A Ciência de Leonardo da Vinci
Fritjof Capra
São Paulo: Cultrix/Amaná-Key, 2008, 368 p.
O físico e acadêmico Fritjof Capra examinou mais de seis mil páginas
e cem mil desenhos restantes dos cadernos de anotações de Leonardo da Vinci,
em um trabalho minucioso de pesquisa, que mostra a trajetória da construção
do pensamento científico e artístico do sábio italiano, bem como apresenta
ao leitor um percurso extremamente cuidadoso e original do próprio fazer
científico do autor deste livro.
É uma obra que deve figurar entre as fontes da pesquisa científica,
principalmente porque, fazendo uma panorâmica dos estudos do cientista
renascentista, Capra mostra todos os subsídios teórico-metodológicos aos
quais teve que se apoiar para elaborar e organizar tão extenso objeto de
estudo. A inspiração e produção do mestre italiano tocou tão profundamente a
pesquisa de Capra, que é possível perceber nas suas linhas a intenção de
escrever com a mesma objetividade, clareza, elegância e sensibilidade.
O livro aponta Leonardo da Vinci como o precursor da Ciência Moderna, cujos
estudos se baseavam na observação sistemática dos seres vivos e da natureza.
Desta forma, ao longo da sua vida, o pintor, inventor,engenheiro,mecânico
etc. deixou um legado científico que só foi efetivamente descoberto no
século 19 e que serviu de suporte para algumas inovações do século 20, como
o helicóptero; e os projetos de cidades saudáveis, que só estão se tornando
realidade neste século 21. Seus estudos sobre o corpo humano em movimento,
sobre a anatomia da visão e sobre a circulação do sangue deram grandes
contribuições aos estudos da medicina moderna. Em termos de Arte, seu nome
assina o famoso quadro “Mona Lisa”, exposto no Museu do Louvre; o mural
“A Última Ceia”, na Igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão;
e o desenho “Homem Vitruviano”.
O Método Científico
Na parte II do livro, Fritjof Capra destaca o “Leonardo,
cientista”, naquele mundo que saía das nebulosas visões da Idade Média
para as idéias luminosas do Renascimento, que prenunciam a revolução
científica. A invenção da imprensa proporciona a divulgação de textos e a
possibilidade de abrirem-se as portas às investigações da literatura
filosófica, científica e artística. Isso permitiu que Leonardo da Vinci
tivesse acesso a bibliotecas e a manuscritos clássicos que ampliaram seu
autodidatismo e enriqueceram seus conhecimentos. Ele mesmo teve uma
biblioteca particular com cerca de 200 volumes, o que era considerado
bastante significativo para a época.
Vivendo no período dos grandes descobrimentos e de grandes mestres de todas
as artes, como os conterrâneos Michelangelo e Maquiavel, Leonardo da Vinci
“desenvolveu sozinho uma nova abordagem do conhecimento, conhecida hoje
como método científico”. E, assim, Fritjof Capra introduz ao leitor a
abordagem empírica do gênio florentino e a sua rotina de pesquisador
sistemático, detalhista e rigoroso. Todos os inventos e explicações vêm
acompanhados de ilustrações feitas por Leonardo da Vinci. O autor considera
que seus “dois últimos capítulos delineiam o equivalente a uma extensa
teoria do conhecimento”.
O Patrimônio das bibliotecas e museus
Os famosos cadernos de notas de Leonardo da Vinci foram dispersos por toda a
Europa; contudo, dedicados pesquisadores e compiladores de obras conseguiram
resgatar grande parte deles e empreender uma cuidadosa reorganização, pois
alguns tiveram suas páginas arrancadas; outros foram arrumados conforme o
interesse do proprietário. A partir do século 18, houve grande procura pelos
manuscritos do famoso cientista e, atualmente, pode-se encontrá-los nas
bibliotecas Trivulziana, em Milão; na Nationale, em Paris; na
Real, em Turim; e na Nacional, de Madri. Quanto aos museus, há
cadernos de notas no Museu Britânico e no Museu Alberto e Vitória, em
Londres. Conforme destaca Fritjof Capra, “hoje, os escritos desse
brilhante pioneiro da ciência moderna estão disponíveis aos estudiosos em
excelentes edições fac-similares e transcrições”.
“A Ciência de Leonardo da Vinci” é um livro que vale a pena ter em
qualquer biblioteca.
Resenha feita por Olga Tavares, Professora Dra. do Programa de Pós-Graduação
em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba.
olgatavares@cchla.ufpb.br
______________________________________________________
Ciência e Tecnologia no Brasil: O processo decisório e a comunidade de
pesquisa
Renato Dagnino
São Paulo, Unicamp, 2007, 216 páginas
ISBN: 9788526807501
A Política de C&T tem-se mantido envolta numa “neblina ideológica” que a faz
aparecer como consensual. Combinando o instrumental de Análise de Políticas
com enfoques como os da sociologia e da economia da inovação, Dagnino mostra
como a comunidade de pesquisa tem contribuído para a “blindagem política”
(politics) dessa política (policy), dificultando sua
“contaminação” por projetos políticos contra-hegemônicos que se
manifestam na sociedade. Por revelar valores e interesses que se escondem
atrás de conflitos encobertos e latentes e de comportamentos dificilmente
identificáveis “a olho nu”, o livro mostra por que essa política vem sendo
orientada num sentido tão distinto daquele demandado pelo cenário de
democratização política e econômica em construção. O prefácio de Hebe
Vessuri, considerada a maior autoridade latino-americana dos Estudos
Sociais da C&T, contribui para que este livro se torne bibliografia
obrigatória para quem se interessa pelo assunto.
Quem elabora e como é feita a política científica e tecnológica brasileira?
Quase exclusivamente a própria comunidade científica, sem participação
importante do Estado ou do setor empresarial ou industrial e tampouco da
sociedade civil, segundo o engenheiro e economista Renato Dagnino,
especialista em estudos sociais da ciência e tecnologia.
No livro Ciência e tecnologia no Brasil: o processo decisório e a comunidade
de pesquisa (Editora Unicamp), Dagnino, professor do Departamento de
Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
compara a evolução do pensamento sobre a política científica e tecnológica
no Brasil nas últimas décadas e conclui: são os pesquisadores - ou
professores e pesquisdores que formulam, implementam e avaliam as
políticas de ciência e tecnologia ao se dedicarem à docência e à pesquisa em
universidades públicas ou a atividades burocráticas em institutos públicos
de pesquisa e agências dedicadas ao fomento e ao planejamento das atividades
de ciência e tecnológica. Isso não ocorre só no Brasil, mas aparentemente em
toda a América Latina. Nos países avançados, segundo Dagnino, o modelo é
diferente e mais sofisticado.
Segundo o autor, a política de ciência e tecnologia tem-se mantido envolta
numa "neblina ideológica" que a faz aparecer como consensual,
partindo da idéia da neutralidade do conhecimento científico, como o autor
chegou a frisar em outros trabalhos anteriores, onde ela é percebida fora do
contexto sociopolítico. De acordo com esta visão, "ciência e tecnologia
seriam um assunto técnico e não político; haveria uma barreira virtual que
protegeria o ambiente cientifico e tecnológico do contexto social, político
e econômico. Barreira esta que impediria que os interesses dos atores
sociais envolvidos no desenvolvimento da C&T possam determinar a trajetória
de inovação", explica Dagnino.
(Fonte da resenha: Revista Pesquisa Fapesp, 150, agosto de 2008 e
Notícias Protec).