DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.6  n.3   jun/05                            ARTIGO 04

Uma Informação Tácita
A tacit information
por Vitória Peres de Oliveira




Resumo: Este artigo discute o aspecto tácito nos processos de geração e transferência da informação e conhecimento, e sua importância para os estudos de Socialização da Informação. Para fazê-lo propõe uma definição nova de informação e um modelo teórico que trata o processo de transferência de informação em dois níveis complementares, o que permite que o aspecto tácito da informação seja exposto e enfatizado e não esquecido e escondido como em modelos anteriores.
Palavras-chave: Informação tácita; Socialização de informação; Conhecimento tácito; Comunicação científica; Transferência de informação.

Abstract: This article discusses the tacit aspect within the processes of information and knowledge generation and transfer and its importance for the studies of socialization of information. To attain its aim, it proposes a new definition of information and a model in two levels to treat the process of information transfer, that allows the tacit aspect of information to be exhibited and emphasized, on the contrary of previous models that hide and forget it.
Keywords: Tacit information; Socialization of information ; Tacit knowledge; Scientific communication; Information transfer.
 
 
 

Introdução

Quando se fala em informação, normalmente se associa a algo direto, que se pode comunicar facilmente. Por isso, falar em uma informação tácita soa, a princípio, estranho. Proponho, neste artigo, motivos para utilização deste atributo tácito à informação e de como esta forma de compreendê-la pode contribuir para sua socialização.

Utilizarei como base para discutir este tema, a pesquisa realizada por mim sobre transferência de informação e conhecimento em um laboratório de Biologia Molecular (OLIVEIRA, 1998), e também como referência a pesquisa do projeto SACI[1]. Como uma forma de aproximar a pesquisa acadêmica aos projetos em curso, decidir aproveitar este momento, para fazer uma ponte e situar este mesmo tema em relação a um documento do Banco Mundial, que trata de questões relacionadas a transferência de informação e conhecimento em países em desenvolvimento.

O Relatório do Desenvolvimento Mundial, no biênio 1998/1999 (CONHECIMENTO.... 1999), produzido pelo Banco Mundial sugere que, um novo olhar, um olhar do ponto de vista do conhecimento, seja utilizado para pensar a questão do desenvolvimento nesta era da informação. Trata da questão falando em termos de lacunas de conhecimento e problemas de informação. As lacunas de conhecimento advindas da falta de conhecimento tecnológico e os problemas de informação gerados pelas dificuldades criadas com a ausência de conhecimentos dos atributos.

A socialização da informação me parece ser uma contribuição necessária a este novo olhar. É um ângulo diferente da questão relacionado à transferência e geração de informação, pertinente tanto à informação, como também ao conhecimento, mas que aqui se voltará principalmente para a informação. É uma questão crucial e sua compreensão fundamental, pois como diz ainda o mesmo relatório : "Problemas de informação quase sempre estão no cerne das dificuldades que os habitantes pobres dos países em desenvolvimento enfrentam em sua luta diária pela sobrevivência" (CONHECIMENTO.... 1999, p.10).

Para discutir, entretanto, a Socialização da Informação e seu aspecto tácito será necessário primeiro definir de uma forma nova informação, permitindo uma visibilidade de certos aspectos que nos permitirá entender melhor o que esta socialização implica. É comum, quando se fala dos problemas de informação, que se pense principalmente na disponibilização dos meios tecnológicos, na difusão destes meios e no acesso a esses meios pelos usuários, como suficiente para lidar com a informação que se quer disponível. Entretanto, a visão que se vai apresentar aqui, trará à tona outro aspecto da informação, que costuma ser negligenciado, seu aspecto tácito. Quando se leva em consideração este aspecto, fica sem sentido dizer por exemplo que conhecimento e informação podem ser transferidos por meios impessoais, pois isso significa esquecer por completo o papel do receptor ( e tudo que isso implica) numa transferência de informação, imaginando que há uma possibilidade de comunicação que não dependa de pessoas em cada terminal do processo.

Para lidar com a informação, sem esquecer que ela envolve um receptor que está imerso (de uma forma bastante tácita) em uma cultura ou sub-cultura, vou apresentar uma classificação que diferencia dado, informação e conhecimento. Este tipo de classificação já é usado em Ciência da Informação, disciplina que tem se debruçado intensamente sobre estas questões, entretanto, a que se vai apresentar aqui trará algumas mudanças que se devem a uma visão epistemológica distinta que foi utilizada para pensar estas mesmas questões.

Uma trajetória breve, por alguns conceitos e teorias, se faz necessária para me permitir situar e destacar os termos de referência que estarei utilizando. O conhecimento tácito, a teoria epistemológica de Maturana e Varella, o conceito de Informação utilizado pela Ciência da Informação são alguns desses marcos. A partir deste referencial, vou propor um modelo para se trabalhar com a informação. Um modelo, que ressalta o seu aspecto tácito, e que foi fruto da elaboração teórica, pesquisa e reflexão realizadas para a minha tese de doutorado em Ciência da Informação.
 

Referencial Teórico

1. Conhecimento Tácito

Vários estudos anteriores que pesquisaram, por exemplo, o conteúdo da ciência, apontaram para o seu componente tácito e enfatizaram o papel do conhecimento tácito. Polanyi[2] no final dos anos cinquenta foi o primeiro a chamar atenção para este aspecto. Collins (1974), nos anos setenta, retomou de novo este conceito ao falar de transferência de conhecimento no âmbito da comunicação científica. Indicava-se que mesmo no campo da ciência, muito do conhecimento científico era tácito e transferido tacitamente.

O conhecimento tácito é em geral definido como o conhecimento pessoal, contextual e portanto difícil de formalizar e comunicar. Em contraposição com o explícito que é o conhecimento passível de ser transmitido formalmente e sistematicamente através da linguagem. O tácito sendo entendido como aquele conhecimento onde não somos capazes de formular regras, e o explícito seria aquele capaz de ser passado através de instruções. A idéia de conhecimento tácito não está restrita apenas a habilidades motoras ou técnicas, ou corporais, mas também a elementos cognitivos. Estes elementos cognitivos do conhecimento tácito referem-se a modelos mentais, tais como esquemas, paradigmas, perspectivas, crenças e pontos de vistas através dos quais os indivíduos percebem e definem o seu mundo. Quando refletimos sobre Socialização da Informação, a importância do conhecimento tácito logo se torna evidente e os estudos que tratam do tema passam a trazer contribuições bastante relevantes.

As discussões, sobre um componente tácito na comunicação científica, continuaram nos anos 80 e 90[3], relacionadas agora também com o campo da Inteligência Artificial quando trata da possibilidade de converter conhecimento tácito em explícito e envolvendo também os expert systems. Alguns autores entendendo que o que chamamos conhecimento tácito está relacionado mais com os limites de processamento de cálculo do cérebro humano. Outros autores, afirmando não se tratar apenas disso e defendo a taciticidade como um conceito que envolve implicações sociológicas e filosóficas. Não cabe discutir esta questão aqui, mas vou aproveitar alguns de seus aspectos para pensar a socialização da informação.

A administração empresarial (NONAKA; TAKEUCHI, 1995) agora também, através de estudiosos japoneses, tem falado do conhecimento tácito e de como lidar com ele. Para eles o conhecimento tácito é pessoal, contexto-específico e, portanto, difícil de formalizar e comunicar. Em seus estudos afirmam a necessidade de socialização, processo onde se partilham experiências, como o meio melhor de transmitir este tipo de conhecimento.

A idéia do tácito, apesar de ser mais uma dicotomia – tácito vs. explícito, é frutífera para se pensar diversos fenômenos, principalmente se se tem em conta não uma dicotomia fechada, mas uma compreensão de gradação, de escala, de complementaridade Ter claro o caráter tácito da informação permitirá pensar na socialização da informação como fundamental para qualquer processo onde se for lidar com transferência de informação, ou com educação à distância, ou instalações de bancos de dados, etc. Permite, em última análise, uma abordagem mais ontológica e compreensiva do problema da informação
 

2. Teoria epistemológica de Maturana & Varella

Para abordar o conceito de informação usarei a teoria epistemológica de Maturana e Varella. Quando Maturama escreveu seus primeiros artigos com outros pesquisadores sobre a visão dos sapos, eles tinham, como diz ele, o pressuposto implícito de que estavam
 

[...] lidando com uma situação cognitiva claramente definida: havia uma realidade objetiva (absoluta), externa ao animal, e independente dele (não determinada por ele), que poderia ser percebida (conhecida), e o animal poderia usar a informação obtida na sua percepção para computar um comportamento adequado a situação percebida (MATURANA; VARELLA, 1972, p. xiv).
 
Esta visão teve que ser mudada quando eles começaram a estudar a visão em cores dos sapos. Então constataram que não havia uma correlação da atividade na retina com o estímulo físico externo ao organismo, e que para ser capaz de entender este fenômeno uma nova abordagem e epistemologia seriam necessárias. Tinham se dado conta que o mapeamento do mundo externo não era uma abordagem adequada (porque não havia uma correlação da atividade na retina com o estímulo físico externo ao organismo), por isso decidiram tentar algo completamente diferente que foi o correlacionar a atividade da retina com a experiência de cor do sujeito.

A percepção visual torna, portanto, inviável uma abordagem representacionista, pois para cada neurônio da retina projetado sobre nosso córtex visual, há mais de cem neurônios que provêm de outras partes do córtex. O efeito de projetar uma imagem sobre a retina não é como uma linha telefônica ligada a um receptor. Seria mais, no dizer de Maturana e Varela, como uma voz (perturbação) somada a muitas vozes numa agitada tarde de transações na bolsa de valores em que cada participante ouve o que lhe interessa.

Uma nova abordagem, que tratasse a atividade do sistema nervoso, como determinada pelo próprio sistema nervoso, e não pelo mundo externo, foi o que estes autores buscaram. O mundo externo sendo entendido como tendo um papel de desencadear ou disparar mudanças e não determiná-las, já que tanto o sistema nervoso quanto o mundo externo operam com determinação estrutural. Isto naturalmente teve conseqüências fundamentais, porque a percepção passou a ser entendida como uma especificação de uma realidade externa e não como a apreensão dela. Os autores afirmam, portanto, que a nossa experiência está indissoluvelmente permeada pela nossa estrutura, "[...] aquilo que tomávamos como a simples apreensão de alguma coisa (como espaço ou cor) traz a marca indelével de nossa própria estrutura. [...] Não vemos o ‘espaço’ do mundo - vivemos nosso campo visual. Não vemos as ‘cores’ do mundo - vivemos nosso espaço cromático." (MATURANA; VARELLA, 1995, p.65).

Com isso, esses autores não pretendiam negar o mundo externo, mas sim afirmar que, ao buscar conhecer este mundo externo, se descobre que não se pode separar a história das ações biológicas e sociais do ser humano, de como esse mundo nos parece ser. A cognição é, portanto, uma ação efetiva, conhecer é produzir um mundo.

Esta teoria que eles construiram apresenta uma visão alternativa ao ponto de vista representacionista, que diz que o conhecimento é baseado em adquirir ou pegar características relevantes de um mundo já dado que pode naturalmente ser decomposto em fragmentos significativos. Eles se separam desta visão dando ao ser vivo uma autonomia, e rastreando esta autonomia até suas raízes celulares. É nossa organização autopoiética[4] que nos define como unidades autônomas, portanto estruturalmente determinados.

A partir desta compreensão, Maturana e Varella afirmam que nós não podemos transmitir informação para alguém, porque o fenômeno da comunicação não depende no que se dá, mas no que acontece com o receptor. Afirmam que falar de ‘informação’ contida em uma foto, um objeto, ou na palavra impressa, é falso. Porque,
 

[...] pressupõe uma unidade que não está determinada estruturalmente, em que as interações são instrutivas, como se o que ocorre com um organismo numa interação fosse determinado pelo agente perturbador e não por sua dinâmica estrutural.[...]. O fenômeno da comunicação não depende do que se fornece, e sim do que acontece com o receptor. E isso é diferente de ‘transmitir informação’ (MATURANA; VARELLA, 1995, p.219).


De acordo com esses autores, um agente perturbador pode somente desencadear algo em um receptor, mas este algo será determinado pela estrutura do receptor.

Um dos elementos chaves da teoria é o papel do observador externo, que permite uma distinção entre caracterização e descrição de um sistema. Esta distinção permite falar em duas dimensões envolvidas na comunicação, um nível do observador externo/descrição (aquele que vê de fora uma comunicação acontecer) e um nível da estrutura/caracterização (ou seja o que acontece no receptor). Estas duas dimensões são complementares e vou utiliza-las para pensar a transferência de informação e conhecimento
 

Conceito de Informação – Ciência da Informação

Os conceitos de informação na área da Ciência da Informação têm sido vários. Vou optar aqui, por não fazer uma revisão das diferentes definições e conceitos[5] e trabalhar apenas a partir da definição de Belkin & Robertson. Esses autores definiram informação como "aquilo que é capaz de mudar uma estrutura". Apesar da utilidade que tem este conceito para a disciplina, sugiro que é mais conveniente dizer que: informação é aquilo que é capaz de desencadear uma possível mudança numa estrutura. Esta mudança no conceito de informação é útil por deixar visíveis aspectos relevantes do fenômeno que serão discutidos de uma forma mais detalhada a seguir. É, portanto, desta definição reelaborada de informação que parto para discutir a tríade dado/informação/conhecimento.

Como animais sociais e lingüísticos, não podemos falar de nada fora do nosso referencial social, cultural e lingüístico. É nossa capacidade de partilhar, dar sentido e comunicar-nos dentro de uma forma de vida[6] que nos torna humanos. Não há informação lá fora para ser apanhada ou captada, só posso dizer que algo tem informação, se contrasto isso com um referencial que já tenho e que me diz que ali tem informação.Pois, não é possível perceber uma diferença sem uma estrutura através da qual se possa medir se, o que se vê, é ou não uma diferença[7].
 

Um reajuste de enfoque – o aspecto tácito da informação

Para conceituar dado/informação/conhecimento faço certos reajustes de enfoque incorporando os aportes teóricos mencionados anteriormente. Estes reajustes são necessários para que se possa pensar de uma forma nova a socialização da informação e seu aspecto tácito. Eles estarão ressaltando, ou seja, trazendo a tona, quatro aspectos importantes: a distinção entre dado e informação, a presença de um quadro de referência sócio-cultural, o papel do receptor e uma visão não-representacionista de da informação.
 

Dados

Primeiramente, é importante ressaltar a distinção entre dado e informação. Ela nos permite entender mais claramente o que seja uma diferença. Dados (mensagens ou artefatos), são meios concretos, suportes físicos codificados. Entretanto, mesmo dizer que ‘eles são materias codificados’, exige alguém, um observador, que seja capaz de identificá-los como tal, eles não podem ser considerados em si mesmos, fora de um contexto, como contendo informação possível, e, portanto, como sendo um dado. Dados têm a potencialidade de carregar informação, mas é necessário partilhar de uma forma de vida para ser capaz de distinguir o que é ou não um dado. Isto pode ser algumas vezes difícil de perceber, pois vivemos em um contexto social onde partilhamos uma forma de vida que nos capacita distinguir qual dado contém essa possibilidade de informação e qual não, e, ao mesmo tempo nos torna cegos para o fato de que nós, somente podemos distinguir entre esses dados, porque partilhamos uma cultura ou seja uma forma de vida.

Quando se tenta identificar dados em uma outra cultura, que não é a nossa, se percebe, de uma forma mais óbvia, essa necessidade de um referencial, dessa partilha de uma forma de vida, como substancial para se ser capaz de dizer o que é ou não um dado. A Arqueologia e a Antropologia estão cheias de exemplos que nos permitem ver isto acontecer. Por exemplo, um livro pode ser usado para leitura (e, portanto, como um instrumento para desencadear uma possível informação em um leitor, informação esta que dependerá da estrutura desse leitor), ou pode ser usado como um peso para segurar uma porta, por alguém que não saiba ler, ou não conheça sua utilidade (pois sua cultura não tem).

Ao falar de dados é bom que fique saliente que o dado é constituído por um código que pode disparar uma informação no receptor. Também é preciso lembrar que não se pode falar de dado ou informação sem um contexto, sem um agente humano que o aponte enquanto tal.
 

Informação

Agora já podemos falar de informação. Informação é, portanto, uma possibilidade desencadeada por uma mensagem ou dado em um receptor. Suportes físicos levam em si dados ou mensagens codificadas, mas não informação. Informação é algo invisível (não concreto), desencadeada por um meio concreto. O suporte físico, com seu código, pode desencadear algo no receptor, mas não pode determinar o seu efeito, porque este efeito dependerá da estrutura do receptor. É sem sentido falar de informação sem mencionar (não importa quão implicitamente) ao mesmo tempo um receptor e um gerador.

Sócrates, quando apresentou o mito da invenção da escrita, refletiu sobre sua propriedade e impropriedade, dizendo, segundo Platão:
 

[...] qualquer um que deixe atrás de si um manual escrito, e, da mesma forma qualquer um que o apanhe, na suposição de que tal escrito fornecerá algo sustentável e permanente, deverá ser excessivamente ingênuo; deve ser realmente ignorante da afirmação de Ammon, se ele imagina que palavras escritas podem fazem mais do que lembrar a alguém que já sabe, ao que a escrita se refere (In HACKFORTH, 1952). (Tradução minha).


O papel do receptor é fundamental quando se fala em informação. Isto soa óbvio, quando pensamos, mas é freqüentemente esquecido. Quando dizemos, por exemplo, que um livro ou um terminal de computador tem informação, esquecemos disto. Só poderíamos dizer que um livro pode desencadear informação em alguém que tem a estrutura mental, social e cultural adequadas para lhe dar sentido. Isto significa que alguns requisitos são necessários tais como: uma pessoa capaz de ler, esta pessoa precisa conhecer o idioma em que está sendo transmitida a mensagem e precisa partilhar da forma de vida ou termos de referência sociais e culturais nos quais a mensagem se insere. Mesmo com todos esses requisitos preenchidos, ainda teremos as diferenças entre os indivíduos e sua compreensão advindas da estrutura própria de cada um e da sua história de interações anteriores.

Pode-se argumentar que estes requisitos estão implícitos quando se diz que um livro ou um terminal de computador têm informação, e isto pode ser verdade, mas o que se deseja indicar aqui é que esta forma de falar reforça uma visão representacionista da informação, que precisa ser evitada se queremos ter uma compreensão mais abrangente e aprofundada do fenômeno. Esta visão traz consigo vários pressupostos, o mais perigoso deles é que a informação pode ser captada independente do estado em que se encontra o receptor, que ela pode determinar o efeito que terá no receptor, ou seja que ela é instrutiva.

Poder-se-ia perguntar então: mas por que parece que a informação é tão facilmente transmitida (passada de alguém para alguém), quando se observa de fora um processo de transferência? E a resposta é, porque aquelas pessoas partilham de um quadro de referências ubíquo como participantes em uma forma de vida na qual estão imersas. Esta imersão social é intrinsecamente tácita e dificilmente pode ser tornada explícita. Por isso, para se ser capaz de desencadear informações e conhecimentos é necessário partir de uma socialização onde um quadro de referência comum possa ser construído. A palavra desencadeia ou dispara é a chave para esse conceito, pois indica que o mundo externo tem um papel de gatilho e reforça o papel estrutural do receptor.

O que fica de relevante aqui é a identificação de dois níveis ou dimensões[8] na transferência da informação. Um nível a partir de um observador externo, que olha a interação entre dois sujeitos e afirma que um transmite e outro recebe informação. Outro nível, a partir do ponto de vista estrutural do sujeito, que vê a interação como uma perturbação (um dado) vinda de fora ou de dentro e que dispara uma possível mudança (ou informação) numa estrutura, mudança esta determinada pela estrutura mesma e suas interações anteriores.

Ao se dizer, que um dado desencadeia uma possível informação em um sujeito, não se está apenas utilizando uma forma distinta para dizer uma mesma coisa, mas principalmente permitindo que mais facetas fiquem à mostra e sejam observadas, que outros níveis sejam levados em conta. É finalmente um modelo que deixa o aspecto mais tácito da informação exposto, diferente de outros modelos que o escondem, e, portanto que permite que se fale em uma informação tácita. Voltarei as implicações deste modelo para a Socialização da Informação mais adiante.
 

Conhecimento

Vários autores trabalharam com a distinção entre informação e conhecimento. Alguns, como Belkin por exemplo, entenderam que informação é conhecimento, e não buscaram nenhuma distinção específica entre esses dois termos. Outros autores como, por exemplo Machlup, distinguiram informação de conhecimento, dizendo que informação envolve processo enquanto conhecimento é um estado. Saracevic entendeu, por sua vez, que informação, conhecimento e estruturas de conhecimento são um fenômeno, enquanto comunicação e uso de informação são processos. Outros autores ainda entenderam informação como conhecimento codificado.

O que sugiro aqui é que a diferença entre informação e conhecimento seja mais como uma diferença de graus em uma escala do que uma distinção de categoria. Informação e conhecimento são entendidos como produtos da inteligência humana e do linguajar[9], e sua capacidade de selecionar, nomear, ordenar e juntar. Informação e conhecimento são parte de um mesmo processo. Processo este que inclui a capacidade de arrumar e rearrumar padrões, usando elementos e grupos de elementos; como um processo contínuo de transformação, no qual as transformações são desencadeadas por agentes perturbadores (internos ou externos) e determinadas por nossa estrutura e sua contínua história de transformações. É um processo tanto social como individual.

A informação estaria nos primeiros graus de uma escala, cujos últimos graus estariam associados ao conhecimento. A diferença de grau portanto, entre informação e conhecimento, estaria associada, no nosso entender, à aplicação.

Conhecimento implicaria em aplicação, ou possibilidade de aplicação e informação seria um conhecimento sem aplicação. É por isso que informação passa a idéia de ser capaz de ser armazenada, enquanto é mais difícil pensar em conhecimento sendo armazenado. Para que seja possível desencadear, a partir de um dado codificado, uma informação em alguém, o que é requerido é que se partilhe de uma mesma forma de vida. Em geral este referencial é ubíquo, partilhado pela maior parte dos membros de uma comunidade. O processo cognitivo e social que foi necessário fica como um ponto cego, que não vemos. Como o conhecimento implica uma possibilidade de usar ou de aplicar o que se sabe, ele traz em si, mais a mostra, o seu aspecto tácito. É possível perceber este aspecto com mais facilidade, pois nas interações em que se busca uma transferência de conhecimento, se percebe que se precisa de uma experiência, uma prática, que não pode ser explicitada muito facilmente e que este conhecimento para ser transmitido envolve, portanto, também o estar junto, o observar, o imitar, o experimentar[10].

Esta questão aparece também quando discutimos a possibilidade da utilização de pesquisas & desenvolvimentos estrangeiros, sem levar em conta que não basta disponibilizar, mas que é necessário muito mais do que isto. Como disse T. Kealey, biólogo inglês, em artigo na revista New Scientist, onde falava de pesquisa e sua utilização, para um pesquisador ser capaz de se beneficiar de pesquisas de outros, tem que ser ele mesmo um pesquisador experimentado. E para ser capaz de interpretar e capturar a literatura global da área, tem que ser, ele também, um cientista muito bom.
 

A socialização da Informação

Pelo que vimos até agora, há um impasse extremo existente no processo de transferência de informação e conhecimento, ou seja, dito de uma forma ligeira e superficial, só podemos falar para quem já sabe, falar para quem não sabe é inútil. E neste ponto gostaria de contar uma história, da antiga tradição sufi, que retrata de uma forma magistral este tema do qual estamos falando. É uma história de Mulla Nasrudin, o mestre sufi que ensina pelo humor:
 

"Um dia Nasrudin, devido a sua fama de grande sábio, foi convidado a fazer um discurso aos habitantes de uma aldeia próxima. Ele aceitou e chegando lá, subiu ao pódio e começou:
- Vocês sabem sobre o que vou falar?
Alguns membros da assembléia responderam:
- Não!
- Nesse caso - disse o mulla com dignidade - não adianta falar, já que vocês não sabem.
Na semana seguinte, após insistentes pedidos dos habitantes da aldeia, que agora ainda mais interesse tinham em ouvi-lo, Nasrudin voltou.
E de novo subiu ao pódio e começou:
- Vocês sabem sobre o que vou falar?
Os membros da assembléia diante da mesma pergunta e não sabendo bem como reagir, pois ele as fitava com olhos ferozes, responderam:
- Sim!
- Nesse caso - retrucou Nasrudin - não preciso falar mais, já que vocês já sabem.
E saiu da sala.
Entretanto, os habitantes da aldeia diante dessa nova situação, de novo foram em delegação persuadi-lo a falar para eles, pedindo que fizesse mais um esforço.
Nasrudin aceitou e apresentou-se à assembléia, de novo perguntando:
- Vocês sabem sobre o que eu vou falar?
Visto o que tinha sucedido das outras vezes, as pessoas já tinham combinado uma resposta e metade respondeu "sim sabemos," enquanto a outra metade respondia "não, não sabemos".
- Nesse caso - disse Nasrudin, de novo afastando-se -, os que sabem contem o que sabem aos que não sabem."


Portanto, não é de hoje que o ser humano se preocupa com a possibilidade de comunicação e socialização da informação. É como lidar com esse impasse que meu estudo, junto com outros que vêm sendo realizados, quer contribuir.

O modelo proposto até agora permite que se entenda a informação como subjetiva, tácita e exigindo uma socialização para ser desencadeada. Não é uma questão de terminologia, ou seja, de acabar com uma possível confusão entre dado e informação, mas de entender que é necessário aprofundar os estudos do processo de socialização da informação. Esta é uma especialidade emergente da Ciência da Informação (BRAGA; CHRISTOVÃO, 1998), que ao enfatizar a função social da informação e harmonizá-la com a visão da Ciência da Informação, o faz, levando em conta nos seus pressupostos, novas teorias e priorizando a intertematicidade.

A ênfase a ser dada, quando se entende que em um nível não se transmite informação, é em um processo de socialização que permita que se enfrente os chamados problemas de informação. Voltando ao relatório do Banco Mundial, que mencionamos no início deste artigo, ele sinaliza, em diversos momentos, para o que chama ouvir os pobres, ou seja para a participação dos beneficiários no planejamento e implementação dos projetos. Esta participação com certeza pode ser enriquecida se mais estudos e pesquisas[11] sobre a socialização da informação forem realizados.

São as ações humanas, entendidas como fruto de uma imersão social, que passam a constituir o cerne de um conhecimento e informação tácitos difíceis de serem apreendidos fora de um contexto socializante e cultural. Para entender a socialização, é necessário entender como se dá este processo de imersão social. Em uma pesquisa realizada por mim em um laboratório de biologia molecular de uma universidade inglesa, busquei observar como se dava a transmissão de conhecimento e informação entre os participantes, principalmente em seus aspectos tácitos. O pesquisador/aluno ia construindo seu quadro de referência da sub-cultura em questão, ou seja um filtro, através do convívio com os outros colegas e professores, Não bastava apenas seguir um protocolo, mas o que estava envolvido era a re-criação de todo o conhecimento e técnicas de novo[12]. Em várias respostas estava clara a importância da experiência e convívio:
 

Biologia Molecular é muito especial, no sentido que muitas coisas são freqüentemente muito simples, e são escritas de uma forma muito simples, e pareceria que você pode aprender delas. Mas, de fato, você não pode. É importante pelo menos algumas vezes, acompanhar alguém que está fazendo experimento, porque há informação que você simplesmente não pode escrever, sem ser muito laboriosa de ler, e porque há muitas coisas feitas por pessoas que seria impossível escrever. [...] (OLIVEIRA, 1998, p.177).
 
Também era comum nas respostas, os pesquisadores dizerem que pela leitura de um artigo era quase impossível reproduzir uma experiência. O que normalmente acontecia, era que um contato, pelo menos telefônico com o autor daquela experiência, era feito para que se fosse capaz de reproduzi-la.

Em um dos depoimentos um professor nos falou na dificuldade de ensinar a fazer ciência, já que isto envolve a criação de novos hábitos mentais e comportamentais. Só através de um convívio é que se aprendia (ou seja de uma forma que envolvia também um aprendizado tácito) a fazer ciência. Ele tinha uma equipe com muitos alunos e pesquisadores estrangeiros que, portanto, muitas vezes vinham de backgrounds muito diferentes. Como ele disse:
 

A coisa mais difícil de captar, eu acho, não são as tecnologias, mas os conceitos. Eu observei, por exemplo, que se alguém vinha de uma cultura ou país diferente, muitas vezes eu pressupunha que eles percibiam a importância de, ao fazer um experimento, coletar diferentes amostragens, controlar variáveis, Ter um padrão e um controle. Mas isto não se dava necessriamente e podia levar um longo tempo para persuadi-lo que essas coisas eram necessárias, se ele não tivesse sido educado com estes conceitos, por assim dizer [...] (OLIVEIRA, 1998, p. 178).
 
Como disse o mesmo professor, mudar a forma de pensar sobre como fazer ciência leva muito tempo. E é assim, porque há muito de conhecimento e informação tácitos que compõem este novo referencial que se precisa construir.

Ao falarmos em socialização da informação é exatamente isto que acontece. Para que um dado desencadeie uma informação em alguém, é necessário que haja um referencial comum. Nos projetos apresentados no artigo sobre desenvolvimento, do Banco Mundial, o qual viemos tomando como referência, para discutir a questão da informação, vê-se que muita mudança de comportamento e hábito dos beneficiários é necessária, para que aconteça uma transferência de informação. É preciso muito mais do que apenas disponibilizar informação. E mesmo o seu fluxo, para que ocorra, para que se estabeleça uma via de mão dupla, precisa também de uma construção comum de um novo referencial.

Utilizando a linguagem proposta no presente artigo, dizer que alguém recebeu uma informação portanto, é dizer que este alguém partilha de um referencial comum que permite que dados desencadeiem informação. Dados só podem ser entendidos como poder, se podem desencadear informação em alguém que tenha conhecimento para utilizá-la. Para beneficiar-se de dados e sua possível informação, além de um referencial comum, volto a repetir, é necessário que se tenha algo mais, ou seja, um conhecimento que permita uma aplicação.

No processo de socialização de informação, primeiro se precisa construir em conjunto este referencial ubíquo, quase invisível, que nos permite transformar dados em informação. É um primeiro nível que permitirá que as informações façam sentido.

Para construir referenciais novos, a partir e com a ajuda dos já existentes, fazem-se necessários programas de capacitação que compreendam a necessidade de convívio e outras atividades. Na pesquisa do projeto Saci dirigida pelas profas. Dras. Gilda Maria Braga e Heloisa Tardin Christovão, onde trataram da disseminação de informações sobre a hanseníase, esta questão ficou muito clara. Uma mudança de comportamento nos receptores surgiu como uma necessidade prévia para que as informações pudessem chegar às pessoas e possibilitar qualquer ajuda.

O que os estudos em Socialização da Informação têm reforçado é que a qualificação do sujeito é fundamental. E que é necessária que seja entendida adequadamente. Não basta uma democratização da informação, que forneça aos beneficiários, dados, pois isto seria similar a dizer que todos têm direito a ler livros, e conseqüentemente dar livros a analfabetos. É a qualificação do sujeito que precisa ser ressaltada. Ter consciência do aspecto tácito dessa socialização já é um passo, para que se entenda, que dados por si só não funcionam.

A nossa sugestão é que este debate sobre a necessidade de socialização da informação seja incorporado na geração e acompanhemento de projetos relacionados a questões de transferência de informação e conhecimento, permitindo novas pesquisas e mais aplicações práticas que, certamente, enriquecerão a todos.
 

Notas

[1] Ver Projeto Integrado de Pesquisa “Socialização da Informação: desenvolvimento de metodologias para a sua efetivação”. Processos CNPq 523272/94-4 (NV) e 522943/96-9 (NV), coordenado pelas Dras. Gilda Maria Braga e Heloisa Tardin Christovão.

[2] “Sabemos mais do que podemos dizer” (POLANYI, 1958, p.70).

[3] Ver entre outros: Collins, 1995; Mackenzie; Spinardi, 1995;  Senker; Faulkner, 1993. Ver também o livro de Stephen Turner, 1994,  onde critica o conceito e sugere uma nova teoria social, onde enfatiza o papel dos hábitos e nega a idéia de um coletivo social.

[4] Autopoiesis é a capacidade de auto-referência de um sistema, sua capacidade de se auto-produzir continuamente. Como a célula que produz os componentes que produzem a própria rede de componentes que os gerou.

[5] Para uma revisão mais completa desse conceito na área de Ciência da Informação ver Belkin, 1978 e  Oliveira, 1998.

[6] Forma de vida aqui está sendo usada no sentido que lhe dá Wittgenstein (1953). Partilhar uma forma de vida é conhecer a gramática e seguir as regras. É a gramática que nos diz o que faz sentido e o que não faz sentido dizer ou fazer. Esta gramática não é apenas da língua, mas social, e em sua maior parte não é articulada, é conhecida de uma forma tácita por um membro de uma cultura.

[7] Ver mais em Bateson, 1979, sobre esta questão da diferença.

[8] Ver a questão da caracterização e descrição de um sistema em Maturana e Varella, 1995.

[9] Palavra utilizada por Maturana e Varela para indicar esta idéia de processo criativo social da linguagem.

[10] Ver pesquisa da autora sobre este tema em um laboratório de Biologia Molecular (OLIVEIRA, 1998).

[11] Ver Projeto Integrado de Pesquisa “Socialização da Informação: desenvolvimento de metodologias para a sua efetivação” coordenado pelas profas. Dras. Gilda  Maria Braga e Heloisa Tardin Crhistovão. Ver também Oliveira, 1998.

[12] Ver também o estudo de Mackenzie; Spinardi (1995) sobre a construção de armas nucleares.
 

Referências bibliográficas

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Sobre a autora / About the Author:

Vitória Peres de Oliveira
vitoriaperes@terra.com.br

Professora adjunta da UFJF/ICHL