DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.9   n.5 out/08                       RECENSÕES

A Ciência de Leonardo da Vinci
Fritjof Capra
São Paulo: Cultrix/Amaná-Key, 2008, 368 p.

O físico e acadêmico Fritjof Capra examinou mais de seis mil páginas e cem mil desenhos restantes dos cadernos de anotações de Leonardo da Vinci, em um trabalho minucioso de pesquisa, que mostra a trajetória da construção do pensamento científico e artístico do sábio italiano, bem como apresenta ao leitor um percurso extremamente cuidadoso e original do próprio fazer científico do autor deste livro.

É uma obra que deve figurar entre as fontes da pesquisa científica, principalmente porque, fazendo uma panorâmica dos estudos do cientista renascentista, Capra mostra todos os subsídios teórico-metodológicos aos quais teve que se apoiar para elaborar e organizar tão extenso objeto de estudo. A inspiração e produção do mestre italiano tocou tão profundamente a pesquisa de Capra, que é possível perceber nas suas linhas a intenção de escrever com a mesma objetividade, clareza, elegância e sensibilidade.

O livro aponta Leonardo da Vinci como o precursor da Ciência Moderna, cujos estudos se baseavam na observação sistemática dos seres vivos e da natureza. Desta forma, ao longo da sua vida, o pintor, inventor,engenheiro,mecânico etc. deixou um legado científico que só foi efetivamente descoberto no século 19 e que serviu de suporte para algumas inovações do século 20, como o helicóptero; e os projetos de cidades saudáveis, que só estão se tornando realidade neste século 21. Seus estudos sobre o corpo humano em movimento, sobre a anatomia da visão e sobre a circulação do sangue deram grandes contribuições aos estudos da medicina moderna. Em termos de Arte, seu nome assina o famoso quadro “Mona Lisa”, exposto no Museu do Louvre; o mural “A Última Ceia”, na Igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão; e o desenho “Homem Vitruviano”.

O Método Científico

Na parte II do livro, Fritjof Capra destaca o “Leonardo, cientista”, naquele mundo que saía das nebulosas visões da Idade Média para as idéias luminosas do Renascimento, que prenunciam a revolução científica. A invenção da imprensa proporciona a divulgação de textos e a possibilidade de abrirem-se as portas às investigações da literatura filosófica, científica e artística. Isso permitiu que Leonardo da Vinci tivesse acesso a bibliotecas e a manuscritos clássicos que ampliaram seu autodidatismo e enriqueceram seus conhecimentos. Ele mesmo teve uma biblioteca particular com cerca de 200 volumes, o que era considerado bastante significativo para a época.

Vivendo no período dos grandes descobrimentos e de grandes mestres de todas as artes, como os conterrâneos Michelangelo e Maquiavel, Leonardo da Vinci “desenvolveu sozinho uma nova abordagem do conhecimento, conhecida hoje como método científico”. E, assim, Fritjof Capra introduz ao leitor a abordagem empírica do gênio florentino e a sua rotina de pesquisador sistemático, detalhista e rigoroso. Todos os inventos e explicações vêm acompanhados de ilustrações feitas por Leonardo da Vinci. O autor considera que seus “dois últimos capítulos delineiam o equivalente a uma extensa teoria do conhecimento”.

O Patrimônio das bibliotecas e museus

Os famosos cadernos de notas de Leonardo da Vinci foram dispersos por toda a Europa; contudo, dedicados pesquisadores e compiladores de obras conseguiram resgatar grande parte deles e empreender uma cuidadosa reorganização, pois alguns tiveram suas páginas arrancadas; outros foram arrumados conforme o interesse do proprietário. A partir do século 18, houve grande procura pelos manuscritos do famoso cientista e, atualmente, pode-se encontrá-los nas bibliotecas Trivulziana, em Milão; na Nationale, em Paris; na Real, em Turim; e na Nacional, de Madri. Quanto aos museus, há cadernos de notas no Museu Britânico e no Museu Alberto e Vitória, em Londres. Conforme destaca Fritjof Capra, “hoje, os escritos desse brilhante pioneiro da ciência moderna estão disponíveis aos estudiosos em excelentes edições fac-similares e transcrições”.
“A Ciência de Leonardo da Vinci” é um livro que vale a pena ter em qualquer biblioteca.


Resenha feita por Olga Tavares, Professora Dra. do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba.          olgatavares@cchla.ufpb.br


______________________________________________________

Ciência e Tecnologia no Brasil: O processo decisório e a comunidade de pesquisa
Renato Dagnino
São Paulo, Unicamp, 2007, 216 páginas
ISBN: 9788526807501


A Política de C&T tem-se mantido envolta numa “neblina ideológica” que a faz aparecer como consensual. Combinando o instrumental de Análise de Políticas com enfoques como os da sociologia e da economia da inovação, Dagnino mostra como a comunidade de pesquisa tem contribuído para a “blindagem política(politics) dessa política (policy), dificultando sua “contaminação” por projetos políticos contra-hegemônicos que se manifestam na sociedade. Por revelar valores e interesses que se escondem atrás de conflitos encobertos e latentes e de comportamentos dificilmente identificáveis “a olho nu”, o livro mostra por que essa política vem sendo orientada num sentido tão distinto daquele demandado pelo cenário de democratização política e econômica em construção. O prefácio de Hebe Vessuri, considerada a maior autoridade latino-americana dos Estudos Sociais da C&T, contribui para que este livro se torne bibliografia obrigatória para quem se interessa pelo assunto.

Quem elabora e como é feita a política científica e tecnológica brasileira? Quase exclusivamente a própria comunidade científica, sem participação importante do Estado ou do setor empresarial ou industrial e tampouco da sociedade civil, segundo o engenheiro e economista Renato Dagnino, especialista em estudos sociais da ciência e tecnologia.

No livro Ciência e tecnologia no Brasil: o processo decisório e a comunidade de pesquisa (Editora Unicamp), Dagnino, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), compara a evolução do pensamento sobre a política científica e tecnológica no Brasil nas últimas décadas e conclui: são os pesquisadores - ou professores e pesquisdores  que formulam, implementam e avaliam as políticas de ciência e tecnologia ao se dedicarem à docência e à pesquisa em universidades públicas ou a atividades burocráticas em institutos públicos de pesquisa e agências dedicadas ao fomento e ao planejamento das atividades de ciência e tecnológica. Isso não ocorre só no Brasil, mas aparentemente em toda a América Latina. Nos países avançados, segundo Dagnino, o modelo é diferente e mais sofisticado.

Segundo o autor, a política de ciência e tecnologia tem-se mantido envolta numa "neblina ideológica" que a faz aparecer como consensual, partindo da idéia da neutralidade do conhecimento científico, como o autor chegou a frisar em outros trabalhos anteriores, onde ela é percebida fora do contexto sociopolítico. De acordo com esta visão, "ciência e tecnologia seriam um assunto técnico e não político; haveria uma barreira virtual que protegeria o ambiente cientifico e tecnológico do contexto social, político e econômico. Barreira esta que impediria que os interesses dos atores sociais envolvidos no desenvolvimento da C&T possam determinar a trajetória de inovação", explica Dagnino.

(Fonte da resenha: Revista Pesquisa Fapesp, 150,  agosto de 2008 e Notícias Protec).