DataGramaZero - Revista de Informação - v.14 n.3   jun13                            ARTIGO 02

O movimento interdisciplinar em Ciência da Informação: uma reflexão epistemológica
The interdisciplinary movement in Information Science: an epistemological reflection

por Paula Regina Dal’ Evedove e Mariângela Spotti Lopes Fujita

 


Resumo: A complexidade da interdisciplinaridade como categoria de análise ganha evidência nos discursos contemporâneos. Em Ciência da Informação, esta prática de integração dos discursos científicos visa, dentre outros, à constituição de sua identidade e consolidação enquanto campo científico. Desse modo, o estudo visa refletir sobre o estatuto epistemológico da Ciência da Informação enquanto campo científico interdisciplinar. Sendo assim, busca-se caracterizar a interdisciplinaridade na Ciência da Informação de modo a delinear as características e variáveis que regem este percurso contributivo. Para tanto, são tecidas considerações a respeito da interdisciplinaridade nas ciências a fim de compreender os desdobramentos dos discursos contemporâneos em torno da fragmentação do conhecimento e os múltiplos agentes envolvidos no exercício de vigilância crítica dos sustentáculos da ciência. Neste caminhar, adentra-se na questão interdisciplinar e a inserção deste movimento nas bases contemporâneas da Ciência da Informação, com vistas a elucidar a sua configuração enquanto campo científico em busca de consolidação e evolução.
Palavras-chave: Ciência da informação; Interdisciplinaridade; Fragmentação do conhecimento; Discursos científicos; Epistemologia; Temas transversais.

 Abstract: The complexity of interdisciplinarity as a category of analysis in contemporary discourses gain evidence. In information science, the practice of integration of scientific discourse aims, among others, the establishment and consolidation of their identity as a scientific field. Thus, the study aims to reflect on the epistemological status of information science as an interdisciplinary scientific field. To this end, we discuss the interdisciplinarity in the sciences and, under this understanding, address the interdisciplinary movement in Information Science and the real fruits of this process nowadays. The reflections undertaken in this study indicate the need to forward the discussions on interdisciplinarity as a focal point with the configuration of the related fields and their real benefits for Information Science.
Keywords: Information science; Interdisciplinarity; Fragmentation of knowledge; Scientific discourse; Epistemology; Transverse themes.

 

 

 

 

Introdução

O movimento interdisciplinar é atualmente aplicado em muitos contextos. Contudo, sua relevância é incerta, sendo considerado por muitos como um significante flutuante e ambíguo que ninguém sabe definir, mas a que todos parecem debruçar-se na tentativa de desfragmentar o conhecimento científico, salvaguardando a estrutura maior do conhecimento humano. No atual contexto das ciências emergentes, a Ciência da Informação: “traz com ela as características de uma nova era na qual a mudança é a única constante e a interdisciplinaridade, o elemento que permeia a formação dos novos campos de saber” (Rozados, 2003, p. 81). Por sua vez, o estabelecimento da interdisciplinaridade dá-se nas ciências como uma tentativa de unidade do saber, em oposição à fragmentação. Visto sob este viés, o movimento interdisciplinar objetiva reintegrar os conhecimentos, com fins de orientar as Ciências Humanas para a convergência, no intuito de trabalhar em prol da unidade humana (Fazenda, 1995).


De modo geral, a interdisciplinaridade é vista como uma das mais sólidas respostas aos vácuos epistemológicos nas ciências. Enquanto proposta recorrentemente exaltada, observa-se que muitos são os discursos e falas em prol deste movimento, porém, poucos são os frutos deste discurso contemporâneo. Nesta perspectiva, o entendimento das questões que permeiam o universo interdisciplinar em Ciência da Informação mostra-se emergente, considerando a necessidade de se verificar como esse percurso se concretiza em suas bases epistemológicas. Sob esta esfera investigativa, busca-se caracterizar a interdisciplinaridade na Ciência da Informação de modo a delinear as características e variáveis que regem este percurso contributivo. Para tanto, são tecidas considerações a respeito da interdisciplinaridade nas ciências a fim de compreender os desdobramentos dos discursos contemporâneos em torno da fragmentação do conhecimento humano e os múltiplos agentes envolvidos no exercício de vigilância crítica dos sustentáculos da ciência. Neste caminhar, adentra-se na questão interdisciplinar e a inserção deste movimento nas bases contemporâneas da Ciência da Informação, com vistas a elucidar a sua configuração enquanto campo científico em busca de consolidação e evolução. Entende-se que a compreensão da interdisciplinaridade em sua essência versa no entendimento de que, qualquer observação condizente com a finalidade de esclarecer as relações interdisciplinares está subordinada a uma explanação das complexidades enfrentadas pela ciência e suas implicações na atualidade.

O movimento interdisciplinar: um novo marco na construção do saber
A importância da ciência 1 é visível na atual sociedade, a qual se habituou aos seus benefícios. Porém, esta mesma sociedade teme os efeitos futuros advindos da ciência. Isto talvez, porque a ciência há tempos afasta-se dos cidadãos, em que contrariamente a satisfazer a legítima curiosidade deste e se permitir desenvolver a arte de comunicar e difundir seus frutos, visivelmente caminha em sentido contrário. Igualmente, é estranho observar o abismo entre a ciência e o senso-comum no curto espaço de tempo em termos de progresso científico, de tal modo que a ciência tenha hoje um discurso longínquo, quase nulo com a grande parcela da sociedade. Nada mais complexo que tratar sobre ciência, cujo percurso histórico é marcado pelas vicissitudes – um emaranhado de diferentes concepções do que seja a ciência, tanto por sua própria evolução, quanto por determinações de cada época da evolução humana. O conceito de ciência é muito antigo. A etimologia da palavra encontra-se no latim scientia, substantivo cuja raiz é o verbo scire, saber. Contudo, este significado é hoje vago e impreciso para o efetivo esclarecimento e compreensão do conceito de ciência, que dentre uma gama significativa de outros tipos de saber denominou-se de conhecimento científico.


A lacuna que se segue respalda-se na valorização do saber científico em detrimento dos outros tipos de conhecimento, denominados de conhecimentos gerais e necessários pela “conexão entre as coisas e a interdependência das noções de tal forma que uma parte do saber lança luz sobre as outras” (Burke, 2003, p. 81) e buscam, igualmente, o entendimento do mundo, evidentemente de modos e perspectivas diferenciadas. Para que seja possível compreender tal valorização científica, segue-se um breve panorama da evolução da ciência ao longo da história da humanidade.

O caminhar da ciência
Inicialmente, a essência da ciência era dialogar, comunicar, tornar próximo o que era distante. Na Grécia, ciência correspondia ao conhecimento verdadeiro, universal e necessário. Assim, o conhecimento era fundamentado, sendo que a Filosofia era a única ciência que buscava os fundamentos, considerada a "ciência das primeiras causas e primeiros princípios" (Aristóteles, 1987), e nisso residia a sua cientificidade. Contudo, no século XVII surge um novo conceito de ciência, originando-se na Filosofia a busca por seu estatuto de cientificidade. A partir de então, o homem inicia novos descobrimentos e constata que nada é como se pensava. Instala-se a dúvida e a incerteza, ocasionando uma nova concepção de ciência com intuito de responder aos novos questionamentos humanos.


Neste momento, Galileu e Descartes, considerados cofundadores da ciência moderna, surgem como os grandes destruidores dos antigos dogmas e, paralelamente, como os reconstrutores de uma nova imagem do mundo e de um novo conhecimento. Parte-se para o recomeço do conhecimento humano, em que o que era verdadeiro passa a ser considerado falso e, vertiginosamente a questão do método torna-se fundamental, o qual atribui à ciência distinguir o verdadeiro do falso, característica peculiar dessa nova ciência. Nesta concepção, muitos tratados de método se escrevem no contexto científico, cuja função é atender apenas aos aspectos constantes e às regularidades dos fenômenos, afastando o sujeito e quaisquer elementos subjacentes. Abrem-se as portas para o ideal da quantificação, em que a mensuração confere o caráter de cientificidade. Assim, a objetividade garante a universalidade do conhecimento científico, o qual se respalda no determinismo, na procura pela legalidade, na previsão dos fenômenos. A nova ciência é explicativa e sua estabilidade garante o status de conhecer. Naturalmente, a partir deste momento na história da humanidade conhecer é poder e o poder é domínio, em todas as suas configurações.


A ética e a tecnologia instauram-se nas bases da evolução científica e por isso, a ciência impõe-se como forma privilegiada de conhecimento, que devido a sua onipotência e hegemonia, silencia e desvaloriza todos os outros discursos que declaram o real. Mas, esta nova ciência que destrói dogmas e que inicialmente nascera para criticar e negar todas as formas existentes de dogmatismo, hoje, posiciona-se como o mais vil dos dogmas dos tempos modernos. Na realidade, o paradigma dominante na ciência moderna¹ atribui ao objeto de ciência o caráter relevante, caso seja quantificado e objetivado ou irrelevante caso não corresponda às exigências da ciência (Santos, 1993). Este impasse instaura-se no século XIX quando se sistematizam no cenário científico as Ciências Humanas e Sociais, cujos objetos de estudo diferenciam-se da racionalidade dos objetos das Ciências Naturais e de seus procedimentos. Neste momento, pode-se falar de um modelo global de racionalidade científica e, “sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas (Santos, p. 10-11).


Castells (2000) esclarece que o alargamento do modelo de racionalidade científica às Ciências Humanas e Sociais seguiu dois caminhos diversos nas Ciências Sociais: o dominante, que consistiu em aplicar ao estudo do homem e da sociedade os princípios epistemológicos e metodológicos que presidiram ao estudo da natureza; o outro, dominado e marginalizado, reivindica para esses campos uma especificidade própria, com metodologias qualitativas e não apenas quantitativas (Castells , 2000). A ideia que se segue é do atraso das Ciências Humanas e Sociais relativamente às Ciências da Natureza, desvalorizadas e consideradas de pouca credibilidade social. Observa-se que a crise da ciência ou “patologia do saber” é resultado da sua própria evolução a partir da utilização de um corpo de linguagens mais ou menos herméticas e de uma complexificação e especialização progressiva; e há tempos os sinais de crise são visíveis no panorama científico dominante (Japiassu, 1975). Como consequência, tem-se a progressiva especialização do conhecimento científico.

A fragmentação do conhecimento
O fenômeno da especialização – condição do progresso do conhecimento científico e elemento de prestígio próprio –, atingiu na segunda metade do século XX dimensões alarmantes. Para Berger e Luckmann (1985) a especialização do conhecimento pode ser atribuída a rígida divisão do trabalho na modernidade. Os referidos autores criticam os peritos por produzirem formas cada vez mais complexas do conhecimento científico, visando à obtenção do status de especialistas de uma ínfima gama do saber. Ora, separam-se o ‘fazer’ do ‘saber-fazer’, condicionando-se a fragmentação do conhecimento humano em objetos observados por especialistas. Igualmente, há tempos autores como Edgar Morin (1991; 2002) e Isabelle Stengers (2002) apontam falhas nesse tipo de concepção científica, na medida em que reduz o saber a dimensões que ignoram friamente a imensidão e a complexidade da realidade, em que tal contribuição que representa apenas uma parte do conhecimento humano tem sido “totalmente estéril nas ciências humanas” (Morin, 1994, p. 317).


Neste sentido, a especialidade das disciplinas “reenvia o especialista ao afastamento significativo que funda a especificidade da sua ciência” (Reswebwer, 1971, p. 44), em que as trágicas consequências da especialização do conhecimento respaldam-se, sobretudo, no ato de conhecer: “dantes os homens podiam facilmente dividir-se em ignorantes e sábios, em mais ou menos sábios ou mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser subsumido por nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio porque ignora formalmente tudo quanto não entra na sua especialidade; mas também não é um ignorante porque é “um homem de ciência” e conhece muito bem a pequeníssima parcela do universo em que trabalha. Teremos de dizer que é um sábio-ignorante – coisa extremamente grave – pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem, na sua especialidade, é um sábio” (Ortega y Gasset, 1929, p. 173-174).


Hoje, cada homem de ciência é conhecedor de apenas um ramo de assunto e, inevitavelmente, o conhecimento não significa mais um enriquecimento mútuo. Ao contrário: “hoje não só os nossos reis que não sabem matemática, mas também os nossos filósofos que não sabem matemática e para ir um pouco mais longe, são também os nossos matemáticos que não sabem matemática”, isto porque “desenvolveram-se as disciplinas especializadas como os dedos da mão: unidas na origem, mas já sem contacto algum” (Oppenheimer, 1955, p. 55).   A visão fragmentada do conhecimento fruto do modelo racionalista da sociedade contemporânea apresenta falhas ao desconsiderar os conhecimentos que, a princípio, não se vinculam ao problema tratado. Afirmar que a especialização do conhecimento não abarca as mudanças da sociedade do conhecimento respalda-se na prerrogativa de que a solução dos problemas não deve limitar-se a uma visão reducionista, bem como a maneira de percebê-los. Acresce que, apesar de necessária, a especialização atua no sentido contrário a objetividade inicial da ciência, na qual havia uma situação democrática e uma argumentação com vistas a racionalidade dos resultados e universalidade do homem de ciência. Isto porque, atualmente, a ciência é vista como uma enorme instituição caracterizada por comunidades competitivas entre si, estas de costas voltadas umas para as outras, grupos rivais que: "estabelecem entre si um regime de concorrência completamente avesso àquilo que era o ideal científico da comunicação universal” (Pombo, 2003, p. 05).


A ciência se respalda na demonstração da validade dos fatos existentes, ou seja, produz a única forma de conhecimento válido e, por meio deste posicionamento descarta quaisquer outras possíveis alternativas. Logo, a construção das realidades legítimas depende das relações humanas, as quais, independentemente das novas tecnologias e do contexto informacional são dinâmicas e mutáveis. Cabe destacar que tal movimento ocasiona uma negligência à complexidade dos fenômenos e suas possíveis interligações com os objetos de estudo em outros campos, bem como aos diversos entendimentos que podem ser produzidos no seu desvelamento. Para Gomes (2001, p. 03) este “estatuto se incorpora e se neutraliza na ação do conhecer”, o que implica, nos sujeitos desta ação, o desenvolvimento de uma mentalidade individualizada e proprietária do conhecimento gerado em seus campos de atuação e, consequentemente, a incursão de outro campo torna-se inviável devido à existência de fronteiras rígidas.


Doravante, todo campo científico deve adotar comportamentos de abertura e de estabilidade devido a complexidade de seu objeto de estudo, objetivando-se uma base estável para seu estabelecimento enquanto campo científico. A este respeito, Santos (1997) diz que tal posicionamento está em crise, uma vez que toda verdade aspirada pela ciência possui caráter intemporal, passível de novos entendimentos e validação. Para o autor essa se manifesta no campo das ciências sob a forma de conflito de interesses, em que a separação das ciências e dos demais dualismos deixa de ter sentido, o que acarreta uma aproximação cada vez maior, sentida pela interferência do sujeito no objeto de estudo e pelo caráter probabilístico das leis naturais.
Em decorrência dessa manifestação, instaura-se a emergência de um novo paradigma ou nova concepção de ciência designada de paradigma pós-moderno ou ciência pós-moderna². Este período de mudança não apenas concede a ciência uma concepção menos fechada e limitada, mas instaura a aproximação dos saberes. Por sua vez, este novo paradigma abre as portas para as práticas sociais que sustentam as muitas e variadas formas válidas de conhecimento, uma vez que a: “produção do conhecimento tem como base de sustentação um suporte institucional, sendo fortalecida através das práticas sociais e do modo como os diversos conhecimentos são aplicados e valorizados pela sociedade” (Gomes , 2001, p. 02).


Segundo Borges (2003), o embasamento desse novo paradigma assenta-se no entendimento de que todo conhecimento científico-natural é científico-social; todo conhecimento é autoconhecimento; todo conhecimento visa constituir-se em senso comum e todo conhecimento é local e total, admitindo a historicidade do conhecimento. Gomes  (2001, p. 03) aponta que todo debate em torno da estrutura disciplinar sobre a qual os conhecimentos científicos são gerados e ensinados, ou seja, as reflexões com vista à desfragmentação do conhecimento “representam um esforço de desconstrução de um estatuto que faz com que o tratamento dos objetos se dê de maneira não solidária”. A complexidade do objeto de estudo atua ativamente para a inserção de várias contribuições advindas das competências interconectadas, inseridas na situação problema apresentada nas mais diversas concepções, a partir de sua investigação e delimitação em um determinado campo científico. Assim, aborda-se por diferentes ângulos o objeto de estudo, no intuito de aprofundá-lo em diferentes concepções por meio de um trabalho de análise (Almeida, 2009).

A questão dos temas transversais
A recuperação da desfragmentação do conhecimento ocorre pela recuperação da realidade por meio da visão do todo, propiciada pelo prisma dos temas transversais que abrem as barreiras estáticas de um único modo de pensar. No paradigma da ciência contemporânea 2, os “temas transversais”3  exigem uma abordagem ampla e diversificada, por permearem explícita ou implicitamente diferentes concepções do saber.    Para Pombo (2003) os temas transversais não constituem uma área a parte, pois seus objetivos e conteúdos são inseridos em diferentes momentos nos diversos campos que se aplicam. O propósito destes temas é exatamente permear toda a prática do conhecimento científico e, para isso, não se admite uma perspectiva disciplinar rígida, uma vez que vão sendo trabalhados momentaneamente, porém com diferentes abordagens e intensidades.


Mutuamente conectados à transversalidade encontram-se os conceitos de pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, os quais são “conceitos caracterizadores de diversificadas práticas de ensino” (Pombo, Guimarães, Levy, 1993, p. 11). Esses conceitos referem-se aos modos de se trabalhar os conhecimentos científicos, entendidos como elementos ativos para o processo progressivo de integração disciplinar. Objetivam, portanto, reintegrar os aspectos que estão afastados uns dos outros pelo tratamento disciplinar, em que: “mais importante do que procurar estabelecer fronteiras rígidas entre estes conceitos e as práticas de ensino para que eles remetem, mais fecundo do que delimitar espaços de significação intransponíveis, será reconhecer a natureza contínua de um processo de crescente integração disciplinar, no qual a pluridisciplinaridade seria o pólo mínimo da integração disciplinar, a transdisciplinaridade o pólo máximo e a interdisciplinaridade o conjunto das múltiplas variações possíveis entre os dois extremos” (Pombo, Guimarães, Levy, 1993, p. 12).


Em um de seus mais célebres trabalhos intitulado “Epistemologia da Interdisciplinaridade”, Olga Pombo buscou contribuir para o estabelecimento de um acordo terminológico e conceitual relativo à interdisciplinaridade, ancorada na prerrogativa de que além de usada, abusada e banalizada, a palavra está gasta. Para a autora essas três palavras devem ser pensadas juntas, numa continuidade que segue da coordenação à combinação e desta à fusão, conforme figura abaixo:

Figura 1: Proposta de compreensão da família dos temas transversais.

 

 

Fonte: Pombo (2003, p.03)


A proposta é que seja atribuída a esta continuidade ou ‘‘continuum’’, a intensidade ou ‘‘crescendum’’, propiciando um gênero que vai do: “paralelismo pluridisciplinar ao perspectivismo e convergência interdisciplinar e, desta, ao holismo e unificação transdiciplinar” (Pombo, 2003, p. 03). Deste modo, a pluridisciplinaridade representa o primeiro nível ou estágio em que as disciplinas devem estabelecer algum mínimo de coordenação, por em paralelo; interdisciplinaridade propicia a convergência de pontos de vista, combinação dos entendimentos; e a transdisciplinaridade remete para qualquer coisa da ordem da fusão unificada, solução final, desejável ou não. Todavia, o ponto a ser compreendido é que, para algumas circunstâncias, a fusão das perspectivas surge como a melhor alternativa; noutras, essa finalidade poderá ser excessiva e não coincidir com as expectativas. O intuito dessa representação para o entendimento dos conceitos na atual conjuntura não é apontar um caminho progressivo que caracterize o melhor ou pior conceito. Ao contrário, na visão da referida autora tal entendimento, inelutavelmente, aponta que: “o prefixo inter, aquele que faz valer os valores da convergência, da complementaridade, do cruzamento [parece] ser ainda o melhor” (Pombo, 2003, p. 03).


Considerando-se que as rupturas das fronteiras do conhecimento científico ocorrem por meio de uma ação interdisciplinar em torno do tratamento de um dado objeto, a interdisciplinaridade é componente do fenômeno característico da ciência contemporânea. Na verdade, alicerça o deslocamento de uma ciência calcada até então no modelo analítico, para o qual existe um conjunto finito de elementos constituintes e que, a partir da análise de cada elemento, torna-se possível reconstituir o todo (Japiassu, 1975). Em outras palavras, recompor o conhecimento a partir do ponto último de análise.

O caminho progressivo para a combinação dos entendimentos
A interdisciplinaridade se afirma como reflexão epistemológica sobre a divisão do conhecimento humano e implica em introduzir conceitos próximos que se desdobram em sucessivas, crescentes, intensas e complexas conexões entre vários campos científicos, com vistas a extrair suas “relações de interdependência e de conexões recíprocas” (Japiassu, 1975) num esforço que implica, permanentemente, em modificar os campos envolvidos por meio da troca de conhecimentos e no compartilhamento de objetivos. Desse modo, a interdisciplinaridade conduz os campos a um processo de intercâmbio informacional, conceitual, teórico e metodológico, cujo processo pode ser abdutivo, capaz de não apenas reorganizá-los sob a conjunção de hipóteses, mas despontar em um novo campo científico. Nesta concepção, pode-se dizer que a interdisciplinaridade constitui a aproximação de distintos campos científicos para a solução de problemas específicos em que: “para realizar um trabalho interdisciplinar, é necessário estabelecer tanto uma definição comum dos conceitos teóricos afins, quanto uma metodologia que dê conta dessa situação particular. Essa redefinição conceitual e metodológica é necessária para que se possam ultrapassar os limites impostos pela organização acadêmica que justapôs as disciplinas como entidades autônomas, distanciadas da vida real” (Orrico, 1999, p. 20).


O movimento interdisciplinar torna-se fundamental para o fortalecimento dessa nova concepção científica, uma vez que: “no ponto de partida e de chegada, cada ciência encontra a íntima coesão e a inspiração de que precisa. Por isso, as ciências convergem e fazem alianças” (Morin, Gadoua, Potvin, 2007, p. 30). Além disso, o processo científico leva ao acréscimo dos conhecimentos e resulta da pluralidade dos diversos pensamentos e hipóteses, cujos debates contraditórios constituem a mais segura fonte para resultados proveitosos. Em realidade, como forma de transferência de conhecimentos entre campos e seus pares, o movimento interdisciplinar condiciona uma visão mais ampla e adequada da realidade, que tantas vezes aparece fragmentada pelos meios de que o homem possui para conhecê-la e não porque o seja em si mesma.


Marco das Ciências Humanas e Sociais, a interdisciplinaridade acentua-se no cenário contemporâneo como componente básico e necessário da maioria das ciências que emergiram a partir da década de 1940, uma vez que propicia o questionamento da segmentação dos diferentes campos científicos. Whewell (1840) manifestara a noção de interdisciplinaridade ao cunhar o termo “consiliente”, o qual na visão de Braga (1999, p. 09) representa um: “salto conjunto do conhecimento entre e através das disciplinas, por meio da ligação de fatos e de teorias, para criar novas bases explanatórias”. Portanto, buscam-se os possíveis pontos de convergência entre os vários campos e a sua abordagem conjunta, propiciando-lhes uma relação epistemológica.  A interdisciplinaridade assegura que a aproximação dos fenômenos naturais e sociais ocorra de modo mais apropriado, sobretudo, por suas condições complexas e irredutíveis ao conhecimento obtido quando abordados pela concepção de um único campo científico. Percebe-se, então, que a interdisciplinaridade se impõe no campo científico na medida em que propicia abertura de pensamento por meio das aproximações, interações e métodos comuns as diversas especialidades, garantindo a busca da verdade.


Quanto às manifestações, acresce que as pesquisas de cunho interdisciplinar se constituem a partir de dois aspectos: da aproximação de campos científicos diferentes para a solução de problemas específicos; e do compartilhamento de métodos e técnicas visando equacionar os problemas específicos de cada campo (Domingues, 2005). No entanto, a coexistência de interesses comuns entre os campos científicos não implica necessariamente um dever interdisciplinar se não existir a viabilidade da transmutação de conhecimentos, considerando-se que “a é via de mão dupla e só acontece no trabalho conjunto e formalizado de grupos comuns” (Barreto, 2004, p. 01). Por isso, a interdisciplinaridade não deveria constituir-se apenas como uma simples transferência de problemas, conceitos e métodos de um campo para outro, mas ter como função maior propiciar uma integração interna e conceitual que rompesse a estrutura de cada campo científico para construir uma axiomática nova e comum a todas elas, com intuito de assegurar a visão unitária de um determinado campo do saber (Palmade, 1979).


Constantemente a interdisciplinaridade é confundida como uma mera incorporação de conceitos, teorias e métodos de um campo para outro. Esse percurso não caracteriza a interdisciplinaridade, no máximo a potencializa, sugere sua necessidade e oferece condições necessárias ao seu aparecimento, o qual se concretizará a partir do diálogo efetivo entre os campos científicos. Constata-se, além de deturpações ou distorções de conceitos originais, falta de organicidade conceitual, ou seja, de consistência e pertinência dos conceitos advindos de outros campos científicos. Na literatura especializada sobre o tema, muito se discute a respeito das transformações que tem ocorrido nas ciências a partir do movimento interdisciplinar, porém, pouco se sabe sobre o que seja o próprio conceito de interdisciplinaridade. Recorrentemente proclamada e exponencialmente utilizada, a interdisciplinaridade não possui um conceito relativamente estável, uma definição unívoca. Tal dispare conceitual caracteriza a palavra como sendo um componente de significativas flutuações: da simples cooperação de um campo científico ao seu intercâmbio mútuo e integração recíproca ou, ainda, a uma integração capaz de romper a estrutura de cada campo científico (Palmade, 1979).


A prerrogativa de que não existe certa estabilidade a este conceito, segue-se desde a década de 1970, início das discussões em torno da ação interdisciplinar. Tais apontamentos são salientados por autores como René (1985), Chubin (1986) e Pombo (2003), para os quais, mesmo passadas décadas em torno deste conceito, ainda não há uma noção clara do que seja exatamente a interdisciplinaridade e o que identifica as práticas ditas interdisciplinares. Contudo, a crença entre os que a proclamam respalda-se na prerrogativa de que ela estabelece a relação e articulação entre campos científicos, cuja reciprocidade entre os diferentes saberes visa explicitar a problemática do objeto de estudo.   O ponto em destaque é a não compreensão clara do que é possível ou mesmo desejável construir em termos de integração científica, considerando-se que a interdisciplinaridade evoca um espaço comum, uma coesão e enriquecimento mútuo entre os diferentes saberes no exame de um mesmo objeto. Portanto, “qualquer forma de combinação entre duas ou mais disciplinas com vista à compreensão de um objeto a partir da confluência de pontos de vista diferentes e tendo como objetivo final à elaboração de uma síntese relativamente ao objeto comum” caracteriza o movimento interdisciplinar (Pombo, Guimarães, Levy, 1993, p. 13).


Todavia, Gomes  (2001) esclarece que este percurso não caracteriza a interdisciplinaridade, na melhor das hipóteses apenas a potencializa e sugere sua necessidade ao oferecer as condições necessárias ao seu aparecimento. A interdisciplinaridade apenas se afirma a partir de um efetivo e concreto diálogo científico, o qual pode ser constatado quando: “conceitos, teorias, métodos e campos de investigação migram, transitam nos vários sentidos das ‘regiões fronteiriças’ concretizando essa interdisciplinaridade, que do contrário caracteriza-se apenas enquanto potencial a espera de atualização” (Gomes , 2001, p. 04). Nesse percurso, o trabalho contínuo de cooperação entre campos científicos respalda-se na análise conjunta de um mesmo objeto, numa tentativa para a resolução de um problema concreto e de proporções complexas. Assim, a interdisciplinaridade situa-se no contexto da contemporaneidade como a mais sólida resposta aos questionamentos e vácuos dos campos científicos, cuja integração de saberes é feita na sua maioria, de forma contraditória. Sobre isto, Barreto (2004, p. 01) defende que: “um querer interdisciplinar não pode simplesmente transpor teorias e conceitos emprestados de um campo ou área para formar novo conhecimento em outra área. Este transporte de idéias, métodos, do pensar em si tem que respeitar as características existentes e manifestadas da área que empresta""Não basta pegar e trazer. É preciso estabelecer um canal formal de comunicação e relações entre as duas áreas”.


Portanto, torna-se imprescindível que o transporte de ideias e métodos, impreterivelmente, respeite as características existentes e manifestadas do campo que empresta, uma vez que o estabelecimento de um canal formal de comunicação e de relações entre os campos científicos constitui o nicho necessário ao seu desenvolvimento e sustentabilidade enquanto ciência (Silva, Fujita, Dal’ Evedove, 2009). Então, o exercício da interdisciplinaridade não deve limitar-se apenas ao movimento interno de um campo científico, ou seja, deter-se na perspectiva teórico-metodológica, mas respaldar-se na promoção social – promover: “a ocorrência da interdisciplinaridade no interior da realidade social que envolve a práxis que se desdobra do fazer científico, entendida aqui enquanto cenário no qual se realizam as intervenções no social” (Gomes , 2001, p. 05). Acredita-se que seja a partir deste entendimento que a ciência passe a promover o diálogo eficaz e necessário para que o saber deixe de ser ‘‘especializado’’ e assegure a sua apropriação, entendimento, uso e evolução.

A interdisciplinaridade em Ciência da Informação
A Ciência da Informação não estuda assuntos, mas sim problemas informacionais, os quais, no seu entendimento devem atravessar os limites de qualquer assunto ou campo científico (Popper, 1972). Seguindo esta mesma linha de pensamento, Saracevic (1996, p. 47) aponta que a Ciência da Informação atua em campos de concentração de problemas altamente complexos “e como todos os problemas complexos são tratados de várias formas em muitos campos”. Na visão do referido autor, o imperativo dos problemas assegura ao campo uma natureza interdisciplinar e uma posição denominada de “fronteiriça” a outros campos do saber.


Tradicionalmente, a Ciência da Informação é definida pelos problemas que apresenta e pelos métodos que escolhe para resolvê-los. Em síntese, sua característica de natureza interdisciplinar respalda-se na prerrogativa de que elucidar o problema e, naturalmente chegar a um novo questionamento, “exige conhecimentos compartilhados e a construção de um novo saber” (Morin, Gadoua, Potvin, 2007, p. 74).   Considerando que a Ciência da Informação estuda a informação passível de ser transmitida e disseminada, sobretudo, a informação alicerçada no bojo social, verifica-se que seus processos requerem a consolidação de diálogos interdisciplinares, nos quais a mediação, a formação e a interação informacional sejam evidenciadas, a fim de compreender o modo como sujeito e informações se articulam. Para tanto, o campo sustenta ou deveria sustentar um diálogo ativo com outros campos científicos que abordem estudos relacionados à organização, representação e uso da informação, uma vez que sua principal função é: “produzir conhecimentos que contribuam para a solução de problemas relacionados à organização de contextos de informação especializados na incorporação, sistematização, disseminação e recuperação da informação” (Neves, 2006, p. 39). Na ótica de Saracevic (1996), o movimento interdisciplinar em Ciência da Informação ocorre por duas razões, uma interna e a outra externa. A primeira refere-se ao movimento epistemológico interno, oriundo de problemas que permanecem sem uma efetiva compreensão a partir dos constructos ou abordagens de um único campo científico. A segunda, dá-se a partir das relações das diferentes formações e conhecimentos dos especialistas da Ciência da Informação.


O movimento interdisciplinar é fortemente exaltado pelos cientistas da informação, cujo posicionamento respalda-se em defesa e recomendação da prática interdisciplinar como característica inerente ao campo (Machlup e Mansfield, 1983; Saracevic, 1996; Pinheiro, 1999). Entretanto, o que se percebe é que a Ciência da Informação coloca-se como lugar de absorção acrítica de conceitos, cujo atual posicionamento interdisciplinar além de tornar o campo vulnerável contribui para que seu desenvolvimento conceitual situe-se aquém do desejável e do necessário. Sobre isto, advoga-se que o movimento interdisciplinar não deve figurar como um modismo passageiro, mas sua prática precisa promover a evolução da Ciência da Informação de modo real, estável e consistente; prever o acompanhamento da evolução teórica do campo de origem; bem como compreender a distinção ou aproximação dos diferentes saberes. Outro ponto importante nesta discussão respalda-se no fato da Ciência da Informação ser um campo de alta permeabilidade, o que a deixa muito mais aberta a ideias advindas de campos correlatos.


Após análise da interdisciplinaridade em Ciência da Informação, Pinheiro (1999, p. 175-176) apontou que os estudos e pesquisas que abordam o referido temário reconhecem que “a Ciência da Informação incorpora muito mais contribuições de outras áreas, do que transfere para essas um corpo de conhecimentos gerados dentro de si mesma”, o que sugere certa cautela quanto à indicação de determinados campos que ofereçam zonas de intersecção como integrantes do seu núcleo principal. Isto porque, o diálogo interdisciplinar com diferentes campos que não exerçam uma interação ativa com os conteúdos científicos trabalhados pela Ciência da Informação, com vistas à construção de seu arcabouço teórico, “podem apenas estar integrando um campo multidisciplinar com a Ciência da Informação, sem, entretanto, integrar o seu núcleo principal” (Gomes , 2001. p. 05). Percebe-se, por meio da observância dos discursos presentes na Ciência da Informação, a nítida confrontação entre a natureza interdisciplinar atuante e a necessidade de delimitação de suas fronteiras enquanto campo científico, uma vez que o uso exorbitante de conceitos importados de outros domínios é frequente e, na maioria das vezes, ao invés de contribuírem para o desenvolvimento do campo científico acabam por realizar o movimento inverso.
 

Sendo assim, o movimento interdisciplinar deve ser realizado de maneira a contribuir para a construção e fortalecimento da Ciência da Informação, posto que os problemas relacionados a informação envolvam alto nível de complexidade. Logo, a inclusão de um campo na composição de seu núcleo deve ser justificada, valendo-se da crença de que a interdisciplinaridade ocorre a partir do delineamento específico do núcleo de conhecimentos e métodos investigativos em um campo experimental sólido. A inexistência desse delineamento enfraquece qualquer diálogo a ser estabelecido e, inevitavelmente, permite apenas a absorção de narrativas por meio da mera incorporação de conceitos, teorias e métodos entre campos científicos, abstraindo-se o cunho fundante da interdisciplinaridade (Gomes , 2001).


Por esta razão, torna-se indispensável à exposição da fala de Almeida (2009, p. 27), para o qual conferir a interdisciplinaridade como essência da Ciência da Informação não explica sua especificidade, apenas esboça uma das características dos objetos que investiga, conforme reflexão: “a natureza interdisciplinar não é constituinte da Ciência da Informação, mas dos objetos, problemas e temas que, por suas formas cambiantes e complexas, forçam o cientista a travar diálogos com diferentes campos para prosseguir na pesquisa fundamental ou solucionar um problema prático.  Quando os problemas humanos servem de motivo para reunir disciplinas com o objetivo de solucioná-los, como ocorreu na gênese da Ciência da Informação de acordo com a narrativa estadunidense de sua história, surge um contexto propício para ultrapassar o nível elementar do diálogo entre as disciplinas. Se a Ciência da Informação emerge para solucionar problemas humanos – o excesso de conhecimentos registrados e/ou escassez de técnicas para tratá-los – e recorre a conhecimentos científicos e não-científicos, então, ela já nasceria nos limites das práticas interdisciplinares”.


A partir do exposto e examinando em conjunto o estatuto interdisciplinar da Ciência da Informação, cuja característica predominante é a flexibilidade em dialogar com campos que assegurem novas formas investigativas para o seu objeto de estudo, faz-se necessário estudos que visem a identificar quais campos científicos que de fato promovem alguma alteração no campo teórico-prático da Ciência da Informação, a partir da incorporação dos avanços concretos presentes no interior do seu núcleo científico com vistas à efetivação de um diálogo interdisciplinar. A este respeito Gomes  (2001, p. 05) aponta que: “a observação, neste caso, deve se dirigir não mais para o interior da própria Ciência da Informação, mas sim para aquelas disciplinas através das quais vem buscando expandir suas bases teóricas”, de modo a verificar “em que medida se insere no agir de cada uma delas, já que é no campo da ação que se pode identificar até que ponto suas contribuições adentram o universo do conhecimento dessas áreas de fronteira”.


Com base neste apontamento, a Ciência da Informação com vistas a sua consolidação científica deve ir além de incorporar aspectos de seus campos convergentes, mas primar pela contribuição recíproca e significativa. Considera-se importante mencionar que, como qualquer outro campo do saber, a Ciência da Informação possui elementos que apontam a sua relação com as Ciências Cognitivas, Ciências Naturais, Ciências Sociais, Ciências da Computação e com os estudos de Comunicação, assegurando-lhe um posicionamento contrário ao imposto pela fragmentação do conhecimento.
Com isso, julga-se necessário expor que o estabelecimento de fronteiras com múltiplos campos é fruto da complexidade de seus problemas de investigação, relacionados a informação – ainda hoje elemento vago e contraditório. Talvez, a abertura interdisciplinar da Ciência da Informação respalde-se no fato de que a informação, mesmo ao não atuar como objeto de estudo, desempenhe papel estratégico em mais de quarenta campos de conhecimento (Machlup; Mansfiels, 1983).


Hjørland (2000) complementa o exposto e esclarece que quase todo campo científico usa o conceito de informação dentro de sua própria abordagem contextual e fenomenológica. Este apontamento reforça a existência das várias possibilidades interdisciplinares na Ciência da Informação, seja por sua recente evolução, quanto pelas vastas abordagens propiciadas por seu objeto de estudo.  Devido a isso, o movimento interdisciplinar não deve ser considerado a única resposta para os vários questionamentos latentes na Ciência da Informação. Neste ponto, concorda-se com a visão de Mostafa (1996) ao pontuar que a Ciência da Informação é um campo contraditório na medida em que nega as suas demarcações embrionárias, pois ao mesmo tempo em que se aprofunda em determinadas questões e busca resolver suas contradições, lacunas permanecem abertas, considerando-se que toda demarcação é limitante.


Por outro lado, pesquisar sobre informação e interdisciplinaridade é recorrentemente: “penetrar em um mundo labiríntico, de critérios e conceitos, de variáveis e métodos que se alternam conforme a perspectiva do pesquisador, como num caleidoscópio, numa formação de imagens que se sobrepõem constantemente” (Dias, 2008, p. 208). Todavia, o estabelecimento e a definição de campos convergentes com a Ciência da Informação não é algo consensual na literatura, uma vez que seus interesses e abordagens variam de acordo com os problemas advindos pela necessidade social, ligados a questões temporais; e na medida em que os teóricos se debruçam em torno de uma mesma perspectiva.  Sobre a dificuldade de integração da Ciência da Informação com outros campos científicos, Christovão (1995, p. 30) adverte que: “não há lugar onde se possa enquadrar a ciência da informação no atual quadro da ciência ou ciências. Ou a ciência da informação não é uma ciência, ou, para que venha a ser, deverão ser modificados os atuais critérios de cientificidade” que integram o modelo científico dominante. Sobre isto, cabe inserir o pensamento de Demo (1986) que reconhece a necessidade de se encarar a ciência como um produto histórico, social e em processo de formação, pois toda discussão aberta de demarcação científica traz consigo mais problemas que soluções, considerando-se que a ciência concede soluções à medida que levanta novos problemas.


Percebe-se que as circunstâncias históricas e sociais que permearam o amadurecimento da Ciência da Informação são aspetos determinantes para essas novas configurações interdisciplinares, em virtude desta ainda se comportar “como uma ciência imatura em busca de um paradigma que dê sustentação e abra os horizontes” para o desenvolvimento de estudos e pesquisas (Eugênio, Franca, Perez, 1996, p. 34). Sobre isto, a revisão da literatura mostra que não há um paradigma consensual e hegemônico que delimite o campo, isto porque os próprios especialistas divergem sobre esta questão e deixam “transparecer a utópica tarefa de enquadrar a [Ciência da Informação] dentro de critérios e padrões vigentes que satisfaçam os cânones científicos” (Lima, 2003, p. 78).   Nesse cenário, a interdisciplinaridade mostra-se necessária, por ser o fenômeno capaz de propiciar a Ciência da Informação o desenvolvimento de modelos e conceitos que visem auxiliar na expansão de seus domínios, bem como por solucionar problemas recorrentes das mudanças do papel do conhecimento na sociedade. Sendo assim, ignorar as características imanentes a Ciência da Informação e que, naturalmente, conduziram a sua tímida autonomia no campo das ciências é não ter uma compreensão clara dos limites e benefícios do movimento interdisciplinar.


Porém, o movimento interdisciplinar praticado e exaltado na contemporaneidade deixa em aberto uma indagação. A Ciência da Informação, sob o desígnio da interdisciplinaridade, importa conceitos de forma não acrítica. Sendo assim, até que ponto tais ‘contribuições’ advindas aleatoriamente ficção um caráter de interlocução da Ciência da Informação com o contexto dos campos científicos, ou seja, conduz um diálogo ativo e consistente nos domínios de natureza congruente? Referente a isto, advoga-se que observar os pluralismos teóricos e metodológicos advindos pelo movimento interdisciplinar e propor uma clareza das tendências científicas e conceituais adotadas pelos pesquisadores ajuda a delimitar as marcações interdisciplinares da Ciência da Informação e a compreender os paradigmas emergentes, os quais são indícios significativos para a consolidação do referido campo científico no universo das ciências.


Este pensamento respalda-se no fato de que o caráter de um campo científico é marcado por enfoques específicos e na grande maioria reduzidos ao ângulo de visão particular de seus especialistas (Japiassu, 1975). Todavia, o fenômeno interdisciplinar transcende as características delimitadas de um campo para permitir interconexões e ampliação de questões similares, sem que nenhum dos campos tenha perda de identidade. Por outro lado, não se deve esquecer que o movimento interdisciplinar pode salientar a crise de aspectos substanciais que delineariam a almejada identidade e expansão dos saberes no amplo contexto científico. Especificamente no que tange a Ciência da Informação esta prerrogativa torna-se um tanto preocupante, ao considerar a sua inconsistente identidade científica. Sabe-se que os limites das pesquisas científicas na Ciência da Informação são indefinidos, e talvez seja esta elasticidade a causa de tanta perplexidade, a qual acaba por respaldar numa significativa crise de identidade. Crise esta que parece ser a essência desta nova concepção de ciência.


Por vezes a literatura especializada faz a alusão de que exista uma gama de campos contributivos. Contudo, a grande lacuna que se estabelece em termos de movimento interdisciplinar na Ciência da Informação situa-se na falta de apontamentos consistentes sobre como seriam as participações desses campos científicos contributivos. Na verdade, percebe-se que preconizar e defender a interdisciplinaridade em Ciência da Informação é atualmente corriqueiro, porém muito impreciso e pouco delimitado. Neste sentido, a compreensão do movimento interdisciplinar na atual concepção da Ciência da Informação representa uma das mais importantes e necessárias abordagens investigativas. Entretanto, não se deve observar apenas a interface existente entre os campos científicos, mas as causas e contribuições devem ser verificadas.

Considerações Finais
O trabalho interdisciplinar, caso seja realizado com a mera incorporação de conceitos acarreta falta de organicidade, consistência e pertinência conceitual advindos de campos científicos correlatos. Sendo assim, o exercício interdisciplinar não deve limitar-se ao movimento interno de uma ciência, ou seja, deter-se na perspectiva teórico-prática, mas respaldar-se na promoção social. Para tanto, a Ciência da Informação deve dialogar ativamente com outros campos científicos que abordem a informação enquanto fenômeno contemporâneo. Certamente, este esforço interdisciplinar tende a promover a evolução da Ciência da Informação de modo real, estável e consistente; prever o acompanhamento da evolução teórica do campo de origem; e compreender a distinção ou aproximação dos diferentes saberes. Para tanto, a Ciência da Informação deve adotar comportamentos de abertura e de estabilidade devido à complexidade de seu objeto de estudo, objetivando-se uma base estável para seu amadurecimento científico.
Entende-se que seja a partir da observância dos pluralismos teóricos e metodológicos advindos pelo movimento interdisciplinar que a Ciência da Informação consiga delimitar suas marcações e compreender os seus paradigmas emergentes. Ignorar as características imanentes a Ciência da Informação é não ter clareza dos limites e benefícios do movimento interdisciplinar.


Urge, portanto, insistir na necessidade de abordar a informação por diferentes ângulos, no intuito de aprofundá-la em diferentes concepções por meio de um trabalho de análise, pois a Ciência da Informação – da teoria às aplicações – é permeada por conceitos, noções e ideias que a configuram enquanto ponto convergente de vários campos científicos, o que reforça a sua vocação interdisciplinar. Porém, considerando a natureza da interdisciplinaridade, com suas variações e conceitos correlatos, este movimento na Ciência da Informação não deve caracterizar-se como sendo mais um esforço ou hipótese sem consistência, mas abrigar novas expectativas e propiciar novas possibilidades.

 

 

Notas:
[1] Sob a perspectiva clássica ou moderna, a instituição ciência é uma atividade humana de pensamento intelectual e processamento racional dos eventos e fenômenos para explicar a realidade por meio da razão e da experimentação.
[2] Optou-se pelo termo ciência contemporânea por entender que a denominação de ciência pós-moderna é limitante e atua como um modismo terminológico que avança nos campos científicos sem apontar uma efetiva compreensão e delimitação de seu uso.
[3] Nesta concepção, pode-se dizer que a informação atue como sendo um tema transversal, propriedade não apenas da Ciência da Informação, mas de tantos outros campos do saber que se curvam ao seu entendimento e mensuração.
 

 

 

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Sobre os autor / About the Author:

[1]Paula Regina Dal’ Evedove e [2] Mariângela Spotti Lopes Fujita

p.dallevedove@gmail.com  e  fujita@marilia.unesp.br

[1] Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Marília, Unesp. [2] Doutora em Ciências da Comunicação, Universidade de São Paulo. Professora Titular do Departamento de Ciência da Informação da Unesp de Marília.