Resumo: Hipertextualizar é uma forma
muito racional de apresentar a informação que mostra como
a nossa mente processa, organiza e guarda conhecimento. Cria um espaço
de informação orgânico, quando oposto ao formato linear
imposto pelo modelo da imprensa permitindo amarrações múltiplas.
As novas tecnologias da informação são relacionadas
com a criação da informação; o ato de criar
a informação no computador é marcado pela convivência
com os evanescentes pixels de fósforo em uma tela
de raios catodos e é tamanha a impermanência do texto
nesta criação que poderíamos comparar com o processo
de composição que opera no pensamento do indivíduo
gerador. A informação no texto linear reduz a incerteza pontual
tal como quando um diz vou com a doçura o outro pode de imediato
querer encontrar a criatura nesta colocação unidimensional
das palavras; o hipertexto com sua trajetória vagante e livre cria
incertezas, pois textos entrelaçados e direcionados ao infinito
não respondem, apontam, e o fazem sem uma definição
estrita, sem linhas formais, cores ou formas previamente pensadas. Não
tem mesmo uma única realidade por norma ou forma. Pode ser um percurso
de passos delirantes, sem destino certo ou explicações fáceis;
um percorrer de labirintos de medusas entrelaçadas.
Palavras-chave: Informação; Conhecimento;
Texto Linear; Hipertexto; Novas Tecnologias.
Abstract: Writing in hypertext is a very rational
form to present the information as it shows how our mind processes,
organizes and keeps knowledge. It creates a different space when opposing
information in the linear format. The act of creating information using
computers is so impermanent as the process of thinking itself The information
in the linear text reduces the prompt uncertainty such as when one says:
I go with the sweetness the other can immediately want to find the creature
in this unidirectional rank of the words; hypertext with its trajectory
creates uncertainties, they do not answer; they point and they make it
without a strict definition, without formal lines, colors or forms previously
thought. It does not have only one reality for norm or form. It can be
a passage of delirious steps without an exact destination or easy
explanations.
Keywords: Information; Knowledge; Linear Text;
Hypertext; New Technologies.
Introdução
O termo docuverse foi criado por Ted Nelson [3]
para descrever uma biblioteca eletrônica global de documentos interconectados,
uma meta para reunir todos os documentos do mundo. O modelo do docuverse
manifesta-se na Rede Internet, pois esta se espalha por todo o globo, interligando
milhões de documentos. O subjacente paradigma do hipertexto e os
protocolos de localização de textos tornaram o Docuverse-Rede
tecnicamente possível, na Word Wide Web.
O hipertexto permite a qualquer pessoa estabelecer laços com outros textos fora do documento original. O sistema de hipertexto permite que tal se faça, através do protocolo do Universal Resource Locator (URL). Este protocolo permite a qualquer um estabelecer um link a qualquer documento acessível ao público, num qualquer arquivo da Internet.
Em um nível mais pessoal, qualquer autor pode criar a sua própria meta de documentos através da ligação a outros documentos relevantes ou redirecioná-los para fragmentos no seu próprio texto. Os caminhos do hipertexto, utilizando a liberdade da Internet, estão livres das amarras do direito autoral pois o link hipertextual é mais uma ligação de referência do que uma citação de conteúdo.
O hipertexto, como um paradigma chave fundacional da Rede, é o que fornece o seu poder e o seu potencial. A sua natureza é não linear, não hierárquica, sem fronteiras. Ainda que Vannevar Bush e Ted Nelson sejam comummente vistos, respectivamente, como pais do hipertexto, o conceito já era utilizado na literatura antiga, como no Talmude; com o seu comentário no comentário do texto principal, e as suas anotações e referências a outras passagens, dentro do próprio Talmude, e, fora dele, na Torah e no Tenach [4].
Hipertextualizar é uma forma muito biológica de apresentar a informação e que mostra como a nossa mente processa, organiza e guarda informação. Cria um espaço de informação orgânico, oposto ao formato linear artificial, imposto pelo modelo da imprensa.
Vannevar Bush é, para muitos, o precursor do hipertexto. Em 1945 escreveu um artigo intitulado "As We May Think", no qual descrevia uma forma para aumentar a memória humana fornecendo meios para organizar a informação associadamente, da forma como nos pensamos e como se formam os elos de um hipertexto. Bush entendia que a mente trabalhava por associação de conceitos, criando uma intrincada rede de vias, interconectando as memórias e os dados nela armazenados. Portanto, sentiu que o melhor desenho para organizar, mecanicamente, a informação deveria incorporar essa associação.
O Memex, seu instrumento de arquivo e recuperação, deveria também permitir ao utilizador tomar nota de cada pedaço de informação, entrar com a sua própria informação e ligá-la a uma rede de documentos texto, figuras e sons indexados e recuperados através de conceitos interligados. O Memex nunca foi construído, ainda que Bush o considerasse como um produto da extensão de tecnologias existentes em 1945. No entanto, os conceitos a ele subjacentes inspiraram outros visionários, como Douglas Engelbart e Ted Nelson [3].
O hipertexto é, pois, um sistema de representação
de informação, que fornece network semântico
não linear e de múltiplos caminhos, e experiências
da informação. Assim, para implementar o hipertexto, é
crucial dispor de um ambiente navegacional. Relacionado à condição
de passagens, está o grau de controle que o autor dá ao leitor
e a integração da informação na Rede como um
todo. É uma escrita que cria espaços de informação
multidimensionais e sem fronteiras. Os espaços de informação
podem ser, portanto, partes de espaços maiores até chegamos
ao ciberespaço como um todo. Antes da Internet , os espaços
de informação eram ilhas isoladas; agora parte de um todo
integrado.
Textos que se cruzam
"Textos Paralelos" conceito que Ted Nelson adicionou ao Projeto Xanadu
permitia criar links entre documentos. Como Nelson indicou: "No
sistema de Bush o usuário não tinha escolhas ao se mover
em uma seqüência de itens exceto em uma intercessão de
caminhos" ². O sistema de Nelson dava ao usuário uma flexibilidade
maior. As linhas paralelas que mostravam a seqüência entre dois
documentos, textos paralelos, eram mostradas na tela para o usuário
do sistema de Nelson. Apesar do desenvolvimento operacional, Nelson, ao
citar Bush, indica o ponto de partida.
Mas antes em 1934, Paul Otlet, preocupado com o fato de que a informação organizada deveria retornar a sociedade, escreveu o Traité de documentation. (Brussels, 1934) [5]. Seus trabalhos com Henri-Marie Lafontaine, permitiram a Classificação Decimal Universal (UDC) e tantos conceitos teóricos, que hoje são estudados, também, como o sonho de uma escrita universal permanente, um sonho hipertextual. A pergunta da atualidade é: como acontecerá no futuro próximo o ato de escrever, o ato de ler , a assimilação cognitiva da informação? Qual estrutura será utilizada para uma maior e melhor associação e elaboração da informação pelo receptor: o texto ou o hipertexto?
Todas estas interações textuais trabalham em um sistema do hipermídia; hipertexto é um termo criado por Ted Nelson em torno de 1965. Hipermídia é uma arquitetura de ligações em nó, sendo estes nós paginas texto da web ou outros meios, tais como vídeo, áudio, e imagens e as ligações conectam todas estas mídias através de um modelo padrão de associação. A World Wide Web contem um grupo de protocolos que permitem seu funcionamento. O primeiro destes é HTTP: Hypertext Transfer Protocol. Este protocolo é usado para geradores e por usuários da rede entrar em comunicação. O segundo protocolo o HTML: Hypertext Markup Language. Esta linguagem especifica o formato do documento e permite que diferentes usuários inscrevam o seu texto em um mesmo código . Permite, também, que um projetista desenhe suas URLs. O terceiro protocolo da rede é o URL: Uniform Resource Locator. Este protocolo indica a localização do arquivo que esta sendo desejado pelo usuário
Os textos paralelos de Nelson dos anos 1970 eram originais porque permitiam que um usuário criasse as ligações entre documentos, mesmo se esses não fossem relacionados. Nelson propôs também, uma rede da transmissão, através da qual os usuários e as bibliotecas trocariam escritos e informação. As idéias de Nelsons eram revolucionárias e adiantadas para a época.
Acredito que o futuro da ciência da informação e da comunicação dependem de como será a articulação para inserção dessas novas tecnologias do texto no agir cotidiano. As tecnologias da informação e da comunicação com elevado teor de inovação e convencimento estão, definitivamente inseridas, no contexto das duas áreas, hoje tão dependentes que poderíamos afirmar que o futuro se anuncia no presente. As mudanças na tecnologia, ocorridas durante os últimos anos, reorganizam setores de atividades e as práticas associadas ao próprio pensar da informação e da comunicação, pois o modelo tecnológico inovador é fechado e induz a um distanciamento alienante de como ele opera ou se opera no melhor sentido. Se o discurso da ciência traz uma promessa de verdade, o da tecnologia traz uma promessa de felicidade, de melhoria das condições de vida para o homem, em sua ambiência quotidiana.
No caso das tecnologias de informação ou de comunicação, se o objetivo declarado é promover o acesso universal à informação e diminuir a inclusão social, este objetivo passa a ser uma decisão de status tecnológico da sociedade. Não é mais passível de dúvida ou contraposição. A autoridade tecnológica julga e condena quem quer criticar o conhecimento do processo em si. Se as suas conseqüências são definidas como benéficas para a sociedade não cabe mais crítica ao processo. Assim ocorre com as s tecnologias da informação e comunicação, enunciadas sempre em conjunto e como uma única coisa, mas que, na verdade, são duas manifestações tecnológicas que operam em paralelo.
As novas tecnologias da informação estão relacionadas, por exemplo, com a criação da informação; o ato de criar a informação é hoje marcado pela convivência com os evanescentes pixels de fósforo em uma tela de raios catodos e é tamanha a impermanência do texto assim criado que poderíamos comparar com o processo de composição do texto que opera no pensamento criador do indivíduo gerador.
As estruturas da informação assumem novos contornos, como o hipertexto e as contornos da escrita multimídia com a possibilidade se ter no mesmo documento, texto, som e imagem na mesma base física. O fluxo de informação antes uno-direcionado e sucessivamente linear no desenvolvimento seqüencial de seus eventos , passa a ser multidimensional, sem uma ordenação obrigatória, impreciso e turvo quanto a uma rígida localização de seu foco ou centro.
O controle da linguagem com seus aparatos e idéias voltadas para a ocultação da mensagem, já não faz mais sentido. O processamento atual é na linguagem natural dos falantes e o receptor, antes um espectador no sistema de armazenamento e recuperação , agora participa no desenrolar do processo. Sem mediação ou intermediários, o usuário conduz o julgamento de suas necessidades informacionais e da relevância a elas associadas como se estivesse virtualmente habitando os espaços do arquivo.
Nas tecnologias da comunicação, a comunicação de meios intransitivos, aqueles sem resposta, foi assombrada pela interatividade e pela conectividade no acesso à informação. O meio não é mais a mensagem. A interatividade permite uma inter atuação multitemporal com os fatos, idéias e ocorrências do cotidiano. O receptor da mensagem pode ir direto a sua fonte e lá, estabelecer um dialogo: fazer a sua mensagem individualizada e independente do canal formal.
Os intermediários das mensagens podem ser liberados, para um melhor fazer, como todos os demais intermediários da informação: o vendedor da loja, o atendente do banco, o professor em sala fixa e com idéias fixadas, os intermediários dos diferentes acervos documentais.
A conectividade na comunicação traz a vizinhança
universal imediata. Tratar com a mesa ao lado pode ser tão eficiente
e rápido quanto com meu colega de informação na China.Toda
a relação espacial da comunicação se modifica
e se liberta da forma. Estar em um determinado espaço comunicacional
é uma decisão minha, que pode ser modificada na velocidade
de um apertar de teclas.
A procura de um arcabouço teórico para a escrita em
hipertexto
Tudo começou em 1945. Acabava a guerra e a informação
mantida secreta naquele período seria colocada à disposição
do mundo. Designado pelo Presidente Franklin Delano Roosevelt o Dr. Vannevar
Bush, foi de 1938 a 1942 o responsável pelo Comitê Nacional
de Pesquisa depois Office for Scientific Reserach and Development.
A missão do Dr. Vannevar Bush foi congregar cientistas americanos
e europeus para direcioná-los ao esforço de guerra aliado.
Em 1945, Bush publicou "As we may think," [6],que
trata do problema da informação e entraves que, haveria para
organizar e repassar a sociedade à informação mantida
secretas durante a guerra. Vannevar Bush com a publicação
do seu mencionado artigo e indicou uma mudança de paradigma para
texto e sua tecnologia, ao introduzir a noção de associação
de conceitos ou palavras na organização e recuperação
da informação; este método seria o protótipo
que o cérebro humano utilizaria para transformar informação
em conhecimento dizia. Os processos da escrita deveriam ser operacionalizados,
por associação de conceitos, "como nos pensamos".
Bush propôs a construção do Memex um aparato tecnológico
que armazenava e recuperava documentos através de associação
de suas palavras no conteúdo.
A importância do artigo de Bush para o mundo do hipertexto é relatada em a Cultura da Interface [7]. Douglas Engelbart, uma das pessoas importantes da era digital recente por suas inúmeras contribuições em hardware e software, entre outras coisas, inventou o mouse que tirou o usuário de uma interface de teclado e o colocou virtualmente, na tela do computador. Pode-se dizer que interface contemporânea, começou quando Engelbart, no final da segunda guerra, aguardava no aeroporto sua volta para a América lendo o artigo de Bush no aeroporto. Iniciou-se uma obsessão de quase 20 anos até a apresentação [6] em 1968 no Civic Auditorium de São Francisco, USA do protótipo em madeira do mouse para o micro individual.
Em S/Z [7], Roland Barthes descreve uma textualidade
ideal que muito se aproxima do que hoje chamamos hipertexto. Hipertexto
é um meio de comunicar idéias que interliga informação
verbal e não verbal. Um texto composto com escrita, imagens e som
interligados eletronicamente por múltiplas pegadas de uma trilha;
é em uma composição aberta, infinita e sempre em formação.
Algumas idéias de Foucault, Levi-Straus e Derrida antecipam a hipertextualidade
quando tratam da do texto e seu emaranhado de interligações
a outros textos.
Figura 1 – As Pegadas de Hipertexto

Quando Barthes [8] nos fala da morte do autor descreve o leitor - o receptor da informação - como o lugar onde a multiplicidade do texto se reúne; ele é o espaço exato em que se inscrevem as indicações do texto, O leitor é um ser sem história, biografia ou psicologia; é apenas alguém que tem, reunidos em um mesmo campo, todos os traços de uma escrita. Assim ele nos indica, em sua síntese magnífica, as diferenças estruturais do texto e o lugar onde acontece o conhecimento do texto.
Um texto tradicional, linear tem começo meio e fim; é como o fio de Ariadne conduzindo em uma única direção. É um bem preso em um circuito de propriedades e de regras estritas sobre direitos, relações e benefícios do pertencimento.
O hipertexto representaria então a multiplicidade de textos em uma escritura não linear e sem ordem definida. Com o hipertexto morre não só o autor, o gerador, mas também a mediação que assegurava com sua ordem classificatória uma vizinhança: concomitante e com a homogeneidade de um domicilio certo.
A estrutura dos textos múltiplos forma uma rede, na qual cada ponto pode ter conexão com qualquer outro ponto. Não tem um interior ou um exterior conhecido com a antecedência de um sumário; pode ser finito ou infinito e em ambos os casos, considerando que, cada um dos pontos de sua formação pode ser ligado a qualquer outro, o seu próprio processo de conexão é um contínuo processo de correção das conexões. É sempre ilimitado, pois a sua estrutura é sempre diferente da estrutura que era um momento antes para aquele receptor e aquele caminho e cada vez se pode percorrê-lo segundo linhas diferentes.
A informação no texto linear reduz a incerteza pontual tal como quando um diz vou com a doçura o outro pode de imediato querer encontrar a criatura na colocação unidimencional das palavras; o hipertexto com sua trajetória vagantemente livre criam incertezas, pois textos entrelaçados e direcionados ao infinito não respondem, apontam, mas sem uma definição estrita sem linhas formais, cores ou formas previamente pensadas. Não tem nem mesmo uma única realidade por norma ou forma. Pode ser um percurso de passos delirantes sem destino certo e explicações fáceis: é um percorrer de labirintos de medusas entrelaçadas.
Há que ter grandes asas quem ama os labirintos [9], pois se a informação é a mediadora do conhecimento em suas formas lineares sacralizadas, no hipertexto esta mediação se perde em potência de mosaico quando na condução do homem ao conhecimento. A apropriação esclarecedora prende os passos no fazer o traçado do caminho. O caminhar só prossegue se as pegadas anteriores foram apropriadas corretamente; nesse sentido o caminhante [10] não faz o caminho o caminhar é permitido pelo conhecer.
No hipertexto seremos sempre caminhantes em perigo de estarmos perdidos nos desvios do caminho, encantados mais pela ilusão do percorrer do que na ação do conhecer. Um hipertexto é então uma aventura que entrelaça coisas como: informação, conhecimento, labirintos, espelhos e medusas; um ritual de passagens múltiplas, atalhos e desvios em direção a uma construção individualizada de conhecimento.
É assim que, ainda inspirados por Barthes [11], alguns autores procuram explicar os locais de quebra para a partida de textos ou superposição de textos múltiplos. Em suas Lexias indicadas como os locais do texto em que o conteúdo das palavras entra em terremotos de significação; também apontadas como fragmentos do texto que caracterizam uma unidade de leitura, um corte completamente arbitrário sem qualquer responsabilidade metodológica. A lexia é o envelope de um volume semântico, a voz do texto tutor, a linha saliente de um texto plural. O texto tutor seja ele o primeiro ou um dos seus muitos elos será sempre quebrado, interrompido em total desrespeito por suas divisões naturais; "o trabalho do "texto superposto", do momento que se subtrai toda a ideologia de totalidade consiste precisamente em maltratar o texto, em cortar-lhe a palavra" [12].
Na análise de um texto o autor definiu cinco tipos de lexias: lexias semânticas, seriam as unidades de significação a qual a lexia nos remete para ampliação, reforço, extensão de uma idéia. E um elemento migrador e capaz de entrar em composição com outros elementos para formar atmosferas, personagens, símbolos; lexia de antítese , a região do texto com significados adversários; lexia de ação o resultado de ações de conduta comportamentais das atividades envolvidas no texto. A importância está rumo do discurso do texto e não na ação das coisas de que trata o texto; lexias hermenêuticas são conjuntos do texto que tem uma função de articular de diversas maneiras uma, idéia, uma pergunta sua resposta os acidentes no preparar a pergunta ou retardar a resposta ou formular um enigma; lexia de referência, as partes que denotam as ambiências culturais e especificas do texto analisado.
Idealizado por Barthes para analisar o discurso do texto o conjunto
de lexias pode se transformar em um instrumental para qualificar os elos
de um hipertexto. Quando textos se entrelaçam infinitamente a individualidade
do texto tem uma grandeza do todo e do nada:
A desconstrução teoriza práticas de escrita que
antecipam o hipertexto. No que se refere à ligação
imediata entre as partes e o todo, traz uma modificação conceitual
na transformação do texto com a impossibilidade de se ter
um centro de significação. Em Gramatologia [14],
Jacques Derrida fala da cultura do livro como sendo baseada no logocentrismo,
na existência de um autor e um significado preexistentes à
estrutura do texto, em um ponto central de significado. A organização
linear do texto em um livro, por exemplo, convida a uma interpretação
semelhante da realidade. Do começo ao fim, da esquerda para a direita,
página a página. Para Derrida o digital modifica o texto
para promover uma escrita virtual que e livre de todos os constrangimentos
de clausura e da sucessividade [15].
A instantânea presença digital do texto tira da escrita
a poética da rasura sobre o que Derrida afirma: "o texto fica instantaneamente
objetivado e transmissível, pronto para publicação,
ele é quase público e pronto para sair desde o momento da
sua inscrição" [11]. É um outro
regime de celebração da escrita, uma outra experiência
de memória É um jogo das intermediações criando
uma teia de descentramentos, que não mostra claramente as novas
condições da função do autor.
Michel Foucault concebe em seu livro A Arqueologia do Saber [15], o texto como uma rede formada por interconexões, onde as fronteiras não são nunca bem definidas, sendo captadas em um sistema de referências a outros livros, outros textos, outras frases formando um nó como em uma rede tipo sistema rizomático: ".... a unidade material do volume não será uma unidade fraca, acessória em relação a unidade discursiva que lhe dá apoio? Por mais que o livro se apresente como um ele está preso a um sistema de remissões a outros livros, outros textos, outras frases: nós em uma rede" [17]. Em leitura anterior [18] indica como as coisa do saber, do discurso, do texto se assemelham em um número infinito de tramas semânticas que se entrecruzam, se imbricam , separam-se para reforço. Separa estas semelhanças em quatro essenciais: primeiro a convenientia. São convenientes as os textos [19] que se aproximam, tocam-se em suas bordas, a extremidade de uma pode indicar o começo da outra. Como uma razão surda das idéias vizinhas é uma semelhança pela proximidade do tema. Na grande síntese do mundo os textos se aproximam pela conveniência [20]. A conveniência adiciona , explica, referencia conteúdos paralelos. A segunda forma de similitude aproximativa entre documentos que se cruzam é a aemulatio uma semelhança sem contato. Há na emulação [21] uma correspondência como o do reflexo no espelho quando textos dispersos pelo mundo e não vizinhos se reúnem. Textos podem encadear-se não pela vizinhança da similitude, mas pelo afastamento de seu reflexo no espelho. A terceira forma de similitude é a analogia [22]; o encadeamento próprio dos liames de ajustamentos e de juntura. O espaço da analogia é o espaço de irradiação. A quarta e última relação de destinação de textos relacionados seria a simpatia. A simpatia atua em estado livre para associações no infinito dos documentos. É uma similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais coisas espontaneamente atraídas entre si. Ligo o meu texto a outro por uma disposição favorável de difícil explicação racional. A simpatia transforma na direção do mesmo e se o seu puder não fosse contrabalanceado pela antipatia, o mundo se reduziria a um horrível ponto de mesmice.
Unindo-se as similitudes de Foucault com as Lexias de Barthes poderíamos
iniciar uma articulação da composição do hipertexto
com seus elos?
Quadro 1 - Hipertexto: Características e relações
da fragmentação
| TIPOLOGIA DOS ELOS NA AGREGAÇÃO | TIPOLOGIA PREDIMINATE DAS RELAÇÕES DE BRICOLAGEM TEXTUAL | ESTRUTURA PREDOMINATE NA CONEXÃO |
| 1.Conveniência | lexias semânticas (SEM)
lexias de ação (ACT) lexias de referencia cultural (REF) |
Saída para documentos sem um plano preconcebido. afastam-se dos processos e normas adotados pela técnica. Formam estrutura de textos acêntricos virtualmente agregados em uma rede de bricolagem de escrituras pré-elaboradas e já existentes. |
| 2.Emulação | lexias semânticas
lexias de antítese (A/B) lexias hermenêuticas (HER) |
Idem, explicação de 1. Exemplifica as diversas maneiras de se colocar uma questão ou o olhar sobre um tema. A atração dos contrários e lugar da controvérsia. |
| 3. Analogia | lexias semânticas
lexias hermenêuticas lexias referencia cultural |
Idem, explicação de 1. Semelhança funcional entre temas de diferentes estruturas semânticas. Não são idênticos nem diferentes, mas se assemelham e se correspondem sem ter o mesmo significado. |
| 4.Simpatia | lexias semânticas
lexias de ação lexias de referencia cultural |
Idem, explicação de 1.
A ação recíproca entre temas ou sua capacidade de influência mútua; textos com contágio emotivo, mas com o reconhecimento da alteridade dos seus componente significativos. |
Fonte: Pesquisa do autor explicada no final deste trabalho. Esta tabela é somente uma proposição para reflexão. Não existe, ainda, qualquer comprovação quantitativa ou qualitativa de sua validade.
É importante indicar ainda, o pensamento das articulações dos Mitemas colocado por Claude Lèvi-Strauss [23] e sua influência na metodologia do estudo dos textos relacionados. Um mitema seria uma unidade de significado que relaciona estruturas temáticas existentes em um determinado mito [24]. O pensamento mítico mostra um trabalho de composição que usa meios de um plano ou estrutura técnica preconcebida. Uma espécie de bricolagem [25] intelectual.
Pode-se dizer que o tanto o cientista como o artesão da bricolagem estão a espreita de mensagens que para o "bricoleur", são mensagens pré-transmitidas e colecionadas como códigos que permitem enfrentar situações novas; o homem de ciência antecipa sempre uma "outra" mensagem, que se espera nova e arrancada de interlocutores e sua ambiência.
O mais interessante no pensamento dos mitemas é o abandono de
toda a referência a um centro,, um sujeito, um contexto específico
ou uma origem absoluta. O discurso das estruturas acêntricas dos
mitos não tem um sujeito ou centro absoluto. o mito de referência
(o texto tutor) não deriva unicamente de uma posição
central, mas de sua posição irregular no interior do emaranhado
de fragmentos que se interconectam:
O conjunto de mitos de uma população pertence a sua
ordem do discurso. Uma estrutura de mitemas corresponde a um conjunto de
textos acêntricos que formam virtualmente uma rede em hipertexto
onde a crua informação neles contida transforma-se quando
cozida em conhecimento.
Um estudo em andamento sobre a estrutura de hipertextos
No estudo da informação, como precursora de uma intenção
de conhecimento no indivíduo e na sua realidade, podemos nos deparar
com um acontecimento significativo, que é a analise de uma estrutura
de informação, como uma base de inscrições
significantes.
A estrutura de informação foi considerada como qualquer inscrição de informação em uma base que a aceita como tal; a estrutura é então pensada como sendo um conjunto de elementos que formam um todo ordenado e com princípios lógicos. Assim, trabalhamos com o pressuposto de que, uma estrutura de informação textual, um texto de informação, possui características de linguagem que admite, análises morfológicas, permitindo extrair indicações para decisões estratégicas na sua gestão e distribuição adequada. Consideramos um texto ou um hipertexto como um elemento passível de ser objeto dos instrumentos de análise da linguagem natural por computador; uma metodologia onde a partir dos elementos morfológicos do texto se pode construir um arcabouço de conformações para indicações sobre a relevância e o conteúdo dos textos eletronicamente entrelaçados.
A proposta do estudo que realizamos no momento consiste em examinar como um hipertexto se relaciona com seus elos em diferentes linguagens e configurações estruturais a partir de elementos da analise do texto e de suas relações com os demais textos entrelaçados; Seria importante construir um arcabouço de conhecimento pela análise teórica e prática da trama dos textos vinculados em um hipertexto; verificar as relações cognitivas no processo de apropriação pelo receptor, de documentos eletrônicos acêntricos e com convergência digital de suas linguagens.
Procuramos [27] olhar inicialmente o conteúdo do documento tutor e os documentos paralelos relacionados em um hipertexto, para verificar se em uma contagem das palavras destes conjunto de documentos haveria uma semelhança conteúdo. Verificamos não haver qualquer semelhança nesta análise das palavras mais freqüentes deste conjunto. Constatamos, contudo, que as palavras mais freqüentes dos diferentes elos de um hipertexto interatuam positivamente em suas relações quando consideradas em conjunto em um mapa conceitual.
Existe uma clara ligação entre palavras de diferentes
níveis hipertextuais e que podem ser qualitativamente conectadas
utilizando a estrutura de lexias apresentada por Barthes e listadas
no quadro 1 deste trabalho. A figura 2, abaixo, mostra esta
vinculação para um Hipertexto de Economia Clássica
[28] não é ainda uma estudo finalizado,
mas um produto da pesquisa em andamento. Um olhar apressado mostrará
que as relações podem ser realizadas, também, em outras
direções; preferimos nos ater , agora, aos significados do
tema do hipertexto.
Figura 2 – Mapa Conceitual de Textos Interligados

Na figura 2 cada forma geométrica onde estão inscritas as palavras, representa um nível de documento hipertexto saindo do documento tutor [29] representado pela forma de elipses em vermelho. O software de construção nos fornece extensa informação técnica sobre as palavras e o seu relacionamento.
A pesquisa a que relatamos procura condições de estabelecer uma base teórica sobre o processamento computacional do português como linguagem natural aplicada em documentos eletrônicos que se relacionam. E do nosso interesse desenvolver e documentar softwares de análise e estudar a viabilidade de sua aplicação em analises em linguagem natural . É importante averiguar a procedência e a permanência destes estudos como um instrumento de tecnologia da informação, que poderá ser incorporado ao conjunto teórico já existente na ciência da informação com vistas a expandir e modernizar um conjunto já sedimentado;
É intenção da pesquisa, enfim, facilitar a interação
entre um receptor e os documentos eletrônicos em estoques de informação,
pois é grande o desconhecimento sobre o hipertexto e sua influência
nas condições cognitivas do receptor; são desconhecidas
as configurações de tempo e o esforço mental de um
receptor ao processar para apropriação um texto não
linear, acêntrico, fragmentado e com graus de heterogeneidade na
sua formação. Devido à alta exposição
à informação, a que todos estamos sujeitos atualmente,
este estresse cognitivo é muito grande e todos os instrumentos para
sua redução representam uma eficiência comunicacional.
Notas e Referências Bibliográficas
[1] Verba Volant, scripta manent
[2] Do poema "Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Aparece"
[3] Ted Nelson é apontado como tendo cunhado o termo hipertexto
e Xanadu ® e considerado o precursor da web. Nelson teve influencia
e cita em seus trabalhos Vannevar Bush e Paul Otlet. Ver em:
<http://www.tfh-berlin.de/~weberwu/ds/TedNelson.html>
<http://www.callnetuk.com/home/billkennelly/who.htm>
<http://www.scope.at/program/speakers/nelson.html>
[4] A História da Web na Web
<http://www-personal.umich.edu/~mattkaz/history/index.html>,
As We May Think by Vannevar Bush
<http://www.theatlantic.com/unbound/flashbks/computer/bushf.htm>
[5] Rayward, W.B..The case of Paul Otlet, pioneer of information
science, internationalist, visionary: reflections on biography , Journal
of Librarianship and Information Science, 23(September 1991):135-145.
<http://alexia.lis.uiuc.edu/~wrayward/otlet/PAUL_OTLET_REFLECTIONS_ON_BIOG.HTM>
[6] Bush, V.. As We May Think. The Atlantic Monthly, July 1945
V 176, N. 1; 101-108.
[7] Johnson, S. A Cultura da Interface, Jorge Zahar, Rio de
Janeiro, 2001.
[8] Barthes, R. . O Rumor da Língua, Edições
70 , Lisboa, 1987.
[9] Nietzsche, F.W.. Basic Writings, Modern Library,1ª
Edição, 1996.
[10] Fraseado inspirado em Caminante, no hay camino, poema de
Antonio Machado, poeta Sevilhano [1875-1939, em seu livro Soledades,
Galerias y outros Poemas
[11] Barthes, R.. S/Z, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro
1992.
[12] Este parágrafo foi basicamente editado do texto de Barthes
(1992) acima indicado.
[13] Derrida, J.. A escritura e a Diferença, Editora
Perspectiva, 2ª edição , São Paulo , 1995.
[14] Derrida J.. Gramatologia. São Paulo, Perspectiva,
1973.
[15] Derrida, J. . A Escritura e a Diferença. Perspectiva,
São Paulo, 1995.
[16] Derrida, J.. Papel Máquina, Estação
Liberdade, São Paulo, 2004.
[17] Foucault, M.. A Arqueologia do Saber, 4 edição,
[As realidades Discursivas], Forense Universitária, Rio de Janeiro,
1995.
[18] Foucault M.. As Palavras e as Coisas. 8ª edição
Martins Fontes, São Paulo,1999.
[19] Substituímos a palavra coisas no original por textos,
considerando que está é uma construção teórica
por adaptação que estamos propondo para explicação
do nosso objeto. Contudo devo assinalar que esta parte do texto foi quase
uma transposição do texto de Foucault.
[20] conveniente: o que é apropriado, oportuno, traz vantagem;
útil, proveitoso, vantajoso .
[21] emulação: sentimento que leva a uma coisa a tentar
igualar-se ou superar outra coisa; uma concorrência em sentido moralmente
sadio, sem sentimentos baixos ou violência.
[22] analogia: relação ou semelhança entre coisas
ou fatos; identidade de relação entre pares de coisas dessemelhantes,
por processo efetuado através da passagem de asserções
facilmente verificáveis para outras de difícil constatação,
realizando uma extensão ou generalização probabilística
do conhecimento.
[23] Lèvi-Strauss,C. O Pensamento Selvagem. 3ª edição,
Papirus, Campinas, 1989.
[24] Mito: relato fantástico de tradição oral,
protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças
da natureza e os aspectos gerais da condição humana; construção
mental de algo idealizado, sem comprovação prática.
[25] Bricolagem: trabalho que se executa usando meios e expedientes
sem um plano preconcebido e que, se afastam dos processos e normas adotados
pela técnica. Caracteriza o taba lho de bricolagem o fato de se
trabalhar com insumos fragmentados já elaborados, já existentes.
[26] Lèvi-Strauss, C.. O Cru e o Cozido. Abertura. Brasiliense,
São Paulo, 1991.
[27] Foi utilizado nesta análise dois softwares principais:
1) o PROTEXTO elaborado especificamente para esta pesquisa e que permite
uma série de análises da estrutura de um texto e o AXOM 2005
que permite trabalhar com a construção de mapas conceituais
e com toda uma configuração de suas relações.
[28] O hipertexto está em: <http://www.economiabr.net/economia/1_hpe4.html>
[29] Texto ou documento tutor: termo usado para indicar o documento
índice do hipertexto, o documento de onde partem os demais textos.
Sobre o autor / About the Author:
Aldo de Albuquerque Barreto
aldoibct@alternex.com.br
Pesquisador Titular do MCT/Ibict