DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.6   n.5   out/05                       COLUNAS

Uma Nova Tabela de Áreas do Conhecimento

por Rosali Fernandez de Souza
Editor-convidado

 
No momento está em discussão no País a proposição de uma nova Tabela de Áreas do Conhecimento para uso das agências de fomento em Ciência, Tecnologia e Inovação.

A Tabela em vigor data de 1984. Já no final dos anos noventa, esta Tabela era reconhecida pela comunidade como defasada em relação à realidade da pesquisa no País, desatualizada a ponto de ser anacrônica e deficiente em termos de evolução natural de algumas áreas. A comunidade considerava também a necessidade de modernização da terminologia frente às grandes modificações ocorridas no desenvolvimento da ciência e da tecnologia no País,  principalmente na pesquisa e no ensino de natureza interdisciplinar.

A Tabela em vigor apresenta uma  estrutura hierárquica em quatro níveis denominados de  grande área, área, sub-área e especialidade. Compreende 8 grandes áreas, 76 áreas, 340 subáreas e 867 especialidades. A longa demora de 2 anos sem sofrer reformulação  fez com que o CNPq e a CAPES,  por suas próprias necessidades gerenciais e por demandas da comunidade científica, acrescentassem mais uma grande área para tentar contornar o problema da desatualização. Assim, no CNPq a Tabela foi acrescida da grande área 9 Outros,  compreendendo vinte e três  itens arrolados em ordem alfabética, representando tanto grandes áreas, áreas, sub-áreas e  especialidades, como denominações de carreiras e cursos. Na CAPES a Tabela foi acrescida de uma grande área Outras, com duas divisões denominadas Ensino e Multidisciplinar. Na categoria Multidisciplinar estão classificados mais  de cem   cursos de mestrado e doutorado reconhecidos no País e  é a categoria que nos últimos anos vem apresentando a maior taxa de crescimento de novos cursos em comparação com as oito grandes áreas do conhecimento estabelecidas da Tabela.

Nos últimos dez anos houve pelo menos duas tentativas de reformulação da Tabela, uma no  âmbito das agências de fomento e outra em  nível interministerial. Nenhuma dessas duas tentativas logrou concretizar uma nova proposta de tabela.

Em  Março de 2005, através de Portaria conjunta CNPq-CAPES-FINEP, foi constituída a  Comissão Especial de Estudos com o objetivo específico de propor uma nova tabela de classificação das áreas do conhecimento no prazo de nove meses.

A elaboração de tal Tabela é um trabalho complexo e difícil. O saber científico e tecnológico está em constante desenvolvimento e a sua classificação envolve  considerações de ordem histórica e de tradições de pesquisa.  A  classificação  das áreas do conhecimento tem como objetivo  a organização de informação para implementar, gerenciar e avaliar as políticas e programas das agências de fomento.  Para a comunidade científica a tabela atua como elemento de interface com as agências na aplicação para  financiamento de atividades de pesquisa e desenvolvimento. Os diferentes usos da Tabela   indicam a dificuldade de se elaborar um instrumento que atenda satisfatoriamente e com a mesma eficiência  a  necessidades distintas de representação de um mesmo universo, ambas com finalidade  eminentemente  prática.

A necessidade de agregação de dados para fins gerenciais sugere a adoção de uma classificação verticalizada em níveis hierárquicos, enquanto que a especificação das atividades de pesquisa e ensino sugere muito mais  uma "horizontalidade" de expressão   que permita inclusive explicitações de natureza  interdisciplinar.

Se olharmos esta questão do ponto de vista da natureza da Informação a ser tratada, podemos também identificar duas situações distintas: enquanto os administradores e técnicos das agências enfocam os dados  na  perspectiva da  informação sobre C&T, a comunidade de pesquisadores e professores está com o foco  centrado no objeto de investigação, ou seja, na  informação de C&T propriamente dita, o que reforça a perspectiva de uso da Tabela em duas dimensões diferentes de organização e representação de informação.

A nova proposta de Tabela, ora em discussão e ainda em sua versão preliminar, define  uma estrutura em três níveis hierárquicos. Tomando a área do conhecimento como unidade básica de categorização, estabelece o nível de super-ordenação em grande área e o nível  de  sub-ordenação  em  sub-área. O tratamento diferenciado para as especialidades fora da ordem hierárquica está sendo previsto com o objetivo de se obter maior flexibilidade na representação de interesses específicos de pesquisa, ensino e extensão, favorecendo a inclusão das temáticas de natureza interdisciplinar.

Como material de suporte à elaboração da nova proposta foram consultados os relatórios das comissões anteriores e exemplos de classificações de C&T em uso no Brasil, em  outros países e por organismos internacionais.

A  ampla participação da comunidade científica brasileira em caráter individual e coletivo em seus diversos segmentos foi considerada  essencial e prioritária  ao desenvolvimento na nova proposta de Tabela. O contato com a comunidade foi feito por carta aos pesquisadores do CNPq,  aos programas de ensino, às fundações de amparo à pesquisa, às sociedades científicas e às editoras científicas. No período de março a agosto centenas de mensagens foram recebidas, sendo que o maior número de sugestões veio de pesquisadores em caráter individual.  Poucas sociedades científicas, programas de ensino e editoras científicas se manifestaram neste período, o que se espera ser intensificado na etapa atual de elaboração da versão final da nova proposta de tabela das áreas do conhecimento.

A versão preliminar da nova proposta de tabela, está disponibilizada nas páginas do CNPq (http://www.cnpq.br ) e da CAPES  (http://www.capes.gov.br)  desde o dia 15 de setembro. Esta versão, que corresponde à quinta versão tentativa do trabalho desenvolvido pela Comissão Especial de Estudos ao longo dos últimos seis meses, estará aberta para discussão pela comunidade até  30 de outubro. A versão final será preparada pela Comissão de Estudos durante o mês de  novembro levando em consideração, tanto quanto possível, as sugestões da comunidade.

Os trabalhos da Comissão serão finalizados no dia dois de dezembro quando a Comissão apresentará ao CNPq, à  CAPES e à  FINEP o resultado de seus estudos para  a nova proposta de Tabela de Áreas do Conhecimento em cumprimento aos objetivos de criação da Comissão.

Nenhuma classificação pode ser considerada como certa ou errada, completa ou perene.

Neste sentido,  a constituição de um comitê interinstitucional de acompanhamento  permanente da Tabela  certamente traria benefícios relevantes em função das novas demandas das agências e da comunidade no tempo.

Todo esforço de organização e representação do conhecimento em sua função social  é sempre válido. A elaboração da uma nova tabela de classificação de  áreas do conhecimento no contexto das agências de fomento em C,T&I do País é indiscutivelmente um trabalho importante e, sem dúvida, um desafio fascinante.
 
 



Rosali Fernandez de Souza
Pesquisadora do  IBICT
Professora do Programa de Pós-graduação em Ciência Informação IBICT-UFF
Secretária da Comissão Especial e Estudos CNPq, CAPES, FINEP para propor uma nova Tabela de Classificação das Áreas do Conhecimento
Editor-convidado para esta edição sobre Representação do Conhecimento



 
 

Tabela de Áreas do Conhecimento do CNPq

por Hagar Espanha Gomes

 

O CNPq estuda a revisão da Tabela de Áreas do Conhecimento - TAC, atividade que desenvolve há algum tempo através da Comissão Especial de Estudos CNPq-CAPES,  FINEP, formada por representantes de entidades de C&T e Informação do País, com o objetivo de propor uma nova Tabela. Além daquelas organizações, o IBICT, órgão de informação de ICT, também se faz representar. Desnecessário enfatizar a relevância do projeto, que propiciará principalmente às Agências de fomento e avaliação os instrumentos necessários para embasar estudos e propostas para que o MCT alcance seus objetivos. Criada em 1976, num período em que a comunidade dela pouco ou nada  participou, a Tabela vem sendo aprimorada paulatinamente.  Uma classificação desta natureza, mais do que qualquer outra produzida com outras finalidades, carrega uma ideologia, uma visão de mundo, o que não significa que não tenha validade ou qualidade para o que se destina. Adicione-se, ainda, os interesses das próprias comunidades, provavelmente nem sempre atendidas em suas postulações.

Com todas as limitações das versões anteriores, a Tabela tem sido adotada como padrão pela CAPES e por agências estaduais de fomento. Uma das vantagens disso é a possibilidade de integração de dados de diversas agências para a obtenção de indicadores seja para avaliação seja para formulação de políticas. Presta-se, assim, para a produção de indicadores 'de entrada', isto é, de demanda real ou atendida, e "de saída", através das estatísticas de produção de artigos, teses, relatórios e assemelhados. Um avanço na atual Tabela será, sem dúvida, a eliminação da classe "Outros", pecado capital em qualquer sistema de classificação, por servir de abrigo para "rápidas soluções" para contornar as limitações do sistema, mas que, de fato, oculta projetos ali classificados. É importante, então, que qualquer que seja o sistema classificatório, este seja hospitaleiro, isto é, que possa abrigar novas classes ou subclasses, o que depende evidentemente das grandes categorias que devem, por princípio, ser mutuamente exclusivas, eximindo o classificador de qualquer dúvida, ao classificar seu projeto. Embora na teoria isto nem sempre seja possível, por se tratar de uma Tabela de forte influência política, na prática pode ser resolvida declarando-se os limites de abrangência/limitação  do conteúdo conceitual das categorias, classes, subclasses e assim por diante. Um bom índice remissivo, com as devidas informações a este respeito pode suprir tal dificuldade.

Mas o esforço da Comissão não se esgota na produção da Tabela de Áreas do Conhecimento. Para que as bases de dados do CNPq e de outras organizações que a utilizam, forneçam subsídios necessários a uma verdadeira gestão do conhecimento, a Comissão se volta agora para a produção de uma lista de especialidades, para uso nos cadastros de pesquisadores. Até o momento, as especialidades estão inseridas no último nível da Tabela e se uma listagem destas especialidades for feita,vai mostrar a inadequação daquela classificação, tendo em vista que os níveis de especialização variam. Assim, é bastante oportuno que as especialidades se organizem numa tabela independente, mantendo, no entanto, a estrutura das sub-áreas, para permitir agregação de dados estatísticos pelo menos naquele nível. É desnecessário  descrever a importância de tal atividade para o Governo.

Dentre outras tabelas que ainda serão produzidas, está aquela que permitirá a classificação dos projetos por sua finalidade, a saber, pelo setor da sociedade que deverá se beneficiar dos resultados da pesquisa. Por exemplo, que pesquisas na área agrícola poderão beneficiar o setor energético. Esta Tabela não deverá apresentar dificuldades, pois deverá refletir os setores prioritários do Governo.

É oportuno lembrar que a implantação da nova versão da Tabela de Áreas do Conhecimento, vai requerer do CNPq , a criação de uma tabela de conversão para que as bases de dados anteriores possam se integrar às novas, quando da produção de indicadores de C&T, para permitir a inclusão de dados do período anterior à sua vigência.

Todo este esforço, no entanto, será em vão se não houver controle relativo à consistência dos dados, adoção rígida de dados padronizados e/ou codificados em todos os outros campos (datas, lugares, etc), software adequado à produção de indicadores, dentre outras ações. Esta atividade, eminentemente informacional, tem sido relegada em sua importância, vista, por vezes, como um "patinho feio".

Que a Comissão prossiga produzindo os necessários instrumentos e padrões para tratamento da informação e que o CNPq e demais órgãos utilizadores realmente valorizem esta atividade eminentemente informacional.
 
 

Hagar Espanha Gomes
Diretora do IBICT no período de 1972 a 1974
Livre Docente pela Universidade Federal Fluminense