DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.7  n.5   out/06                  ARTIGO 01

Referir: ref. 'referir' *
Refer: ref. 'refer'
por Luiz Carlos Brito Paternostro




Resumo: Expressando uma das visões do nosso tempo, há quem considere a assim chamada 'hipermídia' eletrônica digital como portadora privilegiada de uma 'pluridimensionalidade' essencial e libertadora do pensamento e do procedimento 'lineares', supostamente característicos da fala e da escrita, em particular do impresso. Mas um sistema de referências fixas e ostensivas não constitui, nem pode constituir, uma 'linguagem'. É somente neste âmbito representacionalista que poderiam reivindicar algum sentido as afirmações sobre a 'pluridimensionalidade' dos hipertextos e a suposta 'linearidade' da linguagem 'natural'.
Palavras-chave: Hipertexto; Hipermídia; Referência; Referencialismo; Linguagem universal; Pluridimensionalidade.

Abstract: Expressing a view of our time, there is who considers the so called digital electronic 'hypermedia' as a privileged support for and capable of freeing its essential pluridimensionality from 'lineal' thought and procedures, supposed characteristic of printing, writing and speaking. Nevertheless, no fix and ostensible reference system can ever raise a language. Hardly outside strict representationalism could such claims about hypertext pluridimensionality and an alledged 'linearity' of natural language make any sense.
Key words: Hypertext; Hypermedia; Reference; Referentialism; Universal language; Pluridimensionality.
 
 

Expressando uma das visões do nosso tempo, há quem considere a assim chamada 'hipermídia' eletrônica digital como portadora privilegiada de uma 'pluridimensionalidade' essencial e libertadora do pensamento e do procedimento 'lineares', supostamente característicos da fala e da escrita, em particular do impresso.[1]

Mas um sistema de referências fixas e ostensivas não constitui, nem pode constituir, uma 'linguagem'. Nas interfaces gráficas, botões, ícones, figuras, imagens e rótulos, ou números e palavras índices, disponíveis para seleção e ativação pelo usuário, funcionam como remissivas explícitas e unívocas para outros textos e representações. São 'apontadores' - unum nomen, unum nominatum -  para o que referenciam. Implementam, no máximo, se insistíssemos em considerá-los 'linguagem', uma concepção 'agostiniana', isto é, referencial do significado das palavras [2]. Nos hipertextos, os rótulos gráficos ou textuais dos 'links' funcionam como sucedâneos de algo, isto é, 'significam' algo para o qual remetem univocamente. Na linguagem agostiniana, as sentenças são vistas como combinações de nomes que produzem descrições, assim como as subrotinas que combinam comandos produzem funcionalidades. É somente neste âmbito representacionalista que poderiam reivindicar algum sentido as afirmações sobre a 'pluridimensionalidade' dos hipertextos e a suposta 'linearidade' da linguagem 'natural'.

Alguns, como Umberto Eco, que mesmo reconhecendo a novidade específica das tecnologias digitais possui bastante conhecimento lingüístico para evitar armadilhas desse tipo, parecem entender os hipertextos como uma tentativa de organização do conhecimento, comparável ao sistema descrito no "Essay toward a real character, and a philosophical language" de John Wilkins, antes do que uma linguagem de fato, apesar do título e das intenções da obra.

Umberto Eco associa o hipertexto a "uma organização flexível e múltipla do saber", da qual Wilkins talvez fosse um pioneiro ou visionário, organização esta que "se acabaria impondo no século seguinte e nos séculos futuros". Algo tão novo que não poderia nem ter um nome na época de Wilkins (1650). " (...) parece quase que Wilkins aspirava de maneira obscura a alguma coisa à qual somente nós, hoje, podemos dar um nome: talvez quisesse constuir um hipertexto."

Eco se abstém de falar de 'língua', fala de 'modalidades': "Um hipertexto é um programa computadorizado que liga cada junção ou elemento do próprio repertório, por meio de uma multiplicidade de remessas internas, isto é, para outras junções múltiplas. (...) se fosse esse o seu projeto, não poderíamos mais falar de língua perfeita, mas de modalidades em que se pudesse articular sob múltiplos perfis aquilo que as línguas naturais nos possibilitam dizer." [Eco:312]

São reconsiderados ali supostos 'defeitos' da lógica de Wilkins, apontados por Joseph-Marie Degérando, em Des signes (1800). Algumas das descrições das subdivisões do sistema utilizam - o que é uma inconsistência, para Degérando - os mesmos termos em contextos diferentes e

"conforme, portanto, a lógica de Wilkins, seria possível admitir que aquilo que é [classificado como] vegetativo , com base [em um esquema] (...) é necessariamente criatura animada, mas com base [em outro esquema] (...) é necessariamente tanto um elemento do mundo espiritual quanto do mundo terrestre corpóreo. (...) não estamos diante de uma organização do universo em que cada entidade é definida de forma inequívoca pelo lugar que ocupa na árvore geral das coisas: ao contrário, as subdivisões são como os capítulos de uma grande enciclopédia capaz de reconsiderar as mesmas coisas a partir de diferentes pontos de vista". [Eco:311 ; grifos meus]

Umberto Eco aponta para um suposto "vínculo transversal entre junções distantes da mesma pseudodicotomia", querendo evidentemente justificar a possibilidade de que tal afinidade tem algo a ver com a organização de uma rede (i.e., não hierárquica) e, ao fim e ao cabo, com os hipertextos. Mas, em seguida, comparando duas acepções diferentes da entidade 'defesa' segundo considerada como oposição a 'deserção' (na tábua de Relações Econômicas) ou a 'ofensa' (na tábua de Relações Militares) o mesmo Eco reconhece que

"é verdade que [a primeira] (...) seria designada com 'COCO' [em real character 'CO' = Oeconomical Relation; 'C' = sexta diferença: DEEDS (isto é AÇÕES); 'O' = quinta espécie: DEFENSE], ao passo que [a segunda] (...) com 'SIBa ' [em real character 'SI' = Military Relation; 'B' = primeira diferença: ACTION (isto é AÇÃO); 'a ' = primeira espécie: DEFENSE], portanto dois caracteres diferentes indicam duas coisas diferentes" [Eco:311; grifos e comentários entre colchetes meus],

o que garante a hierarquia do sistema e torna improvável, a meu ver, mesmo a fraca 'indeterminação polissêmica' da hipótese anteriormente levantada. Aqui também, unum nomen, unum nominatum.

É interessante que, em nome da universalização da pluridimensionalidade - e também da  assim chamada 'inclusão digital' - , se consolide e se busque justificar o enorme esforço de uniformização de procedimentos e aparências - gestos, ritmos e convenções - das interfaces homem-máquina e, ao fim e ao cabo, de quaisquer comunicações mediadas por aqueles dispositivos. Por exemplo, "À medida que os designs universalmente utilizáveis se expandirem, a comunidade em expansão do usuário acabará com as fronteiras digitais". [Shneiderman:262]

Mas, ao se uniformizarem radicalmente os acessos possíveis às representações e às funcionalidades dos objetos, deve-se justamente perder - se é que ela existiu alguma vez - a anunciada riqueza: onde está, ou o que se tornou a pluridimensionalidade daquela mediação?

Outra vez, é como se as novas tecnologias se universalizassem juntamente com um modelo de linguagem artificial 'agostiniana', tendo em vista suprir uma suposta insuficiência expressiva da linguagem natural. Imposição operacionalizada pela especificação e controle minuciosos dos caminhos, pelo esvaziamento dos contextos possíveis, pela domesticação - incluindo a desconstrutiva - do tácito, visto como efeito colateral indesejável para um sistema que necessita privilegiar o ostensivo.

As coisas e os acontecimentos não coincidem nem se vinculam univocamente com as suas representações possíveis. Nem mesmo os códigos de máquina, que em um 'contexto' adequado realizam tarefas concretas, coincidem com a sua atualização. Ferramentas (como coisas que são) reais diferem de quaisquer representações de que possam ser objeto. Por outro lado, imagens e palavras, signos necessariamente ambíguos e infinitamente reprodutíveis, devem seu sentido, sua inteligibilidade àquilo que referenciam, nas circunstâncias em que referenciam. Sua ambigüidade e reprodutibilidade garantem a possibilidade de uso, ao mesmo tempo que certo uso produz a elucidação que o justifica. Um vínculo necessário, a priori, entre coisa e palavra exigiria elucidações sucessivas por meio de outras palavras, ou coisas, ou coisas e palavras, em uma cadeia sem fim. E não serve aqui evocar um misterioso processo de semiose infinita inerente à linguagem que impediria, pela 'différance' [3], em qualquer caso, a presença: "Não diga 'Não há nenhuma 'última' elucidação'. É exatamente o mesmo que dizer: 'Não há nenhuma última casa nesta rua; pode-se sempre construir mais uma'". [Wittgenstein:21:parágrafo 29]. Assim como não cabe considerar como différance um processo mimético, por assim dizer, de representação como resultado de uma cadeia ilimitada de auto-referências sucessivas, como nas remissões circulares elucidativas do tipo: 'referência: ver referência', ou 'recursão: ver recursão', etc. A recursividade, aqui, antes de diferir-diferençar (différance), apresenta a coisa referida [4].

É da pluralidade das representações possíveis, de sua articulação e contraste, e não de alternativas de percurso definidas de antemão, que pode surgir o espessamento necessário ao pensamento, à tomada de decisão e à evocação do estado de coisas representado.

Aqui ocorre também uma confusão entre a organização de um sistema de remissivas e as remissões efetivamente realizadas durante uma busca ou leitura, entre uma organização hierárquica do sistema (um hipertexto pode ser descrito como intersecção de múltiplas hierarquias) e uma busca não hierarquizada; ou, ao contrário, entre uma busca hierarquizada e uma malha não hierárquica subjacente. Todo agrupamento pode ser em princípio hierarquizado em abstrações sucessivas, assim como sofrer múltiplos processos de hierarquização que garantam a transversalidade necessária à busca ou localização eficientes. Nem mesmo esta pseudo pluridimensionalidade da representação hipertextual está na máquina suporte que a implementa. É o uso especial do mecanismo que determina a organização da representação, do que se diz e do que se vê. Tratando-se de máquinas universais digitais, uma máquina possuindo memória de acesso exclusivamente seqüencial pode simular outra com memória de acesso aleatório, e vice-versa.

Fala e escrita, quando compreendidas não como meros reflexos das coisas, mas sim como movimentos constituintes da representação, nada têm de 'linear'. Aliás, a surpreendente sobrevida do representacionalismo também deve ser fruto desta época ainda de incertezas, isto é, de incerteza de mercados, com tantos consumidores hesitantes e tecnofóbicos. Condescendência, preguiça de estudar e cobiça: para melhor, não fale, não pense, não escreva, apenas clique, clique, clique - até o botão OK de 'efetuada a sua compra'. Ler, talvez, os anúncios e as licenças de uso, isto ainda pode ser necessário neste admirável mundo hipertextual, o que se há de fazer.

Em uma tesoura real, por exemplo, convergem signo e objeto: a convergência é a prova da presença da coisa e, portanto, de sua existência. A reprodução indica, em primeiro lugar, a ausência da coisa e, conseqüentemente, a incerteza quanto à sua existência.

O ícone e a imagem são, no máximo, promessas, do ponto de vista do que referenciam para além deles mesmos, enquanto que o signo que converge em sua referência é produto da certeza. A representação da paisagem nos prova que não a vivemos a não ser como ausência "nos seus mínimos detalhes".

"A nova ideologia tem por objeto o mundo enquanto tal. Ela recorre ao culto do fato, limitando-se a elevar - graças a uma representação tão precisa quanto possível - a existência ruim ao reino dos fatos. Esta transferência converte a própria existência num sucedâneo do sentido e do direito. Belo é tudo que a câmara reproduza. À decepção da esperança de ganhar a viagem em torno do mundo corresponde a exatidão as regiões que se atravessariam durante a viagem. O que se oferece não é a Itália, mas a prova visível de sua existência." [Adorno:138-139]

Temos aqui a prova visível de uma carência, especificação e eclipse da representação inteligível, pois no ícone e na paisagem o objeto não se explica, antes se oculta. Pois, segundo o visado, cada fenômeno tem diversas representações possíveis e, pelo menos algumas delas, irredutíveis entre si.

Yves Lacoste contrapõe a carta geográfica à paisagem: "A carta, representação formalizada do espaço, que somente alguns sabem interpretar e sabem utilizar como instrumento de poder, é largamente eclipsada no espírito de todos pela fotografia da paisagem" [Lacoste:34]

A 'orientação a objetos', filosofia não apenas de projeto, é, pois, produto daquela ideologia que diz "visar o mundo enquanto tal". Isto é, o mundo, "tal" qual como é cobiçado pelos entusiastas da orientação a objetos. Mesmo tendo em mente uma tecnologia da transparência, visar verdadeiramente o mundo "enquanto tal" implicaria expor, e não omitir, o funcionamento de seus dispositivos, artefatos daquele mundo.

A aparência que se adapta mais facilmente ao estado-da-arte torna-se a única realidade: não é necessário explicar, apenas representar; coerência é coisa do passado. "Belo é tudo o que a câmara reproduza". Quando o procedimento automático assume a garantia até mesmo da neutralidade democrática, a legitimação pelo procedimento torna 'real' o falso digitalizado, e 'falso' - ou, por não-verificável, 'inadequado' - o real não-cibernético.

"Procedimento deve aqui ser entendido como um sistema social de forma específica, portanto como uma solidariedade de sentido da ação fática; e a legitimação deve ser entendida como a tomada de decisões obrigatórias dentro da própria estrutura de decisões." [Luhmann:7]

A 'área de trabalho' precisa conter tudo aquilo que potencialmente poderíamos necessitar para a nossa comunicação por cliques. Interface 'intuitiva, natural e universal', executada em máquinas velozes, bastante memória, banda-larga, uma bagatela, com poucos inconvenientes, às vezes congela ou desliga sozinha e costuma levar uns tantos minutos para ser carregada. Nos bastam uns poucos milhares de objetos manipuladores de funcionalidades guardados em pastas. Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar, unum nomen, unum nominatum. Jonathan Swift, nas Viagens de Gulliver (1726), já ridicularizava a procura de uma linguagem 'imediata' universal por objetos, a busca de uma característica universal, de uma linguagem 'sem ambigüidade' das coisas [5]:

"Depois fomos à escola de idiomas, onde três professores encontravam-se empenhados em conseguir métodos para melhorar a comunicação em seu país [Palo Alto].
O primeiro projeto era para diminuir as falas reduzindo os polissílabos a uma única sílaba e eliminando os verbos e particípios, porque na realidade tudo o que importa, mesmo, são os nomes. [linques e cliques - maior proximidade com chipanzés e gorilas]
O outro era um esquema para abolir completamente todas as palavras, o que era considerado uma grande vantagem do ponto de vista da saúde e da brevidade [figuras são muito mais  intuitivas]. Pois, é sabido, cada palavra que falamos provoca em algum nível a diminuição de nossos pulmões por corrosão e, conseqüentemente, contribui para o encurtamento de nossas vidas. Um expediente era, portanto, oferecido com base no fato de que, já que as palavras são apenas o nome de COISAS, seria mais conveniente para todos os homens mostrarem [clicarem] as tais coisas [ícones convenientes e intuitivos] quando precisassem argumentar para expor algum negócio especial que quisessem efetuar. Esta invenção já estaria sendo utilizada, para a grande facilidade e também para preservar a saúde das pessoas, se as mulheres em conjunção com os vulgares e iletrados [excluídos digitais] não tivessem ameaçado realizar uma rebelião, a menos que lhes fosse dada a liberdade de falar com as suas línguas, da mesma maneira que seus antepassados faziam. As pessoas comuns são inimigas constantes e irreconciliáveis da ciência [tecnofóbicas]. No entanto, muitos dos mais sábios [online] já haviam aderido ao novo esquema de expressão por meio das coisas, que tinha apenas esta inconveniência: se os negócios de um homem fossem muito vastos e de vários tipos, ele teria que carregar uma grande quantidade de coisas nas costas, em proporção, a menos que pudesse pagar um ou dois servos [powerful servers] fortes para ajudá-lo.
Cheguei a ver dois desses adeptos quase esmagados sob o peso de sua carga [dos sistemas operacionais] e eles me lembraram os mascates entre nós, que quando se encontram na rua colocam suas cargas no chão, abrem os sacos, conversam por uma hora, depois guardam seus implementos, ajudam um ao outro a reerguer a carga, e partem.
Mas, para conversas curtas [mensagens eletrônicas, conversações fragmentadas], um homem pode carregar implementos nos bolsos e sob os braços [em palms, pen-drives, ipods], em quantidade suficiente para se abastecer; em casa ele não irá achar falta de nada; a sala [de chat] onde negociantes se reúnem para praticar essa arte já estará cheia de todas as COISAS [em computadores em rede, sistemas operacionais, aplicativos, etc.], bem à mão, necessárias para que se possa levar adiante este tipo de conversa.
Outra grande vantagem oferecida por esta invenção é que serviria como idioma universal [como os propostos por Francis Lodwick ou John Wilkins, ou pelos novos entusiastas das hipermídias], uma vez que poderia ser entendida por qualquer nação civilizada, cujos produtos e utensílios [ícones, gestos, ritmos e movimentos padronizados] são geralmente do mesmo tipo, ou parecidos, de forma que seus usos podem ser facilmente compreendidos. E assim, embaixadores [vendedores] estariam qualificados para tratar com príncipes ou ministros de Estados estrangeiros cujas línguas não conhecessem." (Versão inglesa em [6])
[Swift(1):223-224 - comentários e acréscimos meus, entre colchetes]

No mundo real, tesouras, lápis, utensílios e instrumentos (dedicados a certas tarefas específicas) possuem certamente suas interfaces, mas normalmente irredutíveis entre si. Perceber e reconhecer um objeto não se limita a perceber e reconhecer passivamente certa fisionomia representada. É a interação dirigida, ativa, com o objeto que nos fornece uma consistência dinâmica (e não apenas cinemática) de sua aparência e lhe confere (ou nega) realidade.

Os objetos comuns são, em geral, tão caracteristicamente diferentes entre si,em sua "aparência dinâmica" e "modos de acesso", que uma confusão ente eles indicaria sérios problemas neurológicos, antes que uma mera "incompreensão" ou "falta de treinamento adequado". "O homem que confundiu a sua mulher com um chapéu" [Sacks:22-37] representa um caso clínico grave e não um problema menor superável por treinamento adequado.

Com representações 'agostinianas'- ícones e rótulos - associadas a funções de máquina não se pode ter tanta certeza disso. A rigidez do acesso antes que facilitar a compreensão atesta a nossa indigência: isto é aquilo apenas se a máquina deixar. Em nome da transparência, inacessíveis ao nosso entendimento a não ser pelo protocolo do dispositivo, os objetos perdem a sua materialidade, sua identidade e sua autonomia. E à frustração de nossas expectativas segue-se a exigência de "habilidade com os controles", de submissão à lógica imposta pela interface, que nos vê como deficientes incapazes de integrar certos aspectos fundamentais de nossas experiências. Nós, nossa linguagem, os maleáveis devemos nos adaptar [7].

Será que a aleatoriedade do acesso aos dados armazenados em mídia digital confere aos computadores o estatuto de máquinas adequadas àquela representação pluridimensional, dispositivos, portanto, mais capazes de exprimir uma cultura global e fragmentária através de uma "coisa à qual somente nós, hoje, podemos dar um nome (...): um 'hipertexto'"?

Em primeiro lugar, sabemos que a multiplicidade das versões possíveis de um mesmo texto, e nem mesmo as remissivas dos hipertextos, nada disso é originário ou privativo das representações em mídia digital.

Em segundo lugar, como vimos, considerar que "a expressão natural é horizontal, enquanto que os hipertextos remetem verticalmente para inúmeros outros textos" atesta apenas um desconhecimento da complexidade da linguagem. Seria difícil negar que as redes de que os interlocutores de uma conversação ordinária fazem uso são bastante mais complicadas (e se tal comparação faz sentido) do que as redículas dos hipertextos. Se a velocidade de execução torna certos - e especialíssimos - expedientes mais adequados para a máquina, isto não pode ser estendido a todos, nem exclusivamente. Finalmente, mesmo se julgássemos uma rede de hipertexto algo "mais completo" do que o conjunto dos seus constituintes (pelo menos aqueles vistos como "lineares"), ainda assim a comparação apareceria deslocada, no sentido da objeção de Wittgenstein ao absurdo de se considerar uma vassoura mais complexa do que o seu cabo.

Ouvir, ler, falar e escrever constituem seu sentido no mundo e com o mundo; e não se isolando dos contextos atrás de um protocolo de comunicação orientado a objeto. A alegada controlabilidade das chamadas 'realidades virtuais' se deve mais à indigência daqueles ambientes do que a um suposto poder superior de representação. Se a experiência é incomparavelmente mais rica e 'pluridimensional' do que qualquer de suas janelas de representação, do que qualquer discurso, o que dizer de uma estrutura rudimentar como os hipertextos que circulam na mídia eletrônica digital.
 
 

Notas

[*] Este artigo desenvolve alguns dos pontos de vista originalmente apresentados em Elementos para uma avaliação crítica das interfaces homem-computador (1993), em particular no capítulo "Indigência da Interface".

[1] Ver, apenas como exemplo, The Struggle of Writing against the Limitations of Print Culture - Thesis for BA (Hons) Graphic Design, Coventry University, England by James Tarling, Spring 1995. [ http://www.acmi.net.au/AIC/TARLING.html ]

[2] As Investigações Filosóficas de Wittgenstein começam com a seguinte passagem:
"1. Santo Agostinho, nas Confissões [397 AD], I/8:
'Se os adultos nomeassem algum objeto e, ao fazê-lo, se voltassem para ele, eu percebia isso e compreendia que o objeto fora designado pelos sons que eles pronunciavam, pois eles queriam indicá-lo. Mas deduzi isto dos seus gestos, a linguagem natural de todos os povos, e da linguagem que, por meio da mímica e dos jogos com os olhos, por meio dos movimentos dos membros e do som da voz, indica as sensações da alma, quando esta deseja algo, ou se detém, ou recusa ou foge. Assim, aprendi pouco a pouco a compreender quais coisas eram designadas pelas palavras que eu ouvia pronunciar repetidamente nos seus lugares determinados em frases diferentes. E quando habituara minha boca a esses signos, dava expressão aos meus desejos.'" [Wittgenstein:9]
Hans-Johann Glock comenta:
"(...) Wittgenstein considerava a visão agostiniana não como uma teoria completa da linguagem, mas antes como um paradigma prototeórico ou 'visão', que merece atenção crítica pelo fato de estar tacitamente subjacente a teorias filosóficas sofisticadas. As idéias que o primeiro parágrafo das Investigações Filosóficas extrai dessa passagem [já citada das Confissões de Santo Agostinho] são as seguintes:
a) cada palavra possui 'um significado';
b) todas as palavras são nomes, isto é, são sucedâneos de objetos;
c) o significado de uma palavra é o objeto do qual é um sucedâneo;
d) a conexão entre as palavras (nomes) e seus significados (referentes) se estabelece por uma definição ostensiva, que determina uma associação mental entre palavra e objeto;
e) as sentenças são combinações de nomes;
Duas conseqüências são em seguida explicitadas:
f) a única função da linguagem é representar a realidade: as palavras referem; as sentenças descrevem (Investigações Filosóficas - parágrafos 21-7);
g) a criança só é capaz de estabelecer a associação entre uma palavra e um objeto por meio do pensamento, o que significa que deve possuir de antemão uma linguagem privada, para que possa aprender a pública (Investigações Filosóficas - parágrafo 32).
A visão agostiniana compreende, portanto, quatro posições: uma concepção referencial do significado das palavras, uma concepção descritivista das sentenças, a idéia de que a definição ostensiva fornece os fundamentos da linguagem e a idéia de que uma linguagem do pensamento subjaz às nossas linguagens públicas." [Glock:370]

[3] Ver, por exemplo, a seção 'Derridean deconstruction and the documentary' em [Casebier:147-154]

[4] Também a análise de Allan Casebier da suposta desconstrução proposta pelo 'documentário' sobre o Japão, Sans Soleil, de Chris Marker (França, 1983), mostra que a obra não pode deixar de apresentar o seu referente, a saber, tanto os objetos percebidos como o processo dito desconstrutivo, mas que só pode ser entendido como tal no marco de uma visão idealista/nominalista do discurso fílmico. "Parece que autor e crítica estão desconstruindo somente em virtude do vínculo e da aceitação sem questionamento da estrutura idealista/nominalista subjacente [It only seems that filmmaker and critic are deconstructing because of the atttachment and unquestioning acceptance of the idealist/nominalist framework]" [Casebier:153]. A abertura enunciativa não implica uma impossibilidade de elucidação do referente. Isto porque embora "ao final de 'Sans Soleil' a narradora pergunte dolorosamente 'Haverá uma última carta?', levantando a questão totalizante: é essencial ao logocentrismo, segundo Derrida, que exista um potencial totalizante para a experiência que possa ser contrariado pela suplementaridade. A enunciação está sempre em aberto: não pode chegar jamais a um final; fechamento e unidade são meras aparências impostas a nós pelo logocentrismo [at the end of Sans Soleil, the woman narrator asks poignantly , 'Will there be a last letter?', raising the issue of totalizing: It is basic to logocentrism, according to Derrida, that a totalizing potential to experience exists that may be countered by supplementarity. Enunciation is always open: It can never come to a unified ending; closure and unity are mere pretenses foisted on us by logocentrism]" [Casebier:152], isto é, apesar da abertura enunciativa, "a percepção de um filme é sempre intencional, o que envolve alcançar objetos com existência independente (...) os espectadores (...) tanto apreendem alguns aspectos da cultura japonesa como estão sujeitos à atividade desconstrutiva subversiva encenada por Marker [perception of a film is always intentional, involving a reaching out to independently existing objects (...) spectators (...) apprehend both some aspects of Japanese culture and are subject to the subversive deconstructive activity that Marker has enacted]."

[5] Como os projetos seiscentistas de John Wilkins, George Dalgarno e Francis Lodwick. Ver, a respeito, as obras citadas de Umberto Eco e de Paolo Rossi.

[6] "We next went to the School of Languages, where three Professors sate in Consultation upon improving that of their own country.
The first Project was to shorten Discourse by cutting Polysyllables into one, and leaving out Verbs and Participles, because in reality all things imaginable are but Nouns.
 The other, was a Scheme for entirely abolishing all Words whatsoever; and this was urged as a great Advantage in Point of Health as well as Brevity. For it is plain, that every Word we speak is in some Degree a Diminution of our Lungs by Corrosion, and consequently contributes to the shortning of our Lives. An Expedient was therefore offered, that since Words are only Names for Things, it would be more convenient for all Men to carry about them, such Things as were necessary to express the particular Business they are to discourse on. And this Invention would certainly have taken Place, to the great Ease as well as Health of the Subject, if the Women in conjunction with the Vulgar and Illiterate had not threatned to raise a Rebellion, unless they might be allowed the Liberty to speak with their Tongues, after the manner of their Ancestors; such constant irreconcilable Enemies to Science are the common People. However, many of the most Learned and Wise adhere to the New Scheme of expressing themselves by Things, which hath only this Inconvenience attending it, that if a Man's Business be very great, and of various kinds, he must be obliged in Proportion to carry a greater bundle of Things upon his Back, unless he can afford one or two strong Servants to attend him. I have often beheld two of those Sages almost sinking under the Weight of their Packs, like Pedlars among us; who, when they met in the Streets, would lay down their Loads, open their Sacks, and hold Conversation for an Hour together; then put up their Implements, help each other to resume their Burthens, and take their Leave.
 But for short Conversations a Man may carry Implements in his Pockets and under his Arms, enough to supply him, and in his House he cannot be at a loss: Therefore the Room where Company meet who practise this Art, is full of all Things ready at Hand, requisite to furnish Matter for this kind of artificial Converse.
 Another great Advantage proposed by this Invention, was that it would serve as a Universal Language to be understood in all civilized Nations, whose Goods and Utensils are generally of the same kind, or nearly resembling, so that their Uses might easily be comprehended. And thus Embassadors would be qualified to treat with foreign Princes or Ministers of State to whose Tongues they were utter Strangers." [Swift (2)]

[7] Observações desse tipo já são mais comuns e não devem causar qualquer espanto: encontramos, por exemplo, em um livro relativamente recente (Windows and Mirrors, 2003) de David Bolter: "O perigo da transparência é que a interface vai mascarar a operação do sistema justamente quando o usuário precisa ver e entender o que o sistema está fazendo." [Bolter:55], ou então, "O mito da interface natural: 'Antes de que existissem os computadores - de fato, antes de que existisse qualquer tecnologia - as pessoas já estavam no mundo. Experimentavam o mundo natural em três dimensões e se moviam com seis graus de liberdade. Podiam tocar e manipular as coisas diretamente; não existiam nem teclado nem mouse. Uma boa interface digital nos leva tão perto quanto possível daquele estado natural, nos permitindo interagir pelo movimento e pela manipulação direta'. Este mito, que tanto simplifica como exagera, está subjacente ao esforço para substituir a Interface Gráfica do Usuário (GUI)" [Bolter:50]

Ainda quanto à transparência, ver também o livro Film and Phenomenology, de Allan Casebier, para uma crítica à noção de diegesis e ao desconstrutivismo de Jacques Derrida. Quanto ao conceito de hipertexto na análise do discurso, ver, por exemplo, Os Termos Chaves da Análise do Discurso, de Dominique Maingueneau - verbete Intertextualidade. A análise textual (por exemplo, Gérard Genette) trata o conceito de hipertexto de um modo diferente: contraposto a hipotexto, faz parte, como este, da intertextualidade, presente em qualquer texto, de qualquer época. Há inúmeras outras possibilidades, como uso literário de hipertextos simulados, defectivos, por assim dizer; que 'remetem' para conteúdos (livros e documentos) imaginários, como ocorre em tantos escritos de Jorge Luis Borges, hipertextos de hipotextos inexistentes, ou 'desaparecidos'. Muitas outras acepções de hipertexto e hipotexto podem ser mencionadas, como por exemplo, no âmbito de um software (DocXpert) de consulta a bases de dados documentais: "Hipertexto: consiste en la posibilidad de que simplemente seleccionando cualquier palabra dentro de un texto, se pueda acceder a todas las apariciones de la misma en la obra" e "Hipotexto: es un hipertexto pero con referencia a un subconjunto de la obra, previamente seleccionado. El hipotexto está íntimamente relacionado con los árboles jerárquicos." [ http://www.ars-nova.net/DatosTecnicos.htm ]
 

Referências Bibliográficas
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[Casebier], Allan. Film and Phenomenology. Cambrige University Press, Cambrige, UK: 1991

[Eco], Umberto. A Busca da Língua Perfeita, Edusc, Bauru, SP, 2001 (Orig. 1993)

[Glock], Hans-Johann, Dicionário de Wittgenstein. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro: 1998 (Orig. 1996)].

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[Luhmann], Niklas. Legitimação pelo procedimento. EdUnB, Brasília:1980.

[Maingueneau], Dominique. Os Termos-Chave da Análise do Discurso. Gradiva, Lisboa:1997.

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[Sacks], Oliver. O homem que confundiu a sua mulher com um chapéu. Companhia das Letras, São Paulo:1997. (Orig. 1985)

[Shneiderman], Ben. O Laptop de Leonardo. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006. (Orig. 2002)

[Swift (1)], Jonathan. As Viagens de Gulliver. Tradução e notas de Therezinha Monteiro Deutsch, Editora Nova Cultural, São Paulo, 2003. [Parte Três - Uma viagem a Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e Japão - Capítulo V]

[Swift (2)], Jonathan. Gulliver Travels. Part III: A Voyage to Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib and Japan. Chapter V.
http://www.jaffebros.com/lee/gulliver/bk3/chap3-5.html

[Wittgenstein], Ludwig. Investigações Filosóficas - Primeira Parte. Coleção Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1979. (Orig. 1945)
 


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Luiz Carlos Brito Paternostro
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Dr. [Ciência da Informação], UFRJ/ECO, IBICT/CNPq, 1998
Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
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Rio de Janeiro, RJ, Brasil