DataGramaZero - Revista de  Informação - v.13  n.5 out12                            ARTIGO 03

Sendas entre o visível e o invisível: a biblioteca como “lugar de memória” e de preservação do patrimônio
Pathways between the visible and the invisible: library as a “memory place” and a place of preservation of patrimony

por Fabrício José Nascimento da Silveira


Resumo: Este artigo apresenta algumas considerações acerca das interrelações que se instauram, quer no plano teórico, quer no domínio histórico-cultural, entre as bibliotecas e o universo da memória e do patrimônio. Para tanto, lança-se à tarefa de responder à seguinte questão: podem as bibliotecas contribuir de alguma maneira com o processo de salvaguarda da memória e do patrimônio, tomando-os como dimensões psíquicas e sociais que definem a percepção dos sujeitos enquanto individualidades e dos grupos enquanto comunidades portadoras de histórias e experiências particularizantes? Para respondê-la, busca-se encontrar argumentos satisfatórios evocando a função e o lugar social ocupado por dois tipos de bibliotecas: as nacionais e as públicas. As primeiras porque nascem com o propósito explícito de se tornarem instituições de preservação do patrimônio e da memória intelectual das nações. Por sua vez, lança-se um olhar sobre as bibliotecas públicas por acreditar que as mesmas contribuem, enquanto espaços de sociabilidade, para que essa outra memória que caracteriza os patrimônios materiais e imateriais adquira força, legitime-se e se propague.
Palavras-chave: Memória social; Patrimônio; Material e imaterial; Lugares de memória; Bibliotecas; Práticas culturais; Bibliotecas nacionais; Bibliotecas públicas.
 

Abstract: This article presents some considerations about the interrelationships that are established, in the theory domain and in the historic-cultural domain, between libraries and the universe of memory and patrimony. For achieving this, we intend to answer the following question: can library contribute to the safeguard of memory and patrimony, turning them into psychic and social dimensions which define the perception of subjects as individuals and the perception of groups as communities that carry along particular experiences and stories? For answering the question, we try to find out satisfactory arguments that evoke the social place which is occupied by two kinds of libraries: the national and the public ones. The first ones, since they are created with the explicit intention of ending up as institutions for preserving the nations’ patrimony and intellectual memory. In the case of the public ones, as we believe that they, as sociability places, contribute for the other memory which characterize the material and immaterial patrimony to strengthen, spread and be considered legitimate.
Key Words: Social memory; Patrimony; Material and immaterial; Memory places; Libraries; Cultural places; National libraries; Public libraries
.

Bibliografia 

1. ABID, Abdelaziz. Mémoire du monde: préserver notre patrimoine documentaire. BBF, Paris, t.42, n.2, p.8-15, 1997.
2. ARANTES, Antônio Augusto. A guerra dos lugares: sobre fronteiras simbólicas e liminaridades no espaço urbano. Revista do patrimônio histórico e artístico nacional, Brasília, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.23, 1994, p.191-203.
3. ARANTES, Antônio Augusto. Patrimônio cultural e cidade. In: FORTUNA, Carlos; LEITE, Rogério Proença (Orgs.). Plural de cidade: novos léxicos urbanos. Coimbra: Almedina : CES, 2009, p.11-24.
4. AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994. (Travessia do século).
5. BATTLES, Matthew. A conturbada história das bibliotecas. São Paulo: Planeta, 2003.
6. BROCHMEIER, Jeans. Remembering and forgetting: narrative as cultural memory. Culture & Psychology, v.8(1), p.15-43, 2002.
7. CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
8. CAMPELLO, Bernadete. Introdução ao controle bibliográfico. 2 ed. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2006.
9. CASA NOVA, Vera. Biblioteca: uma leitura semiológica. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, B. Hte., v.19 n. especial, p.130-137, mar. 1990.
10. CHARTIER, Roger. As representações do escrito. In: Formas e sentido, cultura escrita: entre distinção e apropriação. Campinas: Mercado de Letras / Associação de leitura do Brasil, 2003, p.17-48. (Histórias de Leitura).
11. CHASTEL, André. La notion de patrimoine. In: NORA, Pierre. (Dir). Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1997, p.1433-1469. (T.1 ; La République).
12. COSTA, Marli Lopes da ; CASTRO, Ricardo Vieiralves de. Patrimônio imaterial nacional: preservando memórias ou construindo histórias? Estudos de psicologia, 2008, 13(2), p.125-131.
13. DURHAM, Eunice Ribeiro. Cultura, patrimônio e preservação. In: ARANTES, Antônio Augusto (Org.). Produzindo o passado: estratégias de construção do patrimônio cultural. São Paulo: Brasiliense : Secretaria do Estado de Cultura, 1984, p.23-58.
14. GONÇALVES, José Reginaldo Santos. O patrimônio como categoria de pensamento. In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (Orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. 2. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2009, p.25-33.
15. HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. Jaa Torrano. 6. ed. São Paulo: Iluminuras, 2006. (Biblioteca Pólen).
16. HOMERO. Odisséia. Trad. Manuel Odorico Mendes. 3. ed. São Paulo: ArsPoética ; EDUSP, 2000. (Texto & Arte; 5).
17. HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. 2 ed. Rio de janeiro: Aeroplano, 2000.
18. JACOB, Christian. Ler para escrever: navegações alexandrinas. In: BARATIN, Marc; JACOB, Christian (Orgs.). O poder das bibliotecas: a memória dos livros no ocidente. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000, p.45-73.
19. JACOB, Christian. Prefácio. In: BARATIN, Marc; JACOB, Christian (Orgs.). O poder das bibliotecas: a memória dos livros no ocidente. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000, p.9-17.
20. JODELET, Denise. Memóire de masse: le côté moral et affectif de l’histoire. Bulletin de psychologie, n.405, p.239-256, 1992.
21. KRAUSZ, Luis S. As musas: poesia e divindade na Grécia arcaica. São Paulo: EDUSP, 2007.
22. LAMY, Yvon. Du monument au patrimoine: matériaux pour l'histoire politique d'une protection. Genèses, v.11, n.1, 1993, p.50-81.
23. LE GOFF, Jacques. História e memória. 5. ed. Campinas: UNICAMP, 2003.
24. MANGUEL, Alberto. A biblioteca à noite. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
25. MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. 3. ed. São Paulo: Ática, 2002. (Temas; 49).
26. MONTE-MÓR, Jannice. Patrimônio bibliográfico e a problemática das bibliotecas nacionais. Revista do patrimônio histórico e artístico nacional, n.22, 1987, p.163-170.
27. MONTES, Maria Lúcia. Memória e patrimônio imaterial. In: MIRANDA, Danilo Santos de (Org.). Memória e cultura: a importância da memória na formação cultural humana. São Paulo: SESCSP, 2007, p.127-135.
28. MÜLLER, Suzana P. M. Biblioteca e sociedade: evolução da interpretação das funções e papéis da biblioteca. R. Esc. Bibliotecon. UFMG. Belo Horizonte, 13(1): 7-54, mar. 1984.
29. NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Proj. História, São Paulo, (10), dez. 1993, p.7-28.
30. NORA, Pierre. L’ére de la commémoration. In: NORA, Pierre. (Dir). Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1997, p.4687-4719. (T.3 ; Les Frence).
31. POULOT, Dominique. História do patrimônio no Ocidente. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.
32. PROST, Antoine. Les monuments aux morts: culte républicain? Culte civique? Culte patriotique? In: NORA, Pierre. (Dir). Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1997, p.199-223. (T.1 ; La République).
33. RASMUSSEN, Susan. The uses of memory. Culture & Psychology, v.8(1), p.113-129, 2002.
34. SANT´ANNA, Márcia. A face imaterial do patrimônio cultural: os novos instrumentos de reconhecimento e valorização. In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (Orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. 2. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2009, p.49-58.
35. SANT´ANNA, Márcia. Patrimônio imaterial e políticas públicas. In: MIRANDA, Danilo Santos de (Org.). Memória e cultura: a importância da memória na formação cultural humana. São Paulo: SESCSP, 2007, p.136-145.
36. SCHWARCZ, Lilia Moritz; AZEVEDO, Paulo César de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
37. SERRAI, Alfredo. História da biblioteca como evolução de uma idéia e de um sistema. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, 4(2) : 141-161, set. 1975.
38. SILVEIRA, Fabrício José Nascimento da. Biblioteca como lugar de práticas culturais: uma discussão a partir dos currículos de Biblioteconomia no Brasil. 2007. 246f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2007.
39. UNESCO. Manifesto da UNESCO sobre bibliotecas públicas. Novembro, 1994.
40. VERNANT, Jean-Piere. A travessia das fronteiras: entre mito e política II. São Paulo: EDUSP, 2009a.
41. VERNANT, Jean-Piere. Entre mito e política. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2009b.
42. VERNANT, Jean-Piere. Mito e pensamento entre os gregos: estudo de psicologia histórica. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
43. YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

 

Sobre o autor / About the Author:

 1) Fabrício José Nascimento da Silveira

 

fabrisilveira@gmail.com

1) Doutorando em Ciência da Informação pelo PPGCI/UFMG. Mestre em Ciência da Informação pelo PPGCI/UFMG.