A Mudança estrutural da solidão fundamental
por Aldo de Albuquerque Barreto
Um propósito da ciência da informação é o de conhecer e fazer acontecer o sutil fenômeno de percepção da informação pela consciência; percepção que, conduz ao conhecimento do objeto percebido.
A Essência do fenômeno da informação é a sua intencionalidade. Uma mensagem de informação deve ser direcionada, arbitrária e contingente para atingir o seu destino; produz sempre tensão quando da interatuação de competências distintas existentes em dois mundos: o do gerador da informação e o do receptor, para onde o conhecimento se destina.
Assim, também, nos momentos de passagem o fenômeno da informação tem sua particularidade mais bela, pois transcende ali a solidão fundamental de todo ser humano pensante, quando um pensamento criador se faz informação inscrita e esta informação se quer conhecimento no receptor. Esta é a qualidade e a característica contida no fluxo de informação, que por esta razão e raro e extraordinário.
Em um processo de comunicação, a transferência de uma mensagem, é um fato bastante acessível ao entendimento. Os eventos são claros: as pessoas falam e escrevem, se comunicam entre si. Todo ato de conhecimento está associado ao conteúdo significante de uma estrutura de informação e representa uma cerimônia com ritos próprios; uma passagem simbolicamente mediada, mas por uma condição da solidão fundamental do indivíduo.
Tanto o emissor quanto o receptor da informação, vivem em uma ambiência privada, seja para a criação como para o entendimento da coisa; é uma cerimônia que acontece em mundos diferentes: o da criação e o da interiorização. Contudo, só a informação explicita, inscrita e formatada transita na esfera pública, espaço da disponibilidade e do acesso.
Uma escrita é formada pelas inscrições que uma linguagem fixou em uma determinada base de suporte; uma agregação que compõe um todo significante e a sua inter-relação com este todo. O traço que a escrita fixou.
A escrita pode estar em um texto linear, que percorre o significado seguindo um destino em linha reta e sem desvios, direto a um final estruturalmente requerido; ou uma escritura digital que é denunciada pelo traço de uma escrita com a possibilidade de apresentar na mesma base, uma explanação visual, gestual, figural, musical, verbal.
A escritura digital é de alguma forma, externa à linguagem, pois agrega outros sentidos ao entendimento e não se prende a visão linear, folhetinesca, de uma escrita de enunciação continua e com destino constrangido. Na escrita hipertextual uma palavra pode levar a mil imagens.
A atualidade vivencia, sem muitos perceberem, uma mudança estrutural no ato de lidar com a informação, quando no imaginário privado do gerador, na sua escrita e seus códigos e na recepção mutuamente consentida pelo imaginário do receptor.
Convivemos, cada vez mais intensamente, com uma escrita a aberta.O interesse na leitura digital e suas possibilidades vagueantes vem da sedução da viagem por espaços entrelaçados; a escritura digital traz um novo paradigma para o formato da escrita e o para imaginário na leitura.As bases acêntricas de inscrição das narrativas foram virtualizadas. Acredito que estamos convivendo com um novo padrão de escrita e leitura. Presenciando momentos fascinantes da transformação nos padrões de comunicação entre os homens que vai modificar tudo ao seu redor. Não se trata mais da Internet, que já é uma velha tecnologia, vivemos agora o arrebato das conseqüências que ela provocou.
Viver este tempo sem perceber a mudança é uma perda de sensibilidade deixando de lado a oportunidade de ser testemunha da história da mudança, que esta em se fazendo agora.
A escrita pós-Internet, sem mudar o código, mudou sua condição de uso. A escritura não é fixa em uma única base e passeia por diferentes espaços para explicar ou enriquecer seu tema.
A condição da leitura não permanece a mesma. O deciframento, ainda vai de signo a signo, mais o signo se espacializou e sua agregação exige cada vez mais poder de síntese e praticidade e uma apresentação com visualização amigável que elimine o estresse de uma leitura em veículos diferenciados.
De alguma forma a leitura hoje é imagética em sua visualização. Os canais físicos de transferência são diferentes em estrutura e velocidade e a interatuação psicológica necessária para manter em contato emissor e receptor passa por uma novos referentes.
A escrita linear, uma tecnologia estabelecida, encobre as novas possibilidades das palavras e dos enunciados nas condições da narrativa; possivelmente entrava as novas técnicas de escrita.
Mas, a inscrição em formatação digital, como a magia, é mais profunda que a tecnologia, pois opera na dimensão das sensações e das percepções do imaginário.
A imaginação da coisa e sua representação foram modificadas. A coisa imaginada dispersou-se em um fluxo continuo de significados em se fazendo. No espaço cibernético o significante explodiu em novas paisagens do imaginário. Nesta configuração a imaginação simbólica transformou todas as possibilidades do traçado da escrita e da interiorização da leitura.
Os enunciados pré-formatados de uma escrita linear de pensamento convergente foram substituídos por uma nova sociabilidade do signo pautada no ambiente de uma representação potencial, adiada.
Assim, as significações lingüísticas da escrita foram desfamiliarizadas perdendo o automatismo descritivo das referências estabelecidas, que restringem as opções do imaginário.
O imaginário explodiu nos formatos do meio eletrônico "adiando" o significado de palavras e dos enunciados. Palavras e enunciados tem na condição digital um caminho de significantes libertados, não mais presos a operação de um imaginário de relação biunívoca.
A escrita digital ao possibilitar acesso a múltiplos espaços de pensamento amplia o imaginário com diferentes significantes para o mesmo signo (a casa, o casebre, a mansão, a palafita, o edifício, o apto, o estúdio o flat o loft).
Um enunciado atribuído por uma linguagem no padrão linear tem no formato digital um adiamento dos caminhos do significado. Uma nova condição do imaginário além de um único signo atribuído.
O significado nunca é total em uma composição digital permeada por narrativas paralelas. Todos os significados ficam com sua percepção "adiada" e em fluxo até que se complete o caminho percorrido pelo receptor.
O receptor enfrenta, com a escritura digital, um terremoto de opções do seu imaginário para conduzir o caminho de sua leitura. O caminhante tem no caminho da assimilação infinitas opções de referências potenciais e o caminhar só é esmaecido pelas possibilidades do conhecer.
Aldo de Albuquerque Barreto
aldobar@globo.comDoutor em ciência da informação (Inglaterra); pesquisador titular do Ministério da Ciência e Tecnologia no IBICT.