DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.8   n.3   jun/07                       COLUNAS

Os limites da liberdade na convivência Digital
por Aldo de Albuquerque Barreto



Sempre me preocupou refletir sobre qual é o limite da tecnologia, ou a partir de que ponto este conjunto de conhecimentos e princípios científicos, que se aplicam a um determinado uso deixa de ter interesse social.

Um processo de inovação se inicia com uma nova tecnologia; a tecnologia,  como uma sucessão de eventos sistemáticos de técnicas, processos, métodos, meios e instrumentos de uma ação de transformação de idéias e de operações. A inovação é a aceitação dos eventos da tecnologia pela pluralidade dos elementos de um determinado espaço social, que, acredita que, isso trará um bem comum, uma situação melhor do que a que existia antes. A inovação modifica a realidade e os seus habitantes.

O limite da tecnologia é quando a inovação criada por ela  deixa de trabalhar em benefício do indivíduo e se volta contra ele para lhe causar problemas. As novas tecnologias de informação de tão intensas em inovação produzem medo ao aumentar consideravelmente os poderes do homem; algumas vezes transformando-o em objeto destes poderes.

O mundo digital cria facilidades para as atividades cotidianas,  atividades de pesquisa e de ensino, mas cria, também, monstros que assombram a nossa segurança e privacidade.

Se alguém invadir seu computador e apagar todos os seus arquivos, nenhum crime terá sido cometido, segundo as leis brasileiras. Invasões, vírus de computador, destruição de dados e novas formas de condutas abusivas são delitos comuns hoje no ciberespaço, assim como o racismo e a violência moral. Usar a internet traz sempre o risco de ser vítima de um crime tecnológico.

Há dois tipos de delitos mais comuns na rede. O primeiro inclui crimes tradicionais utilizando a internet como um meio para prática de crimes fora do mundo eletrônico, contra a lei vigente: casos de ofensas morais, racismo, plágio e incitação à violência. A estas ações, os especialistas dão o nome de crimes eletrônicos. Na segunda categoria estariam as práticas ofensivas cujo fim é a lesão a dados ou sistemas computacionais. São os crimes chamados informáticos.

Entre as invasões e alterações ilegais nos sistemas das pessoas e de empresas, destacam-se roubo de senhas e informações sigilosas para fraudes bancárias, financeiras, corrupção de arquivos e páginas da internet, seqüestro de documentos , por exemplo.

Tem sido muito pensado neste novo século cibernético a questão do valor da tecnologia da informação quando ponderado contra a possibilidade de uma existência mais simples e com mais felicidade. Qual é o papel da informação eletrônica neste grande dilema do ser humano atual. Quanto da informação se orienta para uma inteligência coletiva e quanto para uma inteligência de competição individual e de mercado. Esta informação se associa  a felicidade do ser humano na simplicidade dos seus espaços de convivência?  Espaços do simples e doce sentimento da existência.

O iluminismo, pensamento que defende a valorização do homem e da razão, modificou o status do acesso da informação. Os iluministas pregavam uma sociedade de oportunidades iguais para todos, também, através da informação e do conhecimento. O seu corolário, o princípio da publicidade da informação promoveria o uso público dos discursos como um bem sempre livre que faria brilhar as luzes entre os homens.

Contudo, as utopias coletivas da felicidade pela informação foram trocadas por quimeras individuais que, conduzem a uma nova configuração do seu valor para a sociedade. Os sonhos do indivíduo se dirigem, cada vez mais, ao sucesso, ao lucro e a individualidade. Sonhos conduzidos por uma procura competitiva da maior vantagem pessoal. A informação dirigida para uma sociedade solidária mostra, na desagregação de seus membros, estar envergonhada ao servir melhor aos interesses das trocas e dos valores competitivos.

Domina o agir atual um fatalismo de agregação de valor individual, que determina o curso dos acontecimentos como fixado e impossível de ser alterado. Em nosso viver cotidiano impera uma imobilidade estabelecida e resultante da crença em um cenário impossível de mudar e que é induzido pela força estruturante do personalismo e reforçado pelas ações dos meios massivos de comunicação, da grande ciência, do mercado consumista e da apatia do estado.

Esta imobilidade silente transforma a convivência real e o pensar coletivo em algo subversivo, sem esperança e infeliz. A convivência atual acontece virtualmente em uma realidade paralela de salas de discussão e mensagens eletrônicas; os jovens preferem a comunicação instantânea  de "torpedos" ou os mensageiros interativos para viver e relatar ali a sua vida aos companheiros.

Cada vez mais a opção de uma vivência escondida se mostra em uma nova tecnologia da informação como a dos "Chats", o "Facebook", o "MySpace", os "Podcasts", RSS e os Vodcasts. Parece que uma Second Life é possível. O doce sentimento da existência é vivido por nosso outro, um avatar do que sonhamos ser. Em uma vivência sem presença.

Esse é o fatalismo da vivência eletrônica sem compromisso com o real, onde o centro de avaliação exclui do mundo autêntico a esperança de estar no contato pessoal a felicidade do conviver. Na realidade virtual o valor advém do êxito de exibição e do sucesso dos mil contatos nos sites de convivência. A felicidade da visibilidade tem que ser assegurada mesmo que em um mundo paralelo.

Há que se lidar com os limites da tecnologia da informação.

 




Aldo de Albuquerque Barreto
aldoibct@alternex.com.br

Pesquisador Titular do MCT-Ibict