A intuição do instante
Editora: Verus Editora Ltda.
Autor: Gaston Bachelard
ISBN : 8576860104
ISBN-13: 9788576860105
1ª Edição - 2007 - 107 páginas
Em 'A intuição do instante',
Bachelard faz uma cuidadosa exploração do tempo, de sua duração e da
percepção que temos dele, examinando para isso as idéias de Bergson e
Roupnel e as teorias de Einstein. Para o autor, o tempo não tem outra
realidade senão a do instante.
Contrariamente à percepção comum, a experiência do tempo não é aquela de uma
duração contínua e objetiva que transcorreria independente de nós. O tempo
não passa de uma seqüência descontínua de instantes sempre novos, sem
relação uns aos outros - ele é fundamentalmente descontínuo.
O passado, o futuro e a duração são apenas ilusões, construções formais sem
realidade objetiva. Os hábitos e o progresso, longe de se dissolverem na
descontinuidade dos instantes, dão-lhes uma nova dimensão.
O progresso é parte integrante do hábito - a cada novo instante o gesto,
renovando-se, se aperfeiçoa.Para o autor, o tempo não tem outra realidade
senão a do instante. Na “A intuição do instante” o autor desenvolve a
idéia do historiador francês Gaston Roupnel
(1872-1946) em um de seus mais importantes estudos,
Siloë”, que propõe o olhar sobre a história numa perspectiva de tempo
descontinuada. Para Roupnel, a verdadeira realidade do tempo é o
instante.
Esta proposta opõe-se explicitamente à teoria do filósofo Henri Bergson
(1859-1941), que trata do tempo como contínuo e um
todo em si mesmo. Para Bergson o que existe é apenas o passado, mais
contraído ou mais distendido, já para Bachelard o tempo é composto por
uma sucessão de instantes descontínuos. Escrito de caráter universal um dos
mérito deste livro é retomar a discussão sobre o conceito de tempo e ligá-lo
à criação do conhecimento:
"O conhecimento é por excelência uma obra temporal. É ai que se situa o diferencial do conhecimento, o fluxo newtoniano que nos permite perceber como o espírito surge da ignorância, a inflexão do gênio humano na curva descrita pelo progresso da vida. A coragem intelectual consiste em manter vivo e ativo este instante do conhecimento nascente,em fazer dele a fonte inexaurível de nossa intuição e em desenhar, com a historia subjetiva de nossos erros e equívocos o modelo objetivo de uma vida melhor e mais clara."
Gaston Bachelard
Filósofo e epistemólogo francês, Gaston Bachelard (1884-1962) foi professor
de física, química e filosofia, antes de assumir, na Sorbonne, a direção do
Institut d’Histoire des Sciences et des Techniques. É autor de um bom número
de reflexões sobre o conhecimento e a pesquisa.
Aldo de Albuquerque Barreto
* Recensão utilizou,também, material de divulgação do
livro.
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Memórias clandestinas e sua museificação
Autora: Ana Lucia Siaines de Castro
Editora: Revan, Rio de Janeiro, RJ
ISBN 978-85-7106-361-7
1ª Edição, maio 2007, 209 páginas
A curiosidade pelos lugares onde se cristaliza e se refugia a memória está ligada a um momento particular da nossa história. Momento que é como canteiro de obras onde a consciência da ruptura com o passado confunde-se com o sentimento de uma memória estraçalhada; mas onde a ferida ainda desperta o que há de memória para que seja possível colocar o problema de sua encarnação. O sentimento da continuidade torna-se residual a alguns lugares. Existem lugares de memória porque já não existem os meios-memória. [Pierre Nora, ENTRE MEMÓRIA E HISTÓRIA: A PROBLEMÁTICA DOS LUGARES]
Na verdade é disso que trata o livro* de Ana Lucia Siaines de Castro:
"Memórias Clandestinas e sua museificação. A memória, em nosso entender, se
qualifica como uma condição modificadora da consciência do individuo e de seu
grupo social, pois, o sintoniza com o conhecimento de seu passado e lhe permite
intuir perspectivas de seu futuro.
A densidade dos ritos de informação corresponde a qualidade do saber acumulado
na memória. Representa um conjunto de atos contínuos, que se acrescentam no
tempo; obras pelo qual o indivíduo ou a instituição, reelabora o seu mundo
modificando o seu espaço, como uma criação em convivência com o passar do tempo.
A densidade da memória é agregativa e aderente e não se separa do todo de uma
qualidade conquistada. Isto é o que faz ser, completamente diferente, o pensar
de um homem de cinqüenta anos e de outro de cinco anos. Santo Agostinho, também,
nos fala sobre a densidade da memória: "Lá estão guardados todos os nossos
pensamentos, quer aumentando, quer diminuindo, quer modificando de qualquer modo
as aquisições de nossos sentidos e tudo o que aí depositamos ou reservamos, se
ainda não foi sepultado ou absorvido pelo esquecimento. Tudo isso realizo
interiormente, no imenso palácio de minha memória. Ali tenho às minhas ordens o
céu, a terra, o mar com todas as sensações que neles pude perceber com exceção
das que já me esqueci" (O milagre da Memória, Confissões).
A interatuação do sujeito, com os seus estoques de memória, potencializa o
espectro temporal de seu destino indicando que existem tempos distintos para
configurar as moradas da memória e uma esperança de que esta memória depois de
formalizada possa transformar as realidades existentes. Deriva daí a importância
da residência da memória.
No tempo do computador pessoal dizemos: vou entrar em um arquivo indicando a
idéia de viagem e permanência no local da informação e esta possibilidade de
ingresso mostra a circunstância de serena espera da memória para possibilitar
uma ação maior.
Entrar em um arquivo é desvendar castelos em labirinto onde o viajante não pode
nunca olhar de cima para baixo, como um ser avoante, e ver as tramóias, os
caminhos certos para a informação desejada. Há que se percorrer todas as
alamedas para conhecer o labirinto da memória.
Estes arquivos potencialmente armazenados em estoques de informação, acumulam-se
exponencialmente em estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo existindo
filtros naturais na entrada para limitar qualitativamente o crescimento do
estoque, a coisa toda poderá tombar devido ao seu próprio peso, a menos que se
modifiquem, pelo deslembramento, as proporções relativas da estrutura em relação
ao seu conteúdo.
Há mais de 350 anos, Galileu formulou seu princípio da similitude dizendo que
nenhum organismo biológico ou instituição humana, que sofra uma mudança de
tamanho e uma conseqüente mudança na escala de proporções, não passa por isso
sem modificar sua forma ou conformação. Galileu seguia um princípio matemático
definido como a Lei do Quadrado e do Cubo; isto é, se o volume cresce em uma
razão quadrada, o espaço que o contém (estoques de memória) deve ser formatado
em uma razão cúbica. Se a memória cresce em dois episódios há que haver espaço
para armazenar seis episódios para que forma e conteúdo tenham uma adequação
própria. Existe, assim, uma relação entre o volume e a forma que o contém. Esta
seria a razão da maçã nascer em árvores altas e de galhos longos e de o melão
nascer no chão. De a girafa ter longas pernas e o rinoceronte ter pernas
pequenas e grossas. Mas, a macieira não pode seguir crescendo para aumentar o
volume de seus frutos, haverá um momento em que por sua própria estrutura,
vergará sob seu peso e quebrará.
A analogia destes conceitos ao crescimento dos estoques de memória leva a crer
que estas estruturas de armazenagem tendem a crescer em volume periódica e
cumulativamente e terão em um determinado momento que enfrentar um problema de
forma e conteúdo. A menos que existam estratégias de adaptação, os estoques
tenderão a quebrar por seu próprio peso; transformar-se em agregados inúteis de
informação por terem um exagerado excedente de informação não relevante.
Esta condição dos estoques de memória nos traz à imaginação as questões da
memória e do esquecimento. É necessário domiciliar parte de nossa memória para
abrir espaço. Pensamos, então, na condição do não esquecimento das memórias
clandestinas, ocultas por razões sociais de certa contemporaneidade e por isso
não conseguem um domicílio instituído, o que possibilitaria o esquecimento. Não
podemos treinar a deslembrar como treinamos o aprimorar de nossa memória. Mas o
esquecimento é uma qualidade da memória, que a preserva e a mantém saudável.
Nossa memória funciona, e só funciona porque nos é dada esta capacidade do
esquecimento.
De um dia para o outro retemos as informações relevantes e perdemos
propositalmente o resto. As instituições de memória, instituições de domicílio
destes estoques, tentam operacionalizar o esquecimento através de mecanismos de
museificação almejando diminuir o volume dos estoques excedentes, que fariam
nossa memória quebrar pelo peso do seu excesso.
Este equilíbrio entre a memória e o esquecimento é belamente apresentado por
Jorge Luís Borges em "Funes o Memorioso". Irineo Funes o protagonista da
estória, por razões de uma doença, passou a ter uma memória sem limites: "eu
tenho mais memórias em mim mesmo que todos os homens tenham tido desde que o
mundo é mundo" conta ao narrador. Funes, não recordava somente, uma folha de
cada árvore em uma montanha, como também cada uma das vezes que tinha percebido
ou imaginado a árvore ou a montanha. Era incapaz de idéias gerais. Não podia
armazenar somente a imagem genérica de um "cão". Este símbolo, como todos os
demais, abrangia milhões de diferentes sujeitos específicos, o cão das dez
horas, o cão da tarde, o que foi visto de perfil ou o visto de frente. Ao
relembrar de algo em outro contexto esta informação era adicionada a informação
já existente, aumentando o volume de sua memória.
Irineo Funes não podia esquecer, por uma condição da sua própria natureza. Sua
memória infinita não legitimava a informação ou facilitava a comunicação com
seus semelhantes. "Minha memória, senhor, dizia ao narrador, minha memória é um
imenso depósito de lixo."
Nossa memória trabalha porque nos é dada a capacidade de esquecer. Mas a mente
humana, quando em seu sentido de justiça tem a irracionalidade dos fantasmas,
que assombram e afastam uma realidade falsamente construída. Memórias
clandestinas por opressão não podem ser esquecidas e precisam ser recontadas
como uma lenda. Como a lenda as lembranças clandestinas tem um percurso de
passos delirantes sem destino certo e explicações fáceis: é como um percorrer de
labirintos de medusas entrelaçadas. Lenda porque as memórias emaranhadas se
agregam pela narração de diferentes indivíduos seguindo caminhos alternativos e
com diferentes intenções. Memórias clandestinas são lendárias, pois, qualquer
seja o seu núcleo de intenção, representarão sempre a soma do que delas se diz
(ou se pensa) de acordo com os diferentes enunciados. A memória lenda pode
referir na sua narração atributos de proezas notáveis ou maledicências
perversas; reunirá lembranças de heróica exaltação ou críticas de conversação
maledicente. Percorre assim, a sua própria odisséia no real e passa a ser
independente da narrativa que quer ser formal e oficial. Somente a memória
arquivada e de domicílio seguro pode ser retirada da lembrança latente e ter sua
historia definitiva como uma representação da realidade.
As memórias clandestinas como nos conta, o presente livro, com todas as suas
testemunhas, não podem ser domiciliadas propriamente enquanto perdurar o poder
do opressor ou seus reflexos. O segredo, tudo que há de mais escondido, se
oculta à vista e ao conhecimento e não pode ter domicílio próprio, gerando
enorme tensão cognitiva. O segredo só quando revelado e consagrado na memória
museificada pode ser deslembrado sem ser esquecido. Que nos falem disso os
museus em sua relação com a história.
Ana Lúcia pesquisou durante alguns anos o tema das memórias clandestinas como
fruto da opressão e agora nos mostra seu entendimento e reflexões sobre o tema.
Alinhavou em sua narrativa testemunhas reais dos anos de ferro que vivemos em
nosso país. Lendas cederam à realidade. Seu livro domicilia uma memória que, se
antes clandestina, hoje talvez possa ser deslembrada, mas nunca esquecida.
*Prefácio de Aldo Barreto para a primeira edição do livro em maio de 2007.