Resumo: Discute a memória nessa época de quebra de
fronteiras espaciais, de crise de identidades e de ubiqüidade. Busca reunir
argumentos que motivem os interessados nessas questões a enfrentar o desafio de
selecionar memórias para o futuro. Apresenta alguns posicionamentos teóricos
sobre a memória social ao longo do século 20, com ênfase em Henri Bérgson e
Maurice Halbwachs, para extrair deles a discussão sobre o par lembrar-esquecer
que configura um modo de compreender a memória. Conclui que essa discussão
transposta para o ciberespaço é um exercício ainda em curso, que vem
incentivando os pesquisadores a pensar a memória social como um composto em
movimento, distanciando-a do sentido de acumulação característico das sociedades
de escrita.
Palavras-chaves: Memória social; Memória do futuro,
Memória virtual; Patrimônio digital.
Abstract: This paper discusses memory in times of
spatial frontier ruptures, identity crises and ubiquity, and it brings together
arguments which motivate interested scholars to face the challenge of selecting
appropriate memories for the future. Some theoretical approaches to social
memory throughout the twentieth century are presented, with emphasis on Henri
Bérgson's and Maurice Halbwachs's proposals. In the light of their theoretical
framework, the dichotomy between remembering and forgetting is discussed as a
way of understanding memory. We conclude that this discussion, taken into
cyberspace, is an ongoing exercise which has been motivating researchers to
think about social memory as a construct in progress, moving away from the idea
of memory in terms of storage, so typical of societies where writing is
privileged.
Keywords: Social memory; Future memory; Virtual memory;
Digital heritage.
“Ditosa idade e século ditoso aquele a cuja luz saírem as famosas façanhas minhas, dignas de gravar-se em bronzes, esculpir-se em mármores e pintar-se em tábuas, para a memória do futuro. Oh, princesa Dulcinéia, senhora deste cativo coração! Praza a vós, senhora minha, memorar este vosso sujeito coração, que tanto pelo vosso amor padece!”
Dom Quixote 1
Memória social em pauta2
A preservação da memória social é o tema em destaque na passagem do século XX
para o século XXI. Ao longo do século vinte e, principalmente, após a segunda
guerra mundial, a preocupação com a criação de registros de memória, quer fossem
na literatura, nos monumentos ou nas comemorações, levou a sociedade a produzir
um campo de discussão sobre o perigo de esquecer fatos históricos marcantes.
O Holocausto e as ditaduras militares na América Latina são exemplos da criação de inúmeras instituições voltadas para o objetivo de manter em pauta o tema da memória. Andréas Huyssen (2000) comenta que um dos fenômenos culturais e políticos mais surpreendentes dos anos recentes é a emergência da memória como uma das preocupações culturais e políticas das sociedades ocidentais.
A volta ao passado caracteriza o que Huyssen chama de deslocamento do futuro presente para o passado presente. Inúmeros são os exemplos dessa configuração do pensamento ocidental sobre a necessidade de preservação da memória social e entre eles podemos citar a atribuição exagerada de valor patrimonial aos arquivos, às bibliotecas e, principalmente aos museus.
“Não há dúvida de que o mundo está sendo musealizado e que todos nós representamos os nossos papéis nesse processo. É como se o objetivo fosse conseguir a recordação total. Trata-se então da fantasia de um arquivista maluco? Ou há, talvez, algo mais para ser discutido neste desejo de puxar todos esses vários passados para o presente?” (Huyssen , 2000, p. 15)
Compartilhamos com a tese de Huyssen de que quanto mais forte é o apelo para a
memória, mais temos a necessidade de esquecer. E que o medo do esquecimento é o
que nos faz produzir, conforme Nora (1993), meios de memória. Esses meios de
memória se apresentam como nossas memórias auxiliares, pois sabemos que
biologicamente é necessário esquecer para armazenar novas lembranças.
As memórias auxiliares funcionariam como compensação a essa dinâmica da memória individual que não pode abrir mão do esquecimento. De uma memória apenas individual, passamos a nos valer de uma memória coletiva enriquecida com pontos de vista diversos sobre um mesmo fato social.
Mas, como assinala Huyssen (2000, p.
29), “a crença conservadora de que a musealização cultural pode proporcionar uma
compensação pelas destruições da modernização do mundo ocidental é demasiada
simples e ideológica.” Temos que considerar outras variáveis que vão interferir
nessa dinâmica da lembrança/esquecimento e uma delas é o meio de produção ou de
armazenamento das memórias.
A digitalização de nossas memórias e a produção de novas informações já em meio
digital aliadas à fragilidade e à complexidade de manutenção dos arquivos em
ambiente virtual nos leva a criar um novo conceito ameaçador para o mundo
contemporâneo, denominado de amnésia digital. Essa forma de amnésia ou febre
mnemônica, metaforicamente no dizer de Huyssen, seria causada pelo cibervírus da
amnésia que, de tempos em tempos, atacaria a memória.
Duas questões iniciais se colocam
neste campo. A primeira nos leva a acreditar que os arquivos digitais podem ser
o elemento compensatório da perda de memória individual e social. A segunda
questão nos coloca no dilema de investir na metarrepresentação constante das
lembranças armazenadas no ciberespaço.
Tentando escapar da dicotomia simples do lembrar/esquecer, vamos investir na
análise do conceito de virtual, tendo sempre a memória como seu substantivo.
Esse deslocamento temporário do foco da discussão tem como finalidade analisar a
memória social sob o ângulo do processo de sua constituição. Consideramos que a
virtualidade é uma condição inerente à memória, que a memória pode ser modelada
pelas tecnologias digitais e por seus efeitos, mas ela não pode ser apenas
redutível a eles.
“Insistir numa separação radical entre memória “real” e virtual choca-me tanto quanto um quixotismo, quando menos porque qualquer coisa recordada - pela memória vivida ou imaginada – é virtual por sua própria natureza. A memória é sempre transitória, notoriamente não confiável e passível de esquecimento; em suma é humana e social. Dado que a memória pública está sujeita a mudanças – políticas, geracionais e individuais – ela não pode ser armazenada para sempre, nem protegida por monumentos ; tampouco, neste particular, podemos nos fiar em sistemas de rastreamento digital para garantir coerência e continuidade.” (Huyssen, 2000, p. 37)
Como se configuraria a memória nessa
época de quebra de fronteiras espaciais, de crise de identidades e de ubiquidade?
Como enfrentar o desafio de selecionar memórias? Apresentamos alguns
posicionamentos teóricos sobre a memória social ao longo do século 20, com
ênfase em Henri Bérgson e
Maurice Halbwachs, para extrair deles a discussão
sobre o par lembrar-esquecer que configura um modo de compreender a memória.
Transportar essa discussão para o ciberespaço é um exercício ainda em curso, que
vem nos incentivando a pensar a memória social como um composto em movimento,
distanciando-a do sentido de acumulação, característico das sociedades de
escrita.
Um diálogo entre Bergson e Halbwachs3
O estudo sobre a memória nos dias atuais envolve uma perspectiva
transdisciplinar, que permite que diferentes áreas do conhecimento dialoguem.
Talvez isso seja um legado das primeiras investigações que se deram em torno da
possibilidade de lembrar e de esquecer.
Nos idos do século XIX, numa ótica
cientificista que tinha como forte interlocutora a psicologia, a memória
começava a ser sistematicamente estudada. Os aspectos visíveis da capacidade
individual da recuperação de informação se misturavam aos estudos dos processos
neurobiológicos que permitiam o processamento destas mesmas informações. As
indagações, ou melhor dizendo, o ponto de partida, era semelhante ao que nos
motiva na neste instante: que dispositivos nos fazem lembrar e esquecer?
Jô Gondar (2000) em “Entre lembrar e esquecer: o desejo de memória” nos
diz que a tensão existente entre essas duas operações do pensamento é
fundamental para a constituição da memória. O desejo aparece como a escolha, ou
a intenção de manter e compartilhar acontecimentos. Sabemos, no entanto, que os
acontecimentos são da ordem da criação e que precisam de “espaço livre”
para se manifestarem. Esse espaço livre é construído pela operação do
esquecimento. Parece-nos então que o esquecimento é a operação necessária para a
constituição das memórias. Será que o desejo de memória na inclui a operação
esquecimento? Positivar o esquecimento é a operação necessária. Mas, vejamos
como os estudos da memória social operam com estes dois conceitos: lembrar e
esquecer.
Se as questões que nos embalam ainda são de ordem semelhante à de outras épocas,
permitimo-nos retomar Henri Bergson, filósofo do século XIX, que, segundo nossa
análise, ainda é pouco estudado se pensarmos nos méritos de sua produção.
Consideramos que um estudo aprofundado da memória deve contemplar a perspectiva
bergsoniana – se nem tanto para revalidar suas conclusões teóricas, muito mais
para situar as teorias que viriam a seguir com seus herdeiros, como é o caso de
Maurice Halbwachs,
Gilles Deleuze e
Pierre Lévy, por exemplo.
Henri-Louis Bergson nasceu em Paris no ano de 1859, teve uma vida acadêmica
bastante produtiva, sobretudo no que se refere às suas publicações. Tamanha
produção nos obriga a um recorte para esta análise, sendo assim, nossas
considerações tem como pano de fundo a obra “Matéria e Memória”, que veio a
público em 1896. O objetivo desse estudo é afirmar a realidade do espírito e da
matéria e determinar a relação entre eles sobre um exemplo preciso, o da memória
(Bergson, 1999, p.1). A matéria, neste caso, é entendida como o conjunto de
imagens que compõe o mundo material que nos cerca. Para Bergson, o centro deste
mundo das imagens é o próprio corpo individual, pois só através dele as outras
imagens podem existir.
Apesar de dar ênfase à perspectiva neurobiológica da capacidade de lembrar e
esquecer, para o filósofo a memória não é uma propriedade do cérebro, pois este,
pertencendo ao mundo da matéria, seria também uma imagem-centro que não pode ser
responsável por abrigar todo o complexo infinito de outras imagens. Desta forma,
a memória é entendida como uma propriedade do espírito4.
A não limitação física deste receptáculo propicia que Bergson pense numa memória
pura. É possível entrever isto em vários momentos de sua obra, sobretudo quando
os focos da análise são as patologias, a exemplo da afasia, onde a memória se
conserva, mas os mecanismos que fazem com que esta seja retomada, em favor do
presente, são comprometidos.
Mas o que seria exatamente a memória pura? Em “Matéria e Memória” se afirma que
esta é o registro de todas, absolutamente todas as percepções que um indivíduo
realiza. Entretanto, como esta memória deve ser atualizada – para virar então
uma lembrança, de acordo com o presente – há imagens que nunca serão iluminadas,
ou seja, permanecerão obscuras. Bergson argumenta que serão estas imagens que
irão compor os sonhos, e sobre sua aparente falta de ordem, ele explica que ao
serem retomadas espontaneamente e não como uma resposta consciente, elas irão
figurar segundo a ordem que foram armazenadas.
Nesse sentido, a memória pura se torna uma espécie de local de armazenamento
total que fornecerá as imagens para que a memória hábito se atualize5.
Observemos:

Fonte: Bergson, 1999, p. 178
Nesta imagem a base AB corresponde à memória pura, o vértice S, que representa a
imagem do corpo, avança sobre o plano P, que é a representação individual e
atual do universo. A imagem S faz parte do plano P e está limitada a receber e a
devolver as ações que as imagens do plano P emanam. Ou seja, este é o movimento
da memória hábito, que tem como base, a verdadeira memória ou memória pura.
Conforme deixamos transparecer, a questão que nos parece principal para este
momento é a idéia da memória como um processo total. Indo por este percurso
Bergson evitou, propositadamente ou não, a outra problemática que a memória
abarca, o esquecimento. Tratado com pouco relevo em “Matéria e Memória”, foi uma
das grandes questões que trouxe um afastamento teórico entre o filósofo e seus
sucessores. Tomemos como contraponto a perspectiva de outro autor dedicado ao
estudo da memória, Maurice Halbwachs.
Halbwachs nasceu em 1877 na França. Não por acaso o tema central de seus estudos
se refere à memória, isto porque ele foi aluno de filosofia de Bergson. Apesar
dessa aproximação inicial, Halbwachs se afasta de seu mentor, abrindo espaço
para outras influências e, nesse sentido, podemos mencionar o nome de Leibniz,
Simiand e Émile Durkheim. Entretanto, seu posicionamento teórico foi marcado,
para além das afiliações, justamente pelas contraposições, não só a Bergson, mas
também a Karl Marx e a Max Weber. Duas obras são basilares para a compreensão de
sua perspectiva sobre a memória, “Os quadros sociais da memória”, datada de 1925
(Halbwachs, 1994) e “A memória coletiva” (Halbwachs, 2004), publicada após sua
morte.
A dimensão da memória pensada por Halbwachs talvez se diferencie de forma mais
contundente daquela pensada por Bergson, segundo dois aspectos: o aspecto social
da construção da memória, e a própria idéia de construção, a qual abarca
necessariamente o esquecimento. Para Halbwachs, lembrar não é um processo
natural, mas sim uma construção social. Isso explica a transformação das
lembranças que ocorrem devido aos quadros sociais, o que segundo o autor
significa a visão de mundo dos grupos sociais.
O entendimento diferenciado sobre a memória pode ser exemplificado em relação
aos primeiros anos de vida de um indivíduo. Para Bergson, quanto menor a
capacidade de reflexão, maior a possibilidade de absorção da memória, nesse
sentido, ele afirma que as crianças têm mais memória espontânea. Contrapondo-se
a isto, Halbwachs observa que as crianças constroem suas lembranças somente a
partir da experiência com o grupo social que as cerca, no caso a família. Antes
desse contato, potencializado pela fala, a construção da memória é praticamente
nula, o que justificaria a pouca possibilidade de um indivíduo lembrar momentos
vividos no seu primeiro ano de idade.
Halbwachs não nega a existência de uma memória particular, individual por assim
dizer, mas o centro formador desta, ainda seria a memória do grupo. Nesse
sentido, podemos ter uma experiência que nos pareça única, de uma viagem, uma
leitura, ou qualquer outra circunstância onde nos colocamos isolados do restante
dos indivíduos. Ao lembrarmos desse momento em questão, acionaremos códigos que
são sociais, códigos culturais que regem nossa racionalidade, nossa
inteligência. Além disso, as motivações para que essa lembrança se faça presente
serão provenientes da reflexão que formos capazes de produzir a partir dela, as
percebendo de acordo com os quadros sociais.
As contribuições de Maurice Halbwachs vão além do diálogo com Henri Bergson. Sua
perspectiva sociológica de análise, bastante diferente da ótica cientificista de
Bergson, foi afirmada pelos principais autores que depois dele, fizeram da
memória uma fonte de análise e inquietação constante.
O esquecimento que não ganhou um espaço de importância na produção de Bergson fez dele um quase refém. Bastante menos retomado, o filósofo carece, sem dúvida, de novas leituras que dêem conta da sua ‘simples complexidade’ de pensamento. Situando-o no seu tempo e, por conseguinte nas influências que tanto marcam sua busca pela verdade-ciência, entendemos que sua teoria, ainda hoje, é passível de importantes reflexões sobre o processo de construção da memória.
Em especial, sobre o conceito de
memória pura, ou memória virtual, da qual nos valemos, juntamente com o conceito
de coletivo em Halbwachs, para compreender, por exemplo, a constituição do valor
patrimonial atribuído aos objetos e ações culturais.
A construção da memória está sempre atrelada ao seu contexto histórico. A
preservação dos vestígios, que comumente se validaria pela vontade de lembrar,
acolhe agora um dilema ambíguo: como preservar vestígios de tantos tempos e
espaços sobrepostos e, ao mesmo tempo, como diferenciar o acúmulo involuntário
das práticas de preservação efetivas?
Uma primeira vontade de memória deve
subsistir à possibilidade de perdurar, de se preservar. Isto quer dizer que a
vontade de memória deve se renovar todo dia, caso contrário, ela se torna alvo
do esquecimento. Em outras palavras, cercamo-nos de tantos recursos de memória
que hoje nos perguntamos como fazer para mantê-los, em sentido virtual, pronto
para o uso, e não apenas conservá-los em sítios arqueológicos a espera de
interpretação de seus restos ou ruínas? Como lhes atribuir um valor de
permanência (patrimonial) que justifique o esforço de fazê-los acompanhar as
mudanças contemporâneas tão aceleradas que transformam valores, vestígios e
suportes?
Ciberespaço e virtualidade
Dentre as várias dimensões que o pensamento humano constrói para entender a vida
e a sociedade, o ciberespaço é, sem dúvida, a dimensão contemporânea. De
natureza comunicacional, o ciberespaço é um constructo da mente humana que
articula diversos vetores como informação, tecnologia e memória.
Interessa-nos compreender menos a sua
história6 , mas, sobretudo, sua condição de
articular meios de memória social. Ao lado das dimensões de tempo e espaço,
estudadas pela física e pela geografia, o ciberespaço é concebido como a união
desses dois conceitos, agora denominados por espaço-tempo. Esse espaço-tempo,
supostamente (a)espacial e (a)temporal é construído em ambiente virtual.
Etimologicamente, o conceito /virtual/ do grego virtuale, pode ser
igualado ao conceito de potência. Aristóteles deu ao termo a significação de
princípio, ou a possibilidade de uma mudança qualquer. Desse significado geral,
distinguiu outros, a saber: a potência ativa, ou a capacidade de realizar
mudanças em outra coisa ou em si mesmo; a potência passiva, ou a capacidade de
sofrer mudança; e, a capacidade de resistir a qualquer mudança. Dois sentidos
podem então ser depreendidos do termo potência no âmbito da filosofia:
possibilidade e predeterminação do atual.
Bergson (1950), na obra “Le possible et le réel”7
afirma que o possível não é menos que o real, o possível é uma miragem do
presente no passado. Nesse sentido, ele iguala possível à potência. Deleuze, seu
principal comentador, expõe a idéia de que o virtual é uma parte do real, como
se todo objeto tivesse duas partes coexistentes, embora não tenha seus espaços
plenamente definidos e determinados. Uma das partes é o virtual e a outra é a
parte possível. Desta forma, podemos entender que o real está para o possível
assim como o virtual está para o atual.
Utilizando a dialética bergsoniana dos mistos ou complexidades, tentaremos
estabelecer como foco de nossa observação o misto representado pela idéia de
/material–virtual/, tendo como cenário a sociedade do conhecimento8
da qual somos, ao mesmo tempo, sujeito e objeto. Por analogia ao misto
“matéria–memória” em Bergson, e considerando que a noção de memória em
Bergson se funda na teoria da duração cujo princípio é o método da intuição9
, podemos nos aventurar a discutir o conceito de virtualidade da memória
eletrônica constituída de matéria digital.
O par conceitual, neste caso, é
memória virtual-matéria digital. A sua constituição pode ser compreendida como
as duas faces de um mesmo objeto, que são percebidas quando o movimento da troca
de lados de cada uma das faces é lento, tal como o girar de uma moeda e, por
outro lado, é imperceptível quando o movimento é acelerado. Estes estados das
duas faces que, aparentemente, opõem memória/matéria–virtual/digital são
fundidos pelo ato criador do movimento. Nesse sentido, é complicado afirmar que
o espaço virtual não é material; ou, que o espaço virtual é apenas representação
ou simulação do espaço físico-material.
A primeira grande dificuldade surge então com a separação entre matéria e
virtualidade como opostos inférteis, ou com a matéria e a virtualidade pensadas
como coisa e representação, ou antecedente e conseqüente. Mesmo que pensássemos
o inverso, quer dizer, a matéria como representação do virtual, ainda assim o
conceito de representar, tornar presente, não se adequaria à idéia do virtual
que, como na metáfora da moeda, não se deixa representar, uma vez que, sem
movimento, não há possibilidade de tensão entre uma e outra face. E, sem tensão,
sem movimento, não há possibilidade de criação. Mais vale então, por enquanto,
pensar as seguintes possibilidades:
a) a existência do material;
b) a existência do virtual;
c) a possibilidade de trocas entre os dois estados.
A virtualidade do ciberespaço é sua
condição de permanência. Se pudéssemos unir os conceitos de memória virtual em
Bérgson e memória coletiva em Halbwachs, diríamos que a memória social no
ciberespaço é apresentada como uma massa processual atual, em permanente
construção. A ela são inseridos e descartados (lembranças e esquecimentos)
objetos digitais, representados já como unidades de conhecimento, conforme as
elaborações e re-elaborações produzidas no seu centro de cálculo, como nos
relata Bruno Latour (2000), em seu texto “Redes que a razão desconhece”.
O centro de cálculo é uma construção mental que considera o trânsito da
informação vista como veículo entre centro e periferia, caracterizando o
movimento que produz a condição do conhecimento e, portanto, de memória.
Mas, para que efetivamente possamos pensar o ciberespaço como movimento criador
é preciso levar em conta o par lembrar-esquecer. Se o esquecimento não foi
objeto das reflexões de Bérgson, do modo como o valorizamos na atualidade, e
para Halbwachs esquecer é uma operação interna à lembrança, para Nietzsche o
esquecimento é positivado e se contrapõe ao desejo de memória, no sentido de
acúmulo de lembranças, quando ele vai considerar que os indivíduos que têm a
capacidade de esquecer são fortes e saudáveis, alegres, criadores. Já os que
estão sempre lembrando adoecem, enfraquecem. A memória para Nietzsche nasce da
violência, do sangue, pela sua própria necessidade de prever, baseada no que já
passou, e coloca-nos atentos ao passado.
“Um modelo desses indivíduos fortes e salutares era Mirabeau, que não precisava perdoar as ofensas que lhe foram cometidas, já que simplesmente as esquecia. O esquecimento permite eliminar cargas, superar entulhos do passado, outorga a alegria de se defrontar com o novo, com a criação” (Barrenechea, 2006, p. 40).
Nietzsche, no século XIX, no alvorecer da reprodutibilidade técnica com a fotografia e o cinema, já discutia a necessidade de esquecer para tornar possível a criação e, com certeza, o estudo de seus textos deverá ser leitura indispensável10 . Como duas faces de um mesmo acontecimento, podemos sempre escolher entre lembrar e esquecer e, em certas circunstâncias o esquecimento é o que vai permitir olhar em frente.
Essa tensão, lembrar e esquecer, que
configura os estudos sobre a memória social, principalmente no século XX, é o
campo que nos ajuda a pensar a construção das memórias no ciberespaço. Dos
estudos da memória individual em Bérgson, que nos trouxe o conceito de memória
virtual, retomado por Pierre Lévy nas configurações desta no ciberespaço, à
memória coletiva em Halbwachs que constrói o compartilhamento de memórias tão
atual, também no ambiente comunicacional virtual, podemos considerar a
possibilidade de memória no ciberespaço e como ela se configura entre as
operações de lembrar e esquecer.
Ciberespaço: memória ou amnésia?
Nossos pressupostos para a organização do conhecimento no ciberespaço consideram
a imagem de que a memória é formada pela tensão existente entre lembrança e
esquecimento. Portanto, selecionar (esquecer) é uma ação determinante no
processo de construção da memória, seja ela individual, coletiva, documentária
concreta ou virtual. Não temos assistido ultimamente discursos acerca do
conceito de seleção e, conforme discute Viktor Mayer-Schönberger (2007) no
preprint do repositório da Harvard University sobre a arte de
esquecer na era da computação ubíqua:
“As humans we have the capacity to remember – and to forget. For millennia remembering was hard, and forgetting easy. By default, we would forget. Digital technology has inverted this. Today, with affordable storage, effortless retrieval and global access remembering has become the default, for us individually and for society as a whole. We store our digital photos irrespective of whether they are good or not - because even choosing which to throw away is too time-consuming, and keep different versions of the documents we work on, just in case we ever need to go back to an earlier one. Google saves every search query, and millions of video surveillance cameras retain our movements.” 11
No referido artigo, Mayer-Schönberger considera que a causa dessa inversão se dá em função de aspectos econômicos da informação e da inovação tecnológica. O autor sugere como solução, em síntese, algo próximo ao que as tabelas de temporalidade representam na gestão de documentos em sua passagem da idade corrente para a idade permanente.
Outro princípio praticado também no âmbito da Arquivologia e que poderíamos considerar nesta discussão é o do respect des fonds ou principe de provenance no sentido de evitar, a partir da qualificação de suas fontes produtoras, a repetição de informações lançadas na internet. A seleção, ou esquecimento consentido, é tarefa árdua, como sabemos, pois implica em arbitrar para o futuro. Se temos a ilusão de que é fácil guardar tudo, além de tecnologicamente possível, não há esforço para seleção.
Mas é justamente a questão do futuro
que passa a nos interessar quando o default do momento é apenas o passado. O
deslocamento da relação passado-presente para a relação passado-presente-futuro
deve ser considerado como mais interessante para a preservação do conhecimento.
No ciberespaço a acumulação do conhecimento se dá no domínio coletivo no qual a
informação é permanentemente construída e reconstruída. Mas, se o processamento
contínuo de novas informações gera uma economia de espaço de armazenamento, ele
causa em reverso, a sua reformatação. Essa reformatação, representada pela
fusão, complementação e descarte de informações da memória que as está
processando impede a recuperação dos formatos originais de ingresso.
Daí dizer-se que as memórias informacionais geridas e gerenciadas em ambiente virtual não são mais bancos de dados, nem bases de dados mas, centros de conhecimento. Do mesmo modo, dizemos que só a informação é passível de ser transferida, pois o conhecimento é processado no interior desses centros, cujo modelo é, sem dúvida, o da memória quer seja ela individual ou coletiva.
A idéia de centro (caótico porque em
permanente processo) ao invés de banco (ordenado pela idéia de acumulação)
permite representar essa possibilidade de processar inscrições que, por estarem
sempre em movimento, impedem a formação de depósitos arqueológicos de
informações. Nesse centro de cálculo, conforme Latour (2000) não há lugar para a
soma; apenas para o produto da interseção.
O ciberespaço, como espaço mítico da memória social (Dodebei, 2000), cria um
fértil terreno de pesquisas sobre o comportamento e as propriedades dos meios de
produção do conhecimento, sejam eles de natureza histórica, artística ou
técnica. Alguns estudos que temos acompanhado de perto no Programa de
Pós-Graduação em Memória Social têm sido conduzidos pelo interesse de recortar
os meios de produção de subjetividades na web sob os enfoques da história e da
memória.
Blogs e portais de depoimentos como o
Museu da Pessoa oferecem essa oportunidade de registrar as memórias individuais,
de transformar o privado em público, de autorizar a reformatação das memórias, e
acima de tudo, de dividir a autoria. O coletivo parece ser o atributo principal
que faz do ciberespaço um grande centro virtual da memória do mundo.
E o que seria a amnésia digital propalada nos discursos da virtualidade? Amnésia
é a ausência de lembranças, ou a incapacidade de lembrar. A fragilidade dos
suportes da informação, a dinâmica de atualização dos sítios na internet são
indicadores de que há um forte movimento no sentido do esquecimento.
Mas, em contrapartida, se considerarmos que o excesso de lembranças compromete a criação, então a idéia de amnésia não é um conceito adequado e deve, no entanto, ser revisto a partir da compreensão e das possibilidades de memória. A dinâmica dos arquivos (correntes, permanentes), a dinâmica dos museus (objetos expostos, reserva técnica) e a dinâmica da cooperação nas redes constituídas por bases de conhecimento científico (bibliotecas digitais) são exemplos de que a seletividade faz parte do processo criativo.
O esquecimento é tão importante quanto a lembrança. Como abrir espaço para novas
memórias? A acumulação desenfreada e absoluta é impossível. Borges
(2000), no
conto Funes, o memorioso, nos indica que lembrar todos os segundos de uma
existência é impedir a própria condição de existir, como observado por Irineu
Funes, “... o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido...
minha memória, senhor, é como o despejadouro de lixos.” O grande desafio na
era virtual é realmente encontrar o equilíbrio nessa dinâmica de trocas entre os
dois espaços , o material e o virtual, além de refletir sobre a impossibilidade
de preservar o material dissociado do imaterial, e de decidir sobre a parte da
produção de bens que deve ser objeto de proteção.12
Disseminar a informação é também uma forma de proteção, dentro da perspectiva da memória em movimento. Pensamos que o sentido de acumulação deva ser revisto. A cultura do acúmulo parece estar em jogo, um jogo que oscila entre lembrar e esquecer .
Notas:
[1] - Galhardo, 2005, p. 7
[2] Este artigo é fruto de muitas discussões coletivas e a estrutura aqui
apresentada é uma construção feita a partir de trabalhos nossos apresentados em
encontros científicos, bem como parte de trabalhos de pesquisa acadêmica.
[3] Discussão apresentada no VIII Enancib, Marília, SP, 2006. Ver Dodebei, V.,
Gouveia, I., 2006.
[4] Com essa curiosa saída teórica, Bergson encontra certo respaldo para sua
teoria. No campo da validação científica, o espírito como abrigo da memória
parece-nos bastante conveniente para que suas proposições escapem de algumas
encruzilhadas.
[5] Não devemos transferir nossa perspectiva a Bergson, seria uma imposição nada
coerente, mas não podemos deixar de assinalar que a idéia de memória pura nos
parece bastante interessante e potencial se pensarmos nos bancos de dados de que
dispomos atualmente, onde a informação está dada, devidamente armazenada,
esperando uma atualização que promova sua recuperação.
[6] Ver Castells, M. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os
negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
[7] Vale ressaltar, a título de informação, que este texto de Bergson é um
artigo que representa o desenvolvimento de algumas idéias que foram apresentadas
na abertura da "reunião filosófica" de Oxford, em 24 de setembro de 1920. Ao
escrever o artigo para a revista sueca Nordisk Tidskrift, que foi publicado em
novembro de 1930, Bergson queria revelar o pesar que sentiu por não poder ter
feito a conferência em Estocolmo (de acordo com o que era usual) por ocasião do
recebimento do prêmio Nobel de Literatura em 1928 com a obra L' évolucion
créatrice.
[8] A sociedade do conhecimento (século XXI) é a síntese conceitual da sociedade
contemporânea em que as trocas de subjetividades se dão nas dimensões da
velocidade, da virtualidade e da criação. A produção de conhecimento não é
apenas mediada pela tecnologia como acontecia na sociedade da informação, mas
integrada pela sua dimensão tecnológica.
[9] A intuição é o método do bergsonismo; ele tem suas regras estritas, que
constituem o que Bergson chama de “precisão” em filosofia. A intuição já supõe a
duração. Cf. Deleuze, 1999.
[10] A intuição se define por um conhecimento imediato da coisa, em oposição ao
conhecimento analítico, isto é, mediado por símbolos, Cf. FUCHS, F.T, 1996.
[11] O par lembrar - esquecer pode ser visto em Nietzsche, Friedrich. Segunda
consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida.
Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2003.
[12] Como seres humanos, temos a capacidade de lembrar e de esquecer. Por
milênios, esquecer era fácil e lembrar era difícil. Por nossa programação
interna deveríamos esquecer. A tecnologia digital inverteu essa condição. Hoje,
com a garantia de espaço de armazenamento, rapidez na recuperação da informação
e acesso global, o ato de lembrar passa a ser a operação dominante quer seja
para o indivíduo, quer seja para a sociedade. Nós costumamos armazenar nossas
fotografias digitais sejam elas boas ou ruins – porque mesmo sabendo quais
deveríamos selecionar, o custo de manter todas as versões na memória da máquina,
para o caso de queremos acessá-las em momento futuro, é bem menor do que o que
seria dedicado ao descarte. A Google salva cada busca realizada e milhares de
câmeras de vigilância registram nossos movimentos. (tradução livre das autoras)
12 Parte II – Entre disseminar e proteger; Parte III – A musealização do mundo.
(a publicar).
Bibliografia
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Sobre os autores / About the Authors:
Doutora em Comunicação e Cultura (ECO/UFRJ); Professora Associada na UNIRIO, líder do Grupo de Pesquisa “Memória Social, Tecnologia e Informação”.
Inês Gouveia
Mestre em Memória Social (UNIRIO), Pesquisadora do Museu da Pessoa e do Grupo de Pesquisa “Memória Social, Tecnologia e Informação”.