DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.8   n.3  Jun/07                            RECENSÕES

A intuição do instante
Editora: Verus Editora Ltda.
Autor: Gaston Bachelard
ISBN : 8576860104
ISBN-13: 9788576860105
1ª Edição - 2007 - 107 páginas


Em 'A intuição do instante', Bachelard faz uma cuidadosa exploração do tempo, de sua duração e da percepção que temos dele, examinando para isso as idéias de Bergson e Roupnel e as teorias de Einstein. Para o autor, o tempo não tem outra realidade senão a do instante.

Contrariamente à percepção comum, a experiência do tempo não é aquela de uma duração contínua e objetiva que transcorreria independente de nós. O tempo não passa de uma seqüência descontínua de instantes sempre novos, sem relação uns aos outros - ele é fundamentalmente descontínuo.

O passado, o futuro e a duração são apenas ilusões, construções formais sem realidade objetiva. Os hábitos e o progresso, longe de se dissolverem na descontinuidade dos instantes, dão-lhes uma nova dimensão.

O progresso é parte integrante do hábito - a cada novo instante o gesto, renovando-se, se aperfeiçoa.Para o autor, o tempo não tem outra realidade senão a do instante. Na “A intuição do instante” o autor desenvolve a idéia do historiador francês Gaston Roupnel (1872-1946) em um de seus mais importantes estudos, Siloë”, que propõe o olhar sobre a história numa perspectiva de tempo descontinuada. Para Roupnel, a verdadeira realidade do tempo é o instante.

Esta proposta opõe-se explicitamente à teoria do filósofo Henri Bergson (1859-1941), que trata do tempo como contínuo e um todo em si mesmo. Para Bergson o que existe é apenas o passado, mais contraído ou mais distendido,  já para Bachelard o tempo é composto por uma sucessão de instantes descontínuos. Escrito de caráter universal um dos mérito deste livro é retomar a discussão sobre o conceito de tempo e ligá-lo à criação do conhecimento:

"O conhecimento é por excelência uma obra temporal. É ai que se situa o diferencial do conhecimento, o fluxo newtoniano que nos permite perceber como o espírito surge da ignorância, a inflexão do gênio humano na curva descrita pelo progresso da vida. A coragem intelectual consiste em manter vivo e ativo este instante do conhecimento nascente,em fazer dele a fonte inexaurível de nossa intuição e em desenhar, com a historia subjetiva de nossos erros e equívocos o modelo objetivo de uma vida melhor e mais clara."

Gaston Bachelard
Filósofo e epistemólogo francês, Gaston Bachelard (1884-1962) foi professor de física, química e filosofia, antes de assumir, na Sorbonne, a direção do Institut d’Histoire des Sciences et des Techniques. É autor de um bom número de reflexões sobre o conhecimento e a pesquisa.

Aldo de Albuquerque Barreto

* Recensão utilizou,também, material de divulgação do livro.

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Memórias clandestinas e sua museificação
Autora: Ana Lucia Siaines de Castro

Editora: Revan, Rio de Janeiro, RJ

ISBN 978-85-7106-361-7

1ª Edição, maio 2007, 209 páginas

A curiosidade pelos lugares onde se cristaliza e se refugia a memória está ligada a um momento particular da nossa história. Momento que é como canteiro de obras onde a consciência da ruptura com o passado confunde-se com o sentimento de uma memória estraçalhada; mas onde a ferida ainda desperta o que há de memória para que seja possível colocar o problema de sua encarnação. O sentimento da continuidade torna-se residual a alguns lugares. Existem lugares de memória porque já não existem os meios-memória. [Pierre Nora, ENTRE MEMÓRIA E HISTÓRIA: A PROBLEMÁTICA DOS LUGARES]

Na verdade é disso que trata o livro* de Ana Lucia Siaines de Castro: "Memórias Clandestinas e sua museificação. A memória, em nosso entender, se qualifica como uma condição modificadora da consciência do individuo e de seu grupo social, pois, o sintoniza com o conhecimento de seu passado e lhe permite intuir perspectivas de seu futuro.

A densidade dos ritos de informação corresponde a qualidade do saber acumulado na memória. Representa um conjunto de atos contínuos, que se acrescentam no tempo; obras pelo qual o indivíduo ou a instituição, reelabora o seu mundo modificando o seu espaço, como uma criação em convivência com o passar do tempo. A densidade da memória é agregativa e aderente e não se separa do todo de uma qualidade conquistada. Isto é o que faz ser, completamente diferente, o pensar de um homem de cinqüenta anos e de outro de cinco anos. Santo Agostinho, também, nos fala sobre a densidade da memória: "Lá estão guardados todos os nossos pensamentos, quer aumentando, quer diminuindo, quer modificando de qualquer modo as aquisições de nossos sentidos e tudo o que aí depositamos ou reservamos, se ainda não foi sepultado ou absorvido pelo esquecimento. Tudo isso realizo interiormente, no imenso palácio de minha memória. Ali tenho às minhas ordens o céu, a terra, o mar com todas as sensações que neles pude perceber com exceção das que já me esqueci" (O milagre da Memória, Confissões).


A interatuação do sujeito, com os seus estoques de memória, potencializa o espectro temporal de seu destino indicando que existem tempos distintos para configurar as moradas da memória e uma esperança de que esta memória depois de formalizada possa transformar as realidades existentes. Deriva daí a importância da residência da memória.

No tempo do computador pessoal dizemos: vou entrar em um arquivo indicando a idéia de viagem e permanência no local da informação e esta possibilidade de ingresso mostra a circunstância de serena espera da memória para possibilitar uma ação maior.


Entrar em um arquivo é desvendar castelos em labirinto onde o viajante não pode nunca olhar de cima para baixo, como um ser avoante, e ver as tramóias, os caminhos certos para a informação desejada. Há que se percorrer todas as alamedas para conhecer o labirinto da memória.


Estes arquivos potencialmente armazenados em estoques de informação, acumulam-se exponencialmente em estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo existindo filtros naturais na entrada para limitar qualitativamente o crescimento do estoque, a coisa toda poderá tombar devido ao seu próprio peso, a menos que se modifiquem, pelo deslembramento, as proporções relativas da estrutura em relação ao seu conteúdo.


Há mais de 350 anos, Galileu formulou seu princípio da similitude dizendo que nenhum organismo biológico ou instituição humana, que sofra uma mudança de tamanho e uma conseqüente mudança na escala de proporções, não passa por isso sem modificar sua forma ou conformação. Galileu seguia um princípio matemático definido como a Lei do Quadrado e do Cubo; isto é, se o volume cresce em uma razão quadrada, o espaço que o contém (estoques de memória) deve ser formatado em uma razão cúbica. Se a memória cresce em dois episódios há que haver espaço para armazenar seis episódios para que forma e conteúdo tenham uma adequação própria. Existe, assim, uma relação entre o volume e a forma que o contém. Esta seria a razão da maçã nascer em árvores altas e de galhos longos e de o melão nascer no chão. De a girafa ter longas pernas e o rinoceronte ter pernas pequenas e grossas. Mas, a macieira não pode seguir crescendo para aumentar o volume de seus frutos, haverá um momento em que por sua própria estrutura, vergará sob seu peso e quebrará.
A analogia destes conceitos ao crescimento dos estoques de memória leva a crer que estas estruturas de armazenagem tendem a crescer em volume periódica e cumulativamente e terão em um determinado momento que enfrentar um problema de forma e conteúdo. A menos que existam estratégias de adaptação, os estoques tenderão a quebrar por seu próprio peso; transformar-se em agregados inúteis de informação por terem um exagerado excedente de informação não relevante.


Esta condição dos estoques de memória nos traz à imaginação as questões da memória e do esquecimento. É necessário domiciliar parte de nossa memória para abrir espaço. Pensamos, então, na condição do não esquecimento das memórias clandestinas, ocultas por razões sociais de certa contemporaneidade e por isso não conseguem um domicílio instituído, o que possibilitaria o esquecimento. Não podemos treinar a deslembrar como treinamos o aprimorar de nossa memória. Mas o esquecimento é uma qualidade da memória, que a preserva e a mantém saudável. Nossa memória funciona, e só funciona porque nos é dada esta capacidade do esquecimento.

 
De um dia para o outro retemos as informações relevantes e perdemos propositalmente o resto. As instituições de memória, instituições de domicílio destes estoques, tentam operacionalizar o esquecimento através de mecanismos de museificação almejando diminuir o volume dos estoques excedentes, que fariam nossa memória quebrar pelo peso do seu excesso.


Este equilíbrio entre a memória e o esquecimento é belamente apresentado por Jorge Luís Borges em "Funes o Memorioso". Irineo Funes o protagonista da estória, por razões de uma doença, passou a ter uma memória sem limites: "eu tenho mais memórias em mim mesmo que todos os homens tenham tido desde que o mundo é mundo" conta ao narrador. Funes, não recordava somente, uma folha de cada árvore em uma montanha, como também cada uma das vezes que tinha percebido ou imaginado a árvore ou a montanha. Era incapaz de idéias gerais. Não podia armazenar somente a imagem genérica de um "cão". Este símbolo, como todos os demais, abrangia milhões de diferentes sujeitos específicos, o cão das dez horas, o cão da tarde, o que foi visto de perfil ou o visto de frente. Ao relembrar de algo em outro contexto esta informação era adicionada a informação já existente, aumentando o volume de sua memória.
Irineo Funes não podia esquecer, por uma condição da sua própria natureza. Sua memória infinita não legitimava a informação ou facilitava a comunicação com seus semelhantes. "Minha memória, senhor, dizia ao narrador, minha memória é um imenso depósito de lixo."


Nossa memória trabalha porque nos é dada a capacidade de esquecer. Mas a mente humana, quando em seu sentido de justiça tem a irracionalidade dos fantasmas, que assombram e afastam uma realidade falsamente construída. Memórias clandestinas por opressão não podem ser esquecidas e precisam ser recontadas como uma lenda. Como a lenda as lembranças clandestinas tem um percurso de passos delirantes sem destino certo e explicações fáceis: é como um percorrer de labirintos de medusas entrelaçadas. Lenda porque as memórias emaranhadas se agregam pela narração de diferentes indivíduos seguindo caminhos alternativos e com diferentes intenções. Memórias clandestinas são lendárias, pois, qualquer seja o seu núcleo de intenção, representarão sempre a soma do que delas se diz (ou se pensa) de acordo com os diferentes enunciados. A memória lenda pode referir na sua narração atributos de proezas notáveis ou maledicências perversas; reunirá lembranças de heróica exaltação ou críticas de conversação maledicente. Percorre assim, a sua própria odisséia no real e passa a ser independente da narrativa que quer ser formal e oficial. Somente a memória arquivada e de domicílio seguro pode ser retirada da lembrança latente e ter sua historia definitiva como uma representação da realidade.

As memórias clandestinas como nos conta, o presente livro, com todas as suas testemunhas, não podem ser domiciliadas propriamente enquanto perdurar o poder do opressor ou seus reflexos. O segredo, tudo que há de mais escondido, se oculta à vista e ao conhecimento e não pode ter domicílio próprio, gerando enorme tensão cognitiva. O segredo só quando revelado e consagrado na memória museificada pode ser deslembrado sem ser esquecido. Que nos falem disso os museus em sua relação com a história.


Ana Lúcia pesquisou durante alguns anos o tema das memórias clandestinas como fruto da opressão e agora nos mostra seu entendimento e reflexões sobre o tema. Alinhavou em sua narrativa testemunhas reais dos anos de ferro que vivemos em nosso país. Lendas cederam à realidade. Seu livro domicilia uma memória que, se antes clandestina, hoje talvez possa ser deslembrada, mas nunca esquecida.

Aldo de Albuquerque Barreto *
 

*Prefácio de Aldo Barreto para a primeira edição do livro em maio de 2007.