Diversidade cultural e políticas de informação
por Aldo de Albuquerque Barreto
Os espaços de informação foram agregados em um mesmo ambiente de comunicação: estoques de documentos, fluxos de transferência e a realidade dos receptores.
A velocidade nas trocas entre os estoques e os receptores está próximo ao infinito. No ciberespaço, as trocas se realizam em tempo real, no tempo quase zero.
Isto nos leva a vizinhança universal. Meu colega de trabalho, com quem tenho afetividade informacional, está na sala ao lado ou na Finlândia. A velocidade com que me comunico trocar enunciados é basicamente a mesma.
A assimilação da informação no ciberespaço acontece em um ponto do presente no cotidiano. Este ponto remete as vivências subjetivas do passado e as expectativas do futuro. O ponto de apropriação do conhecimento tem no presente a sua única dimensão. No ciberespaço a interiorização da informação é multiespacial e multicultural.
Diversidade cultural engloba as diferenças culturais que existem entre as pessoas e seus artefatos de informação e comunicação, como a linguagem, a escrita as tradições, a forma como as sociedades estão organizadas, sua concepção de moral e de religião, e as suas políticas.
Nenhuma cultura é pura, todas são resultantes de contatos e empréstimos. A idéia de "cultura" tem se transformado para o conceito de "culturas", pluralidade que inclui a cultura da elite, mas também a de diferentes grupos sociais, e sua produção informacional
O conceito de "desterritorialização" ocorre quando não se tem mais um ponto de referência exato. Um espaço único para uma cultura e seus produtos. O espaço cultural não está mais na geografia está na topologia eletrônica das palavras. Está no tempo instantâneo dos espaços multiculturais multinacionais.A criação cultual está menos no espaço físico e mais nos sistemas temporais conduzido por várias tecnologias de transferência de documentos e do saber. O espaço demarcado é substituído pela cronografia das narrativas intertextuais.
O conceito de "desterritorialização" ocorre quando não se tem mais um ponto de referência exato. Um espaço único para uma cultura e seus produtos. O mundo se desterritorializa como nação e se re-territorializa na cotidianidade de uma “cultura mundial” cuja linguagem é a de jogos de enunciados imediatos
Nos documentos "desterritorializados" o valor de uso é circunstancial, pois a utilidade da informação para o receptor está referenciada a um determinado momento do tempo. A relevância varia em relação às circunstâncias em que se encontra a qualidade da geração ou da recepção da informação em um determinado momento
Para a informação aberta e em fluxo não basta existir uma transmissão de informação, é preciso existir um diálogo interativo entre geradores e receptores com afinidade nos objetivos e na qualidade do objeto em construção.
Este novo aspecto da informação traz certamente problemas para a determinação dos direitos de propriedade. A propriedade intelectual de uma informação, que se encontra em se fazendo e em um suporte digital, com interatividade na sua construção, feita por diversos geradores interatuando, dependerá de se estabelecer através de um código de convivência e trocas uma condição de utilidade circunstancial para o usuário; seria, então, atribuído à informação um valor circunstancial de uso, de acordo com seu estado de sua feitura em determinado momento. Restará determinar no final, se final houver, de quem é a propriedade da coisa toda
O ciberespaço é visto como uma dimensão da sociedade em rede, onde os fluxos definem novas formas de relações sociais. É associada à rede mundial de documentos multiculturais. O indivíduo rompe com alguns princípios tidos como regras do linguagear permitido, alterando alguns valores e crenças, como uma determinação de uma nova sociabilidade existente no mundo
O conteúdo nunca é total em uma composição digital permeada por narrativas paralelas. Todos os significados ficam com sua percepção "adiada" até que se complete o caminho percorrido pelo receptor. Isto traz uma enorme dificuldade de gestão dos processos de informação.
A pergunta que se coloca é: estamos preparados para lidar com documentos em formato digital da web? Usando as rotinas das técnicas organização da informação de regimes estáticos?
Os usuários e leitores se colocam frente a grande memória da humanidade que é a Internet e viajam com instrumentos de navegação mais corretos que os astrolábios. O receptor navega na rede sabendo que, não existem memórias sem conflito, pois não existem memórias únicas, mas sempre memórias em luta.
Não existir memória sem conflito significa que para cada memória ativada, na sua navegação, existem outras reprimidas, desativadas, emudecidas. Para cada memória legitimada existem bandos de memórias excluídas ou não visíveis. Tanto a política cultural dos novos domínios dos documentos, como as suas ações devem estar conscientes desta ambivalência e ter suficiente poder de convencimento, prestígio e sedução para harmonizar tão delicado equilíbrio
Democratizar a informação em sentido da inclusão social não pode envolver somente programas para facilitar e aumentar o acesso à informação. É preciso criar estoques de informação, memórias visíveis, que atendam aos indivíduos entrantes no novo sistema, de acordo com a necessidade destes novos incluídos no mundo digital. Que informação é esta que é necessária para os incluidos digitalmente? Ela já esta digitalizada nos estoques existente?
É necessário que o indivíduo que a receba esta informação tenha condições de fluência tecnológica e cognitiva, para elaborar este insumo recebido, transformando-o em conhecimento esclarecedor em benefício próprio e da sua comunidade.
De outro modo o discurso da inclusão digital terá dificuldades em se transformar em ação com vigor dinâmico capaz de se realizar como inovação na realidade.
Aldo de Albuquerque Barreto
aldobar@globo.comDoutor em ciência da informação pela The City University, Inglaterra; pesquisador titular do Ministério da Ciência e Tecnologia no IBICT.