicaria o bombardeio de termos que indicam a chegada de uma nova era, não mais a de Aquarius, mas sim a das máquinas inteligentes que suportariam a fragilidade e a tendência para o erro, problemas recorrentes da espécie humana e de seus devaneios sobre a existência.

Não é nova a intervenção da ciência na vida social. Desde o século XVIII, a sua presença significou mudanças substantivas nas relações sociais e nas técnicas e práticas de produção. As economias ancoradas no pressuposto do capitalismo foram as que adotaram, pela primeira vez de modo sistemático e generalizado, o uso teórico e prático do conhecimento científico.

O saber, a partir da revolução filosófico-científica da Renascença, passou a ser elemento de distinção, tanto no que se refere ao desenvolvimento das técnicas, como no que tange aos hábitos e costumes sociais. A figura do cientista como paladino da luta contra a ignorância, e a sua vitimização pela fúria obscurantista das religiões guardaram espaço na construção das culturas burguesas que organizaram o capitalismo ocidental.

Por mais que isto seja mítico, a educação que se dá e recebe ainda guarda esta imagem do bom homem e de algumas boas mulheres que, com seus talentos e esforços, deram a todos mais anos de vida, conforto e satisfação pessoal. Por mais talentosos e humanistas que muitos destes realmente tenham sido, havia com eles um modo de produção e um Estado onde situavam os seus trabalhos. Certamente não poderia ser de outro modo em muitas das situações conhecidas, como também é verdadeiro que os cientistas sempre enfrentaram preconceitos e tiveram muitas dificuldades para convencer aos outros de que suas descobertas eram realmente válidas.

Desde onde se sabe, o trabalho científico foi inúmeras vezes e continua sendo apropriado socialmente como forma de poder, como potência e pré-condição para o lucro. Quando seus responsáveis colidiram com estes interesses, os problemas suscitados e enfrentados não foram pequenos.

Os eventos do século XX mudaram ainda mais radicalmente este quadro, descortinando uma ciência, que podia também estar mais clara e efetivamente a serviço do poder, da morte e da dominação. Isto fez com que, pouco a pouco, os cientistas, cada vez mais proletarizados, fossem vistos como úteis ou indesejáveis, na medida em que se alinhavam ou não aos Estados e às empresas.

Ainda hoje, as universidades dos países mais ricos e dos ‘emergentes’, onde a tecnociência tem um de seus portos, batem-se contra a asfixia e a discussão, em reformas intermináveis e sempre inconclusas, sobre suas pertinências e eficácias. No seio delas existe, como sempre, a semente da conservação e do efeito entrópico autodestrutivo. Na tecnociência de hoje, de origem universitária ou empresarial, o que importa é o grau de sua eficácia no processo produtivo, ou sua capacidade de convencer a sociedade de que as opções do mercado e as escolhas políticas do poder de plantão foram as mais corretas e inquestionáveis.

Por outro lado, a tecnociência de hoje é uma caixa obscura no que se refere aos seus sentidos, quando questionados pelos utilizadores de seus produtos. Era muito mais fácil compreender como funcionava uma máquina de escrever ou uma calculadora do que como funcionam os computadores e seus periféricos. O telégrafo era facilmente compreensível em sua lógica de pontos, traços, pequenos sons e pulsos elétricos. O correio eletrônico é fácil de ser usado e difícil de ser compreendido pelos seus usuários, no que se refere aos seus aspectos tecnocientíficos.

A tecnociência mantém uma ambivalência porque o seu uso generalizado não exige, no atual contexto, maiores treinamentos, mas a compreensão de sua essência precisa de conhecimentos mais apurados. No Brasil, por exemplo, as pessoas mais comuns ainda ficam espantadas ao descobrirem que os computadores são como as calculadoras, e que atrás das palavras, imagens e sons só existem números e linguagens de máquina compreensíveis pelos especialistas.

Ao contrário das várias máquinas analógicas do passado, as digitais cada vez mais prescindem de maiores conhecimentos para serem operadas. São fáceis para o uso, conserto etc, porém, extremamente complexas, para os leigos, quanto as suas naturezas e conformações tecnológicas. Mesmo os que as compreendem podem desenvolver relações totalizantes e acríticas, perdendo o sentido humano para o tecnocientífico, imaginando, por exemplo, que elas são capazes de determinarem o presente e o futuro. Isto tem sido freqüente desde as origens técnico-teóricas da cibernética, tal como já demonstraram Breton em vários textos e Céline Lafontaine, em seu recente livro. Neste sentido, tudo é muito diferente do passado.

Compreender o funcionamento de um carburador de um motor à explosão é muito mais simples do que entender como funciona a injeção eletrônica de um automóvel. A partir desta constatação, não fica difícil perceber as facilidades para a volta de um certo espírito mágico, de uma visão, paradoxalmente, religiosa dos objetos e de técnicas científicas contemporâneas. O que não pode ser compreendido é mais facilmente legível como algo que transcende à materialidade da vida.

Os países que alcançaram, ao longo do século XX, algum nível de desenvolvimento urbano-industrial defrontaram-se com algumas opções de Estado que se seguiram à proposta liberal do século XIX. Ao fim da Primeira Grande Guerra, o mundo se defrontou com a presença de um primeiro Estado socialista e, nos anos seguintes, com a existência de Estados fascistas que buscavam, ou diziam buscar, uma terceira via entre o socialismo soviético e os Estados liberais ocidentais.

O contexto da Segunda Grande Guerra teve alguns resultados de grande significação: a derrota parcial do modelo fascista, isto porque continuaram a existir Estados desta natureza pelo mundo afora, inclusive, na Europa; a crise dos Estados liberais clássicos, a qual já vinha sendo apontada desde 1929; a expansão e o fortalecimento, que durariam décadas, dos novos Estados de matriz socialista; a consagração do modelo intervencionista e protetor da sociedade adotado pelos Estados dos países mais desenvolvidos, o Welfare State.

Ao chegar ao fim da década de 1980, tinha-se no mundo industrializado e semi-industrializado, a existência em crise dos Estados socialistas e o desaparecimento quase que completo do modelo fascista-autoritário-ditatorial, antes existente nos países mais pobres dos dois hemisférios. [2] Nos países ricos, a crise dos Estados keynesianos, que combinavam a forte intervenção na economia com a expansão dos direitos sociais, começava a se acentuar. Neste mesmo universo, o qual exclui a grande maioria das nações da face da Terra, o paradigma neoliberal se avizinhava como alternativa à crise, ou, segundo seus críticos, ao aumento da crise social em detrimento da diminuição das perdas do capital. A resistência das populações tem evitado uma catástrofe maior, mantendo, mesmo em escombros, os velhos Estados do bem-estar social.

O caso dos EUA é todo especial, porque apesar de pertencer à mesma geografia política ocidental, este país jamais abandonou por completo os pressupostos liberais. Manteve-se misto, combinando estratégias liberais com o intervencionismo e a proteção social. Quando veio a onda neoliberal, houve muita fumaça na Europa e, apenas uma névoa seca nos EUA.

Em países periféricos, tais como o Brasil, que jamais conheceram a integralidade dos Estados-providência, mas onde alguma influência disto foi experimentada por efeito do populismo, a questão política nunca foi a mesma. Havendo diferenças significativas dos problemas que ainda são enfrentados na Inglaterra ou na França, em alguns exemplos atuais. Mesmo não sendo exatamente a mesma, a questão da diminuição de direitos atribuídos a algumas parcelas da sociedade tem sido motivo de muita controvérsia e disputa. Afinal, nem mesmo durante o período das ditaduras militares brasileiras ousou-se tanto, tal como hoje, na retirada de direitos, entendidos por alguns como privilégios.

Neste novo Estado neoliberal, o problema da eficiência foi colocado no centro da discussão política. O uso massivo dos recursos informáticos tem sido visto como uma espécie de solução final. Modernizar o Estado, melhorar sua administração tem sido compreendido como atuar estrategicamente com base nas possibilidades geradas pelas novas máquinas, programas e procedimentos. Isto tem significado também ampliar a ação estatal sem, necessariamente, aumentar o número de pessoas empregadas. Investir na informática tem sido visto, em escalas diversas, como algo mais modernizante do que qualquer outra medida. Por outro lado, a face de modernização, por meio do uso dos recursos informáticos, tem sido ‘vendida’ à população em geral, e aos eleitores em particular, como propaganda política relativa aos pretensos rigores e eficiências das administrações mais recentes.

Pensa-se que estas três caixas obscuras, são a base do uso massivo dos recursos informáticos. Elas são potências turvas por se processarem, nos aspectos que lhes são mais estratégicos, longe da luz solar, isto é, fora da vista direta do tecido social. São obscuras por resistirem à interpretação, por se colocarem em patamares distantes destes fatos, como se nada tivessem a ver com isto. Servem como base para a formação da moderna mitologia que envolve o uso da informática, sobretudo o da internet e demais redes de acesso e troca de informações variadas.
 

A parole no centro dos argumentos sobre a informática

Breton já estabeleceu os parâmetros sobre a parole informática contemporânea, dividindo-a em dois grupos de força, os tecnófobos e os tecnofílicos, e propondo a busca de uma terceira via. O estabelecimento destas balizas coloca a questão da busca de um equilíbrio na discussão sobre o problema. Se por um lado, é inútil pensar uma sociedade sem as tecnologias da informação, por outro, não é ‘natural’ aceitar a nova ordem maquínica do mundo sem problematizá-la e sem buscar soluções que a humanizem.

De acordo com a teoria da parole, proposta por Breton, esta substância básica da comunicação está presente nos meios de comunicação humanos, sendo transportável também pelos meios técnicos, inclusive os usados pela informática. Estes, em si mesmos, seriam a parole cristalizada na forma de equipamentos ou de programas de computador, os quais funcionam retroalimentados pela parole, que, por sua vez, seria o motivo de se construir e fazer funcionar estes recursos.

A parole é uma espécie de líquido que corre pelos sulcos da comunicação. Sem ela, as máquinas digitais de nada servem. Não funcionariam, tais suas dependências dos atos comunicacionais humanos. Seriam descartadas ou estocadas como objetos impossíveis e desnecessários, como já ocorrem com as que foram superadas e consideradas obsoletas. Cabe aos homens tocá-las com os seus sentidos, usando os seus corpos, para que elas pareçam estar vivas.

Estes fatos não são assim mostrados e compreendidos quando se consultam inúmeras fontes. Ao contrário, os recursos informáticos são apresentados publicamente pelas mídias como algo que se impõe frente à parole. O problema está na tendência anti-humanista, já apontada por Celine Lafontaine, da moderna cibercultura e de outras abordagens contemporâneas dos problemas humanos. As máquinas digitais são socialmente descritas por muitos entusiastas ou ingênuos quase como seres capazes de deduzir, propor e resolver problemas. A velha idéia do ‘cérebro eletrônico’ jamais foi inteiramente sepultada.

Os argumentos sobre a informática surgem na forma de paroles usadas por seus atores (sujeitos). Há o contexto onde estas paroles nascem, se desenvolvem e em certos casos, morrem. Se as paroles são artefatos produzidos pelos homens, elas vivem um ciclo de vida e morte, não exatamente como os humanos. Podem ser ressuscitadas quando olhamos e tentamos compreender, por exemplo, os computadores, hoje considerados obsoletos, e quando lemos, em outros exemplos, os textos de Von Neumann, Turing e Wiener. Mas, é possível dizer que não há paroles eternas, a não ser no sentido arqueológico, e que seus atores são capazes de fazer mudanças tão grandes que levem à troca completa dos seus sentidos originais.

Isto quer dizer que os homens de hoje podem fazer empréstimos às paroles do passado para reforçarem alguns sentidos que, segundo eles, são justos e necessários.

A releitura da parole passada implica acrescentar novos sentidos, a partir de novas imbricações, reconstruindo-se o que se pensou em determinada época. Há dois riscos conhecidos: o do anacronismo, relativo à perda do contexto de criação; e o do dogmatismo, considerando-se a parole concebida no passado como guia indiscutível para os problemas do presente e, sobretudo, do futuro. O modo de não se deixar envolver por estes riscos é o de tê-los em mente, e sempre perguntar se não se está fazendo nada semelhante. Em síntese, os argumentos nascem em um contexto e pela força das pessoas que tiverem o papel de os construir, ao modo de paroles ditas ou escritas.

A tecnofobia é uma espécie de anacronismo, uma busca de um tempo perdido, um saudosismo impraticável. Por mais que elementos do passado permaneçam vivos no presente, aconteceram rupturas. O presente, mesmo manchado pelo passado, é algo novo e diferente, não tão diferente como os tecnofílicos imaginam, sendo presentistas, e negando a existência das ‘manchas do passado’, assim como, acreditando que o presente é necessariamente melhor.

Crê-se que o presente, na sua totalidade, não é melhor e nem pior, sendo sobretudo diferente. Nada há nada demais em celebrar aspectos interessantes da história passada, ver vantagens em tal ou qual fato, ou processo, sempre lembrando que aquilo já se passou e jamais voltará à vida, pelo menos em sua forma original. Como também não há nenhum inconveniente em lembrar que em determinada época houve algo tenebroso como o fascismo, exorcizando-se inclusive suas marcas no mundo de hoje e temendo o seu retorno, mesmo que em novas roupagens.

A tecnofilia é uma espécie de adesismo incondicional às potências dominantes no presente. Seus adeptos pouco problematizam o capitalismo financeiro e se integram sem qualquer dificuldade a ele e as suas demandas ideológicas. Curiosamente, por vezes, isto é apresentado como um novo espírito revolucionário, capaz de trazer grandes modificações ao presente. Normalmente, eles atacam quem não concorda com eles de modo frontal e pejorativo. Aproveitam das fragilidades argumentativas dos tecnofóbicos, seus grandes críticos, para acusar os que ousam discordar da new age, como porta-vozes da conservação e do atraso. A estratégia argumentativa de combate que usam lembra a da Igreja medieval em sua luta, por exemplo, contra o pensamento livre de um Giordano Bruno.

O suporte da tecnofilia é claramente estabelecido. Habita o Estado contemporâneo e os interesses empresariais internacionais do ramo das novas tecnologias. É verdadeiro que existem entre os seus adeptos os que não compreendem bem os seus significados e que, paradoxalmente, também criticam a atual ordem política e econômica internacional. Aí está um dos mistérios da tecnofilia, sua enorme capacidade de se travestir, sua força diabólica de se apresentar de inúmeras formas e, por fim, sua infinita capacidade de atrair adeptos entre as novas gerações.

Sendo portadores da parole, os recursos informáticos carregam a história da humanidade, mesmo que isto não seja sempre percebido por seus usuários. Na internet, por exemplo, é possível encontrar inúmeros argumentos, das mais variadas acepções, sobre a natureza e o devir histórico. Há, no mundo da WEB, um verdadeiro painel dos conhecimentos, dores, amores e outros problemas da humanidade. Está tudo lá, de modo enciclopédico, caminhando rapidamente para o modelo biblioteconômico. Trata-se de uma verdadeira Babel informativa, expressiva e argumentativa, que pretende virtualizar o saber e o ser.

Não se crê que, algum dia, esta meta seja plenamente alcançada, por mais que seja perseguida incansavelmente. Como nos demais meios técnicos de comunicação, a WEB caminha atrás do desenvolvimento do saber e, na maioria dos casos, não consegue representá-lo integralmente. O ser não está e jamais estará nas máquinas digitais, a não ser como caricatura da existência humana. Nenhuma máquina ou tecnologia é capaz de substituir a natureza dos homens e das mulheres forjadas em milênios e sempre em processo contínuo de renovação.

A WEB conseguiu se impor no campo do acesso rápido às informações concisas, obviamente quase sempre sem qualquer controle de pertinência. É fácil ver isto se pesquisarmos, por exemplo, sobre uma doença grave. Existem inúmeras home pages sobre o câncer, contendo inúmeros artigos científicos sumários ou detalhados, publicidade de medicamentos, testemunhos de doentes e suas famílias, aconselhamentos de entidades especializadas, estatísticas e cálculos de esperança de vida para determinados casos, notícias de congressos e outros eventos etc. Portanto, um amplo painel, redigido em várias línguas e com abordagens diversas. O consulente acessa, pela primeira vez em real time na história humana, um verdadeiro oceano de dados e opiniões. Trata-se de algo perturbador o fato de ser possível se perder em tal universo. Não raro isto ocorre, criando um verdadeiro Estado de pânico.

Se a parole é uma substância líquida, tal como aqui se defende, ela tem, metaforicamente, propriedades semelhantes às da água, podendo saciar a sede e, paradoxalmente, afogar, matando seus usuários. O afogamento nas informações superexpostas dos nossos dias cria um outro fenômeno sociocultural de envergadura, o qual podemos chamar de ilusão do conhecimento.

Ao receber uma quantidade imensa de dados fragmentários, não importando a origem e suas concepções imanentes, pode-se imaginar que se chegou ao topo do Everest do saber. Não seria mais preciso ler livros inteiros, nem ouvir cuidadosamente, se possível com suas presenças físicas, o que dizem os especialistas. Não seria mais necessário desconfiar de múltiplas visões, e nem buscar um pouso mais sólido para a aventura do conhecimento. Está tudo lá, tudo foi dito, tudo está escrito, tal como nos livros sagrados. No mundo do dogma, não há lugar para o ceticismo. Duvidar é pecado e, para se acreditar, basta teclar.

Os recursos informáticos, enquanto meios técnicos de comunicação da parole humana, demonstraram-se muito eficientes no seu lado informativo e multimídia. Todavia, eles são mais uma forma inventada pelos homens para fazer circular a parole, aumentado a potência dos meios de comunicação humanos usuais. Existem e existiram outras e, certamente no futuro, ainda outras serão inventadas. As tecnologias não vão parar de se desenvolver e nos surpreender com ainda outros objetos que servirão para a comunicação. Se estes objetos serão ou não socialmente aceitos, isto consiste em um outro problema.

O que é específico na parole transmitida pela informática, sobretudo pelas redes, é a sua transparência. Os objetos da informática funcionam socialmente como espelhos translúcidos, isto é, como algo que, pelo menos aparentemente, pode ser atravessado. É possível sentir ou acreditar sentir a ubiqüidade, pensar que não existem mais fronteiras a vencer, e que, para isto, basta deixar o corpo se desmaterializar, transformando-se em bytes.

A possibilidade de desmaterializar o corpo, e depois recompô-lo em igual formato e conteúdo, é uma quimera da ficção científica, muito popular. A relação com a TV já enunciava a lógica de um espelho translúcido. A sociedade, ao incorporar a TV como um dos seus objetos e ferramentas de uso, deu elementos para que se acreditasse que o visto na TV se confundia com a própria vida. Os computadores são sucessores da TV, com a novidade interativa, isto é, eu posso agir sobre o que surgirá magicamente na tela. Meus olhos, mãos e dedos tocam a realidade simbólica criada pelos programas e equipamentos.

Os meios técnicos digitais conferem uma possibilidade de simulação bem maior do que os meios analógicos. Permitem que a sensação de presença física seja mais forte, e que se possa, sem muita dificuldade, acreditar que o virtual é igual ao real material. Esta sensação vem sendo explorada como argumento muito significativo de defesa da tecnofilia. A partir dela, um universo de fatos ou de apenas promessas vem sendo desenvolvido na defesa e na publicidade da new age.

Esta maravilhosa era do virtual teria como conseqüência mais evidente a não necessidade de se viver a proximidade das demais pessoas. Teclando, no conforto de nossas casas, podemos trabalhar no home office, fazer amor com absoluta segurança e assepsia na era da AIDS, comprar quase tudo o que está disponível no comércio moderno, ouvir rádio, ver TV, trocar mensagens com nossos próximos e com absolutos desconhecidos, adquirir informações e conhecimentos etc.

A falta de proximidade e o isolamento social lembram um pouco a esquizofrenia, com o sintoma da dificuldade do estabelecimento de laços afetivos entre as pessoas. Trata-se, portanto, de uma espécie de patologia social relacionada às dificuldades de nosso tempo. Naturalizar este processo consiste também em aceitar que todos os modos de vida e comportamentos anteriores perderam qualquer validade. Sabe-se que não é exatamente assim que essas coisas funcionam.

Não há dúvida de que a internet e as outras redes e recursos informáticos tenham trazido enormes benefícios ao trabalho e ao ócio dos homens e das mulheres. Algumas coisas permanecem melhores se vividas do modo anterior. Nada indica que irão desaparecer ou que se tornem obsoletas. Há, aqui, uma repetição de antigas cantilenas. Houve quem temesse que o cinema acabasse com o teatro. O rádio e as gravações foram acusados de prejudicar os espetáculos aos vivo. A TV e o videocassete foram considerados o motivo da diminuição da leitura e acusados de serem coveiros do cinema.

A internet sofre atualmente acusações deste tipo, todas improcedentes. Mesmo que as tecnologias não sejam neutras em si mesmas, como alguns autores insistem em pensar, elas não conseguem ser capazes de mudar comportamentos e culturas sem que estejam em um contexto social e político favorável a isto. Normalmente, quando isto ocorre, o problema está muito mais fora das tecnologias do que realmente dependente delas.

Conclusões

As tecnologias não são neutras porque são construídas a partir da parole humana. Quando prontas e postas em uso, são como Pinóquio, representando o eterno desejo humano de se reproduzir através do seu trabalho. São representações da razão e da emoção humanas, os seus usos acrescentarão novos valores objetivos e subjetivos. Até mesmo suas obsolescências são decisões dos sujeitos humanos envolvidos, assim como os casos de retorno ou de insistente permanência.

Se as pessoas preferem o amor virtual ao bom e insubstituível amor carnal, é porque elas sofrem de alguma patologia social, psíquica ou física. Se as pessoas preferem se isolar em casa, não tendo contato com mais ninguém, isto pode ser interpretado ou ocasionado por várias razões.

As pseudodificuldades nas relações interpessoais podem estar associadas ao aumento da carga horária de trabalho, ao uso das dependências de moradia como extensão do ambiente onde se ganha o pão, às dificuldades de relacionamento político no local original onde se labuta, ou ao puro desejo de concelebrar sozinho o distanciamento patológico.

Se as pessoas preferem comprar pela internet, isto pode ser relacionado a preços mais baixos e às comodidades deste procedimento. Obviamente, pode também, como tudo que é relativo ao consumo, ser um mecanismo de distinção social.

Não há magia nas relações estabelecidas entre o público e os recursos informáticos. Aprender a usá-los significa hoje conquistar ou não postos de trabalho. Acessar à internet, além de ser um elemento de distinção social, tem vantagens objetivas do ponto de vista das ‘necessidades’ de consumo, bem como, consiste em um meio de localizar ou ser localizado por alguém que se deseja encontrar. Consultar informações na internet é mais prático do que fazer o mesmo em catálogos, fichários e obras de referência. Não ter um endereço eletrônico significa pagar mais por serviços de correio ou de fac-símile e, também, ser diferente das pessoas com quem nos relacionamos e, por isto, menos aceito.

A construção de interfaces amigáveis aumentou o poder de atração social dos recursos informáticos. Sendo de uso mais fácil e construindo pontes de inter-relações sociais, os computadores e todos os seus atributos tornaram-se produtos de consumo muito apreciáveis nos países mais ou menos industrializados. No oriente e no ocidente, unificados pelo capitalismo financeiro e pela mundialização dos negócios, o uso dos recursos informáticos disputa com o automóvel, o telefone celular e os aparelhos e serviços da imagem capturada, o podium das mercadorias e dos serviços consumidos ou sonhados por centenas de milhões de pessoas.

Parte-se da hipótese de que os problemas sociais relacionados ao uso dos recursos informáticos têm resposta no estudo da sociedade que os gerou. Acredita-se que é falso o pressuposto tecnofóbico de que é a tecnologia em si mesma, o que gera estes problemas, e que isto possa levar a um grande acidente, a uma espécie de apocalipse tecnocientífico. Acredita-se que as pesquisas sobre as tecnologias que não considerarem o contexto histórico onde estas são geradas serão sempre equívocos. Não avançarão em nada na compreensão dos problemas de nosso tempo.

A parole é o elemento que unifica os meios de comunicação humanos. Ela é transportada pelos recursos informáticos, que também são, em si mesmos, frutos da parole e que sem ela de nada servem. Vendo o problema deste modo, as informações, os argumentos e as expressões transportadas pela informática, que também servem de suporte para sua existência, consistem no verdadeiro problema a ser estudado e compreendido. Fazer isto significa também buscar elos civilizatórios perdidos, resgatar a humanidade das tentativas de alguns sujeitos tornarem o homem menos humano, e de considerar a máquina como solução para o problema das imperfeições e fragilidades da espécie.




* Este artigo é baseado no relatório final de pesquisa do pós-doutorado (com bolsa do CNPq) de Luís Carlos Lopes na Sorbonne (Paris I) sob a direção de Philippe Breton.

Notas

[1] Alain Gras teme que países como o Brasil terminem por ficar na categoria de 'emergentes' por prazo indeterminado.

[2] Nos países ainda mais pobres, agrários sem qualquer nível expressivo de industrialização, esta situação pouco mudou até hoje.
 

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Sobre o autor / About the Author:

Luís Carlos Lopes
lclopes@alternex.com.br

Professor do corpo permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense