Resumo: Expressando uma das visões do nosso
tempo, há quem considere a assim chamada 'hipermídia' eletrônica
digital como portadora privilegiada de uma 'pluridimensionalidade' essencial
e libertadora do pensamento e do procedimento 'lineares', supostamente
característicos da fala e da escrita, em particular do impresso.
Mas um sistema de referências fixas e ostensivas não constitui,
nem pode constituir, uma 'linguagem'. É somente neste âmbito
representacionalista que poderiam reivindicar algum sentido as afirmações
sobre a 'pluridimensionalidade' dos hipertextos e a suposta 'linearidade'
da linguagem 'natural'.
Palavras-chave: Hipertexto; Hipermídia;
Referência; Referencialismo; Linguagem universal; Pluridimensionalidade.
Abstract: Expressing a view of our time, there
is who considers the so called digital electronic 'hypermedia' as a privileged
support for and capable of freeing its essential pluridimensionality from
'lineal' thought and procedures, supposed characteristic of printing, writing
and speaking. Nevertheless, no fix and ostensible reference system can
ever raise a language. Hardly outside strict representationalism could
such claims about hypertext pluridimensionality and an alledged 'linearity'
of natural language make any sense.
Key words: Hypertext; Hypermedia; Reference; Referentialism;
Universal language; Pluridimensionality.
Expressando uma das visões do nosso tempo, há quem considere a assim chamada 'hipermídia' eletrônica digital como portadora privilegiada de uma 'pluridimensionalidade' essencial e libertadora do pensamento e do procedimento 'lineares', supostamente característicos da fala e da escrita, em particular do impresso.[1]
Mas um sistema de referências fixas e ostensivas não constitui, nem pode constituir, uma 'linguagem'. Nas interfaces gráficas, botões, ícones, figuras, imagens e rótulos, ou números e palavras índices, disponíveis para seleção e ativação pelo usuário, funcionam como remissivas explícitas e unívocas para outros textos e representações. São 'apontadores' - unum nomen, unum nominatum - para o que referenciam. Implementam, no máximo, se insistíssemos em considerá-los 'linguagem', uma concepção 'agostiniana', isto é, referencial do significado das palavras [2]. Nos hipertextos, os rótulos gráficos ou textuais dos 'links' funcionam como sucedâneos de algo, isto é, 'significam' algo para o qual remetem univocamente. Na linguagem agostiniana, as sentenças são vistas como combinações de nomes que produzem descrições, assim como as subrotinas que combinam comandos produzem funcionalidades. É somente neste âmbito representacionalista que poderiam reivindicar algum sentido as afirmações sobre a 'pluridimensionalidade' dos hipertextos e a suposta 'linearidade' da linguagem 'natural'.
Alguns, como Umberto Eco, que mesmo reconhecendo a novidade específica das tecnologias digitais possui bastante conhecimento lingüístico para evitar armadilhas desse tipo, parecem entender os hipertextos como uma tentativa de organização do conhecimento, comparável ao sistema descrito no "Essay toward a real character, and a philosophical language" de John Wilkins, antes do que uma linguagem de fato, apesar do título e das intenções da obra.
Umberto Eco associa o hipertexto a "uma organização flexível e múltipla do saber", da qual Wilkins talvez fosse um pioneiro ou visionário, organização esta que "se acabaria impondo no século seguinte e nos séculos futuros". Algo tão novo que não poderia nem ter um nome na época de Wilkins (1650). " (...) parece quase que Wilkins aspirava de maneira obscura a alguma coisa à qual somente nós, hoje, podemos dar um nome: talvez quisesse constuir um hipertexto."
Eco se abstém de falar de 'língua', fala de 'modalidades': "Um hipertexto é um programa computadorizado que liga cada junção ou elemento do próprio repertório, por meio de uma multiplicidade de remessas internas, isto é, para outras junções múltiplas. (...) se fosse esse o seu projeto, não poderíamos mais falar de língua perfeita, mas de modalidades em que se pudesse articular sob múltiplos perfis aquilo que as línguas naturais nos possibilitam dizer." [Eco:312]
São reconsiderados ali supostos 'defeitos' da lógica de Wilkins, apontados por Joseph-Marie Degérando, em Des signes (1800). Algumas das descrições das subdivisões do sistema utilizam - o que é uma inconsistência, para Degérando - os mesmos termos em contextos diferentes e
"conforme, portanto, a lógica de Wilkins, seria possível admitir que aquilo que é [classificado como] vegetativo , com base [em um esquema] (...) é necessariamente criatura animada, mas com base [em outro esquema] (...) é necessariamente tanto um elemento do mundo espiritual quanto do mundo terrestre corpóreo. (...) não estamos diante de uma organização do universo em que cada entidade é definida de forma inequívoca pelo lugar que ocupa na árvore geral das coisas: ao contrário, as subdivisões são como os capítulos de uma grande enciclopédia capaz de reconsiderar as mesmas coisas a partir de diferentes pontos de vista". [Eco:311 ; grifos meus]
Umberto Eco aponta para um suposto "vínculo transversal entre junções distantes da mesma pseudodicotomia", querendo evidentemente justificar a possibilidade de que tal afinidade tem algo a ver com a organização de uma rede (i.e., não hierárquica) e, ao fim e ao cabo, com os hipertextos. Mas, em seguida, comparando duas acepções diferentes da entidade 'defesa' segundo considerada como oposição a 'deserção' (na tábua de Relações Econômicas) ou a 'ofensa' (na tábua de Relações Militares) o mesmo Eco reconhece que
"é verdade que [a primeira] (...) seria designada com 'COCO' [em real character 'CO' = Oeconomical Relation; 'C' = sexta diferença: DEEDS (isto é AÇÕES); 'O' = quinta espécie: DEFENSE], ao passo que [a segunda] (...) com 'SIBa ' [em real character 'SI' = Military Relation; 'B' = primeira diferença: ACTION (isto é AÇÃO); 'a ' = primeira espécie: DEFENSE], portanto dois caracteres diferentes indicam duas coisas diferentes" [Eco:311; grifos e comentários entre colchetes meus],
o que garante a hierarquia do sistema e torna improvável, a meu ver, mesmo a fraca 'indeterminação polissêmica' da hipótese anteriormente levantada. Aqui também, unum nomen, unum nominatum.
É interessante que, em nome da universalização da pluridimensionalidade - e também da assim chamada 'inclusão digital' - , se consolide e se busque justificar o enorme esforço de uniformização de procedimentos e aparências - gestos, ritmos e convenções - das interfaces homem-máquina e, ao fim e ao cabo, de quaisquer comunicações mediadas por aqueles dispositivos. Por exemplo, "À medida que os designs universalmente utilizáveis se expandirem, a comunidade em expansão do usuário acabará com as fronteiras digitais". [Shneiderman:262]
Mas, ao se uniformizarem radicalmente os acessos possíveis às representações e às funcionalidades dos objetos, deve-se justamente perder - se é que ela existiu alguma vez - a anunciada riqueza: onde está, ou o que se tornou a pluridimensionalidade daquela mediação?
Outra vez, é como se as novas tecnologias se universalizassem juntamente com um modelo de linguagem artificial 'agostiniana', tendo em vista suprir uma suposta insuficiência expressiva da linguagem natural. Imposição operacionalizada pela especificação e controle minuciosos dos caminhos, pelo esvaziamento dos contextos possíveis, pela domesticação - incluindo a desconstrutiva - do tácito, visto como efeito colateral indesejável para um sistema que necessita privilegiar o ostensivo.
As coisas e os acontecimentos não coincidem nem se vinculam univocamente com as suas representações possíveis. Nem mesmo os códigos de máquina, que em um 'contexto' adequado realizam tarefas concretas, coincidem com a sua atualização. Ferramentas (como coisas que são) reais diferem de quaisquer representações de que possam ser objeto. Por outro lado, imagens e palavras, signos necessariamente ambíguos e infinitamente reprodutíveis, devem seu sentido, sua inteligibilidade àquilo que referenciam, nas circunstâncias em que referenciam. Sua ambigüidade e reprodutibilidade garantem a possibilidade de uso, ao mesmo tempo que certo uso produz a elucidação que o justifica. Um vínculo necessário, a priori, entre coisa e palavra exigiria elucidações sucessivas por meio de outras palavras, ou coisas, ou coisas e palavras, em uma cadeia sem fim. E não serve aqui evocar um misterioso processo de semiose infinita inerente à linguagem que impediria, pela 'différance' [3], em qualquer caso, a presença: "Não diga 'Não há nenhuma 'última' elucidação'. É exatamente o mesmo que dizer: 'Não há nenhuma última casa nesta rua; pode-se sempre construir mais uma'". [Wittgenstein:21:parágrafo 29]. Assim como não cabe considerar como différance um processo mimético, por assim dizer, de representação como resultado de uma cadeia ilimitada de auto-referências sucessivas, como nas remissões circulares elucidativas do tipo: 'referência: ver referência', ou 'recursão: ver recursão', etc. A recursividade, aqui, antes de diferir-diferençar (différance), apresenta a coisa referida [4].
É da pluralidade das representações possíveis, de sua articulação e contraste, e não de alternativas de percurso definidas de antemão, que pode surgir o espessamento necessário ao pensamento, à tomada de decisão e à evocação do estado de coisas representado.
Aqui ocorre também uma confusão entre a organização de um sistema de remissivas e as remissões efetivamente realizadas durante uma busca ou leitura, entre uma organização hierárquica do sistema (um hipertexto pode ser descrito como intersecção de múltiplas hierarquias) e uma busca não hierarquizada; ou, ao contrário, entre uma busca hierarquizada e uma malha não hierárquica subjacente. Todo agrupamento pode ser em princípio hierarquizado em abstrações sucessivas, assim como sofrer múltiplos processos de hierarquização que garantam a transversalidade necessária à busca ou localização eficientes. Nem mesmo esta pseudo pluridimensionalidade da representação hipertextual está na máquina suporte que a implementa. É o uso especial do mecanismo que determina a organização da representação, do que se diz e do que se vê. Tratando-se de máquinas universais digitais, uma máquina possuindo memória de acesso exclusivamente seqüencial pode simular outra com memória de acesso aleatório, e vice-versa.
Fala e escrita, quando compreendidas não como meros reflexos das coisas, mas sim como movimentos constituintes da representação, nada têm de 'linear'. Aliás, a surpreendente sobrevida do representacionalismo também deve ser fruto desta época ainda de incertezas, isto é, de incerteza de mercados, com tantos consumidores hesitantes e tecnofóbicos. Condescendência, preguiça de estudar e cobiça: para melhor, não fale, não pense, não escreva, apenas clique, clique, clique - até o botão OK de 'efetuada a sua compra'. Ler, talvez, os anúncios e as licenças de uso, isto ainda pode ser necessário neste admirável mundo hipertextual, o que se há de fazer.
Em uma tesoura real, por exemplo, convergem signo e objeto: a convergência é a prova da presença da coisa e, portanto, de sua existência. A reprodução indica, em primeiro lugar, a ausência da coisa e, conseqüentemente, a incerteza quanto à sua existência.
O ícone e a imagem são, no máximo, promessas, do ponto de vista do que referenciam para além deles mesmos, enquanto que o signo que converge em sua referência é produto da certeza. A representação da paisagem nos prova que não a vivemos a não ser como ausência "nos seus mínimos detalhes".
"A nova ideologia tem por objeto o mundo enquanto tal. Ela recorre ao culto do fato, limitando-se a elevar - graças a uma representação tão precisa quanto possível - a existência ruim ao reino dos fatos. Esta transferência converte a própria existência num sucedâneo do sentido e do direito. Belo é tudo que a câmara reproduza. À decepção da esperança de ganhar a viagem em torno do mundo corresponde a exatidão as regiões que se atravessariam durante a viagem. O que se oferece não é a Itália, mas a prova visível de sua existência." [Adorno:138-139]
Temos aqui a prova visível de uma carência, especificação e eclipse da representação inteligível, pois no ícone e na paisagem o objeto não se explica, antes se oculta. Pois, segundo o visado, cada fenômeno tem diversas representações possíveis e, pelo menos algumas delas, irredutíveis entre si.
Yves Lacoste contrapõe a carta geográfica à paisagem: "A carta, representação formalizada do espaço, que somente alguns sabem interpretar e sabem utilizar como instrumento de poder, é largamente eclipsada no espírito de todos pela fotografia da paisagem" [Lacoste:34]
A 'orientação a objetos', filosofia não apenas de projeto, é, pois, produto daquela ideologia que diz "visar o mundo enquanto tal". Isto é, o mundo, "tal" qual como é cobiçado pelos entusiastas da orientação a objetos. Mesmo tendo em mente uma tecnologia da transparência, visar verdadeiramente o mundo "enquanto tal" implicaria expor, e não omitir, o funcionamento de seus dispositivos, artefatos daquele mundo.
A aparência que se adapta mais facilmente ao estado-da-arte torna-se a única realidade: não é necessário explicar, apenas representar; coerência é coisa do passado. "Belo é tudo o que a câmara reproduza". Quando o procedimento automático assume a garantia até mesmo da neutralidade democrática, a legitimação pelo procedimento torna 'real' o falso digitalizado, e 'falso' - ou, por não-verificável, 'inadequado' - o real não-cibernético.
"Procedimento deve aqui ser entendido como um sistema social de forma específica, portanto como uma solidariedade de sentido da ação fática; e a legitimação deve ser entendida como a tomada de decisões obrigatórias dentro da própria estrutura de decisões." [Luhmann:7]
A 'área de trabalho' precisa conter tudo aquilo que potencialmente poderíamos necessitar para a nossa comunicação por cliques. Interface 'intuitiva, natural e universal', executada em máquinas velozes, bastante memória, banda-larga, uma bagatela, com poucos inconvenientes, às vezes congela ou desliga sozinha e costuma levar uns tantos minutos para ser carregada. Nos bastam uns poucos milhares de objetos manipuladores de funcionalidades guardados em pastas. Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar, unum nomen, unum nominatum. Jonathan Swift, nas Viagens de Gulliver (1726), já ridicularizava a procura de uma linguagem 'imediata' universal por objetos, a busca de uma característica universal, de uma linguagem 'sem ambigüidade' das coisas [5]:
"Depois fomos à escola de idiomas, onde três professores
encontravam-se empenhados em conseguir métodos para melhorar a comunicação
em seu país [Palo Alto].
O primeiro projeto era para diminuir as falas reduzindo os polissílabos
a uma única sílaba e eliminando os verbos e particípios,
porque na realidade tudo o que importa, mesmo, são os nomes. [linques
e cliques - maior proximidade com chipanzés e gorilas]
O outro era um esquema para abolir completamente todas as palavras,
o que era considerado uma grande vantagem do ponto de vista da saúde
e da brevidade [figuras são muito mais intuitivas]. Pois,
é sabido, cada palavra que falamos provoca em algum nível
a diminuição de nossos pulmões por corrosão
e, conseqüentemente, contribui para o encurtamento de nossas vidas.
Um expediente era, portanto, oferecido com base no fato de que, já
que as palavras são apenas o nome de COISAS, seria mais conveniente
para todos os homens mostrarem [clicarem] as tais coisas [ícones
convenientes e intuitivos] quando precisassem argumentar para expor algum
negócio especial que quisessem efetuar. Esta invenção
já estaria sendo utilizada, para a grande facilidade e também
para preservar a saúde das pessoas, se as mulheres em conjunção
com os vulgares e iletrados [excluídos digitais] não tivessem
ameaçado realizar uma rebelião, a menos que lhes fosse dada
a liberdade de falar com as suas línguas, da mesma maneira que seus
antepassados faziam. As pessoas comuns são inimigas constantes e
irreconciliáveis da ciência [tecnofóbicas]. No entanto,
muitos dos mais sábios [online] já haviam aderido ao novo
esquema de expressão por meio das coisas, que tinha apenas esta
inconveniência: se os negócios de um homem fossem muito vastos
e de vários tipos, ele teria que carregar uma grande quantidade
de coisas nas costas, em proporção, a menos que pudesse pagar
um ou dois servos [powerful servers] fortes para ajudá-lo.
Cheguei a ver dois desses adeptos quase esmagados sob o peso de
sua carga [dos sistemas operacionais] e eles me lembraram os mascates entre
nós, que quando se encontram na rua colocam suas cargas no chão,
abrem os sacos, conversam por uma hora, depois guardam seus implementos,
ajudam um ao outro a reerguer a carga, e partem.
Mas, para conversas curtas [mensagens eletrônicas, conversações
fragmentadas], um homem pode carregar implementos nos bolsos e sob os braços
[em palms, pen-drives, ipods], em quantidade suficiente para se abastecer;
em casa ele não irá achar falta de nada; a sala [de chat]
onde negociantes se reúnem para praticar essa arte já estará
cheia de todas as COISAS [em computadores em rede, sistemas operacionais,
aplicativos, etc.], bem à mão, necessárias para que
se possa levar adiante este tipo de conversa.
Outra grande vantagem oferecida por esta invenção
é que serviria como idioma universal [como os propostos por Francis
Lodwick ou John Wilkins, ou pelos novos entusiastas das hipermídias],
uma vez que poderia ser entendida por qualquer nação civilizada,
cujos produtos e utensílios [ícones, gestos, ritmos e movimentos
padronizados] são geralmente do mesmo tipo, ou parecidos, de forma
que seus usos podem ser facilmente compreendidos. E assim, embaixadores
[vendedores] estariam qualificados para tratar com príncipes ou
ministros de Estados estrangeiros cujas línguas não conhecessem."
(Versão inglesa em [6])
[Swift(1):223-224 - comentários e acréscimos
meus, entre colchetes]
No mundo real, tesouras, lápis, utensílios e instrumentos (dedicados a certas tarefas específicas) possuem certamente suas interfaces, mas normalmente irredutíveis entre si. Perceber e reconhecer um objeto não se limita a perceber e reconhecer passivamente certa fisionomia representada. É a interação dirigida, ativa, com o objeto que nos fornece uma consistência dinâmica (e não apenas cinemática) de sua aparência e lhe confere (ou nega) realidade.
Os objetos comuns são, em geral, tão caracteristicamente diferentes entre si,em sua "aparência dinâmica" e "modos de acesso", que uma confusão ente eles indicaria sérios problemas neurológicos, antes que uma mera "incompreensão" ou "falta de treinamento adequado". "O homem que confundiu a sua mulher com um chapéu" [Sacks:22-37] representa um caso clínico grave e não um problema menor superável por treinamento adequado.
Com representações 'agostinianas'- ícones e rótulos - associadas a funções de máquina não se pode ter tanta certeza disso. A rigidez do acesso antes que facilitar a compreensão atesta a nossa indigência: isto é aquilo apenas se a máquina deixar. Em nome da transparência, inacessíveis ao nosso entendimento a não ser pelo protocolo do dispositivo, os objetos perdem a sua materialidade, sua identidade e sua autonomia. E à frustração de nossas expectativas segue-se a exigência de "habilidade com os controles", de submissão à lógica imposta pela interface, que nos vê como deficientes incapazes de integrar certos aspectos fundamentais de nossas experiências. Nós, nossa linguagem, os maleáveis devemos nos adaptar [7].
Será que a aleatoriedade do acesso aos dados armazenados em mídia digital confere aos computadores o estatuto de máquinas adequadas àquela representação pluridimensional, dispositivos, portanto, mais capazes de exprimir uma cultura global e fragmentária através de uma "coisa à qual somente nós, hoje, podemos dar um nome (...): um 'hipertexto'"?
Em primeiro lugar, sabemos que a multiplicidade das versões possíveis de um mesmo texto, e nem mesmo as remissivas dos hipertextos, nada disso é originário ou privativo das representações em mídia digital.
Em segundo lugar, como vimos, considerar que "a expressão natural é horizontal, enquanto que os hipertextos remetem verticalmente para inúmeros outros textos" atesta apenas um desconhecimento da complexidade da linguagem. Seria difícil negar que as redes de que os interlocutores de uma conversação ordinária fazem uso são bastante mais complicadas (e se tal comparação faz sentido) do que as redículas dos hipertextos. Se a velocidade de execução torna certos - e especialíssimos - expedientes mais adequados para a máquina, isto não pode ser estendido a todos, nem exclusivamente. Finalmente, mesmo se julgássemos uma rede de hipertexto algo "mais completo" do que o conjunto dos seus constituintes (pelo menos aqueles vistos como "lineares"), ainda assim a comparação apareceria deslocada, no sentido da objeção de Wittgenstein ao absurdo de se considerar uma vassoura mais complexa do que o seu cabo.
Ouvir, ler, falar e escrever constituem seu sentido no mundo e com o mundo; e não se isolando dos contextos atrás de um protocolo de comunicação orientado a objeto. A alegada controlabilidade das chamadas 'realidades virtuais' se deve mais à indigência daqueles ambientes do que a um suposto poder superior de representação. Se a experiência é incomparavelmente mais rica e 'pluridimensional' do que qualquer de suas janelas de representação, do que qualquer discurso, o que dizer de uma estrutura rudimentar como os hipertextos que circulam na mídia eletrônica digital.
Ainda quanto à transparência, ver também o livro
Film and Phenomenology, de Allan Casebier, para uma crítica
à noção de diegesis e ao desconstrutivismo de Jacques
Derrida. Quanto ao conceito de hipertexto na análise do discurso,
ver, por exemplo, Os Termos Chaves da Análise do Discurso, de Dominique
Maingueneau - verbete Intertextualidade. A análise textual
(por exemplo, Gérard Genette) trata o conceito de hipertexto
de um modo diferente: contraposto a hipotexto, faz parte, como este,
da intertextualidade, presente em qualquer texto, de qualquer época.
Há inúmeras outras possibilidades, como uso literário
de hipertextos simulados, defectivos, por assim dizer; que 'remetem' para
conteúdos (livros e documentos) imaginários, como ocorre
em tantos escritos de Jorge Luis Borges, hipertextos de hipotextos inexistentes,
ou 'desaparecidos'. Muitas outras acepções de hipertexto
e hipotexto podem ser mencionadas, como por exemplo, no âmbito de
um software (DocXpert) de consulta a bases de dados documentais: "Hipertexto:
consiste en la posibilidad de que simplemente seleccionando cualquier palabra
dentro de un texto, se pueda acceder a todas las apariciones de la misma
en la obra" e "Hipotexto: es un hipertexto pero con referencia a
un subconjunto de la obra, previamente seleccionado. El hipotexto está
íntimamente relacionado con los árboles jerárquicos."
[ http://www.ars-nova.net/DatosTecnicos.htm
]
Referências Bibliográficas
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Jorge Zahar, Rio de Janeiro: 1985. (Orig. 1944)
[Bolter], Jay David. Windows and Mirrors. MIT Press, Cambrige, Mass: 2003.
[Casebier], Allan. Film and Phenomenology. Cambrige University Press, Cambrige, UK: 1991
[Eco], Umberto. A Busca da Língua Perfeita, Edusc, Bauru, SP, 2001 (Orig. 1993)
[Glock], Hans-Johann, Dicionário de Wittgenstein. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro: 1998 (Orig. 1996)].
[Lacoste], Yves. A geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Papirus. Campinas, SP:1988.
[Luhmann], Niklas. Legitimação pelo procedimento. EdUnB, Brasília:1980.
[Maingueneau], Dominique. Os Termos-Chave da Análise do Discurso.
Gradiva, Lisboa:1997.
[Paternostro], L.C.B. - Elementos para uma Avaliação
Crítica das Interfaces Homem-Computador. Dissertação
de Mestrado, Escola de Comunicação, Universidade Federal
do Rio de Janeiro, 1993.
[Rossi], Paolo. A Chave Universal. EDUSC, Bauru, SP:2004. (Orig. 1983)
[Sacks], Oliver. O homem que confundiu a sua mulher com um chapéu. Companhia das Letras, São Paulo:1997. (Orig. 1985)
[Shneiderman], Ben. O Laptop de Leonardo. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006. (Orig. 2002)
[Swift (1)], Jonathan. As Viagens de Gulliver. Tradução e notas de Therezinha Monteiro Deutsch, Editora Nova Cultural, São Paulo, 2003. [Parte Três - Uma viagem a Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e Japão - Capítulo V]
[Swift (2)], Jonathan. Gulliver Travels. Part III: A Voyage to
Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib and Japan. Chapter V.
http://www.jaffebros.com/lee/gulliver/bk3/chap3-5.html
[Wittgenstein], Ludwig. Investigações Filosóficas
- Primeira Parte. Coleção Os Pensadores, Abril Cultural,
São Paulo, 1979. (Orig. 1945)
Sobre o autor / About the Author:
Luiz Carlos Brito Paternostro
pater@centroin.com.br
Dr. [Ciência da Informação], UFRJ/ECO, IBICT/CNPq,
1998
Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ)
Endereço residencial/ Personal address:
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